REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch102025110810745
Sepúlveda, A. N. A.
Gomes, L. H. B.
Albuquerque, S. R. F.
Araújo, W. L. R.
RESUMO
A harmonização facial vem ganhando destaque por oferecer equilíbrio e simetria ao rosto, principalmente com o uso de preenchedores à base de ácido hialurônico. Este estudo analisou as principais complicações associadas a esse procedimento, analisando suas causas, sintomas e as melhores formas de prevenção e tratamento.
A pesquisa foi realizada por meio de revisão bibliográfica nas bases PubMed, SciELO e Google Acadêmico, abrangendo artigos publicados entre 2014 e 2024. Os resultados indicam que, embora o ácido hialurônico seja seguro e compatível com o organismo, podem ocorrer problemas como edema, eritema, hematomas, nódulos, infecções, necrose e oclusões vasculares.
O uso do ultrassom para mapear a anatomia facial e o emprego da hialuronidase para reverter complicações são fundamentais para minimizar riscos. Conclui-se que conhecer bem a anatomia, e contar com profissionais qualificados são essenciais para garantir uma harmonização facial segura e satisfatória.
Palavras-chave: harmonização facial, ácido hialurônico, intercorrências.
ABSTRACT
Facial harmonization has gained prominence for providing balance and symmetry to the face, especially through the use of hyaluronic acid–based fillers. This study examined the main complications associated with this procedure, analyzing their causes, symptoms, and the most effective strategies for prevention and management. The research was conducted through a literature review in the PubMed, SciELO and Google Scholar databases, covering articles published between 2014 and 2024. The findings indicate that although hyaluronic acid is considered safe and biocompatible, complications such as edema, erythema, bruising, nodules, infections, necrosis, and vascular occlusions may still occur. The use of ultrasound to map facial anatomy and the application of hyaluronidase to reverse complications are essential measures to minimize risks. It is concluded that a comprehensive understanding of facial anatomy and the performance of qualified professionals are fundamental to ensuring safe and satisfactory facial harmonization outcomes.
Keywords: facial harmonization, hyaluronic acid, complications.
1. INTRODUÇÃO
A harmonização facial consiste em um conjunto de procedimentos estéticos que tem conquistado cada vez mais adeptos nos últimos tempos. Seu foco principal é melhorar a simetria e a harmonia do rosto por meio de técnicas pouco invasivas, como a aplicação de preenchedores. Muitas pessoas buscam essas intervenções não apenas para rejuvenescer, mas também para corrigir assimetrias na face1. Apesar da crescente popularidade da harmonização facial, é importante lembrar que esses tratamentos podem apresentar riscos e que complicações podem surgir durante ou após os procedimentos.
Entre as consequências mais alarmantes está a obstrução dos vasos sanguíneos, que pode levar à morte do tecido ou até à perda da visão. Esse problema surge quando o material injetado entope as artérias, dificultando o fluxo sanguíneo em certas zonas do rosto2. Apesar de ser uma ocorrência pouco frequente, sua gravidade exige que os profissionais de saúde estejam adequadamente treinados e façam um planejamento efetivo ao tratamento.
Os preenchedores faciais podem levar a complicações como inchaço, hematomas e, em situações mais sérias, infecções. A utilização de materiais inadequados ou a realização de aplicações de forma errônea podem aumentar consideravelmente o risco de tais complicações3. Estudos demonstram que essas complicações são passíveis de prevenção quando o profissional possui um vasto conhecimento técnico e utiliza produtos que tenham sido devidamente aprovados pelos órgãos competentes.
Outro ponto relevante é que cada paciente apresenta reações distintas aos procedimentos. Elementos como idade, tipo de pele, condições de saúde preexistentes e histórico de alergias podem afetar tanto a probabilidade quanto a gravidade das complicações4. Pesquisas indicam que pessoas com doenças autoimunes ou outras condições de saúde podem ter uma maior predisposição a reações adversas durante ou após os tratamentos estéticos.
