CORREDORES GASTRONÔMICOS E CULTURAIS COMO FORMA DE DESENVOLVIMENTO LOCAL E SUSTENTABILIDADE

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202508121326


MENEGHINI, Olinda Beatriz Trevisol1
ORRIGO, Luiza Silva2
CASTILHO, Maria Augusta de3


RESUMO

O presente artigo trata a respeito dos corredores gastronômicos como incentivo a geração de oportunidades de revitalizar espaços e atrair investimentos, fomentar a realização de festivais e encontros culturais, impulsionando atividades turísticas e a preservação da identidade gastronômica local. 

Do ponto de vista do desenvolvimento local, os corredores atendem alguns dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU da agenda 2030, sendo em parte o Objetivo 8, apoiando a formalização e o crescimento de micro, pequenas e médias empresas, bem como o Objetivo 11, sobre cidades e comunidades sustentáveis, onde busca proteger o patrimônio cultural, e dar acesso universal a espaços públicos seguros, inclusivos e acessíveis.

A metodologia usada é a de revisão bibliográfica. Os procedimentos metodológicos que orientaram a elaboração deste trabalho são de natureza qualitativa e envolveram revisão bibliográfica sobre a temática Desenvolvimento Local e Sustentabilidade Ambiental, legislação pertinente, fontes secundárias como levantamento bibliográfico em sites eletrônicos e obras sobre a área de conhecimento que envolve o tema em questão (Castilho et al., 2017). Além destas fontes foram realizadas visitas aos locais durante o dia e à noite. 

O eixo principal da pesquisa é no desenvolvimento e incentivo ao turismo local.

Palavras-chaves: Espaço; corredores; economia; cultura: gastronômicos.

ABSTRACT

This article deals with gastronomic corridors as an incentive to generate opportunities to revitalize spaces and attract investments, encourage the holding of festivals and cultural meetings, boosting tourist activities and the preservation of local gastronomic identity.                

From the point of view of local development, the corridors meet some of the 17 UN Sustainable Development Goals of the 2030 agenda, being in part Goal 8, supporting the formalization and growth of micro, small and medium-sized enterprises, as well as Goal 11, on sustainable cities and communities, where it seeks to protect cultural heritage, and providing universal access to safe, inclusive and accessible public spaces. The methodology used is that of bibliographic review. 

The methodological procedures that guided the elaboration of this work are qualitative in nature and involved a bibliographic review on the theme Local Development and Environmental Sustainability, pertinent legislation, secondary sources such as a bibliographic survey on electronic websites and works on the area of knowledge that involves the theme in question (Castilho et al., 2017). In addition to these sources, visits to the sites were carried out during the day and at night. 

Keywords: Space; Corridors; Economy; Culture: Gastronomic.

INTRODUÇÃO

Nas grandes cidades brasileiras e de outros países, é comum áreas onde há o foco de setores específicos da economia local. Lojas de varejo, vestimentas, artesanatos e eletrônicos são comuns, especificamente quando se trata de alimentação. As ruas são dotadas de bares, restaurantes, lanchonetes e food trucks que são um atrativo local, com uso designado para o lazer voltado a comida, que movimentam boa parte do comércio local da área onde estão inseridos, sendo um local de encontro, lazer e estimulam o desenvolvimento local e incentivam o turismo local.

1 CORREDORES CULTURAIS, GASTRONÔMICOS E COMERCIAIS COMO PROMOÇÃO DO DESENVOLVIMENTO LOCAL

Conceitualmente, locais com comércios voltados a setores específicos da economia, como a venda de vestuários, eletrônicos, artesanato e mais notadamente, alimentação têm sido tratados como “corredores”, espaço este geralmente formado por eixos viários e concentração de atividades do mesmo caráter ou diversas. Sendo estratégias urbanas relevantes na promoção do desenvolvimento local, que muitas vezes funcionam como espaços de convivência e produção da identidade local.

