DA RESISTÊNCIA AO VÍNCULO: O PAPEL DA ATENÇÃO PRIMÁRIA NA REABILITAÇÃO PSICOSSOCIAL E CLÍNICA DE IDOSA COM DEPRESSÃO

FROM RESISTANCE TO BONDING: THE ROLE OF PRIMARY CARE IN THE PSYCHOSOCIAL AND CLINICAL REHABILITATION OF AN ELDERLY WOMAN WITH DEPRESSION

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ar10202512131336


Antonio Fernando de Vasconcelos Junior1


Resumo

A depressão em idosos é uma condição que impacta na funcionalidade, na qualidade de vida e no controle de doenças crônicas, como hipertensão e diabetes mellitus. No contexto da Atenção Primária à Saúde (APS), a Estratégia Saúde da Família (ESF) permite acompanhamento longitudinal através de uma abordagem centrada na pessoa e na construção do vínculo terapêutico. Este estudo teve como objetivo analisar o impacto das intervenções integradas na saúde mental, na adesão terapêutica e no controle de comorbidades de uma paciente idosa atendida em área rural da Paraíba. O relato de caso utilizou registros clínicos, visitas domiciliares, entrevistas e observação direta das interações com a equipe multiprofissional. Os resultados mostraram que houve uma melhora progressiva do humor da paciente, retomada do autocuidado, adesão regular às medicações e estabilização clínica, além de reinserção social. Conclui-se que as intervenções integradas na APS são fundamentais para o cuidado integral e a qualidade de vida dos idosos.

Palavras-chave: Atenção Primária à Saúde. Idoso. Hipertensão. Diabetes Mellitus. Saúde Mental.

1 INTRODUÇÃO

A depressão é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma condição de elevada prevalência na sociedade contemporânea, com impactos sobre a funcionalidade e a qualidade de vida dos indivíduos. A etiologia da depressão é multifatorial, incluindo fatores biológicos, psicológicos e ambientais. Nesse contexto, o ambiente físico e social em que o indivíduo está inserido pode atuar como determinante de risco, influenciando o surgimento e a progressão dos transtornos mentais (Silva et al., 2022).

No envelhecimento, definido pela OMS como o período a partir dos 60 anos, ocorre um declínio gradual das capacidades funcionais, aumentando a vulnerabilidade a alterações cognitivas e emocionais. As alterações no sistema nervoso central, o comprometimento da memória e da capacidade de processamento cognitivo, associadas à percepção de perda de autonomia e à preocupação em se tornar dependente da família, elevam o risco da depressão nesta população (Silva et al., 2022).

Além disso, os idosos frequentemente têm que lidar com questões psicossociais complexos, além do isolamento social, a insegurança financeira, ansiedade, demência e aumento da dependência de cuidados médicos e familiares. Esses fatores contribuem para a fragilização do autocuidado e para o comprometimento da funcionalidade, intensificando o impacto da depressão sobre a qualidade de vida (Silva et al., 2022).

A depressão em idosos constitui um desafio importante para a Atenção Primária à Saúde, principalmente quando associada ao isolamento social, à perda de autonomia e à ocorrência de eventos marcadores como o falecimento do cônjuge. Segundo Bueno (2019), o sofrimento psíquico interfere no funcionamento global e repercute diretamente no tratamento das doenças crônicas, reduzindo o autocuidado, a motivação e a capacidade de aderir às recomendações médicas. 

Diante desse contexto, no âmbito da Atenção Primária à Saúde, a Estratégia Saúde da Família configura-se como um espaço privilegiado para o acompanhamento desses casos, uma vez que possibilita o cuidado longitudinal, possui uma abordagem centrada na pessoa e mantém uma proximidade cotidiana por meio das visitas domiciliares e acompanhamento. A construção do vínculo e o reconhecimento das necessidades subjetivas do paciente passam a ser determinantes para o sucesso terapêutico. Assim, compreender como a intervenção sobre a saúde mental influencia o controle de outras condições clínicas torna-se fundamental para qualificar o cuidado integral oferecido à pessoa idosa.

