DIFFERENTIAL CLINICAL AND RADIOGRAPHIC DIAGNOSIS BETWEEN PERIODONTAL CYST, PERIAPICAL CYST, AND OTHER BENIGN LESIONS – A LITERATURE REVIEW
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ar10202511161924
Victoria Marcolino Oliveira¹
Antônio Henrique Braitt²
RESUMO
O diagnóstico diferencial entre lesões odontogênicas benignas, como o cisto periodontal lateral e o cisto periapical, representa um desafio frequente na prática clínica odontológica, devido às semelhanças clínicas e radiográficas que essas condições apresentam. Este trabalho tem como objetivo analisar os principais critérios clínico-radiográficos utilizados na diferenciação dessas lesões, ressaltando a importância dos exames complementares para a obtenção de um diagnóstico preciso. Trata-se de uma revisão de literatura narrativa, de caráter qualitativo, descritivo e exploratório, desenvolvida a partir de publicações indexadas nas bases SciELO, PubMed, Google Acadêmico, ResearchGate e BVS. A análise dos estudos evidenciou que a associação entre exame clínico detalhado, testes de vitalidade pulpar e métodos de imagem, especialmente a Tomografia Computadorizada de Feixe Fônico (TCFC), é essencial para uma avaliação criteriosa das lesões odontogênicas. A correta distinção entre o cisto periodontal lateral e o cisto periapical possibilita condutas terapêuticas mais adequadas e melhora o prognóstico do paciente. Dessa forma, reforça-se a importância do domínio dos critérios diagnósticos e da integração dos recursos de imagem na prática clínica odontológica, como meio de garantir maior precisão diagnóstica e efetividade terapêutica.
PALAVRAS CHAVES: Cisto periodontal lateral. Cisto periapical. Lesões odontogênicas benignas. Diagnóstico diferencial. Radiografia odontológica. Tomografia computadorizada.
ABSTRACT
The differential diagnosis between benign odontogenic lesions, such as the lateral periodontal cyst and the periapical cyst, represents a frequent challenge in dental clinical practice due to the clinical and radiographic similarities these conditions present. This study aims to analyze the main clinical and radiographic criteria used to differentiate these lesions, highlighting the importance of complementary exams for achieving an accurate diagnosis. It is a narrative literature review with a qualitative, descriptive, and exploratory approach, based on publications indexed in the SciELO, PubMed, Google Scholar, ResearchGate, and BVS databases between 2010 and 2025. The analysis of the reviewed studies revealed that the association between detailed clinical examination, pulp vitality tests, and imaging methods – especially cone-beam computed tomography (CBCT) – is essential for a thorough evaluation of odontogenic lesions. Proper differentiation between the lateral periodontal cyst and the periapical cyst allows for more appropriate therapeutic approaches and improves patient prognosis. Thus, this review reinforces the importance of mastering diagnostic criteria and integrating imaging resources into clinical practice as a means to ensure greater diagnostic precision and therapeutic effectiveness.
KEY WORDS: Lateral periodontal cyst. Periapical cyst. Benign odontogenic lesions. Differential diagnosis. Dental radiography. Computed tomography.
INTRODUÇÃO
Moehlecke et al.¹(2011) relatam que o diagnóstico diferencial de lesões odontogênicas benignas localizadas na região periapical e periodontal constitui um desafio recorrente na prática clínica odontológica. Essas lesões, em muitos casos, apresentam características clínicas e radiográficas semelhantes, o que pode dificultar sua identificação precisa e comprometer a adoção de uma conduta terapêutica eficaz. Dentre essas alterações, destacam-se o cistoperiodontal lateral e o cisto periapical, entidades distintas quanto à etiologia e ao tratamento, mas frequentemente confundidas em avaliações iniciais.
O diagnóstico diferencial dessas lesões na região periapical e periodontal representa, portanto, um desafio constante para o cirurgião-dentista. As semelhanças entre os aspectos clínicos e radiográficos dessas condições podem levar a erros de interpretação, atrasando o tratamento adequado e comprometendo o prognóstico. A correta diferenciação entre lesões odontogênicas benignas, como o cisto periodontal lateral e o cisto periapical, é essencial para a escolha de uma conduta terapêutica eficaz, uma vez que intervenções inadequadas podem favorecer a persistência da patologia, ocasionar complicações locais e comprometer a saúde periodontal e óssea.
Nesse contexto, exames de imagem, como a radiografia periapical, e exames complementares, como a Tomografia Computadorizada de Feixe Cônico (TCFC), assumem papel fundamental, permitindo uma análise detalhada das características morfológicas e estruturais das lesões. A correta interpretação desses achados, aliada à anamnese e ao exame clínico criterioso, constitui a base para um diagnóstico diferencial preciso e para a definição de um plano terapêutico adequado.
