DIFFERENTIAL DIAGNOSIS BETWEEN FEBRILE SEIZURES AND MENINGOENCEPHALITIS IN PEDIATRICS: A LITERATURE REVIEW
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/fa10202601111508
Raquel Gomes Ferreira1
Monique Tavares Marliere2
RESUMO
Diferenciar convulsão febril de meningoencefalite em crianças é um desafio frequente na prática clínica, principalmente nas primeiras horas de atendimento, quando os sinais podem se parecer. Esta revisão integrativa teve como objetivo reunir e analisar as evidências científicas sobre critérios clínicos, exames laboratoriais, neuroimagem e biomarcadores que ajudam nesse diagnóstico diferencial. Foram incluídos artigos publicados nos últimos 10 anos, em português, inglês e espanhol, abrangendo estudos primários, como ensaios clínicos, estudos observacionais e séries de casos, resultando em uma amostra final de oito trabalhos. Os achados mostraram que a combinação de avaliação clínica detalhada, EEG precoce, biomarcadores séricos (como neuron-specific enolase) e exames de neuroimagem aumenta a precisão do diagnóstico e permite identificar precocemente crianças com risco de encefalopatia. Sinais de alerta, como duração prolongada da crise, alterações focais e recuperação neurológica incompleta, devem orientar investigação complementar, incluindo punção lombar e acompanhamento contínuo. Também foi observado que resultados normais nos exames iniciais não excluem a possibilidade de encefalopatia, sendo necessário monitorar a evolução clínica e repetir exames conforme necessário. Entre as limitações, destacam-se a heterogeneidade dos estudos, amostras pequenas e falta de padronização em biomarcadores e EEG. Assim, recomenda-se que futuras pesquisas incluam amostras maiores, protocolos padronizados e estratégias combinadas de avaliação para melhorar a detecção precoce, reduzir complicações e fornecer orientações práticas mais consistentes para o manejo de crianças com crises convulsivas.
Palavras-Chaves: Diagnóstico; Convulsão Febril; Meningoencefalite; Pediatria.
ABSTRACT
Distinguishing febrile seizures from meningoencephalitis in children is a common clinical challenge, especially during the first hours of presentation, when symptoms may overlap. This integrative review aimed to gather and analyze scientific evidence on clinical criteria, laboratory tests, neuroimaging, and biomarkers that assist in this differential diagnosis. Articles published in the last 10 years, in Portuguese, English, and Spanish, including primary studies such as clinical trials, observational studies, and case series, were included, resulting in a final sample of eight studies. The findings showed that combining detailed clinical assessment, early EEG, serum biomarkers (such as neuron-specific enolase), and neuroimaging improves diagnostic accuracy and allows early identification of children at risk of encephalopathy. Warning signs, such as prolonged seizure duration, focal abnormalities, and incomplete neurological recovery, should guide additional investigations, including lumbar puncture and continuous follow-up. Normal results on initial exams do not exclude encephalopathy, emphasizing the need for clinical monitoring and repeated testing when necessary. Limitations of the studies include heterogeneity, small sample sizes, and lack of standardization in biomarkers and EEG interpretation. Future research should focus on larger samples, standardized protocols, and integrated diagnostic strategies to enhance early detection, reduce complications, and provide practical guidance for the management of children with convulsive episodes.
Keywords: Diagnosis; Febrile Seizure; Meningoencephalitis; Pediatrics.
1. INTRODUÇÃO
O diagnóstico diferencial entre convulsão febril e meningoencefalite na pediatria representa um desafio importante para profissionais de saúde. Ambas as condições podem se manifestar de forma semelhante no início do quadro clínico, o que exige uma avaliação criteriosa para evitar atrasos terapêuticos e possíveis complicações. A distinção correta é essencial para direcionar o tratamento adequado e garantir maior segurança ao paciente pediátrico (Smith; Sadler; Benedum, 2019).
As convulsões febris são episódios convulsivos que ocorrem em crianças, geralmente entre 6 meses e 5 anos, associadas à elevação da temperatura corporal, mas sem evidência de infecção intracraniana. Embora sejam eventos que costumam assustar familiares e cuidadores, em grande parte dos casos não estão associados a sequelas neurológicas permanentes. No entanto, sua ocorrência demanda atenção clínica imediata para afastar outras causas mais graves (Laino; Mencaroni; Esposito, 2018).