Sendo assim, o objetivo deste estudo foi analisar, a partir do relato de caso de uma paciente de 72 anos atendida pela Estratégia Saúde da Família em área rural de uma cidade do interior da Paraíba, o impacto das intervenções integradas. Essas intervenções incluíram o acompanhamento clínico, uso de antidepressivos, psicoterapia e reorganização do suporte familiar. O estudo discutiu como essas medidas influenciaram na melhora da saúde mental, na adesão terapêutica e na estabilização das comorbidades. Além disso, evidencia-se o papel da Atenção Primária à Saúde na promoção do cuidado integral e na reinserção social da pessoa idosa.

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.1 Atenção Primária a Saúde

A Atenção Primária à Saúde (APS) é o nível estratégico prioritário no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS) para o acompanhamento de indivíduos com condições crônicas, inclusive os idosos, que frequentemente apresentam múltiplas comorbidades e estão inseridos em contextos de vulnerabilidade social. Nesse cenário, a APS atua na promoção da saúde e na prevenção de complicações através do cuidado contínuo, próximo e integral. A abordagem longitudinal, característica desse nível, de atenção permite o monitoramento sistemático das alterações no estado de saúde, favorecendo a identificação precoce dos agravos, a intervenção e o ajuste individualizado das condutas terapêuticas. Esse acompanhamento é necessário no manejo das doenças como hipertensão e diabetes mellitus, que são condições que exigem um tratamento contínuo, precisa de adesão terapêutica e dependem da participação ativa do paciente, além da articulação com as estratégias de educação em saúde e suporte familiar. 

A literatura evidencia que a qualidade de vida desses idosos está relacionada não apenas ao controle objetivo das doenças, mas também à maneira como eles enfrentam as limitações do cotidiano, ao suporte recebido e à compreensão sobre o próprio tratamento, conforme discutido por Santos, Silva Júnior e Eulálio (2023). 

No cotidiano da APS, grande parte dos desafios relacionados ao tratamento das doenças crônicas não se restringe apenas ao uso correto dos medicamentos. Diversos fatores contextuais e sociais interferem na adesão terapêutica e na efetividade do cuidado. Entre esses desafios, destacam-se o deslocamento até a unidade de saúde, que pode ser dificultado por limitações físicas ou pela distância; a baixa escolaridade, que compromete a compreensão das orientações médicas e a capacidade de seguir regimes complexos de tratamento; a insegurança alimentar, que impacta diretamente o metabolismo e o controle de condições como diabetes; o medo dos efeitos adversos dos medicamentos, que pode levar à interrupção precoce do tratamento; e a irregularidade no fornecimento dos fármacos pela rede pública, fator estrutural que compromete a continuidade do cuidado (Costa et al., 2017).

Situações desse tipo não são raras e impactam diretamente no compromisso do paciente com o manejo da sua condição de saúde. Fidelis, Jacob e Bigatto (2023) destacam que o contexto social e familiar acaba influenciando tanto quanto a própria condição clínica, reforçando a necessidade de estratégias de cuidado mais amplas e próximas da realidade do usuário.

É importante frisar que um dos pilares mais fortes da Atenção Primária é o vínculo. A confiança construída entre a equipe e o paciente é determinante para sustentar o tratamento ao longo dos anos. Quando o paciente percebe que tem espaço para falar sobre suas dúvidas e dificuldades, ele tende a aderir mais facilmente às orientações. As relações frágeis ou atendimentos muito rápidos, em que não há escuta, podem resultar no abandono terapêutico (Fidelis; Jacob; Bigatto, 2023).

