REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202512140818
Enzo Souza Palhares1
Pedro Antônio Alves Guimarães2
Juliana Lilis da Silva3
Natália de Fátima Gonçalves Amâncio4
Resumo: A tireoidite de Hashimoto é a principal causa de hipotireoidismo adquirido na infância e adolescência, porém seu diagnóstico permanece desafiador devido à apresentação frequentemente assintomática e à grande variabilidade clínica entre as faixas etárias. Esta revisão integrativa analisou 25 artigos publicados entre 2021 e 2025, selecionados nas bases PubMed, Google Scholar e EBSCOHost, além de plataformas complementares. Os estudos mostraram que a maioria dos pacientes pediátricos é diagnosticada em fases eutireoide ou de hipotireoidismo subclínico, com sintomas discretos, o que reduz a sensibilidade da avaliação clínica inicial. Crianças pré-púberes e menores de três anos tendem a apresentar quadros mais graves, enquanto adolescentes são frequentemente identificados por achados laboratoriais incidentais. Observou-se alta associação com outras doenças autoimunes, como diabetes tipo 1 e doença celíaca, além de maior prevalência em síndromes genéticas, especialmente síndrome de Down, reforçando a necessidade de rastreamento em grupos de risco. Nenhum exame isolado mostrou-se suficiente para o diagnóstico, sendo mais eficiente a combinação de TSH, T4 livre, autoanticorpos e ultrassonografia. Conclui-se que o reconhecimento precoce da doença exige suspeição clínica ampliada, protocolos de rastreamento e uso integrado de métodos diagnósticos, de modo a prevenir complicações e otimizar o desenvolvimento infantil.
Palavras-chaves: Tireoide de Hashimoto; Criança; Adolescente; Diagnóstico
1 INTRODUÇÃO
A tireoide é uma importante glândula endócrina do corpo humano, a qual secreta dois principais hormônios para o funcionamento metabólico do indivíduo: a triiodotironina (T3) e tiroxina (T4). Sabe-se que a secreção desses hormônios é regulada pela hipófise anterior, por meio do hormônio estimulante da tireoide (TSH), e, em casos da ausência da função tireoidiana, a taxa metabólica do indivíduo pode reduzir em até 50% do seu valor normal (Guyton; Hall, 2021).
A tireoidite de Hashimoto (TH) é uma doença autoimune que destrói células da tireóide por processos imunes mediados por células e anticorpos. A expressão da doença depende de uma suscetibilidade genética, além de fatores ambientais. É a causa mais comum do Hipotireoidismo, condição de incapacidade da glândula tireóide de produzir a quantidade suficiente dos hormônios T3 e T4. Contudo, no início da doença, os pacientes podem apresentar sinais, sintomas e achados laboratoriais de Hipertireoidismo, isso ocorre porque a inflamação da tireóide provoca uma ruptura que resulta no excesso de hormônios da tireoide (Mincer; Jialal, 2020).
No contexto pediátrico e adolescente, os dados epidemiológicos da Tireoidite de Hashimoto (TH) evidenciam uma prevalência variável, com destaque para o predomínio no sexo feminino e na faixa etária próxima à puberdade. Estudos recentes indicam que a prevalência global em adultos é de aproximadamente 7,5 %, sendo maior em regiões de renda média-baixa (11,4 %) e menor em renda média-alta (5,6 %) (Zheng et al., 2022). Em populações pediátricas, uma coorte espanhola com 1.387 pacientes de 1 a 16 anos identificou prevalência de 1,2 % na faixa de 6 a 12 anos e de 3,2 % entre 12 e 16 anos (Sánchez-Caballero et al., 2021). Outro estudo, conduzido com 200 crianças diagnosticadas com TH, revelou que 8,5 % tinham 6 anos ou menos no momento do diagnóstico, reforçando que, embora a apresentação seja mais comum no período puberal, pode ocorrer precocemente na infância (Özden; Doneray, 2024). Esse conjunto de dados destaca os desafios do diagnóstico precoce nessa faixa etária — dada a variabilidade de apresentação clínica. e ressalta a necessidade de atenção diferenciada em crianças e adolescentes.
Com base nas informações apresentadas, justifica-se a análise da literatura existente, uma vez que o processo diagnóstico da Tireoidite de Hashimoto em crianças e adolescentes apresenta diversas dificuldades. Essa investigação se torna essencial para compreender as particularidades dessa faixa etária, permitindo a identificação precoce de sinais e sintomas, bem como o reconhecimento de padrões clínicos característicos do estágio inicial da doença. Assim, compreender os desafios presentes no diagnóstico poderá contribuir para um manejo mais eficiente e para o aprimoramento das práticas clínicas.
Diante desse cenário, essa revisão de literatura, tem como principal objetivo apresentar que, por mais que os sintomas do diagnóstico dessa doença auto-imune, Tireoide de Hashimoto, sejam marcantes e na maioria das vezes padronizados, existem inúmeras dificuldades no momento do diagnóstico. Além disso, o estudo busca analisar e avaliar outras revisões de literatura, de diferentes bases de dados, com a intenção de englobar e identificar meios que possam ajudar e facilitar o diagnóstico, podendo ser por meio de sinais clínicos, exames físicos, laboratoriais, imagem.
