REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202601221305
Agnes Maria Lima Cruz1
Ana Maria Arcoverde Cavalcante2
Bruna Tajra Melo Mendes3
Emilly Victoria Silva Campos4
Geovanna Victoria Silva Sá5
Isadora de Melo Sampaio6
Lara Lopes Nunes Machado7
Mariana Martins Brandão8
Sofia Pérola Sousa da Silva9
Lílian Gabriella Castelo Branco Alves de Sousa10
Resumo
A migração forçada dos indígenas warao, oriundos do delta do rio Orinoco, resultou em profundas transformações em suas formas tradicionais de subsistência e na inserção social no Brasil. Este artigo teve como objetivo analisar as condições de trabalho e renda da comunidade warao acolhida em espaços institucionais da cidade de Teresina (PI), a partir de entrevistas realizadas nos abrigos Poty Velho e Miguel Rosa. Os resultados evidenciam a predominância de rendas informais e assistenciais, como trabalhos informais, produção artesanal e auxílios governamentais, marcadas por instabilidade econômica e baixa remuneração. A irregularidade documental surge como um dos principais entraves à inserção no mercado formal, potencializando situações de vulnerabilidade e exploração trabalhista. Concomitantemente, somam-se a isso a discriminação social, as barreiras linguísticas e a limitação no acesso a políticas públicas, em especial às voltadas para a capacitação profissional. Embora as atividades como a produção artesanal representem alternativas de autonomia econômica e preservação cultural, são insuficientes diante das inúmeras fragilidades estruturais enfrentadas. Tendo isso em vista, foi possível concluir que a superação desse cenário demanda ações integradas de regularização documental, qualificação profissional, combate ao preconceito e fortalecimento dos mecanismos de integração e proteção social.
Palavras- chave: Migração indígena. Warao. Trabalho informal. Vulnerabilidade social. Integração laboral.
Abstract
The forced migration of the Warao Indigenous people, originating from the Orinoco River Delta, has resulted in profound transformations in their traditional means of subsistence and their social integration in Brazil. This article aimed to analyze the labor and income conditions of the Warao community accommodated in institutional shelters in the city of Teresina, Piauí, based on interviews conducted at the Poty Velho and Miguel Rosa shelters. The findings reveal the predominance of informal and assistance-based sources of income, including informal labor, handicraft production, and government benefits, characterized by economic instability and low levels of remuneration. Irregular migration documentation emerges as one of the main barriers to entry into the formal labor market, intensifying situations of vulnerability and labor exploitation. Concurrently, social discrimination, language barriers, and limited access to public policies—particularly those related to vocational training—further exacerbate these challenges. Although activities such as handicraft production represent alternatives for economic autonomy and cultural preservation, they remain insufficient in light of the numerous structural vulnerabilities faced by the community. In this regard, it was possible to conclude that overcoming this scenario requires integrated actions involving documentation regularization, vocational training, combating prejudice, and strengthening mechanisms of social integration and protection.
Keywords: Indigenous migration. Warao people. Informal labor. Social vulnerability. Labor market integration.
Introdução
A intensificação dos fluxos migratórios forçados na América Latina, especialmente em decorrência da crise política, econômica e humanitária na Venezuela, tem provocado impactos significativos nos países de acolhimento, entre eles o Brasil. Nesse contexto, destaca-se a migração dos povos indígenas warao, originários do delta do rio Orinoco, cuja mobilidade forçada apresenta especificidades culturais, sociais e territoriais que exigem respostas diferenciadas por parte do Estado e da sociedade (ACNUR, 2021; OIM, 2021).
A partir de 2014, os warao passaram a se deslocar para diversas cidades brasileiras, concentrando-se principalmente nas regiões Norte e Nordeste, em centros urbanos como Boa Vista, Manaus, Belém e, mais recentemente, Teresina (OBMigra, 2022). Esse processo migratório implicou profundas rupturas em seus modos tradicionais de vida, historicamente baseados na pesca, na agricultura de subsistência e no artesanato, além de intensificar situações de vulnerabilidade social, econômica e institucional (SOUZA; OLIVEIRA, 2022).