Santos, Silva Júnior e Eulálio (2023) discutem que o vínculo é o que permite que o cuidado vá além de uma lista de recomendações e se torne, de fato, um trabalho conjunto. Além disso, as ações educativas também têm um papel essencial nesse processo. Explicar de forma clara a importância do uso contínuo dos medicamentos, orientar sobre a alimentação, ajudar na organização da rotina e apresentar estratégias de autocuidado contribuem para que o idoso compreenda melhor sua condição. Costa et al. (2017) ressaltam que a educação em saúde tem potencial para melhorar a adesão e reduzir as complicações. Portanto, quando essa educação é contínua e acontece em diferentes espaços, como grupos, consultas e visitas domiciliares, o paciente se sente mais seguro e capaz de lidar com sua própria doença.

Outro ponto importante é o monitoramento. A APS permite acompanhar pequenas mudanças nos sinais clínicos, o que possibilita ajustes no tratamento e evita que situações simples evoluam para complicações graves, como infecções, problemas renais ou alterações cardiovasculares. Santos, Silva Júnior e Eulálio (2023) mostram que as complicações decorrentes do diabetes, por exemplo, têm um impacto profundo na autonomia dos idosos e aumentam a demanda por atenção especializada. 

A proximidade da APS também facilita perceber sinais que antecedem o abandono do tratamento. Mudanças de comportamento, comentários sobre desânimo, falhas repetidas no uso da medicação ou dificuldade crescente de organizar a rotina podem indicar que o paciente está enfrentando um desgaste emocional importante. Embora a discussão aprofundada sobre saúde mental seja feita no item seguinte, é evidente que a Atenção Primária é o primeiro lugar onde esses sinais aparecem. Dessa forma, compreender a relação entre aspectos emocionais e doenças crônicas é essencial para evitar descontrole clínico (Gomes et al., 2020). 

Assim, a escuta atenta ajuda a prevenir agravamentos e fortalece o vínculo com a equipe. A partir desse conjunto de elementos, compreende-se que o cuidado oferecido na APS não se limita ao acompanhamento clínico tradicional. O trabalho envolve compreender a vida cotidiana, apoiar o paciente nos seus desafios reais e construir, junto com ele, caminhos possíveis para manter o controle da doença (Fidelis; Jacob; Bigatto, 2023). 

2.2 Saúde mental na APS

A relação entre a saúde mental e condições crônicas, principalmente na população idosa, tem se mostrado cada vez mais evidente nas práticas de cuidado. A depressão aparece como um dos transtornos mais comuns nessa faixa etária e acaba atravessando o modo como o paciente organiza sua vida, compreende a doença e se relaciona com o tratamento. Bueno (2019) aponta que a prevalência dos sintomas depressivos entre idosos é alta no Brasil, mas mesmo assim grande parte desses casos permanece sem diagnóstico ou com manejo insuficiente, o que agrava tanto o sofrimento psíquico quanto a evolução das doenças associadas. 

Yang et al. (2023) chamam atenção para o fato de que, no caso dos idosos com diabetes tipo 2, a presença dos sintomas depressivos está associada a uma piora no autocontrole glicêmico e menor adesão terapêutica, o que repercute tanto na qualidade de vida quanto no risco de complicações. Bueno (2019) observa que esses pacientes apresentam menor monitoramento glicêmico, níveis reduzidos de atividade física e maior propensão a interromper ou não aderir adequadamente às orientações dietéticas e farmacológicas.

Dentro da APS, esse quadro é percebido de forma gradual. Muitas vezes, o paciente começa a faltar às consultas, passa a relatar cansaço ou desânimo, ou apresenta oscilações no comportamento que antes não eram comuns. A equipe, por acompanhar de perto o paciente, consegue identificar esses sinais e entender que a depressão não é um fenômeno isolado: ela atravessa todo o processo de cuidado. 

Zucco e Silveira (2024) destacam que as equipes bem estruturadas podem reconhecer precocemente o sofrimento psíquico e organizar as ações de acolhimento, encaminhamento e seguimento clínico. A proximidade proporcionada pela Estratégia Saúde da Família (ESF) potencializa esse processo, uma vez que o vínculo estabelecido entre a equipe e o paciente favorece a detecção precoce de alterações na rotina e no grau de adesão ao tratamento.

