DESAFIOS E ESTRATÉGIAS DE COMUNICAÇÃO CLÍNICA NA ATENÇÃO PRIMÁRIA: RELATO DE EXPERIÊNCIA NO CUIDADO A PACIENTES COM BAIXO LETRAMENTO EM SAÚDE

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/dt10202601280820


Vanessa Borges Monteiro
Orientador: Juliana da Luz Araújo Ichii
Co-orientador: Guilherme Augusto Moreira Silva


RESUMO 

Introdução: O baixo letramento em saúde representa um importante desafio  para a comunicação clínica na Atenção Primária à Saúde, especialmente  entre idosos e pessoas com doenças crônicas não transmissíveis,  impactando a compreensão das orientações, a adesão ao tratamento e o  autocuidado. Objetivo: Relatar a experiência de uma equipe  multiprofissional na APS na implementação de estratégias de comunicação  clínica voltadas a usuários com baixo letramento em saúde. Método: Trata-se de um relato de experiência desenvolvido em uma Unidade de Saúde da  Família, no município de Anápolis, Goiás. Foram buscados artigos  publicados entre 2020 e 2025 nas bases de dados PubMed, Scielo e Google  Acadêmico. Resultados e discussão: As estratégias adotadas pela equipe  favoreceram maior compreensão das informações em saúde, fortalecimento  do vínculo profissional‑usuário e percepção ampliada de apoio,  especialmente entre indivíduos com menor escolaridade e habilidades  digitais limitadas. Conclusão: A adoção de estratégias comunicacionais  baseadas no letramento em saúde mostrou-se viável e relevante na APS,  contribuindo para a qualificação do cuidado e para a redução de barreiras  comunicacionais. O fortalecimento dessas práticas requer capacitação  contínua das equipes e apoio organizacional. 

Palavras-chave: Letramento em saúde; comunicação em saúde; atenção  primária à saúde; doenças crônicas.

ABSTRACT 

Introduction: Low health literacy represents a major challenge for clinical  communication in Primary Health Care, especially among older adults and  people with chronic noncommunicable diseases, affecting understanding of  guidance, treatment adherence, and self-care. Objective: To report the  experience of a multiprofessional Primary Health Care team in implementing  clinical communication strategies aimed at users with low health literacy. Method: This is an experience report developed in a Family Health Unit in  the municipality of Anápolis, Goiás, Brazil. Articles published between 2020  and 2025 were searched in the PubMed, SciELO, and Google Scholar  databases. Results and discussion: The strategies adopted by the team  promoted greater understanding of health information, strengthening of the  professional–user bond, and an increased perception of support, especially  among individuals with lower educational levels and limited digital skills. Conclusion: The adoption of communication strategies based on health  literacy proved to be feasible and relevant in Primary Health Care,  contributing to improved quality of care and reduction of communication  barriers. Strengthening these practices requires continuous team training and  organizational support. 

Keywords: Health literacy; health communication; primary health care;  chronic disease.

1. INTRODUÇÃO 

A comunicação clínica constitui elemento central da qualidade do  cuidado em saúde, influenciando diretamente a segurança do paciente, a  adesão terapêutica e os desfechos clínicos, especialmente no contexto da  Atenção Primária à Saúde (APS). No Sistema Único de Saúde (SUS), a APS  configura-se como a principal porta de entrada e o eixo organizador do  cuidado, sendo responsável pelo acompanhamento longitudinal de  indivíduos e famílias, com elevada prevalência de condições crônicas que  demandam manejo contínuo, decisões compartilhadas e ações educativas  permanentes (Ribas; Araújo, 2021; Cavalcanti, 2024). 

Nesse cenário, o letramento em saúde tem sido reconhecido  como um determinante social relevante, compreendido como a capacidade  dos indivíduos de acessar, compreender, avaliar e aplicar informações  relacionadas à saúde para tomar decisões adequadas ao cuidado (Lima et  al., 2022). Evidências apontam que níveis inadequados de letramento em  saúde estão associados a menor adesão ao tratamento, maior ocorrência de  erros no autocuidado, pior controle de doenças crônicas, maior utilização de  serviços de urgência e hospitalizações, além de impactos negativos na  qualidade de vida (Lima et al., 2022; Ribas; Araújo, 2021). 