2 METODOLOGIA
O presente estudo consiste de uma revisão exploratória integrativa de literatura. A revisão integrativa foi realizada em seis etapas: 1) identificação do tema e seleção da questão norteadora da pesquisa; 2) estabelecimento de critérios para inclusão e exclusão de estudos e busca na literatura; 3) definição das informações a serem extraídas dos estudos selecionados; 4) categorização dos estudos; 5) avaliação dos estudos incluídos na revisão integrativa e interpretação e 6) apresentação da revisão.
Na etapa inicial, para definição da questão de pesquisa utilizou-se da estratégia PICO (Acrômio para Patient, Intervention, Comparation e Outcome). Assim, definiu-se a seguinte questão central que orientou o estudo: “Quais são os sintomas característicos da tireoide de Hashimoto em crianças e adolescentes ainda não diagnosticadas?” Nela, observa-se o P: Crianças e adolescentes com Tireoidite de Hashimoto; I: Métodos diagnósticos da doença (clínicos, laboratoriais e de imagem); C: Crianças e adolescentes com e seu a doença; O: Dificuldades, atrasos e desafios na identificação e diagnóstico da doença.
Os descritores utilizados foram: criança, adolescente, doença de Hashimoto, tireoide autoimune, criança saudável e adolescente saudável. Para o cruzamento das palavras chaves utilizou-se os operadores booleanos “and”, “or” “not” nos idiomas português e inglês.
Realizou-se um levantamento bibliográfico por meio de buscas eletrônicas nas seguintes bases de dados: Google Scholar, National Library of Medicine (PubMed), EbscoHost.
Para complementar a pesquisa, foram utilizadas plataformas baseadas em inteligência artificial, como Consensus, SciSpace e Semantic Scholar, com o objetivo de localizar, sintetizar e analisar artigos científicos relevantes. O uso dessas plataformas visou ampliar a abrangência desta revisão.
A busca foi realizada nos meses de agosto e setembro de 2025. Como critérios de inclusão, limitou-se a artigos escritos em português, inglês e russo disponíveis eletronicamente em seu formato integral, com relevância temática, qualidade metodológica e atualidade das publicações (publicados entre os anos de 2021 a 2025). Foram excluídos os artigos em que o título e resumo não estivessem relacionados ao tema de pesquisa e pesquisas que não tiverem metodologia bem clara.
Após a etapa de levantamento das publicações, encontrou-se 30 artigos, dos quais foram realizados a leitura do título e resumo das publicações considerando o critério de inclusão e exclusão definidos. Em seguida, realizou a leitura na íntegra das publicações, atentando-se novamente aos critérios de inclusão e exclusão, sendo que 5 artigos não foram utilizados devido aos critérios de exclusão. Foram selecionados 25 artigos para análise final e construção da revisão.
Posteriormente a seleção dos artigos, realizou um fichamento das obras selecionadas afim de selecionar a coleta e análise dos dados. Os dados coletados foram disponibilizados em um quadro, possibilitando ao leitor a avaliação da aplicabilidade da revisão integrativa elaborada, de forma a atingir o objetivo desse método.
A Figura 1 demonstra o processo de seleção dos artigos por meio das palavras chaves de busca e da aplicação dos critérios de inclusão e exclusão citados na metodologia. O fluxograma leva em consideração os critérios elencados pela estratégia PRISMA (Page et al., 2021).
Figura 1 – Fluxograma da busca e inclusão dos artigos

2.1 ELABORAÇÃO PRODUTO TÉCNICO TECNOLÓGICO -PTT
Após redação da revisão integrativa da literatura, foi realizado a elaboração e validação de um PTT, seguindo as seguintes etapas:
2.1.1 PTT
Foi elaborado uma História em Quadrinho (HQ) sobre sintomas iniciais em crianças com Tireoide de Hashimoto, abordando os aspectos conceituais sobre Tireoide de Hashimoto. Para melhor visualização, foi utilizado imagens ilustrativas que representasse os conteúdos abordados.
A HQ teve como objetivo conscientizar pais e responsáveis de crianças e adolescentes com suspeita de Tireoide de Hashimoto, e impacto de auxiliar a conhecer os
sintomas da Tireoide de Hashimoto, especialmente entre pessoas que vivem em comunidade periféricas e possuem renda baixa, pois o acesso será gratuito e facilitado.
2.1.2 Validação do PTT
A HQ foi submetida a análise por dois “juízes” que possuíam autoridade técnica, conhecimentos e envolvimento com assuntos relacionados sobre sintomas de doenças autoimune, como a Tireoide de Hashimoto.
Os “juízes” possuem formação acadêmica nas áreas de medicina, mestrado na área de Medina da Família e Comunidade. Atuam como docentes de graduação no curso de Medicina.
As pessoas convidadas a compor a banca de “juízes” receberam um e-mail enviado por correio eletrônico (online) que continha o convite, juntamente com a HQ e o Roteiro de Medida e Avaliação (APÊNDICE A).