Já a meningoencefalite é uma condição inflamatória que compromete as meninges e o tecido cerebral, resultante, na maioria das vezes, de infecções bacterianas ou virais. Trata-se de uma enfermidade de maior gravidade, com risco elevado de sequelas neurológicas e até óbito, quando não diagnosticada e tratada precocemente. Por esse motivo, a identificação rápida dos sinais que diferenciam a meningoencefalite de uma convulsão febril simples ou complexa é fundamental na prática pediátrica (Leung, 2018).
O contexto clínico inicial, entretanto, pode confundir. Sintomas como febre, irritabilidade, sonolência, cefaleia e vômitos podem estar presentes em ambos os quadros, dificultando a tomada de decisão imediata. Diante dessa sobreposição de manifestações, torna-se necessário avaliar o histórico da criança, o tipo de convulsão apresentada e a presença de sinais neurológicos específicos que sugerem comprometimento do sistema nervoso central (Ferretti et al., 2024).
Além disso, exames laboratoriais e de imagem podem ser importantes para diferenciar uma convulsão febril de uma meningoencefalite. Testes como hemograma, avaliação de eletrólitos, punção lombar e tomografia ou ressonância magnética ajudam a identificar infecções, inflamações ou alterações estruturais no cérebro que exigem intervenção rápida. Essa abordagem cuidadosa permite que o profissional de saúde tome decisões mais seguras, evitando atrasos no tratamento de quadros graves e minimizando riscos para a criança. Esses recursos auxiliam a confirmar ou excluir a hipótese diagnóstica, contribuindo para a conduta terapêutica mais adequada (Corsello et al., 2024).
Além do aspecto clínico, é importante considerar o impacto emocional que esses eventos geram nas famílias. A ocorrência de uma crise convulsiva em uma criança é motivo de grande apreensão, e a possibilidade de uma doença infecciosa grave, como a meningoencefalite, aumenta ainda mais a angústia. Nesse sentido, a comunicação clara entre profissionais de saúde e familiares se mostra essencial, tanto para esclarecer dúvidas quanto para reforçar a importância da adesão ao tratamento indicado (Leung, 2018).
Diante desse cenário, a realização deste estudo justifica-se pela sua relevância acadêmica, científica e social tendo como pauta: A diferenciação precoce entre convulsão febril e meningoencefalite em crianças representa um desafio significativo na prática clínica, uma vez que os sinais iniciais podem ser semelhantes, mas as consequências e o manejo de cada condição são bastante distintos. Nesse contexto, ao organizar e sintetizar o conhecimento científico disponível, permitindo a compreensão dos critérios clínicos, laboratoriais, neuroimagem e biomarcadores que auxiliam no diagnóstico; relevância científica, ao identificar lacunas na literatura e orientar futuras investigações para aprimorar protocolos diagnósticos e reduzir complicações neurológicas.
Diante disso, o objetivo desta pesquisa incide em: analisar e sintetizar as evidências científicas disponíveis sobre o diagnóstico diferencial entre convulsão febril e meningoencefalite na pediatria.
2. METODOLOGIA
Este estudo trata-se de uma Revisão Integrativa da Literatura, cujo objetivo é mapear, organizar e sintetizar a literatura científica existente sobre o tema em questão. Trata-se de um tipo de estudo secundário, descritivo e qualitativo, que segue diretrizes metodológicas estabelecidas pelo Joanna Briggs Institute (JBI) e pelo checklist Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses Extension for Scoping Reviews (PRISMA).
Para a construção da pergunta de pesquisa utilizou-se a estratégia PICO, sendo:
- População (P): crianças com crises convulsivas associadas a febre ou suspeita de infecção do sistema nervoso central;
- Intervenção (I): avaliação clínica, exames laboratoriais, neuroimagem e biomarcadores utilizados para diagnóstico diferencial;
- Comparação (C): ausência de avaliação sistemática ou critérios diagnósticos tradicionais sem auxílio de biomarcadores ou métodos avançados de imagem;
- Desfecho (O): acurácia no diagnóstico diferencial entre convulsão febril e meningoencefalite, detecção precoce de encefalopatia, redução de complicações e aprimoramento do manejo clínico.
Desta forma, formulou-se o problema de pesquisa através da seguinte pergunta: Quais critérios clínicos, laboratoriais, de imagem e biomarcadores diferenciam a convulsão febril de meningoencefalite em crianças?
A seleção das bases de dados considerou fontes: PubMed, SCIELO, BVS e LILACS, permitindo o acesso a estudos relevantes e atualizados. A construção da estratégia de busca envolveu a definição dos descritores e palavras-chave, utilizando termos indexados no Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e no Medical Subject Headings (MeSH). Com base nesses descritores, as estratégias de busca utilizaram operadores booleanos (AND, OR) para maximizar a recuperação de estudos relevantes. A estratégia de busca para cada base de dados foi detalhada no Quadro 1.