A criação e incentivo dos corredores gastronômicos gera oportunidades de revitalizar espaços e atrair investimentos, fomenta a realização de festivais e encontros culturais, impulsionando atividades turísticas e a preservação da identidade gastronômica local. A transformação de atrativos culturais em chamarizes turísticos é apresentada por Sánchez (2007) como parte do processo de ajuste estrutural à nova ordem econômica mundial. A Autora expõe o termo” empresariamento urbano” para discursar sobre o esforço na gestão das cidades a fim de inseri-las como produtos em um cenário capitalista globalizado, isto é, de vendê-las.

Segundo Corrêa (2006), por outro lado, a globalização da cultura traz a possibilidade do híbrido cultural, segundo o qual envolve a combinação de diversidade, interconectividade e inovação. Sendo diversidade a confluência de tradições culturais histórica e geograficamente distintas, e interconectividade sendo as interações contínuas entre significados e formas simbólicas. Todavia, a diversidade de contextos culturais confluindo no espaço urbano torna-se também um produto do mercado. Sem ser originalmente aquilo que pretende, vender um simulacro do que representa, a fim de satisfazer pequenos desejos das pessoas.

Do ponto de vista do desenvolvimento local, os corredores atendem a principalmente aos Objetivos De Desenvolvimento Sustentável da ONU da agenda 2030 número 8 – Trabalho decente e crescimento econômico: promover o crescimento econômico sustentado, inclusivo e sustentável, emprego pleno e produtivo, e trabalho decente para todos.10 – Redução das desigualdades: reduzir as desigualdades dentro dos países e entre eles. 11 – Cidades e comunidades sustentáveis:  tornar as cidades e os assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis.12 – Consumo e produção responsáveis: assegurar padrões de produção e de consumo sustentáveis.

Os corredores culturais e gastronômicos atendem e estimulam tais objetivos, trazendo o fortalecimento da economia local e seu desenvolvimento, unindo a comunidade, estimulando a interação social, revitalizando espaços subutilizados e dando vida ao mesmo.

2 ESTUDO DE CASO: CORREDOR GASTRONÔMICO DA 14 DE JULHO

Na cidade de Campo Grande MS existem registrados pelo menos 14 espaços com características de corredores gastronômico e cultural. Alguns destes corredores surgem através de iniciativas privadas, outros são criados pela atuação do Poder Público, que prevê investimentos em sua estrutura para sua promoção enquanto elemento oferta turística. Porém para criação de um corredor por projeto de lei é necessário que sejam observados alguns critérios, tais como: 

Identificação de potencialidades a partir da análise do contexto local, identificam-se elementos culturais e gastronômicos que podem ser valorizados e explorados.

Planejamento e projetos elaboram-se projetos que definem os objetivos, as ações a serem realizadas e os espaços a serem revitalizados ou criados, como ruas, praças ou centros culturais. 

Parcerias e participação na criação de corredores gastronômicos e culturais envolve a colaboração entre diferentes atores: poder público, iniciativa privada, comunidade local e associações. 

A Rua 14 de Julho recebeu seu nome supostamente em alusão à data da queda da Bastilha durante a Revolução Francesa. Em 1930 recebeu o nome de Rua Aníbal de Toledo, em homenagem ao Presidente do Estado que permaneceu poucos meses no cargo. No mesmo ano, passou a se chamar Rua João Pessoa, em homenagem ao Presidente do Estado da Paraíba e candidato a vice-presidente da República, assassinado em 26 de julho de 1930, em Recife-PE. Os campo-grandenses, no entanto, nunca deixaram de se referir à via como 14 de julho e em 1941, volta à denominação original.

Entre 2017 e 2023, Campo Grande recebeu a política do Plano de Revitalização do Centro (REVIVA), estabelecido pela Lei Complementar nº. 161/2010 (Campo Grande, 2010a), e teve como finalidade a valorização e proteção do patrimônio histórico, ambiental, arquitetônico e paisagístico da cidade. Nesse sentido, o programa voltou suas ações para o centro, que sofreu com o processo de esvaziamento, tendo como objetivo torná-la atraente às pessoas, proporcionando novas moradias, convívio social, comércio e serviços. Essa transformação incluiu em foco, a Rua 14 de Julho, considerada a via pública mais importante do centro (CASADEI, 2024).

