REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/dt10202511201845
Alison Araujo Bueno1
Isadora Alves Montelo2
Maria Eduarda Alves dos Santos3
Orientador: Janaina Rodrigues Araujo Valadares4
RESUMO
A presente pesquisa objetivou analisar o impacto das culturas digitais e da masculinidade tóxica na construção da identidade e no comportamento de adolescentes, tomando a série Adolescência (Netflix) como estudo de caso. Adotou-se uma abordagem qualitativa de caráter crítico-interpretativo, utilizando a análise de conteúdo (Bardin, 2011) sobre episódios 3 e 4 selecionados. Os resultados revelaram que as subculturas digitais atuam como espaços ambivalentes que, embora ofereçam pertencimento, reforçam padrões de masculinidade hegemônica baseados em dominação e repressão emocional. Constatou-se também que a exposição online e a dependência de validação digital intensificam a fragilidade identitária e sintomas de ansiedade e depressão nos personagens. Conclui-se que a mídia contemporânea atua como um dispositivo ativo na produção de subjetividades, ressaltando a urgência de intervenções psicossociais que promovam masculinidades saudáveis e o uso crítico das redes no contexto juvenil.
Palavras-chave: Psicologia Social; Identidade Adolescente; Masculinidade Tóxica; Culturas Digitais; Análise de Mídia.
ABSTRACT
The present research aimed to analyze the impact of digital cultures and toxic masculinity on the construction of adolescent identity and behavior, using the series Adolescence (Netflix) as a case study. A qualitative approach with a critical-interpretive bias was adopted, using content analysis (Bardin, 2011) on selected episodes of the series. The results revealed that digital subcultures act as ambivalent spaces that, while offering belonging, reinforce patterns of hegemonic masculinity based on domination and emotional repression. It was also found that online exposure and dependence on digital validation intensify identity fragility and symptoms of anxiety and depression in the characters. It is concluded that contemporary media acts as an active device in the production of subjectivities, highlighting the urgency of psychosocial interventions that promote healthy masculinities and the critical use of networks in the youth context.
Key-words: Social Psychology; Adolescent Identity; Toxic Masculinity; Digital Cultures; Media Analysis.
1. INTRODUÇÃO
A psicologia histórico-cultural vê o desenvolvimento humano como um processo influenciado pela cultura. As funções psicológicas superiores não se desenvolvem de maneira natural. Elas se desenvolvem por intermédio da apropriação de instrumentos e signos criados ao longo da história. Desse modo, a cultura é o fator que estrutura a experiência humana e permite a formação da consciência e da identidade.
O indivíduo se forma na medida em que se envolve nas práticas culturais de seu grupo e nas relações sociais, assimilando formas de pensar, agir e sentir que são construídas socialmente. (ARAÚJO; OLIVEIRA, 2011, p. 501)
De acordo com Guareschi (2006), as práticas cotidianas e os discursos culturais produzem regimes de verdade que moldam corpos e comportamentos, governando modos de viver e fundamentando, na cultura, a constituição dos sujeitos. Assim, a identidade não é uma essência fixa, mas um processo contínuo de identificação, mediado por práticas nas relações sociais e culturais.
Em seu contexto cultural, a identidade de cada indivíduo é construída a partir das significações, apropriando-se de elementos que conferem sentido de distinção e pertencimento. Segundo Cabral (2019), a cultura influencia na construção de identidade do indivíduo ao fornecer modelos de comportamento, valores e normas que orientam as percepções e ações do sujeito.
No âmbito da Psicologia Social, a cultura é apresentada como uma categoria que reúne os valores, os sistemas e as representações de símbolos que influenciam o comportamento social. A cultura é além de uma variável de contexto, uma parte essencial nas interações do indivíduo com a sociedade, afetando, entre outros processos, a construção da identidade e a maneira como os indivíduos se integram aos seus grupos sociais. (NORIEGA; CARVAJAL; GRUBITS, 2011, p. 10). A perspectiva psicossocial permite, portanto, ir além da análise individual, compreendendo como fenômenos coletivos, como as culturas digitais e a “masculinidade tóxica”, são internalizados e atuam na formação da subjetividade adolescente, uma vez que as masculinidades constituem “um lugar nas relações de gênero, as práticas pelas quais homens e mulheres ocupam esse lugar e os efeitos dessas práticas na experiência corporal, na personalidade e na cultura” (CONNELL, 2005, p. 71).
