THE RELATIONSHIP BETWEEN VESTIBULAR DISORDERS AND MOTOR DIFFICULTIES IN ASD
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202511301545
Olavo Vinicius Souza Bricio1
Orientador(a): Prof. Esp. Cíntia Campos Costa2
Resumo: O presente artigo aborda o Transtorno do Espectro Autista (TEA), uma condição neurológica caracterizada por alterações no desenvolvimento neuromotor e sensorial, que impactam diretamente a funcionalidade e a qualidade de vida dos indivíduos. Estudos indicam que distúrbios vestibulares podem estar associados às dificuldades motoras em pessoas com esse transtorno, embora essa relação ainda seja pouco explorada na prática clínica e educacional. Objetivo: compreender a percepção de fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais e psicólogos sobre a relação entre distúrbios vestibulares e disfunções motoras em indivíduos com TEA, além de identificar as estratégias de intervenção adotadas por esses profissionais. Método: Trata-se de uma pesquisa original, de abordagem quantitativa, com delineamento transversal e caráter descritivo. A coleta de dados é realizada por meio de questionários online aplicados a profissionais que atuam diretamente com indivíduos com TEA. A pesquisa contou com 13 participantes das áreas da saúde e da educação. Os dados, analisados por estatísticas descritivas, revelaram lacunas na formação profissional e destacaram a relevância do sistema vestibular na avaliação de crianças com TEA. O equilíbrio foi a habilidade mais afetada, seguido por dificuldades de coordenação e planejamento motor. Constatou-se também a influência dos distúrbios vestibulares na autorregulação emocional, reforçando a necessidade de capacitação e de uma atuação interdisciplinar com protocolos padronizados de avaliação e intervenção.
Palavras-Chave: TRANSTORNO DO ESPECTRO (TEA), DISTÚRBIOS ESTIBULARES,
ABSTRACT: This article addresses Autism Spectrum Disorder (ASD), a neurological condition characterized by alterations in neuromotor and sensory development that directly affect individuals’ functionality and quality of life. Studies indicate that vestibular disorders may be associated with motor difficulties in people with this condition, although this relationship remains underexplored in clinical and educational practice. Objective: To understand the perception of physiotherapists, occupational therapists, and psychologists regarding the relationship between vestibular disorders and motor dysfunctions in individuals with ASD, as well as to identify the intervention strategies adopted by these professionals. Method: This is an original quantitative, cross-sectional, and descriptive study. Data collection was carried out through online questionnaires administered to professionals working directly with individuals diagnosed with ASD. The research included 13 participants from the fields of health and education. Data analyzed through descriptive statistics revealed gaps in professional training and highlighted the relevance of the vestibular system in assessing children with ASD. Balance was identified as the most affected skill, followed by difficulties in coordination and motor planning. Vestibular disorders were also found to strongly influence emotional self-regulation, reinforcing the need for professional training and interdisciplinary approaches with standardized protocols for assessment and intervention.
Keywords: AUTISM SPECTRUM DISORDER (ASD), VESTIBULAR DISORDERS, MOTOR DYSFUNCTION, INTERDISCIPLINARY APPROACH, VESTIBULAR INTEGRATION DEFICIT, PEDIATRIC PHYSIOTHERAPY
1 INTRODUÇÃO
Previamente, é importante assinalar que o Transtorno do Espectro Autista é uma condição neurodesenvolvimental caracterizada por alterações na comunicação, no comportamento e na interação social, frequentemente acompanhadas de dificuldades sensoriais e motoras. Entre os sistemas afetados, o vestibular tem se destacado por sua influência direta na regulação do equilíbrio, da postura e da coordenação motora. Quando há disfunções nesse sistema, o indivíduo pode apresentar instabilidade postural, dificuldades na execução de movimentos e prejuízos na percepção espacial.
Segundo o Instituto Neurosaber (2021), pessoas com TEA, as alterações vestibulares entre as pessoas com TEA, manifestam-se de diferentes formas, variando desde respostas reduzidas a estímulos de movimento até hipersensibilidade a deslocamentos bruscos. Essas variações afetam diretamente a maneira como o corpo se adapta e responde ao ambiente, interferindo no desenvolvimento motor e nas habilidades funcionais. A compreensão dessas manifestações é essencial para identificar precocemente possíveis limitações e direcionar o tratamento de forma mais eficaz.
