CUIDAR DE QUEM CUIDA: A OFICINA DAS SENSAÇÕES COMO ESTRATÉGIA DE CUIDADO EM SAÚDE MENTAL DO TRABALHADOR

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202601251330


Jonas Mendes Oliveira1; Lidiane Almeida Moura2; Rafaela Duarte de Araújo3; Felipe Bastos Maciel da Silva4; Maria Devany Pereira5; Jamile Xavier de Oliveira6; Francisca Elane dos Santos Araújo7; Maira Crissiane de Lima Costa8; Conceição Kecy Ponte Bezerra9; João Germano Ponte Silva10


RESUMO

Os profissionais de Educação Física e Psicologia que atuam no contexto da saúde mental têm contribuído em diversos aspectos no que concerne ao cuidado e promoção a saúde, trazendo novos modos de agir e pensar contribuindo também com a saúde do trabalhador. O referido trabalho foi construído a partir das experiências de cuidado e promoção a saúde do trabalhador, ofertadas aos trabalhadores da RAISM, pelos profissionais de educação física e Profissionais da Psicologia, através do projeto Aconchego, as atividades aconteceram com os profissionais do CAPS II da cidade de Sobral-CE. Tem como objetivo, apresentar as percepções dos profissionais facilitadores da atividade, acerca das práticas para o cuidado e promoção a saúde do trabalhador. Trata-se de uma pesquisa descritiva, com abordagem qualitativa, do tipo relato de experiencia. O campo do estudo foi o CAPS II da cidade de Sobral- CE com um grupo de dez trabalhadores da rede de saúde mental de ambos os sexos, que participaram da oficina das sensações. Tais atividades são conduzidas por uma profissional de Educação Física e um Psicólogo, sendo uma profissional da rede municipal de saúde e o outro sendo um Residente em saúde mental. Foi possível perceber uma melhor interação entre a equipe, uma sensibilidade e aumento da afetuosidade entre os colegas de trabalho, aumento de vínculo entre os profissionais.

Palavras-chave: Saúde do Trabalhador; Centro de Atenção Psicossocial; Saúde mental

INTRODUÇÃO

A Educação Física e a Psicologia, no contexto da Atenção Psicossocial tem em seus princípios trabalhar as dimensões das subjetividades do sujeito colocando-os de encontro consigo mesmo, sendo capaz de proporcionar o cuidado através de práticas que integrem corpo e mente. Considerando os cenários de atuação dos profissionais da Rede Integral de Saúde Mental (RAISM) de Sobral é preciso considerar que os profissionais dessa rede devem estar bem para que consigam prestar uma assistência adequada e de qualidade para os usuários do serviço. Nesse sentido, a inserção dos Profissionais de Educação Física, em diálogo com a Psicologia no SUS, particularmente na Rede de Atenção Integral à Saúde Mental (RAISM), favorece a emergência de novas formas de compreender e produzir saúde, fundamentadas na integralidade, na interprofissionalidade e na valorização das dimensões corporais e subjetivas do cuidado (LUZ, 2007).Apontando contribuições importantes e propondo ações de cuidado e promoção a saúde do trabalhador.

Portanto, a Educação Física e a Psicologia, através dos profissionais da Residência Multiprofissional em Saúde Mental (RMSM) e do Centro de Atenção Psicossocial Damião Ximenes Lopes (CAPS II) propõe o diálogo e a criação de laços, aproximando as realidades dos trabalhadores de todos os setores (nível médio e nível superior), que atuam no CAPS II, na perspectiva de reorientar o cuidado em saúde do trabalhador, modificar algumas práticas, promover o fortalecimento do SUS, possibilitando a aproximação entre profissionais, o melhor convívio e formação de vínculos.

Neste sentido, esses profissionais, inseridos na RAISM realizaram uma oficina das sensações para trabalhadores do CAPS II, como estratégia de cuidado a saúde do trabalhador e promoção de saúde, através do projeto Aconchego. Portanto, é possível questionar quais impactos essas estratégias de cuidado tiveram no cotidiano do trabalho e na saúde dos trabalhadores?

Compreendendo que o Projeto Aconchego é uma estratégia de cuidado em saúde com/ para os profissionais inseridos dentro da RAISM e que foi desenvolvido como uma forma de produzir saúde do trabalhador, onde propõe o encontro através de ações, de vivências e trocas afetuosas e que é desenvolvido atividades que proporcionam a integração da equipe, o fortalecimento de vínculos, cuidado e promoção de saúde, espera – se que os profissionais que participaram da oficina das sensações tenham se sentido cuidados e que tenha se produzido vínculos e efetivado tais formas de promoção a saúde do trabalhador.

As informações a seguir foram divididas em objetivo, justificativa/relevância, metodologia e resultados e discussões, como uma forma de melhor organização e compreensão dos tópicos abordados.

