CUIDADOS INTEGRADOS AO PACIENTE COM LEUCEMIA MIELÓIDE AGUDA: DIAGNÓSTICO, TRATAMENTO E QUALIDADE DE VIDA

INTEGRATED CARE FOR PATIENTS WITH ACUTE MYELOID LEUKEMIA: DIAGNOSIS, TREATMENT, AND QUALITY OF LIFE

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202511032127


Aline Rodrigues de Souza1
Roseane Alves Lima2
Raire Cristine Pereira da Cruz3


Resumo

A leucemia mieloide aguda (LMA) é uma neoplasia hematológica que exige um cuidado de enfermagem especializado e holístico para mitigar os impactos clínicos e psicossociais da doença. Este estudo tem como objetivo investigar a atuação do enfermeiro no cuidado a pacientes com LMA, abordando métodos diagnósticos, intervenções terapêuticas e o impacto na qualidade de vida. A metodologia adotada foi a pesquisa bibliográfica exploratória com abordagem mista, utilizando fontes como artigos científicos e bases de dados para uma análise aprofundada da literatura. Os resultados revelaram que a Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) é a base do planejamento do cuidado, permitindo a identificação de diagnósticos de enfermagem críticos como risco de infecção e hemorragia. A pesquisa também demonstrou o papel fundamental do enfermeiro em intervenções especializadas, desde o manejo de quimioterápicos, com foco na prevenção e tratamento de extravasamentos, até o cuidado complexo no Transplante de Células-Tronco Hematopoéticas (TCTH) e nas terapias inovadoras, como a terapia CART, onde o profissional atua na detecção e gestão de neurotoxicidades. Além do aspecto clínico, o estudo ressaltou a atuação do enfermeiro no suporte psicossocial ao paciente e à família, abordando o impacto da doença no bem-estar emocional e social. Dessarte, infere-se que a enfermeira é uma figura central na jornada do paciente com LMA, transformando o cuidado técnico em uma abordagem humanizada e integral, essencial para o sucesso do tratamento e a melhoria da qualidade de vida.

Palavras-chave: Leucemia mieloide aguda. Enfermagem. Qualidade de vida. Cuidados integrados. Terapias oncológicas.

1  INTRODUÇÃO

A leucemia é uma neoplasia hematológica caracterizada pela proliferação descontrolada de células sanguíneas imaturas, afetando diretamente a medula óssea e comprometendo o funcionamento normal do sistema sanguíneo. Dentre as diferentes formas de leucemia, destacam-se a leucemia mieloide aguda (LMA) e a leucemia linfocítica crônica (LLC), cada uma com características clínicas e terapêuticas distintas (Marty e Marty, 2015).

Segundo Puggina (2020), a leucemia mieloide aguda (LMA) é uma neoplasia clonal, heterogênea e progressiva, resultante de modificações nas células-tronco hematopoiéticas. Sua principal característica é o crescimento descontrolado e excessivo de células indefinidas, classificadas como mieloblastos. Esse tipo de câncer tem se mostrado uma das doenças mais comuns no Brasil e no mundo, afetando milhares de pessoas, com maior predominância em homens e crianças.

A detecção precoce e a gestão adequada da leucemia têm se mostrado cruciais para melhorar as perspectivas de sobrevida e a qualidade de vida dos pacientes. Além do impacto físico, a doença afeta o bem-estar psicológico e social dos pacientes. Isso demonstra a importância de uma abordagem abrangente e integrada no tratamento da leucemia, envolvendo desde a detecção até as intervenções terapêuticas e a melhoria da qualidade de vida.

O estudo investigou o papel dos enfermeiros no cuidado de pacientes com leucemia mieloide aguda, analisando os métodos de diagnósticos, os tratamentos mais comuns e o impacto da doença no bem-estar dos pacientes. A pesquisa aproximou-se detalhadamente às abordagens terapêuticas como a quimioterapia, radioterapia, transplante de medula óssea e terapias direcionadas, além de discutir os desafios enfrentados pelos pacientes durante o tratamento, suas implicações para a qualidade de vida e o papel dos profissionais de enfermagem no cuidado integral desses pacientes.