As terapias que envolvem estímulos vestibulares controlados têm mostrado benefícios na melhora do equilíbrio, da coordenação e da percepção corporal, contribuindo para o avanço motor e o bem-estar geral da pessoa com TEA. Além disso, o olhar interdisciplinar envolvendo fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais e psicólogos, é fundamental para o planejamento de estratégias de intervenção que considerem as particularidades individuais de cada paciente.(INTEGRAÇÃO SENSORIAL BRASIL, 2021).
O presente artigo busca compreender a relação entre distúrbios vestibulares e dificuldades motoras no TEA. Com finalidade de aprimorar a prática clínica, desenvolvendo protocolos de avaliação mais adequados. Com o intuito de promover uma abordagem terapêutica que valorize tanto o aspecto físico quanto o sensorial do desenvolvimento humano.
Portanto, a problemática maior é averiguar como os distúrbios vestibulares podem impactar significativamente o desenvolvimento motor de indivíduos com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Contudo, a relação entre essas disfunções e sua influência na prática clínica e educacional ainda não é amplamente compreendida. Como fisioterapeutas, professores, terapeutas ocupacionais e psicólogos percebem a relação entre distúrbios vestibulares e disfunções motoras no TEA.
O presente estudo tem como objetivo específico identificar o conhecimento de profissionais sobre os distúrbios vestibulares em indivíduos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e compreender como esses profissionais avaliam e manejam as disfunções motoras associadas à condição. Além disso, busca-se analisar se há integração entre diferentes áreas na abordagem dos distúrbios vestibulares e motores no TEA, bem como investigar a necessidade de capacitação adicional ou de estratégias específicas para lidar com essas questões de forma mais eficaz.
O artigo abordado trata-se do Transtorno do Espectro Autista (TEA), caracterizado por alterações na comunicação, comportamento e interação social, frequentemente acompanhadas de dificuldades sensoriais e motoras. O sistema vestibular desempenha papel crucial no equilíbrio, postura e coordenação motora, e suas disfunções podem gerar instabilidade postural, dificuldades nos movimentos e prejuízos na percepção espacial. Essas alterações variam entre indivíduos, desde respostas reduzidas a estímulos de movimento até hipersensibilidade, interferindo no desenvolvimento motor e nas habilidades funcionais. Intervenções que envolvem estímulos vestibulares controlados, associadas a uma abordagem interdisciplinar, têm se mostrado eficazes para promover a melhora do equilíbrio, da coordenação e do bem-estar geral. O estudo busca investigar como profissionais de diferentes áreas percebem e manejam os distúrbios vestibulares e as disfunções motoras no TEA, além de analisar a integração entre áreas e a necessidade de capacitação específica para otimizar estratégias de intervenção.
2 DESENVOLVIMENTO
2.1 Transtorno do espectro autista
O autismo é considerado um transtorno complexo do desenvolvimento, caracterizado por manifestações comportamentais e por múltiplas possíveis etiologias, apresentando graus variados de gravidade. O termo “autismo” deriva da palavra “autos”, que significa “próprio”, e do sufixo “ismo”, que indica um estado ou orientação, refletindo a ideia de uma pessoa voltada para si mesma. Dessa forma, o autismo é compreendido como uma condição em que o indivíduo tende a se reter em seu próprio mundo interior. (ONZI; GOMES, 2021)
Segundo Onzi; Gomes (2021), ao longo do tempo, o conceito de autismo passou por diversas alterações, sendo atualmente denominado Transtorno do Espectro Autista (TEA), conforme estabelecido pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V). O espectro autista é caracterizado por prejuízos persistentes na comunicação e na interação social, assim como por padrões restritos de comportamento e interesses, presentes desde a infância e capazes de limitar ou comprometer o funcionamento diário do indivíduo.
Segundo Onzi; Gomes (2021), o TEA é subdividido em diferentes níveis de gravidade, que indicam a intensidade do apoio necessário. No nível um, o indivíduo requer apoio; no nível dois, necessita de apoio substancial; e no nível três, demanda apoio muito substancial, refletindo a variação de necessidades e habilidades dentro do espectro.
