REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202510292030
Rodrigo Richter Ribeiro
Glória Regina Botelho
Leo Rufato
Amauri Bogo
Resumo A cultura da macieira é bem consolidada no Brasil, sendo produzida principalmente na regia Sul do país. Apesar de ter encontrado condições ambientais adequadas para seu desenvolvimento, a cultura tem sofrido com problemas fitossanitários, como a Podridão Amarga, causada pelo fungo Glomerella cingulata. Apesar da doença ter seu controle químico efetivo, o uso indiscriminado tem exercido pressão ambiental e genético diversos, causado pelo uso frequente de mesmos princípios ativos, exercendo pressão de seleção e de isolados resistência. O objetivo deste trabalho foi avaliar o efeito de isolados bacterianos, oriundos de folha, frutas e solo de pomares de área de produção do planalto catarinense, no controle da podridão amarga. Da flora microbiana obtida dos matérias isolados em meio de cultura, optou-se por selecionar isolados do grupo das Pseudomonadacea (Psedomonas spp.) e Bacilacea (Bacillus spp.)que produziram halo de inibição no crescimento de G. cingulata in vitro. Os isolados M5 e M23 que que inibiram o crescimento micelial in vitro, foram avaliadas in vivo em frutos da cultivar ‘Gala’. . F rutos no ponto de maturação comercial, foram perfurados equatorialmente com furador, criando quatro ferimentos de 3 mm de profundidade e 3 mm de largura. Suspensão dos isolados bacterianos a concentração de 1 x 105 UFC (unidades de formação de colônia) foram inoculados de Diferentes formas, sendo: Testemunha: somente inoculação da G. cingulata; T2: inoculação do isolado M23, 24 horas antes da G. cingulata ; T3: inoculação do isolado M05, 24 horas antes da G. cingulata; T4: inoculação do isolado M23, 24 horas após a G. cingulata ; T5: inoculação do isolado M05, 24 após aplicação a G. cingulata. As parcelas foram dispostas em delineamento inteiramente casualizados com quatro repetições por tratamento, sendo a parcela formado por quatro frutos. Os isolados bactérias M05 e M23 inoculados 24 hs antes da inoculação da G. cingulata, de forma preventiva, apresentaram as menores índices de severidades de podridão amarga . A utilização desses biocontrolares no manejo integrado da podridão amarga demostrou ser eficiente e promissor no controle da doença em frutos de macieira da cultivar ‘Gala’ mantidos em condições ambientais de armazenamento. .
Palavras-Chave: Malus domestica Bork., Pseudomonadacea, Bacilacea, Controle Alternativo, Bioensaio, Antibiose, Isolados Bacterianos.
Abstract- Apple production is well established in Brazil, being concentrated mainly in the Southern region. Although the crop has found favorable environmental conditions, orchards face phytosanitary problems such as bitter rot caused by Glomerella cingulata. While fungicides are available, repeated use of the same active ingredients often increases selection pressure on the pathogen, favoring resistance development. This study aimed to evaluate the effect of bacterial isolates obtained from leaves, fruits, and soils of commercial orchards in the Santa Catarina Plateau on the control of bitter rot. From the microbial community isolated on culture media, we selected bacterial isolates from the families Pseudomonadaceae (Pseudomonas spp.) and Bacillaceae (Bacillus spp.) that produced inhibition halos against G. cingulata in preliminary assays. Isolates M05 and M23, chosen based on their in vitro ability to inhibit mycelial growth, were subsequently evaluated in vivo for their capacity to reduce disease intensity (incidence and severity). ‘Gala’ apples at commercial maturity were wounded using a cork borer to create four lesions (3 mm deep × 3 mm wide) on opposite sides of each fruit. The treatments were: Control (pathogen only); T2: M23 applied 24 h before the pathogen; T3: M05 applied 24 h before; T4: M23 applied 24 h after; T5: M05 applied 24 h after pathogen inoculation. A completely randomized design was used, with four replicates per treatment and four fruits per replicate. Preventive applications (24 h prior to pathogen inoculation) of bacterial isolates M05 and M23 exhibited an antibiosis effect against G. cingulata, inhibiting pathogen growth. Based on these results, integrated biocontrol management using either a postharvest dipping treatment or a biogel coating with the selected bacterial isolates appears to be an efficient and promising alternative for controlling bitter rot on apples during shelf life and/or cold storage.
