DESFECHO CLÍNICO PÓS ALTA DE PACIENTES INTERNADOS POR INSUFICIÊNCIA CARDÍACA DESCOMPENSADA NO ESTADO DO AMAZONAS

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202512140742


Autor: Lucas Braga de Melo
Orientador: João Marcos Bemfica Barbosa Ferreira
Coautores: Paula Carolina Lobato da Cunha; Flávio Renan Paula da Costa Alcântara; Luis Antonio Barbosa Neto; Beatriz Ferreira Viana; Ana Carolina Mota de Sousa; Matheus Chaves Caldas; Thais Andréa dos Anjos Martins; Gleide Elane Braga Ferreira


RESUMO 

A insuficiência cardíaca (IC) é uma síndrome clinicamente comum caracterizada  por uma desordem estrutural e funcional do coração que resulta na incapacidade do  ventrículo ejetar sangue ao organismo, sendo a via final de todas as doenças que  acometem o coração. Ela tem alta prevalência e impacto na morbidade e mortalidade em  todo mundo, sendo um grave problema de saúde. A IC em sua forma descompensada  tem início e gravidade dos sintomas variados, dependendo da etiologia da doença, tendo  os pacientes acometidos altas taxa de readmissão hospitalar pós-alta, além de altos  índices de mortalidade. Além disso, a história natural da doença cursa com outras  complicações, como infarto agudo do miocárdio, edema pulmonar cardiogênico, parada  cardiorrespiratória e óbito. O seguinte trabalho tem como objetivo acompanhar durante 1 ano a evolução clínica pós-alta de pacientes internados por IC descompensada em um  hospital terciário no Amazonas, sendo um estudo observacional longitudinal. Os  critérios de inclusão serão idade acima de 18 anos com diagnóstico definitivo de IC de  acordo com os Critérios de Boston. Os resultados do estudo permitirão discutir medidas  mais acessíveis e eficazes os pacientes, além de determinar medidas preventivas  apropriadas e formas conscientes de investimento financeiro, com o objetivo de mudar o  contexto vivenciado pela grande prevalência da IC. 

Palavras-Chaves: Insuficiência Cardíaca; Hospitalização; Evolução.

1 INTRODUÇÃO 

A insuficiência cardíaca (IC) é uma síndrome clinicamente comum caracterizada  por uma desordem estrutural e funcional do coração que resulta na incapacidade do  ventrículo ejetar sangue ao organismo, sendo a via final de todas as doenças que  acometem o coração 1

Ela tem alta prevalência e impacto na morbidade e mortalidade em todo  mundo, sendo um grave problema de saúde. Em homens, tem prevalência de 8 por 1000  na idade de 50 a 59 anos, aumentando para 66 por 1000 entre 80 a 89 anos; nas mulheres é semelhante, sendo 8 e 79 por 1000, respectivamente. A incidência anual no  sexo masculino é de 2 por 1000 entre 35 e 64 anos e de 12 por 1000 aos 65 e 94 anos,  tendo como probabilidade de desenvolvimento de IC em toda a vida de  aproximadamente 20% em todas as idades acima de 40 anos 2

Nos Estados Unidos, ocorreu um aumento na taxa de mortalidade por IC de 5,8 por mil em 1970 para 16,4 por mil em 1993 3. Prevê-se que a prevalência de IC nos  Estados Unidos aumente nas próximas quatro décadas, com uma estimativa de 772.000  novos casos de IC projetados no ano de 2040 4

A IC em sua forma descompensada tem início e gravidade dos sintomas variados, dependendo da etiologia da doença, tendo os pacientes acometidos altas taxa  de readmissão hospitalar pós-alta, além de altos índices de mortalidade. Além disso, a  história natural da doença cursa com outras complicações, como infarto agudo do  miocárdio, edema pulmonar cardiogênico, parada cardiorrespiratória e óbito 5,6