De acordo com Neville et al.³ (2016), as lesões odontogênicas benignas que acometem as regiões periapical e periodontal representam uma realidade clínica frequente nos consultórios odontológicos. Dentre essas, o cisto periapical e o cisto periodontal lateral são condições patológicas distintas que, entretanto, podem apresentar sinais radiográficos e características clínicas muito semelhantes, dificultando o diagnóstico preciso. Essa dificuldade é ainda mais evidente em contextos nos quais o acesso a exames complementares avançados, como a TCFC, é limitado.
Dados da literatura indicam que falhas no diagnóstico dessas lesões podem resultar em condutas terapêuticas inadequadas, como tratamentos endodônticos desnecessários em dentes hígidos ou a não remoção cirúrgica de cistos que exigem intervenção⁴. Além disso, diagnósticos incorretos podem levar à persistência ou recidiva das lesões, comprometendo a integridade óssea, a saúde periodontal e o prognóstico funcional do dente afetado. Por outro lado, quando corretamente identificadas, essas alterações apresentam bom prognóstico e resposta favorável ao tratamento, evidenciando a importância de um diagnóstico acurado e bem fundamentado.
Dessa forma, torna-se imprescindível fortalecer a capacidade diagnóstica do cirurgião-dentista, aprimorando a correlação entre achados clínicos, radiográficos e o histórico do paciente, com base nas evidências disponíveis na literatura científica. Essa abordagem criteriosa previne condutas equivocadas, promove a resolução eficaz das patologias e contribui para a manutenção da saúde oral e da qualidade de vida do paciente.
Diante desse cenário, emerge a seguinte problemática: de que forma a análise integrada dos achados clínicos e radiográficos pode auxiliar no diagnóstico diferencial entre lesões odontogênicas benignas com aparência semelhante, como o cisto periodontal lateral e o cisto periapical, contribuindo para uma conduta terapêutica adequada e um prognóstico favorável?
Assim, o presente trabalho consiste em uma revisão de literatura que tem como propósito analisar os critérios clínico-radiográficos que permitem um diagnóstico diferencial preciso entre o cisto periodontal lateral, o cisto periapical e outras lesões odontogênicas benignas com características semelhantes. A partir dessa análise, busca-se fornecer subsídios teóricos e práticos para a tomada de decisões mais assertivas na clínica odontológica, minimizando diagnósticos equivocados e condutas terapêuticas inadequadas.
REVISÃO DA LITERATURA
A diferenciação entre o cisto periodontal lateral, o cisto periapical e outras lesões odontogênicas benignas configura uma dificuldade significativa na prática clínica odontológica, em razão das semelhanças clínicas e radiográficas que essas condições frequentemente apresentam. A correta identificação dessas lesões tem importância crucial, visto que falhas diagnósticas podem resultar em condutas inadequadas, como a realização de tratamentos endodônticos em dentes hígidos ou a não realização de procedimentos cirúrgicos em casos que os exigem, comprometendo o sucesso terapêutico e o prognóstico dos pacientes, 3,4.
As radiografias periapicais, embora largamente utilizadas no cotidiano odontológico, muitas vezes são insuficientes para distinguir lesões com apresentações radiolúcidas semelhantes. O cisto periodontal lateral, por exemplo, geralmente é assintomático e pode ser confundido com o cisto periapical, especialmente por apresentar imagens radiográficas similares. Enquanto o cisto periapical é decorrente de um processo inflamatório crônico associado à necrose pulpar, o cisto periodontal lateral tem origem no tecido periodontal. Essa distinção é fundamental, mas nem sempre evidente por meio dos exames clínicos e radiográficos convencionais, como apontam 3,4.
Nesse contexto, o uso de exames complementares mais avançados, como a Tomografia Computadorizada de Feixe Cônico (TCFC), tem sido considerado um recurso importante para o aprimoramento do diagnóstico diferencial. A TCFC permite uma avaliação tridimensional mais precisa da lesão, fornecendo informações detalhadas sobre sua morfologia e extensão. No entanto, Silva et al.5 ressaltam que, apesar da utilidade diagnóstica desse exame, o seu acesso ainda é restrito em muitas regiões, o que limita sua aplicação rotineira em clínicas odontológicas com recursos mais limitados.