No cenário da cultura digital contemporânea, as redes sociais e demais ambientes virtuais têm se consolidado como espaços privilegiados de socialização juvenil e construção identitária. Nesse contexto, emergem fenômenos como a masculinidade tóxica, que funciona como uma maneira de pertencimento simbólico e afirmação de poder entre adolescentes e jovens.
O problema central deste estudo reside em compreender: Qual é o impacto das culturas digitais e da masculinidade tóxica na construção da identidade e no comportamento de adolescentes?
A escolha do tema se justifica pela importância crescente dos questionamentos relacionados à formação da identidade na adolescência, em um cenário caracterizado por profundas mudanças digitais e sociais. Nota-se a propagação de padrões de masculinidade tóxica nos ambientes digitais, o que afeta negativamente o desenvolvimento psicossocial dos jovens, causando conflitos de angústia e de identidade.
Portanto, o objetivo principal deste artigo é analisar como as culturas digitais e a masculinidade tóxica afetam o comportamento e a construção da identidade dos adolescentes, utilizando os episódios 3 e 4 da série Adolescência, disponível na plataforma Netflix, como estudo de caso. Esses episódios abordam de maneira sensível os conflitos emocionais e sociais enfrentados pelos jovens em um cenário marcado por pressões de gênero, exposição nas mídias sociais e busca por aceitação.
Já o episódio 4 desloca o foco para o ambiente familiar, retratando o genitor do protagonista como expressão da masculinidade tóxica: após ter sua van pichada com a palavra “pervertido”, o personagem reage de modo violento contra a esposa, a filha e um jovem desconhecido. A narrativa revela como o machismo, a raiva reprimida e a ausência de afeto afetam não apenas as relações familiares, mas também a formação da identidade dos filhos, que internalizam modelos de agressividade e negação da vulnerabilidade.
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
A compreensão do objeto deste estudo requer a articulação da Psicologia Social, do Desenvolvimento e dos Estudos Culturais, conforme detalhado na pesquisa bibliográfica.
2.1. Identidade e Desenvolvimento na Adolescência
Erikson (1968) caracteriza a adolescência como uma fase de crise e formação do eu, em que para a definição da identidade, a alternância entre compromisso e exploração é fundamental. Papalia e Feldman (2013) reforçam essa ideia que os pares, a família e a escola desempenham um papel essencial tanto na gestão de riscos quanto na oferta de proteção durante essa etapa do desenvolvimento. Assim, a identidade não pode ser compreendida como uma essência imutável, e sim como um processo dinâmico de identificação em constante construção, mediado por relações sociais e práticas culturais.
A construção da identidade na adolescência é marcada por conflitos, descobertas e busca por pertencimento. A série Adolescência reflete essa dinâmica, apresentando personagens que enfrentam dilemas de aceitação social, construção da autoimagem e pressão para pertencer à grupos. Essa busca pela identidade é permeada por influências externas, como as redes sociais, e internas, relacionadas à autoaceitação e à percepção de gênero.
Hall (2006) aponta que, em tempos de globalização e hiperconectividade, a identidade é formada em meio a fluxos culturais múltiplos, exigindo dos sujeitos a negociação contínua de referências simbólicas.
Nos episódios 3 e 4, nota-se como esse processo é influenciado por aspectos culturais e emocionais. O jovem protagonista lida com o julgamento e a falta de compreensão do olhar adulto personificado pela psicóloga e pelo pai, evidenciando como as normas da masculinidade tóxica e de gênero afetam a construção da identidade. Araújo e Oliveira (2011) ressaltam que o desenvolvimento humano é um processo culturalmente mediado: as práticas, valores e discursos que constituem a vida social influenciam a maneira como os adolescentes constroem suas identidades e se percebem.