No Brasil, estudos recentes indicam que parcela expressiva da  população apresenta dificuldades relacionadas ao analfabetismo funcional,  condição que limita a compreensão de informações escritas e orais  necessárias para o manejo da própria saúde. Dados apresentados por  Sonoda, Bonadio e Krauser (2024) sugerem que aproximadamente três em  cada dez brasileiros podem ser classificados como analfabetos funcionais, o  que representa um desafio adicional para a efetividade da comunicação  clínica, especialmente na APS, onde predominam ações educativas,  acompanhamento de condições crônicas e orientação contínua aos  usuários. 

Apesar do reconhecimento da relevância do letramento em saúde,  é frequente que profissionais de saúde superestimem a capacidade de  compreensão dos usuários, utilizando linguagem técnica, jargões e excesso de informações, o que dificulta a assimilação das orientações fornecidas.  Estudos demonstram que a recordação do conteúdo das consultas é limitada  e que estratégias comunicacionais inadequadas contribuem para falhas no  cuidado, sobretudo entre populações em situação de vulnerabilidade  (Talevski et al., 2020; Efthymiou; Kalaitzaki; Rivithis, 2023). 

A literatura aponta que a comunicação clínica efetiva não deve ser  compreendida apenas como uma habilidade individual do profissional, mas  como um componente estruturante da organização dos serviços de saúde.  Abordagens que consideram o letramento em saúde como responsabilidade  compartilhada entre usuários, profissionais e sistemas de saúde têm sido defendidas como fundamentais para a redução de desigualdades e para a  promoção do cuidado centrado na pessoa (Mertens et al., 2022; Cavalcanti,  2023). 

Nesse sentido, a APS configura-se como espaço estratégico para  o desenvolvimento de práticas comunicacionais adaptadas às necessidades  dos usuários, possibilitando a identificação de limitações relacionadas ao  letramento em saúde e a adoção de estratégias que favoreçam a  compreensão e o engajamento no cuidado. Contudo, no cenário brasileiro,  ainda são escassos estudos que descrevam, de forma contextualizada,  experiências concretas da prática assistencial voltadas ao enfrentamento  dos desafios da comunicação clínica com usuários com baixo letramento em  saúde (Sonoda; Bonadio; Krauser, 2024). 

Diante desse contexto, o presente relato de experiência busca  contribuir para a reflexão sobre práticas comunicacionais na Atenção  Primária à Saúde, a partir da descrição e da análise crítica de estratégias  adotadas no cotidiano de uma equipe de Saúde da Família frente a desafios  relacionados ao letramento em saúde.

2. OBJETIVO 

Relatar desafios e descrever estratégias de comunicação clínica  adotadas no contexto de uma Unidade de Saúde da Família (USF) do  município de Anápolis–GO, voltadas ao cuidado de usuários com sinais de  baixo letramento em saúde, discutindo implicações para a prática  profissional e para a organização do processo de trabalho na Atenção  Primária à Saúde.

3. MATERIAIS E MÉTODOS 

Trata-se de um relato de experiência, de natureza descritiva e  reflexiva, construído a partir da vivência profissional de uma equipe de  Atenção Primária à Saúde em uma Unidade de Saúde da Família (USF) do  município de Anápolis–GO. 

A USF funciona de segunda a sexta-feira, no horário das 7h às  17h, sendo composta por três equipes de Saúde da Família. Cada equipe é  formada por médica, enfermeira, técnica de enfermagem, odontóloga,  auxiliar de saúde bucal e agentes comunitários de saúde. A experiência  relatada refere-se às ações desenvolvidas no âmbito de uma das equipes da  unidade. 

A partir da percepção recorrente de dificuldades relacionadas à  compreensão das orientações clínicas e à adesão aos planos terapêuticos, a  equipe passou a discutir o papel do letramento em saúde como elemento  potencialmente implicado nos desafios observados. Com base nessas  reflexões, foram incorporadas, de forma progressiva, estratégias de  comunicação clínica estruturada, com destaque para o método teach-back, a  estratégia Ask Me Three, a adaptação do receituário médico e o uso de  recursos visuais e educativos durante as consultas. 