A prevenção de complicações requer a adesão a protocolos clínicos rigorosos e um acompanhamento contínuo dos pacientes antes, durante e após os procedimentos.5 Profissionais qualificados devem garantir que os pacientes estejam plenamente informados sobre os riscos envolvidos e orientá-los sobre os cuidados necessários no período pós-tratamento, a fim de minimizar as chances de complicações. A implementação de novas tecnologias e inovações nas técnicas de aplicação também pode contribuir para aumentar a segurança dos tratamentos.
Dessa maneira, este trabalho propiciou uma análise aprofundada acerca das complicações decorrentes do uso do ácido hialurônico na harmonização facial, evidenciando a importância da compreensão de seus mecanismos, manifestações clínicas e formas de manejo. A identificação precoce dessas intercorrências mostrou-se essencial para a condução adequada dos casos, contribuindo para a minimização de riscos e a prevenção de sequelas permanentes. Além disso, a discussão sobre estratégias preventivas e a necessidade de qualificação profissional reforça a relevância do conhecimento técnico e científico na prática clínica, promovendo maior segurança nos procedimentos e melhor qualidade na assistência ao paciente. Assim, este estudo reafirma a importância da abordagem responsável na realização de procedimentos estéticos.
2. METODOLOGIA
Esta pesquisa caracteriza-se como explicativa, com o objetivo de compreender e detalhar as complicações decorrentes do uso de ácido hialurônico em preenchimentos faciais. Para isso, será feita uma revisão da literatura em bases científicas como PubMed, Scielo, e Google Acadêmico, buscando artigos publicados entre 2014 e 2024. As palavras-chave usadas serão em português, inglês, incluindo termos como ácido hialurônico, preenchimento facial, complicações, e estética facial. Serão incluídos estudos originais, revisões narrativas, relatos de caso e revisões integrativas que relatem casos clínicos reais.
Para complementar a revisão de literatura, a análise dos dados seguirá uma abordagem com métodos qualitativos. Tal aspecto oferecerá uma melhor interpretação dos dados obtidos em relatos de caso e revisões narrativas, com a finalidade de identificar padrões de complicações, possíveis causas, condutas adotadas e desfechos clínicos. Essa metodologia visa aprofundar a compreensão sobre os riscos associados ao uso do ácido hialurônico em preenchimentos faciais, oferecendo suporte para a prática clínica segura e fundamentada em comprovações científicas.
A pesquisa não apresenta a coleta de dados primários e realização de estudos clínicos próprios, utilizando apenas a análise de fontes já existentes. A seleção dos estudos seguirá critérios previamente estabelecidos, priorizando publicações com precisão metodológica, relevância clínica e dados bem documentados.
3. REVISÂO DE LITERATURA
3.1 Anatomia Facial: Áreas de Uso e Risco do Ácido Hialurônico
A face constitui um elemento essencial da identidade e do bem-estar do indivíduo. É por meio dela que se estabelecem o reconhecimento e a diferenciação interpessoal, tal qual a singularidade presente nas impressões digitais e nas arcadas dentárias. Portanto, qualquer procedimento realizado nessa região pode exercer impactos significativos sobre um dos principais fatores relacionados à identidade pessoal.6
Nesse contexto, reconhecer, identificar e detalhar cada componente da anatomia facial é de extrema importância para a execução segura dos procedimentos, visto que a face contém estruturas delicadas, cujos danos potenciais podem resultar em sequelas permanentes.6
Para padronização, Tamura (2013) classifica a face em 22 regiões anatômicas nas quais podem ser realizados procedimentos injetáveis, sendo elas: frontal, temporal, glabelar, superciliar, pálpebra superior, pálpebra inferior, nasociliar, sulco nasojugal, sulco palpebral lateral, nasal, malar, zigomática, fossa canina, sulco nasolabial, lábio superior, lábio inferior, bochecha, pré- auricular, sulco labiomentual, mentual, região mandibular posterior e região mandibular anterior.6