Keywords: Malus domestica Borkh., Pseudomonadaceae, Bacillaceae, alternative control, bioassay, antibiosis, bacterial isolates.
INTRODUÇÃO
Atualmente, a produção brasileira está concentrada na região Sul, abrangendo seus três estados, com destaque para as áreas de altitude do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Essas regiões de altitude permitem ótimas condições fisiológicas e produtivas, porém altamente favoráveis a problemas fitossanitários. Das principais doenças fúngicas que provocam graves danos e perdas econômicos, estão a sarna da macieira, cancro europeu, podridão amarga, mancha de glomerela, oídio e a tão severa ‘fogo bacteriano’, doença quarentenária (CARRARO et al., 2022).
A podridão amarga, causada pela fase sexual do fungo Glomerella cingulata, tem em sua fase assexuada em Complexo Colletotrichum, podendo ser as C. acutatum, C. fructicola e C. nymphaeae. A podridão amarga provoca danos consideráveis em áreas de clima temperado, com verões amenos e úmido, ocorrendo de maneira generalizada no sul do Brasil (SOUZA; GOULART JUNIOR; BRIGHENTI, 2024). Em verões mais quentes, as perdas podem ser superior a 50% da produção (FILIPINI, 2009, CARRARO et al., 2022).
Frutos podem ser infectados logo após a queda das pétalas. No início, observa-se uma pequena mancha de 2 a 3 mm de diâmetro, de coloração parda ou marrom-clara. A mancha evolui, aumentando de tamanho ao mesmo tempo que se aprofunda na polpa da fruta. (MELO et al., 2021). Quando a mancha se aproxima dos 2 cm de diâmetro, observa-se uma depressão interna da lesão com bordos elevados. Sempre que ocorrem condições favoráveis de temperatura e umidade, surgem, em círculos concêntricos, numerosos acérvulos de Colletotrichum spp. Os frutos atacados caem com facilidade e é frequente o apodrecimento em pré-colheita e durante o armazenamento (GELAIN et al., 2022).
O controle químico tem sido muito eficiente, principalmente em ferimentos provocados pela podam que devem ser cobertos com tinta plástica branca. Frutos infectados devem ser removidos durante o ciclo da cultura, de modo que não se transformem numa fonte de inóculo secundária. O controle químico deve ter início dois meses após a plena floração, e sendo aplicados em média a cada 10 dias (PONTO & ARAUJO, 2023).
Uma das alternativas para reduzir o impacto do uso constante de defensivos, afretando o impacto ambiental, o controle biológico da podridão amarga em macieiras tem tomando significativa contribuição, envolvendo a redução do inóculo, manejo cultural e uso de agentes de controle biológico como bactérias do gênero Pseudomonadáceas (Pseudomonas spp) e Bacilaceas (Bacillus spp.). É fundamental a remoção de frutos mumificados e folhas caídas, poda adequada, a manutenção da saúde da planta e, em alguns casos, o uso de fungicidas (MOREIRA et. al, 2014, MELO et al., 2018).
O controle biológico de doenças tem por definição “a redução de inóculo ou das atividades determinantes da doença provocadas por um patógeno. Esses microrganismos possuem mecanismos de ação que vão atuar no controle biológico de doenças de plantas, podendo ser através da produção de moléculas com ação direta sobre o crescimento ou fisiologia dos fitopatógenos; competição relacionada com velocidade de crescimento do agente de controle biológico em relação ao patógeno, quando ambos estão associados ao tecido da planta hospedeira e/ou por parasitismo, pela capacidade que o agente de controle biológico tem de parasitar estruturas do patógeno por penetração ou colonização de hifas (MEDEIROS et al., 2018).
