APRESENTAÇÃO ATÍPICA DA TUBERCULOSE: CASO CLÍNICO DE ENVOLVIMENTO RENAL

ATYPICAL PRESENTATION OF TUBERCULOSIS: A CLINICAL CASE OF RENAL INVOLVEMENT.

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ar10202601251718


Vinicius Rodrigues França¹; Orientador: Thiago Lacerda Ataídes²; Coautores: Mariana Fassa Vezzani³; Letícia Ribeiro Cardoso⁴; Isabella Santos Rezende Rios⁵; Guilherme Vaz Silva⁶; Gabriel Rodrigues França⁷; Thalles Eduardo Ribeiro⁸; Eduardo Souto Silva⁹; Micael Batista Ribeiro Santos¹⁰; Heloísa Carvalho Fernandes¹¹.


RESUMO

Introdução: A tuberculose (TB) permanece como uma grave preocupação global de saúde, podendo manifestar-se de formas extrapulmonares e atípicas que dificultam o diagnóstico e tratamento, especialmente quando coexistem com outras afecções ou mimetizam infecções comuns. Objetivos: Descrever uma apresentação atípica de TB com acometimento simultâneo pulmonar (cavitário e endobrônquico) e geniturinário, destacando os desafios diagnósticos diante de um quadro sugestivo de pielonefrite refratária e a importância dos testes moleculares. Relato de Caso: Paciente feminina, 39 anos, previamente hígida, iniciou quadro de tosse seca, febre e dispneia, sendo tratada inicialmente para Pneumonia Adquirida na Comunidade sem resposta clínica. Após dois meses, evoluiu com dor lombar, disúria e piora da função renal, recebendo tratamento ineficaz para pielonefrite. A investigação hospitalar revelou piúria estéril e hematúria maciça. A tomografia computadorizada evidenciou alterações pulmonares cavitárias sugestivas de TB ativa e hidronefrose por cálculo ureteral. O diagnóstico foi confirmado por alta carga bacilar no escarro (BAAR 3+), achados de TB endobrônquica na broncoscopia e detecção de DNA de M. tuberculosis sensível à rifampicina via Teste Rápido Molecular (TRM) tanto no lavado broncoalveolar quanto na urina. O tratamento com esquema RIPE foi iniciado, sofrendo interrupção temporária devido à hepatotoxicidade, mas com posterior reintrodução gradual e alta hospitalar com melhora clínica. Conclusão: O relato evidencia que o diagnóstico tardio da TB renal, frequentemente confundida com infecções bacterianas comuns, pode levar a complicações graves; a suspeição clínica em casos refratários e o uso do TRM são cruciais para o desfecho favorável e prevenção de danos renais.

Palavras-chave: Tuberculose. Renal. Extra-pulmonar. TB. Atípica.

ABSTRACT

Introduction: Tuberculosis (TB) is a serious global health concern affecting millions of people annually. Extrapulmonary and atypical presentations can hinder diagnosis and treatment, particularly when they coexist with other conditions or mimic common infections. Objectives: To describe an atypical presentation of TB with simultaneous cavitary pulmonary, endobronchial, and genitourinary involvement, highlighting the diagnostic challenges in a clinical picture initially suggestive of refractory pyelonephritis and sterile pyuria. Case Report: A 39-year-old female patient, previously healthy, presented with subacute respiratory symptoms, including dry cough and dyspnea, and was initially treated for Community-Acquired Pneumonia (CAP) without clinical response. After approximately two months, she evolved with lumbar pain, dysuria, and worsening renal function, receiving ineffective treatment for pyelonephritis. Hospital investigation revealed massive hematuria and sterile pyuria. Computed tomography (CT) evidenced cavitary pulmonary alterations suggestive of active TB and hydronephrosis due to a ureteral stone. The diagnosis was confirmed by high bacillary load in sputum (AFB 3+) , endobronchial findings on bronchoscopy , and the detection of rifampicin-sensitive M. tuberculosis DNA via Molecular Rapid Test (GeneXpert) in both bronchoalveolar lavage and urine. Treatment with the RIPE regimen was initiated, temporarily suspended due to hepatotoxicity, and subsequently reintroduced gradually, leading to hospital discharge with clinical improvement. Conclusion: This report highlights that renal TB is often underestimated and confused with bacterial pyelonephritis or kidney stones. Delayed diagnosis can lead to irreversible renal damage; therefore, clinical suspicion in refractory cases and the use of molecular testing are crucial for a favorable outcome and the prevention of complications

Keywords: Tuberculosis. Renal. Extrapulmonary. TB. Atypical.