2  FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 

Esta seção tem como objetivo fornecer uma base conceitual e científica que embase a compreensão da leucemia, suas causas, mecanismos fisiopatológicos, métodos diagnósticos e abordagens terapêuticas. Com base em uma análise aprofundada de fontes acadêmicas e estudos recentes, o objetivo é discutir as diversas facetas da doença, proporcionando uma visão abrangente dos avanços em pesquisas, tratamentos e desafios enfrentados na área de oncologia hematológica. Esta parte do trabalho visa não apenas apresentar o estado atual do conhecimento, mas também integrar teorias e evidências científicas que contribuam para a compreensão da leucemia e seu manejo, tanto do ponto de vista clínico quanto terapêutico.

2.1 CONCEITO E CLASSIFICAÇÃO DA LEUCEMIA

Leucemia é um tipo de câncer que afeta os glóbulos brancos (leucócitos), derivando-se de mutações genéticas adquiridas na medula óssea. Essas mudanças no DNA das células não são congênitas e, posto que envolvam alterações genéticas, ocasionalmente estão relacionadas à hereditariedade. 

Isto posto, para fundamentar a síntese anterior, os autores Marty e Marty (2015, p.37), descrevem que:

“[…] O termo ‘leucemia’ deriva das palavras gregas leukos, que significa branco, e haima, que significa sangue, gerando a expressão weisses blut ou white blood (sangue branco) para designar o distúrbio. Ou seja, a leucemia é uma doença maligna dos glóbulos brancos (leucócitos), que se origina de alterações genéticas adquiridas – não congênitas – produzidas na medula óssea. É importante ressaltar que pode também não se tratar de um fenômeno hereditário, apesar de ocorrer alteração no DNA dessas células” (Marty e Marty, 2015, p. 37).

Para Puggina (2024), a leucemia é uma neoplasia hematológica identificada pelo acúmulo desordenado de glóbulos brancos imaturos na medula óssea, substituindo células sanguíneas normais e colocando em risco sua função. Esta doença pode ter origem desconhecida e se manifestar pela proliferação incontrolável dessas células anormais, que perdem sua capacidade de defesa e se acumulam na corrente sanguínea.

Visto isso, a leucemia pode ser classificada de acordo com a linhagem celular envolvida e a evolução da doença. Em relação à linhagem celular, ela é dividida em mieloide, quando afeta células precursoras de hemácias, plaquetas e alguns tipos de leucócitos, e linfoide, quando afeta linfócitos essenciais para o sistema imunológico (Marty e Marty, 2015). 

De igual modo, em termos de evolução a leucemia pode ser aguda, caracterizada pelo crescimento acelerado de células imaturas (blastos), necessitando de tratamento imediato ou crônica, apresentam progressão lenta, permitindo que algumas células ainda desempenhem suas funções normais antes da manifestação mais grave da doença (Fernandes, 2024). 

De acordo com Puggina (2024, p. 2), “[…] os quatro tipos principais são leucemia mieloide aguda (LMA), leucemia mieloide crônica (LMC), leucemia linfocítica aguda (LLA) e leucemia linfocítica crônica (LLC)”. Cada um desses subtipos apresenta características distintas quanto à progressão da doença, ao tipo de células afetadas e à resposta ao tratamento. Enquanto as leucemias agudas avançam rapidamente e exigem intervenções imediatas, as leucemias crônicas, o ritmo mais lento de proliferação celular diminui a suscetibilidade aos quimioterápicos. Consequentemente, as possibilidades de cura são menores, e o foco terapêutico se volta para o controle da progressão da doença (Naoum, 2017).

Este câncer representa um desafio global na oncologia, sendo o mais comum em homens e o 11º mais comum entre mulheres no Brasil. A incidência varia entre países e faixas etárias, sendo mais predominante em crianças entre 2 e 5 anos de idade e predominantemente em homens. Nos países desenvolvidos, a taxa de incidência de leucemia infantil é maior do que nos países em desenvolvimento, devido a fatores ambientais e genéticos e à exposição a agentes infecciosos (Puggina, 2024).

No Brasil, estima-se que, para o triênio de 2023 a 2025, ocorrerão 11.540 casos novos de leucemia, correspondendo a um risco estimado de 5,33 casos por 100 mil habitantes. Desses, 6.250 casos serão em homens (5,90 casos por 100 mil homens) e 5.290 em mulheres (4,78 casos por 100 mil mulheres). A leucemia ocupa a décima posição entre os tipos de câncer mais frequentes no país, sendo mais incidente nas Regiões Norte e Nordeste para ambos os sexos (INCA, 2023).