O roteiro para avaliação foi construído a partir da adaptação de um estudo de Silva et al., (2024) sobre “Processos de validação de instrumentos para área da saúde”, estabelecendo como critérios de avaliação os itens: Conteúdo, Relevância Técnica e Utilidade; Clareza e Compreensão; Usabilidade e Design; Impressão Geral e Recomendação. O juiz precisa considerar se o item avaliado: Discordo Totalmente; Discordo Parcialmente; Neutro (Nem concordo, nem discordo); Concordo Parcialmente; Concordo Totalmente, o conteúdo da HQ.
2.1.3 Adequação do PTT
A HQ foi elaborada e submetida a análise por dois “juízes” e possibilitou realizar alterações em alguns itens do instrumento.
A análise dos “juízes” sugeriu alterações na formatação (fonte, margens, referências). As sugestões dos “juízes” foram aceitas e mudanças na colocação de determinados termos foram realizadas, explicitando melhor algumas questões ou modificando a redação de outras, as ilustrações, com o cuidado de acatar o conteúdo proposto pela HQ, respeitando-se a realidade, o contexto e o público-alvo.
2.1.4 Publicação do PTT
Após a avaliação dos juízes a HQ foi publicada com o DOI: 10.5281/zenodo.17820332.
3 RESULTADOS
O Quadro 1 apresenta os artigos que foram selecionados na presente revisão de literatura, contendo informações relevantes sobre os mesmos, como autores do estudo, o ano de publicação, o título e os achados principais.
Quadro 1 – Desafios no diagnóstico de crianças e adolescentes com suspeita de Tireoide de Hashimoto.






Fonte: Dados da Pesquisa, 2025.
4 DISCUSSÃO
Diante da análise integral dos artigos, os resultados encontrados nessa revisão mostraram as dificuldades de conseguir um diagnóstico precoce ou em tempo adequado da Tireoidite de Hashimoto em crianças e adolescentes.
4.1 A APRESENTAÇÃO PREDOMINANTEMENTE SILENCIOSA DA TIREOIDITE DE HASHIMOTO EM CRIANÇAS E ADOLESCENTES
A literatura disponível demonstra de forma consistente que a maioria das crianças e adolescentes com Tireoidite de Hashimoto (HT) é diagnosticada antes de apresentar hipotireoidismo franco, forma mais estereotipada do quadro, o que torna o reconhecimento inicial da doença particularmente desafiador. Em diversos estudos clínicos, uma proporção significativa dos pacientes encontrava-se eutireoide ou apenas com hipotireoidismo subclínico no momento do diagnóstico, frequentemente identificados por triagem ou achados laboratoriais de rotina.
Esse padrão aparece claramente no estudo que avaliou índices hematológicos como biomarcadores, no qual metade dos pacientes estavam apenas em hipotireoidismo subclínico e 15% ainda eram eutireoides no diagnóstico (Munteanu et al., 2024). De forma semelhante, outro levantamento com 200 crianças mostrou 39,5% de eutireoidismo e 33,5% de hipotireoidismo subclínico na apresentação inicial (Kilci; Sarıkaya, 2024). O mesmo comportamento aparece em adolescentes ucranianos, com 65,4% eutireoides (Pankiv, 2024), e em crianças romenas, das quais mais de 53,4% apresentavam função tireoidiana normal (Zuga et al., 2025). Do mesmo modo, um estudo turco com 114 pacientes apontou 41,2% de eutireoidismo e 40,4% de hipotireoidismo subclínico como estado inicial (Arslan et al., 2024). Somam-se ainda achados convergentes de outras coortes: 27,2% eutireoidismo e 33,3% hipotireoidismo subclínico (Ozden; Doneray, 2024); 51,4% eutireoidismo e 40,4% subclínico (Gencan; Acar, 2022); e predominância geral de apresentações silenciosas descritas em revisões integrativas (Torres M.S. et al., 2023).
O conjunto desses estudos reforça que a evolução lenta e insidiosa da HT pediátrica faz com que muitos pacientes mantenham função hormonal preservada por longos períodos, mesmo diante da autoimunidade ativa. Revisões amplas apontam que apenas uma minoria das crianças apresenta sinais clássicos de hipotireoidismo no início, com grande parcela sendo identificada ainda em fase subclínica (Araquam et al., 2023). Em um estudo prospectivo que acompanhou crianças com HT subclínica e eutireoide, observou-se que a disfunção metabólica era mínima, o que reforça que poucos sintomas chamam atenção para investigação precoce (Drongitis et al., 2021). Dados adicionais mostram que esse padrão também aparece em centros com grande volume de pacientes: em uma análise com 200 casos, 39,5% eram eutireoides, e muitos foram diagnosticados incidentalmente (Casto et al., 2021). Outras séries confirmam que a distribuição de estados funcionais é ampla, mas com nítido predomínio de apresentações não graves no início (Casto et al., 2021).
