HTLV DIAGNOSIS IN PREGNANT WOMEN: EVALUATION OF METHODS AND IMPACTS ON MATERNAL-FETAL HEALTH
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/pa10202511220808
Eduardo Inácio Klein1
Ivo John Neto2
Kevin Wallace Martins Parente3
Rodrigo Simões Paiva4
Deusilene Souza Vieira Dall’Acqua5
RESUMO:
O vírus linfotrópico de células T humanas (HTLV) é um retrovírus com potencial de transmissão vertical, sendo um relevante problema de saúde pública. O diagnóstico precoce em gestantes é fundamental para prevenir a infecção do recém-nascido e reduzir complicações associadas. Este estudo tem como objetivo analisar os métodos diagnósticos utilizados na triagem de gestantes e os impactos na saúde materno-fetal. O ensaio imunoenzimático (ELISA) é o principal método de rastreamento, enquanto o Western Blot e o PCR são empregados para confirmação. A detecção precoce permite o acompanhamento clínico adequado e a adoção de medidas preventivas, como a suspensão da amamentação, diminuindo o risco de transmissão. No entanto, a ausência de testagem universal e a escassez de políticas públicas direcionadas dificultam o controle efetivo da infecção. Conclui-se que a ampliação do diagnóstico durante o pré-natal e a capacitação dos profissionais de saúde são estratégias essenciais para o fortalecimento da vigilância epidemiológica e para a promoção da saúde do binômio mãe-filho.
Palavras-chave: HTLV; gestação; diagnóstico; transmissão vertical; saúde materno-fetal.
ABSTRACT:
The human T-cell lymphotropic virus (HTLV) is a retrovirus capable of vertical transmission, representing a significant public health issue. Early diagnosis in pregnant women is essential to prevent neonatal infection and reduce related complications. This study aims to analyze diagnostic methods used in prenatal screening and their impact on maternal-fetal health. The enzyme-linked immunosorbent assay (ELISA) is the main screening method, while Western Blot and PCR are used for confirmation. Early detection enables adequate clinical follow-up and preventive measures, such as breastfeeding avoidance, reducing transmission risk. However, the lack of universal screening and limited public health policies hinder effective infection control. It is concluded that expanding prenatal diagnosis and strengthening healthcare professional training are essential strategies to improve epidemiological surveillance and promote the health of the mother-child binomial.
Keywords: HTLV; pregnancy; diagnosis; vertical transmission; maternal-fetal health.
1 INTRODUÇÃO
O Vírus Linfotrópico de Células T Humanas (HTLV) é um retrovírus pertencente à família Retroviridae, descoberto em 1979, com os primeiros relatos publicados em 1980. Atualmente, é classificado em quatro tipos: HTLV-1, HTLV-2, HTLV-3 e HTLV-4, sendo os dois primeiros os mais estudados e clinicamente relevantes (Martinez; Al-Saleem; Green, 2019).
Embora a maioria dos indivíduos infectados permaneça assintomática ao longo da vida, o HTLV-1 está associado a doenças graves como a leucemia/linfoma de células T do adulto (ATLL) e a mielopatia associada ao HTLV-1/paraparesia espástica tropical (HAM/TSP), condições que impactam de forma significativa a morbimortalidade dos pacientes (Bryan; Tadi, 2023). Estima-se que cerca de 90% dos portadores não desenvolvam sintomas clínicos relevantes, porém entre 5% e 10% evoluem com manifestações severas, como as mencionadas anteriormente (Santana et al., 2020).
As formas de transmissão do vírus incluem contato sexual desprotegido, transfusões sanguíneas, compartilhamento de seringas e transmissão vertical, que ocorre de mãe para filho. Nesse último caso, a amamentação representa o principal fator de risco, já que a carga proviral no leite materno e a duração do aleitamento estão diretamente relacionadas à probabilidade de infecção da criança (Martinez; Al-Saleem; Green, 2019).
A distribuição do HTLV apresenta caráter desigual em nível global. Áreas de alta endemicidade incluem o sudoeste do Japão, a África subsaariana, a América do Sul, o Caribe e algumas regiões do Oriente Médio e da Austrália-Melanésia (Gessain; Cassar, 2012). No Brasil, a prevalência varia de 0,01% a 1,35% na população geral, com maior concentração de casos no Nordeste e no Norte do país. Entre gestantes, estudos apontam taxas mais elevadas de infecção pelo HTLV-1 em comparação ao HTLV-2, reforçando a necessidade de vigilância epidemiológica nesse grupo (Vieira et al., 2021).
A infecção pelo HTLV em gestantes tem importância clínica e social particular, pois além dos riscos maternos, há a possibilidade de transmissão vertical, perpetuando o ciclo de infecção e expondo recém-nascidos ao risco de desenvolver complicações futuras. Nesse sentido, o diagnóstico precoce é fundamental, permitindo medidas preventivas, como a substituição do aleitamento materno, e orientações adequadas no pré-natal (Rosadas et al., 2021).
No Brasil, até 2023, não havia uma política nacional consolidada de rastreamento do HTLV em gestantes, o que representava uma lacuna significativa no controle da infecção. Esse cenário começou a se modificar em 2024, com a publicação da Portaria SECTICS/MS nº 13, de 3 de abril de 2024, que incorporou o exame para detecção pré-natal do HTLV-1/2 no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). Essa medida representa um marco para a saúde pública brasileira, pois amplia a possibilidade de diagnóstico precoce e prevenção da transmissão vertical, além de oferecer dados epidemiológicos mais robustos sobre a real prevalência da infecção no país (Brasil, 2024).