2.2  FISIOPATOLOGIA DA LEUCEMIA

Leucemias são um grupo de neoplasias hematológicas caracterizadas por proliferação descontrolada, apoptose reduzida e bloqueio da diferenciação de células hematopoiéticas (Fernandes, 2012). Como resultado, essas células anormais se acumulam na medula óssea, onde amadurecem, e/ou no sangue periférico (Alves, 2009).

Assim, o desenvolvimento da doença ocorre a partir de alterações genéticas que afetam a diferenciação celular e a apoptose, resultando na expansão de clones de células leucêmicas. A Leucemia Mieloide Crônica (LMC), por exemplo, é caracterizada pela presença do cromossomo Filadélfia (Ph), uma translocação recíproca entre os cromossomos 9 e 22, resultando na fusão dos genes BCR e ABL, que codificam uma proteína com atividade tirosina quinase constitutiva anômala, promovendo proliferação celular desregulada (Fernandes, 2012).

A evolução natural da LMC ocorre em três fases: crônica, acelerada e blástica. Na fase crônica, há aumento da proliferação de granulócitos relativamente maduros. Com o tempo, novas alterações genéticas podem levar à progressão para a fase acelerada, caracterizada pelo acúmulo de células imaturas e hematopoiese ineficaz. A fase blástica representa o estágio final da doença, com aumento expressivo de blastos na medula óssea e no sangue periférico, semelhante à leucemia aguda (Fernandes, 2012).

Para Marty e Marty (2015), a leucemia aguda é uma neoplasia hematológica caracterizada pela proliferação rápida e descontrolada de células precursoras imaturas, chamadas blastos, que comprometem o funcionamento normal da medula óssea e a produção de células sanguíneas maduras. Esse processo resulta em uma falha nos sistemas hematopoiético e imunológico, levando a uma rápida deterioração do quadro clínico. Em contrapartida, a leucemia crônica apresenta curso clínico mais indolente, com proliferação de células mais diferenciadas, que ainda mantêm alguma capacidade funcional, porém de forma reduzida. A progressão da leucemia crônica é mais gradual, e os sintomas iniciais geralmente são inespecíficos e de intensidade leve, piorando com o tempo.

A leucemia causa diversas alterações hematológicas, incluindo leucocitose, anemia e trombocitopenia. Na LMC, observa-se aumento significativo do número de leucócitos no sangue periférico, com predomínio de granulócitos em diferentes estágios de maturação. Além disso, pode haver trombocitose nos estágios iniciais da doença, mas à medida que a leucemia progride, há redução na contagem de plaquetas, indicando insuficiência da medula óssea (Fernandes, 2012).

As manifestações clínicas incluem fadiga, palidez, esplenomegalia, hepatomegalia e tendência a infecções e hemorragias. A hiperuricemia surge como complicação metabólica frequente, resultante da elevada renovação celular, e pode evoluir para nefropatia por ácido úrico devido à precipitação de cristais nos túbulos renais (Santos, 2013).

A etiologia da leucemia resulta da interação entre fatores genéticos e ambientais. Um dos mecanismos genéticos mais estudados envolve as translocações cromossômicas, nas quais o material genético é transferido entre diferentes cromossomos. Um exemplo marcante é a translocação entre os cromossomos 9 e 22, que dá origem ao gene de fusão BCR-ABL – resultante da fusão da região BCR (breakpoint cluster region) do cromossomo 22 com o gene ABL (Abelson murine leukemia virus) do cromossomo 9 (Duarde, 2018). 

Fatores ambientais, como exposição à radiação ionizante e substâncias químicas como o benzeno, também estão associados ao aumento do risco de desenvolver leucemia. Estudos demonstram que trabalhadores expostos cronicamente a essas substâncias apresentam maior incidência de neoplasias hematológicas (Fernandes, 2012).

Dessa maneira, a leucemia é uma doença multifatorial, cujos mecanismos fisiopatológicos envolvem mutações genéticas específicas e interações com fatores ambientais, culminando na expansão clonal de células hematopoiéticas malignas e falência progressiva da medula óssea.