As estratégias foram discutidas coletivamente e ajustadas  continuamente, conforme as necessidades percebidas no cuidado, sendo  incorporadas como parte da prática assistencial rotineira da equipe. Para o  embasamento teórico e a contextualização da experiência, realizou-se  levantamento bibliográfico nas bases PubMed, Scientific Electronic Library  Online (SciELO) e Google Acadêmico, incluindo artigos publicados entre  2020 e 2025, utilizando descritores relacionados à Atenção Primária à  Saúde, comunicação clínica e letramento em saúde.

4. RESULTADOS E DISCUSSÃO 

No cotidiano da prática assistencial e nas discussões realizadas  durante as reuniões de equipe, foram frequentemente percebidas  dificuldades relacionadas à compreensão das orientações clínicas e à  implementação dos planos terapêuticos propostos. Essas dificuldades se  manifestavam por meio de retornos repetidos ao serviço por um mesmo  motivo, dúvidas recorrentes sobre prescrições e orientações previamente  fornecidas, além de dificuldades na execução de recomendações  relacionadas ao autocuidado. 

As situações observadas foram mais frequentemente percebidas  entre usuários com condições crônicas e acompanhamento longitudinal na  Atenção Primária, embora também estivessem presentes em indivíduos  alfabetizados e com vínculo prolongado com a equipe. Esse aspecto reforça  a compreensão de que o letramento em saúde envolve habilidades  cognitivas, comunicacionais e contextuais que extrapolam a capacidade  formal de leitura e escrita, conforme descrito na literatura (Ribas; Araújo,  2021). 

Observou-se que o processo assistencial era, em muitos  momentos, marcado pelo uso de linguagem técnica, pela transmissão de  grande volume de informações em curto espaço de tempo e pela ausência  sistemática de verificação da compreensão do usuário. Tais elementos são  descritos como fatores associados a desfechos desfavoráveis no cuidado de  pessoas com condições crônicas e baixo letramento em saúde (Cavalcanti et  al., 2024). 

As discussões coletivas da equipe reforçaram a compreensão de  que o baixo letramento em saúde, associado a limitações na comunicação  clínica, constituía um elemento central nos desafios vivenciados. Diante  desse entendimento, foram incorporadas estratégias de comunicação clínica  estruturada, com destaque para o uso sistemático do método teach-back,  associado à adaptação do receituário médico, à utilização de recursos  visuais e à incorporação da estratégia Ask Me Three.

Na prática assistencial, o uso do teach-back possibilitou a  verificação da compreensão das orientações por meio da reprodução das  informações pelo próprio usuário, favorecendo a identificação de equívocos  e a reformulação imediata das explicações quando necessário. Essa  estratégia mostrou-se coerente com achados da literatura, que descrevem o  teach-back como intervenção simples, viável e eficaz para melhorar a  compreensão e a retenção das informações em saúde, especialmente em  populações com letramento em saúde limitado (Talevski et al., 2020). 

Como estratégia complementar, a pactuação prévia de um  número reduzido de demandas por consulta contribuiu para maior clareza  das orientações e para melhor organização do atendimento. As visitas  domiciliares realizadas em articulação com os agentes comunitários de  saúde mostraram-se especialmente relevantes em situações de maior  vulnerabilidade social, favorecendo o esclarecimento de orientações e o  fortalecimento do vínculo entre equipe e usuários. 

Observou-se que a postura dos profissionais foi determinante  para a efetividade das estratégias adotadas. Houve melhor resposta quando  os profissionais reconheceram ativamente as limitações de compreensão  dos usuários e assumiram responsabilidade pelo processo comunicacional,  adotando uma postura empática, dialógica e não julgadora. Esse achado  está em consonância com estudos que destacam a importância da educação  permanente das equipes para o fortalecimento da comunicação clínica e do  letramento em saúde (Mor-Anavy; Lev-Ari; LevinZamir, 2021). 

No acompanhamento longitudinal, também foram percebidas  dificuldades relacionadas ao acesso e à compreensão de informações em  saúde mediadas por tecnologias digitais, especialmente entre usuários com  menores habilidades digitais. Nesses casos, a intensificação do apoio dos  agentes comunitários de saúde e o envolvimento de familiares como  mediadores das informações mostraram-se estratégias relevantes,  reforçando a importância de uma comunicação contextualizada e centrada  no usuário (Sonoda; Bonadio; Krauser, 2024). 

