DESFECHOS FUNCIONAIS DE PACIENTES SUBMETIDOS À VENTILAÇÃO MECÂNICA INVASIVA EM UMA UNIDADE DE TERAPIA INTENSIVA NA CAPITAL BAIANA

FUNCTIONAL OUTCOMES OF PATIENTS UNDERGOING INVASIVE MECHANICAL VENTILATION IN AN INTENSIVE CARE UNIT IN THE CAPITAL OF BAHIA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202601111625


Laiane de Castro Damasceno1
Ueidson José dos Santos Batista2
Leonardo José Morais Santos2


Resumo

A ventilação mecânica invasiva é um recurso essencial no manejo de pacientes graves internados em unidades de terapia intensiva. Apesar de garantir suporte ventilatório e manutenção da vida, seu uso prolongado pode afetar a evolução clínica e a funcionalidade. Desse modo, o estudo teve como objetivo geral: identificar os principais desfechos funcionais de pacientes submetidos à ventilação mecânica invasiva em uma unidade de terapia intensiva na capital baiana. Trata-se de um estudo quantitativo, descritivo, realizado em um hospital privado, utilizando dados de prontuários eletrônicos que continham informações sobre os desfechos funcionais de pacientes submetidos à ventilação mecânica invasiva, internados por um período mínimo de 48 horas, com idade ≥18 anos. A pesquisa seguiu as normas da Resolução 466/12, do Conselho Nacional de Saúde, mantendo o sigilo das informações e respeitando os princípios éticos. Os dados analisados, após tabulação no software Microsoft Excel® e Statistical Package for the Social Sciences, foram descritos e expostos em tabelas. Foram incluídos 271 prontuários, com uma prevalência de indivíduos do sexo feminino e mediana de idade de 72 anos. As principais condições clínicas associadas à necessidade da ventilação mecânica invasiva foram doenças cardiovasculares, gastrointestinais, respiratórias e neurológicas, sendo frequentes indivíduos portadores de hipertensão arterial sistêmica e diabetes mellitus. A mediana de tempo de permanência na unidade de terapia intensiva foi de 9 dias e mediana de 2 dias sob uso do suporte ventilatório. Em relação à mobilidade, previamente ao internamento, 78,6% dos indivíduos possuíam uma boa mobilidade, havendo redução significativa na alta da unidade. Quanto aos desfechos, 53,5% receberam alta, enquanto 43,5% evoluíram para óbito e 3% foram transferidos. Diante dos resultados, os achados demonstram que pacientes submetidos à ventilação mecânica invasiva apresentam importante redução da mobilidade durante o internamento, podendo esta ser influenciada pelo perfil clínico, período ventilatório e pelas comorbidades preexistentes.

Palavras-chave: Ventilação Mecânica Invasiva. Mobilidade. Funcionalidade.

1 INTRODUÇÃO

As Unidades de Terapia Intensiva (UTI) são ambientes hospitalares de alta complexidade destinados à assistência de pacientes críticos, que necessitam de monitoramento contínuo, cuidados especializados e do suporte de uma equipe multidisciplinar. É comum que pacientes internados na UTI apresentem alterações respiratórias e necessitem de um suporte ventilatório, o qual pode ser estabelecido de diferentes formas, a depender da gravidade do quadro clínico. Em casos considerados de baixa/moderada complexidade, utiliza-se o suporte ventilatório não invasivo (SVNI), enquanto o suporte ventilatório invasivo, conhecido como ventilação mecânica invasiva (VMI) deve ser a escolha em casos mais complexos (CORREA, SOUZA & ALEXANDRE, 2023; JACKSON & CAIRNS, 2021).

A VMI consiste na adoção de um sistema artificial essencial para manutenção da vida através do suporte, parcial ou total, aos músculos respiratórios para garantia da ventilação pulmonar, auxiliando no tratamento de pacientes com insuficiência respiratória aguda (IRpA) ou crônica agudizada. Instituída por meio da intubação orotraqueal ou traqueostomia, com os principais objetivos de assegurar a oxigenação e a ventilação adequada, manter a permeabilidade das vias aéreas, facilitar a eliminação de secreções e possibilitar a realização de intervenções terapêuticas específicas. Dessa maneira, a VMI oferece suporte ao paciente até que ele esteja clinicamente estável e seja capaz de respirar espontaneamente (JACKSON & CAIRNS, 2021).