1 INTRODUÇÃO

A tuberculose (TB) é uma séria preocupação global de saúde e afeta milhões de pessoas anualmente. A doença infecciosa é causada pela bactéria Mycobacterium tuberculosis e, antes da pandemia de coronavírus (COVID-19), a doença era considerada a maior causadora de morte por um único agente infeccioso, superando as mortes pelo pelo Vírus da Imunodeficiência Humana/Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (HIV/AIDS). No ano de 2023, a bactéria afetou aproximadamente 10,8 milhões de pessoas e matou 1,25 milhão, sendo que 80% dos pacientes que não resistiram à doença viviam em países de baixa e média renda. É estimado que um terço da população seja infectada de forma latente pela bactéria, esses indivíduos podem passar meses ou anos sem apresentar sintomas, mas apresentam risco elevado de desenvolver a forma ativa e contagiosa da doença (SAID et al., 2024; SAUNDERS et al., 2025).

No momento do contato com a bactéria em sua forma contagiosa, o indivíduo pode ser exposto ao estado latente da infecção. Algumas pessoas com a forma latente da doença podem nunca desenvolver a sintomatologia da TB. Porém, cerca de 5-10% das pessoas com infecção latente desenvolvem TB ativa anos depois, geralmente quando seu sistema imunológico está enfraquecido por algum motivo. É comum a manifestação pulmonar da doença, contudo, a forma latente pode se manifestar em qualquer órgão do corpo humano, tendo como lesão característica a necrose caseosa e inflamação local (HAILU et al., 2025; SAID et al., 2024).

A estrutura da Organização Mundial de Saúde (OMS) contra a TB visa reduzir a carga de TB nas populações afetadas por meio do desenvolvimento de abordagens de tratamento eficazes. Assim, foi introduzido o Tratamento Diretamente Observado de Curta Duração (DOTS) em 1993 no Sistema Único de Saúde (SUS). A estratégia utilizada no DOTS é uma combinação de quatro medicamentos antituberculosos (isoniazida, pirazinamida, etambutol e rifampicina) por um período de seis meses para erradicar completamente a infecção por TB. Contudo, formas agravadas por outras comorbidades como diabetes mellitus e/ou afecções extrapulmonares podem dificultar o diagnóstico e tratamento (KHATTAK et al., 2024).

Presume-se que a TB extrapulmonar (TBEP) seja causada pela disseminação das bactérias pela circulação sanguínea a partir de um foco pulmonar. A TBEP representa cerca de 15-30% de todos os casos, e afeta comumente linfonodos, pleura, ossos, meninge, abdômen e em casos mais raros pode afetar as vias urinárias. A dificuldade de diagnóstico reside no fato de que coletas de amostra invasivas podem ser necessárias, além de que técnicas moleculares podem ser caras e de difícil acesso. No presente estudo, apresentamos o caso clínico de um paciente de 39 anos com disúria, polaciúria e dor lombar, sendo constatada nefrolitíase e pielonefrite bilaterais. Posteriormente, tal caso se revelou como uma apresentação atípica de TB com envolvimento renal (DIRIBA et al., 2022).

2 OBJETIVOS

O presente relato tem como objetivo descrever uma apresentação atípica de TB com acometimento simultâneo pulmonar cavitário, endobrônquico e geniturinário, destacando os desafios diagnósticos em um quadro inicialmente sugestivo de pielonefrite refratária e piúria estéril. Correlacionar, de forma cronológica, os achados clínicos, laboratoriais, radiológicos e microbiológicos, enfatizando o papel do Teste Rápido Molecular na confirmação da doença extrapulmonar e discutindo as implicações terapêuticas e evolução clínica da paciente.