Como resultado, além da transformação na infraestrutura, possibilitou o planejamento de importantes projetos estruturantes e estratégicos para o município como o Plano Local das Zonas Especiais de Interesse Cultural da Região Urbana do Centro, suporte nas políticas de habitação e no Plano Diretor de Transporte e Mobilidade Urbana, ações que também foram financiadas com recursos do projeto.

Em 2024 a prefeitura de Campo Grande publicou a lei n° 7.294 que oficializa a Rua 14 de Julho, entre a Rua Marechal Rondon e Avenida Mato Grosso, como Corredor Gastronômico, Turístico e Cultural. O poder público impedia o trânsito de automóveis nos sábados e domingos, no entanto pouco tempo depois a prefeitura revoga a medida a pedido dos comerciantes e donos de bares do local.

Segundo o historiador francês Nora (1993), quando um personagem, um local ou um fato é constituído como um lugar de memória é desvendada sua verdade simbólica e sua realidade histórica. Trata-se, então, de construir um conjunto simbólico e ressaltar a lógica que as une.

Em visita a Rua 14 de Julho, durante o dia, entre a Avenida Mato Grosso e a Rua Maria Coelho e Rua Marechal Rondon, percebeu-se a instalação de pelo menos 8 estabelecimentos de comércio de gastronomia.  Um dos estabelecimentos passou a abrir durante o dia para servir almoço principalmente para trabalhadores do comércio dos arredores. 

Figura 1 – Rua 14 de julho entre as ruas Marechal Rondon e Antônio Maria Coelho

Fonte: Google Maps  

Os estabelecimentos que abrem apenas à noite oferecem cardápios diversos, desde pizza, comidas de bar propriamente dita e comida árabe, inclusive um dos bares que tem o nome de Prosa em homenagem a um dos córregos que corta a cidade, batizou e seu Hambúrguer com nome de “Véio do Rio” em homenagem ao personagem da novela global Pantanal.  As bebidas são variadas, preferencialmente cervejas inclusive cervejas artesanais, sucos e refrigerantes. Uma particularidade é um bar muçulmano que não serve bebida alcóolica. 

Alguns estabelecimentos já estão instalados há quase um ano e outros se instalaram há menos de 4 meses, todos com grandes expectativas. Alguns até estavam estabelecidos em ruas próximas e mudaram para a 14 de julho por perceberem as potencialidades do local. Além de movimentar a rua que estava sem movimento desde a Conclusão do REVIVA CENTRO agora ganharam vida noturna (Fig. 2)

Figura 2 – Rua 14 de Julho 2553 em Campo Grande-MS à noite.

Foto: Olinda Meneghini – 2025

Questionados sobre o tipo de entretenimento, fomos informados que varia muito conforme o dia da semana, mas tem Karaokê, grupo de Samba ao vivo, músicas regionais e música árabe vinda de caixas de som.

Durante o dia a faixa etária dos frequentadores pode variar, porém à noite é mais frequentado por jovens em alguns dos bares e mais variadas faixas etárias em outros, dependendo da atração e cardápio. Os comerciantes não têm incentivo por parte do poder público, como redução do valor de IPTU como já foi solicitado, porém, não tem queixa dos valores cobrados de taxas e impostos. 

Figura 3 – Bar Prosa antes     Figura 4- Bar Prosa depois   Figura 5 -Pizza PUB

Fotos: Olinda Meneghini 2025

Os estabelecimentos além de movimentar a economia, fomentar o turismo e a gastronomia, também ajudam na conservação dos prédios que são protegidos por   Lei como Zona Espacial de Interesse Cultural 2 (ZEIC2), como pode ser observado nas figuras (1,2 e 3)

Figura 6 – Música ao vivo reúne muitas pessoas

Fotos: Olinda Meneghini 2025

Enquanto outros prédios continuam com ocupação apenas na parte inferior e a superior está se degradando dia a dia, é o caso do edifício São Miguel (Figura 7)

Figura 7– Prédio na esquina das ruas Antônio Maria Coelho com Rua 14 de Julho

Fonte: Google Maps Acesso em 05/08/2025

Na parte inferior funciona um comércio e a parte superior está sendo degradada pelo tempo e abandono.