A literatura especializada enfatiza que as lesões odontogênicas benignas, particularmente os cistos, constituem um grupo expressivo das patologias que acometem o sistema estomatognático e que possuem relevância clínica significativa. Pindborg6 destaca que, apesar de benignas, essas lesões podem causar consequências severas à saúde bucal quando não são corretamente diagnosticadas e tratadas. Cistos periapicais não tratados adequadamente podem evoluir para infecções crônicas, resultando em comprometimento periodontal e destruição óssea. Da mesma forma, cistos periodontais laterais que não são removidos cirurgicamente podem levar a complicações similares.
Além disso, a dependência exclusiva de métodos tradicionais de imagem e a ausência de protocolos diagnósticos mais sensíveis contribuem para os equívocos na identificação dessas lesões. Tosoni et al 2 e Martins7 enfatizam que, mesmo com recursos limitados, a incorporação de estratégias diagnósticas mais completas, que combinem exames clínicos, testes de vitalidade e recursos de imagem avançados, é essencial para a melhoria da acurácia diagnóstica.
A relevância do tema também se estende ao contexto social e econômico, pois diagnósticos equivocados aumentam os custos de tratamento, prolongam o sofrimento do paciente e podem comprometer a qualidade de vida. Diagnósticos precisos são determinantes para a definição de condutas terapêuticas eficazes, minimizando o risco de complicações e otimizando os resultados clínicos.
Considerando esses fatores, a ampliação do conhecimento sobre os critérios clínicos e radiográficos que possibilitam a diferenciação entre cisto periodontal lateral, cisto periapical e outras lesões odontogênicas benignas se mostra essencial para a prática odontológica contemporânea. Profissionais capacitados conseguem realizar diagnósticos mais precisos e propor tratamentos mais adequados, beneficiando diretamente os pacientes. Além disso, há um impacto positivo na sociedade, com a promoção da saúde bucal e a redução de intervenções desnecessárias, e também no meio acadêmico, com a produção de conhecimento científico relevante e aplicável à formação e atualização de cirurgiões-dentistas.
O diagnóstico clínico e radiográfico de lesões odontogênicas benignas, como o cisto periodontal e o cisto periapical, é um aspecto essencial na prática odontológica, pois essas lesões, embora benignas, podem causar complicações significativas quando não diagnosticadas corretamente. De acordo com Moehlecke et al.1essas lesões, frequentemente assintomáticas, podem ser confundidas devido às semelhanças clínicas e radiográficas, o que dificulta o diagnóstico preciso e o tratamento adequado.
O cisto periapical é uma das lesões mais comuns, geralmente associado a processos infecciosos crônicos que afetam dentes não vitalizados. Tosoni et al.2 destacam que “a identificação precoce do cisto periapical é crucial, pois a evolução para uma infecção crônica pode resultar em destruição óssea e outras complicações graves.
Por outro lado, o cisto periodontal lateral, embora menos frequente, também pode ser confundido com outras lesões periapicais. O cisto periodontal lateral, localizado lateralmente à raiz de dentes vitais, apresenta características clínicas e radiográficas semelhantes a outras lesões, dificultando seu diagnóstico preciso. A diferenciação correta entre essas lesões é, portanto, crucial para determinar a abordagem terapêutica mais adequada e evitar complicações, como dor e perda dentária9.
Lesões Odontogênicas Benignas: Conceitos Gerais
As lesões odontogênicas benignas correspondem a um grupo de alterações patológicas que se originam dos tecidos responsáveis pelo desenvolvimento e sustentação dos dentes. Dentre essas alterações, os cistos odontogênicos apresentam destaque devido à sua alta frequência na prática clínica odontológica, conforme apontado por Neville et al3 em 2016.
Apesar de serem lesões de natureza benigna, podem afetar estruturas vizinhas e, radiograficamente, manifestam-se como áreas radiolúcidas bem delimitadas. Muitas vezes, essas imagens possuem características semelhantes entre si, o que torna o diagnóstico um desafio considerável, segundo observações feitas por Regezi et al.4 em 2017.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica as lesões odontogênicas benignas em duas categorias principais:
- Lesões císticas: englobam o cisto dentígero, o cisto odontogênico queratocístico (OKC), o cisto odontogênico calcificante (COC), o cisto odontogênico ortoqueratinizado (OOC), entre outros.
- Tumores odontogênicos benignos: incluem o ameloblastoma, o fibroma odontogênico, o fibroma odontogênico periférico, o tumor odontogênico adenomatoide, entre outros.
Cisto Dentígero
O cisto dentígero é uma lesão odontogênica do desenvolvimento, associada à coroa de um dente impactado. Ele representa cerca de 24% de todos os cistos bucomaxilofaciais e é mais comum na segunda e terceira décadas de vida, afetando principalmente os terceiros molares inferiores e caninos superiores.