A inserção laboral de migrantes indígenas ocorre em um cenário marcado por múltiplas barreiras estruturais, tais como a irregularidade documental, as dificuldades linguísticas, a discriminação social e a limitação no acesso a políticas públicas de qualificação profissional e geração de renda (RENSI; CÂMARA, 2023). No caso dos warao, essas dificuldades são agravadas pela invisibilização de sua condição indígena nos programas de acolhimento voltados, em geral, à população migrante não indígena, o que compromete a efetividade das estratégias de integração social e laboral (OIM, 2021).
Diante desse contexto, o presente artigo tem como objetivo analisar as condições de trabalho e renda da comunidade indígena Warao acolhida em espaços institucionais da cidade de Teresina (PI), buscando compreender os principais entraves à inserção no mercado de trabalho e as estratégias de subsistência desenvolvidas no contexto urbano. Ao abordar essa realidade, pretende-se contribuir para o debate sobre a integração laboral de povos indígenas migrantes e subsidiar a formulação de políticas públicas mais sensíveis às especificidades culturais e sociais dessa população.
No que se refere à metodologia, trata-se de uma pesquisa de abordagem qualitativa, desenvolvida a partir de pesquisa bibliográfica e pesquisa de campo. A pesquisa bibliográfica fundamentou-se na análise de literatura especializada sobre migração indígena, trabalho, vulnerabilidade social e políticas públicas de acolhimento, incluindo artigos científicos, relatórios institucionais e documentos de organismos nacionais e internacionais.
A pesquisa de campo foi realizada por meio de entrevistas semiestruturadas com membros da comunidade Warao acolhidos nos abrigos Poty Velho e Miguel Rosa, no município de Teresina (PI), entre os meses de outubro e novembro de 2025. As entrevistas foram complementadas por observação direta em campo, o que possibilitou uma compreensão mais aprofundada das dinâmicas de trabalho, renda e vulnerabilidade social vivenciadas pela comunidade. A análise dos dados ocorreu de forma descritiva e interpretativa, à luz da literatura especializada sobre migração indígena, trabalho e políticas de acolhimento.
O artigo encontra-se organizado de modo a contextualizar, inicialmente, a migração forçada dos indígenas warao e as transformações em suas formas de subsistência no Brasil. Em seguida, desenvolve-se a análise das condições de trabalho e renda da comunidade acolhida em Teresina, a partir dos dados empíricos coletados nos abrigos Poty Velho e Miguel Rosa, evidenciando as principais fontes de renda, as estratégias de sobrevivência e os fatores que condicionam a inserção laboral. Na sequência, são discutidas as dificuldades enfrentadas pela comunidade, com destaque para a precarização do trabalho, a irregularidade documental, a discriminação social e as limitações no acesso às políticas públicas. Por fim, o artigo apresenta reflexões e recomendações voltadas ao fortalecimento de ações institucionais e políticas públicas que promovam a integração social, a proteção de direitos e melhores condições de vida para a população warao.
Trabalho e renda da comunidade indígena warao em Teresina – PI
Os indígenas Warao, originários do delta do rio Orinoco, na Venezuela, passaram a migrar para o Brasil a partir de 2014, impulsionados pela intensificação da crise econômica e humanitária em seu país de origem (ACNUR, 2023). Esse processo de migração forçada provocou profundas transformações em seus modos tradicionais de vida, especialmente no que diz respeito às formas de trabalho e de obtenção de renda. Historicamente, os Warao baseavam sua subsistência na pesca, na agricultura de subsistência e no artesanato, atividades fortemente vinculadas ao ambiente fluvial que habitavam. No entanto, ao se inserirem em contextos urbanos brasileiros, passaram a enfrentar significativas dificuldades de adaptação e de inserção no mercado de trabalho formal (NATIONAL GEOGRAPHIC, 2022; AMAZÔNIA REAL, 2021).