Quadro 1: Detalhamento da estratégia de busca nas bases de dados selecionadas.

Essa estratégia foi ajustada conforme a estrutura e os filtros de cada base de dados, garantindo a obtenção de estudos alinhados ao objetivo da revisão. A pesquisa adota critérios rigorosos de inclusão e exclusão para selecionar os estudos mais relevantes.
Foram adotados como critérios de inclusão artigos publicados nos últimos 10 anos, em todos os idiomas que abordassem o assunto deste trabalho. Além disso, foram considerados estudos primários, compreendendo ensaios clínicos, estudos observacionais, coorte, caso-controle, transversal e estudos de séries de casos.
Foram excluídos trabalhos pagos, duplicados nas bases supracitadas, revisões sistemáticas, meta-análises, artigos secundários que não apresentassem novos dados clínicos; literatura cinzenta, bem como artigos sem metodologia estruturada.
Diante disso, utilizou-se a ferramenta Rayyan para apoiar a triagem dos resultados das buscas nas bases de dados, permitindo a seleção dos estudos com base nos critérios de inclusão e exclusão previamente definidos no protocolo. A seleção dos estudos foi realizada em três etapas sucessivas: (1) remoção de duplicatas, (2) triagem por título e resumo e (3) leitura do texto completo. Inicialmente, todos os registros recuperados nas bases de dados serão organizados e as duplicatas serão eliminadas. Os artigos selecionados foram analisados na íntegra para confirmar a elegibilidade de acordo com os critérios pré-estabelecidos.
Essa sequência detalhada, com o número de artigos em cada etapa e os critérios utilizados para exclusão, está ilustrada na Figura 1.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
A busca sistemática resultou em um total de 416 estudos identificados nas bases de dados selecionadas, distribuídos da seguinte forma: 63 na PUBMED, 293 na BVS, 35 na LILACS e 25 na SCIELO. Após a aplicação do critério de recorte temporal definido para o estudo, 225 artigos foram excluídos, restando 191 trabalhos para a fase de triagem inicial. Nesta etapa, 81 estudos foram identificados como duplicados e 55 não estavam disponíveis na íntegra, reduzindo o número de estudos elegíveis para análise a 55.
Na sequência, a análise detalhada dos artigos evidenciou a necessidade de excluir 20 trabalhos de revisão, resultando em 35 estudos submetidos à avaliação completa. Durante a revisão integral, 7 artigos foram removidos por exigirem pagamento para acesso e 20 não estavam diretamente relacionados ao tema proposto, restando, ao final, 8 estudos que atenderam integralmente aos critérios de inclusão e ao problema de pesquisa em questão.
Estes estudos formaram a base final para análise e discussão dos resultados.
Figura 1: Fluxograma de seleção da amostra – PRISMA

Os 08 estudos selecionados para a amostra, foram organizados no quadro 2, estruturado entre as respectivas informações de: Título, autor, ano de publicação, periódico e principais desde os referentes ao problema em questão.
Quadro 2: Descrição da amostra selecionada.
O diagnóstico diferencial entre convulsão febril e meningoencefalite em crianças é um desafio frequente na prática clínica, especialmente nas primeiras horas de atendimento, quando sinais iniciais podem se parecer. Nesse sentido, estudos recentes mostram que uma história clínica detalhada e um exame neurológico cuidadoso são essenciais para identificar crianças que precisam de investigação complementar. De acordo com Hélène et al. (2025) destacam que, embora convulsões generalizadas febris sejam comuns, sinais como alterações focais, duração prolongada da crise e recuperação incompleta aumentam a suspeita de encefalopatia ou infecção do sistema nervoso central.
Além disso, a utilização do eletroencefalograma (EEG) combinado com biomarcadores séricos tem mostrado resultados promissores na diferenciação precoce. Segundo Cao, Xiao e Li (2025) demonstraram que a associação de EEG com níveis de neuron-specific enolase (NSE) aumenta significativamente a precisão diagnóstica, sendo que alterações no EEG associadas a NSE elevado indicam maior risco de sequelas neurológicas. De maneira semelhante, Chaudhary et al. (2017) reforçam que a combinação desses recursos melhora a sensibilidade e especificidade na identificação de lesões encefálicas.