Radiograficamente, o cisto dentígero aparece como uma área radiolúcida bem delimitada ao redor da coroa de um dente impactado. O tratamento geralmente envolve a enucleação do cisto e a remoção do dente associado. O prognóstico é geralmente bom, com baixa taxa de recidiva.
Cisto Odontogênico Queratocístico (OKC)
O OKC é uma lesão odontogênica que possui um comportamento biológico agressivo e uma alta taxa de recidiva. Ele é caracterizado por um epitélio revestindo o cisto que apresenta uma camada basal espessa e uma queratinização ortoqueratinizada ou paraqueratinizada. O tratamento do OKC pode incluir enucleação, curetagem, ressecção marginal ou segmentar, dependendo do tamanho e localização da lesão.
Tumor Odontogênico Adenomatoide (AOT)
O AOT é uma lesão odontogênica benigna que representa cerca de 3% de todos os tumores odontogênicos. Ele é mais comum em mulheres jovens, geralmente na segunda década de vida, e está frequentemente associado a dentes impactados. Radiograficamente, o AOT pode apresentar-se como uma área radiolúcida bem delimitada, frequentemente com áreas radiopacas internas. O tratamento é geralmente conservador, envolvendo a enucleação da lesão e remoção do dente associado.
Fibroma Odontogênico
O fibroma odontogênico é uma lesão rara, representando cerca de 0,1% de todos os tumores odontogênicos. Ele pode ser classificado como central (intraósseo) ou periférico (extraósseo). Radiograficamente, o fibroma odontogênico apresenta-se como uma área radiolúcida bem delimitada, podendo adquirir aspecto cístico. O tratamento geralmente envolve a enucleação da lesão. A classificação mais recente da OMS inclui subtipos como o amiloide, de células granulares, ossificante e híbrido.
Cisto Periapical
O cisto periapical, também conhecido como cisto radicular, é a lesão inflamatória mais frequente entre os cistos odontogênicos, representando 51,7% dos casos das alterações localizadas na região apical dos dentes, conforme dados de Pereira at.al10. Essa lesão caracteriza-se por uma cápsula de tecido conjuntivo fibroso revestida por epitélio, contendo no seu interior um lúmen preenchido por líquido e restos celulares. Sua origem está relacionada aos restos epiteliais de Malassez, cuja atividade é mantida por processos inflamatórios locais.
Em situações de necrose pulpar, a inflamação pode estimular esse epitélio remanescente, favorecendo o desenvolvimento do cisto. Segundo Barroso et al11, essa resposta inflamatória promove o aumento da produção do fator de crescimento de queratinócitos pelas células do estroma periodontal, contribuindo para a proliferação epitelial na região.
Do ponto de vista fisiopatológico, à medida que ocorre descamação epitelial para o interior da cavidade cística, há um aumento na concentração de proteínas, o que atrai líquido para o interior do cisto com o objetivo de equilibrar a pressão osmótica. Esse processo gera um crescimento lento e assintomático da lesão, que pode atingir dimensões significativas. De forma geral, esse tipo de cisto acomete preferencialmente adultos entre 30 e 40 anos, sendo frequentemente diagnosticado por meio de exames radiográficos de rotina, como relatado por Neville et al3.
Aspectos Clínicos
Clinicamente, os cistos periapicais geralmente são assintomáticos, a menos que haja um episódio de exacerbação inflamatória aguda. Quando a lesão atinge grandes proporções, podem surgir sinais como tumefação e leve sensibilidade à palpação. O crescimento contínuo do cisto pode ocasionar mobilidade e deslocamento dos dentes adjacentes. O dente associado à lesão apresenta resposta negativa aos testes de vitalidade pulpar, tanto térmicos quanto elétricos. De acordo com Silva et al.5, os achados radiográficos típicos incluem uma imagem unilocular, radiolúcida, de forma arredondada ou ovalada, bem delimitada, circundando o ápice do dente envolvido, além da perda da lâmina dura ao longo da raiz.
Aspectos Radiográficos
Radiograficamente, o cisto periapical apresenta-se como uma lesão unilocular, radiolúcida, bem definida, de contorno arredondado ou oval, envolvendo o ápice do dente, frequentemente com perda da lâmina dura, conforme descrito por Silva et al.12. A tomografia computadorizada, especialmente a Cone Beam (CBCT), desempenha papel fundamental tanto no diagnóstico quanto no planejamento cirúrgico, por permitir uma visualização tridimensional detalhada das lesões, dentes vizinhos e estruturas anatômicas.
Os achados tomográficos típicos do cisto periapical incluem imagens hipodensas, uniloculares, bem delimitadas, frequentemente cercadas por um halo hiperdenso. Em estudos de caso, a tomografia pode revelar extensas áreas hipodensas associadas à reabsorção óssea e envolvimento de estruturas adjacentes.