2.3  MÉTODOS DIAGNÓSTICOS DA LEUCEMIA

O diagnóstico da leucemia é baseado na avaliação clínica e em exames laboratoriais específicos que permitem a identificação e classificação da doença. O hemograma completo é um dos primeiros exames solicitados e pode indicar a presença de leucemia ao revelar alterações como leucocitose, anemia e trombocitopenia. Na leucemia mieloide aguda (LMA), por exemplo, é comum observar a presença de mieloblastos no sangue periférico, células imaturas que normalmente não circulam na corrente sanguínea. Uma contagem alta de blastos é um critério essencial para o diagnóstico da LMA, sendo necessária uma porcentagem mínima de 20% de blastos na medula óssea ou no sangue periférico para confirmar a doença (Tresso, 2015; Rodrigues et al., 2015).

A biópsia da medula óssea é essencial para um diagnóstico definitivo. A análise morfológica do aspirado da medula óssea permite a diferenciação dos subtipos de leucemia com base no grau de maturação celular e na presença de estruturas como os bastonetes de Auer, característicos da linhagem mieloide. Além disso, a biópsia avalia a celularidade da medula óssea, que na LMA costuma ser hipercelular devido à infiltração por blastos (Rodrigues et al., 2015).

A citogenética e a biologia molecular desempenham um papel crucial na classificação e prognóstico da leucemia. A análise citogenética identifica alterações cromossômicas, como translocações, que são marcadores de subtipos específicos da doença. Na LMA, algumas das translocações mais frequentes incluem t(8;21), associada ao subtipo M2, e t(15;17), característica da leucemia promielocítica aguda (M3) (Cabral, 2023).

A imunofenotipagem, realizada por citometria de fluxo, é outro método essencial para a caracterização da leucemia. Esta técnica detecta antígenos específicos na superfície de células leucêmicas, auxiliando na distinção entre leucemias mieloides e linfoides. Marcadores como CD13 e CD33 são indicativos de linhagem mieloide, enquanto CD19 e CD79a sugerem linhagem linfoide (Bene et al., 1995).

A reação em cadeia da polimerase (PCR) é amplamente usada para detectar mutações e rearranjos genéticos específicos, mesmo em pequenos números de células leucêmicas. Este método é essencial para a avaliação da doença residual mínima (DRM), permitindo o monitoramento da eficácia do tratamento e a prevenção de recaídas (Meyer et al., 2018;).

O diagnóstico diferencial da leucemia envolve distinguir a LMA de outras doenças hematológicas, como síndromes mielodisplásicas e neoplasias mieloproliferativas. A combinação de exames laboratoriais, citogenéticos e imunofenotípicos permite um diagnóstico preciso e a definição do tratamento mais adequado para cada paciente (Rodrigues et al., 2015). A detecção precoce da leucemia é essencial para melhorar os resultados terapêuticos. Os exames de rotina podem identificar anormalidades hematológicas antes do início dos sintomas clínicos, facilitando o diagnóstico precoce e a implementação de tratamentos mais eficazes. Pacientes diagnosticados em estágios iniciais apresentam maiores taxas de resposta ao tratamento e sobrevida (Tresso, 2015).

2.4  ABORDAGENS TERAPÊUTICAS NA LEUCEMIA

A seguir apresenta-se as abordagens terapêuticas que pode possibilitar o tratamento da leucemia, o que pode resultar em maior eficácia e menos efeitos colaterais quando comparado aos tratamentos convencionais.

2.4.1 Quimioterapia

A quimioterapia é o tratamento recomendado para várias formas de leucemia, utilizando agentes citotóxicos para eliminar células neoplásicas. A fase inicial, chamada de indução de remissão, visa atingir a remissão completa (RC) das células cancerígenas e promover a recuperação das células normais. Em seguida, a terapia pós-remissão busca erradicar a doença residual mínima (DRM). Posteriormente, são administrados de 2 a 4 ciclos de consolidação, com ou sem tratamento de manutenção prolongado (Ministério da Saúde, 2014).

Os regimes terapêuticos mais comuns incluem análogos de purina, como fludarabina, e agentes alquilantes, como ciclofosfamida e clorambucil. Entre os efeitos colaterais mais frequentes estão mielossupressão, aumento da predisposição a infecções, toxicidade gastrointestinal e fadiga (Law e Emadi, 2023).

2.4.2 Radioterapia

A radioterapia pode ser usada para tratar tumores específicos, como os que afetam o baço ou o cérebro (DIAS et al., 2024). No entanto, pode causar efeitos colaterais, incluindo fadiga, supressão da medula óssea e lesões locais. O uso da radioterapia é cada vez mais restrito, principalmente devido ao seu impacto na função hematopoiética e aos avanços nas terapias direcionadas, que reduziram a necessidade desse tratamento em muitos casos de leucemia (Lei e Emadi, 2023).