No Brasil, especialmente em cidades das regiões Norte e Nordeste, como Boa Vista (RR), Manaus (AM), Belém (PA) e, mais recentemente, Teresina (PI), as fontes de renda da população Warao caracterizam-se pela predominância de atividades informais e instáveis. Entre elas, destacam-se o chamado “trabalho de rua”, expressão utilizada pelos próprios Warao para se referirem à mendicância em vias públicas e semáforos; os trabalhos eventuais e temporários, como serviços de servente de pedreiro e carregador de peso, geralmente realizados sem registro formal ou proteção trabalhista; além do acesso a auxílios e benefícios sociais, como o Bolsa Família (atual Programa de Transferência de Renda), o Auxílio Brasil e doações pontuais de cestas básicas por parte de prefeituras e organizações não governamentais.
Apesar dessas estratégias de sobrevivência, a renda média das famílias Warao no Brasil permanece extremamente baixa e, na maioria dos casos, insuficiente para suprir necessidades básicas, mantendo grande parte dessa população em situação de pobreza extrema (GOMES; SANTOS, 2022). Esse quadro é agravado por fatores como as barreiras linguísticas, a discriminação social e a irregularidade documental, especialmente entre aqueles que não conseguiram renovar seus documentos migratórios dentro dos prazos exigidos, o que amplia os processos de exclusão econômica e social.
É nesse contexto que se insere a realidade da comunidade indígena Warao acolhida em Teresina (PI). Este artigo apresenta uma análise sobre as condições de trabalho e renda dessa população, atualmente abrigada em situação de vulnerabilidade nos abrigos Poty Velho e Miguel Rosa. A pesquisa foi realizada entre os meses de outubro e novembro, por meio de entrevistas semiestruturadas com membros da comunidade, abordando suas formas de sustento, dificuldades enfrentadas e perspectivas.
A discussão sobre as condições de trabalho e renda dos warao em Teresina revela-se particularmente relevante, uma vez que esse grupo enfrenta múltiplos desafios para garantir sua subsistência de forma digna e para se inserir no mercado de trabalho local. A análise dessa realidade contribui para orientar a formulação de políticas públicas voltadas à inclusão produtiva, ao respeito à identidade cultural indígena e à garantia de direitos básicos, fundamentais para a melhoria das condições de vida dessa população (RENSI; CÂMARA, 2023). Nesse sentido, o objetivo desta seção é sistematizar os principais pontos críticos identificados e subsidiar órgãos públicos, instituições e gestores na construção de estratégias que promovam melhores condições de vida, trabalho e integração social da comunidade warao em Teresina.
Fontes de renda e formas de trabalho
As entrevistas realizadas com os indígenas Warao abrigados em Teresina evidenciam que a principal fonte de renda das famílias está associada aos programas de transferência de renda do Estado, com destaque para o Bolsa Família. Esse dado confirma achados de estudos anteriores que apontam a centralidade das políticas assistenciais na subsistência de populações indígenas migrantes em contexto urbano, especialmente diante das dificuldades de inserção no mercado de trabalho formal (ACNUR, 2021; OBMigra, 2022). Nos abrigos, observa-se a existência de estratégias institucionais de orientação, como a disponibilização de calendários de pagamento em locais visíveis, o que contribui para a organização financeira mínima das famílias e para a ampliação de sua autonomia cotidiana.
Além dos benefícios sociais, a renda dos Warao é complementada por atividades informais e esporádicas, predominantemente exercidas pelos homens, como trabalhos de servente de pedreiro e carregador de peso. Tais ocupações caracterizam-se pela ausência de vínculo formal, pela instabilidade e pela inexistência de garantias trabalhistas, configurando formas de trabalho precário, recorrentes entre migrantes em situação de vulnerabilidade social (SOUZA; OLIVEIRA, 2022). A informalidade, nesse contexto, não se apresenta como escolha, mas como alternativa compulsória diante da exclusão do mercado formal, agravada pela irregularidade documental e pelas barreiras linguísticas.