Deve-se suspeitar de IC avançada quando um paciente apresenta sintomas  graves persistentes mesmo em tratamento farmacológico. A grande maioria dos  pacientes com IC avançada já tem um diagnóstico prévio de IC. Com o passar do tempo, muitos progredirão para IC avançada que é refratária à terapia médica dirigida  por diretrizes 7

O estudo que aqui se mostra faz parte de um estudo nacional denominado  BREATHE EXTENSÃO – I REGISTRO BRASILEIRO DE INSUFICIÊNCIA CARDÍACA, realizado pelo Departamento de Insuficiência Cardíaca da Sociedade Brasileira de Cardiologia, registro que incorpora hospitais públicos e privados de  diferentes regiões do Brasil. 

Dessa forma, a pesquisa irá retratar dados clínicos de pacientes com diagnóstico  de IC ao longo de um ano, na qual será avaliado, durante esse período, complicações  ocorrentes, taxas de mortalidade, procedimentos diagnósticos e terapêuticos realizados  pelo candidato após um ano de alta hospitalar, sendo esses dados comparados de acordo  com o perfil demográfico de cada paciente. 

1.1 OBJETIVOS 

1.1.1 OBJETIVO GERAL 

Descrever o desfecho clínico da IC em pacientes após alta por hospitalar por IC  descompensada em um hospital terciário no estado do Amazonas. 

1.1.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS 

1 – Analisar a taxa de mortalidade dos pacientes alta hospitalar por IC  descompensada; 

2 – Verificar o índice de reinternações hospitalares; 

3 – Relatar as intercorrências dos pacientes após alta hospitalar. 

1.2 JUSTIFICATIVA 

Somente no Brasil, foram registrados 8.597.955 mortes entre 2004 a 2011. Os  códigos da CID-10 para causas básicas de morte obtidos das declarações de óbito  tiveram registrado aproximadamente 223.000 óbitos por IC 9

A internação por IC aguda, por si, aumenta a percentual de hospitalização, com  taxas de re-hospitalização de 50% dentro dos 12 meses após alta hospitalar, sendo a  própria hospitalização um fator de risco ao paciente 10. Nos EUA são gastos  anualmente, cerca de oito bilhões de dólares, com custo médio de US$7.000,00 por  paciente a cada internação 7

Das 1.137.572 internações por doenças do aparelho circulatório em 2012, cerca  de 21% foram devidas à IC. Além disso, quase 50% de todos os pacientes internados com este diagnóstico são readmitidos dentro de 90 dias após a alta  hospitalar e que essa readmissão hospitalar é um dos principais fatores de risco para  morte nesta síndrome 8

Como observado, a IC de trata de uma doença muito crítica, por tem um grande  impacto nos índices epidemiológicos e financeiros. Além disso, apresenta restrições  físicas e fisiológicas ao paciente, por ter um acometimento sistêmico. 

No Brasil, poucos estudos relatam os índices de complicações e taxas de  evolução do paciente após internação por IC descompensada, mediante ao uso de  terapias, seja elas farmacológicas ou procedimentos cirúrgicos. 

Com isso, este estudo tem como propósito documentar as complicações mais  comuns que ocorrem em pacientes com IC e seu estado clínico durante um ano,  relatando os procedimentos avaliativos e terapêuticos adotados para os mesmos. 

Sendo assim, identificará o perfil clínico de cada paciente em um determinado  contexto, sendo possível discutir, com os resultados da análise, uma elaboração  terapêutica mais adequada e acessível para cada paciente, além de determinar  medidas preventivas apropriadas e formas conscientes de investimento financeiro. 

2 METODOLOGIA 

2.1 TIPO DE ESTUDO 

Trata-se de um estudo observacional descritivo longitudinal. 

2.2 LOCAL DO ESTUDO 

O estudo engloba a área médica da cardiologia, na qual será rastreado  características clínicas de paciente pós-alta hospitalar admitidos com diagnóstico  clínico de IC descompensada no Hospital Universitário Francisca Mendes,  localizado na Avenida Camapuã, 108, Cidade Nova, Manaus, Amazonas. 

