DERMATITE POR MALASSEZIA PACHYDERMATIS EM UM CÃO: RELATO DE CASO

MALASSEZIA PACHYDERMATIS DERMATITIS IN A DOG: CASE REPORT

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202510271420


Beatriz dos Santos de Moura1
Ingrid Rodrigues da Silva2
Vivian Renata Kida3


Resumo

As dermatopatias representam uma das principais causas de atendimento clínico em cães, com grande impacto na qualidade de vida animal. Entre os agentes envolvidos destaca-se Malassezia pachydermatis, levedura comensal da pele e conduto auditivo externo que, em condições predisponentes, pode se multiplicar excessivamente e causar quadros de dermatite. O presente trabalho tem como objetivo relatar um caso de dermatite por M. pachydermatis em um cão da raça Shih Tzu, macho, de cinco anos de idade, atendido em clínica veterinária particular, apresentando prurido intenso, eritema, alopecia e descamação na região inguinal esquerda. O diagnóstico foi realizado por meio de raspado cutâneo com avaliação citológica em três lâminas coradas pelo método Panótico Rápido, que evidenciaram estruturas leveduriformes compatíveis com M. pachydermatis, além de processo bacteriano associado. A cultura bacteriana com antibiograma demonstrou crescimento de Pseudomonas aeruginosa sensível a múltiplos antimicrobianos. O tratamento consistiu em antimicrobiano sistêmico direcionado conforme antibiograma, associado a antifúngico oral e xampu antifúngico tópico. Durante o acompanhamento clínico foi observada evolução satisfatória, com regressão progressiva das lesões e redução do prurido, evidenciando a importância do diagnóstico preciso e da escolha terapêutica adequada.

Palavras-chave: Cães. Dermatite. Malassezia pachydermatis. Micose. Pseudomonas.

Abstract

Skin diseases are among the main reasons for veterinary clinical care in dogs, with a significant impact on animal quality of life. Among the agents involved, Malassezia pachydermatis stands out as a commensal yeast of the skin and external ear canal which, under predisposing conditions, may proliferate excessively and cause dermatitis. This study aims to report a case of M. pachydermatis dermatitis in a five-year-old male Shih Tzu dog attended at a private veterinary clinic, presenting intense pruritus, erythema, alopecia and scaling in the left inguinal region. Diagnosis was based on skin scraping with cytological evaluation of three slides stained by the Rapid Panoptic method, which revealed yeast structures compatible with M. pachydermatis, in addition to an associated bacterial process. Bacterial culture with antibiogram demonstrated growth of Pseudomonas aeruginosa sensitive to several antimicrobials. Treatment consisted of systemic antimicrobial therapy directed by antibiogram, combined with oral antifungal and topical antifungal xampu. Clinical follow-up showed satisfactory evolution, with progressive regression of skin lesions and reduced pruritus, highlighting the importance of accurate diagnosis and appropriate therapeutic choice.