2.4.3 Transplante de Medula Óssea

O transplante de medula óssea (TMO) é uma alternativa para pacientes com leucemia de alto risco ou refratária ao tratamento convencional. Existem dois tipos principais de TMO:

Autólogo: quando as células-tronco do próprio paciente são coletadas, tratadas e reinfundidas após um regime intensivo de quimioterapia.

Alogênico: quando a medula óssea é obtida de um doador compatível, permitindo a substituição de células doentes por células saudáveis.

O TMO alogênico apresenta maior risco de complicações, como doença do enxerto contra o hospedeiro (DECH), mas, em algumas situações, pode levar à erradicação da leucemia (Law e Emadi, 2023).

2.4.4 Terapias direcionadas e imunoterapia

As terapias direcionadas e a imunoterapia trouxeram inovações importantes para o tratamento da leucemia, oferecendo opções terapêuticas mais específicas e com menos efeitos colaterais do que a quimioterapia convencional. Essas abordagens visam atacar as células leucêmicas de forma mais precisa, preservando as células normais e proporcionando maior eficácia ao tratamento.

As terapias direcionadas são tratamentos que visam interferir em moléculas específicas envolvidas no crescimento das células cancerígenas. Um exemplo significativo é o uso de inibidores da tirosina quinase de Bruton (BTK), como o ibrutinib, no tratamento da leucemia linfocítica crônica (LLC). Esses medicamentos bloqueiam uma via de sinalização essencial para o controle das células leucêmicas, contribuindo para a progressão da doença (Dias et al., 2024).

As terapias direcionadas representam uma das mais importantes inovações no tratamento da leucemia. Eles agem em alvos moleculares individualizados em células leucêmicas, reduzindo danos às células normais. Um exemplo é o inibidor da tirosina quinase de Bruton (BTK), usado na LLC, como o ibrutinibe, que impede a sinalização fundamental para a proliferação das células leucêmicas (Law e Emadi, 2023).

A imunoterapia fortalece o sistema imunológico do paciente, permitindo que ele identifique e destrua as células leucêmicas. Entre as técnicas mais inovadoras, destaca-se a terapia com células CAR-T, que consiste em alterar geneticamente as células T do paciente para que elas reconheçam antígenos específicos presentes nas células tumorais. Após essa mudança, as células CAR-T são reinfundidas no paciente, resultando em uma resposta imune mais eficiente contra o câncer (Silva et al., 2024).

A imunoterapia, em contrapartida, fortalece o sistema imunológico, permitindo-lhe identificar e eliminar células leucêmicas. Anticorpos monoclonais, como rituximabe e obinutuzumabe, são usados para atacar proteínas específicas na superfície de células leucêmicas. Outra técnica inovadora envolve a terapia com células CAR-T, onde os linfócitos T do paciente são geneticamente modificados para reconhecer e destruir células cancerígenas (Law e Emadi, 2023).

Além disso, anticorpos monoclonais como rituximab e obinutuzumab são usados para atacar proteínas específicas na superfície das células leucêmicas, aumentando a resposta imune contra o câncer (Silva et al., 2024).

3  METODOLOGIA 

A pesquisa deste estudo foi bibliográfica, com abordagem mista, buscando perscrutar o conhecimento sobre o tema escolhido. As fontes incluíram livros, artigos científicos e bases de dados como Scielo, Lilacs, PubMed, BIREME, Periódicos CAPES, bibliotecas digitais e sites governamentais, priorizando publicações de 2000 a 2024, com possibilidade de inclusão de materiais a partir de 2025, quando aplicável.

O processo de coleta envolveu a busca de informações por descritores específicos, como “leucemia”, “leucemia linfoblástica aguda” e “enfermagem oncológica”. Posteriormente, os dados foram lidos, analisados e interpretados, classificando-os de acordo com sua relevância para o estudo. O processo de planejamento seguiu etapas estruturadas, iniciando-se com a delimitação do tema, definição do problema e desenvolvimento do referencial teórico, objetivos e bibliografia, garantindo consistência e sistematicidade em todas as fases da pesquisa.