2.2. Subculturas Digitais e Sociabilidade
As transformações tecnológicas impuseram uma reconfiguração das noções clássicas de subcultura. Hebdige (1979) fornece conceitos essenciais ao estudar as subculturas como práticas estilísticas de codificação de identidades e resistência por meio de símbolos.
Na transição para o espaço digital, Bennett (2005) destaca que as subculturas contemporâneas reproduzem mecanismos de inclusão e exclusão em ambientes virtuais, onde comunidades online funcionam como arenas simbólicas de negociação identitária.
Castells (2003) caracteriza essa dinâmica ao descrever a “sociedade em rede”, onde as plataformas digitais organizam fluxos de informação, identidades e afetos. As subculturas online não apenas expressam sociabilidades, mas também operam como campos de disputa simbólica e política. A narrativa expõe como o espaço digital funciona semelhante a um espelho e amplificador das tensões sociais e emocionais, sendo um lugar de produção de sentidos que contribui para legitimar normas sociais.
As interações entre os personagens em ambientes virtuais, como fóruns e redes sociais, reproduzem a lógica das subculturas online, onde comportamentos, desafios e discursos são compartilhados.
Embora fortaleçam vínculos, esses espaços também podem disseminar estereótipos e condutas prejudiciais. O estudo de Cabral (2024) sobre a identidade cultural na era digital reforça que o contexto contemporâneo, marcado pela globalização e pela era digital, torna as identidades ainda mais complexas e multifacetadas.
2.3. Masculinidade Tóxica e Dinâmicas de Gênero
Connell (1995) introduz a concepção de masculinidade hegemônica, caracterizada pela naturalização de práticas de poder, violência e hierarquização de gênero. A percepção de masculinidade tóxica enfatiza aspectos culturais que reforçam a repressão emocional e a agressividade como atributos masculinos centrais.
Kimmel (2008) evidencia que a socialização masculina juvenil tende a valorizar o comportamento competitivo, reproduzindo padrões de exclusão e negação da vulnerabilidade.
Essa lógica pode ser intensificada no contexto digital por circuitos de visibilidade e validação social, ampliando a reprodução de condutas tóxicas. Tais padrões estão frequentemente ligados a interações de poder entre pares, como o bullying, que Olweus (1993) descreveu como uma forma recorrente de violência juvenil associada à necessidade de afirmação e poder. Nos episódios ficam demonstrados como a masculinidade hegemônica é internalizada e perpetuada entre pares.
Butler (1990) explica que o gênero é uma construção social reiterada por práticas discursivas e simbólicas. Na série, os adolescentes reproduzem estereótipos de masculinidade a partir das normas estabelecidas nos espaços digitais, onde a imagem projetada adquire valor simbólico superior à identidade real. Essa dinâmica reflete a performatividade contemporânea do “eu digital”, marcada por simulações de pertencimento e reconhecimento, sendo intensificada pela influência da masculinidade tóxica que reforça a agressividade.
A série Adolescência (Netflix) ilustra de maneira impactante como a masculinidade tóxica afeta a vida de jovens vulneráveis, ao mostrar meninos pressionados a reprimir sentimentos, adotar a agressividade e procurar aceitação em grupos que perpetuam discursos misóginos e de poder, a falta de diálogo, a pressão social e a influência digital podem levar adolescentes a atos extremos.
Nesse contexto, os personagens experimentam uma dinâmica de isolamento emocional e de aceitação de modelos externos que definem sua identidade masculina, o que contribui para a propagação de padrões de agressividade, culpa e autonegação.
2.4. Saúde Mental e o Impacto das Mídias
Em relação à saúde mental dos jovens, a Organização Mundial da Saúde (OMS, 2021) aponta que metade dos transtornos mentais se manifestam antes dos 14 (quatorze) anos, a marginalização social e o uso problemático das redes digitais são fatores que agravam a situação.