Assim, o primeiro grande desafio diagnóstico identificado na literatura é a baixa expressão clínica inicial. A predominância de eutireoidismo e subclínico, aliada a sintomas inespecíficos ou ausentes, significa que a identificação da HT depende fortemente de triagem laboratorial, investigação de risco familiar e reconhecimento de sinais discretos, e não apenas da apresentação típica de hipotireoidismo franco.
4.2 O IMPACTO DA IDADE NO DIAGNÓSTICO: DIFERENÇAS ENTRE PRÉ PÚBERES, PÚBERES E CRIANÇAS MUITO PEQUENAS
A literatura demonstra que a idade no momento do diagnóstico influencia significativamente a forma de apresentação e a gravidade hormonal da Tireoidite de Hashimoto em pediatria. Em várias coortes, crianças pré-púberes tendem a apresentar quadros mais severos, enquanto adolescentes, embora mais frequentemente afetados, geralmente exibem formas mais brandas no início.
Em uma grande coorte turca, observou-se que crianças pré-púberes apresentavam quase quatro vezes mais hipotireoidismo franco do que púberes (41,8% versus 9,1%), indicando que a doença, quando inicia mais cedo, tende a ser mais agressiva (Kilci; Sarıkaya, 2024). Padrões semelhantes surgem em adolescentes ucranianos, nos quais os casos pré-púberes exibiam maior comprometimento funcional e mais alterações autoimunes associadas (Pankiv, 2024). Em outro estudo com 114 pacientes, metade dos diagnósticos ocorreu no período puberal, mas o grupo pré-púbere apresentava proporção maior de disfunção hormonal significativa (Arslan et al., 2024).
Coortes adicionais confirmam essa tendência. Em um estudo retrospectivo com 81 crianças, 37% eram pré-púberes, e esse subgrupo concentrava a maior parte dos quadros mais graves, incluindo hipotireoidismo estabelecido e até fases tireotóxicas iniciais (Ozden; Doneray, 2024). Em regiões com recursos limitados, como no Sudão, mais da metade dos diagnósticos ocorreram em pré-púberes, muitos já em hipotireoidismo clínico, sugerindo detecção tardia relacionada ao acesso restrito a exames (Fadlalbari et al., 2023).
Situação ainda mais desafiadora aparece em crianças muito pequenas: uma série de casos demonstrou que a HT pode surgir antes dos 3 anos, muitas vezes manifestando-se como atraso de desenvolvimento, bócio discreto ou hipotireoidismo grave, apresentações facilmente confundidas com outras condições nessa faixa etária (Tang et al., 2021). Esses dados ressaltam que, embora a doença seja mais comum na adolescência, a possibilidade de Hashimoto em lactentes e pré-escolares não deve ser negligenciada.
Outros estudos enfatizam que casos em pré-púberes frequentemente se apresentam com disfunções mais acentuadas, enquanto muitos adolescentes são diagnosticados apenas por achados laboratoriais incidentais. Além disso, mesmo em coortes amplas, documentou-se a presença de HT em crianças de 3–5 anos, especialmente naquelas com histórico autoimune associado, mostrando que a triagem precoce é crucial nesses grupos (Casto et al., 2021).
No conjunto, os achados mostram que a idade atua como modulador da apresentação clínica:
• pré-púberes → maior risco de hipotireoidismo franco e apresentações atípicas,
• adolescentes → maior prevalência, porém maior proporção de casos silenciosos,
• crianças muito pequenas → manifestações potencialmente graves e facilmente confundidas.
Essas diferenças reforçam a necessidade de que o clínico adapte sua suspeita diagnóstica segundo a faixa etária, evitando atrasos que podem comprometer crescimento e desenvolvimento.
4.3 A INESPECIFICIDADE DOS SINTOMAS E A DIFICULDADE DE SUSPEIÇÃO CLÍNICA PRECOCE
Um dos aspectos mais consistentes entre os estudos é que os sintomas iniciais da Tireoidite de Hashimoto em pediatria são inespecíficos, variando desde fadiga, dificuldade de concentração e alterações de peso até quadros totalmente assintomáticos. Isso contribui para que a suspeita clínica dependa muito menos do exame físico e muito mais da triagem laboratorial.
Estudos mostram sintomas discretos ou ausentes em grande parte dos casos. Em uma coorte com 147 crianças, muitos pacientes eram identificados apenas em exames de rotina, apresentando sinais laboratoriais mínimos de inflamação (A1). Outro estudo com 200 pacientes confirmou que apenas 6% das crianças procuraram atendimento por sintomas claros, reforçando a natureza silenciosa da apresentação inicial (Kilci; Sarıkaya, 2024). Em adolescentes ucranianos, mais de 65% eram eutireoides e sem queixas específicas, o que frequentemente atrasava a investigação (Pankiv, 2024). Da mesma forma, mais da metade das crianças romenas não tinham queixas objetivas, evidenciando a limitação da avaliação clínica isolada (Zuga et al., 2025).