O uso excessivo dos mesmos vem causando uma pressão de seleção sobre o patógeno, causando uma maior pressão no aumento de isolados resistências. Devido a esses fatores a utilização de meios de controle alternativos é de essencial importância, devido a isso o principal objetivo desse projeto é analisar a influência de bactérias previamente avaliadas e ligadas à filosfera, filoplano foi avaliar o efeito de biocontroladores epifíticos e endofítica de folhas, ramos, frutos e solo de pomares de macieira localizadas em áreas endêmicas da doença.
MATERIAL E MÉTODOS
Os experimentos foram realizados na Universidade do Estado de Santa Cataria-CAV em Lages, juntamente com o Laboratório de Microbiologia da Universidade Federal de Santa Catarina, localizada no município de Curitibanos, o delineamento utilizado foi DIC (Delineamento Inteiramente Casualizados) e utiliza dos seguintes métodos:
Isolamento e obtenção dos isolados
Isolados bacterianos diversos foram obtidos de amostras de folha, ramos, frutos e solo de pomares localizados em áreas endêmicas da doença podridão amarga nas regiões de altitude do planaldo catarinense. Diluição seriada em meio Batata-Dextose-Agar enriquecidas com antifúngico pimaricina foram obtidos mais de 50 isolados de um gama gama muito diversa de microrganismo. Desse grupo de microflora, seleção foram realizadas em 2 grandes grupos, Pseudomonadáceas e Baciláceas, previamente conhecidas pelos suas potenciais ações biocontroladores (MOREIRA et. al, 2014, MELO et al., 2018, MEDEIROS et al., 2018).
Os isolados bactérias foram purificadas individualmente e repicadas em meio sólido
LB (Luria-Bertani) até se obterem culturas puras. Foram obtidos 23 isolados bacterianos. Após a purificação, as culturas foram armazenadas pela inoculadas em 5 mL de meio LB líquido a 26°C e, após 24 horas, 1 mL da suspensão bacteriana foi misturado com 1 mL de glicerol 80% e transferido para criotubos, que foram armazenados a -20°C. Os isolados foram analisados pelo Teste de Gran, reações enzimáticas e características morfo- fisiológicas.
Após as reações analíticas, os aos grupos das Pseudomonadacea (Psedomonas spp.) e Bacilacea (Bacillus spp.) foram submetidos aos ensaios de antibiose por halo de inibição em placas de Petri em presença de plug de 5mm de crescimento do fungo C. cingulata.
Testes bioquímicos
O teste de produção de quitinase foi realizado meio LB (Luria-Bertani) com quitina coloidal (1,5% por L), agar (1,5% po L) e água destilada autoclavada. Amostras de 50 microlitros da suspensão foram dispostos em quatro pontos distintos das Placas de Petri com meio quitina, com 6 repetições. O teste de celulase foi realizado em meio carboximetilcelulase (CMC), conforme metodologia descrita por Barbosa (2019) com modificações. Para esse teste foram usados 0,5g de CMC e 2% de ágar por litro de água destilada, com 6 repetições. Em ambos os testes, taxa de crescimento aparente foram avaliados ao logo de 7 dias de crescimento, avaliado o halo de inibição (mm) ao logo do tempo.
Teste in vitro
Inicialmente foi realizado um teste de antibiose in vitro para escolha dos isolados para o teste in vivo. Este experimento foi conduzido em de placas de BDA que continha o fungo G.cingulata. Discos de micélios de 1mm de G. cingulata foram extraídos e colocados no centro de outras placas com meio BDA. As placas foram incubadas em Bichemical Oxygen demand Chamber (BOD), com controle de temperatura de luminosidade. Após 48 horas, isolados de G. cingulata foram repicado, colocando um disco de 1mm da colônia no centro de novas placas contendo BDAe, simultaneamente, os 23 isolados dos biocontrolares foram repicados em tubos com 5 mL de meio LB (Luria Bertani) líquido (pH 7,0), durante 48 horas a 27ºC. Depois desse intervalo, adicionou-se 50 μL da suspensão de cada um dos 22 biocontrolares em locais equitativos das placas que continham os crescimentos de G. cingulata. Os testes foram conduzidos três dias após a inoculação dos bioconrolares, com um intervalo de três dias entre cada análise, sendo avaliado por um período de nove dias. Nesta fase, procedeu-se à análise qualitativa, verificando a existência ou não de halos de inibição do crescimento micelial de G. cingulata. Do grupo dos 23 isolados de biocontroladores, foram escolhidas para análise nos textes in vivo apenas os 2 que apresentaram os maiores halo de inibição de G. cingulata em testes in vitro.