OBJETIVO

Descrever a experiência de facilitação da Oficina das Sensações como estratégia de cuidado e promoção da saúde do trabalhador no contexto da Rede de Saúde Mental de Sobral.

METODOLOGIA

Este trabalho trata-se de um relato de experiência. Para Zamberlan e Siqueira (2005) os relatos de experiência propõem o compartilhamento de vivências com outros sujeitos as tornando visíveis. São tidos como metodologias de observação sistemática da realidade, sem o objetivo de testar hipóteses, mas que estabelecem relações entre os achados dessa realidade e bases teóricas pertinentes (DYNIEWICZ, 2009).

Como técnicas de produção de informações, utilizaram-se a Oficina das Sensações e o diário de campo. A oficina constituiu-se como um dispositivo vivencial e reflexivo, favorecendo a expressão de sensações, afetos e significados atribuídos à experiência. O diário de campo foi adotado como recurso metodológico de registro sistemático, reflexão e análise, possibilitando ao pesquisador compreender os processos vivenciados, bem como os sentidos produzidos no cotidiano das práticas, a partir do exercício da escrita reflexiva (MINAYO, 2017; LIMA; MIOTO, 2019).

Trata-se de uma pesquisa de natureza descritiva, com abordagem qualitativa, desenvolvida no Centro de Atenção Psicossocial II (CAPS II) do município de Sobral, Ceará. O campo do estudo constituiu-se a partir da realização da Oficina das Sensações, direcionada a trabalhadores da Rede de Atenção Psicossocial, com foco no cuidado e na promoção da saúde do trabalhador. Participaram da atividade dez trabalhadores da rede de saúde mental, de ambos os sexos, vinculados ao serviço, que aderiram voluntariamente à proposta.

A Oficina das Sensações foi desenvolvida em ambiente coletivo, previamente organizado para favorecer a escuta, a vivência corporal e a expressão subjetiva dos participantes, valorizando experiências sensoriais, afetivas e relacionais como dispositivos de cuidado. As atividades foram planejadas e conduzidas por dois profissionais com formações distintas, favorecendo uma abordagem interprofissional: uma profissional de Educação Física, integrante da rede municipal de saúde, e um psicólogo residente em Saúde Mental.

A condução da oficina buscou criar um espaço de acolhimento e reflexão sobre o cotidiano de trabalho, as sobrecargas emocionais e os processos de autocuidado, utilizando práticas corporais, exercícios de sensibilização e dinâmicas reflexivas como estratégias de promoção da saúde e fortalecimento do bem-estar no ambiente laboral.

Na oficina das sensações foram utilizadas quatro estações sensoriais: tato, olfato, paladar e audição. O circuito sensorial foi planejado de forma que cada estação remetesse a alguma situação do cotidiano do trabalho e possíveis percepções sobre os processos de trabalho, que é mutável, onde as situações do dia a dia se transformam e modificam a realidade. Foram utilizados materiais e recursos que estimulasse diferentes sensações: cadeira, óleo essencial, tapete, café, chocolate, massagem e um urso de pelúcia.

Na primeira estação do circuito, os profissionais adentraram a sala, um por vez com os olhos vendados, os pés descalços e com diferentes texturas no chão ocasionadas pelo uso de tapetes durante o percurso.  O percurso foi guiado por um profissional de educação física. No ambiente tinha uma música suave e o cheiro de óleo essencial espalhado pela sala, afim de propor um ambiente acolhedor.

Na segunda estação, havia a representação de dois sabores: o doce (chocolate) e amargo (café). A escolha pelos dois sabores se remeteu a ideia de que durante os processos de trabalho os profissionais se deparam com situações que podem ser prazerosas, assim como também há situações que podem ser desagradáveis, mas que ainda assim, há a necessidade de seguir e experimentar os “sabores” que trabalhar na saúde mental e no SUS proporcionam.

Na terceira estação trabalhamos o olfato através do cheiro do óleo essencial. Um cheiro suave, que nos remete ao vínculo que é estabelecido com os colegas de trabalho, mesmo diante do cotidiano do trabalho e das suas relações.

A construção de vínculos no ambiente de trabalho é importante, pois traz em seus aspectos o encontro com o outro, e o SUS fomenta uma diversidade de meios que podem transformar a atuação profissional e que contribuem para a construção de laços afetivos que são capazes de fortalecer e transformar as práticas.

Na quarta estação trabalhamos o tato através da massagem, onde foi disponibilizado uma bacia com água morna e realizado uma massagem nos pés de cada profissional, enquanto o mesmo estava sentado em uma cadeira.  O toque proporciona diversas sensações no indivíduo, porém se permitir ser tocado por alguém sem saber quem é, trouxe a ideia de confiança.