Revisões fisiopatológicas indicam que o curso inicial da doença pode incluir até fases transitórias de hipertireoidismo leve, passando despercebidas caso não se realize exames hormonais (Andrade et al., 2024). Em uma coorte turca, muitos pacientes foram diagnosticados incidentalmente por exames realizados por outras causas, já que sintomas como fadiga ou ganho de peso eram atribuídos a condições comuns da adolescência (Arslan et al., 2024). Revisões integrativas reforçam esse padrão, indicando que apenas uma minoria das crianças apresenta sinais clássicos, como pele seca, bradicardia ou constipação marcante, nas fases iniciais (Araquam et al., 2023, Torres M.S. et al., 2023).
Outros estudos clínicos também destacam sintomas vagos como fadiga, alopecia e alterações de humor como motivos de investigação, embora não sejam específicos para HT (Ozden; Doneray, 2024). Em uma coorte de 220 crianças, o aumento cervical foi o único achado físico em cerca de 15% dos casos, enquanto mais de 10% não apresentavam qualquer queixa no momento da descoberta (Gencan; Acar, 2022). Mesmo em estudos prospectivos, crianças com HT subclínica ou eutireoide raramente exibiam alterações metabólicas ou sistêmicas que facilitassem a detecção precoce, reforçando a ausência de “pistas clínicas fortes” (Drongitis et al., 2021).
Assim, a soma dos achados demonstra que o conjunto de manifestações clínicas iniciais — quando presentes, é sutil, inespecífico e facilmente confundido com variações fisiológicas da infância e adolescência. Por isso, o diagnóstico precoce de Hashimoto depende fortemente de exames complementares, histórico familiar, e avaliação de fatores de risco, já que a clínica isolada raramente é suficiente para levantar suspeita consistente.
4.4 LIMITAÇÕES DOS EXAMES ISOLADOS E A IMPORTÂNCIA DOS MÉTODOS COMBINADOS NO DIAGNÓSTICO
A literatura evidencia que nenhum exame isolado, seja clínico, laboratorial ou de imagem, é suficiente para confirmar ou excluir precocemente a Tireoidite de Hashimoto em crianças e adolescentes. Diversos artigos reforçam que a associação entre anticorpos antitireoidianos, função hormonal e ultrassonografia fornece muito mais acurácia diagnóstica do que qualquer método isolado.
Estudos clínicos mostram que, embora a dosagem de anticorpos seja essencial, ela não é definitiva quando usada sozinha: em uma coorte de 200 crianças, mesmo com alta positividade de anti-TPO e anti-Tg, havia ampla variação no estado funcional da tireoide, o que limita o valor diagnóstico dos anticorpos isolados (Kilci; Sarıkaya, 2024). Revisões fisiopatológicas reforçam que anticorpos anti-TPO aparecem em cerca de 95% dos casos, mas não definem o grau de disfunção, exigindo correlação com TSH/T4 e ultrassom (Andrade et al., 2024).
O ultrassom também demonstra limitações quando interpretado de forma isolada. Em uma série turca com 114 casos, metade dos pacientes apresentava bócio palpável, mas muitos tinham imagens discretas ou inespecíficas, revelando que nem sempre o bócio é clinicamente evidente ou acompanhando achados ecográficos típicos (Arslan et al., 2024). Outro estudo mostrou que quase 44% das crianças não tinham bócio palpável, apesar de confirmação laboratorial e ultrassonográfica da doença, mostrando que o exame físico isoladamente é insuficiente (Ozden; Doneray, 2024).
Em regiões com menos acesso a exames, essas limitações se tornam ainda mais evidentes: no Sudão, a falta de testes de anticorpos dificultava confirmar Hashimoto, e muitos casos só eram reconhecidos após evolução para hipotireoidismo franco, exemplo claro da necessidade de métodos combinados (Fadlalbari et al., 2023). Em uma coorte ampla de 220 pacientes, diversos casos foram diagnosticados apenas por anticorpos positivos, enquanto outros exibiam disfunção hormonal mesmo com anticorpos discretos, reforçando a variabilidade dos marcadores (Gencan; Acar, 2022).
Revisões integrativas destacam que, devido à heterogeneidade dos achados, o diagnóstico precoce deve basear-se em múltiplos critérios: anticorpos, USG, função tireoidiana e evolução temporal, evitando tanto subdiagnóstico quanto rotulações precoces incorretas (Torres M.S. et al., 2023). Estudos clínicos maiores também reforçam que imagens podem identificar pseudonódulos inflamatórios que podem ser confundidos com nódulos verdadeiros, exigindo interpretação cuidadosa e correlacionada com o perfil autoimune (Casto et al., 2021).
Por fim, séries que acompanharam pacientes com nódulos mostraram que apenas ultrassom e função hormonal podem não distinguir corretamente lesões benignas de malignas. Em uma coorte asiática, 18,8% das crianças com HT desenvolveram nódulos, e alguns casos eram carcinoma papilífero, diagnosticado somente após critérios ultrassonográficos de risco e investigação complementar (Casto et al., 2021). Isso reforça que, mesmo após diagnóstico de Hashimoto, o acompanhamento deve integrar resultados clínicos, laboratoriais e radiológicos.
