DINÂMICA HIDROGRÁFICA DA BACIA DO RIO ITÁ, PARÁ

HIDROGRAPHIC DYNAMICS OF  ITÁ RIVER BASIN, PARÁ

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ma10202601100835


Gabriel Brasilino de Araújo1
Gabriel Garreto dos Santos2
João Paulo Ferreira Neris3
Wagner Luís Gonçalves da Silva4


Resumo

O uso e ocupação do solo de forma inapropriada em bacias hidrográficas é uma das principais causas que agravam o processo de degradação ambiental. Diante desses aspectos, o objetivo deste trabalho foi avaliar a dinâmica espacial e temporal do uso e ocupação do solo na bacia hidrográfica do rio Itá, situada na região do nordeste paraense, entre os anos de 1989, 2004 e 2019. Como metodologia foram utilizadas imagens de satélites do sensor Landsat-5 e Landsat-8, dos anos de 1989, 2004 e 2019, as duas primeiras do mês de julho e a última referente ao mês de agosto. Foram aplicadas técnicas computacionais de geoprocessamento, como combinações coloridas falsa cor e classificação supervisionada empregando o algoritmo de máxima verossimilhança (MAXVER), no software QGIS 3.26.0. Nesse processo foram definidas cinco classes temáticas de ocupação do solo sendo elas: água, área agrícola, floresta primária, floresta secundária e solo exposto. Dos resultados Verificou-se que após o mapeamento da dinâmica do uso e ocupação do solo na bacia, demonstrou que ocorreram transformações de sua cobertura, destacando-se o crescimento de 7,31% das áreas agrícola, 7,9% de vegetação primária e 0,7% da classe água existente na bacia no período avaliado. Observou-se uma perda de 15,06% da área de vegetação secundária entre 1989 e 2019, resultando em uma redução de 18.290 km2 de área desse tipo de vegetação. Enquanto que às áreas antropizadas como atividades agrícolas se expandiram 7,32%, e solo exposto 0,9% respectivamente. Por fim, destaca-se que o emprego de ferramentas denominadas geotecnologias como sendo fundamentais para avaliação das modificações ambientais e sobretudo para a gestão e monitoramento desses espaços passíveis de conservação contribuindo na conservação dos recursos naturais. 

Palavras-Chave: Degradação ambiental, geoprocessamento, recursos hídricos.

Abstract 

The inappropriate use and occupation of land in watersheds is one of the main causes that contribute/aggravate the process of environmental degradation. Given these aspects, the objective of this work was to evaluate the spatial and temporal dynamics of land use and occupation in the watershed of the Itá River, located in the northeastern region of Pará, between the years 1989, 2004 and 2019. As methodology, satellite images of the Landsat-5 and Landsat-8 sensors from the years 1989, 2004 and 2019 were used, the first two for the month of July and the last one for the month of August. Geoprocessing computational techniques were applied, such as false-color color combinations and supervised classification employing the maximum likelihood algorithm (MAXVER), in QGIS 3.26.0 software. In this process five thematic classes of land occupation were defined, namely: water, agricultural area, primary forest, secondary forest, and exposed soil. From the results it was found that the mapping of the dynamics of land use and occupation in the basin showed that there were transformations of its coverage, highlighting the growth of 7.31% of agricultural areas, 7.9% of primary vegetation and 0.7% of the water class existing in the basin during the period evaluated. A loss of 15.06% of the secondary vegetation area was observed between 1989 and 2019, resulting in a reduction of 18,290 km2 of area of this type of vegetation. While the areas anthropized as agricultural activities expanded 7.32%, and exposed soil 0.9% respectively. Finally, it is highlighted that the use of tools called geotechnologies as being fundamental for the evaluation of environmental changes and especially for the management and monitoring of these spaces amenable to conservation contributing to the conservation of natural resources. 

Keywords: Environmental degradation, geoprocessing, water resources.

1. Introdução

O constante crescimento populacional tem feito os núcleos urbanos se expandirem de forma acelerada, sem qualquer tipo de planejamento. Tal processo está relacionado a fatores econômicos, e isso tem exigido uma maior demanda por recursos naturais contribuindo com o avanço da degradação ambiental. Este cenário é reflexo do processo de ocupação desordenada das terras, onde historicamente os espaços em proximidades aos corpos hídricos têm sido explorados nas atividades socioeconômicas favorecendo a formação de povoamentos em função da disponibilidade e proximidades de recursos naturais (QUEIROZ, 2010).