2. Diagnóstico do TEA
Segundo BRAGA (2023), o diagnóstico do Transtorno do Espectro Autista (TEA) geralmente inicia a partir das observações dos pais, que percebem sinais de comportamento atípico em seus filhos. Esse momento é marcado por incertezas e pela busca por auxílio, sendo essencial que o processo de comunicação do diagnóstico seja conduzido de maneira cuidadosa, para que os pais possam compreender a condição e acessar recursos de apoio.
Não existem marcadores biológicos precisos para a confirmação do TEA, e os instrumentos disponíveis são limitados, o que torna o diagnóstico um processo complexo, baseado na observação clínica e no histórico de desenvolvimento da criança. A forma como o diagnóstico é comunicado pode influenciar significativamente a resposta emocional dos pais, ajudando-os a aceitar as diferenças do filho e a buscar intervenções adequadas.
Segundo GIRIANELLI et al. (2023), a identificação precoce é fundamental, pois quanto antes a criança for diagnosticada e iniciada a intervenção, maiores são as chances de desenvolvimento positivo, incluindo avanços na linguagem, interação social e adaptação funcional. No entanto, na prática, muitas crianças são avaliadas tardiamente, atrasando a oportunidade de intervenções mais eficazes.
2.3 Distúrbios Vestibulares
Os distúrbios vestibulares ocorrem quando há alterações no funcionamento do sistema vestibular, responsável por regular o equilíbrio, a postura e a coordenação motora. Essas disfunções podem gerar instabilidade postural, dificuldades nos movimentos e comprometimento da percepção espacial. (LEE, H.; KIM, S.; CHOI, J 2023)
As respostas vestibulares variam entre os indivíduos, podendo se manifestar como hiporresponsividade, caracterizada por baixa percepção de movimentos corporais, ou hiperresponsividade, quando há aversão a movimentos bruscos. Tais alterações interferem no planejamento e na execução de movimentos funcionais, impactando diretamente o desenvolvimento motor. (GUSHIKEM, P.; GUSHIKEM, J. 2007)
A estimulação vestibular direcionada e as terapias baseadas em integração sensorial têm se mostrado eficazes na melhora no déficit do equilíbrio e da coordenação motora, especialmente em crianças com TEA (CARVALHO et al., 2022). No entanto, poucos estudos analisam como profissionais de diferentes áreas percebem e lidam com essas disfunções na prática clínica. Além disso, a ausência de protocolos padronizados adaptados à população com TEA exige abordagens flexíveis que considerem as particularidades individuais. (SOUZA, L. M.; PEREIRA, J. F. 2022)
3 A RELAÇÃO ENTRE OS DISTÚRBIOS VESTIBULARES E MOTORES
Estudos indicam que os distúrbios vestibulares podem influenciar diretamente as dificuldades motoras observadas em indivíduos com TEA. Alterações no sistema vestibular comprometem o equilíbrio, a coordenação motora e a orientação espacial, impactando a execução de movimentos funcionais e atividades do cotidiano.
A heterogeneidade do TEA significa que essas manifestações podem variar amplamente. Crianças podem apresentar hiporresponsividade vestibular, com dificuldade em perceber mudanças na posição corporal, ou hiperresponsividade vestibular, demonstrando aversão a movimentos bruscos. Essas diferenças explicam por que algumas crianças apresentam maiores desafios na coordenação motora grossa, enquanto outras demonstram maior sensibilidade a estímulos de movimento. (SCHWARTZ et al., 2021)
Do ponto de vista da integração sensorial, alterações vestibulares, proprioceptivas e táteis podem comprometer o planejamento motor, prejudicando a execução de tarefas que exigem precisão e controle postural. Intervenções como a estimulação vestibular direcionada e terapias ocupacionais baseadas em integração sensorial têm mostrado melhora no equilíbrio e na coordenação motora de crianças com TEA. (HASSEN et al., 2023)
Além disso, a percepção dos profissionais de saúde desempenha papel essencial. A forma como fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais e psicólogos identificam e manejam essas disfunções, influenciando diretamente a eficácia das intervenções e a detecção precoce de dificuldades motoras associadas a distúrbios vestibulares (GADBEM et al., 2022).
4 MATERIAL E MÉTODOS
Este estudo caracteriza-se como um estudo transversal descritivo com abordagem quantitativa, voltado para a análise da percepção de profissionais sobre a relação entre distúrbios vestibulares e disfunções motoras em indivíduos com Transtorno do Espectro Autista (TEA). A escolha desse tipo de estudo se justifica pela necessidade de mapear o conhecimento dos profissionais da área e identificar possíveis lacunas na formação e na prática clínica relacionadas ao tema.