No entanto, o seu uso exige monitoramento contínuo, expertise profissional e cuidados específicos para evitar complicações que podem impactar diretamente nos desfechos clínicos e funcionais do paciente durante o internamento. Entre as principais complicações destacam-se a pneumonia associada à ventilação mecânica (PAV), disfunção diafragmática e a fraqueza muscular adquirida na UTI (FAUTI). Estes, quando somados, podem agravar o prognóstico, e consequentemente, comprometer a recuperação a longo prazo, aumentando o tempo de internação hospitalar, as taxas de mortalidade e os custos hospitalares (VENDRAME et al., 2019).

Sabe-se que a progressão de mobilidade é um dos marcadores da evolução do quadro clínico, configurando-se como um preditor de desfechos favoráveis. Contudo, em pacientes submetidos à VMI, a imobilidade prolongada pode acarretar perda significativa de massa e força muscular, comprometendo diretamente a funcionalidade e retardando a recuperação. Nesse sentido, quanto melhor a capacidade de mobilização do paciente durante o internamento, maiores serão as chances da reintegração social, reduzindo assim a dependência pós-alta hospitalar e favorecendo, principalmente, a execução das atividades de vida diária de forma independente (JESUS & SANTOS, 2025).

Diante do exposto, esse estudo teve como questão norteadora: “Quais os principais desfechos funcionais de pacientes submetidos à ventilação mecânica invasiva em uma Unidade de Terapia Intensiva na capital baiana?”. O objetivo geral foi: identificar os principais desfechos funcionais de pacientes submetidos à ventilação mecânica invasiva em uma unidade de terapia intensiva na capital baiana. Os objetivos específicos foram: traçar o perfil epidemiológico de pacientes submetidos à ventilação mecânica invasiva em uma unidade de terapia intensiva na cidade de Salvador, Bahia; descrever as principais condições clínicas associadas à necessidade da ventilação mecânica invasiva nesta população; avaliar o nível de funcionalidade destes pacientes que foram submetidos à ventilação mecânica invasiva através da ICU Mobility Scale (IMS).

Desse modo, surgiu o interesse em desenvolver tal estudo, uma vez que é de fundamental importância identificar os principais desfechos, visto que a VMI e as complicações clínicas influenciam diretamente na mobilidade, e consequentemente na funcionalidade, dificultando a reabilitação e o processo de recuperação desses indivíduos. Além disso, os resultados obtidos poderão proporcionar informações para embasar futuras intervenções clínicas e promover a adoção de estratégias e condutas terapêuticas mais direcionadas durante a assistência, visando melhorar o prognóstico e a qualidade de vida destes pacientes.

2 MÉTODOS

2.1 DESENHO DO ESTUDO 

O presente estudo trata-se de uma parte integrante de uma pesquisa maior, intitulada como “Práticas Fisioterapêuticas em Pacientes Críticos”. Delineado como um estudo epidemiológico transversal, seguindo uma abordagem quantitativa de caráter descritivo. 

2.2 LOCAL DO ESTUDO 

O estudo foi conduzido em um hospital privado localizado na cidade de Salvador, capital do Estado da Bahia. O hospital em questão foi inaugurado em 18 de fevereiro de 2000, sendo considerado como uma unidade de saúde de médio porte, que oferece serviços de urgência e emergência voltados para o público adulto, além de procedimentos eletivos, sendo os atendimentos realizados através de convênios ou particulares.

Em relação a sua estrutura, há uma UTI composta por 12 leitos, uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) com 10 leitos, centro cirúrgico e uma Unidade de Internação (UI) formada por 30 leitos. Adicionalmente, o hospital é um importante cenário de prática para programas de Residência Médica e Residência Uni/Multiprofissional nas áreas de Fisioterapia, Biomedicina e Enfermagem, o que reforça sua relevância como local de pesquisa científica e formação de profissionais de saúde.