Esse tipo de exploração tem acrescido certamente, em sua maioria relacionado a expansão das atividades agrícolas sobre os diferentes territórios brasileiros, causando fortes impactos ambientais especialmente devido à realização destas ocupações/atividades sem nenhum tipo de planejamento, impactando diretamente no uso de recursos naturais como água, solo e floresta. Tais mudanças alteram o cenário natural e impulsionam a perturbação do equilíbrio dos ecossistemas (WENZE et al., 2020).

Nesse sentido, as formas de uso ocupação urbana que têm sido implementadas pela sociedade nas últimas décadas tem promovido intensos problemas de ordem ambiental. Em relação às bacias hidrográficas o uso do ecossistema solo com finalidades agrícolas, sem a adoção de práticas e de manejos conservacionistas também favorecem a degradação ambiental desses agroecossistemas utilizados na produção de alimentos e consequentemente promove o desgaste dessas terras (FAUSTINO et al., 2014).

Ainda de acordo com o autor citado as bacias hidrográficas podem ser entendidas como uma unidade de gestão territorial importante para os estudos ambientais, pois todos os componentes constituintes sobre o seu espaço como: geologia, geomorfologia, cobertura vegetal, clima e rios estão intimamente integrados (FAUSTINO et al., 2014). Desse modo, a adoção da bacia hidrográfica como unidade de gestão territorial assume tarefa basilar para a manutenção e preservação dos recursos hidrológicos pois as modificações associadas a disponibilidade destes apresentam impactos diretos no meio ambiente e nas formas de ocupação do solo pelas atividades socioeconômicas (MELLO; SILVA, 2013).

Nesse tocante, o planejamento e desenvolvimento de programas direcionados ao delineamento de bacias hidrográficas exige o entendimento e a compreensão das relações que acontecem na paisagem com o meio físico e o estudo claro das evoluções ocorridas do uso do solo (SANTOS; CARDOSO, 2007). Sendo assim, o uso do solo está relacionado aos tipos de atividades desenvolvidas em determinadas áreas, enquanto que a sua ocupação significa a maneira como as edificações humanas se apropriam destas áreas (MARCELLO et al., 2016). 

Segundo Lopes et al. (2015) o uso de solo é o principal elemento a se considerar no âmbito do planejamento de conservação de bacias hidrográficas. Para tanto, o uso de geotecnologias nestas análises das mudanças ocorridas na paisagem são indispensáveis para estas análises do uso e ocupação do solo. Para Matiello et al. (2017), a comunidade científica juntamente com a gestão governamental, consideram a utilização de ferramentas, como sensoriamento remoto e geoprocessamento, o meio mais eficaz de monitorar as alterações do meio ambiente.

Desse modo, o mapeamento do uso e cobertura do solo utilizando os Sistemas de Informações Geográficas (SIG) e sensoriamento remoto (SR) apoiados em técnicas do geoprocessamento tem tido enormes aplicabilidades, especificamente no ramo científico empregado em pesquisas ao avaliar as interações entre o componente humano com os ambientes/espaços onde estão inseridos, de modo a oferecer bases para a compreensão e o gerenciamento da ocupação de determinado local ou região (BASOMMI et al., 2015; MOHANRAJAN et al., 2020).

Estudo realizado por realizado por Santos et al. (2020) que estudando a dinâmica temporal do uso da terra na bacia do rio Marapanim a partir do uso de ferramentas denominadas de geotecnologias verificaram perdas significativas de floresta, formada por remanescentes de floresta nativa, está sendo encontrada em grande parte ao longo da rede de drenagem que compõe a bacia, exercendo a proteção destes mananciais. Essa supressão se dá sobretudo em razão da conversão das áreas de floresta para áreas destinadas a atividades socioeconômicas como da agropecuária e silvicultura, e a presença de pequenas áreas recobertas indicam forte fragmentação florestal.