3 RELATO DE CASO

Paciente J.D.S., feminina, 39 anos, previamente hígida, natural do Distrito Federal e procedente de Santo Antônio do Descoberto – Goiás, sem comorbidades conhecidas, apresentou-se a unidade de saúde com quadro respiratório de evolução subaguda com início em 27 de Março de 2025, caracterizado por tosse seca persistente, de início insidioso, progressivo e com aumento da frequência associada a dispneia aos esforços, sem sensação febril intermitente com picos de temperatura de até 39ºC, sudorese noturna e mal-estar generalizado. Paciente negou tabagismo, exposição ocupacional a poeiras mineiras, histórico familiar ou prévio de TB, viagens recentes ou estado imunossupressão.

Em uma primeira avaliação, paciente foi diagnosticadas com Pneumonia Aquirida na Comunidade (PAC) com base em radiografia torácica inespecífica. Após, iniciou-se esquema de antibioticoterapia com claritromicina por sete dias, não havendo resposta clínica. A persistência sintomatológica obrigou a paciente a procurar atendimento em diversas ocasiões subsequentes, recebendo dois esquemas de amoxicilina-clavulanato, além de prednisona 5 mg/dia, ibuprofeno e dipirona. Contudo, apesar do tratamento prolongado, havia persistência de quadro febril ao longo da noite, astenia considerável, anorexia e início de perda ponderal não mensurada, sugerindo acometimento por processo infeccioso subagudo não sensível à terapêutica convencional.

Após período aproximado de dois meses após início do quadro, a paciente iniciou quadro de dor lombar direita com intensidade alta, contínua, irradiada para a fossa ilíaca direita acompanhada com quadros de disúria, polaciúria, dor em região suprapúbica e episódios de febre com calafrios. Dessa forma, paciente admitida em unidade de urgência em Junho/2025, recebendo diagnóstico de Pielonefrite, sendo iniciada a administração de ceftriaxona intravenosa (IV) por seis dias. Apesar disso, a paciente evoluiu com persistência da febre, piora do quadro álgico e da função renal. A piora da função renal pode ser detectada com a mensuração da creatinina, com resultado de 2,63 mg/dL na admissão, seguido de 2,90 mg/dL em 08 de Junho de 2025. A paciente não demostrou melhora diante da terapia instalada.

Após esse período, paciente foi admitida no Hospital Estadual Dr. Alberto Rassi (HGG) em 18 de Junho de 2025. Ao exame, paciente encontrava-se consciente, orientada, afebril com pressão arterial (PA) de 142×95 mmHg, frequência cardíaca (FC) 67 bpm e saturação de 97% SaO2 em ar ambiente. A avaliação pulmonar evidenciou ausculta pouco exuberante, com murmúrio vesicular (MV) preservado e sem estertores audíveis. Além disso, paciente apresentava edema de membros inferiores (3+/4+) e dor à palpação de flanco direito.

Após solicitação de exame de urina, os resultados demonstraram leucocitúria acentuada (>1.000.000/mL) e hematúria maciça (>1.000.000/mL). Apesar desses resultados, o exame de urocultura demonstrou-se negativo em 19/06/2025. A luz dos dados obtidos e dos quadros anteriores de febre persistente, dor lombar e inflamação urinária significativa, sugeriu-se, portanto, etiologia atípica, incluindo a possibilidade de piuria estéril, classicamente associada à quadros de TB geniturinária (TB-GU).

Diante do curso prolongado da tosse e ausência de resposta aos múltiplos antibióticos, optou-se por investigação detalhada por exames de Tomografia Computadorizada (TC). Em 19 de Junho, foi realizada TC de tórax, que mostrou: extensas alterações parenquimatosas compatíveis com TB pós-primária em atividade, caracterizadas por amplas áreas de consolidação nos lobos superiores, mais pronunciadas à esquerda, associadas à presença de cavidades espessas de contornos irregulares, de vários centímetros, com conteúdo aerado e paredes espessadas sugestivas de necrose caseosa. Notavam-se ainda cavitações menores adicionais no lobo superior direito, além de múltiplos nódulos centrolobulares e micronódulos com padrão de árvore em brotamento, predominantes em lobos superiores e no segmento apical do lobo inferior esquerdo, consistentes com disseminação broncogênica. Observou-se espessamento irregular das paredes brônquicas segmentares, especialmente nos brônquios dos lobos superiores, compatível com processo inflamatório ativo e possível comprometimento endobrônquico. No mediastino, identificou-se linfadenopatia volumosa envolvendo cadeias paratraqueais, subcarinais e hilares bilaterais, algumas com centro hipodenso, caracterizando provável necrose intranodal. Não havia derrame pleural significativo, apenas discreto espessamento pleural apical à esquerda. O conjunto dos achados reforçava fortemente o diagnóstico de TB cavitária ativa com disseminação broncogênica e acometimento linfonodal mediastinal (Figura 1).