Segundo Scheuer (2022), a face, assim como todo o corpo, é dividida em territórios vasculares denominados angiossomas. Esses territórios correspondem a áreas da pele e dos tecidos subjacentes que são nutridos por uma única artéria principal, chamada artéria fonte. Os angiossomas não funcionam de forma isolada, pois se conectam entre si por meio de vasos anastomóticos, que formam uma rede contínua entre os diferentes territórios anatômicos. Essa conexão é denominada anastomose. As anastomoses podem ser classificadas em dois tipos: verdadeiras e de estrangulamento. As verdadeiras são compostas por vasos de alta pressão, com fluxo constante e permeabilidade contínua, enquanto as de estrangulamento são constituídas por vasos de baixa pressão, que podem colapsar para evitar a passagem de substâncias nocivas entre os territórios vasculares.6, 7
Quando um preenchedor é acidentalmente injetado dentro de uma dessas artérias, o material provoca espasmo (contração) dos vasos anastomóticos que circundam o angiossoma, como um mecanismo de contenção da substância dentro daquele território vascular, impedindo sua disseminação. Essas contrações ocorrem principalmente nos angiossomas com anastomoses de estrangulamento, ou seja, quando as artérias anastomóticas apresentam calibre reduzido. 6, 7
O planejamento seguro de procedimentos, como o preenchimento facial com ácido hialurônico, exige o conhecimento aprofundado da anatomia vascular da face. É fundamental que as áreas de injeção de preenchedores sejam avaliadas com base no seu nível de risco e não classificadas como zonas “seguras”, visto que não há total ausência de risco ao se ultrapassar a barreira cutânea. Desse modo, o profissional deve considerar o potencial de complicações associado a cada região anatômica antes da aplicação. Nesse sentido, Murray (2021) propõe uma divisão da face em zonas de baixo, moderado, alto e muito alto risco, o que é um recurso valioso para a visualização de áreas críticas e para a adoção de técnicas preventivas apropriadas. 6,7
3.2 Procedimentos invasivos e não invasivos
Os procedimentos estéticos abrangem uma ampla gama de aplicações, que vão além da melhoria da aparência física, mas também incluindo o tratamento de condições de saúde, como lesões, cicatrizes, queimaduras e certas dermatoses. Esses procedimentos são classicamente divididos em duas categorias principais: não invasivos e invasivos.6, 8
Os procedimentos não invasivos são aqueles que não demandam incisões na pele ou em outros tecidos. Entre eles, destacam-se a radiofrequência, utilizada no combate à flacidez e às rugas; o laser, empregado na remoção de manchas e cicatrizes; e os peelings, que visam aprimorar a textura e a tonalidade da pele.6, 8
Em contrapartida, os procedimentos invasivos não cirúrgicos envolvem o rompimento da barreira cutânea por meio de punção e têm como finalidade o aprimoramento da aparência da pele, a redução de rugas e linhas de expressão, além da volumização de áreas específicas, segundo Hedén (2020). Entre os mais proeminentes, destacam-se: A aplicação de toxina botulínica, que atua no relaxamento dos músculos responsáveis pelas rugas; o microagulhamento, destinado a estimular a produção de colágeno; e o uso de fios de sustentação de polidioxanona (PDO), empregados no rejuvenescimento facial e no combate à flacidez. 6, 8
Dentro da categoria dos injetáveis, os preenchedores cutâneos, como o ácido hialurônico (AH), são amplamente utilizados em clínicas de estética. Esses preenchedores variam quanto à composição e à durabilidade dos efeitos. Os principais tipos utilizados incluem colágeno, ácido hialurônico, ácido polilático (PLLA) e hidroxiapatita de cálcio.6, 8
3.3 Ácido Hialurônico e sua função como preenchedor