Outro caso da aplicação dessas ferramentas de análises espaciais encontra-se no estudo realizado por Furtado et al. (2020), estudando as transformações no uso do solo na bacia hidrográfica do rio Murucupi, município de Barcarena utilizando técnicas de geoprocessamento e SR apoiadas em SIG, verificaram nas suas análises realizadas a partir do mapeamento de uso e cobertura da terra e das quantificações das classes utilizadas uma percepção mais detalhada e abrangente nas inúmeras modificações e mudanças perceptíveis acontecidas nos últimos 29 anos no meio físico da bacia.  Ainda de acordo com os resultados do autor citado, a pesquisa comprovou que as dinâmicas do uso e cobertura da terra estão intrinsecamente baseadas na consolidação das áreas urbanas, uma vez que esta área que compõe o núcleo urbano triplicou de tamanho no ano de 2019, restando somente pequenos mosaicos fragmentados de vegetação florestal ao Sul e ao Norte da bacia.

Diante disso, utilizamos ferramentas digitais para as análises ambientais de grande importância no entendimento do território, uso e cobertura do solo do rio Itá, no município de Santa Izabel do Pará, entre os anos de 1989, 2004 e 2019. 

2. Metodologia

2.1 Área de estudo

O município de Santa Izabel do Pará, onde está inserida a bacia do rio Itá, possui área de 717,662 Km², localizando-se na região metropolitana de Belém, entre as coordenadas 01º17’55” de latitude Sul e 48º09’38” de longitude Oeste, tendo como limites: ao Norte, com o município de Santo Antônio do Tauá, ao Sul com o município de Inhangapi, a Leste com os municípios de Castanhal e a Oeste com os municípios de Benevides e Santa Bárbara. Abrange uma área de aproximadamente 717,662 km2 e com uma população estimada de 72.856 habitantes (IBGE, 2021). A bacia hidrográfica do rio Itá, possui área de 107, 98 Km² e está localizada na porção Centro Oeste e Sul do município de Santa Izabel do Pará (Figura 1), este município possui como principal acidente geográfico o Rio Caraparú que nasce no distrito de Americano, com extensão aproximada de 85 km, e deságua no Rio Guamá (limite Sul do município). A bacia Caraparuense se completa com a bacia Itá, objeto deste estudo e com os demais afluentes: Maguari, Mucuiambá e Jundiaí, com uma área aproximada de 380 Km2 (IBGE, 2021). 

Figura 1. Localização da bacia hidrográfica do rio Itá, município de Santa Izabel do Pará, na imagem de satélite Landsat 8 do ano de 2019.

2.2 Base de dados espaciais

Para a realização desta pesquisa utilizou-se de distintas bases de dados, como o limite estadual e municipal coletados no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o limite da bacia hidrográfica do rio Itá, capturado junto ao site da Agência Nacional de Água (ANA). E para a análise da evolução espaço-temporal do uso e cobertura do solo foram adquiridas imagens de média resolução espacial (30m) disponibilizadas pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS, 2022). 

2.3 Procedimentos metodológicos adotados

O processo de mapeamento do uso do solo e da cobertura vegetal apoiou-se por meio do processamento digital de imagem (PDI) dos satélites Landsat-5 sensor TM (Thematic Mapper), datadas de 10 de julho de 1989 e 13 de julho de 2004, e Landsat-8 sensor OLI (Operational Land Imager), datada de 02 de agosto de 2019, referentes à órbita/ponto 223/061, que corresponde à área de estudo. 

Tal escolha justifica-se pela disponibilidade gratuita do acervo das imagens, no site do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS). E por apresentar frequência de passagem do sensor de 16 dias, resolução espacial de 30 metros e separação espectral adequada para oferecer subsídios aos mapeamentos temáticos na área de recursos naturais (EMBRAPA, 2013). 

Inicialmente após o download das imagens foi estruturado um banco de dados geográfico georreferenciado para o armazenamento das informações necessárias. Em seguida foi realizada a reprojeção das bandas das imagens para o sistema de projeção cartográfica Universal Transversa de Mercator (UTM), utilizando o fuso 22S, com Sistema de Referência (SIRGAS 2000) – South American.

Em seguida realizou-se a composição colorida das bandas RGB (5,4,3) para o Landsat-5 sensor TM (Thematic Mapper) para a análise dos anos de 1989 e 2004, a composição colorida (6,5,4) para o Landsat-8 sensor OLI (Operational Land Imager) para a análise do ano de 2019, em sequência elaboração do mosaico. Finalizado esse processo de construção dos mosaicos, através da ferramenta mesclar imagens no software QGIS, foi feito o recorte dessas imagens utilizando como extensão a camada vetorial do limite da bacia do rio Itá, seguido de uma classificação supervisionada.