Figura 1 – Imagens de TC de Tórax/Mediastino evidenciando alterações parenquimatosas.

Fonte: O autor, 2025

As imagens obtidas pela TC de abdome e pelve permitiram identificar a presença de cálculo em junção ureterovesical (JUV) direita, com hidronefrose acentuada, associada a espessamento difuso do urotélio e sinais de pielouretrite, determinando, dessa forma, um componente obstrutivo como potencial fator de injúria renal pós-renal com superposição a quadro inflamatório sistêmico (Figura 2).

Figura 2 – Imagens de TC de Tórax/Mediastino evidenciando alterações parenquimatosas.

Fonte: O autor, 2025

Foram solicitados, portanto, exames para confirmação bacteriológica inicial, por meio de pesquisa de BAAR (Bacilo Álcool-Ácido-Resistente) por meio de escarro, em 20 de junho de 2025, evidenciando alta positividade, em 3+, indicando carga bacilar intensa e transmissibilidade aumentada.

Devido a suspeita de TB endobrônquica com alta positividade e, ainda, estenose brônquica, em 21 de Junho de 2025, foi realizada a broncoscopia que revelou mucosa hiperemiada, friável, ulcerada e infiltrada, com presença de irregularidades de superfície, com granulações compatíveis com processo granulomatose ativo. Além disso, por meio do exame foi possível observar lesões mais evidentes em carina intersegmentar esquerda e brônquios lobares superiores. O lavado broncoalveolar (LBA) apresentou BAAR em 3+ e, em Teste Rápida Molecular (TRM) detectou-se DNA de M. tuberculosis, com sensibilidade à rifampicina. Não foram detectadas outras espécies de bactérias patogênicas ou fungos.

O exame cultura, realizado por meio do LBA, demonstrou positividade para o complexo Mycobacterium tuberculosis por método líquido automatizado (MGIT), com identificação fenotípica confirmada. O teste de MGIT demonstrou sensibilidade do microrganismo para estreptomicina, isoniazida, rifampicina e etambutol, confirmando a cepa pansusceptível. Dessa forma, foi possível utilizar de forma segura o esquema RIPE padrão pelo Ministério da Saúde.

Apesar da exuberância pulmonar, o quadro urinário permanecia sem resolução. A persistência de piúria estéril associado a hematúria maciça, hidroureteronefrose e dor lombar refratária a antibióticos reforça a suspeita de TB do trato urinário, o que é reforçado pelo quadro de TB pulmonar ativa, o que reforça a hipótese de forma extrapulmonar por disseminação hematogênica tardia. Assim, propôs-se a realização de TRM com coleta de amostra urinária, que demonstrou resultado positivo para M. tuberculosis, sensível a rifampicina. O BAAR urinário, por sua vez, permaneceu negativo. Esses achados consolidam o diagnóstico de TB-GU.

Iniciou-se, dessa forma, o tratamento no esquema RIPE, em 23 de Junho. Contudo, após sete dias de início da terapêutica, houve evolução do quadro com hepatotoxicidade medicamentosa, com elevação de transaminases, aferida por exame laboratorial, demonstrando TGO em 557 U/L e TGP m 135 U/L. Esses resultados exigiram a suspensão temporária e, após resolução do quadro, houve reintrodução gradual dos medicamentos.

Durante a internação a paciente demonstrou melhora progressiva dos sintomas respiratórios, com diminuição da tosse e dispneia. Além disso, houve regressão gradual dos sintomas urinários após manejo clínico e desobstrução com sonda vesical de demora (SVD). O acompanhamento longitudinal permitiu detectar melhora da função renal, com creatinina aferida em 1,0 mg/dL. Além disso, houve reduções de marcadores inflamatórios, recuperação ponderal e melhora nutricional da paciente.

Por fim, em 15 de julho de 2025, a paciente recebeu alta hospitalar, em uso de rifampicina, isoniazida e etambutol, com plano de reintrodução completa do esquema após a normalização hepática e acompanhamento multidisciplinar.