Twenge (2017) observa que o uso intensivo de smartphones e mídias sociais está associado a níveis mais altos de ansiedade e depressão em adolescentes. Embora as redes sociais possam oferecer pertencimento e expressão, também podem potencializar comparações negativas e sentimentos de inadequação.
Nesse cenário, a imagem do corpo, a forma em que os jovens enxergam e julgam seu próprio corpo, passa a ser elemento fundamental de sua identidade. A mídia é um dos agentes principais nesse processo, e tanto fatores internos quanto externos influenciam essa percepção. Ao mostrar padrões de corpos vistos como ‘perfeitos’, a mídia colabora para a insatisfação corporal e a baixa autoestima, visto que os jovens costumam adotar esses modelos como ideais inalcançáveis. (SILVA, 2025, p. 23).
Tais efeitos se manifestam em personagens que apresentam sintomas de isolamento e busca compulsiva por validação digital. Implicitamente, é demonstrado, a ausência de práticas que promovam contingências de reforço mais saudáveis.
Bauman (2005) destaca que, na modernidade líquida, as identidades tornam-se flexíveis e transitórias, moldadas pela inconstância das relações e pela velocidade da comunicação digital. A vontade de aceitação torna-se um eixo de vulnerabilidade emocional, expondo os jovens à pressão constante por visibilidade e aprovação, um fenômeno que dialoga com o narcisismo coletivo descrito por Lasch (1983).
No terceiro episódio, acompanhamos Jamie, um adolescente de 13 anos em avaliação psicológica, que revela conflitos emocionais e familiares marcados por raiva, culpa e solidão. O personagem apresenta uma identidade fragilizada e uma dificuldade de lidar com suas emoções. Inserido em um contexto digital, Jamie encontra nas comunidades virtuais “incel” e “red pill” um espaço de pertencimento, mas também de reforço de ideias de masculinidade tóxica e ressentimento. O episódio evidencia como essas influências culturais e digitais moldam a identidade e o comportamento dos adolescentes na contemporaneidade.
3. MATERIAL E MÉTODOS
O presente estudo adota uma abordagem qualitativa, de natureza documental, com viés crítico-interpretativo, conforme a perspectiva de análise de mídia proposta por Rose (2016).
A pesquisa é de caráter descritivo, buscando identificar e compreender os fatores psicossociais que moldam o comportamento dos personagens da série Adolescência, da Netflix, concentrando-se na observação, registro e análise sistemática dos dados.
O corpus da pesquisa foi composto pelos episódios 3 e 4, selecionados por apresentarem situações de conflito de identidade, envolvimento com grupos digitais e expressões de violência simbólica e física associadas a padrões masculinos hegemônicos. Esses episódios foram escolhidos por evidenciarem de forma significativa os impactos das culturas digitais e da masculinidade tóxica na construção da identidade e no comportamento de adolescentes contemporâneos.
A abordagem crítica considera que a mídia, como expressão cultural, participa ativamente da reprodução e construção de normas sociais, influenciando a formação de identidades (Hall, 1997).
A análise foi conduzida por meio da identificação de categorias temáticas, conforme orientações de Bardin (2011) para análise de conteúdo. As categorias emergentes como “performances de masculinidade”, “pressões sociais digitais” e “conflito de identidade” foram interpretadas à luz das teorias psicossociais, buscando revelar como os discursos midiáticos modelam representações sociais e impactam o desenvolvimento psíquico dos adolescentes. A metodologia fundamenta-se na compreensão de que as interações virtuais constituem campos de produção de sentidos, que corroboram para a legitimação de normas sociais.
4. RESULTADOS
A análise qualitativa dos episódios selecionados de Adolescência revelou que a série constrói uma representação complexa e crítica das dinâmicas psicossociais da juventude contemporânea. Os resultados demonstram que as subculturas digitais funcionam como espaços de socialização e pertencimento, mas também como territórios de reprodução de discursos de gênero e exclusão simbólica.