2.3 POPULAÇÃO E AMOSTRA 

A amostra estimada para este estudo será de 100 pacientes, sendo fundamental  que os pacientes registrados representem de forma fidedigna a população que é  atendida na instituição. Dessa forma, serão incluídos aqueles que se mostraram  presentes nos diferentes setores de observação clínica do Hospital, como enfermaria  e Unidade de Terapia Intensiva. 

2.4 CRITÉRIOS DE INCLUSÃO E EXCLUSÃO 

O estudo terá como critério de inclusão pacientes com idade superior a 18 anos,  com aceitação na participar do estudo mediante assinatura do Termo de  Consentimento Livre e Esclarecido que apresentem diagnóstico clínico de IC tendo  como referencia a presença de pontuação maior ou igual a 7 nos Critérios de Boston.  Serão excluídos deste estudo aqueles submetidos a procedimentos de  revascularização do miocárdio (angioplastia ou cirurgia) no mês anterior a internação hospitalar, que apresentam sinais de IC secundária em um quadro de sepse, recusa em participar do estudo ou retirada do consentimento. 

2.5 COLETA DOS DADOS 

A coleta dos dados será realizada após identificação do paciente de acordo com  os critérios de inclusão e exclusão. Os pacientes serão avaliados após alta hospitalar,  na qual será questionado uma série de informações sobre intercorrências médicas,  fármacos em uso, acompanhamento médico, procedimentos realizados e gastos com  adaptação do paciente em 3 momentos: após 3, 6 e 12 meses. Os dados serão  colhidos através de contato por meio de telefonema e análise dos prontuários do  ambulatório. No último momento (12 meses), será incluído no questionário  informações sobre valores laboratoriais, sendo os mesmos comparados com aqueles  colhidos durante a alta hospitalar, sendo possível realizar um comparativo da  evolução dos mesmos. 

2.6 ANÁLISE DOS DADOS 

Variáveis quantitativas serão descritas por média e desvio-padrão na presença de  distribuição normal ou mediana e amplitude interquartil na presença de distribuição  assimétrica. As variáveis qualitativas serão apresentadas por frequências absolutas  (número de pacientes) e relativas (percentuais). Serão relatados os valores-p até 3  casas decimais com valores-p inferiores a 0,001 relatados como p<0,001. Em todos  os testes, será utilizado o nível de significância alfa bicaudal = 0,05. Todas as  análises serão realizadas usando Stata versão 10.0 (StataCorp. 2007. College Station, TX: StataCorp LP) 

2.7 QUESTÕES ÉTICAS 

O presente projeto faz parte de um registro nacional de IC organizado pela  Sociedade Brasileira de Cardiologia (BREATHE Extensão – I REGISTRO  BRASILEIRO DE INSUFICIÊNCIA CARDÍACA) e já foi aprovado pelo Comitê  de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Amazonas sob o número CAAE  53595816.8.2047.5020 e parecer 2.004.841em 06 de abril de 2017. 

3 RESULTADOS  

No período de agosto de 2017 até agosto de 2020, foram incluídos 101 pacientes,  tendo 17 óbitos intra-hospitalares e perda de segmento de 5. A taxa de mortalidade  foi de 32%, totalizando 27 óbitos, mostrando uma elevada taxa de mortalidade, no  qual dentre as causas cardiovasculares foram registrados o Infarto Agudo do  Miocardio como a principal (12), seguido de Edema Agudo de Pulmão (9) e  Acidente Vascular Cerebral Hemorrágico (1), e entre outras causas de óbito foram  registrados Sepse (2) e COVID-19 (1). O evento cardiovascular mais prevalente foi  Infarto Agudo do Miocárdio (17), além de outros como Acidente Vascular Cerebral  Isquêmico (7), Parada Cardiorrespiratória (3) e Acidente Vascular Cerebral  Hemorrágico (1). Houveram 30 reinternações durante o segmento, sendo 40% por  descompensação da IC. O tempo médio de hospitalização foi 25,9 dias, ou seja,  bastante elevado. A troca valvar (15) foi o procedimento mais realizado, seguido da  Revascularização do Miocardio (6), Angioplastia (4), Marcapasso (1) e Transplante  Cardiaco (1). Em relação ao acompanhamento clínico, 15 pacientes afirmaram não  estarem em acompanhamento médico.