O ácido hialurônico (AH) é uma substância natural, um polissacarídeo encontrado no organismo humano, cuja descoberta ocorreu por dois cientistas (Meyer e Palmer) que, em 1934, isolaram o ácido pela primeira vez a partir de olhos de bovinos. É uma molécula altamente hidrofílica (higroscópica), capaz de reter grandes quantidades de água. O AH encontra-se amplamente distribuído na matriz extracelular (MEC) de diversos tecidos, como pele, cartilagens, líquido sinovial e líquido vítreo, desempenhando papel essencial na manutenção da hidratação, elasticidade e proteção contra danos externos. Com o processo de envelhecimento, entretanto, a concentração de AH no organismo diminui, contribuindo diretamente para o surgimento de rugas e a perda de volume facial. 6, 8
Na estética facial, o AH sintético, produzido por fermentação bacteriana, é utilizado como preenchedor dérmico injetável, com o objetivo de restaurar o equilíbrio hídrico da pele, suavizar linhas de expressão, reduzir rugas, melhorar a elasticidade e realçar o volume facial. Os preenchedores diferem quanto à composição e grau de reticulação, que determina densidade e indicação de aplicação. Para aplicação, podem ser utilizadas agulhas ou cânulas, sendo as cânulas menos dolorosas e apresentando menor risco de danos vasculares e hematomas. A escolha da técnica adequada, de um produto de qualidade, o planejamento do tratamento e o conhecimento anatômico do profissional são cruciais para minimizar intercorrências e garantir a segurança do paciente. 6, 8
3.4 Diferenciações entre ácido hialurônico reticulado e não reticulado
O ácido hialurônico é uma substância que possui alta capacidade de retenção de água e propriedades biocompatíveis. Ele pode ser submetido a um processo denominado reticulação (ou crosslinking), que consiste na criação de ligações entre cadeias poliméricas para formar uma estrutura tridimensional mais forte e estável. Resultando em duas formas principais de uso: reticulado ou não reticulado. 9
Começando pelo reticulado, ele passa por um processo químico (reticulação ou crosslinking), no qual suas cadeias são ligadas entre si por agentes reticulantes, como o BDDE, possuindo uma estrutura de malha cruzada de moléculas. Esse processo gera uma maior estabilidade ao gel, assim aumentando significativamente sua resistência à degradação enzimática e gerando uma durabilidade maior nos tecidos. O grau de reticulação varia de acordo com o produto, influenciando diretamente na densidade, coesividade e elasticidade. Logo, o ácido hialurônico reticulado é utilizado principalmente como preenchedor para restaurar volumes perdidos, redefinir contornos faciais e corrigir assimetrias, sendo injetado em planos mais profundos da pele, permanecendo no local de forma mais estável, promovendo estrutura e suporte. Além disso, por mais que seja mais denso, ainda assim possui capacidade de hidratação, o que proporciona uma melhora da qualidade da pele.6, 9
Já o não reticulado, ele é composto por cadeias lineares livres sem modificação assim sendo altamente biocompatível. Por não possuir ligações cruzadas entre suas moléculas, é facilmente degradado pelas enzimas hialuronidases presentes no próprio organismo ocasionando em uma baixa permanência após a aplicação. Essa forma de uso é ideal para tratamentos que possuem o objetivo de hidratar e bioestimular a pele assim como os skinboosters. Pois ao ser injetado em camadas mais superficiais promove uma hidratação intradérmica potente, estimulando também a produção de colágeno e melhorando a densidade dérmica, sem promover volume ou qualquer tipo de preenchimento aparente. É muito utilizado também em formulações tópicas, ainda que sua penetração seja limitada às camadas mais superficiais da epiderme. 9
Entretanto, ambos os tipos de uso são considerados seguros, pois se assemelham muito à substância naturalmente produzida pelo corpo. Contudo, o processo de reticulação pode em alguns casos gerar resíduos que em raras situações, desencadeiam reações inflamatórias ou formação de nódulos. Por isso é fundamental que seja utilizado técnicas seguras e produtos com alta pureza. 9
3.5 Técnicas de aplicação do Ácido Hialurônico: Cânula e Agulha