2.3 POPULAÇÃO E AMOSTRA

Foram incluídos nesta pesquisa os prontuários cadastrados na plataforma eletrônica da instituição que continham informações sobre os desfechos funcionais de pacientes submetidos à VMI e que permaneceram internados na UTI por um período mínimo de 48 horas, com idade igual ou superior a 18 anos, sendo excluídos todos aqueles que não atenderam aos critérios supracitados.

2.4 PROCEDIMENTOS E INSTRUMENTOS DE COLETA DE DADOS

Os dados sociodemográficos e de saúde foram coletados por meio de consultas aos prontuários eletrônicos da instituição, sendo obtidas informações relacionadas à identificação e características gerais, como número de prontuário do paciente, sexo e idade, além de dados clínicos, incluindo diagnósticos e datas de eventos relevantes, tais como internação hospitalar, intubação orotraqueal, extubação orotraqueal/desconexão da VMI, alta da UTI, transferência e óbito. Adicionalmente, dados referentes aos parâmetros de mobilidade foram coletados, através da escala IMS, sendo avaliados tanto o prévio à admissão na UTI quanto o obtido na alta da unidade.

2.5 ANÁLISE ESTATÍSTICA

Após a coleta dos dados nos prontuários eletrônicos, os mesmos foram submetidos à análise e selecionados de forma minuciosa a fim de evitar informações preenchidas de forma errônea, visto que se mantidos poderiam interferir diretamente nos resultados da pesquisa. Posteriormente, foram armazenados no software Microsoft Excel® e no software Statistical Package for the Social Sciences (SPSS) para tratamento estatístico. As variáveis contínuas foram apresentadas em forma de média ± desvio padrão (DP) ou mediana e intervalo interquartil (IIQ) e as variáveis categóricas foram descritas em porcentagens e frequências. Em seguida, os dados foram dispostos em tabelas e apresentados de maneira descritiva para possibilitar uma melhor visualização e interpretação dos resultados encontrados.

2.6 ASPECTOS ÉTICOS

Para a realização do presente estudo foi requerida uma autorização prévia por meio de um ofício elaborado pela Coordenação do Núcleo de Ensino, Pesquisa e Comunicação (NPEC) do Hospital em questão, sendo encaminhado para o Diretor Técnico da unidade hospitalar, solicitando a permissão para a execução do estudo no local pretendido.

Seguida a aprovação, a pesquisa foi cadastrada na Plataforma Brasil e direcionada para a análise pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Universidade Salvador (UNIFACS), seguindo os princípios éticos regulamentados pela Resolução  nº 466, de 12 de dezembro de 2012, do Conselho Nacional de Saúde (CNS), a qual dispõe sobre Diretrizes e Normas Regulamentares na Pesquisa com Seres Humanos, sobretudo, considerando a observância da beneficência, não maleficência e a garantia do anonimato dos participantes, em respeito à dignidade e defesa da vulnerabilidade dos sujeitos. Com a aprovação do CEP, conforme o parecer nº 7.537.231 e CAAE 85765824.7.0000.5033, foi dado início a realização da pesquisa. 

Solicitou-se a dispensa do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) visto que para a coleta de dados foram utilizados os prontuários eletrônicos, garantindo assegurar o compromisso com a privacidade e a confidencialidade dos dados utilizados, preservando integralmente o anonimato e a imagem do sujeito bem como a sua não estigmatização.

2.7 RISCOS E BENEFÍCIOS

Segundo a resolução 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde, toda e qualquer pesquisa apresenta riscos tanto aos participantes quanto aos familiares. Neste atual estudo, os riscos de participação se caracterizaram por quebra de confidencialidade e/ou sigilo dos dados. Para minimizá-los, a pesquisa visou garantir o sigilo dos participantes, identificando-os através da numeração cardinal obtida através do prontuário, não sendo divulgadas as informações coletadas, utilizando-as exclusivamente para pesquisa, publicação de artigos e apresentações em eventos científicos, fornecendo informações científicas ao meio acadêmico.

Os benefícios, diretos ou indiretos, incluem uma contribuição significativa para a compreensão do perfil funcional dos pacientes submetidos à VMI em uma UTI. Essa compreensão poderá gerar novos conhecimentos que beneficiarão a prática médica, fisioterapêutica e acadêmica, concebendo a oportunidade para o desenvolvimento de novas pesquisas na área. Além disso, os desfechos funcionais avaliados terão relevância prática para compreender o processo de desospitalização, contribuindo para a redução de complicações geradas pela imobilidade, e para a prevenção de futuras internações que estejam relacionadas ao declínio funcional.