É importante destacar que outras lesões podem apresentar imagens radiográficas semelhantes às dos cistos periapicais de origem endodôntica. Alterações como ceratocistos odontogênicos, cistos periodontais laterais, cistos odontogênicos calcificantes, ameloblastomas e certas displasias podem mimetizar cistos radiculares ou residuais. Além disso, lesões periapicais de origem não endodôntica não podem ser diferenciadas apenas por meio de radiografias convencionais.
Radiografias de rotina, como apontado podem não refletir com precisão o tamanho real da lesão ou sua relação com estruturas anatômicas. Assim, a seleção de exames por imagem deve considerar a capacidade do método em fornecer informações detalhadas e confiáveis. Conforme reiterado por D’Addazio et al13 a tomografia computadorizada oferece uma visão tridimensional da lesão e suas relações anatômicas, sendo os achados mais comuns as imagens hipodensas, uniloculares, bem delimitadas e com halos hiperdensos.
Diagnóstico Diferencial
O diagnóstico diferencial do cisto periapical deve ser realizado com outras lesões periapicais, como granuloma periapical, abscesso periapical crônico e tumor odontogênico queratocístico. A diferenciação é essencial, pois influencia diretamente na escolha do tratamento adequado.
Tratamento
O protocolo de tratamento para lesões periapicais causadas por infecção do canal radicular é a eliminação dos fatores etiológicos no sistema de canal radicular14. O objetivo do tratamento endodôntico convencional é reduzir a carga microbiana a um nível insuficiente para que a inflamação periapical seja mantida. A erradicação de todos os micro-organismos do canal radicular é considerada o fator mais importante no tratamento9.
Tratamento Endodôntico Não Cirúrgico / Retratamento
De acordo com Komabayashi et al15, “o tratamento de escolha para lesões periapicais de origem endodôntica é o tratamento endodôntico convencional”. Essa conduta é reforçada por Ahmed et al16, que afirmam que ela “deve ser considerada a primeira opção, independentemente do tamanho da lesão, do estado anterior do dente e da idade do paciente”.
Em casos de menor extensão, o tratamento endodôntico não cirúrgico é geralmente eficaz. Caliskan17 observa que “há evidências clínicas de que cistos periapicais podem responder favoravelmente ao tratamento endodôntico não cirúrgico, especialmente com o uso de medicação intracanal como o hidróxido de cálcio”. Quando o tratamento inicial não é bem-sucedido, “o retratamento é o mais indicado”16.
Komabayashi et al15 acrescentam que “nos casos com radioluscência perirradicular, a preparação e a obturação dos canais radiculares o mais próximo possível da extremidade apical são desejáveis, pois permitem a remoção de micro-organismos que persistem na porção apical dos canais, conduzindo a um resultado de tratamento bem-sucedido”. Além disso, segundo Ahmed et al16, “um tratamento de canal em uma única consulta, usando preparo químico-mecânico adequado, com irrigação de NaOCl a 5,25% e um selo coronal satisfatório, apresenta uma modalidade alternativa de tratamento”.
Tratamento Cirúrgico
A intervenção cirúrgica é recomendada “para lesões de grandes proporções ou quando a terapia endodôntica é ineficaz no alívio dos sintomas e a aparência clínico-radiográfica não é confiável” (Komabayashi et al15. Nessas situações, “a cirurgia periapical é reservada para lesões maiores do que 2 cm ou quando o dente em questão estiver inadequado para tratamento endodôntico convencional”13.
Silva et al.12 enfatizam que “a complementação cirúrgica é indicada para casos em que não é possível fazer o tratamento ou retratamento adequado e para aqueles em que, mesmo com um tratamento endodôntico adequado, a lesão não regredir. Nesses casos, sempre há necessidade da realização de uma biópsia e uma avaliação histopatológica”.
Entre os procedimentos possíveis, destacam-se “enucleação, marsupialização e enucleação com curetagem” (Komabayashi et al.15. Sobre a enucleação, Silva et al.12 explicam que se trata da “remoção total da lesão cística, permitindo o exame histopatológico integral e o tratamento definitivo”. É considerada “uma excelente alternativa e tratamento eficaz para o cisto periapical”12.
Para lesões que mimetizam lesões periapicais ou envolvem implantes, as abordagens incluem “curetagem do defeito, aplicação de substituto ósseo, administração de antibióticos sistêmicos, uso de membrana de barreira ou fragmentos ósseos autógenos, e extração do implante afetado”9.