No conjunto, os estudos confirmam que o diagnóstico seguro da HT pediátrica depende da integração de múltiplos métodos, e não da interpretação isolada de anticorpos, US, TSH ou quadro clínico. Só essa abordagem combinada permite identificar precocemente a doença e evitar erros diagnósticos que podem atrasar o tratamento.
4.5 HETEROGENEIDADE CLÍNICA: DO HIPERTIREOIDISMO TRANSITÓRIO AO HIPOTIREOIDISMO GRAVE
Os estudos analisados mostram que a Tireoidite de Hashimoto em pediatria não segue um padrão clínico único, mas forma um espectro amplo, que vai desde crianças assintomáticas até quadros de hipotireoidismo grave com complicações sistêmicas. Em várias coortes, uma parte dos pacientes se apresenta inicialmente com hipertireoidismo transitório (Hashitoxicose), antes de evoluir para eutiroidismo ou hipotireoidismo, o que pode confundir o diagnóstico diferencial com doença de Graves ou outras causas de tireotoxicose (Kilci; Sarıkaya, 2024, Arslan et al., 2024, Ozden; Doneray, 2024, Fadlalbari et al., 2023, Gencan; Acar, 2022, Casto et al., 2021). Em paralelo, outra parcela já é diagnosticada em fases avançadas, com hipotireoidismo franco e repercussões importantes no crescimento e na função cardiovascular (Buraqui et al., 2024, Tang et al., 2021, Santos et al., 2021).
Diversos trabalhos relatam essa oscilação funcional. Em uma coorte turca, cerca de 5% das crianças apresentavam hipertireoidismo na fase inicial, apesar de o perfil final ser predominantemente hipotireoideo (Kilci; Sarıkaya, 2024). Outro estudo encontrou 7% de hipertiroidismo, incluindo formas subclínicas, dentro de uma amostra de 114 pacientes, reforçando a possibilidade de fases de tireotoxicose na HT pediátrica (Arslan et al., 2024). Em um serviço com 81 crianças, 11,1% também se apresentaram com hipertireoidismo, enquanto quase um terço já tinha hipotireoidismo clínico ao diagnóstico, ilustrando a coexistência de diferentes estados funcionais em uma mesma casuística (Ozden; Doneray, 2024). Situação semelhante foi descrita em regiões de baixa renda, onde parte dos pacientes chegou ao serviço em fase tireotóxica transitória e outra parte já com hipotireoidismo manifesto, muitas vezes sem confirmação sorológica por falta de exames (Fadlalbari et al., 2023). Em uma coorte maior, o espectro funcional incluiu desde eutiroidismo até tireotoxicose, reforçando que a HT pode simular outras doenças tireoidianas na fase inicial (Gencan; Acar, 2022, Casto et al., 2021).
Ao lado dessas formas funcionais variáveis, alguns relatos evidenciam apresentações graves por diagnóstico tardio. Um caso descreve uma adolescente com hipotireoidismo autoimune severo, TSH >100 mIU/L, importante comprometimento do crescimento e derrame pericárdico, ilustrando as consequências de uma HT não reconhecida ao longo de vários anos (Buraqui et al., 2024). Em crianças menores de 3 anos, uma série de casos mostrou que a maioria já apresentava hipotireoidismo franco ou subclínico significativo ao diagnóstico, muitas vezes associado a atraso de desenvolvimento neuropsicomotor e baixa estatura, demandando intervenção rápida com levotiroxina (Tang et al., 2021). Outro relato traz a síndrome de Van Wyk–Grumbach como manifestação rara, com puberdade precoce incompleta e atraso ósseo importante decorrentes de hipotireoidismo prolongado, demonstrando como a HT pode mimetizar outras endocrinopatias quando não diagnosticada precocemente (Santos et al., 2021).
Essa heterogeneidade clínica — alternando fases de hiper, eutiroidismo e hipo, além de formas graves e apresentações atípicas — torna o raciocínio diagnóstico mais complexo. Crianças em fase de Hashitoxicose podem ser inicialmente confundidas com doença de Graves, enquanto quadros avançados com baixa estatura ou pseudopuberdade precoce podem levar a investigações extensas antes que se considere a tireoide como causa (Kilci; Sarıkaya, 2024, Buraqui et al., 2024, Arslan et al., 2024, Ozden; Doneray, 2024, Fadlalbari et al., 2023, Gencan; Acar, 2022, Tang et al., 2021, Santos et al., 2021, Casto et al., 2021). Em síntese, a variabilidade de manifestações reforça a necessidade de manter a HT no diagnóstico diferencial de múltiplos quadros em pediatria, mesmo quando o padrão clínico não é o “clássico” de hipotireoidismo.
4.6 AUTOIMUNIDADES ASSOCIADAS E GRUPOS DE MAIOR RISCO PARA DIAGNÓSTICO TARDIO
A presença de outras doenças autoimunes é um dos fatores que mais contribuem para o diagnóstico oportuno, ou tardio, da Tireoidite de Hashimoto em crianças. Diversos estudos mostram que a HT frequentemente ocorre no contexto de um terreno autoimune mais amplo, fazendo com que alguns grupos pediátricos tenham risco significativamente elevado.