Apesar de limitações estruturais, como restrição de tempo nas  consultas, alta demanda assistencial e ausência de protocolos institucionais  específicos, a experiência evidenciou que intervenções comunicacionais pontuais, quando incorporadas de forma sistemática ao processo de  trabalho, podem contribuir para a qualificação do cuidado, em consonância  com as evidências sobre precauções universais de letramento em saúde  (Brevidelli; Moura; De Domenico, 2024).

5. CONCLUSÕES 

O presente relato de experiência evidencia que usuários  acompanhados na Atenção Primária à Saúde enfrentam desafios  significativos relacionados ao letramento em saúde, os quais impactam  diretamente a compreensão das orientações clínicas, o autocuidado e a  adesão aos planos terapêuticos. A experiência descrita reforça que tais  desafios não se restringem às características individuais dos usuários, mas  também se relacionam a limitações nos processos de comunicação clínica  adotados no cotidiano assistencial. 

A incorporação de estratégias de comunicação clínica  estruturada, como o método teach-back, a adaptação do receituário e o uso  de recursos visuais e educativos, mostrou-se viável no contexto da Unidade  de Saúde da Família e alinhada às recomendações da literatura. Essas  estratégias contribuíram para qualificar o processo comunicacional,  fortalecer o vínculo entre equipe e usuários e favorecer maior engajamento  no cuidado, especialmente em contextos de maior vulnerabilidade. 

Por fim, o relato destaca a importância da comunicação clara,  dialógica e centrada no usuário como elemento central para o fortalecimento  do letramento em saúde na Atenção Primária à Saúde. O investimento em  educação permanente das equipes e na incorporação sistemática de  práticas comunicacionais adaptadas às necessidades dos usuários mostra-se fundamental para a promoção do autocuidado, a melhoria da qualidade  do cuidado e o enfrentamento das iniquidades em saúde.

REFERÊNCIAS 

BREVIDELLI, M. M.; MOURA, V. P. T.; DE DOMENICO, E. B. L. Promoção  do letramento em saúde segundo os Health Literacy Universal Precautions  Toolkits: um estudo de reflexão. Escola Anna Nery, v. 28, e20240013,  2024. 

CAVALCANTI, E. O. et al. Letramento em saúde para a segurança do  paciente na atenção primária: protocolo de revisão de escopo. Online  Brazilian Journal of Nursing, 2023. 

CAVALCANTI, E. O. et al. Visão multidimensional do nível de letramento em  saúde e associação com o perfil sociodemográfico e clínico na população  atendida na atenção primária à saúde. Texto & Contexto Enfermagem,  2024. 

EFTHYMIOU, A; KALAITZAKI, A.; ROVITHIS, M. Cultural adaptation of a  health literacy toolkit for healthcare professionals working in the primary care  setting with older adults. Healthcare, v. 11, n. 5, 2023. 

LIMA, R. I. M. et al. Letramento funcional em saúde de usuários da atenção  primária de Altamira, Pará. Revista Brasileira de Medicina de Família e  Comunidade, v. 17, n. 44, e2763, 2022. 

MERTENS, L. et al. The guided use of an e-health tool to strengthen health  literacy: a pilot study in a multicultural diabetes population in a primary care  clinic in Brussels. PEC Innovation, v. 1, 100056, 2022. 

MOR-ANAVY, S.; LEV-ARI, S.; LEVIN-ZAMIR, D. Health literacy, primary  care health care providers, and communication. Health Literacy Research  and Practice, v. 5, n. 3, p. e194–e200, 2021. 

RIBAS, K. H.; ARAÚJO, A. H. I. M. A importância do letramento em saúde na  Atenção Primária: revisão integrativa da literatura. Research, Society and  Development, 2021. 

SONODA, B. M.; BONADIO, C. B.; KRAUSER, C. Construção do letramento  em saúde de pacientes da atenção primária: pesquisa qualitativa. Revista  Brasileira de Enfermagem, v. 77, n. 6, 2024. 

TALEVSKI, J. et al. Teach-back: a systematic review of implementation and  impacts. PLoS One, v. 15, n. 4, e0231350, 2020. 

ZAGHLOUL, H. et al. Digital health literacy in patients with common chronic  diseases: systematic review and meta-analysis. Journal of Medical Internet  Research, 2025.


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