Diante do exposto, o estudo do diagnóstico do HTLV em gestantes se mostra essencial para compreender a magnitude do problema, avaliar a eficácia dos métodos diagnósticos disponíveis e analisar os impactos dessa medida na saúde materno-fetal. A presente pesquisa busca contribuir para esse debate, destacando a importância da triagem pré-natal e discutindo os desafios e perspectivas frente à nova realidade da saúde pública brasileira.
1.1 REFERENCIAL TEÓRICO
1.1.1 Métodos Diagnósticos para HTLV em Gestantes: Uma Análise Comparativa
Segundo Emerick et al. (2025), a detecção precoce da infecção pelo HTLV durante a gravidez é essencial, visto que sua identificação precisa possibilita o manejo clínico adequado da paciente infectada e a implementação de medidas e orientações preventivas durante a gestação e o puerpério, com intuito de reduzir o risco de transmissão vertical. A triagem pré natal do HTLV já é reconhecida e apoiada por muitos estudos científicos, no Japão já é uma política nacional desde 2010, enquanto no Brasil foi implementada apenas em 2024, no entanto, os desafios logísticos e infra estruturais continuam sendo uma barreira para a padronização nacional. Em muitas áreas, os testes confirmatórios estão indisponíveis, e a falta de testes rápidos confiáveis atrapalha o diagnóstico precoce em regiões remotas
A infecção pelo HTLV em grande parte dos casos é assintomática e só identificada através das testagens sorológicas, portanto, o rastreio em pacientes gestantes é de suma importância devido à ausência dos sintomas. Na triagem, os testes mais utilizados para o rastreio do HTLV incluem o ensaio imunoenzimático (ELISA), quimioluminescência (CLIA) e a aglutinação em micropartículas de látex, onde possuem elevada sensibilidade, chegando a aproximadamente > 95%. Todavia, esses métodos de rastreio podem vir a apresentar reações cruzadas, o que aumenta a probabilidade de resultados falso-positivos, principalmente em pacientes com hepatites virais ou HIV. (Eusébio-Ponce et al., 2019).
Com a presença de resultado falso-positivo em algum exame de triagem, é recomendado a confirmação através de outros exames como o Western Blot (WB) ou o INNOLIA, que possuem uma maior especificidade, pois esses teste detectam a presença de anticorpos específicos das proteínas virais do HTLV (p19, p24, p53 e gp46), levando a uma maior confiabilidade no momento do diagnóstico (Martinez; Al-Saleem; Green, 2019). Em pacientes gestantes, o rastreio através dos testes de triagem seguidos por confirmatórios é o meio mais adequado, pois pode ajudar a evitar condutas equivocadas, especialmente sobre o aleitamento materno (Bryan; Tadi, 2023).
Ainda assim, há a possibilidade de casos inconclusivos, onde é indicado confirmar pela detecção molecular por reação em cadeia da polimerase (PCR), já que identifica diretamente o DNA proviral integrado às células hospedeiras e permite diferenciar entre HTLV-1 e HTLV 2 (Rosadas et al., 2021). Todavia, apesar de possuir uma alta acurácia no diagnóstico, o PCR demanda um alto custo e necessidade de infraestrutura laboratorial avançada, o que o torna restrito à muitas unidades de serviço do SUS.
Quadro 01: Comparativo entre métodos diagnósticos.

Fonte: Adaptado de Eusébio-Ponce et al. (2019); (Martinez; Al-Saleem; Green, 2019); Rosadas et al. (2021)
Para avaliação fetal, a ultrassonografia obstétrica é crucial para o acompanhamento rotineiro da gravidez, porém não há parâmetros morfológicos que indiquem a infecção pelo HTLV ou que prevejam a transmissão vertical. Atualmente até o momento, não há evidências que sejam consistentes na literatura científica sobre achados ultrassonográficos específicos durante o pré-natal, todavia, há estudos recentes que investigam o uso de multi-epítopos (proteínas recombinantes) para diagnóstico sorológico, podendo representar um futuro avanço na triagem pré-natal (EMERICK et al. 2025).
1.1.2 Prevalência do HTLV em Gestantes no Brasil: Dados e Fatores de Risco
No Brasil, a prevalência do HTLV varia conforme a região geográfica, chegando a estar associada às desigualdades sociais e epidemiológicas. Estimativas indicam uma taxa de soropositividade entre 0,01% e 1,35% na população geral. Levando em consideração as pacientes gestantes, nota-se que a prevalências tende a ser maior no Nordeste que é considerado área endêmica com destaque para Salvador (BA), onde foi relatado taxas acima de 1% (Gessain; Cassar, 2012). Já a região Centro-Oeste sugere uma heterogeneidade regional, apresentando índices inferiores a 0,1%. Segundo Sánchez-Núñez et al. (2024) foi revelado a partir de uma meta-análise a prevalência de infecção por HTLV-1/2 de 1,30% em gestantes na América Central, do SUl e caribe. já no Brasil, segundo a meta-análise de Vieira et al. (2021) indicou uma prevalências de 0,32% de HTLV-1 em gestantes brasileiras.

Fonte: adaptado de (Gessain; Cassar, 2012); Juan-Pablo Sánchez-Nuñez et al. (2024); Vieira et al. (2021)
Diversos fatores de risco estão associados à infecção. Historicamente, a transfusão sanguínea anterior à implementação da triagem obrigatória para HTLV em 1993 foi um importante mecanismo de transmissão. Atualmente, o risco está mais associado ao comportamento sexual (múltiplos parceiros, ausência de preservativo), ao uso de drogas injetáveis e à coinfecção com outras ISTs, como HIV e sífilis (Rosadas et al., 2021).