A depressão em idosos também envolve questões sociais relacionadas a situações de perdas familiares, luto, isolamento e redução da autonomia. Esses elementos marcadores importantes no surgimento dos sintomas depressivos, e muitos desses fatores aparecem nos indivíduos com condições crônicas (Lara-Morales et al., 2022).

Em homens idosos com diabetes mellitus, a presença de sintomas de ansiedade e depressão está associada à não adesão ao tratamento medicamentoso, enquanto, entre as mulheres, o risco de não adesão é mais fortemente influenciado por determinantes sociais, como a ausência do suporte familiar ou comunitário. Esse diálogo entre os determinantes emocionais e sociais evidenciam que a APS deve ir além do manejo da doença isolada, considerando o conjunto de fatores que permeiam a vida cotidiana do paciente e influenciam sua adesão, autocuidado e bem-estar geral (Lara-Morales et al., 2022).

Outro aspecto frequentemente observado é a tendência de parte dos idosos em minimizar os sintomas emocionais ou atribuí-los ao processo natural de envelhecimento, considerando que sentir tristeza ou desânimo é “normal da idade”. Essa percepção contribui para o atraso no diagnóstico, favorecendo a cronificação da depressão e tornando seu manejo clínico mais complexo. chama atenção para o fato de que a depressão nessa faixa etária pode durar anos sem tratamento adequado, resultando em maior dependência, retraimento, risco de suicídio e aumento da mortalidade (Bueno, 2019).

Bueno (2019) ressalta que, nessa faixa etária, a depressão pode persistir por anos sem tratamento adequado, resultando em maior dependência funcional, retraimento social, risco de suicídio e aumento da mortalidade. Além disso, Zucco e Silveira (2024) destacam que a coexistência da depressão com as doenças clínicas preexistentes agrava ambas as condições, ampliando o risco de complicações e demandando acompanhamento intensivo por parte da equipe de saúde.

No contexto da Atenção Primária à Saúde, o impacto da associação entre depressão e comorbidades crônicas manifesta-se de diversas maneiras. É frequente observar pacientes que, apesar de receberem orientações claras, apresentam dificuldades em aderir ao plano terapêutico. Alguns esquecem doses da medicação, outros demonstram desmotivação para manter a rotina alimentar ou mesmo para se participar de atividades comunitárias, comprometendo, assim, a efetividade do cuidado integral.

Yang et al. (2023) destacam que a não adesão ao tratamento medicamentoso é consideravelmente mais frequente entre os pacientes com depressão, estando diretamente associada à piora da qualidade de vida. Alomar et al. (2024) corroboram essa relação, evidenciando que, em diversas doenças crônicas, a depressão se apresenta como um dos principais fatores envolvidos no abandono terapêutico.

Diante desse contexto, a atuação da equipe de saúde da APS pode atuar para evitar que esse ciclo avance. O vínculo e a continuidade do cuidado criam um espaço em que o paciente pode falar, expressar dúvidas, relatar dificuldades e, principalmente, sentir que não está lidando com a doença sozinho. Gomes et al. (2020) afirmam que compreender a relação entre a depressão e as condições crônicas ajuda a equipe a ajustar as condutas e realizar um cuidado mais próximo da realidade do idoso. Dessa forma, as práticas institucionais voltadas para o diagnóstico e tratamento da depressão podem melhorar o prognóstico e reduzir o impacto da doença no sistema de saúde.

Outra dimensão importante envolve o componente educativo. A equipe pode orientar sobre os sinais de alerta, ajudar o paciente a organizar a rotina, promover grupos terapêuticos ou atividades comunitárias que contribuam para reduzir o isolamento. Esses espaços tornam o cuidado mais coletivo e ajudam a construir uma rede de apoio que favorece tanto a participação com o tratamento quanto a saúde mental. Além disso, fortalecer a adesão medicamentosa passa também pelo fortalecimento das redes sociais que envolvem o idoso (Lara-Morales et al., 2022).