De acordo com Mello e Barros (2020), práticas corporais e integrativas que utilizam o toque promovem a ampliação da percepção sensorial e fortalecem vínculos afetivos, favorecendo sentimentos de confiança, acolhimento e bem-estar, especialmente em contextos de cuidado em saúde.

Em seguida foi orientado que o profissional pensasse em uma pessoa especial e foi entregue um urso de pelúcia para que o profissional o abraçasse. Remetendo que todos temos uma história, uma vida para além da história profissional e que isso nos afeta também nos ambientes de trabalho.

Por último foi servido um lanche e perguntado sobre como foi a experiência para a pessoa que acabou de passar pelo circuito sensorial.

RESULTADOS E DISCUSSÕES

A experiência possibilitou a observação das interações grupais, das percepções expressas pelos trabalhadores e dos sentidos atribuídos às vivências propostas, contribuindo para a compreensão do potencial da Oficina das Sensações como estratégia de cuidado no contexto da saúde mental.

A partir da vivência proposta, foi possível evidenciar a potência da articulação multiprofissional nos processos de cuidado e promoção da saúde mental do trabalhador, ampliando a compreensão do cuidado para além de abordagens restritas ao corpo e à mente. A inserção de práticas integradas nos serviços de saúde mental favorece a construção de vínculos e a produção de sentidos no cotidiano do trabalho, por meio do chamado trabalho vivo em ato, que se concretiza nas relações, nos encontros e nas experiências compartilhadas.

Esse modo de produzir cuidado reconhece que o trabalho em saúde é continuamente transformado pelas vivências, pelas realidades concretas dos serviços e pelas interações estabelecidas entre os sujeitos, fortalecendo práticas mais sensíveis, singulares e alinhadas aos princípios da integralidade e da humanização no SUS (MERHY; FRANCO, 2014; MERHY et al., 2020).

Os encontros permitem a transformação dos sujeitos deixando de ser apenas alguém que assiste, mas que se permite sentir e viver as situações diferentes e que a partir dessas vivências conseguem ressignificar, modificar o olhar sobre determinada prática.

 “É fundamental vislumbrar novos cenários de formação profissional, nos quais se busca desenvolver uma proposta em rede articulando as instituições de ensino, a gestão do SUS, os serviços de saúde e a comunidade. Assim, a ênfase não deve ser numa educação voltada apenas para a transmissão de conhecimento, mas para as relações sociais, para a problematização e transformação da realidade, integrando docentes, discentes, usuários, gestores, trabalhadores e profissionais de saúde no cotidiano dos serviços e da realidade sanitária, para a consolidação do Sistema Único de Saúde”. (BISCARDE, 2014. Pág. 178)

 A realização do circuito sensorial possibilitou a identificação de diversas situações que dialogam diretamente com o cotidiano dos profissionais que atuam na saúde mental, evidenciando desafios, tensões e experiências frequentemente vivenciadas no exercício do cuidado. Ao promover essa vivência, tornou-se possível articular teoria e prática a partir das dimensões da subjetividade dos sujeitos, reconhecendo-as como elementos centrais no processo de cuidado em saúde.

O circuito sensorial favoreceu a emergência de sensações e emoções que, em muitos contextos, dificilmente seriam expressas de forma verbalizada. Sentimentos como surpresa, medo e insegurança, bem como as manifestações corporais observadas nos gestos, expressões faciais e olhares, revelaram aspectos profundos da experiência dos participantes. Essas expressões possibilitaram uma aproximação mais sensível com a realidade vivenciada no trabalho em saúde mental, ampliando a compreensão dos processos subjetivos implicados no cuidado e fortalecendo a reflexão sobre o autocuidado e a saúde do trabalhador.

Na primeira estação (andar com olhos vendados), foi possível perceber que alguns profissionais ficaram inseguros, demostrando resistência para seguir os caminhos por onde o condutor os levavam, assim como foi possível observar que outros profissionais demostraram uma facilidade em se deixar ser guiado, se mostrando abertos a experiência.

Na segunda estação do circuito, houve expressões e caretas diante dos sabores apresentados (chocolate e limão), alguns se recusaram a experimentar, o que podemos comparar com os medos diante dos desafios vivenciados nos serviços de saúde mental.

Na terceira estação os profissionais estavam mais confiantes e confortáveis com o cheiro agradável, se permitiram vivenciar a experiência com confiança e autonomia.

Na quarta estação se percebeu os profissionais mais confortáveis e abertos a vivência, compreendendo que eles já estavam mais relaxados. Durante esse momento alguns profissionais se emocionaram ao lembrar pessoas importantes.