3 RESULTADOS E DISCUSSÕES

Neste estudo, foram avaliados quanto aos critérios de elegibilidade 310 prontuários de pacientes internados na UTI, submetidos à ventilação mecânica invasiva, nos períodos de janeiro/2023 a junho/2025. Destes, foram excluídos 39 prontuários por não atenderem aos critérios de inclusão ou por dados incompletos, sendo incluídos efetivamente 271 prontuários na análise.

As características sociodemográficas e clínicas da amostra estão apresentadas na Tabela 1, destacando-se a distribuição por sexo, faixa etária/idade, principais motivos da internação, comorbidades, tempo de VMI e tempo de permanência na UTI. Houve predomínio do sexo feminino, representando 53,9% (n=146) da amostra. Em relação à faixa etária, houve uma variação de 22 a 98 anos, sendo a maior concentração de indivíduos com 60 anos ou mais, refletindo em uma mediana de idade de 72 anos (IIQ 60-80). 

Os principais motivos de internação na UTI, que levaram à necessidade da VMI, foram doenças cardiovasculares (26,56%), gastrointestinais (19,92%) e respiratórias (18,08%), seguidos por choque (15,49%), doenças neurológicas (13,28%), sepse (9,59%) e neoplasias (5,53%).

Entre as comorbidades mais prevalentes destacaram-se hipertensão arterial sistêmica (59,4%) e diabetes mellitus (40,59%), além de doenças renais (18,08%), tabagismo/extabagismo (11,43%) e doença pulmonar obstrutiva crônica (4,79%), havendo coexistência destas em alguns indivíduos. A mediana de tempo de VMI foi de 2 dias (IIQ 1-6), enquanto de permanência na UTI foi de 9 dias (IIQ 5-16).

Tabela 1. Características sociodemográficas e clínicas da amostra

DP = desvio padrão; DPOC = Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica; IIQ = intervalo interquartil;
UTI = Unidade de Terapia Intensiva; VMI = Ventilação Mecânica Invasiva.
Fonte: Dados da pesquisa (2025).

Constatou-se através da revisão de literatura que o público masculino é majoritariamente o mais abrangente na UTI, sendo esse fato atribuído à maior exposição a comportamentos de risco e à menor adesão a cuidados preventivos e acompanhamentos em saúde (ZETTERSTEN et al., 2021). No entanto, contrapondo o padrão descrito na literatura, trabalhos têm demonstrado uma distribuição distinta, com predomínio do sexo feminino, como visto nesta pesquisa.

Em uma investigação realizada por Dias et al. (2025) para determinar o perfil epidemiológico de pacientes críticos adultos internados na UTI de um hospital de referência da região Norte do Brasil, foram analisados 1.292 prontuários, dos quais 56,9% (n=754) eram de pacientes do sexo feminino. Do mesmo modo, resultados semelhantes foram observados em uma UTI de um hospital localizado na região metropolitana de João Pessoa – PB, em que, entre 461 pacientes internados, 50,8% (n=234) da amostra era representada pelo público feminino (CASTRO et al., 2021).

Em relação à faixa etária, observou-se que a população do presente estudo foi composta predominantemente por indivíduos idosos, com mediana de idade de 72 anos. Embora este achado não esteja sendo correlacionado diretamente com outras variáveis neste momento da análise, sua identificação é fundamental para contextualizar o perfil dos pacientes admitidos, estando em consonância com a literatura que aponta a idade avançada como um dos principais fatores associados à necessidade de internação na UTI, sendo este um reflexo do aumento da expectativa de vida e da maior vulnerabilidade a descompensações clínicas nessa faixa etária (MA et al., 2021).

Foi realizado por Ma et al. (2021) um estudo de coorte observacional retrospectivo em Pequim, com o objetivo de avaliar as características e os desfechos de pacientes submetidos à VMI na UTI, conduzido em treze hospitais, envolvendo 853 pacientes idosos. Para análise, os participantes foram classificados em três faixas etárias: inferior a 65 anos, 65 a 79 anos e maior ou igual a 80 anos. Evidenciou-se que 61,5% (n=525) tinham idade superior a 65 anos, reforçando a predominância de indivíduos com idade mais avançada.