No que se refere às mulheres Warao, as entrevistas indicam maior envolvimento em atividades complementares de geração de renda, como a produção artesanal de miçangas e a colaboração em instituições educacionais. O artesanato, embora represente uma importante estratégia de preservação cultural e de fortalecimento da identidade indígena, apresenta baixa capacidade de geração de renda, uma vez que se trata de uma atividade pontual, com remuneração reduzida e dependente de intermediários para comercialização (OIM, 2021). Ainda assim, estudos apontam que essas práticas possuem relevância simbólica e social, ao possibilitar certa autonomia feminina e a manutenção de saberes tradicionais em contexto urbano (RENSI; CÂMARA, 2023).
Entre as mulheres que atuam de forma mais estável, destacam-se aquelas contratadas por escolas indígenas para acompanhar alunas que são mães, desempenhando funções relacionadas ao cuidado e à mediação cultural. Embora essas experiências representem avanços pontuais no acesso ao trabalho remunerado, o número de mulheres beneficiadas ainda é reduzido, o que evidencia a insuficiência de políticas públicas voltadas à inclusão produtiva das mulheres indígenas migrantes (ACNUR, 2021).
De modo geral, as fontes de renda identificadas revelam um padrão marcado pela dependência de auxílios governamentais, pela informalidade laboral e pela baixa remuneração, o que mantém grande parte das famílias Warao em situação de insegurança econômica. Esse cenário confirma análises que apontam a inserção laboral de migrantes indígenas no Brasil como profundamente atravessada por desigualdades estruturais, exigindo políticas integradas que articulem regularização migratória, qualificação profissional e respeito às especificidades culturais desses povos (OBMigra, 2022; SOUZA; OLIVEIRA, 2022).
Situação documental e barreiras legais
Um dos fatores prejudiciais para a obtenção de trabalho é a documentação atrasada. Dessa forma, não é possível falar somente de renda ou mercado de trabalho sem mencionar as narrativas acerca da regularização migratória, que, em certos casos, depende da renovação anual de um documento conhecido como “protocolo”, necessário para manter a validade e permitir a busca por trabalho. A carteira de Registro Nacional de Migração (RNM) é descrita como:
- Carteira de tarja vermelha (provisória): precisa ser renovada de modo que ocorra antes do período da data de vencimento do protocolo, o que exige novo processo de agendamento.
- Carteira azul (residente): muitas vezes com validade de 20, 30 anos ou por tempo indeterminado.
Em vários relatos, mencionou-se que muitos estão com documentos vencidos devido ao tempo em que estiveram sem o apoio da equipe responsável, o que prolonga ainda mais o processo e impede o acesso a empregos formais. Em adição, torna-se importante ressaltar que a falta de informação dentro da comunidade warao de Teresina transforma-se em mais um empecilho no processo de regularização, uma vez que muitos não sabem reconhecer a data de validade, ou a quem recorrer.
Sem documentação válida, não há possibilidade de contratação formal, o que deixa a maioria dependente da informalidade ou das doações recebidas no cotidiano e os expõe a situações de exploração, que ocorrem até mesmo com aqueles que possuem documentação regularizada, como identificado durante a visita com o senhor Rogelio11.
Obstáculos à inserção laboral da população warao
Os indígenas Warao enfrentam múltiplas barreiras para a inserção no mercado de trabalho em Teresina, sendo o preconceito e a discriminação social alguns dos principais entraves. Essas práticas discriminatórias decorrem, sobretudo, das diferenças culturais, das dificuldades linguísticas e da reprodução de estereótipos direcionados aos migrantes venezuelanos, com maior intensidade quando se trata de populações indígenas (RENSI; CÂMARA, 2023; SOUZA; OLIVEIRA, 2022). Tais fatores contribuem para a marginalização dessa comunidade e limitam suas possibilidades de acesso a oportunidades laborais dignas.