As comunidades virtuais retratadas na trama mostram-se ambivalentes: ao mesmo tempo em que oferecem acolhimento e expressão identitária, também reforçam padrões tóxicos de masculinidade e competitividade (LOPES; MARTINS; RIBEIRO, 2025).
No eixo da masculinidade tóxica, observou-se que personagens masculinos enfrentam o dilema entre corresponder às expectativas sociais e expressar vulnerabilidade emocional. As interações entre amigos, nas redes e no ambiente escolar, refletem a necessidade de afirmar superioridade e controle, validando o que Connell (1995) denomina de “masculinidade hegemônica”, conceito que também se relaciona ao modelo de dominação simbólica presente nas relações sociais brasileiras (PEREIRA; GAMAS, 2024).
Este dilema é claramente exemplificado no episódio 4, onde um dos personagens principais, após um evento de falha social, tenta reprimir sua tristeza e busca refúgio na agressividade e isolamento, em vez de aceitar o apoio emocional, demonstrando o custo da conformidade com a masculinidade hegemônica.
Outro achado significativo foi a associação entre exposição online e fragilidade identitária. Os personagens que dependem intensamente da validação digital demonstram maior instabilidade emocional e propensão a crises de autoestima, corroborando as observações de Twenge (2017) sobre a correlação entre tempo de tela, depressão e ansiedade entre adolescentes, bem como as evidências brasileiras de que a cultura das redes sociais influencia diretamente a autopercepção e o bem estar psicológico dos jovens (SOUZA; TOZATTO, 2024). A série, portanto, serve como um espelho cultural das consequências psicológicas da hipersocialização digital, especialmente quando combinada à pressão por masculinidade performática.
No episódio 3, a história foca em Jamie, um jovem de 13 (treze) anos que passa por uma avaliação psicológica após ser suspeito de participar de um ato violento. O personagem apresenta uma identidade fragilizada, caracterizada por sentimentos de inadequação, solidão e anseio por pertencimento. Nota-se que Jamie procura nas comunidades online “incel” e “red pill” um meio de ser reconhecido e validado, replicando discursos misóginos e atitudes agressivas. Essa dinâmica destaca como as culturas digitais e a falta de suporte emocional familiar afetam a formação da identidade e a gestão das emoções.
Os dois episódios, juntos, mostram que o comportamento de Jamie não é apenas o resultado de uma patologia individual, mas o produto de um ambiente sociocultural que valoriza a força, o controle e a negação da vulnerabilidade masculina. Dessa forma, os resultados indicam que as culturas digitais, as dinâmicas familiares disfuncionais e as normas de gênero afetam diretamente a formação da identidade e as expressões emocionais dos jovens.
5. DISCUSSÃO
A análise da série Adolescência demonstra que a formação da identidade dos jovens está profundamente ligada às dinâmicas das culturas digitais e aos padrões normativos de gênero que permeiam esses ambientes. (Souza e Tozatto, 2024).
No caso da série, as subculturas digitais aparecem como territórios ambíguos: por um lado, promovem socialização, pertencimento e experimentação identitária; por outro, reproduzem e potencializam discursos de masculinidade tóxica competitividade, dominação, negação da vulnerabilidade que se aliam às práticas de performance identitária juvenil.
Lopes, Martins & Ribeiro (2025) mostram que a masculinidade na era digital é marcada pela virilidade reforçada e pela adesão a discursos misóginos, sobretudo em ambientes virtuais.
A masculinidade hegemônica, conforme a teoria de Connell (1995), manifesta‑se no estudo pela obediência às expectativas sociais de poder e invulnerabilidade, que se materializam nas interações escolares, nas redes e no cotidiano dos personagens. Essa estrutura normativa limita a expressão emocional e alinha o jovem à performance de dominação e controle.
A análise reforça que a masculinidade tóxica não é só uma condição individual, mas um fenômeno cultural e coletivo que se fortalece em redes de trocas simbólicas, diálogos e reproduções midiáticas.