Keywords: Malassezia pachydermatis. Dermatitis. Dogs. Mycosis. Pseudomonas

1. INTRODUÇÃO

As dermatopatias de origem fúngica estão entre as principais causas de atendimento clínico em cães, apresentando impacto significativo na qualidade de vida e no bem-estar animal (Scarpa; Souza, 2011). Dentre os agentes etiológicos mais relevantes destaca-se a levedura lipofílica Malassezia pachydermatis, microrganismo integrante da microbiota cutânea e do conduto auditivo externo de cães, que em condições predisponentes pode proliferar de forma exacerbada e atuar como patógeno oportunista (Ferreira et al., 2008; Guillot; Bond, 1999). Entre os fatores que favorecem o desenvolvimento da malasseziose destacam-se alterações endócrinas, doenças alérgicas, distúrbios de queratinização, imunossupressão e umidade excessiva (Nobre et al., 2023; Rodrigues et al., 2022). Clinicamente, a dermatite por M. pachydermatis caracteriza-se por prurido intenso, eritema, hiperpigmentação, alopecia e odor fétido, localizando-se principalmente em regiões intertriginosas, como axilas, virilha e pescoço ventral (Díaz et al., 2022; Nobre et al., 2023). A identificação do agente é essencial para o tratamento eficaz e pode ser realizada por citologia cutânea, método rápido e de baixo custo que permite a observação direta de estruturas leveduriformes típicas (Guillot; Bond, 1999). Em casos recorrentes, a cultura fúngica e o antibiograma são recomendados para definição de protocolos terapêuticos mais precisos (Ferreira et al., 2008; Nobre et al., 2023). A terapêutica da malasseziose envolve o uso combinado de antifúngicos sistêmicos e tópicos, além de xampu ceratolíticos. Estudos recentes demonstram a eficácia da associação de amitraz e metaflumizone no controle de infecções cutâneas associadas a M. pachydermatis, promovendo melhora clínica significativa e redução da população fúngica (Tarallo et al., 2009). Além disso, o controle de fatores predisponentes e a adesão do tutor ao tratamento são fundamentais para o sucesso terapêutico (Rodrigues et al., 2022). A compreensão da fisiopatologia e dos mecanismos de virulência da M. pachydermatis é essencial para a abordagem clínica adequada. Conforme apontam Maraschin et al. (2008), a atualização taxonômica e a diferenciação entre as espécies do gênero Malassezia são fundamentais para o entendimento das manifestações clínicas e da resposta terapêutica. Assim, o estudo da malasseziose em cães apresenta relevância científica e clínica, uma vez que possibilita a elaboração de estratégias diagnósticas e terapêuticas mais eficazes, contribuindo para o aprimoramento da medicina veterinária de pequenos animais. 

2. RELATO DE CASO

Foi atendido em clínica veterinária particular um cão macho, da raça Shih Tzu, com cinco anos de idade, apresentando prurido intenso e lesões dermatológicas na região inguinal esquerda.

Figura 1. Aspecto clínico geral do paciente da raça Shih Tzu.

Fonte: Autores (2024).

Ao exame clínico, observaram-se eritema, alopecia localizada, descamação, hiperpigmentação e odor fétido característicos.

Figura 2. Eritema e descamação na região inguinal esquerda.

Fonte: Autores (2024).

Para avaliação laboratorial, foi realizado exame citológico através da técnica de raspado cutâneo das lesões dermatológicas na região inguinal esquerda. Foram confeccionadas três lâminas coradas pela técnica de Panótico Rápido, que apresentaram qualidade satisfatória para análise. A avaliação microscópica revelou predomínio de cocos bacterianos (+++), presença moderada de neutrófilos (++), linfócitos raros (+), grande quantidade de hemácias (+++), estruturas leveduriformes compatíveis com M. pachydermatis (média de 2 p.c.), além de debris celulares (++) e células epiteliais queratinizadas (++), confirmando um processo bacteriano e fúngico concomitante.

Figura 3. Citologia cutânea corada pelo Panótico Rápido evidenciando estruturas leveduriformes compatíveis com M. pachydermatis

Fonte: Autores (2024).

O hemograma apresentou valores dentro da normalidade fisiológica da espécie, evidenciando apenas anisocitose discreta (+) e macroplaquetas (++), não indicando alterações sistêmicas relevantes. Adicionalmente, foi realizada cultura bacteriana com antibiograma da amostra coletada da região inguinal esquerda. Houve crescimento de Pseudomonasaeruginosa e o antibiograma, realizado pelo método de difusão em disco (Kirby-Bauer), demonstrou sensibilidade a antimicrobianos como ceftazidima, cefepime, ciprofloxacino, enrofloxacino, gentamicina, levofloxacino, meropenem, ofloxacino, tobramicina e piperacilina+tazobactam, apresentando resistência intrínseca a associações de amoxicilina com ácido clavulânico e outros betalactâmicos. Com base nesses achados, foi instituído protocolo terapêutico direcionado, incluindo antimicrobianos sistêmicos conforme antibiograma, antifúngico oral e xampu antifúngico tópico. Durante o acompanhamento clínico, observou-se evolução satisfatória, com regressão progressiva das lesões cutâneas e significativa redução do prurido após o início do tratamento.