A resistência social observada no contexto local, frequentemente marcada por uma postura culturalmente fechada da população não indígena, dificulta a aceitação dos Warao em ambientes profissionais formais. Esse cenário é agravado por desigualdades de gênero presentes tanto no interior do grupo quanto nas relações com a sociedade de acolhimento. As mulheres Warao, embora acumulem responsabilidades domésticas e de cuidado, conseguem acessar com maior frequência algumas oportunidades informais, especialmente em espaços institucionais como escolas, onde há maior sensibilidade cultural. Os homens, por sua vez, permanecem majoritariamente restritos a trabalhos braçais e temporários, geralmente associados à informalidade e à precarização laboral (OIM, 2021; ACNUR, 2021).
As dificuldades de inserção no mercado formal tornam-se ainda mais evidentes diante da ausência de documentação migratória atualizada, fator que impede legalmente a contratação e reforça a dependência de atividades informais, doações, venda de artesanato e pedidos de auxílio financeiro em espaços públicos. Estudos apontam que a irregularidade documental é um dos principais mecanismos de exclusão econômica vivenciados por migrantes indígenas no Brasil, ao limitar o acesso a direitos trabalhistas e ampliar a exposição a condições precárias de trabalho (OBMIGRA, 2022; SOUZA; OLIVEIRA, 2022).
Além disso, o acesso a programas públicos de qualificação profissional e geração de renda mostra-se extremamente limitado para a população Warao. Essas políticas, em geral, não consideram as especificidades culturais e linguísticas dos migrantes indígenas, carecendo de estratégias de tradução intercultural, informações acessíveis sobre processos de inscrição e apoio institucional para a regularização documental. A ausência de equipes públicas atuando de forma contínua nos abrigos reforça a exclusão desse grupo das políticas de inclusão produtiva (ACNUR, 2021; OIM, 2021).
Nesse contexto, a discriminação social emerge como um elemento central de agravamento das vulnerabilidades enfrentadas pela comunidade Warao. Relatos de preconceito durante a busca por emprego e no próprio ambiente de trabalho evidenciam como o estranhamento cultural e a associação dos hábitos indígenas a comportamentos considerados indesejáveis reforçam estigmas e práticas excludentes. Essas dinâmicas não apenas comprometem a convivência social, mas também criam condições favoráveis à exploração trabalhista, já identificada em experiências anteriores dessa população migrante (RENSI; CÂMARA, 2023; OBMIGRA, 2022).
Perspectivas e necessidades apontadas pelos warao
A partir dos relatos dos indígenas Warao, foi possível identificar um conjunto de demandas consideradas fundamentais para a reconstrução de suas trajetórias de vida em Teresina. Entre as necessidades mais evidentes, destaca-se o acesso ao emprego formal, compreendido como elemento central para a garantia de estabilidade econômica, autonomia e redução da dependência de auxílios assistenciais. A literatura aponta que a inserção laboral formal constitui um dos principais fatores de integração social de populações migrantes, especialmente no caso de grupos indígenas em situação de deslocamento forçado (ACNUR, 2021; OBMIGRA, 2022).
Os entrevistados também enfatizaram a importância de cursos de capacitação profissional que ofereçam orientação acessível e adequada às especificidades culturais e linguísticas do grupo, visando à qualificação e à inserção no mercado de trabalho regular. Estudos indicam que programas de capacitação desvinculados da realidade sociocultural dos migrantes indígenas tendem a apresentar baixa efetividade, contribuindo para a reprodução de processos de exclusão (OIM, 2021; RENSI; CÂMARA, 2023).
Além disso, foi ressaltada a necessidade de acompanhamento contínuo por parte de instituições locais, capazes de auxiliar na mediação de dificuldades financeiras, documentais e sociais, promovendo maior estabilidade e melhoria nas condições de vida e subsistência. A atuação integrada de órgãos públicos e organizações da sociedade civil é apontada como elemento estratégico para o fortalecimento das redes de proteção social voltadas à população migrante indígena (SOUZA; OLIVEIRA, 2022).