4 DISCUSSÃO

O presente relato de caso clínico evidencia uma apresentação complexa de TB pulmonar cavitaria associada a uma apresentação rara de TB-GU, cujo o processo de diagnóstico demonstrou-se dificultado pela evolução subaguda da doença, com presença de sintomas inespecíficos e resposta insatisfatória à múltiplos antibióticos, inicialmente prescritos para PAC. A dificuldade diagnóstica de casos como o descrito é amplamente reconhecida em estudos recentes e de alta qualidade, que demonstram que, tanto a TB pulmonar pós-primária quanto a sua apresentação extrapulmonar urogenital pode apresentar um espectro amplo de sinais e sintomas, sendo por muitas vezes pouco específicos, o que contribui para os atrasos significativos no processo de diagnóstico e tratamento (ABERA et al., 2025; QADIR et al., 2025). O atraso facilita a progressão da doença, bem como amplifica a carga bacilar que pode provocar maior risco de complicações sistêmicas, como observado na paciente. O caso relatado por Fayomi et al. (2024) descreve a evolução insidiosa semelhante, em que os sintomas inespecíficos foram equivocadamente atribuídos a pielonefrite bacteriana, resultando em atraso significativa do diagnóstico.

A paciente apresentou-se com um quadro respiratório subagudo, sintomatologicamente representado por tosse seca, febre intermitente, sudorese noturna e perda ponderal, sendo esses sintomas clássicos da tuberculose pulmonar, mas frequentemente confundido com PAC ou infecções da via respiratória em fases iniciais. Além disso, a ausência de resposta a múltiplas drogas, como claritromicina, amoxicilina-clavulanato, bem como o uso de corticoesteroide de maneira inadvertida corroboram para as descrições presentes na literatura de que tais abordagens podem retardar o processo diagnóstico de TB (DIRIBA et al., 2022; KHATTAK et al., 2024). Em um estudo recente, de Hailu et al. (2025), os resultados demonstram que até 40% dos pacientes com TB ativa podem receber tratamento para PAC nas fases iniciais, especialmente quando não há dados suficientes ou não houve a exploração dos aspectos epidemiológicos ou de fatores de risco (HAILU et al., 2025). Observa-se, portanto, o padrão de acometimento na paciente deste relato de caso, que não apresentou comorbidades, não havia histórico de antecedentes familiares ou pessoais e, além disso, residia em área de incidência intermediária.

Os exames de imagem, como a TC são importantes no esclarecimento desses casos. Os achados de cavitações espessas com necrose, áreas de consolidação apical, padrão de árvore em brotamento e linfadenopatia com necrose intranodal são característicos de forma menos comum de TB pós-primária em atividade, conforme descrito em estudos radiológicos da atualidade (KHATTAK et al., 2024). Além disso, sabe-se que a presença de cavidades espessas possui correlação com alta carga bacilar, o que foi confirmado nesse estudo pelos resultados BAAR 3+ tanto no escarro quanto no LBA. Ambos os elementos são importantes na elevação da infectividade, reforçando a necessidade de isolamento respiratório do paciente imediatamente (ABERA et al., 2025). Cabe ressaltar que o padrão de árvore em brotamento pode ser inequivocadamente um marcado de disseminação broncogênica. Esse padrão de imagem é demonstrado, na literatura, como um fator associado a TB ativa em múltiplas coortes, sendo um preditor radiológico de doença com alta transmissibilidade (QADIR et al., 2025). O relato de caso de Fayomi et al. (2024) a TC também foi importante ao revelar as alterações renais que não explicadas por infecção bacteriana simples.

A broncoscopia foi um importante exame que possibilitou a visualização indireta das alterações da mucosa respiratória, como estado de hiperemia, ulcerações e friabilidade, achados compatível com TB endobrônquica, forma menos comum de TB, porém com altas complicações como estenose da via aérea, falência ventilatória e persistência sintomatológica. Estudos recentes, como o de Diriba et al., (2022), destacam que essa apresentação pode acometer até 10% dos pacientes com doença em franca atividade e que, apesar disso, possui subdiagnóstico quando a investigação ocorre apenas com análise de escarro (DIRIBA et al., 2022). No presente caso, o LBA positivo para BAAR em 3+ e TRM detectando DNA de M. tuberculosis sensível à rifampicina confirmam o diagnóstico e demonstram que há robustez nos métodos moleculares de nova geração, corroborando com as recomendações da OMS.