Figura 4. Evolução clínica após tratamento, com regressão das lesões e redução do eritema.

Fonte: Autores (2024).

3. DISCUSSÃO

A M. pachydermatis é reconhecida como um microrganismo comensal da pele de cães, mas que pode se tornar patogênico em situações de desequilíbrio, especialmente quando associado a fatores predisponentes como doenças alérgicas, alterações endócrinas, imunossupressão ou uso prévio de antibióticos (Ferreira et al., 2008; Machado, 2010). No presente caso, embora não tenha sido identificada doença de base evidente, a coinfecção bacteriana por Pseudomonas aeruginosa provavelmente contribuiu para o agravamento do quadro clínico, corroborando a literatura que aponta a importância de infecções secundárias em dermatopatias por Malassezia (Nobre et al., 2023). Os sinais clínicos observados — prurido intenso, eritema, alopecia e descamação na região inguinal — são compatíveis com os quadros clínicos descritos na literatura, os quais apontam a predileção de M. pachydermatis por áreas intertriginosas, como axilas, pescoço ventral e região inguinal (Ferreira et al., 2008; Díaz et al., 2022). Além disso, a presença de odor fétido e hiperpigmentação reforça o caráter crônico da lesão, já relatado em casos semelhantes (Ferreira et al., 2008). O diagnóstico foi estabelecido com base na citologia de raspado cutâneo corado pelo Panótico Rápido, onde foram identificadas estruturas leveduriformes compatíveis com M. pachydermatis. Esse achado está em concordância com (Guillot; Bond, 1999), que ressaltam a citologia como método rápido, confiável e de baixo custo para o diagnóstico da dermatite por Malassezia, além de ser amplamente aplicável na rotina clínica veterinária. A cultura bacteriana com antibiograma foi fundamental para direcionar o tratamento, uma vez que identificou o crescimento de Pseudomonas aeruginosa, microrganismo frequentemente relacionado a infecções cutâneas oportunistas e conhecido pela sua resistência a múltiplas drogas (Neves et al.,2011). Estudos anteriores reforçam a importância da associação entre cultura e antibiograma em casos de dermatite complicada por infecção bacteriana, garantindo maior assertividade terapêutica (Nobre et al., 2023). O tratamento instituído neste caso, baseado na associação de antifúngico sistêmico, terapia tópica com xampu antifúngico e antimicrobiano sistêmico conforme antibiograma, resultou em resposta clínica favorável, com melhora significativa das lesões cutâneas e regressão do prurido. Esses resultados são compatíveis com relatos da literatura, que indicam a necessidade de protocolos terapêuticos combinados para o controle eficaz da dermatite por Malassezia, especialmente quando associada a infecções bacterianas (Ferreira et al., 2008; Machado, 2010). Assim, este caso reforça a relevância do diagnóstico integrado — clínico, citológico e microbiológico — e da adoção de protocolos terapêuticos individualizados, que considerem tanto a presença da levedura quanto possíveis coinfecções bacterianas, assegurando melhores resultados clínicos e prognósticos. 

4. CONCLUSÃO

O presente relato de caso demonstrou a importância da M. pachydermatis como agente oportunista em cães, capaz de desencadear dermatite associada a coinfecção bacteriana por Pseudomonas aeruginosa. A associação de métodos diagnósticos, como a citologia cutânea e a cultura com antibiograma, foi essencial para a definição do quadro clínico e direcionamento da terapia. O protocolo instituído, combinando antifúngico sistêmico, terapia tópica e antimicrobiano sistêmico baseado em antibiograma, resultou em evolução clínica satisfatória, confirmando a relevância da abordagem integrada. Ressalta-se, portanto, a necessidade de considerar infecções secundárias em casos de dermatite por Malassezia, bem como a importância da escolha terapêutica individualizada para o sucesso do tratamento.

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1ORCID: 0009-0005-4831-0504
2ORCID: 0009-0009-8616-2433
3ORCID: 0000-0001-8598-0092