4  RESULTADOS E DISCUSSÕES 

A análise da literatura e dos resultados de pesquisa revela que a atuação do enfermeiro no cuidado ao paciente com Leucemia Mieloide Aguda (LMA) é um processo dinâmico e especializado, que se adapta às complexas necessidades clínicas e psicossociais do paciente e de sua família. O cuidado de enfermagem não se limita a tarefas isoladas, mas é guiado por uma abordagem sistemática que integra diferentes domínios da saúde.

4.1 SAE E DIAGNÓSTICOS DE ENFERMAGEM

A Sistematização da Assistência de Enfermagem – SAE é a espinha dorsal da prática moderna de enfermagem em oncologia, e sua aplicação em pacientes com LMA se mostra crucial. A utilização de ferramentas padronizadas, como os diagnósticos da NANDA e a Classificação Internacional para a Prática de Enfermagem – CIPE, é essencial para o planejamento de uma assistência eficaz e baseada em evidências (Binda, Barbosa e Lima, 2009; Oliveira et al., 2005). Um estudo de caso relatado por Binda, Barbosa e Lima (2009) demonstrou que a implementação da SAE permitiu aos acadêmicos de enfermagem uma experiência particular ao evidenciar a necessidade de um olhar criterioso para as demandas físicas e emocionais do paciente com LMA.

A partir dessa abordagem sistemática, os estudos identificam um conjunto de diagnósticos de enfermagem predominantes em pacientes com LMA, diretamente relacionados à doença e aos efeitos de seu tratamento:

•        Risco de Infecção: Este é o diagnóstico mais predominante e crítico, uma vez que a imunossupressão induzida pela quimioterapia torna os pacientes vulneráveis a infecções oportunistas (Farias et al., 2016). As intervenções de enfermagem para mitigar esse risco incluem o monitoramento contínuo de sinais e sintomas de infecção, a implementação rigorosa de precauções neutropênicas, o isolamento protetor, e a educação detalhada do paciente e de seus familiares sobre hábitos de higiene e restrições de visitação (Viero et al., 2014).

•        Risco de Hemorragia: A plaquetopenia é uma complicação comum na LMA, e o diagnóstico de risco de sangramento é crucial para a segurança do paciente. O plano de cuidados inclui o monitoramento minucioso de sinais de sangramento, a observação da contagem de plaquetas e de exames de coagulação, a orientação sobre a importância de relatar qualquer ocorrência e a prevenção de procedimentos invasivos (Santos e Maciel, 2014).

•        Fadiga e Mobilidade Física Prejudicada: A fadiga é um sintoma debilitante em pacientes com neoplasias hematológicas, correlacionado com a anemia. Essa condição afeta a capacidade do paciente de realizar atividades diárias. O cuidado de enfermagem visa mitigar esse quadro através do estímulo a períodos alternados de repouso e atividade, da limitação de estímulos ambientais e da assistência na deambulação para pacientes com risco de queda (Santos e Maciel, 2014; Martins et al., 2013).

A aplicação dessas classificações de enfermagem demonstra que a atuação da enfermeira vai além da mera observação de sinais clínicos, transformando um dado isolado em uma estratégia de cuidado preventivo e direcionado. A interconexão entre os sintomas físicos também é notável; por exemplo, a fadiga está intimamente correlacionada com dor, insônia e perda de apetite (Martins et al., 2013).

Tabela 1 – Diagnósticos de Enfermagem

Diagnóstico de Enfermagem  Intervenções de Enfermagem Correspondentes
Risco de Infecção relacionado à imunossupressãoMonitorar sinais e sintomas de infecção; seguir precauções neutropênicas; colher hemocultura; orientar paciente e familiares sobre prevenção.
Risco de Hemorragia relacionado à trombocitopeniaMonitorar sinais de sangramento; monitorar contagem de plaquetas; evitar procedimentos invasivos; orientar uso de escova de dente macia; orientar repouso absoluto em casos graves.
Fadiga relacionada à anemiaEncorajar períodos alternados de repouso e atividade; limitar estímulos ambientais (ruído, iluminação); evitar procedimentos de enfermagem durante períodos de descanso.
Deambulação prejudicadaAuxiliar o paciente sem equilíbrio na deambulação; identificar pacientes com risco de queda; promover ambiente seguro para prevenir acidentes.
Dor AgudaAdministrar analgésicos tópicos ou sistêmicos conforme prescrição; verificar medicações prescritas.