A ampliação da integração com a comunidade local também foi mencionada como aspecto relevante, sobretudo para o enfrentamento do isolamento social e da discriminação. O preconceito e o desconhecimento cultural figuram, segundo a literatura, como barreiras significativas à convivência social e à inclusão laboral dos Warao no Brasil (AMAZÔNIA REAL, 2021; RENSI; CÂMARA, 2023). Da mesma forma, os entrevistados destacaram a importância da criação de oportunidades específicas para as mulheres warao, que possibilitem o desenvolvimento de atividades remuneradas compatíveis com suas responsabilidades familiares, favorecendo sua autonomia econômica e social, conforme apontam estudos sobre gênero e migração indígena (OIM, 2021; ACNUR, 2021).
Dificuldades e dinâmicas do trabalho entre os warao: Depoimentos e observações.
Durante as entrevistas realizadas nos abrigos, especialmente a fala do cacique Jorge Guerrero, da comunidade situada no. Ab. Miguel Rosa, foi possível compreender com maior profundidade a relação entre documentação, inserção laboral e vulnerabilidade. Suas declarações revelam que o principal obstáculo para a obtenção de trabalho digno continua sendo a regularização migratória. Este recebeu a proposta de trabalhar na Fazenda da Paz, atual empresa à frente dos abrigos indígenas, mas informou sua preocupação quanto à espera “da documentação para conseguir um trabalho (regularizado),com carteira assinada.”
Essa dependência da renovação documental, muitas vezes se torna lenta, devido à perda do prazo de validade por parte dos warao, o que leva o CONARE a arquivar o protocolo, impedindo a renovação do documento e, consequentemente, do RNM provisório, impede que inúmeros membros da comunidade ingressem no mercado formal. A ausência de documentos válidos não apenas inviabiliza contratações legais, mas expõe essas pessoas a riscos de exploração trabalhista e trabalhos informais precarizados.
Um aspecto importante mencionado por Jorge é o abandono do trabalho de rua, prática associada à mendicância e venda improvisada de artesanato, que ele afirma não realizar há dois anos, evidenciando não apenas a baixa rentabilidade da atividade, mas também as condições degradantes enfrentadas pelos warao quando recorrem a essa forma de sobrevivência. Entre os fatores citados, destacam-se:
- o calor extremo de Teresina, que prejudica adultos e principalmente crianças;
- a alta exposição à discriminação;
- a percepção de que não se trata de um trabalho digno, mas sim de uma estratégia emergencial;
Ainda assim, Jorge reconhece que alguns membros da comunidade ainda recorrem ao trabalho de rua, embora em menor número. Ele complementa que “é uma opção válida”, especialmente para quem ainda não conseguiu regularizar a documentação. Isso demonstra que a vulnerabilidade e a falta de alternativas continuam empurrando parte do grupo para a informalidade.
Artesanato e trabalho feminino
Uma das formas sustentáveis de complemento de renda no grupo é a produção de artesanato, realizada majoritariamente pelas mulheres. Os relatos indicam que elas recebem as miçangas ou matérias-primas de terceiros e confeccionam pulseiras, colares e outros adornos que posteriormente são comercializados fora do abrigo (ver a imagem abaixo).
Ainda que essa atividade não seja altamente lucrativa, contribui para a autonomia das mulheres warao. Trata-se também de um espaço de afirmação cultural, onde as técnicas tradicionais são preservadas.
Imagem 01: Peças de miçangas feitas por indígenas warao:

Fonte: Acervo dos autores (2025).
Riscos de exploração trabalhista
Um ponto sensível identificado durante a primeira visita ao ab. Miguel Rosa, foi o relato de um dos homens que recebeu a equipe no abrigo, cujo nome é Rogelio Marcano (40). No período da visita, este relatou o que foi identificado pelos funcionários do abrigo e pelos alunos que lá estavam, ser uma situação de exploração trabalhista, reforçando que a irregularidade documental, uma vez que a ausência de conhecimento acerca do uso da Carteira Digital de Trabalho, somada às intenções do contratante, contribui para a prática de abusos por parte dos empregadores e intermediários.