Procedimentos realizados
Troca Valvar15
Revascularização do Miocárdio6
Angioplastia4
Marcapasso1
Transplante Cardíaco1

4 CONCLUSÃO 

O estudo mostrou elevada taxa de mortalidade em pacientes com IC durante o  período de acompanhamento, associado a um valor significativo de reinternação  hospitalar por descompensação da doença, cujo tempo de se mostrou elevado.  Podemos afirmar que a IC se torna uma patologia que pode gerar elevados gastos  para controle da doença, tanto no manejo clínico como pela necessidade de  tratamentos cirúrgicos. Dessa forma, algumas intervenções se tornam necessárias  para uma tentativa de reversão dos dados apresentados, como implementações de  programas de educação aos pacientes para conscientização da boa adesão  terapêutica e acompanhamento, avaliação e otimização medicamentosa com objetivo  de manter os pacientes compensados, reduzir internações por descompensação e  evitando gastos complementares e implementação de intervenções quando  indicadas. 

5 REFERÊNCIAS 

1. MEYER, Theo E. Approach to acute decompensated heart failure in adults. Abril, 2018 

2. VASAN, Ramachandran S.; WILSON, Peter. Epidemiology and causes of  heart failure. Up To Date, v. 16, 2011. 

3. LEVY, Daniel et al. Long-term trends in the incidence of and survival with  heart failure. New England Journal of Medicine, v. 347, n. 18, p. 1397- 1402, 2002. 

4. OWAN, Theophilius E.; REDFIELD, Margaret M. Epidemiology of diastolic  heart failure. Progress in cardiovascular diseases, v. 47, n. 5, p. 320-332,  2005.7 

5. COLUCCI, Wilson S. Overview of the therapy of heart failure with  reduced ejection fraction. UpToDate Inc., Waltham, MA. Last reviewed  February, 2017 

6. COLUCCI, W. et al. Treatment of acute decompensated heart failure:  Components of therapy. UpToDate. Waltham, MA: UpToDate, 2012.

7. Weingarten SR, Riedinger MS, Shinbane J et al – Triage practice guideline  for patients hospitalized with congestive heart failure: improving the  effectiveness of the coronary care unit. Am J Med 1993; 94: 483-90

8. ALBUQUERQUE, D. C. et al. I Registro brasileiro de insuficiência  cardíaca–aspectos clínicos, qualidade assistencial e desfechos  hospitalares. Arq Bras Cardiol, v. 104, n. 6, p. 433-42, 2015. 

9. GAUI, Eduardo Nagib; et al. Mortalidade proporcional por insuficiência  cardíaca e doenças isquêmicas do coração nas regiões do brasil de 2004 a  2011. Arq Bras Cardiol, v. 107, n. 3, p. 230-8, 2016. 

10. ANDRIETTA, Maria Paula; et al. Plano de alta hospitalar a pacientes com  insuficiência cardíaca congestiva. Revista Latino-Americana de Enfermagem, v. 19, n. 6, 2011. 

11. MW, Montera; et al. II Diretriz brasileira de insuficiência cardíaca  aguda. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, v. 93, n. 3, p. 2-65, 2009. 

12. BOCCHI, Edimar Alcides et al. III Diretriz brasileira de insuficiência  cardíaca crônica. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, v. 93, n. 1, p. 3-70,  2009. 

13. Wilson S Colucci, MD; Shannon M Dunlay, MD, MS. Clinical manifestations  and diagnosis of advanced heart failure. UpToDate Inc., Waltham, MA: Jun  14, 2017