A TB-GU é uma forma particularmente relevante na disseminação hematogênica da TB pulmonar. A paciente apresentou, de acordo com os exames laboratoriais, piúria estéril, hematúria maciça e dor lombar refratária, achados descritos classicamente em séries contemporâneas que reforçam a hipótese diagnóstica de TB-GU, mas que é frequentemente subdiagnosticada por mimetizar quadros de pielonefrite bacteriana, doença cálculo-dependente ou cistites recorrentes (QADIR et al., 2025). A literatura de alto impacto enfatiza que os achados de piúria estéril são mais consistentes para a TB do aparelho urinário, ocorrendo em até 80% dos casos, enquanto culturas bacterianas comuns irão permanecer negativas. No presente caso, a realização do TRM com urina, intervenções imediatas e, mesmo que com BAAR negativado, confirma os achados da literatura, que o exame apresenta sensibilidade superior, especialmente para amostras paucibacilares, sendo recomendado como teste inicial quando houver suspeita de TB-GU (ABERA et al., 2025; HAILU et al., 2025).

A obstrução do ureter por cálculo na JUV, associada a hidronefrose acentuada e espessamento urotelial demonstra o mecanismo de superposição entre a obstrução mecânica e o processo infecciosa granulomatoso, que podem precipitar a lesão renal aguda pós-renal, causando uma inflamação sistêmica significativa. O estudo de Qadir et al., (2025) há a descrição de um quadro similar, de TB-GU com obstrução grave do aparelho urinário levando a injúria renal aguda com necessidade de terapia de reposição renal, o que reforça as hipóteses de que a obstrução prolongada pode facilitar a destruição do parênquima renal, causando destruição papilar, fibrose ureteral e deterioração da função renal de forma irreversível.

A associação de complicações (TB-GU e obstrução ureteral) exige intervenções imediatas e, de acordo com a literatura, o sucesso terapêutico depende da terapia antituberculosa e da desobstrução do fluxo urinário (QADIR et al., 2025). A hidronefrose prolongada causada por TB pode levar a perda funcional permanente, contudo, de acordo com os estudos de coortes, quando realizadas intervenções como nefrostomia ou instalação de cateter duplo J, há melhora no prognóstico renal e redução do risco de progressão da doença renal crônica. No relato de caso, a cateterização vesical e a redução do processo inflamatório sistêmico permitiu a normalização dos parâmetros de creatinina, destacando que houve reversibilidade do quadro.

A paciente apresentou acometimento hepático causado por toxicidade aos medicamentos do esquema RIPE após sete dias de terapêutica, demonstrada pela elevação das transaminases em padrão hepatocelular marcante. A literatura demonstra a ocorrência desses eventos entre 5 a 28% dos casos em esquemas antituberculosos, conforme documentado em estudos recentes (HAILU et al., 2025). Na ocorrência de hepatotoxicidade, as recomendações internacionais propõem a suspensão imediata quando TGO/TGP exceder 5 vezes o limite superior ou 3 vezes na presença de sintomas. A conduta realizada no presente caso clínico foi adequada. A reintrodução gradual de cada fármaco deve ocorrer na melhora dos parâmetros, sendo considerada uma abordagem segura e eficaz, com risco reduzido de ocorrência.

A melhora clínica progressiva após a administração do esquema RIPE associada a resolução parcial dos sintomas respiratórios e urinários confirmam a elevada eficácia do tratamento quando instituído de forma adequada, mesmo em quadros extensos. No entanto, o atraso no diagnóstico expõe os pacientes e a comunidade ao longo período de transmissibilidade, considerando os resultados de baciloscopia. A literatura enfatiza que os pacientes com TB cavitária apresentam os maiores índices de infectividade e demandam estratégias imediatas de isolamento e rastreamento de contactantes (ABERA et al., 2025; QADIR et al., 2025).