No momento final da atividade, foram coletados feedbacks dos participantes acerca da experiência vivenciada na Oficina das Sensações. As falas expressas pelos trabalhadores revelaram impactos significativos no âmbito emocional, cognitivo e relacional, conforme ilustram os seguintes relatos:

“Lembrei da minha avó, faz tanto tempo que não a vejo”;

“Eu estava precisando muito desse abraço”;

“Eu consegui organizar meus pensamentos”;

“É a primeira vez nessa semana que consigo relaxar”.

Esses depoimentos evidenciam a relevância de estratégias de cuidado voltadas à saúde do trabalhador, especialmente no contexto da saúde mental, onde as demandas emocionais e as sobrecargas psíquicas são intensas. Cuidar de quem cuida implica reconhecer tais vulnerabilidades e assumir a responsabilidade institucional de promover espaços de acolhimento, escuta e cuidado integral.

Destaca-se, ainda, a importância do fortalecimento dos vínculos entre os membros das equipes de saúde, uma vez que relações baseadas na confiança, no respeito e na convivência harmoniosa contribuem para a melhoria do ambiente de trabalho e para a qualificação da assistência prestada aos usuários. A experiência reforça que práticas coletivas de cuidado favorecem tanto o bem-estar dos trabalhadores quanto a consolidação de uma atenção em saúde mais sensível e humanizada.

“O vínculo, como um foco de experiência, constituído por práticas psicológicas, faz parte de um dispositivo de interiorização do sujeito, encontrando- se como um atributo interno, porém possível pela relação com a família; ao mesmo tempo, é um procedimento de investimento em certa modalidade de relação consigo quando, por meio dele, é possível desprender o indivíduo de um campo de incapacidades, tais como trabalhar, estudar, relacionar-se conjugalmente, etc.” (BERNARDES, 2013. Pág. 2340)

Assim como a efetivação dos vínculos, o fortalecimento de ações que promovam a afetividade, modifica as relações, sendo então essenciais para que esses profissionais sintam o bem estar e produzam um cuidado em saúde mental de forma efetiva.

CONCLUSÃO

A oficina das sensações é uma das mais variadas ferramentas que podem ser utilizadas para modificar as práticas de ensino- aprendizagem e produzir novos modos de agir e transformar as realidades.

O uso de metodologias ativas facilita o processo de cuidado e proporciona novas reflexões sobre o trabalho em saúde. Instiga o profissional a procurar outras formas de agir e desenvolve reflexões críticas a partir de uma realidade.

A realização da oficina das sensações mostrou o quanto é possível instituir novas formas de promover o cuidado em saúde, onde as situações do dia a dia podem ser usadas para discussão e fortalecimento do trabalho em equipe. Mostrou que é possível promover saúde de qualidade partindo da realidade de cada sujeito, dos trabalhadores, desde aquilo que ele traz de conhecimentos prévios, assim como também aquilo que é que a literatura mostra.

Esta experiência evidenciou que o trabalho multiprofissional ultrapassa a realização de exercícios ou intervenções restritas aos domínios do corpo e da mente, constituindo-se como um processo ampliado de cuidado que reconhece a complexidade e a singularidade de cada sujeito. No contexto do SUS, torna-se fundamental que os trabalhadores estejam atentos às necessidades, vivências e subjetividades que atravessam tanto os usuários quanto os próprios profissionais.

Evidenciou-se, ainda, a importância de garantir espaços institucionais voltados ao cuidado em saúde dos trabalhadores, compreendendo que o bem-estar daqueles que cuidam repercute diretamente na qualidade da atenção ofertada aos usuários. Dessa forma, investir em estratégias de cuidado ao trabalhador configura-se não apenas como uma ação de promoção da saúde, mas como um elemento essencial para a consolidação de práticas mais humanizadas, sensíveis e qualificadas no âmbito do SUS.

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1Especialista em Saúde da Família com Caráter de Residência- ESPVS/ UVA
ORCID: https://orcid.org0000-0001-9616-6926

2Mestre em Saúde da Família-UFC
ORCID: https://orcid.org0000-0002-3407-9963

3Especialista em Saúde Mental e Redução de Danos
ORCID: https://orcid.org0009-0000-6549-0918

4Profissional de Educação Física- UVA
ORCID:https://orcid.org/0009-0007-8090-7006

5Mestre em Ciências e Saúde – UFC
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-2139-876X

6Mestrado em Educação – UFPE
Orcid: https://orcid.org/0000-0001-8251-7027

7Mestrado em Educação – UFPE
Orcid: https://orcid.org/0000-0001-8251-7027

8Fisioterapeuta
ORCID: https://orcid.org/0009-0008-2918-0419

9Enfermeira
ORCID: https://orcid.org/0009-0005-1234-7671

10Psicólogo
ORCID: https://orcid.org/0009-0008-6367-6581

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