Esse método de classificação adota o processo de classificação pixel a pixel que consiste em treinar o algoritmo para poder distinguir os diferentes tipos de classes de uso do solo, em função do comportamento espectral dos alvos. Este treinamento supervisionado é controlado de modo contíguo pelo analista. Onde este escolhe pequenas áreas de amostras contidas na imagem, contendo poucas centenas de pixels que sejam bem representativos espectralmente, de padrões dos alvos por ele reconhecidos, ou que podem ser identificados com a ajuda de outras fontes, a exemplo de dados   coletados   em   campo (MENEZES; ALMEIDA, 2012). 

Ainda sobre a classificação do uso do solo e da cobertura vegetal, esta foi feita a partir do complemento Dzetsaka Classification tool, disponível no próprio programa, o QGIS que, para determinar as devidas classes de ocupações, utiliza o modelo de Mistura Gaussiana (FAUVEL et al., 2015). E, a partir dessa classificação supervisionada, foi realizado o cálculo das áreas ocupadas por cada categoria de uso. Silva et al. (2020), aponta que esse método de classificação de imagens apresenta como principais características favoráveis a praticidade e eficácia aliadas à um excelente produto final de classificação. 

Nesta etapa de classificação foram feitas a identificação de 6 Classes a saber: (1) água, (2) áreas de agricultura, (3) floresta primária, (4) floresta secundária e (5) solo exposto. Deste modo, o mapeamento do uso do solo e cobertura vegetal foi realizado especificamente por meio da aplicação de ferramentas do geoprocessamento e técnicas do sensoriamento remoto integradas em ambiente SIG, apoiando-se no processo de extração de informações contidas nas imagens de satélite e classificados em 6 categorias. 

A escolha dessas categorias citadas se firmou por ser as mais abundantes na área em estudo. Após o processo de classificação supervisionada, foram elaboradas três cartas temáticas para a visualização dos resultados das classes identificadas, nos três diferentes intervalos no estudo 1989, 2004 e 2019. O software utilizado neste trabalho, desde a construção do banco de dados até a fase final para a representação dos resultados, foi o QGIS versão 3.26.0

3. Resultados/Discussões

A dinâmica de cobertura e uso do solo ocorrida ao longo de 30 anos (1989-2019) na bacia hidrográfica do rio Itá, situada no município de Santa Izabel do Pará, é apresentada na figura 2 e sumarizada no gráfico 1. Por meio da metodologia adotada neste trabalho, foi possível analisar a variação das classes estudadas de uso e cobertura de solo.

Figura 2. Uso e ocupação do solo da bacia hidrográfica do rio Itá, nos anos de 1989, 2004 e 2019.

Fonte: Autores, 2022.

Figura 3. Evolução das classes agrupadas de uso e ocupação nos anos de 1989, 2004 e 2019.

Fonte: Autores, 2022

Dos resultados identificou-se que no ano de 1989 a floresta secundária ocupava 52.014 km², equivalente a 46,23% da área total da bacia. Essa classe é predominante em todos os períodos estudados, e encontra-se distribuída ao longo de toda a bacia. De acordo com Silva (2015), às florestas secundárias são áreas/espaços que já sofreram com ações antrópicas em seu ecossistema natural a exemplo de sucessivos cultivos agrícolas, e após pousio, passam por processo natural de regeneração e começam a se restabelecer espécies vegetais (árvores/arbustos).

Nesse período a floresta primária ocupava 22.995 km² o equivalente a 21,25% de toda extensão territorial da bacia estuda. Segundo Pequeno (2015), a floresta primária é aquela vegetação com pouca ou quase nenhuma alteração movida pelas ações antrópicas onde há maior equilíbrio e de diversidade entre espécies arbóreas, arbustivas e animais. Na bacia do rio Itá, encontra-se distribuída principalmente como mata ciliar, no rio e seus afluentes.

As áreas agrícolas em 1989 ocupavam 1.550 km², equivalente a 4,79% da área total nesse período. Essa classe é estabelecida a partir de processo de antropização, para uso da terra em atividades como: Pastagens, culturas agrícolas, favorecidas sobretudo pela inexistência de políticas públicas voltadas ao controle da exploração predatória da diversidade biológica sobretudo na Amazônia (DO ROSÁRIO, 2021). Essa classe apresenta variações mais expressivas dentre as analisadas no trabalho.