5 CONCLUSÕES

Doenças infecciosas tratáveis como a TB devem ser pesquisadas em situações em que os diagnósticos diferenciais mais prováveis não são afirmados pela evolução da doença, com tratamento ou não. Existe uma subestimação diagnóstica no que tange à tuberculose renal, muitas vezes esse diagnóstico é confundido com pielonefrite bacteriana ou cálculos renais, como ocorreu com a paciente em questão. As imagens obtidas pela TC de abdome e pelve, permitiram identificar a presença de cálculo em junção ureterovesical (JUV) direita, com hidronefrose acentuada, associada a espessamento difuso urotelial. Possivelmente a hidronefrose é secundária ao cálculo ureteral e para esta afirmação atribuída a TB renal, precisaria de biopsia do ureter com a presença de granulomas. Estar atento a sintomas concomitantes como manifestações pulmonares pode ser um bom indicativo, levando a uma pesquisa do real agente causador. O diagnóstico tardio pode levar ao desenvolvimento de uma doença renal incurável, levando à insuficiência renal e uremia. Complicações da tuberculose renal podem ser evitadas, desde que o diagnóstico ocorre em tempo hábil e seja seguido por um tratamento adequado.

REFERÊNCIAS

DIRIBA, G. et al. Bacteriologically confirmed extrapulmonary tuberculosis and the associated risk factors among extrapulmonary tuberculosis suspected patients in Ethiopia: a systematic review and meta-analysis. PLOS ONE, v. 17, n. 11, p. e0276701, 23 nov. 2022.

FAYOMI, M. et al. Renal tuberculosis with genitourinary sequelae: a case report. International Journal of Surgery Case Reports, v. 119, p. 109–112, 2024. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11981084/

HAILU, B. K. et al. Multidrug Resistance Tuberculosis in the Context of Co-Infection in Ethiopia: a systematic review and meta-analysis. Journal of Epidemiology and Global Health, v. 15, n. 1, p. 19, 5 fev. 2025.

KHATTAK, M. et al. Tuberculosis (TB) treatment challenges in TB-diabetes comorbid patients: a systematic review and meta-analysis. Annals of Medicine, v. 56, n. 1, 31 dez. 2024.

QADIR, A. et al. A rare presentation of urogenital tuberculosis leading to obstructive uropathy and renal failure: a case report. BMC Urology, v. 25, p. 269, 2025.

SAID, B. et al. The prevalence of Mycobacterium tuberculosis infection in Saudi Arabia: a systematic review and meta-analysis. Journal of Epidemiology and Global Health, v. 14, n. 3, p. 658–676, 24 jul. 2024.

SAUNDERS, M. J. et al. Body mass index and tuberculosis risk: an updated systematic literature review and dose–response meta-analysis. International Journal of Epidemiology, v. 54, n. 5, 18 ago. 2025.


¹Discente do Curso de Residência Médica em Clínica Médica da Universidade Evangélica de Goiás (UniEvangélica), Campus Anápolis, Goiás, Brasil. E-mail: vinifranca11@gmail.com
²Docente do Curso Superior de Medicina da Universidade Evangélica de Goiás (UniEvangélica), Campus Anápolis, Goiás, Brasil.
³Graduada em Medicina pela Universidade de Rio Verde (UNIRV), Câmpus Rio Verde, Goiás, Brasil. E-mail: fassamariana@gmail.com
⁴Graduada em Medicina pela Universidade de Rio Verde (UNIRV), Câmpus Rio Verde, Goiás, Brasil. E-mail: letrcardoso06@gmail.com
⁵Graduada em Medicina pela Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT), Campus Cáceres, Mato Grosso, Brasil. E-mail: isasrr23@gmail.com
⁶Graduado em Medicina pela Universidade de Rio Verde (UNIRV), Câmpus Aparecida de Goiânia, Goiás, Brasil. E-mail: guilhermevaz99@live.com
⁷Graduando em Medicina pela Universidade de Rio Verde (UNIRV), Câmpus Goianésia, Goiás, Brasil. E-mail: bielrfran@gmail.com
⁸Graduando em Medicina pela Universidade Federal de Goiás (UFG), Goiânia, Goiás, Brasil. E-mail: thalledu@hotmail.com
⁹Graduando em Medicina pela Universidade Federal de Goiás (UFG), Goiânia, Goiás, Brasil. E-mail: eduardo.souto@discente.ufg.br
¹⁰Graduado em Medicina pela Faculdade Uniatenas, Paracatu, Minas Gerais, Brasil. E-mail: micael022@gmail.com
¹¹Graduada em Medicina pela Universidade de Ribeirão Preto (UNAERP), Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil. E-mail: heloisacfernandes14@gmail.com

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