A aplicação do ácido hialurônico pode ser realizada por meio de cânulas ou agulhas, por mais que os preenchimentos faciais sejam procedimentos estéticos minimamente invasivos, para realizá-los de forma eficaz e segura é de extrema importância saber como e quando usar. Além disso, a seleção do método mais apropriado contribui para uma melhor experiência do paciente, por meio de técnicas menos dolorosas e com menor risco de complicações. 10
Quando realizado com as agulhas tradicionais é necessário considerar que embora entregue resultados satisfatórios apresenta limitações relevantes, como suas pontas cortantes que quando introduzidas podem danificar a parede de vasos sanguíneos, gerando hematomas e risco de injeção intravascular.10
Já as cânulas são semelhantes às agulhas, porém possuem ponta romba e abertura lateral, com variações finas e flexíveis. Sua flexibilidade favorece uma distribuição mais uniforme do material preenchedor, além de proporcionar melhor adaptação nos diferentes contornos da anatomia facial. Contudo, sua ponta romba aliada à maior flexibilidade permitem que a agulha deslize sob a derme, reduzindo o trauma tecidual durante a aplicação. 9, 10
Fulton e colaboradores realizaram estudo comparativo entre a utilização de agulhas hipodérmicas e microcânulas para realização de preenchimentos dérmicos, concluindo que o uso das microcânulas de ponta romba simplificou as injeções de preenchimento e produziu menos hematomas, equimoses e dor com recuperação mais rápida. 10
3.6 Classificação e características das Intercorrências
As complicações do preenchimento podem ser classificadas como isquêmicas e não isquêmicas de gravidade leve, moderada e grave. Quanto ao tempo de surgimento, essas complicações podem apresentar início imediato que surgem até 24 horas após o procedimento, início precoce que surgem dentro de 24 horas até 4 semanas e início tardio que surgem após 4 semanas. Logo, as reações não isquêmicas consistem em complicações que não envolvem oclusão vascular. De início imediato e precoce podem apresentar dor, equimose, eritema, edema e efeito Tyndall. Já as de início tardio granuloma, abscesso, herpes, nódulo e biofilme. 7
Já as isquêmicas são caracterizadas pela oclusão vascular ou seja, interrupção do fluxo sanguíneo, causando isquemia (falta de oxigenação dos tecidos). De início imediato e precoce há o comprometimento vascular e de início tardio hematomas, edema, angioedema, descoloração da pele, nódulos inflamatórios, granuloma de corpo estranho e necrose tecidual. Os principais sinais são: branqueamento, dor, manchas, formação de bolhas, descoloração azulada e posteriormente necrose do tecido. Porém nem todos os sinais obrigatoriamente estarão presentes, o branqueamento e a dor por exemplo podem ser transitórios e despercebidos. Além disso manchas na área de uma distribuição vascular maior do que a área injetada é um indício de que está ocorrendo isquemia vascular. A necrose pode ocorrer devido a interrupção do suprimento vascular proveniente da compressão ou oclusão por injeção direta do material no próprio vaso. 7
As contraindicações para o uso de ácido hialurônico incluem hipersensibilidade a qualquer um dos componentes da formulação do produto, problemas de sangramento e injeção em locais diferentes dos locais recomendados pela rotulagem e além disso não é recomendado para os indivíduos que são alérgicos a produtos avícolas, incluindo frango, ovos e aves. 7
3.6.1 Hematoma
Quando o ácido hialurônico é injetado, as agulhas e/ou cânulas utilizadas podem perfurar pequenos vasos sanguíneos localizados na área inserida. Essa perfuração pode causar um pequeno sangramento local, levando ao acúmulo de sangue e consequentemente formando hematoma.12