Quando analisadas a distribuição da classe de solo exposto no uso e ocupação da área em 1989, observa-se predominância significativa sendo o maior valor percentual na cobertura do solo (24,43%) para o ano de 1989 possivelmente pelo crescimento da urbanização assim como constatado em estudos por (DIAS, 2015) em estudos de uso e ocupação de solo na Amazônia. Pode-se notar o aumento no decorrer dos anos nessa classe à medida em que há diminuição da floresta secundária, expressando a ré exploração dessas áreas por cultivos agrícolas na formação de pastagens ou roçados (CORDEIRO, 2017).

Em 2004 constata-se ocupação de 43.355 km², correspondente a 40,07% de floresta secundária, demonstrando decréscimo em relação ao primeiro ano analisado e segue a mesma dinâmica até 2019 com 31,17% na cobertura do solo, diminuição de 15,06% durante os 30 anos. O oposto ocorre nas áreas de agricultura, com cobertura de 7,53% e 12,10% nos anos de 2004 e 2019 respectivamente, em acordo com (CORDEIRO, 2017).

De maneira geral, a área de solo exposto sofre pouca variação ao longo do período. Observa-se um aumento de 4,35% nos primeiros 15 anos e, posteriormente, decréscimo de 3,44%. Essa oscilação no primeiro período pode ser compreendida pela diminuição da área de floresta secundária e exploração agrícola, nos últimos quinze anos há uma compensação pelo aumento da cobertura vegetal de floresta primária.

A variação na composição hídrica foi pouco expressiva, de 1.550 km² para 2.306 km² aumentando em 0,7% nos 30 anos observados. Essa variação pode estar relacionada a expansão de floresta primária nesse período auxiliando na recomposição da cobertura vegetal ou mata ciliar, fenômeno recorrente, segundo Nogueira (2016), nas margens dos afluentes, seja para exploração agrícola ou construções, nesse estudo são observados no mapa de classificação do uso e ocupação do solo na parte sudoeste da bacia hidrográfica. E essa dinâmica também pode ser acompanhada no gráfico 1.  

De modo geral, é possível inferir a partir dos dados, a intensificação das atividades antropogênicas no meio físico da bacia, nesse recorte espaço-temporal. Onde é claramente observado que a vegetação secundária foi suprimida dando lugar a cultivos agrícolas, possivelmente precedidos por práticas de preparo como desmatamento e queimadas. Nesse contexto, problemas ambientais são iminentes ao longo da bacia do rio Itá, podendo desencadear processos de erosão, assoreamento de acordo com Souza (2016), dentre outros. 

Este processo de retirada da cobertura vegetal, alteração predominante no âmbito desse estudo desencadeiam diversas alterações biológicas, inicialmente na flora e consequentemente na fauna, e como consequência leva a processos erosivos de assoreamento das bacias dos rios resultando em uma série de impactos ambientais sem precedentes para essas áreas que prioritariamente deveriam ser mais protegidas (DOS SANTOS, 2021; COELHO, 2016).

Não obstante as áreas de bacias hidrográficas, são naturalmente declivosas, essa característica favorece, após a retirada da cobertura vegetal, processos de lixiviação (escoamento superficial), formação de ravinas, e voçorocas levando a degradação irreversível do solo (LEITE, 2013; VIEIRA, 2015). Diante o exposto constata-se que o desmatamento é o ponto principal a ser atenuado na degradação do solo na bacia hidrográfica estudada.

Diante o exposto pode-se afirmar que a bacia do rio Itá, carece de monitoramento e implementação de ações para manejo e uso sustentável do solo para frear o desmatamento e os danos decorrentes dessa prática. Não obstante, a análise de uso e cobertura do solo por meio de ferramentas de geotecnologias apresenta-se como método relevante na implementação de tais medidas por órgãos competentes municipais, haja vista possibilitar o planejamento por meio da análise clara das variações no uso e ocupação do solo em escala temporal.

4. Considerações Finais

O estudo possibilitou a elaboração e entendimento da variação espacial e temporal do uso e cobertura do solo na bacia hidrográfica do rio Itá, entre os anos 1989 e 2019, bem como, analisar as modificações observadas a fim de propor medidas mitigadoras dos impactos ambientais e de uso sustentável dos recursos naturais.