Esse risco é recorrente entre imigrantes em situação de vulnerabilidade, e torna-se ainda mais elevado diante da:
- falta de fiscalização efetiva;
- barreira linguística;
- dificuldade de compreender direitos trabalhistas brasileiros;
- necessidade imediata de renda para sustento.
Esse depoimento corrobora a importância de ações públicas que atendam especificamente a essa população com orientação, fiscalização e acompanhamento contínuo.
Síntese das percepções
As falas registradas durante as entrevistas, associadas às observações realizadas em campo, permitem identificar alguns aspectos centrais da realidade vivenciada pela comunidade warao em Teresina. Observa-se, primeiramente, a existência de um desejo concreto e progressivo de superação do trabalho de rua, entendido pelo próprio grupo como uma estratégia de sobrevivência temporária, em favor de atividades laborais mais estáveis e regulares.
Constata-se, ainda, que a regularização documental se configura simultaneamente como condição indispensável para o acesso a oportunidades formais de trabalho e como o principal entrave enfrentado no momento, uma vez que sua ausência limita o exercício de direitos básicos e amplia a dependência da informalidade. Nesse contexto, o artesanato surge como uma alternativa de geração de renda compatível com a identidade cultural Warao, apresentando relevância simbólica e econômica, embora sua capacidade de assegurar subsistência plena seja restrita.
Os relatos também evidenciam a ocorrência de situações de exploração trabalhista, que, embora não sejam generalizadas, permanecem como um risco constante, especialmente diante da vulnerabilidade social, da irregularidade documental e do desconhecimento acerca dos direitos trabalhistas. Por fim, a persistência de práticas discriminatórias e o desconhecimento da cultura warao por parte da sociedade local configuram barreiras significativas à inclusão social e à integração laboral efetiva dessa população.
Possíveis soluções e recomendações:
Com base nos relatos obtidos nas entrevistas e na observação direta das condições vivenciadas pela comunidade warao em Teresina, é possível indicar um conjunto de ações prioritárias a serem desenvolvidas por órgãos públicos, organizações não governamentais e instituições parceiras, de forma articulada à análise teórica apresentada ao longo do estudo.
Em primeiro lugar, destaca-se a necessidade de criação de uma equipe fixa de apoio à regularização documental, responsável por orientar a comunidade quanto à renovação de protocolos migratórios, realizar agendamentos junto à Polícia Federal e esclarecer dúvidas relacionadas aos procedimentos legais. A regularização documental mostra-se condição fundamental para o acesso a direitos trabalhistas e políticas públicas de inclusão produtiva.
Paralelamente, torna-se imprescindível a inclusão efetiva dos warao em programas de capacitação profissional, com oferta de cursos compatíveis com a realidade local e com as possibilidades de inserção no mercado de trabalho, tais como construção civil, culinária, artesanato e atividades auxiliares de serviços gerais. Essas ações devem considerar estratégias de mediação cultural e linguística, de modo a garantir a participação efetiva da comunidade.
Outra dimensão central refere-se ao enfrentamento do preconceito e da discriminação, por meio de campanhas educativas, rodas de conversa e ações de mediação cultural que promovam o reconhecimento da identidade Warao e contribuam para a redução de estigmas associados à população indígena migrante. Tais iniciativas são fundamentais para ampliar as possibilidades de convivência social e inserção laboral.
Recomenda-se, ainda, o fortalecimento de parcerias com escolas e outras instituições locais, considerando que as mulheres Warao já encontram nesses espaços maior acolhimento. A ampliação de projetos que reconheçam e remunerem essas atividades pode contribuir para a geração de renda, o fortalecimento da autonomia feminina e a integração comunitária.
No que se refere ao artesanato, sugere-se o incentivo à sua formalização, por meio da divulgação em feiras, criação de espaços de exposição e apoio à comercialização justa dos produtos. Embora essa atividade não seja suficiente para garantir subsistência plena, ela possui relevância econômica e cultural, devendo ser integrada a políticas de geração de renda mais amplas.