O recrutamento dos participantes deste estudo foi realizado por meio de um link que deu acesso a um questionário online. O grupo de profissionais escolhidos acessaram o link e responderam às questões contidas no documento. A divulgação do questionário foi realizada pelo aluno responsável pelo projeto de pesquisa, com o objetivo de alcançar esses profissionais. A amostra foi composta por 13 respostas, incluindo contribuições de fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais e psicólogos.
Os dados coletados foram organizados nas plataformas Google Planilhas e Excel, e analisados por meio de estatísticas descritivas, utilizando frequências e percentuais para caracterizar a amostra e as respostas obtidas.
5 RESULTADOS
Conforme gráfico 1, 84,6% dos participantes, considera o sistema vestibulares uma prioridade no processo de avaliação em crianças com TEA que apresentam queixas motoras. Em contrapartida, 15,4% dos participantes, afirmam que a prioridade depende do quadro clínico apresentado pela criança, e nenhum dos respondentes optou pela alternativa “não”, cujo a pergunta em questão era, saber a percepção dos profissionais sobre a prioridade da avaliação do sistema vestibular.
Esses achados reforçam a relevância atribuída ao sistema vestibular na prática clínica, indicando que os profissionais reconhecem sua influência direta sobre o desenvolvimento motor e funcional de crianças com TEA. Além disso, a presença da resposta condicional “depende do quadro clínico” sugere que, embora haja consenso sobre sua importância, alguns profissionais ainda consideram o contexto individual como fator determinante para a definição das prioridades avaliativas
Os dados mostram que a maioria dos profissionais considera o sistema vestibular uma prioridade na avaliação de crianças com TEA que apresentam queixas motoras. Essa percepção reforça a consciência da importância desse sistema para o desenvolvimento global e funcional. A menção de que a prioridade depende do quadro clínico também demonstra sensibilidade ao contexto individual de cada criança, evidenciando uma prática mais personalizada.
Gráfico 1 – Percepção dos profissionais sobre a prioridade da avaliação do sistema vestibular em crianças com TEA e queixas motoras:

De acordo com o Gráfico 2, os profissionais participantes, informam que o atraso no desenvolvimento motor global foi o achado mais recorrente, representando 46,2% das respostas. Em seguida, destacaram-se a marcha atípica e as quedas frequentes/instabilidade postural, ambas com 15,4%. A evitação de movimentos rotacionais e a opção “todas as alternativas” obtiveram 7,7% cada. Esses resultados evidenciam que as alterações motoras são amplamente percebidas no contexto clínico, com predominância para os atrasos globais no desenvolvimento. Isso sugere que a disfunção vestibular pode comprometer diferentes áreas do desempenho motor, interferindo tanto na coordenação quanto na aquisição de marcos motores fundamentais.
Observa-se com base nas respostas adquiridas, que o atraso no desenvolvimento motor global é o achado mais recorrente, o que indica que as dificuldades motoras são amplamente percebidas na prática clínica. A presença de marcha atípica e quedas frequentes reforça a ideia de que as disfunções vestibulares comprometem a coordenação e a estabilidade postural. Esses resultados destacam a importância de identificar precocemente os sinais motores para direcionar intervenções mais eficazes.
Gráfico 2 – Manifestações motoras observadas em crianças com TEA e disfunções vestibulares:

Conforme mostrado no gráfico 3, os dados revelaram que o equilíbrio estático foi considerado a habilidade mais importante na fase inicial da intervenção (30,8%), seguido do equilíbrio dinâmico (23,1%). O planejamento motor (práxis) apareceu em 15,4% das respostas, assim como a coordenação bilateral, enquanto a coordenação motora fina foi apontada por 7,7%. Esses resultados demonstram que os profissionais priorizam a estabilização postural como base para a progressão de outras habilidades motoras, uma vez que o equilíbrio está diretamente ligado à autonomia funcional. A valorização do equilíbrio e da práxis reforça a necessidade de trabalhar fundamentos motores antes de avançar para tarefas mais complexas.