Várias coortes demonstraram elevada coexistência de doenças autoimunes. Em uma série com 200 crianças, 3,5% tinham diabetes tipo 1 e outros exibiam vitiligo e doença celíaca (Kilci; Sarıkaya, 2024). Entre adolescentes ucranianos, cerca de 26,4% tinham outra condição autoimune concomitante, sendo a mais frequente o diabetes tipo 1 (Pankiv, 2024). De forma semelhante, em crianças romenas, aproximadamente 23% apresentavam doenças associadas, reforçando a necessidade de triagem sistemática em portadores de outras autoimunidades (Zuga et al., 2025). Em uma coorte maior, mais de 20% tinham diagnóstico adicional de doença autoimune, destacando-se DM1 e celíaca (Gencan; Acar, 2022).
Grupos específicos apresentam risco ainda maior. Crianças com Síndrome de Down têm prevalência de Hashimoto muito acima da população geral, variando entre 13–34%, segundo revisão dedicada ao tema (Hom et al., 2024). Essa tendência é reforçada por estudos clínicos, nos quais alterações tireoidianas ocorreram já nos primeiros meses de vida e autoanticorpos surgiram precocemente (Rossi et al., 2021). Outra revisão mostrou que esses pacientes podem manifestar hipotireoidismo precoce e silencioso, o que justifica protocolos rígidos de rastreamento anual (Lee et al., 2021).
O diabetes tipo 1 aparece repetidamente como marcador de risco. Em um estudo com mais de 700 jovens diabéticos, 25,9% desenvolveram autoanticorpos tireoidianos, ainda que apenas uma parcela evoluísse para hipotireoidismo franco, configurando uma longa fase subclínica que requer vigilância (Wang et al., 2023). Da mesma forma, uma série de casos de crianças muito pequenas com HT revelou que 26% foram diagnosticadas apenas porque já estavam em triagem por diabetes tipo 1, demonstrando como a autoimunidade prévia acelera a identificação da doença (Tang et al., 2021).
Estudos adicionais mostram que crianças com HT frequentemente apresentam familiares de primeiro grau com tireopatias, o que aumenta substancialmente o risco e justifica a triagem em parentes próximos. Em outra coorte, mais de 40% tinham histórico familiar relevante, reforçando a importância do componente genético para orientar investigação precoce (Casto et al., 2021). Em regiões com poucos recursos diagnósticos, essa associação familiar ajudou a direcionar a suspeita clínica mesmo quando exames confirmatórios eram inacessíveis (Fadlalbari et al., 2023).
Assim, a literatura aponta que grupos como pacientes com outras doenças autoimunes, crianças com Síndrome de Down, diabéticos tipo 1 e indivíduos com forte histórico familiar têm risco significativamente aumentado de desenvolver Hashimoto. A não identificação desses fatores pode levar a atraso diagnóstico, tornando essencial que esses pacientes sejam submetidos a rastreamento regular.
4.7 INFLUÊNCIAS SOCIOECONÔMICAS, EPIDEMIOLÓGICAS E ESTRUTURAIS SOBRE O DIAGNÓSTICO
O diagnóstico da Tireoidite de Hashimoto em crianças não depende apenas dos achados clínicos e laboratoriais, mas também de fatores contextuais, como disponibilidade de exames, políticas de rastreamento, condições socioeconômicas e prevalência populacional. Esses elementos determinam quão cedo a doença é identificada e se o diagnóstico ocorre ainda na fase eutireoide ou somente após instalação de hipotireoidismo franco.
Em regiões com recursos limitados, as barreiras diagnósticas tornam-se particularmente evidentes. No Sudão, a indisponibilidade rotineira dos testes de anticorpos antitireoidianos resultou na exclusão de um terço dos casos suspeitos e no diagnóstico tardio de muitos pacientes, que só eram reconhecidos quando o hipotireoidismo já estava instalado (Fadlalbari et al., 2023). Isso ilustra como o acesso desigual a exames básicos pode modificar o perfil de apresentação da doença, deslocando o diagnóstico para estágios mais avançados.
Em escala global, revisões epidemiológicas mostram que a prevalência de HT varia significativamente entre países e regiões, mas parte dessa variação decorre da falta de padronização dos critérios diagnósticos e da disponibilidade de métodos confiáveis. Uma meta análise com mais de 20 milhões de indivíduos revelou grande heterogeneidade entre os estudos, refletindo não apenas diferenças biológicas, mas também desigualdades estruturais na forma como a doença é identificada (Hu et al., 2022). Essa discrepância metodológica reforça a necessidade de unificação de parâmetros diagnósticos, sobretudo no contexto pediátrico, no qual sintomas são pouco específicos.
Revisões integrativas destacam também limitações de conscientização: muitos profissionais e famílias subestimam a possibilidade de doenças tireoidianas em crianças, o que contribui para atrasos diagnósticos, especialmente quando não há rastreamento sistemático (Torres M.S. et al., 2023). Esse desconhecimento dificulta a investigação precoce de sintomas vagos, permitindo que a autoimunidade evolua silenciosamente por anos.