Além dos fatores individuais, determinantes sociais como baixa escolaridade, condições de moradia precárias e acesso restrito a serviços de saúde influenciam significativamente a vulnerabilidade das gestantes (Miranda et al., 2022). Assim, o perfil epidemiológico do HTLV em gestantes no Brasil revela uma íntima relação entre desigualdades sociais e a manutenção da transmissão do vírus.
1.1.3 Impactos materno-fetais da infecção por HTLV
A infecção ocasionada pelo Vírus Linfotrópico de Células T Humanas (HTLV), particularmente o subtipo 1, estabelece-se como um proeminente problema de saúde pública, com significativas repercussões no período gestacional e puerperal. A principal inquietação reside na probabilidade de transmissão vertical, que constitui a via primordial de perpetuação do agente viral entre gerações, manifestando-se predominantemente por intermédio da lactação materna. Contudo, evidências recentes sugerem que o HTLV-1 pode estar associado a uma gama diversificada de desfechos gravídicos desfavoráveis, mesmo na ausência de contágio direto ao concepto.
Diversas investigações têm reportado que gestantes soropositivas para o HTLV-1 exibem uma maior incidência de intercorrências obstétricas, abrangendo abortamento espontâneo, restrição do crescimento intrauterino (RCIU), baixo peso ao nascer, parto pré-termo, e até mesmo óbito perinatal e infantil (ROSADAS; TAYLOR, 2019; BARMPAS et al., 2019; FREIRE, 2025). No tocante à perda gestacional espontânea, Dal Fabbro et al. (2008) verificaram que 6,7% das gestações em mulheres afetadas resultaram em aborto, e 26,8% dessas pacientes mencionaram histórico de abortamentos anteriores – proporções que superam aquelas apuradas em pacientes soronegativas. Tais constatações sugerem que a infecção pelo HTLV pode se configurar como um fator de risco adicional durante a gravidez, especialmente em grupos populacionais com vulnerabilidade social. Revisões sistemáticas ratificam essa tendência, embora a estrita relação causal ainda demande completa elucidação (ROSADAS; TAYLOR, 2019).
Em relação à restrição do crescimento fetal e ao baixo peso ao nascer, Barmpas et al. (2019) detalharam ocorrências de RCIU e, inclusive, de óbito intra uterino em gestantes soropositivas. Complementarmente, Freire (2025) registrou que recém-nascidos expostos ao HTLV demonstram uma probabilidade aproximadamente triplicada de nascerem com peso inferior a 2,5 kg em comparação com os não expostos, ainda que o dado não tenha alcançado significância estatística. Esses achados corroboram a tese de que a infecção tem o potencial de comprometer a funcionalidade placentária, interferindo na adequada oferta de nutrientes e oxigênio ao feto e, consequentemente, em seu desenvolvimento.
Adicionalmente, existem relatos que relacionam a infecção pelo HTLV ao aumento da ocorrência de nascimentos pré-termo. Pesquisas conduzidas em diferentes regiões endêmicas, incluindo o Brasil e nações africanas, indicam uma prevalência superior de prematuridade e de hospitalizações neonatais entre os filhos de mães infectadas, embora a relevância estatística varie entre as amostras examinadas (ROSADAS; TAYLOR, 2022). A mortalidade perinatal, apesar de menos investigada, foi documentada em observações específicas, como o caso de óbito fetal descrito em uma casuística brasileira (BARMPAS et al., 2019). Do mesmo modo, Freire (2025) demonstrou que as mulheres portadoras do HTLV-1 apresentaram maior índice de gravidez não planejada e indesejada, o que sublinha a necessidade de programas de aconselhamento reprodutivo e reforça a influência dos determinantes sociais na saúde desses indivíduos.
No espectro da transmissão vertical, estima-se que o risco de infecção neonatal oscile entre 15% e 25% na ausência de medidas preventivas, sendo o aleitamento materno o vetor principal do contágio (ROSADAS, 2023). O processo transmissivo ocorre através dos linfócitos infectados presentes no leite materno, e variáveis como alta carga proviral e o prolongamento da amamentação elevam consideravelmente o risco de contágio. Embora a maioria das crianças infectadas permaneça assintomática na infância, a infecção acarreta um risco vitalício para o desenvolvimento de condições clínicas severas, como a Leucemia/Linfoma de Células T do Adulto (ATLL) e a Mielopatia Associada ao HTLV-1/Paraparesia Espástica Tropical (HAM/TSP), cuja incidência é até três vezes maior em mulheres infectadas (EMERICK, 2025).
A interrupção da lactação materna, mediante a substituição por fórmulas infantis, estabelece-se como a principal estratégia profilática contra a transmissão vertical, com capacidade de reduzir o risco infeccioso em aproximadamente 80% (ROSADAS, 2022; ROSADAS, 2023). O reconhecimento do HTLV-1 como uma temática emergente na saúde pública motivou a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) a incluí-lo nas metas de erradicação da transmissão vertical do HIV e das hepatites virais B, enfatizando a relevância da triagem pré-natal universal e de intervenções precoces (FIGUEROA, 2024). Nesse prisma, o Ministério da Saúde do Brasil preconiza a incorporação da sorologia para HTLV no rol de exames de rotina do pré-natal, objetivando a detecção oportuna e a pronta adoção das intervenções preventivas adequadas (SELTICS/MS, 2024).
A despeito da notável heterogeneidade nos dados apresentados pela literatura, há um consenso de que o diagnóstico antecipado e o acompanhamento obstétrico especializado são imperativos para a mitigação dos riscos e o aprimoramento dos desfechos materno-fetais. A exclusão do aleitamento materno permanece como a conduta mais eficaz na prevenção da transmissão vertical, mas o monitoramento clínico estrito da gestante viabiliza a identificação precoce de possíveis complicações e o manejo oportuno de eventuais intercorrências. Desse modo, a articulação entre vigilância epidemiológica, atenção pré-natal e políticas públicas de saúde constitui um elemento essencial para a redução do impacto do HTLV na gravidez e para a proteção da saúde materno-infantil (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2021).