Os resultados indicam que os profissionais dão ênfase ao equilíbrio estático e dinâmico como ponto de partida nas intervenções, reconhecendo sua importância para a estabilidade corporal e a autonomia funcional. Essa prioridade reflete uma compreensão prática de que o controle postural é a base sobre a qual outras habilidades motoras, como a coordenação e a práxis, se desenvolvem de forma mais eficiente.
Gráfico 3 – Habilidades motoras prioritárias na intervenção inicial com crianças com TEA.

Observa-se no gráfico 4 que a maior parte dos participantes (53,8%) considerou que os distúrbios vestibulares exercem alta influência na autorregulação. Outros 30,8% relataram influência moderada, enquanto 7,7% afirmaram que a influência é pequena e 7,7% não souberam responder. Nenhum profissional relatou ausência de influência. Esses achados reforçam que o sistema vestibular tem papel central não apenas no desenvolvimento motor, mas também no comportamento adaptativo e na autorregulação emocional, o que demonstra a interdependência entre funções motoras e aspectos comportamentais em crianças com TEA.
Os resultados analisados apontam que a maioria dos profissionais reconhece uma forte influência dos distúrbios vestibulares na autorregulação. Esse achado evidencia que o sistema vestibular não atua apenas no controle motor, mas também exerce papel importante no equilíbrio emocional e comportamental. Assim, o trabalho voltado à estimulação vestibular pode contribuir tanto para o desenvolvimento físico quanto para o comportamento adaptativo das crianças com TEA.
Gráfico 4 – Influência dos distúrbios vestibulares na autorregulação comportamental em TEA

Com base no gráfico 5, segundo os participantes, o equilíbrio (estático e dinâmico) foi o aspecto motor mais comprometido, sendo citado por 38,5% dos respondentes. A coordenação motora fina apareceu em seguida com 30,8%, enquanto o planejamento motor (práxis) foi apontado por 15,4% e a coordenação bilateral por 7,7%. O tônus muscular também foi citado, igualmente com 7,7%. Esses resultados reforçam que o equilíbrio é percebido como a principal limitação motora, o que vai ao encontro de evidências da literatura que associam alterações vestibulares a déficits no controle postural e na coordenação global.
Os resultados evidenciam que o equilíbrio é considerado o principal ponto de fragilidade motora em crianças com TEA, seguido pela coordenação fina e pela práxis. Essa percepção está em consonância com estudos que relacionam disfunções vestibulares a dificuldades no controle postural, destacando a importância de trabalhar o equilíbrio como base para o desenvolvimento motor global.
Gráfico 5 – Aspectos motores mais comprometidos em crianças com TEA

Conforme o gráfico 6, a maioria dos profissionais (61,5%) relatou considerar sempre os estímulos vestibulares parte fundamental de suas avaliações. Outros 38,5% afirmaram levar em conta apenas em situações específicas, enquanto nenhum participante relatou desconsiderar esse aspecto. Isso demonstra um consenso entre os profissionais sobre a relevância do sistema vestibular, reforçando a ideia de que sua análise é indispensável para uma compreensão integral das dificuldades motoras em crianças com TEA.
Os resultados adquiridos evidenciam um consenso importante entre os profissionais quanto à relevância do sistema vestibular nas avaliações. A maioria o considera parte essencial do processo, o que mostra uma visão consistente sobre sua influência nas dificuldades motoras e funcionais de crianças com TEA. Essa percepção reforça a necessidade de manter o sistema vestibular como componente central nas abordagens clínicas e terapêuticas.
Gráfico 6 – Consideração dos estímulos vestibulares durante a avaliação motora

O gráfico 7 mostra que a maioria dos profissionais (76,9%) apontou que os distúrbios vestibulares têm uma influência muito significativa na coordenação motora de crianças com TEA. Outros 23,1% classificaram essa influência como moderada, enquanto nenhuma resposta indicou as opções “pouca”, “nenhuma” ou “não sei avaliar”. Esses achados reforçam a percepção de que o sistema vestibular exerce papel central nas dificuldades motoras dessa população, sendo um ponto de atenção importante para avaliação e intervenção clínica.
Os seguintes resultados demonstram que há um reconhecimento amplo entre os profissionais sobre o papel essencial do sistema vestibular na coordenação motora de crianças com TEA. O fato de a maioria apontar uma influência muito significativa reforça a compreensão de que alterações vestibulares estão diretamente relacionadas às dificuldades motoras, destacando a importância de incluir esse aspecto como foco nas avaliações e intervenções terapêuticas.