Assim, ao organizar suas ações a partir da realidade da população, a APS se torna o nível mais adequado para integrar saúde mental e o cuidado das doenças crônicas. Não se trata apenas da prescrição de medicamentos ou da realização de exames periódicos; é necessário criar condições para que o paciente compreenda sua condição clínica, tenha apoio para lidar com as dificuldades e se sinta motivado a manter a adesão ao autocuidado.

A depressão não deve ser considerada um fator secundário, mas sim um componente transversal que impacta todas as dimensões do cuidado. A partir dessa perspectiva, torna-se possível consolidar o vínculo terapêutico e estruturar estratégias que permitam ao idoso recuperar autonomia, garantindo maior estabilidade clínica ao longo do tempo. Portanto, compreende-se que o cuidado integral passa necessariamente pela atenção à dimensão subjetiva, frequentemente determinante para a evolução e desfecho do quadro clínico.

4 METODOLOGIA 

Este relato foi construído a partir do acompanhamento longitudinal de uma paciente idosa residente em área rural atendida por uma equipe de Estratégia Saúde da Família ao longo de aproximadamente dois anos. As informações foram obtidas por meio de registros clínicos, visitas domiciliares, entrevistas com a paciente e familiares e observação direta das interações da usuária com a equipe. 

O relato de caso é um tipo de estudo observacional e descritivo que se dedica a apresentar detalhadamente os sinais, sintomas, diagnóstico, evolução e tratamento de um paciente, geralmente quando envolve uma condição incomum, emergente ou de relevância clínica. Esse formato também inclui uma revisão atualizada da literatura sobre o tema, o que permite contextualizar o caso dentro do conhecimento científico existente e contribuir para a construção de novas hipóteses e futuras pesquisas (Bagio et al., 2022).

O caso foi descrito preservando-se o anonimato e as informações sensíveis, respeitando-se os princípios éticos de confidencialidade e dignidade da pessoa atendida. O objetivo é apresentar a trajetória clínica e psicossocial da paciente, destacando a relação entre depressão, adesão terapêutica e evolução das doenças crônicas, bem como o papel fundamental da Atenção Primária na recuperação.

5 RESULTADOS E DISCUSSÕES 

A paciente, de 72 anos, viúva e moradora de zona rural, apresentava diagnóstico de depressão com piora significativa após a morte do marido. Vivendo sozinha, demonstrava intensa retração social, recusando-se a comparecer à unidade de saúde e evitando a presença da equipe mesmo durante visitas domiciliares. Seu quadro depressivo estava associado a desinteresse generalizado por atividades cotidianas, desmotivação e abandono terapêutico. 

Clinicamente, a doença manifesta-se por uma tristeza persistente, anedonia, fadiga, alterações do sono e do apetite, além da dificuldade em manter a adesão às rotinas de autocuidado e ao tratamento medicamentoso. As estratégias de intervenção, portanto, devem incluir a promoção de exercícios físicos, estímulos cognitivos e suporte psicossocial, os quais têm se mostrado eficazes na redução dos sintomas depressivos e na ampliação da autonomia. (Silva et al., 2022).

Também é importante considerar que a depressão não afeta apenas o comportamento, mas altera a forma como a pessoa percebe sua própria doença. Muitos pacientes deprimidos interpretam o tratamento como algo pesado, difícil, ou até inútil. Isso interfere na realização das tarefas mais básicas, como medir a glicemia, preparar a alimentação ou manter horários regulares de medicação. Yang et al. (2023) mostram que esses pacientes possuem pior autogerenciamento, o que cria um ciclo em que o descontrole clínico alimenta ainda mais o sofrimento emocional. Esse ciclo, se não for reconhecido e interrompido, tende a se aprofundar.