1.1.4 Mecanismos fisiopatológicos e consequências a longo prazo
A infecção pelo vírus linfotrópico de células T humanas tipo 1 (HTLV-1) durante a gestação está associada a uma série de desfechos maternos e fetais adversos, cujos mecanismos fisiopatológicos subjacentes começam a ser elucidados. Embora a transmissão vertical ocorra predominantemente através do aleitamento materno, a infecção da interface materno-fetal e a consequente resposta inflamatória local são cruciais para a ocorrência de complicações como a transmissão transplacentária, parto prematuro, ruptura prematura de membranas e restrição de crescimento intrauterino. A compreensão desses mecanismos é fundamental, pois a perturbação do delicado equilíbrio imunológico da gravidez por uma infecção viral pode quebrar a tolerância materno-fetal e desencadear uma cascata de eventos patológicos (Auriti et al., 2021).
O mecanismo de invasão transplacentária pelo HTLV-1 envolve a infecção direta de células da placenta. Estudos mostraram que o HTLV-1 tem a capacidade de infectar trofoblastos, as células que formam a principal barreira entre a mãe e o feto. A entrada do vírus nessas células é mediada pela proteína sincitina-1, uma proteína de fusão endógena de origem retroviral que é essencial para a formação do sinciciotrofoblasto. A infecção de trofoblastos foi confirmada pela detecção de DNA proviral, RNA viral (HBZ) e proteínas virais (p19) em células trofoblásticas (KRT7-positivas) de placentas de gestantes infectadas (Prates et al., 2025; Tezuka et al., 2020). Uma vez infectados, os trofoblastos podem expressar altos níveis de antígenos virais e promover a infecção de novo de células T, indicando que a placenta pode atuar como um reservatório viral e um local de replicação ativa durante a gestação (Tezuka et al., 2020).

Fonte: Adaptado de Tezuka et al., (2020)
No entanto, a infecção placentária pelo HTLV-1 é frequentemente caracterizada por baixos níveis de DNA e RNA viral, sugerindo um estado de infecção latente ou de baixa replicação, o que poderia explicar a taxa relativamente baixa de transmissão intrauterina em comparação com a amamentação (Prates et al., 2025). Como contraponto, a placenta parece ter um mecanismo de defesa contra a transmissão viral. A infecção pelo HTLV-1 induz um aumento significativo da apoptose (morte celular programada) nas células vilosas placentárias. Especula-se que essa apoptose de células infectadas funcione como uma barreira de defesa, eliminando as células que servem de reservatório para o vírus e, assim, limitando a passagem do HTLV-1 para o feto (Rosadas & Taylor, 2019).
A ocorrência de parto prematuro e ruptura prematura de membranas em gestantes infectadas pelo HTLV-1 é atribuída principalmente à resposta inflamatória desencadeada pela presença do vírus na interface materno-fetal. A infecção viral no compartimento intrauterino é um gatilho conhecido para o parto prematuro. A presença do HTLV-1 na placenta, mesmo em baixa replicação, induz uma resposta imune inata, caracterizada pela produção local de citocinas. Foi observado um aumento significativo nos níveis de interferon-beta (IFN-β) em tecidos placentários de mulheres infectadas (Prates et al., 2025). Essa inflamação crônica, com a liberação de citocinas pró-inflamatórias como IFN-β, IL-1, IL-6 e TNF-α, perturba a homeostase placentária (Pandey, Chauhan & Awasthi, 2017; Prates et al., 2025). Essa cascata inflamatória leva à produção de prostaglandinas e metaloproteinases de matriz (MMPs), como a MMP-9. As prostaglandinas induzem contrações uterinas, enquanto as MMPs degradam o colágeno das membranas fetais (âmnio e córion) e da matriz extracelular da cérvix, levando ao seu enfraquecimento, à ruptura prematura das membranas e ao amadurecimento cervical, culminando no trabalho de parto prematuro (Pandey, Chauhan & Awasthi, 2017).
O baixo peso ao nascer e a restrição de crescimento intrauterino (RCIU) são outras consequências importantes da infecção por HTLV-1, e seus mecanismos também estão centrados na disfunção placentária induzida pela inflamação. O comprometimento placentário é um fator chave na patogênese da RCIU em diversas infecções congênitas. A inflamação crônica na placenta, desencadeada pelo HTLV-1, interfere na diferenciação e na capacidade de invasão dos citotrofoblastos, processos essenciais para a correta remodelação das artérias espiraladas uterinas e o estabelecimento de uma circulação materno-fetal adequada. A infecção pode inibir
o desenvolvimento de novos vilos placentários e levar a alterações histopatológicas como edema e fibrose. Essas alterações resultam em uma insuficiência placentária, com transporte prejudicado de oxigênio e nutrientes para o feto, o que, consequentemente, restringe seu crescimento (Auriti et al., 2021). É importante notar que essa disfunção placentária pode levar à RCIU mesmo na ausência de transmissão do vírus para o feto, indicando que o dano é mediado pela resposta inflamatória local e não necessariamente pela infecção fetal direta (Auriti et al., 2021). O momento da infecção durante a gestação também parece ser crucial; infecções que ocorrem mais precocemente podem levar a desfechos mais graves, como aborto espontâneo, devido a uma disfunção placentária mais severa e precoce (Auriti et al., 2021; Prates et al., 2025).