Constatou-se as alterações no uso do solo predominando a modificação por cultivos agrícolas, precedidos de desmatamentos e/ou queimadas. Tais práticas são extremamente nocivas ao meio ambiente e comprometem a preservação dos corpos hídricos, haja vista os impactos decorrentes do desmatamento.

Assim, a metodologia adotada no trabalho apresenta efetividade, pois cumpriu o papel à que se propôs, possibilitou a elaboração dos mapas e gráficos de uso e ocupação da terra, e a análise das transformações ocorridas ao longo de 30 anos. Com isso, as técnicas utilizadas de geoprocessamento e sensoriamento remoto integradas ao SIG apresentam-se como ferramentas indispensáveis para a realização de estudos ambientais como de uso e ocupação do solo.

5. Referências Bibliográficas

BASOMMI, P., GUAN, Q., CHENG, D., 2015. Exploring Land use and Land cover change in the mining areas of Wa East District, Ghana using Satellite Imagery, Open Geosciences 1, 618-626. Disponível: https://doi.org/10.1515/geo-2015-0058. Acesso: 25 jun. 2022.

COELHO, J. R. R. Transporte sedimentar no estuário do rio Lima: avaliação de soluções de minimização do assoreamento na embocadura. Tese de Doutorado 2016.

CORDEIRO, Iracema Maria Castro Coimbra et al. Nordeste Paraense: panorama geral e uso sustentável das florestas secundárias. 2017.

DIAS, Rafael Henrique Serafim et al. Influência do uso e ocupação do solo no escoamento superficial na cidade de Ji-Paraná-RO, Amazônia Ocidental. Revista Brasileira de Geografia Física, v. 8, n. 05, p. 1493-1508, 2015.

DO ROSÁRIO, Raimara Reis et al. Uso e ocupação do solo do município de novo progresso no Estado do Pará-Brasil. Research, society and development, v. 10, n. 1, p. e51210112060e51210112060, 2021.

EMBRAPA MONITORAMENTO POR SATÉLITE. Satélites de Monitoramento. Campinas: Embrapa Monitoramento por Satélite, 2013. Disponível em: < http://www.sat.cnpm.embrapa.br/>. Acesso em: 5 jun. 2022.

FAUSTINO, A.B.; RAMOS, F.F.; SILVA, S.M.P. Dinâmica temporal do uso e cobertura do solo na Bacia Hidrográfica do Rio Doce (RN) com base em Sensoriamento Remoto e SIG: uma contribuição aos estudos ambientais. Revista Sociedade e Território, v. 26, n. 2, p. 18- 30, 2014.

FAUVEL, Mathieu; DECHESNE, Clemente; ZULLO, Anthony; FERRATY, Frederic. Fast forward feature selection of hyperspectral images for classification with Gaussian mixture models. IEEE Journal of Selected Topics in Applied Earth Observations and Remote Sensing, Pavia/Itália, v. 8, n. 6, p. 2824-2831, 2015.

FURTADO, L. G. et al. Transformações do uso e cobertura da terra na bacia hidrográfica do rio Murucupi, Barcarena, Pará. Revista Brasileira de Geografia Física, v. 13, n. 05, p. 2340-2354, 2020.

IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2019) Santa Izabel do Pará. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/pa/santa-izabel-do-para/panorama. Acesso em: 21 jun. 2022. 

LEITE, Marcos Esdras; FERREIRA, Maykon Fredson Freitas. Análise espaço-temporal do uso da terra na Bacia Hidrográfica do Rio Tabuas, Norte de Minas Gerais, com aplicação das geotecnologias. Revista Brasileira de Geografia Física, v. 6, n. 02, p. 184-194, 2013.

LOPES, B. O.; BOSÍSIO, D.; MERIQUE, F. G. A.; BIANCHINI, G. M.; MATSUTANE, T. Y. N. et al. Uso e ocupação do solo urbano – Jardim das Rosas – Presidente Prudente/SP. Colloquium Humanarum, v. 12, n. Especial, p. 392-398, 2015.

MARCELLO, T.; TAVEIRA, A. do V. A.; CROTTI, P. C. Zoneamento municipal como instrumento regularizador do uso e ocupação do solo: uma análise da legislação municipal de Francisco Beltrão. Gestão e Desenvolvimento em Pesquisa, v. 2, n. 1, p. 41-55, 2016.