Na avaliação quantitativa, as medidas foram realizadas com auxílio paquímitro digital para determinar o nível de halo de inibição, de acordo com Rodrigues (2019):

onde: Dtf = Diferença entre o desenvolvimento do fungo na placa sem a presença do controle (bactéria); Dcf=Diferença entre o desenvolvimento do fungo na placa com a presença do controle (bactéria); Hi = Halo de Inibição, descontando o tamanho da colônia bacteriana.
Testes in vivo com Glomerella cingulata
Isolados de G. cingulata foram transferidas para tubos de ensaio contendo 10mL de solução salina esterilizada até que se atingiu turvação semelhante aos tubos padrão da escala de McFarland. A contagem das células presentes nos tubos padronizados visualmente foi realizada em câmara de Neubauer, utilizando microscópio óptico. A amostra foi introduzida no espaço entre a lâmina e a câmara espelhada com o auxílio de micropipeta, preenchendo completamente o espaço por capilaridade. A contagem foi realizada nos quadrantes maiores localizados nas laterais da câmara. Cada quadrante possui área de 1mm2 e profundidade de 0,1mm. O número de células utilizado no cálculo foi composto pela média aritmética da contagem entre os quatro quadrantes. (MESQUITA FILHO, 2012)
Inoculação dos isolados bacterianos 24h antes de G. cingulata
Os isolados bacterianos M5 e M23, escolhidos com base em sua capacidade de inibir o crescimento micelial de G. cingulata, foram avaliadas in vivo, quanto à capacidade de reduzir a severidade da doença. O efeito inibitório dos isolados foi examinado em frutos infectadas com G. cingulata, através de 4 ferimentos equatoriais, de acordo com os protocolos descritos por Liu et al. (2017). Nesse teste foram utilizados os seguintes tratamentos: T1: Testemunha aplicação somente do fungo; T2: Aplicação do isolado M05 24 horas antes do fungo; T3: Aplicação do isolado M23 24 horas antes do fungo; T4: Aplicação do isolado M05 24 horas depois do fungo; T5: Aplicação do isolado M23 24 horas depois do fungo.
Para a calibração da suspensão de esporos de G. cingulata, a contagem e calibração da suspensão foi realizada em câmara de Neubauer, segundo a escala de Mc Farland, obtendo uma suspensão de esporos de 1×10-5 UFC. (MESQUITA FILHO, 2012)
As frutas foram desinfectadas, quando imersas em uma solução de hipoclorito de sódio a 2% por 2 min e deixadas para secar ao ar. Em seguida, a área equatorial das frutas foi desinfestada com álcool a 75%. Após esse processo foi realizada lavagem com água destilada esterilizada por três a cinco vezes, para retirada de resíduos de água sanitária e álcool.
Com auxilio de furador de 3mm esterilizado, foram criados 4 furos equidistantes em lados opostos, cada um medindo 3 mm de profundidade e 3 mm de largura. Este processo foi repetido três vezes para cada tratamento. Em cada ferimento, 30 µL da suspensão de cada isolado bacteriano selecionado foi aplicado na concentração de 1 × 106 UFC/mL (utilizando o mesmo processo citado anteriormente). Após 24 horas, 20 µL de uma suspensão de esporos de G.cingulata de 1 a 5 x 105 conídios/mL, foram adicionadas a cada ferimento.