1.1.5 Impacto do Diagnóstico Precoce na Saúde Materno-Fetal
A detecção precoce da infecção por HTLV em gestantes é um imperativo, pois possibilita intervenções simples e eficazes em todas as fases da transmissão vertical (TV). Embora a transmissão possa ocorrer durante a gestação (via transplacentária) e no momento do parto, o diagnóstico precoce permite a identificação imediata de gestantes com carga proviral elevada, um grupo que apresenta maior risco de transmissão ao bebê e que se beneficia de acompanhamento clínico mais próximo (Nakahata et al., 2023). O acompanhamento obstétrico especializado e o monitoramento clínico estrito da gestante são, portanto, imperativos para a mitigação dos riscos já durante o pré-natal. Contudo, a principal estratégia é direcionada à fase pós-parto, com a suspensão do aleitamento materno, que é o vetor primordial do contágio. A interrupção da lactação materna, através da substituição por fórmulas infantis, estabelece-se como a principal medida profilática, com capacidade de reduzir o risco infeccioso em aproximadamente \bm{80\%} (Santana et al., 2020). Embora não exista tratamento curativo para o HTLV, a vigilância clínica contribui para reduzir complicações, orientar decisões reprodutivas e garantir o seguimento especializado das crianças expostas. O diagnóstico precoce e a intervenção profilática são estratégias alinhadas às recomendações da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e da Organização Mundial da Saúde (OMS) para a eliminação da transmissão materno-infantil do HTLV-1 até 2030.
1.1.6 Consequências a Longo Prazo para Mãe e Criança
A infecção pelo HTLV-1, embora frequentemente assintomática, impõe riscos significativos de morbidade a longo prazo para a mãe. Estima-se que cerca de 5% a 10% dos indivíduos infectados desenvolvam doenças graves, como a Leucemia/Linfoma de Células T do Adulto (ATLL) e a Mielopatia Associada ao HTLV-1/Paraparesia Espástica Tropical (HAM/TSP), que se manifestam após um longo período de latência (EMERICK et al., 2025). O diagnóstico durante a gestação, portanto, não é apenas um evento de saúde materno-fetal, mas o início de um acompanhamento clínico especializado e contínuo para a puérpera, visando a detecção precoce dessas patologias.
Para a mãe, o risco de progressão para HAM/TSP ou ATLL é um fator que exige vigilância clínica por toda a vida. O período pós-parto, em particular, tem sido associado a um possível agravamento de condições neurológicas pré-existentes ou ao surgimento de novos sintomas em mulheres com HTLV-1. Jacquerioz et al. (2024) documentaram casos em que a mielopatia associada ao HTLV-1 (HAM/TSP) progrediu no período pós-parto, sugerindo que as alterações imunológicas e hormonais da gravidez e puerpério podem influenciar a atividade viral e a resposta inflamatória.
No que tange à criança, o principal risco a longo prazo decorre da transmissão vertical não prevenida. Embora a interrupção do aleitamento materno reduz drasticamente a taxa de infecção neonatal (SORIANO; DE MENDOZA, 2024), crianças que se infectam ou que são expostas in utero ou no parto necessitam de um seguimento pediátrico longitudinal rigoroso. A infecção pelo HTLV-1 na infância está ligada a um risco aumentado de desenvolver doenças associadas ao vírus na vida adulta, o que torna o acompanhamento essencial para monitorar a carga proviral e o estado imunológico (EMERICK et al., 2025).
A ausência de vacinas ou terapias antivirais específicas para o HTLV-1 limita as opções de intervenção curativa, reforçando a importância do manejo preventivo e do rastreamento universal (SORIANO; DE MENDOZA, 2024). O acompanhamento pediátrico deve focar na identificação precoce de manifestações clínicas, como a dermatite infecciosa associada ao HTLV-1, e na monitorização de indicadores que possam predizer a progressão para ATLL ou HAM/TSP, embora os marcadores de risco a longo prazo ainda não estejam completamente elucidados.
Em suma, as consequências a longo prazo da infecção por HTLV em gestantes e seus filhos vão além do período perinatal, configurando um problema de saúde pública que demanda a estruturação de serviços de referência para o acompanhamento longitudinal. A vigilância contínua e o acesso a exames de alta complexidade, como a medição da carga proviral, são cruciais para mitigar os riscos e garantir a qualidade de vida tanto para as mães quanto para as crianças expostas ou infectadas (FREIRE et al., 2025).
1.1.7 Percepções dos Profissionais de Saúde e Políticas Públicas
O manejo da infecção por HTLV em gestantes é diretamente influenciado pela percepção e pelo nível de conhecimento dos profissionais de saúde. A literatura aponta que o HTLV é frequentemente classificado como uma doença negligenciada, resultando em uma lacuna de conhecimento que se traduz em insegurança e dificuldade no aconselhamento adequado às gestantes (MALDONADO et al., 2024; RIBEIRO et al., 2024). Essa deficiência é particularmente crítica no que tange à orientação sobre a suspensão do aleitamento materno, que é a intervenção mais eficaz para prevenir a transmissão vertical (EMERICK et al., 2025).
A falta de capacitação adequada dos profissionais de saúde é um desafio que compromete a eficácia das políticas públicas. A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) enfatiza a necessidade de programas de educação continuada para as equipes de saúde, visando aprimorar a capacidade de diagnóstico, manejo clínico e, crucialmente, o aconselhamento humanizado das gestantes (ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE, 2025). Sem essa base de conhecimento sólida, a adesão às recomendações clínicas e a correta interpretação dos resultados de testes de triagem e confirmatórios podem ser comprometidas.