Por fim, ressalta-se a importância da intensificação da fiscalização contra práticas de exploração trabalhista, com atuação articulada da rede de proteção social e a disponibilização de canais de denúncia acessíveis à comunidade. O acompanhamento contínuo é essencial para prevenir abusos e assegurar condições dignas de trabalho para a população warao.
Conclusão
A realidade da comunidade indígena warao em Teresina revela um conjunto complexo de vulnerabilidades que se articulam entre si: a irregularidade documental, a dependência de programas sociais, a presença de trabalhos informais descontinuados, os riscos de exploração trabalhista e a persistência da discriminação. Esses fatores não apenas limitam as possibilidades de inserção laboral, mas também fragilizam a autonomia e a reconstrução de trajetórias de vida dignas no contexto migratório.
Os relatos coletados demonstram que o acesso a trabalho formal depende diretamente da regularização migratória, tornando a documentação a principal porta de entrada para qualquer avanço no campo da renda. Ao mesmo tempo, a existência de iniciativas pontuais, como o artesanato produzido pelas mulheres e as poucas oportunidades formais e informais, evidencia que, apesar das barreiras, há potencial para o desenvolvimento de alternativas sustentáveis, desde que haja apoio institucional adequado.
Dessa forma, torna-se evidente que a superação da vulnerabilidade exige ações integradas que envolvam acompanhamento documental contínuo, inclusão real em programas de capacitação, combate ao preconceito e mecanismos de proteção contra abusos trabalhistas. Somente a partir dessa articulação é possível fortalecer a autonomia econômica dos Warao, garantir condições dignas de subsistência e promover sua efetiva integração à sociedade teresinense.
11Durante a entrevista, Rogelio relatou que havia conseguido trabalho em um pequeno estabelecimento comercial, onde exercia a função de carregador de peso. Trabalhava de segunda a sábado, das 8h às 20h, e recebia apenas R$ 900,00, valor que frequentemente atrasava. Quando isso ocorria, Rogelio pedia permissão para levar alguns itens alimentícios para sua família, mas, à semelhança do sistema de barracão, o valor desses produtos era descontado de seu pagamento. Mas é necessário informar que este não é um caso isolado, em anos anteriores, os warao já foram vítimas de tal exploração.
Referências
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SOUZA, E. M.; OLIVEIRA, A. R. Mobilidade forçada e desafios de inserção social dos indígenas Warao no Brasil. Revista Brasileira de Estudos de População, v. 39, n. 2, 2022.
1Discente do curso de Direito no Instituto de Ensino Superior – ICEV. agnes.cruz@somosicev.com
2Discente do curso de Direito no Instituto de Ensino Superior – ICEV. ana.cavalcante@somosicev.com
3Discente do curso de Direito no Instituto de Ensino Superior – ICEV. bruna.mendes@somosicev.com
4Discente do curso de Direito no Instituto de Ensino Superior – ICEV. emilly.campos@somosicev.com
5Discente do curso de Direito no Instituto de Ensino Superior – ICEV. geovanna.sa@somosicev.com
6Discente do curso de Direito no Instituto de Ensino Superior – ICEV. isadora.sampaio@somosicev.com
7Discente do curso de Direito no Instituto de Ensino Superior – ICEV. lara.machado@somosicev.com
8Discente do curso de Direito no Instituto de Ensino Superior – ICEV. mariana.brandao@somosicev.com
9Discente do curso de Direito no Instituto de Ensino Superior – ICEV. sofia.silva@somosicev.com
10Docente no Instituto de Ensino Superior – ICEV. Bacharel em Ciências Sociais pela UFPI (2016). Mestra em Antropologia pela UFPI (2019). Especializada em Gestão Escolar com Docência Superior pela FAEX (2019). Especializada em Direitos Humanos e Movimentos Sociais pela UESPI (2023). Especializanda em
Práticas Docentes e Metodologias Ativas pela UMFG (2026). E-mail: lilian.sousa@grupocev.com