Nos casos de abscesso com fístula cutânea, o manejo clínico pode incluir “drenagem via fístula, incisão (se houver expansão óssea), desgaste oclusal (para dentes extruídos), AINEs e antibióticos apenas para pacientes sistemicamente comprometidos com celulite significativa”12. Já em quadros graves como Angina de Ludwig, o protocolo inclui “manutenção das vias aéreas, incisão e drenagem, antibioticoterapia e eliminação do foco infeccioso”9. Para a trombose do seio cavernoso, o tratamento envolve “drenagem cirúrgica, altas doses de antibiótico e extração do dente afetado”9.
Prognóstico
O prognóstico do cisto periapical é geralmente favorável, com alta taxa de resolução após tratamento adequado. No entanto, a recidiva pode ocorrer em casos de remoção incompleta do cisto ou persistência da infecção
Cisto Periodontal Lateral
Definição e Etiologia
O cisto periodontal lateral (CPL) é definido como um cisto de desenvolvimento epitelial não queratinizado, não inflamatório, que ocorre adjacente ou lateral à raiz de um dente vital18. Sua origem está associada à proliferação de restos epiteliais da lâmina dentária, do epitélio reduzido do esmalte ou dos restos de Malassez.
É considerado uma lesão relativamente incomum. Um estudo encontrou uma prevalência de 0,7% em 2.616 cistos vistos ao longo de 11 anos. Outro estudo encontrou sua prevalência em 1,5% dos cistos dos maxilares18.
Aspectos Clínicos
O CPL é geralmente assintomático e é frequentemente detectado incidentalmente em exames radiográficos de rotina. Quando sintomático, pode causar expansão indolor da cortical óssea. Raramente, pode perfurar a cortical óssea e se comunicar com a superfície gengival.
Acomete predominantemente indivíduos entre a quinta e sétima décadas de vida, com uma ligeira predominância no sexo masculino. A localização mais comum é na mandíbula, entre os pré-molares e caninos inferiores.
Aspectos Radiográficos
Radiograficamente, o CPL se apresenta como uma lesão radiolúcida unilocular bem delimitada, geralmente menor que 1 cm de diâmetro. A lesão localiza-se lateralmente à raiz de um dente vital e é frequentemente circundada por um halo radiopaco. Em casos raros, pode apresentar uma apresentação multilocular, conhecida como Cisto Odontogênico Botrióide (BOC).
Aspectos Histopatológicos
Microscopicamente, o CPL é caracterizado por um revestimento epitelial não queratinizado, com 1 a 5 camadas de células escamosas achatadas ou cuboidais. Em algumas áreas, pode apresentar espessamentos nodulares ou placas de células claras ricas em glicogênio. A cápsula do cisto é composta por tecido conjuntivo fibroso, geralmente sem sinais de inflamação.
Diagnóstico Diferencial
O diagnóstico diferencial do CPL inclui:
- Cisto radicular: geralmente associado a dentes não vitais e com histórico de pulpites.
- Ceratocisto odontogênico: apresenta uma parede cística espessa e pode ter um comportamento mais agressivo.
- Cisto dentígero: associado a dentes impactados ou inclusos.
- Tumor odontogênico escamoso: raramente apresenta características semelhantes ao CPL.
- Defeitos periodontais: podem simular radiograficamente um CPL.
Tratamento e Prognóstico
O tratamento de escolha para o CPL é a enucleação cirúrgica da lesão. Em casos de variante botrióide, que apresentam múltiplas cavidades, a abordagem cirúrgica deve ser mais cuidadosa para evitar recidivas. O prognóstico é geralmente excelente, com baixa taxa de recidiva, especialmente quando a remoção é completa.
METODOLOGIA
A metodologia deste trabalho visa descrever os procedimentos utilizados para atingir os objetivos propostos, com foco na análise e sistematização de informações relacionadas ao diagnóstico diferencial clínico-radiográfico de lesões odontogênicas benignas, especialmente o cisto periodontal lateral, o cisto periapical e outras lesões com características semelhantes.
Trata-se de uma pesquisa de abordagem qualitativa, de caráter descritivo e exploratório, desenvolvida por meio de uma revisão de literatura narrativa. Essa modalidade metodológica tem como propósito reunir, descrever e analisar criticamente os principais achados científicos disponíveis sobre o tema, possibilitando uma compreensão mais ampla dos critérios clínicos, radiográficos e histopatológicos que auxiliam no diagnóstico diferencial dessas lesões.