Inoculação dos isolados bacterianos 24h após G. cingulata
Neste experimento foi utilizado o mesmo processo já descrito anteriormente com os mesmos procedimentos metodológicos. Este processo foi repetido três vezes para cada tratamento. Neste experimento a inoculação da suspensão com G. cingulata foi seguida de período de 24 horas, para posterior inoculação dos isolados M5 e M23. Foi utilizado para este experimento o mesmo procedimento para a testemunha do experimento anterior. Foram realizados medições dos halos de crescimento da G. cingulata a intervalos diários por 7 dias, obtendo a taxa de crescimento aparente.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Testes bioquímicos
Os testes classificaram os isolados dos biocontroladores pela habilidade de produção de quitina e celulose, eferentes no processo de inibição do crescimento micelial de G. cingulata. Para o teste de quitinase se observou que somente quatro dos 23 isolados, ou seja 17,4%, foram capazes de apresentar crescimento neste meio, sendo eles os isolados M5, M7, M12 e M23 como demostrado na tabela 1.
Tabela 1 – Produção de quitinase e celulase dos diferentes isolados biocontroladores obtidos de diferentes partes da plantas de macieira de pomares de região do planalto catarinse, Santa Catarina, Brasil


Para o teste de celulase foram observadas que 9 dos 23 isolados, ou seja 39,13 %, dos isolados foram capazes de produção ambas enzima, sendo eles M2, M3, M5, M7, M8, M9, M10, M12 e M23 como demostrado na tabela 1.
Esses dois fatores foram relevantes para a escolha dos isolados que foram utilizados nos testes in vivo. Celulose e quitina são compostos que estão presentes na parece celular de hifas e estruturas da maioria dos fungos fitopatogênicos, podendo assim essas enzimas podem degradar principalmente a parede celular de fungos.
A quitina representa o principal elemento estrutural da parede celular na maioria dos fungos, tornando-se vulnerável a diversas espécies de bactérias, actinobactérias e fungos que podem atuar como adversários, graças à produção de enzimas que digerem quitina. As quitinases desempenham um papel duplo durante a colonização dos fungos. Elas têm a habilidade de agredir diretamente a parede celular fúngica, facilitando a liberação de oligo-N-acetilglicosaminas, que atuam como sinalizadores na ativação de respostas defensivas em células vegetais. Do mesmo modo a Celulase, atua na parede celular de alguns fungos que possuem celulose, como algumas podridões (MEDEIROS et al., 2018).
Teste in vitro do fungo Glomerella cingulata
Na Tabela 2, observa-se que 6 isolados foram responsáveis pela inibição do crescimento micelial de G. cingulata ao longo do período de avaliação de 7 dias, sendo que cerca de 26,6% dos isolados foram eficientes na inibição (Tabela 2).
Tabela 2- Porcentagem de inibição do crescimento micelial de Glomerella cingulata, pelo teste de halo de inibição pela produção de enzimas de inibição e antibiose em frutas de Cultivar ‘Gala’ em ensaios realizados em 2023 e 2025.

Os isolados M5 e M23 foram responsáveis pela inibição do crescimento micelial de G. cingulata e foram positivos para os testes de antibiose e eficientes para a realização dos testes in vivo.
Lisboa (2020) relatou em seu estudo com rizobactérias isoladas do Cerrado brasileiro que, das 112 rizobactérias avaliadas, 88,4% demonstraram pelo menos algum tipo de atividade enzimática, destacando o potencial dessas bactérias como agentes de controle biológico de doenças, de forma semelhante ao que foi observado no presente estudo. Um dos isolados, identificado como Burkholderia terricola, apresentou atividade antibiótica.
Isso demonstra que estudos já mostram o potencial de antagonismos de bactérias em doenças.
Melo e Valarini (1995) também investigaram o potencial de inibição do fungo Fusarium solani usando isolados bacterianos provenientes da rizosfera da cultura de pepino. Os autores concluíram que, mesmo em culturas distintas, o isolamento de bactérias que convivem com as plantas é uma estratégia eficaz no controle de diversas doenças.