No âmbito das políticas públicas brasileiras, um marco recente e fundamental foi a incorporação do rastreamento pré-natal de HTLV-1/2 no Sistema Único de Saúde (SUS) por meio da Portaria SECTICS/MS nº 13/2024. Essa medida alinha o Brasil com as diretrizes internacionais, como a meta da Organização Mundial da Saúde (OMS) de eliminar a transmissão materno-infantil (TMI) do HTLV-1 até 2030 (SORIANO; DE MENDOZA, 2024). A experiência de países como o Japão, que conseguiu anular a TMI do HTLV-1 com o rastreamento universal, serve como um modelo de sucesso e reforça a relevância da nova política nacional.
Contudo, a efetividade da Portaria SECTICS/MS nº 13/2024 depende da superação de desafios estruturais e logísticos. A universalização do rastreamento exige um investimento significativo na ampliação da capacidade laboratorial para a realização dos testes confirmatórios, como o PCR, que ainda é de acesso restrito em muitas regiões do país (RIBEIRO et al., 2024). Além disso, é imperativo garantir a disponibilidade contínua de insumos diagnósticos e a estruturação de uma rede de serviços de referência para o acompanhamento especializado das gestantes e de seus filhos.
Em síntese, as políticas públicas devem ir além da simples obrigatoriedade do teste. Elas precisam abranger a capacitação contínua dos profissionais de saúde, a garantia de acesso a testes confirmatórios de alta acurácia e a oferta de suporte social e psicológico às gestantes diagnosticadas. A articulação entre a esfera federal, estadual e municipal, conforme preconizado pela OPAS (2025), é essencial para transformar a nova política de rastreamento em uma ferramenta eficaz de prevenção e controle da infecção por HTLV no contexto materno-infantil brasileiro.
A nível global, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estabeleceu como meta a eliminação da transmissão vertical até 2030. Para alcançar esse objetivo, recomenda-se a triagem pré-natal universal, o aconselhamento reprodutivo, a oferta de fórmulas infantis e o monitoramento contínuo das crianças expostas (Rosadas et al., 2021).
2 MATERIAIS E MÉTODOS
A presente pesquisa consiste em uma revisão bibliográfica integrativa, descritiva e de caráter qualitativo, cujo objetivo é reunir, analisar e sintetizar evidências disponíveis na literatura científica acerca do diagnóstico do HTLV em gestantes, com foco nos métodos utilizados, sua eficácia e os impactos na saúde materno-fetal.
2.1 Tipo de Estudo
Optou-se pela revisão integrativa por permitir a inclusão de estudos com diferentes metodologias, ampliando a compreensão sobre o tema e possibilitando a análise crítica dos achados. Trata-se de um método que favorece a identificação de lacunas no conhecimento e a proposição de novas perspectivas de investigação (Whittemore; Knafl, 2005).
2.2 Bases de Dados
O levantamento bibliográfico será realizado em bases de dados indexadas, nacionais e internacionais, reconhecidas pela relevância na área da saúde: PubMed, MEDLINE, SciELO, LILACS e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS). Também serão incluídos documentos oficiais do Ministério da Saúde, como protocolos clínicos, diretrizes terapêuticas e portarias recentes, incluindo a Portaria SECTICS/MS nº 13/2024, que incorporou o rastreamento pré-natal para HTLV no SUS.
2.3 Estratégia de Busca
Serão utilizados descritores padronizados nos idiomas português e inglês, de acordo com o DeCS (Descritores em Ciências da Saúde) e o MeSH (Medical Subject Headings). Entre eles destacam-se:
- “Vírus Linfotrópico Humano de Células T” (Human T-lymphotropic virus)
- “Infecção por HTLV” (HTLV infection)
- “Diagnóstico do HTLV” (HTLV diagnosis)
- “Gestantes” (Pregnant women)
- “Transmissão vertical” (Vertical transmission)
- “Saúde materno-fetal” (Maternal-fetal health)
- “Sorologia” (Serology)
- “Complicações na gravidez” (Pregnancy complications)
A combinação dos descritores será feita com o auxílio dos operadores booleanos “AND” e “OR” para refinar a busca.
2.4 Critérios de Inclusão e Exclusão
- Inclusão: artigos originais, revisões sistemáticas, revisões narrativas, consensos de sociedades médicas e documentos oficiais publicados entre 2005 e 2024, em português e inglês, disponíveis integralmente.
- Exclusão: estudos em duplicidade, publicações não indexadas, resumos sem texto completo, trabalhos fora do período estabelecido e aqueles que não abordem especificamente o tema de diagnóstico de HTLV em gestantes ou transmissão vertical.
2.5 Seleção e Extração de Dados
A seleção dos artigos seguirá três etapas:
- Leitura de títulos e resumos para triagem inicial.
- Leitura integral dos artigos que atenderem aos critérios de inclusão.
- Fichamento e organização dos dados em quadros analíticos contendo informações como: ano de publicação, país, amostra, métodos diagnósticos avaliados, principais achados e conclusões.
2.6 Método de Análise
Os dados coletados serão analisados de forma temática e descritiva, permitindo identificar padrões, divergências e lacunas existentes na literatura. As evidências serão organizadas conforme os objetivos específicos da pesquisa: eficácia dos métodos diagnósticos, prevalência em gestantes, impacto do diagnóstico precoce e estratégias de prevenção da transmissão vertical.
3 RESULTADOS E DISCUSSÕES
Este estudo, ao analisar a literatura sobre o diagnóstico do HTLV em gestantes, seus métodos e os impactos na saúde materno-fetal, posiciona-se em um momento crucial para a saúde pública brasileira, marcado pela recente incorporação do rastreamento pré-natal de HTLV-1/2 no Sistema Único de Saúde (SUS) por meio da Portaria SECTICS/MS nº 13/2024. A integração dos achados desta revisão com a literatura científica atual e as novas políticas de saúde reforça a relevância do tema e permite uma análise aprofundada das suas implicações.