A análise do espectro de potência do EEG também é relevante para diferenciar convulsões febris de encefalopatias. Como aponta Ogawa et al. (2025) mostraram que padrões alterados de power-spectrum no início da avaliação permitiram identificar crianças com risco de evoluir para encefalopatia aguda com convulsões bifásicas (AESD), distinguindo-as de pacientes com convulsão febril prolongada. Esses achados reforçam a importância do EEG precoce e, quando possível, contínuo.
Outro ponto importante é a utilização da neuroimagem, especialmente a ressonância magnética (RM) com difusão. Conforme a pesquisa realizada por Chagantipati et al. (2024) os autores observaram que, mesmo quando os exames iniciais não apresentam alterações, crianças que evoluem para AESD podem mostrar difusão reduzida tardia em MRI. Portanto, a repetição da RM diante de deterioração clínica é fundamental, permitindo a identificação precoce de complicações.
Os achados clínicos também são consistentes entre os estudos no que diz respeito aos sinais de alerta que exigem investigação imediata. Já Kamo et al. (2025) apontam que alterações persistentes do nível de consciência, sinais meníngeos e alterações focais no exame neurológico devem motivar a realização de punção lombar e exames complementares, reforçando o que Hélène et al. (2025) descrevem sobre a triagem rápida em emergências pediátricas.
A epidemiologia das convulsões fornece informações adicionais para orientar a triagem. Já o estudo realizado por Zhang et al. (2023) explicam que convulsões febris ocorrem mais frequentemente em crianças pequenas, são geralmente generalizadas e de curta duração, enquanto casos de encefalopatia podem se manifestar de forma progressiva e bifásica, apesar de ocorrerem em faixas etárias semelhantes. Dessa forma, a observação da evolução temporal é um elemento-chave na diferenciação.
A duração da crise e a presença de sinais focais são também indicadores confiáveis de risco de encefalopatia. Conforme estudo realizado por Mwipopo et al. (2023) os autores reforçam que crises prolongadas ou com características focais exigem investigação complementar, pois aumentam a probabilidade de envolvimento do sistema nervoso central e de sequelas neurológicas. Esse consenso demonstra a relevância de critérios clínicos detalhados na avaliação inicial.
Comparando as estratégias diagnósticas, observa-se que a integração de EEG, biomarcadores e monitoramento contínuo proporciona detecção precoce de casos de encefalopatia que poderiam ser confundidos com convulsão febril simples. Em consonância a isso, Cao, Xiao e Li (2025), assim como Ogawa et al. (2025), destacam que essa abordagem multidimensional é mais eficaz do que o uso isolado de exames clínicos ou laboratoriais.
A literatura também evidencia que a ausência de alterações em exames iniciais não exclui a encefalopatia. Os autores Chagantipati et al. (2024) e Zhang et al. (2023) enfatizam a necessidade de acompanhamento da evolução clínica e repetição de exames, especialmente EEG e RM, diante de qualquer sinal de deterioração neurológica. Isso reforça a importância de protocolos dinâmicos na avaliação pediátrica.
Com isso, os estudos analisados indicam que a diferenciação entre convulsão febril e meningoencefalite deve considerar uma combinação de critérios clínicos, exames laboratoriais, EEG, biomarcadores e neuroimagem, sempre observando a evolução temporal dos sinais. Essa integração, permite diagnóstico precoce, melhora o prognóstico e reduz complicações, ao mesmo tempo em que evidencia lacunas na padronização de protocolos e a necessidade de pesquisas futuras.
CONCLUSÃO
Esta pesquisa mostrou que o diagnóstico diferencial entre convulsão febril e meningoencefalite em crianças depende da combinação de critérios clínicos, exames laboratoriais, EEG, biomarcadores e neuroimagem. Além disso, a observação da evolução clínica e a repetição de exames em casos de piora são fundamentais para identificar precocemente condições graves e prevenir sequelas neurológicas.
Apesar desses avanços, os estudos apresentam limitações, como amostras pequenas, protocolos de avaliação variados e falta de padronização na definição de biomarcadores e parâmetros de EEG e neuroimagem. Essas diferenças dificultam a generalização dos resultados e a criação de diretrizes consistentes para a prática clínica.
Dessa forma, pesquisas futuras devem ser conduzidas com amostras maiores e multicêntricas, utilizando protocolos padronizados e avaliando a eficácia de estratégias combinadas de diagnóstico. Além disso, é necessário desenvolver protocolos clínicos claros para apoiar a triagem e o acompanhamento de crianças com convulsões em diferentes contextos de atenção à saúde.
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1Médica, Residente de Pediatria pelo Hospital de Taguatinga SES – DF
2Médica, Especialista em Pediatria pela Sociedade Brasileira de Pediatria