Gráfico 7 – Percepção dos profissionais sobre a influência dos distúrbios vestibulares na coordenação motora em crianças com TEA

6 DISCUSSÃO
Os resultados obtidos indicam uma forte percepção, por parte dos profissionais, da importância do sistema vestibular em avaliações de crianças com TEA, com a percentagem de 84,6 % consideram-no prioritário. Isso sugere que, mesmo de forma intuitiva ou prática, esses profissionais reconhecem a ligação entre vestibularidade e desempenho motor. O fato de mais da metade dos respondentes utilizarem recursos vestibulares com frequência semanal reforça esse comprometimento clínico.
O destaque para dificuldades em equilíbrio estático e dinâmico, assim como a afirmação de que os distúrbios vestibulares exercem influência significativa sobre a coordenação motora (76,9 %), está em consonância com a prática clínica cotidiana: muitos profissionais relatam que observam instabilidades e déficits motores em crianças com TEA. A variedade de estratégias da observação clínica ao uso de recursos lúdicos como bolas, trampolins e pistas motoras mostra que há um repertório de abordagens aplicadas, ainda que possivelmente sem padronização formal.
Existe uma consciência clínica bastante presente sobre a necessidade de intervir em vestibularidade dentro do contexto do TEA, ainda que nem sempre com base rigorosa em protocolos, há um espaço claro para sistematização, validação científica e padronização das práticas que hoje são usadas.
Primeiro, é amplamente documentado que crianças com TEA apresentam déficits de equilíbrio e controle postural. Por exemplo, uma revisão relata que indivíduos no espectro demonstram controle postural prejudicado, com dificuldades maiores em condições que exigem maior integração sensorial (visão, propriocepção, vestibular). (OSTER et al., 2022). Estudos com avaliação de postura indicam que, ao remover pistas visuais ou alterar o suporte, crianças com TEA mostram maior oscilação postural, indicando menor estabilidade sensório-motora. (CHISARI, D et al., 2023)
Curiosamente, em estudos onde se mensurou a função vestibular periférica (como potenciais evocados cervicais ou testes de impulso cefálico), não foram observadas diferenças significativas entre grupos TEA e controles (ou seja, a função vestibular básica estaria preservada), mas sim déficits no controle postural em contextos de integração sensorial alterada (CHISARI et al., 2024). Isso sugere que o problema pode residir mais no processamento central e na integração dos sinais do que em doenças periféricas do sistema vestibular, algo que converge com a observação clínica de que muitas vezes não há evidência anatômica de lesão vestibular, mas há disfunção funcional.
Além disso, intervenções que visam integração sensorial e estimulação vestibular demonstraram resultados promissores em melhorar equilíbrio em crianças com TEA. Por exemplo, algumas intervenções com trampolim ou programas de integração sensorial por 20 a 40 sessões mostraram melhorias estatisticamente significativas no controle postural. (HARIRI et al., 2022). Um estudo recente sobre treinamento sensório-motor mostrou eficácia no uso de exercícios vestibulares e proprioceptivos para reduzir déficits em crianças autistas. (ERİK; SAFRAN; ŞEVGİN, 2025).
Outros estudos ampliam essa discussão: dados populacionais apontam que crianças com TEA têm risco muito elevado de apresentar comprometimentos motores em um estudo, o risco de prejuízo motor foi 22,2 vezes maior do que na população geral (BHAT et al., 2020). E há evidência de que déficits motores não são apenas acompanhantes, mas correlatos funcionais que influenciam outras áreas de desenvolvimento, como habilidades diárias (FISHER et al., 2018). Portanto, a visão de que perturbações vestibulares impactem a motricidade no TEA não é apenas plausível, mas compatível com esse corpo crescente de evidências.
Por fim, a variabilidade entre profissionais quanto à frequência de uso de recursos vestibulares e os tipos de estratégias usadas está coerente com a literatura que aponta lacunas na padronização e escassez de protocolos bem-validados na prática de reabilitação para TEA.