Fontes: Santos e Maciel, 2014

4.2 INTERVENÇÕES ESPECIALIZADAS E ABORDAGENS TERAPÊUTICAS

A função da enfermeira no cuidado ao paciente com LMA é fundamental em todas as etapas do tratamento, exigindo competências especializadas que se adaptam às diferentes modalidades terapêuticas, desde a quimioterapia convencional até as terapias mais avançadas, como o Transplante de Células-Tronco Hematopoéticas (TCTH) e a imunoterapia.

4.2.1 Manejo da Quimioterapia Convencional e Extravasamento

A enfermeira desempenha um papel central na administração e supervisão da quimioterapia, sendo responsável por planejar e executar o cuidado, além de monitorar de forma atenta todos os parâmetros clínicos. Um dos eventos mais graves e que exige intervenção imediata da equipe de enfermagem é o extravasamento de agentes antineoplásicos, classificados como vesicantes ou irritantes. O extravasamento é uma emergência oncológica com potencial para causar danos teciduais irreversíveis (FCECON, 2024; Pereira et al., 2020).

A atuação da enfermeira é tanto preventiva quanto reativa. A prevenção envolve medidas rigorosas, como a observação constante do acesso venoso e a instrução ao paciente para que relate qualquer anormalidade. Em caso de extravasamento, a ação deve ser imediata: interromper a infusão, aspirar o resíduo da medicação e, em seguida, aplicar o antídoto ou a compressa (quente ou fria) específica para a droga em questão. A posse de um kit de extravasamento pré-montado é uma norma, e a falta desse preparo é considerada uma “falha grave de processo” (FCECON, 2024; Freitas e Popim, 2015).

4.2.2 Cuidado de Enfermagem no Transplante de Células-Tronco Hematopoéticas (TCTH)

O papel da enfermeira no TCTH é descrito como “fundamental” e “essencial”. A atuação abrange todas as fases do procedimento, desde a consulta pré-transplante até o acompanhamento pós-alta O profissional tem a expertise para manipular cateteres centrais e realiza um acompanhamento clínico diário e minucioso do paciente, reportando ao médico quaisquer mudanças importantes nos exames. O cuidado de enfermagem também é crucial na prevenção de complicações precoces e tardias, como mucosite e infecções (Silva et al., 2011; Souza et al., 2023, Benicá et al., 2021).

Uma distinção fundamental no cuidado de enfermagem reside no tipo de transplante. Enquanto no transplante autólogo não há risco de rejeição, o paciente permanece suscetível a infecções e hemorragias (Passweg et al., 2012). O transplante alogênico, por sua vez, apresenta um risco adicional e grave: a Doença do Enxerto Contra o Hospedeiro – DECH. A DECH é uma complicação na qual as células imunológicas transplantadas atacam os tecidos do receptor, exigindo imunossupressão intensa que, por sua vez, aumenta o risco de infecções fatais. O enfermeiro, por estar constantemente ao lado do paciente, é o profissional mais apto a identificar precocemente os sinais e sintomas da DECH, permitindo uma intervenção rápida e especializada (Farias et al., 2021).

4.2.3 Enfermagem em Terapias Inovadoras (CAR-T)

A pesquisa aponta para a emergência de terapias como a imunoterapia de células T com Receptor de Antígeno Quimérico (CAR-T) como uma nova fronteira no cuidado oncológico (Rancho et al., 2025). Essas terapias, embora revolucionárias, apresentam um perfil de toxicidade único e potencialmente fatal, como a Síndrome de Liberação de Citocinas – CRS e a Síndrome de Neurotoxicidade Associada a Células Efetoras Imunes – ICANS (Soares et al., 2022). A atuação da enfermagem se torna, nesse contexto, altamente especializada e crucial para a segurança do paciente.

O profissional de enfermagem especializado é responsável pelo monitoramento rigoroso e pela detecção precoce dessas neurotoxicidades, utilizando ferramentas padronizadas como o escore ICE para avaliação neurológica. As intervenções de enfermagem em casos de CRS e ICANS vão desde cuidados de suporte até a administração de terapias de resgate, como o Tocilizumabe e corticosteroides (Rancho et al., 2025). A equipe também é responsável por identificar os gatilhos para o escalonamento do cuidado, incluindo a transferência para a Unidade de Terapia Intensiva – UTI em casos de hipotensão ou hipóxia (Soares et al., 2022).