Já em uma pesquisa realizada com 53 pacientes internados na UTI do Hospital Universitário Regional de Maringá – PR, evidenciou-se que 58,5% (n=31) possuíam a idade superior a 59 anos, revelando que os idosos correspondiam ao grupo mais frequente na UTI, fato que pode ser justificado pela prevalência de doenças crônicas agudizadas, pelos processos de senescência e senilidade e pela maior vulnerabilidade social (LARA BERSO et al., 2025).

No que tange aos motivos da internação, os resultados desta pesquisa estão em concordância com outros estudos, evidenciando os eventos cardiovasculares como fator-chave para a necessidade de admissão na UTI. Entre 90 pacientes internados em um hospital público situado na cidade de Fortaleza – CE e 546 pacientes admitidos na UTI de um hospital localizado no nordeste da Etiópia, observou-se que as doenças cardiovasculares constituíram o diagnóstico primário em ambas as populações, correspondendo a 53,3% (n=48) e 37,7% (n=206) dos casos, respectivamente nos estudos de Melaku et al. (2024) e Ribeiro et al. (2018).

Em relação às comorbidades, a hipertensão arterial sistêmica e o diabetes mellitus figuram como as doenças crônicas de maior prevalência tanto no cenário nacional quanto internacional, o que reforça a representatividade dos achados deste estudo. Em uma pesquisa realizada na UTI geral de um hospital público de ensino do Distrito Federal, cujo objetivo foi avaliar a gravidade e mortalidade de 53 pacientes críticos em VMI, observou-se a predominância da hipertensão arterial sistêmica em 69,8% e de diabetes mellitus em 47,2% dos pacientes (LOPES et al., 2018).

Resultados semelhantes foram identificados em outro estudo, com 250 pacientes adultos, conduzido em uma UTI do interior do Rio de Janeiro – RJ, no qual a hipertensão arterial sistêmica esteve presente em 59,4% da amostra e o diabetes mellitus em 33,3% (SILVA et al., 2019). Essa consistência entre diferentes estudos reforça que tais comorbidades são frequentes em pacientes críticos, refletindo o perfil clínico típico dessa população.

De acordo com o perfil e a condição clínica dos pacientes, o tempo de VMI e o período de permanência na UTI podem variar. Nesse contexto, estratégias que promovam a avaliação sistemática desses aspectos pela equipe multiprofissional têm sido associadas à melhoria dos desfechos. Em um estudo envolvendo 466 indivíduos, cujo objetivo foi avaliar o impacto da implantação de um checklist multiprofissional diário (abrangendo analgesia/sedação, VMI, profilaxias, dispositivos invasivos e estado nutricional), constatou-se que a adoção dessa ferramenta resultou na redução da mediana de dias em VMI e de permanência na UTI, de 5 para 2 dias e de 8 para 5 dias, respectivamente (MIGUEL, 2020). 

Adicionalmente, após a análise de uma coorte composta por 34.696 pacientes, com idade igual ou superior a 65 anos, identificou-se que o aumento da duração da permanência na UTI estava associado a maior mortalidade em até um ano, sugerindo que períodos prolongados podem acarretar efeitos fisiológicos e funcionais persistentes, reforçando a importância da adoção de meios que reduzam o tempo de VMI e a permanência na UTI sempre que possível (MOITRA et al., 2015).

Esses achados demonstram que intervenções organizacionais e a padronização de condutas podem influenciar diretamente no tempo de suporte ventilatório e na evolução do paciente no ambiente intensivo, contribuindo para otimização do cuidado e potencial redução de complicações associadas à internação prolongada. 