Em paralelo, notícias recentes alertam que os jovens não têm apoio emocional suficiente para lidar com as redes sociais, o que agrava o quadro psicossocial observado (AGÊNCIA BRASIL, 2025).
A partir desses achados, é possível argumentar que a série Adolescência funciona não só como uma narrativa ficcional, mas também como um espelho cultural que reflete e potencializa os contornos psicossociais da juventude em ambiente digital: identidade em construção, exposição e vulnerabilidade, masculinidade normativa e busca por pertencimento. Intervenções de saúde mental e educativas precisam ser consideradas, o entrelaçamento entre práticas digitais, cultura de gênero e subjetividades juvenis.
Por fim, a discussão direciona para a necessidade de promover espaços de reflexão crítica e de letramento digital e de gênero na família e nas escolas, de modo a desafiar a reprodução acrítica de modelos de masculinidade. A campanha pública brasileira que analisa o discurso sobre masculinidade tóxica (Oliveira; Santos, 2022) confirma essa urgência ao identificar que discursos de poder masculino circulam intensamente no espaço público e digital.
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise da série Adolescência, da Netflix, à luz das teorias psicossociais, evidenciou como a formação da identidade juvenil está profundamente entrelaçada às dinâmicas das subculturas digitais e às manifestações de masculinidade tóxica.
A partir da pesquisa ficou demonstrado que os adolescentes, ao interagirem em ambientes virtuais, constroem e reafirmam suas identidades baseados em modelos simbólicos que, muitas vezes, reproduzem padrões de dominação, competição e exclusão. Essa constatação reforça a tese de que a mídia contemporânea atua como um dispositivo ativo na produção de subjetividades e comportamentos.
Constatou-se que a masculinidade tóxica, expressa por meio da necessidade de poder, virilidade e insensibilidade emocional, não é apenas um traço individual, mas um fenômeno coletivo reforçado por práticas discursivas e culturais. A série Adolescência evidencia como os jovens internalizam esses valores ao buscar aceitação em grupos virtuais, o que confirma as análises de Connell (1995) e Kimmel (2008).
Outro aspecto relevante observado foi a influência das redes sociais na intensificação das crises identitárias e na deterioração da saúde mental dos adolescentes. O uso excessivo das mídias digitais está associado ao aumento da ansiedade, da depressão e do sentimento de inadequação. Na série, essas manifestações são visíveis em personagens que se tornam reféns da validação online, confirmando o papel das redes como ambientes de vulnerabilidade emocional.
Conclui-se que a série Adolescência oferece um retrato psicossocial realista e crítico da juventude contemporânea, destacando como as práticas digitais moldam comportamentos e identidades. Tais achados ressaltam a importância de promover discussões sobre masculinidade saudável, uso crítico das redes e educação emocional, tanto no contexto escolar quanto no familiar.
Recomenda-se que futuras pesquisas aprofundem a análise comparativa entre diferentes produções audiovisuais que abordem a juventude, a fim de identificar como as representações culturais evoluem e impactam a construção identitária.
Estudos empíricos com adolescentes reais também se mostram relevantes para compreender como os conteúdos midiáticos influenciam as percepções de si, de gênero e de pertencimento. Assim, esta pesquisa reafirma a necessidade de um olhar interdisciplinar entre a Psicologia, a Sociologia e a Comunicação para compreender os desafios da formação da identidade no mundo digital.
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1 Alison Araujo Bueno – Faculdade Uninassau Palmas – E-mail: aloson.bueno@gmail.com
2Isadora Alves Montelo – Faculdade Uninassau Palmas – E-mail: monteloisa9@gmail.com
3Maria Eduarda Alves Dos Santos- Faculdade Uninassau Palmas- E-mail: 91026469duda@gmail.com
4Janaína R. Araújo Valadares. Psicóloga e Mestre em Psicologia Social pela UFMG. Docente na Uninassau/Palmas. E-mail: janapsi9@gmail.com