A pesquisa bibliográfica foi conduzida a partir da coleta de informações em fontes secundárias, incluindo artigos científicos, livros, teses e dissertações disponíveis em bases de dados e bibliotecas digitais. Foram utilizadas as plataformas SciELO (Scientific Electronic Library Online), PubMed, ResearchGate, Google Acadêmico e BVS (Biblioteca Virtual em Saúde). Os descritores empregados nas buscas foram: cisto periapical, cisto periodontal lateral, lesões odontogênicas benignas, diagnóstico diferencial e radiografia odontológica. Foram incluídos estudos publicados entre 2010 e 2025, em português e inglês, que abordassem aspectos clínicos, radiográficos, histológicos ou terapêuticos relacionados às lesões odontogênicas benignas. Foram excluídos artigos duplicados, publicações incompletas, relatos de caso isolados e estudos que não apresentassem relação direta com o tema.
Após a seleção do material, realizou-se a leitura exploratória e analítica dos textos, com ênfase na identificação dos critérios clínico-radiográficos utilizados para distinguir o cisto periodontal lateral, o cisto periapical e outras lesões de aparência semelhante.
Essa abordagem metodológica permite compreender, de forma crítica e fundamentada, as principais contribuições científicas sobre o tema, fornecendo subsídios teóricos para a prática clínica e para futuras pesquisas relacionadas ao diagnóstico diferencial de lesões odontogênicas benignas.
4. RESULTADOS ESPERADOS E APLICABILIDADES
Com base na revisão da literatura realizada, espera-se evidenciar a importância de uma abordagem diagnóstica criteriosa e fundamentada na integração entre dados clínicos e radiográficos para a diferenciação entre o cisto periodontal lateral, o cisto periapical e outras lesões odontogênicas benignas com características semelhantes. A análise dos estudos selecionados permitiu identificar parâmetros consistentes que reforçam a necessidade de uma avaliação minuciosa, capaz de reduzir equívocos diagnósticos e orientar condutas terapêuticas mais adequadas.
Observou-se que os autores consultados destacam a relevância da associação entre os critérios clínicos e radiográficos, especialmente no que se refere à interpretação dos exames de imagem e à avaliação da vitalidade pulpar. Evidencia-se que o cisto periapical, de natureza inflamatória, está relacionado a dentes com necrose pulpar, apresentando imagem radiolúcida bem delimitada na região apical. Em contrapartida, o cisto periodontal lateral ocorre em dentes vitais, localizando-se ao longo da raiz, sem relação direta com o canal radicular, podendo ser confundido com lesões inflamatórias quando não há análise criteriosa dos achados clínicos e radiográficos.
Pretende-se demonstrar, com base nos resultados obtidos na literatura, a relevância da utilização de exames complementares, como a radiografia periapical e, principalmente, a Tomografia Computadorizada de Feixe Cônico (TCFC), por sua capacidade de oferecer imagens tridimensionais detalhadas, que auxiliam na distinção entre as diferentes lesões odontogênicas. Tais recursos contribuem para a identificação das características morfológicas e anatômicas da lesão, favorecendo um diagnóstico mais preciso e uma conduta clínica individualizada.
Verificou-se, ainda, que o conhecimento aprofundado sobre as particularidades das lesões odontogênicas benignas é essencial para a prática clínica, uma vez que o diagnóstico incorreto pode resultar em tratamentos desnecessários ou em abordagens inadequadas, comprometendo o prognóstico e a saúde do paciente. Nesse sentido, destaca-se a importância de uma formação profissional voltada ao raciocínio clínico integrado, que valorize tanto o exame clínico quanto a interpretação adequada das imagens radiográficas e tomográficas.
Almeja-se, portanto, que os resultados desta revisão contribuam para o fortalecimento da prática diagnóstica em odontologia, incentivando o uso racional dos métodos de imagem e a aplicação de critérios bem definidos na diferenciação das lesões odontogênicas. Dessa forma, o estudo busca colaborar para o aprimoramento da atuação profissional e para a melhoria da qualidade do atendimento odontológico, enfatizando a relevância de uma conduta baseada em evidências científicas.
REFERÊNCIAS
- MOEHLECKE, B. P.; ROSSI, F.; PAIVA, R. L.; MOURE, S. P.; RADOS, P. V.; MUNERATO, M. C. Cisto lateral: relato de caso e revisão de literatura. RFO, v. 16, n. 1, p. 81–84, 2011.
- TOSONI, G. M.; DAMANTE, J. H.; FLEURY, R. N.; CAMARINI, E. T. Cisto periodontal lateral: revisão de literatura recente e relato de um caso clínico. RGO, v. 47, n. 4, p. 212–213, 1999.
- NEVILLE, B. W.; DAMM, D. D.; ALLEN, C. M.; CHI, A. C. Patologia oral e maxilofacial. 4. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2016.