Visando minimizar os efeitos deletérios da imobilidade e da permanência prolongada na UTI, estimula-se a utilização do bundle ABCDEF, que corresponde a uma estratégia baseada em evidências que reúne ações voltadas para o manejo adequado do paciente crítico, composto por: A – avaliação, prevenção e manejo da dor; B – avaliação do despertar diário e elegibilidade para o teste de respiração espontânea; C – escolha da analgesia e sedação; D – avaliação, prevenção e manejo do delirium; E – mobilização oportuna e F – engajamento familiar. Há evidências na literatura de que sua implementação está associada à redução do tempo de VMI, da permanência na UTI e da mortalidade, além da prevenção de complicações e melhora de desfechos funcionais (CORDEIRO & MELO, 2019).

Considerando que a mobilização oportuna constitui um dos pilares do bundle ABCDEF, a avaliação da mobilidade torna-se fundamental em pacientes hospitalizados. Na tabela 2, evidencia-se a classificação de mobilidade dos pacientes de acordo com a escala IMS, a qual é originalmente classificada de 0 a 10. No entanto, no hospital em que foi realizada a pesquisa, adotou-se a categoria adicional 11, utilizada para identificar pacientes que, em razão do seu estado clínico atual, não apresentavam condições de atingir o nível de mobilidade prévio ou cujo nível funcional anterior à internação não era conhecido.

Observa-se que, em relação ao IMS prévio à internação, 78,6% (n=213) dos participantes encontravam-se nos níveis mais elevados de mobilidade (8 a 10), 4,8% (n=13) apresentavam mobilidade moderada (4 a 7) e cerca de 9,96% (n=27) estavam restritos ao leito (0 a 3), sendo ainda 6,64% (n=18) classificados como 11.

No momento da alta da UTI, verificou-se uma mudança significativa na distribuição, com aumento da proporção de pacientes nos níveis mais baixos de mobilidade, representados por 34,31% (n=93), enquanto 12,92% (n=35) encontravam-se nos níveis intermediários, 30,26% (n=82) nos níveis mais elevados e 22,51% (n=61) na categoria 11.

Tabela 2. Classificação da mobilidade dos pacientes críticos de acordo com a IMS

IMS = ICU Mobility Scale; UTI = Unidade de Terapia Intensiva.
Fonte: Dados da pesquisa (2025).

Nesse contexto, a redução dos níveis de mobilidade observada ao longo da internação pode estar relacionada ao desenvolvimento da FAUTI, embora esta condição não tenha sido avaliada diretamente no presente estudo, sendo inferida apenas a partir dos achados de mobilidade. Em um estudo realizado na UTI do Hospital Universitário de Sergipe – SE, incluindo 121 indivíduos, constatou-se que 23,1% (n=28) apresentavam baixa mobilidade, 27,3% (n=33) mobilidade moderada e 49,6% (n=60) alta mobilidade, de acordo com a IMS. No entanto, quando analisado o subgrupo de pacientes que necessitaram do suporte ventilatório invasivo, verificou-se que 44% (n=11) evoluíram com baixa mobilidade, 36,6% (n=9) com mobilidade moderada e apenas 20% (n=5) com alta mobilidade. Essa distribuição, quando correlacionada aos desfechos clínicos, evidenciou que níveis reduzidos de mobilidade estiveram associados a maior mortalidade e menor taxa de alta hospitalar na amostra geral (SANTOS MORAES et al., 2021). 

De forma semelhante, nas primeiras 24 horas de admissão de 192 indivíduos em uma UTI destinada para o atendimento COVID-19, identificou-se que apenas 3,6% (n=7) possuíam alta mobilidade. Com base nesse achado, concluiu-se que pacientes com menor mobilidade apresentaram escores significativamente mais elevados no que diz respeito ao tempo de VMI e de permanência na UTI, bem como uma maior probabilidade de óbito relacionada à maior gravidade da doença (PARANHOS, ANNONI & FERNANDES, 2024).

Em relação aos principais desfechos clínicos, apresentados na Tabela 3, observa-se que 53,5% (n=145) dos pacientes evoluíram com alta da unidade, enquanto 43,5% (n=118) foram a óbito durante a internação. Além disso, 3% (n=8) da amostra foi transferida para outra instituição hospitalar.

Tabela 3. Principais desfechos clínicos

Fonte: Dados da pesquisa (2025).