O sistema vestibular é amplamente reconhecido como fundamental para o desenvolvimento infantil, especialmente em crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Assim, torna-se relevante a criação de ferramentas e protocolos específicos de avaliação vestibular que vão além dos testes periféricos, incluindo abordagens funcionais que considerem a integração sensorial. Essa ampliação favorece a identificação das crianças que mais se beneficiam de intervenções direcionadas. (CORDEIRO et al., 2021)
Recursos lúdicos como trampolins e pistas motoras têm demonstrado resultados positivos em estudos clínicos, embora ainda não haja consenso quanto à padronização de suas aplicações. O desenvolvimento de protocolos estruturados, com frequência, duração e progressão bem definidas e baseados em evidências, pode tornar as práticas mais eficazes e consistentes. (CARDOSO; BLANCO, 2020)
Psicólogos, fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais devem compartilhar uma base comum de conhecimento sobre o sistema vestibular aplicado ao TEA. Capacitações e cursos voltados à avaliação vestibular e ao uso de recursos terapêuticos podem reduzir diferenças entre abordagens clínicas. Nem todas as crianças com TEA necessitam de intervenção vestibular intensiva as decisões devem considerar aspectos motores, sensoriais, cognitivos e funcionais. (LOPES; SOUZA; VICTOR, 2022)
O estímulo vestibular também pode servir de apoio a outras terapias, como as voltadas à coordenação, postura e integração sensorial. A combinação de abordagens, como o uso de jogos motores e realidade virtual, tende a potencializar os resultados. O acompanhamento contínuo e o registro das evoluções de equilíbrio, coordenação e participação são essenciais para ajustar as intervenções e gerar dados que contribuam para futuras pesquisas e melhorias nas práticas clínicas (SILVA; NASCIMENTO; MEDEIROS, 2023)
7 CONCLUSÃO
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) caracteriza-se por alterações neuromotoras e sensoriais que impactam diretamente a funcionalidade e a qualidade de vida de crianças, adolescentes e adultos. A literatura aponta que distúrbios vestibulares podem estar associados às dificuldades motoras observadas nesse público, interferindo no equilíbrio, na coordenação e na percepção espacial. No entanto, essa relação ainda é pouco abordada na prática clínica e educacional, o que limita a identificação precoce e o desenvolvimento de estratégias terapêuticas mais eficazes.
Os resultados desta pesquisa demonstram que a percepção de fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais e psicólogos converge para a necessidade de uma atuação interdisciplinar, capaz de integrar aspectos motores e sensoriais de forma articulada. Essa integração contribui para uma compreensão mais ampla das causas e manifestações do TEA, permitindo intervenções personalizadas e direcionadas à realidade de cada indivíduo.
A análise das respostas evidencia também que a falta de conhecimento específico sobre distúrbios vestibulares pode levar a práticas fragmentadas, que tratam os déficits motores de forma isolada. Assim, torna-se essencial a capacitação contínua dos profissionais da saúde e educação, de modo que possam reconhecer a influência das alterações vestibulares e aplicá-las de forma integrada no processo terapêutico.
Conclui-se que compreender a relação entre disfunções vestibulares e dificuldades motoras é fundamental para o avanço das práticas clínicas e educacionais voltadas ao TEA. Essa compreensão reforça a importância da colaboração entre diferentes áreas e da aplicação de conhecimentos científicos que orientem intervenções mais precisas, favorecendo o desenvolvimento global e a qualidade de vida dos indivíduos com TEA. Além disso, ressalta-se a necessidade de novas pesquisas que aprofundem essa temática, ampliando o entendimento sobre a interação entre aspectos sensoriais e motores e suas implicações no processo de reabilitação.
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Citação curta: (CARDOSO; BLANCO, 2020)
CORDEIRO, E. S. G. et al. Caracterização do desempenho de crianças com Transtorno do Espectro Autista em escalas de equilíbrio postural. Revista CEFAC, São Paulo, v. 23, n. 3, p. 1-12, 2021.
1Artigo apresentado no curso de Fisioterapia do Centro Universitário São Lucas – Porto Velho, 2025, como pré-requisito para conclusão do curso, sob orientação da professora Especialista Cíntia Campos Costa. E-mail: cíntia.campos@saolucas.edu.br
2Olavo Vinicius Souza Bricio, Graduando em Fisioterapia no Centro Universitário São Lucas – Porto Velho, 2025. E-mail: olavovincius34@gmail.com