- REGEZI, J. A.; SCIUBBA, J. J.; JORDAN, R. C. K. Patologia oral: correlações clínico-patológicas. 5. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2008.
- SILVA, E. F.; ARAÚJO, T. L. B.; BARROS, J. F. M. C.; LOPES, S. V. F.; FREITAS, S. A. P. Aplicação da tomografia computadorizada de feixe cônico no diagnóstico odontológico – revisão de literatura. Rev. Uningá, 2015;56.
- PINDBORG, J. J. Patologia oral. 2. ed. São Paulo: Santos, 1997.
- MARTINS, M. E. M. N. et al. Cisto periodontal lateral: relato de caso clínico. Rev. Odonto, v. 24, n. 48, p. 45–50, 2016.
- ROSA, C. S. de. Diferenciação de granulomas periapicais e cistos radiculares por análise de textura em imagens de tomografias computadorizadas de feixe cônico. São Paulo: Faculdade de Odontologia da USP, 2019.
- AHMED, H. M. Management of third molar teeth from an endodontic perspective. European Journal of General Dentistry, v. 1, p. 148–160, 2012.
- PEREIRA, J. V. et al. Análise retrospectiva dos cistos odontogênicos em uma população do Nordeste do Brasil. Arq. Odontol., v. 46, n. 3, p. 123–128, 2010.
- BARROSO, M. D.; RIBEIRO, I. M.; BARROSO, E. M. Modulatory effects of photobiomodulation on oxidative and inflammatory responses in a murine model of periodontitis. Antioxidants, v. 13, n. 12, p. 1450, 2024.
- SILVA, E. F.; ARAÚJO, T. L. B.; BARROS, J. F. M. C.; LOPES, S. V. F.; FREITAS, S. A. P. Aplicação da tomografia computadorizada de feixe cônico no diagnóstico odontológico – revisão de literatura. Rev. Uningá, v. 56, 2015.
- D’ADDAZIO, P. S. S. et al. O uso da tomografia cone beam no auxílio ao diagnóstico e planejamento de cirurgia periapical: relato de caso clínico. Odontol. Clín.-Cient. (Online), v. 9, n. 4, p. 377–380, 2010.
- DANDOTIKAR, D. et al. No surgery treatment of a periapical cyst: case report. J. Int. Oral Health, v. 5, n. 3, p. 79–84, 2013.
- KOMABAYASHI, T. et al. Comprehensive review of current endodontic sealers. Dent. Mater. J., v. 39, n. 5, p. 703–720, 2020.
- AHMED, H. M. Anatomical challenges, electronic working length determination and current developments in root canal preparation of primary molar teeth. Int. Endod. J., v. 46, n. 11, p. 1011–1022, 2013.
- CALISKAN, M. K. Prognosis of large cyst-like periapical lesions following nonsurgical root canal treatment: a clinical review. Int. Endod. J., v. 37, n. 6, p. 408–416, 2004.
- SOARES, A. A. S. L. et al. Cisto periodontal lateral: etiologia, diagnóstico e significado clínico. Revisão e relato de caso. Rev. Clín. Pesq. Odontol., v. 1, n. 4, p. 55–61, 2005.
- MARTINS, M. E. M. N. et al. Cisto periodontal lateral: relato de caso clínico. Revista Odonto, v. 24, n. 48, p. 45–50, 2016.
- PEREIRA, R. C. Tratamento de cisto periapical de grande extensão: relato de dois casos. 2013. Dissertação (Mestrado) — Faculdade de Odontologia de Piracicaba, Universidade Estadual de Campinas, Piracicaba, 2013.
- PINDBORG, J. J. Patologia oral. 2. ed. São Paulo: Santos, 1997.
- FALLIERI, L. C. Frequência dos cistos odontogênicos e não odontogênicos: um estudo multicêntrico. 2020. Dissertação (Mestrado em Odontologia) — Universidade de Uberaba, Uberaba. Disponível em: http://dspace.uniube.br:8080/jspui/handle/123456789/1250.
- BARROSO, Janinny Ávila; DIAS, Thaís Marins Ferreira; MATUDA, Fábio da Silva; GUIMARÃES, Pedro Sérgio de Melo. Diagnóstico diferencial e tratamento cirúrgico de cisto periapical: relato de caso clínico. XXVIII Encontro Latino Americano de Iniciação Científica, XXIV Encontro Latino Americano de Pós-Graduação e XIV Encontro de Iniciação à Docência, Universidade do Vale do Paraíba, São José dos Campos, 2024.
¹Acadêmica de Odontologia da Faculdade de Ilhéus (CESUPI);
²Especialista e Mestre em Endodontia. Professor de Endodontia Clínica da Faculdade de Ilhéus (CESUPI).