Estes dados corroboram com os resultados encontrados em um estudo realizado por Reis et al. (2021) com 321 pacientes que foram admitidos e atendidos pela fisioterapia na UTI do Hospital Regional de Eunápolis – BA, no qual ao investigar o desfecho clínico, identificou-se que 55% (n=178) dos pacientes admitidos tiveram alta hospitalar, 36% (n=117) evoluíram para óbito e 8% (n=26) necessitaram de transferência. De forma semelhante, em uma outra pesquisa, realizada por Corrêa et al. (2024) no Hospital Regional Universitário de Maringá – PR, envolvendo 153 pacientes, verificou-se que 58,8% (n=90) receberam alta da UTI, 37,3% (n=57) foram a óbito e 3,9% (n=6) transferidos.

Nesse sentido, as diferenças observadas nas taxas de alta e mortalidade, mesmo que não tão significativas, podem estar relacionadas ao perfil clínico dos pacientes, ao nível de gravidade, ao tempo de VMI e de permanência na UTI e à prevalência de comorbidades entre as amostras comparadas. 

Apesar dos resultados encontrados, algumas limitações devem ser consideradas. Primeiramente, não houve a utilização padronizada no hospital em questão de uma escala de gravidade, como por exemplo, o escore Sequential Organ Failure Assessment (SOFA) ou Acute Physiology and Chronic Health Evaluation II (APACHE II), no momento da admissão à UTI, impossibilitando a compreensão mais precisa do nível de gravidade da disfunção orgânica nestes pacientes. 

Em segundo lugar, a heterogeneidade da amostra, especialmente em relação à ampla variação etária dos pacientes, pode ter influenciado os desfechos analisados, uma vez que a idade pode impactar diretamente a funcionalidade e a recuperação física/clínica durante a internação em unidades de alta complexidade.

Por fim, a utilização exclusiva da escala IMS como medida de avaliação funcional restringiu a análise a um único domínio da funcionalidade. A ausência de registros complementares, como a avaliação qualitativa da força muscular por meio da escala Medical Research Council (MRC), e a mensuração quantitativa da força de preensão palmar com dinamômetro, limitou a identificação mais precisa do declínio funcional ao longo da internação hospitalar, uma vez que essas medidas podem refletir a força muscular global. Assim, a combinação de diferentes instrumentos de avaliação funcional poderia fornecer um panorama mais robusto e abrangente do estado físico desses pacientes.

4 CONCLUSÃO

Os resultados obtidos neste estudo oferecem uma visão abrangente acerca dos desfechos funcionais de pacientes submetidos à VMI na UTI, evidenciando implicações relevantes para o cuidado multiprofissional e para a reabilitação no ambiente crítico. A população estudada foi predominantemente composta por indivíduos idosos, com mediana de idade de 72 anos, portadores de múltiplas comorbidades, destacando-se a hipertensão arterial sistêmica e diabetes mellitus. Além disso, verificou-se que a mediana de tempo em VMI e de permanência na UTI foi de 2 e 9 dias, respectivamente.

Os achados funcionais demonstraram um declínio da mobilidade ao longo da internação, revelado pela mudança na distribuição dos pacientes entre as categorias da escala IMS, com aumento da proporção de indivíduos com níveis mais baixos de mobilidade no momento da alta da UTI. Dessa forma, fica evidente que a hospitalização na UTI, ainda que por curto período, gera um declínio funcional, impactando na recuperação e possivelmente no retorno às atividades após a alta hospitalar.

Em síntese, a compreensão dos efeitos da VMI e do internamento prolongado sobre a mobilidade fornece uma base sólida para a implementação de estratégias de intervenção eficazes, como a mobilização oportuna, o acompanhamento fisioterapêutico contínuo e o monitoramento da função física ao longo do período de permanência na UTI. Diante disso, evidencia-se a importância da adoção de protocolos que estimulem a mobilização oportuna, com o principal intuito de reduzir o declínio funcional, contribuir para a reabilitação dos pacientes críticos e, possivelmente, possibilitar um melhor prognóstico clínico.

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1Fisioterapeuta Residente, Hospital do Subúrbio/Hospital da Cidade, Salvador – BA, e-mail: fisio.laianedamasceno@gmail.com 

2Fisioterapeuta Preceptor, Hospital do Subúrbio, Salvador – BA, e-mail: fisioterapiaft.ub@gmail.com / leomorais7@gmail.com

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