Teste de antibiose in vivo
Ao longo do período de sete dias, obtendo um total de 12 avaliações, utilizando as metodologias de inoculação dos biocontrolares 24 hs antes ou 24 hs após o patógeno, os ensaios demonstraram uma significativa redução da área de lesão dos sintomas de podridão amarga. (Tabela3).
Tabela 3- Porcentagem de inibição do crescimento micelial de Glomerella cingulata, pelo teste de inibição de crescimento das lesões de podridão amarga em frutas de Cultivar ‘Gala’ em ensaios realizados em 2023 e 2025.

Observou-se que, como demostra as medias, os tratamentos T4 e T6 mostraram significativas médias de inibição de crescimento, com menores medias de crescimento das lesões, ou seja, os tratamentos que utilizaram o isolado 23, nas duas formas de aplicação, antes e depois do fungo, foram os que mais se destacaram no controle do fungo. Quando observamos as analises estatísticas, em um teste de abaixo da curva de progressão da doença esses dados se confirmam como observado no teste anterior (Tabela 4). Se observa que o tratamento que utilizou os isolados M05 e M23 aplicado 24 horas antes de fungo, como uma maneira preventiva, foi o que mais se destacaram com relação ao desenvolvimento do fungo no tratamento testemunha.
Tabela 4- Área Abaixo da Curva de Progressão da Doença (AACPD) para podridão amarga de Glomerella cingulata quando submetidas a ação dos biocontralores M05 e M23 24 hs antes e após a inoculação de Glomerella cingulata em frutas da cultivar ‘Gala’ em ensaios realizados em 2023 e 2025

Quando observamos o gráfico de correlação, levando em consideração 16 pontos de avaliação, se constata que o valor é de 1 (Imagem 9). Correlação maior que zero: se a correlação for igual a +1, significa que é perfeito positivo. Neste caso, significa que a correlação é positiva, isto é, que as variáveis estão diretamente correlacionadas. Ou seja, as duas variáveis, o teste in vitro e in vivo, tem correlação positiva demostrando que no caso do isolado é positiva, onde se aumentar o grau de inibição 24 antes e depois da aplicação do fungo.
Herpich (2022), em seu trabalho observou 52 isolados bacterianos morfologicamente distintos, sendo 31 de origem epifítica e 21 de origem endofítica. Os isolados epifíticos “EUP 38”, “UEP 51” e “UEP 40”, bem como os isolados endofíticos “UEN 13” e “UEN 14”, demonstraram capacidade de inibir o crescimento micelial, superando os demais isolados no teste in vitro. Além disso, os isolados “UEP 40”, “UEP 43”, “UEN 13” e “UEN 14” utilizam uréia e indol como fontes de carbono. Os isolados “UEN 13” e “UEP 51” se destacaram em relação aos demais, apresentando a menor média de incidência da doença no teste in vivo.
CONCLUSÃO
Dois isolados bacterianos M05 e M23, do grupos grupo das Pseudomonadacea (Psedomonas spp.) e Bacilacea (Bacillus spp.),foram eficientes nos testes de antibiose por halo de inibição nos testes in vitro para o controle de crescimento micelial de G. cingulata. Ambos isolados bacterianos foram eficientes em produzir as enzimas quitinase e celulase que, possivelmente, foram as responsáveis pela ação inibitório do patógeno.
No teste de antibiose in vivo, em frutos de macieira da cultivar ‘Gala’, ambos isolados afetaram significativamente a intensidade da doença, reduzindo a severidade e Área Abaixa da Curva de Progresso da severidade da Doença (AACPSD), quando inoculados 24 antes da inoculação do patógeno.
Com base nos resultados, a utilização do manejo integrado de biocontrole se demonstrou eficiente e promisso na forma de banho ou camada de biogel com os isolados bacterianos como forma alternativa e eficaz de controle da podridão amarga em frutos em prateleira e ou armazenamento em câmara fria.
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