A APS, por estar dentro das comunidades, tem uma capacidade de intervir antes que esse ciclo ganhe força. A visita domiciliar, por exemplo, permite observar aspectos que não aparecem na consulta: ambiente familiar, qualidade da alimentação, organização dos medicamentos e a presença (ou ausência) de apoio social. O acompanhamento também dá espaço para que a equipe identifique pequenas mudanças, mas que podem indicar o início de um quadro depressivo. Dessa forma, as intervenções precoces no âmbito da APS podem evitar agravamentos e promover maior autonomia ao idoso (Zucco; Silveira, 2024).

Nesse sentido, além da depressão, a paciente apresentava hipertensão arterial sistêmica e diabetes mellitus tipo 2 há vários anos, ambas em situação de difícil controle. No início da residência médica na APS, a paciente raramente comparecia à unidade, fazendo com que fosse necessária a realização de múltiplas visitas domiciliares pela equipe. Ela evitava contatos, recusava a presença dos profissionais e rejeitava qualquer encaminhamento à psicologia. As aferições de pressão arterial eram consistentemente elevadas, com valores superiores a 150/90 mmHg, e as hemoglobinas glicadas permaneciam acima de 9%, indicando importante descompensação metabólica.

O tratamento prescrito incluía hidroclorotiazida 25 mg/dia, losartana 50 mg/dia e metformina, indicada em dose de dois comprimidos pela manhã e dois à noite. Contudo, a paciente fazia uso irregular, tomava “de vez em quando” e mantinha padrão alimentar inadequado. Esses fatores, somados à depressão não tratada, contribuíam para o agravamento das condições crônicas.

Diante da resistência em comparecer ao serviço, a equipe intensificou as visitas domiciliares com o intuito de estabelecer vínculo, compreender o contexto emocional e orientar sobre os riscos do não tratamento. A insistência e empatia da equipe multiprofissional permitiu que, gradualmente, a paciente aceitasse conversar e expor parte de seu sofrimento. 

Por estar imersa no território, a Atenção Primária consegue perceber que as dificuldades dos pacientes geralmente não são isoladas. Muitas vezes, a falta de adesão ao tratamento está ligada a sobrecarga familiar, ausência de rede de apoio, limitações econômicas ou dificuldades emocionais que vão se acumulando ao longo do tempo. 

Costa et al. (2017) e Fidelis, Jacob e Bigatto (2023) lembram que, nesses casos, a equipe precisa olhar para além do sintoma e considerar como esses elementos se combinam na vida real do paciente. Essa visão centrada no paciente permite integrar outros setores da rede de atenção, podendo integrar a assistência social, realizar encaminhamentos para programas de apoio ao idoso ou a serviços comunitários, ampliando as possibilidades de cuidado.

Assim, após várias semanas de acompanhamento, a paciente aceitou iniciar tratamento antidepressivo, sendo prescrito escitalopram 10mg ao dia. Posteriormente, também concordou em participar de sessões com a psicóloga da unidade. A adesão ao tratamento da depressão foi inicialmente tímida, mas tornou-se estável nas semanas seguintes, contribuindo para melhora progressiva do humor.

Zucco e Silveira (2024) enfatizam que a depressão tem uma forte influência sobre a qualidade de vida e deve ser considerada como um dos agravos prioritários na Atenção Primária à Saúde. A observação do cotidiano dos serviços revela que os efeitos da depressão transcendem a esfera emocional, afetando diretamente o autocuidado, reduzindo a energia disponível para o cumprimento das orientações terapêuticas, comprometendo os hábitos alimentares, alterando o padrão do sono e, em alguns casos, levando à interrupção do regime medicamentoso prescrito. Dessa forma, a depressão configura-se como um fator que interfere na adesão ao tratamento e na efetividade das intervenções na APS, e por isso o cuidado precisa ser integrado, considerando tanto os aspectos clínicos quanto os determinantes psicossociais da saúde.

Outro aspecto fundamental da intervenção foi o fortalecimento da rede de apoio familiar. Mediante diálogo com os familiares, uma das filhas passou a residir com a paciente no sítio, passando a residir com a mãe. Essa presença reduziu a solidão, reforçou a organização da rotina medicamentosa e estimulou atividades de convivência. Um dos filhos também intensificou as visitas semanais, contribuindo para redução do isolamento e reforço do vínculo afetivo.