MATIELLO, S. et al. O uso do geoprocessamento para delimitação e análise das Áreas de Preservação Permanente de um córrego em Nova Mutum Paraná-RO. Revista Presença Geográfica, v. 4, n. 1, p. 40-50, 2017.

MELLO, C. R.; SILVA, A. M. Hidrologia: princípios e aplicações em sistemas agrícolas. 1.ed. Lavras: Editora UFLA, 2013. 455p.

MENEZES P.R., ALMEIDA T. 2012. Introdução ao Processamento de Imagens de Sensoriamento Remoto. Brasília, UNB/CNPQ,276p. MohanRajan, S.N., Loganathan, A., Manoharan, P., 2020. Survey on Land Use/Land Cover
(LU/LC) change analysis in remote sensing and GIS environment: Techniques and Challenges. Environmental Science and Pollution Research 27, 29900–29926. Disponível: https://doi.org/10.1007/s11356-020-09091-7. Acesso em: 20 jun. 2022.

NOGUEIRA, L. A. D. S. et al. Impacto de construções rurais na comunidade arbórea de mata ciliar no arco do desmatamento da Amazônia. 2016.

PEQUENO, M. V. Estrutura e composição de sistema agroflorestal e floresta secundária e primária em Senador Guimard-AC. 2015.

QUEIROZ, P.H.B. de. Planejamento ambiental aplicado a um setor do médio curso da bacia hidrográfica do rio Pacoti-CE. Fortaleza, 2010. 208 p. Dissertação. (Mestrado em Geografia) – Universidade Federal do Ceará, UFC.

ROSA, E.P., TRENTIN, R., DIAS, D.F., SANTOS, V.S., 2017. Mapeamento do uso e ocupação da terra no município de Jaguari-RS, in: Perez Filho, A., Amorim, R.R. (Org.), Os Desafios da Geografia Física na Fronteira do Conhecimento, Os Desafios da Geografia Física na Fronteira do Conhecimento, 1: 6890-6894.

SANTOS, A. F; CARDOSO, L. G. (2007). Evolução do uso da terra, da microbacia do Ribeirão Faxinal, Botucatu-SP, através de fotografias aéreas. Anais do XIII Simpósio Brasileiro de Sensoriamento Remoto, Florianópolis, Brasil, 13.

SANTOS, Humberto Gonçalves; JACOMINE, Paulo Klinger Tito; ANJOS, Lúcia Helena Cunha; OLIVEIRA, Virlei Álvaro; LUMBRERAS, Jose Francisco; COELHO, Mauricio Rizzato; CUNHA; ALMEIDA, Jaime Antônio; FILHO, Jose Coelho de Araújo; OLIVEIRA, João Bertoldo; CUNHA, Tony Jarbas Ferreira. Sistema Brasileiro de Classificação de Solos. Brasília, DF: Embrapa, 2018.

SILVA, M. M; OLIVEIRA, F. A; SANTANA, A. C. Mudanças na dinâmica de uso das florestas secundárias em Altamira, Estado do Pará, Brasil. Revista de Ciências Agrárias Amazonian Journal of Agricultural and Environmental Sciences, v. 58, n. 2, p. 176-183, 2015.

SOUZA, P. A. et al. Metodologias de avaliação de impactos ambientais da APP, Rancho Tutty Falcão Gurupi-TO. Enciclopédia Biosfera, v. 13, n. 24, 2016.

VIEIRA, C. L; VERDUM, R. Arenização e erosão hídrica no Sudoeste do Rio Grande do Sul: análise dos agentes condicionantes e considerações básicas para intervenções mecânicovegetativas. Revista de geografia. UFPE/DCG-NAPA, Recife. Vol. 32, n. 1, (2015), p. 41-65, 2015.

WENZEL, D. A. et al. Dinâmica da cobertura do solo em três bacias hidrográficas da região amazônica do estado de Mato Grosso, Brasil. Research, Society and Development, v. 9, n. 10, p. e3919108613-e3919108613, 2020.


1Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará (IFPA) Campus Castanhal / gabrielaraujoagron@gmail.com
2Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará (IFPA) Campus Castanhal / gabrielgarretosan1@gmail.com
3Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará (IFPA) Campus Castanhal / paulonerisfer1@gmail.com
4Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará (IFPA) Campus Castanhal / wagner.goncalves@ifpa.edu.br

Área Temática: Meio ambiente, Recursos Florestais e Recursos Pesqueiros