4.3 IMPACTO PSICOSSOCIAL E O PAPEL DO ENFERMEIRO NO SUPORTE INTEGRAL

O estudo confirma que o diagnóstico e o tratamento da LMA causam um impacto na qualidade de vida do paciente, afetando seu bem-estar físico, funcional, psicossocial e familiar (Martins et al., 2013). A enfermagem desempenha um papel central em mitigar esses efeitos, com a qualidade de vida emergindo como um resultado direto do cuidado holístico prestado.

O impacto da LMA vai além dos sintomas físicos. A pesquisa revela a alta preponderância de depressão e ansiedade em pacientes com leucemia, incluindo crianças e adolescentes, e destaca que esses sintomas podem passar despercebidos (Zuniga-Guerra et al., 2023). O sofrimento emocional começa já nos primeiros sintomas, com a presença de medo e angústia antes mesmos do diagnóstico (Rocha, 2024). O impacto se estende à família, que vivencia uma mudança drástica na dinâmica e rotina, com a assunção de novos papéis, estresse emocional e, frequentemente, isolamento social (Souza e Gorini, 2006). O risco de tensão do papel do cuidador é um diagnóstico de enfermagem reconhecido que reflete a sobrecarga emocional e prática imposta à família (Santos e Maciel, 2014).

O cuidado de enfermagem é uma intervenção direta para o aprimoramento da qualidade de vida (Martins et al., 2013). A pesquisa consistentemente identifica a enfermeira como uma fonte crucial de apoio emocional e educacional para o paciente e a família (Rocha, 2024). A capacidade de ouvir ativamente, fornece comunicação clara e ética e oferecer um cuidado humanizado é destacada como uma habilidade essencial para reduzir a ansiedade e fortalecer o vínculo terapêutico (Dib et al., 2022).

A gestão dos sintomas físicos pela enfermeira, como fadiga, dor e insônia, tem um impacto direto e benéfico sobre a qualidade de vida psicossocial. Por exemplo, a melhoria do sono e a redução da dor podem levar a uma maior capacidade de realizar atividades diárias e, consequentemente, a uma melhora nas funções sociais e emocionais (Martins et al., 2013). A intervenção de enfermagem, portanto, não se limita a atingir metas clínicas; ela busca a melhoria holística do bem-estar do paciente. Ademais, a pesquisa evidencia que a família deve ser vista como a unidade de cuidado (Souza e Gorini, 2006). Ao prover suporte emocional e educação aos familiares, a enfermeira não apenas alivia a tensão do cuidador, mas também fortalece o sistema de apoio do paciente, o que é um fator crucial para o seu processo de enfrentamento e recuperação.

5  CONCLUSÃO

A análise dos resultados da pesquisa reforça que o papel do profissional em enfermagem no cuidado ao paciente com LMA é fundamental, abrangendo desde o diagnóstico até as fases avançadas do tratamento e o acompanhamento de longo prazo. O cuidado não é uma série de tarefas isoladas, mas um processo coerente e sistemático que começa com a identificação de necessidades através de métodos diagnósticos padronizados, como a CIPE e NANDA, e culmina em intervenções altamente especializadas e personalizadas. A evolução da prática de enfermagem, especialmente com o advento de terapias complexas como a CAR-T, posiciona o enfermeiro não apenas como uma provedora de cuidado, mas como um gestor de emergências e um especialista em monitoramento e intervenção rápida.

Em último exame, o sucesso do tratamento e a melhoria da qualidade de vida dos pacientes com LMA dependem de um cuidado de enfermagem que seja holístico e que reconheça a interconexão entre os sintomas físicos e o bem-estar psicossocial. O foco da assistência deve se expandir para incluir não apenas o paciente, mas também sua família, reconhecendo-a como a unidade primária de cuidado. Os dados analisados apontam para a necessidade de mais estudos específicos sobre a eficácia das intervenções de enfermagem. No entanto, já demonstram que a enfermeira é a chave para transformar um tratamento clínico desafiador em uma jornada de recuperação mais segura, mais digna e centrada no ser humano.

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1Discente do Curso Superior de Enfermagem da Universidade da Amazônia – UNAMA. E-mail: alinehm80@gmail.com
2Discente do Curso Superior de Enfermagem da Universidade da Amazônia – UNAMA. E-mail: dp.milao@gmail.com
3Docente do Curso Superior de Enfermagem da Universidade da Amazônia – UNAMA – Bacharelada e Licenciada em Enfermagem pela Universidade Federal de Rondônia – UNIR. E-mail: sosferidas@gmail.com

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