Considerações Finais

Sendo o objetivo desta pesquisa a identificação dos corredores gastronômicos como locais com potenciais para desenvolvimento local, incentivo ao comércio e turismo local e difusão da cultura local a pesquisa permitiu constatar a existência da ligação do turismo gastronômico com o segmento cultural na Rua 14 de Julho.

Constatamos também que  a cultura e as características do lugar são valorizados, sendo usados como o atrativo o lugar de experiência onde é possível materializar gostos, desejos e expectativas, com a rua 14 de Julho  considerada a principal via do Centro de Campo Grande. 

Em resumo, os corredores gastronômicos e culturais são ferramentas importantes para o desenvolvimento local, promovendo a valorização da identidade cultural, a geração de renda e o fortalecimento do turismo. 

REFERÊNCIAS

AZEVEDO, Renan Ramires de; BATISTOTE, Maria Luceli Faria. Manipulações no ciberespaço: discurso e linguagem do turismo pantaneiro. Linguagens: Revista de Letras, Artes e Comunicação, v. 14, n. 2, p. 114–127, ago. 2020. Disponível em: https://proxy.furb.br/ojs/index.php/linguagens/article/view/8956. Acesso em: 27 junho de 2025.

CASADEI, J. M. Desenvolvimento regenerativo do centro urbano de Campo Grande/MS: Programa Reviva (2017–2023), Universidade Católica Dom Bosco. Disponível em: https://bib.ucdb.br/acervo/262491: Universidade Católica Dom Bosco, 2024. Acesso em: 15 de junho de 2025.

CORRÊA, Roberto Lobato. O urbano e a cultura: alguns estudos. In: CORRÊA, Roberto L.; ROSENDAHL, Zeny (orgs.). Cultura, espaço e o urbano. Rio de Janeiro: Ed. UERJ, 2006. Disponível em: https://books.scielo.org/id/493c5/04. Acesso em: 27 de junho de 2025.

FREIRE, A. L. O. Mercados públicos: de equipamentos de abastecimento de alimentos a espaços gastronômicos para o turismo. Revista Geografares, n. 25, 2018. Disponível em: https://journals.openedition.org/geografares/7356. Acesso em: 2 de julho de 2025.

https://www.google.com/maps/place/Rua+14+de+Julho+-+Campo+Grande,+MS Acesso em: 04 de julho de 2025

NORA, Pierre. Entre memória e história: a problemática dos lugares. Projeto História, São Paulo, n. 10, p. 7–28, dez. 1993. Acesso em:  11 de julho de 2025.

OBJETIVOS DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL. Disponível em: https://brasil.un.org/pt-br/sdgs. Acesso em: 15 jul. 2025.

SÁNCHEZ, Fernanda. Cultura e renovação urbana: a cidade-mercadoria no espaço global. In: LIMA, E. F. W.; MALEQUE, M. R. (orgs.). Espaço e cidade: conceitos e leituras. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2007. Acesso em: 29 de junho de 2025.

SHANA, Lehenbauer Peretti; ANA PAULA. O papel da mídia no turismo. Disponível em: https://www.ucs.br/site/midia/arquivos/04. Acesso em: 30 de junho de 2025.


1Doutoranda em Desenvolvimento Local – UCDB; Mestra em Desenvolvimento Local pela UCDB- Arquiteta e Urbanista pela UNIDERP Lattes http://lattes.cnpq.br/6682025835794603 e-mail ra866853@ucdb.br
2Mestranda em Desenvolvimento Local UCDB. Graduada em Arquitetura e Urbanismo pela UCDB Lattes http://lattes.cnpq.br/0524424251531789 E-mail: luizaorrigo.arq@gmail.com – Bolsista CAPES
3Pós-doutorado em Linguística e Doutorado em Ciências Sociais – História do Brasil pela USP. Docente do Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Local da UCDB http://lattes.cnpq.br/6046697442527505 e-mail m.a.castilho@terra.com.br