Com a melhora afetiva e o vínculo consolidado, a paciente passou a aderir à terapêutica da HAS e DM2. No período de acompanhamento ao longo do último ano, pôde-se observar o controle das doenças crônicas. A pressão arterial, antes sempre elevada, passou a atingir valores em torno de 14/8 mmHg, com tendência à estabilização. Com seis meses de acompanhamento, a hemoglobina glicada havia reduzido para aproximadamente 8%, nível considerado adequado para sua faixa etária, e não houve necessidade de insulinoterapia. A pressão arterial também se manteve regularmente abaixo de 13/8 mmHg, aferida várias vezes por semana pela agente comunitária de saúde. Ao final de um ano, a paciente apresentava-se comunicativa e motivada.

A melhora do humor se refletiu também em mudanças de estilo de vida. Antônia passou a participar semanalmente das atividades do posto de saúde, como grupos educativos, palestras e encontros com a educadora física. Tornou-se mais comunicativa, deixou de necessitar de visitas domiciliares e retomou a capacidade de deslocar-se à unidade por conta própria. Atualmente, comparece espontaneamente às consultas e mantém o uso regular das medicações.

Diante desse contexto, compreende-se a atuação da APS só se sustenta porque é contínua, próxima e centrada na pessoa. Quando há vínculo, educação permanente, monitoramento frequente e sensibilidade para perceber as questões emocionais e sociais envolvidas, o paciente consegue lidar melhor com sua condição e manter uma maior estabilidade ao longo do tempo (Santos; Silva Júnior; Eulálio, 2023).

Assim, a partir deste relato de caso viu-se que o conjunto articulado das intervenções realizadas, (psicoterapia, uso regular de inibidor seletivo da recaptação de serotonina, reorganização do suporte familiar, acompanhamento longitudinal, visitas domiciliares e ações de promoção da saúde) foram os elementos centrais para a reversão gradual do quadro depressivo e, consequentemente, para o restabelecimento do controle clínico da hipertensão arterial sistêmica e do diabetes mellitus tipo 2. Além disso, a melhora do estado emocional da paciente favoreceu uma maior adesão às orientações terapêuticas, ampliou a motivação para o autocuidado e possibilitou que a ela retomasse sua rotina, seus vínculos e sua autonomia. 

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A experiência demonstrou que a depressão exercia papel central na desorganização clínica da paciente. O atendimento inicial das questões relacionadas à saúde mental foi determinante para a reconstrução do autocuidado e para o controle das doenças crônicas. O trabalho da equipe de Estratégia Saúde da Família evidenciou como o vínculo, a escuta, a continuidade do cuidado e a articulação interprofissional podem impactar positivamente no curso clínico dos pacientes com múltiplas vulnerabilidades. A atuação integrada entre médica, psicóloga, agente comunitária de saúde, educadora física e família permitiu uma intervenção multidisciplinar, que repercutiu nos aspectos emocionais, sociais e clínicos de forma articulada.

Desse modo, este relato evidenciou que o manejo adequado da depressão em idosos não é apenas uma intervenção voltada ao bem-estar psicológico, mas também uma estratégia fundamental para melhorar a adesão terapêutica e o controle das doenças crônicas. A evolução da paciente demonstra que a melhora da saúde mental foi o ponto de virada que permitiu estabilizar suas condições clínicas e retomar seu lugar na vida comunitária.

Conclui-se, portanto, que a construção de vínculo, a humanização do cuidado, o acompanhamento e a abordagem interdisciplinar permitiram o controle da pressão arterial e da glicemia, mas também a restauração da autonomia, da autoestima e do sentido de pertencimento da paciente. 

REFERÊNCIAS

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¹Residente do Programa de Residência Médica em Medicina de Família e Comunidade da Escola de Saúde Pública do Governo da Paraíba. E-mail: fernando022977@gmail.com