Ao mesmo tempo, populações especiais, como crianças com Síndrome de Down, apresentam prevalências muito superiores e são influenciadas por políticas de rastreamento bem estabelecidas. Estudos clínicos demonstram que parte relevante das disfunções tireoidianas nessa população é identificada nos primeiros meses de vida, justamente porque protocolos nacionais recomendam triagem sistemática desde o nascimento (Rossi et al., 2021). Revisões específicas reforçam que esses programas melhoram o diagnóstico precoce e reduzem o risco de atraso no desenvolvimento decorrente de hipotireoidismo não tratado (Lee et al., 2021).
No conjunto, esses achados demonstram que fatores socioeconômicos, disponibilidade diagnóstica e políticas públicas exercem impacto direto sobre quando e como a HT é diagnosticada. Onde há acesso regular a anticorpos, ultrassonografia e rastreamento estruturado, a doença tende a ser detectada ainda em fases iniciais. Em contraste, sistemas de saúde com menos recursos frequentemente só diagnosticam após instalação de hipotireoidismo clínico, aumentando o risco de prejuízos ao crescimento e neurodesenvolvimento.
4.8 CONSEQUÊNCIAS DO DIAGNÓSTICO TARDIO E IMPACTO DO TRATAMENTO PRECOCE
Os estudos analisados deixam claro que o atraso no diagnóstico da Tireoidite de Hashimoto em crianças e adolescentes não é apenas um problema acadêmico, mas tem repercussões clínicas concretas sobre crescimento, desenvolvimento e risco de complicações. Casos em que a doença é identificada apenas em fases avançadas tendem a apresentar manifestações sistêmicas graves, muitas vezes potencialmente evitáveis com rastreamento adequado.
Um exemplo emblemático é o relato de uma adolescente com hipotireoidismo autoimune severo, baixa estatura acentuada e derrame pericárdico, quadro que só foi reconhecido após longo período sem acompanhamento pediátrico regular (Buraqui et al., 2024). Situações semelhantes aparecem em crianças menores de 3 anos, nas quais a HT foi diagnosticada já com hipotireoidismo franco, atraso global de desenvolvimento e comprometimento importante da estatura, exigindo tratamento imediato com levotiroxina para tentar recuperar, ainda que parcialmente, o potencial de crescimento e função neurocognitiva (Tang et al., 2021). Outro relato descreve a síndrome de Van Wyk–Grumbach, com pseudopuberdade precoce e atraso ósseo intenso mantidos por um hipotireoidismo de longa duração, demonstrando como a HT pode levar a quadros complexos quando não é considerada precocemente no diagnóstico diferencial (Santos et al., 2021).
Por outro lado, diversos trabalhos reforçam que o tratamento oportuno pode modificar a história natural da doença. Em crianças com HT subclínica, um estudo prospectivo mostrou que a reposição hormonal contribuiu para manter o desenvolvimento adequado, mesmo sem grandes mudanças metabólicas em curto prazo, sugerindo benefício mais voltado ao crescimento e à função geral do que a marcadores laboratoriais isolados (Drongitis et al., 2021). Em populações de risco elevado, como crianças com Síndrome de Down, revisões destacam que programas de rastreamento e início precoce de levotiroxina estão associados a melhor desfecho de crescimento e neurodesenvolvimento, reduzindo o impacto adicional do hipotireoidismo sobre um quadro já vulnerável (Lee et al., 2021). Em perspectiva de longo prazo, coortes que acompanharam pacientes com HT até a adolescência também mostraram que a vigilância regular por ultrassonografia permite detectar nódulos e carcinomas papilíferos em fase inicial, aumentando as chances de tratamento curativo e reduzindo morbidade (Casto et al., 2021).
Em conjunto, esses achados reforçam que o principal risco do diagnóstico tardio não é apenas a presença de hipotireoidismo em si, mas o acúmulo de danos ao longo do tempo, sobre crescimento, maturação puberal, desempenho escolar, neurodesenvolvimento e, em alguns casos, risco oncológico. Assim, a discussão sobre os desafios diagnósticos da HT pediátrica não pode ser dissociada do impacto clínico: quanto mais difícil é suspeitar e confirmar a doença, maior a probabilidade de que crianças cheguem ao consultório em fases avançadas, com consequências potencialmente irreversíveis.
5 CONCLUSÃO
Em síntese, a Tireoidite de Hashimoto pediátrica permanece um desafio diagnóstico devido à apresentação frequentemente assintomática, às diferenças entre faixas etárias e à heterogeneidade dos marcadores clínicos e laboratoriais. A combinação de métodos diagnósticos e o rastreamento dirigido de grupos vulneráveis mostraram-se fundamentais para evitar atrasos que comprometem o crescimento e o neurodesenvolvimento. Assim, reforça-se a importância de ampliar a suspeição clínica e fortalecer estratégias de rastreamento, garantindo diagnóstico mais precoce e manejo adequado.
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1Discente do curso de Medicina do Centro Universitário de Patos de Minas -UNIPAM
2Docente do curso de Medicina do Centro Universitário de Patos de Minas -UNIPAM