3.1 Integração dos Resultados
A presente revisão sistemática da literatura confirma a importância da triagem sorológica para o HTLV em gestantes e reforça a necessidade de testes confirmatórios para garantir a acurácia diagnóstica. Os resultados aqui compilados demonstram que a avaliação dos métodos diagnósticos, como o uso de ELISA/CLIA para triagem e Western blot/PCR para confirmação, está alinhada com as recomendações atuais. A limitação de acesso ao PCR no SUS, um desafio reconhecido, é contraposta pelo avanço significativo da Portaria SECTICS/MS nº 13/2024, que reflete as recomendações da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) para a expansão da testagem (ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE, 2025).
Os dados de prevalência analisados, que apontam taxas de 0,01% a 1,35% na população geral brasileira, com picos no Nordeste, são corroborados pela meta-análise de Sánchez-Núñez et al. (2024), que encontrou uma prevalência de 1,30% em gestantes na América Central, do Sul e Caribe. Essa taxa, superior à de outras infecções já rastreadas, como HIV e hepatite B, reforça a justificativa para a nova política de rastreamento. Os impactos materno-fetais, como aborto espontâneo, restrição de crescimento intrauterino (RCIU) e baixo peso ao nascer, encontram ressonância nos achados de Freire et al. (2025), que observaram maior frequência de complicações em gestantes HTLV-1 positivas, e a plausibilidade biológica desses impactos é sustentada pela presença de DNA/RNA viral em tecidos placentários.
A principal medida preventiva, a interrupção do aleitamento materno, é amplamente suportada pela literatura, com Soriano e de Mendoza (2024) e Emerick et al. (2025) apontando para uma redução drástica nas taxas de infecção neonatal. Ao integrar esses resultados, este estudo não apenas confirma tendências e desafios, mas também contribui para o entendimento da dinâmica do HTLV em gestantes no contexto brasileiro, apoiando a necessidade de testagem e acompanhamento, conforme enfatizado por Ribeiro et al. (2024) e Maldonado et al. (2024).
3.2 Comparação com a Literatura
A abordagem diagnóstica discutida neste trabalho, com triagem sorológica e confirmação por métodos mais específicos, está em total consonância com as diretrizes e práticas internacionais (EMERICK et al., 2025). No entanto, a limitação de acesso ao PCR no SUS representa uma divergência com o padrão-ouro ideal, um desafio que precisa ser superado para garantir a acurácia diagnóstica e o manejo adequado dos casos (RIBEIRO et al., 2024). A sugestão de Soriano e de Mendoza (2024) sobre a necessidade de melhorar a especificidade dos testes de triagem para minimizar falso-positivos é um ponto relevante para a discussão da acurácia dos métodos.
Os dados de prevalência do HTLV em gestantes no Brasil, com sua heterogeneidade regional, são consistentes com os achados de Ribeiro et al. (2024) e Maldonado et al. (2024). A comparação com a meta-análise de Sánchez-Núñez et al. (2024) e com estudos locais, como o de Freire et al. (2025) em Salvador, Bahia, contextualiza os achados em um cenário de alta endemicidade e reforça a urgência do rastreamento. Os impactos materno-fetais descritos são corroborados pela literatura, que, apesar de algumas controvérsias, aponta para um risco aumentado de desfechos adversos (FREIRE et al., 2025; EMERICK et al., 2025). A relação entre a carga proviral materna elevada e o maior risco de transmissão vertical é um ponto comum entre os estudos analisados (MALDONADO et al., 2024).
A ênfase na suspensão do aleitamento materno como principal medida preventiva é fortemente suportada pela literatura, com a experiência japonesa de anulação da transmissão materno-infantil com rastreamento universal servindo como um comparativo de sucesso (SORIANO; DE MENDOZA, 2024). A Portaria SECTICS/MS nº 13/2024 representa um alinhamento crucial com as recomendações de organismos como a OPAS (2025) e a CONITEC (EMERICK et al., 2025), demonstrando que o Brasil está avançando em direção às metas globais de eliminação da transmissão materno-infantil do HTLV-1.
3.3 Desafios e Limitações
Apesar da relevância dos achados, o manejo do HTLV em gestantes apresenta desafios complexos. A limitação de acesso ao PCR no SUS, o alto custo e a necessidade de infraestrutura avançada restringem sua disponibilidade, impactando a acurácia diagnóstica (RIBEIRO et al., 2024). Além disso, a necessidade de melhorar a especificidade dos testes de triagem para minimizar resultados falso-positivos é um desafio, especialmente em regiões não endêmicas (SORIANO; DE MENDOZA, 2024).
O HTLV é uma doença negligenciada, que passa despercebida pela população, profissionais e gestores de saúde (MALDONADO et al., 2024; RIBEIRO et al., 2024). A lacuna no conhecimento dos profissionais de saúde resulta em insegurança na orientação sobre aleitamento materno e outras medidas preventivas, comprometendo a qualidade do aconselhamento e do acompanhamento pré-natal (ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE, 2025; EMERICK et al., 2025). A literatura ainda apresenta resultados heterogêneos sobre os desfechos adversos materno-fetais, o que dificulta a formulação de diretrizes clínicas robustas (EMERICK et al., 2025; FREIRE et al., 2025).
A ausência histórica de uma política nacional consolidada de rastreamento do HTLV em gestantes no Brasil representava uma lacuna significativa (MALDONADO et al., 2024; SÁNCHEZ-NÚÑEZ et al., 2024). Embora a Portaria de 2024 seja um avanço, sua implementação e os desafios associados ainda precisam ser monitorados. A ausência de vacinas ou terapias antivirais específicas para o HTLV-1 limita as opções de intervenção e torna a prevenção da transmissão vertical ainda mais crítica (SORIANO; DE MENDOZA, 2024). Essas limitações e desafios abrem caminho para futuras pesquisas, que podem focar em aprimorar métodos diagnósticos acessíveis, desenvolver estratégias de capacitação para profissionais de saúde e investigar mais a fundo os impactos materno-fetais.
3.4 Implicações para a Saúde Pública
Os resultados deste estudo revelam implicações significativas para a saúde pública. A prevenção da transmissão vertical é a principal prioridade, e a incorporação do rastreamento pré-natal no SUS é um passo fundamental, alinhado às recomendações da OPAS e da OMS para a eliminação da transmissão materno-infantil do HTLV-1 (ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE, 2025; SORIANO; DE MENDOZA, 2024). O diagnóstico precoce permite intervenções eficazes, como a suspensão do aleitamento materno, que comprovadamente reduz as taxas de infecção neonatal (SORIANO; DE MENDOZA, 2024; EMERICK et al., 2025).
Apesar da nova política, a implementação efetiva do rastreamento e o acesso universal aos testes confirmatórios ainda representam desafios, especialmente em regiões com infraestrutura limitada (RIBEIRO et al., 2024). A experiência do Japão, que anulou a transmissão vertical com rastreamento universal, serve como um exemplo de sucesso a ser alcançado no Brasil (SORIANO; DE MENDOZA, 2024). A necessidade de acompanhamento a longo prazo para mães e crianças é crucial para monitorar o desenvolvimento de doenças associadas ao HTLV.
A falta de conhecimento dos profissionais de saúde e a negligência da doença são barreiras que precisam ser superadas por meio de programas de capacitação e conscientização (ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE, 2025; EMERICK et al., 2025; MALDONADO et al., 2024). A nova política de rastreamento no SUS permitirá a coleta de dados epidemiológicos mais robustos, cruciais para o planejamento de ações de saúde pública. A pesquisa contínua sobre estratégias diagnósticas, terapêuticas e o impacto a longo prazo da infecção é essencial para alcançar a meta global de eliminação da transmissão vertical do HTLV-1 até 2030 (FREIRE et al., 2025; ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE, 2025).
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O diagnóstico do Vírus Linfotrópico de Células T Humanas (HTLV) em gestantes emerge como uma medida de saúde pública de importância inquestionável, fundamental tanto para a prevenção da transmissão vertical quanto para a garantia da saúde materno-fetal. Uma revisão abrangente da literatura disponível indica que, embora os métodos de rastreamento inicial, como os ensaios de ELISA e quimioluminescência, demonstrem uma sensibilidade satisfatória para a triagem em larga escala, a confirmação laboratorial com técnicas mais específicas, como Western blot ou PCR, é um passo indispensável. A realização dessa etapa confirmatória é o que assegura a acurácia do resultado e permite a adoção de condutas clínicas e de acompanhamento que sejam verdadeiramente adequadas.
Foi observado que a prevalência do HTLV em gestantes no Brasil não é homogênea, apresentando variações regionais significativas. Essas diferenças refletem uma complexidade de fatores, incluindo particularidades epidemiológicas locais, condições socioeconômicas e as notáveis desigualdades no acesso aos serviços de saúde. Neste cenário, a detecção precoce do vírus no período pré-natal abre uma janela de oportunidade para intervenções imediatas e eficazes. A principal delas é a orientação para a não realização do aleitamento materno, que se constitui na via de transmissão mais comum do vírus para o recém-nascido, reduzindo drasticamente o risco de infecção. Adicionalmente, o diagnóstico precoce permite a implementação de um acompanhamento clínico contínuo e especializado tanto para a mãe quanto para a criança, garantindo um manejo de longo prazo mais seguro.
A recente implementação da Portaria SECTICS/MS nº 13/2024 marca um momento crucial para a saúde no país, ao consolidar a obrigatoriedade da triagem de HTLV no pré-natal realizado pelo Sistema Único de Saúde (SUS). No entanto, a plena eficácia dessa nova política dependerá da superação de desafios estruturais. É imperativo ampliar a infraestrutura laboratorial em todo o território, assegurar a disponibilidade contínua de insumos diagnósticos e, de forma crítica, capacitar os profissionais de saúde não apenas para a interpretação dos resultados, mas também para um manejo clínico e um aconselhamento humanizado das gestantes.
Em última análise, pode-se concluir que o rastreamento do HTLV em gestantes transcende a mera detecção de casos. Ele se posiciona como um pilar essencial na estratégia de saúde preventiva nacional, contribuindo diretamente para a redução de novas infecções. Sua efetividade está intrinsecamente ligada à integração entre as políticas públicas, a prática clínica e a educação continuada dos profissionais. Para o futuro, é crucial que novos estudos sejam conduzidos para avaliar a efetividade das medidas preventivas em vigor e para realizar o acompanhamento longitudinal de mães e crianças expostas ao vírus, com o objetivo final de refinar o manejo clínico e de minimizar complicações a longo prazo.
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1 Graduando em Medicina no Centro Universitário São Lucas Porto Velho, 2025. E-mail: eduklein.blue@gmail.com
2 Graduando em Medicina no Centro Universitário São Lucas Porto Velho, 2025. E-mail: ivojohnnetoo@gmail.com
3 Graduando em Medicina no Centro Universitário São Lucas Porto Velho, 2025. E-mail: kvnparente1@gmail.com
4 Graduando em Medicina no Centro Universitário São Lucas Porto Velho, 2025. E-mail: rodrigopaiva210155@gmail.com
5 Professor(a) do curso de Medicina do Centro Universitário São Lucas Porto Velho. E-mail:deusilene.vieira@fiocruz.br