Gutmann e Dutra afirmam que a injeção utilizada de forma descuidada em vasos sanguíneos ou a compressão e consequente ruptura desses vasos pode levar a complicações. Quanto mais profundo for o vaso atingido, maior é o risco de ocorrer um sangramento significativo. Logo os hematomas podem variar em tamanho, desde pequenos pontos até áreas mais extensas dependendo da profundidade e intensidade da perfuração. Além disso a coloração da área afetada muda com o tempo e obtém diferentes tonalidades durante o processo como roxo, azul, verde e amarelo, à medida que o sangue é reabsorvido pelo organismo, um processo que leva em torno de 7 a 10 dias. 9
3.6.2 Edema e eritema
São efeitos na maioria dos casos imediatos que ocorrem devido à inflamação local resultante da lesão tecidual causada naquela área, e à propriedade hidrofílica do produto. Sua regressão ocorre em poucas horas ou, no máximo, após um ou dois dias. Podem intensificar esses efeitos colaterais a realização de múltiplas injeções, o uso de materiais mais espessos e a aplicação com técnica inadequada. Entretanto o uso de anestésicos com epinefrina, compressa fria e um número menor de punções eventualmente minimizam ou evitamo surgimento desse efeito colateral. 12, 13
3.6.3 ETIP
Edema Tardio Intermitente Persistente (ETIP) é uma reação inflamatória que pode ocorrer meses após a aplicação de ácido hialurônico, geralmente acompanhada por edema que surge tardiamente com manifestações intermitentes e persistentes. Essa condição pode ser desencadeada por diversos fatores, como traumas locais, infecções (sistêmicas ou locais), tratamentos dentários ou até uso de certas medicações. A presença de uma infecção associada à baixa imunidade, por exemplo, pode favorecer o surgimento dessa reação. Entende-se que a ETIP é uma reação própria do organismo pelos anticorpos que tentam defender de alguma infecção, e deste modo atacam os preenchedores através de reações cruzadas imunomediada. 14
3.6.4 Nódulos
São formações visíveis e palpáveis provenientes de uma má administração da técnica ao posicionar o produto, como a aplicação do material preenchedor de forma superficial e o acúmulo de produto em determinada área.11
Essas condições podem desencadear uma reação inflamatória ou favorecer a formação de biofilme, que consiste em uma estrutura de bactérias que se aderem ao ácido hialurônico e ficam “encapsuladas”, dificultando a detecção e resposta do sistema imunológico. Dessa forma, é necessário o uso da hialuronidase para reverter o quadro.9
3.6.5 Efeito Tyndall
Trata-se de uma coloração azulada ou acinzentada que pode surgir na pele, especialmente em regiões onde a pele é mais fina, como resultado da aplicação superficial do produto. Esse fenômeno ocorre por causa da dispersão da luz no ácido hialurônico onde a luz incide sobre a área, atravessando as camadas superficiais e interagindo com o gel que é transparente. 9, 11
3.6.6 Infecção
As infecções relacionadas ao uso de ácido hialurônico ocorrem quando micro-organismos, principalmente bactérias, contaminam o local da aplicação e desencadeiam uma resposta inflamatória no organismo, provenientes de produto contaminado ou técnica inadequada de assepsia.11
Por conseguinte envolve a interação entre o agente infeccioso (podendo ser bactérias ou vírus), o material injetado e a resposta do sistema imunológico. Além de que a formação de biofilmes torna essas infecções mais difíceis de detectar e tratar, exigindo cuidados rigorosos na técnica utilizada e no acompanhamento do paciente após realizar o procedimento. 9
3.6.7 Granuloma
São nódulos firmes, indolores e palpáveis que podem surgir ao longo do trajeto onde o ácido hialurônico foi aplicado. Eles representam uma complicação rara, com incidência descrita na literatura entre 0,01% e 1% dos casos.11
Caracteriza-se como uma resposta imunológica tardia do organismo, que forma uma estrutura inflamatória crônica ao redor do material, podendo surgir em até 2 anos após o procedimento. 12
3.6.8 Necrose
A necrose da pele ocorre devido a oclusão vascular proveniente da injeção intravascular de ácido hialurônico ou do aumento de pressão externa exercido pelo volume da substância preenchedora, impedindo o fluxo sanguíneo e comprometendo a nutrição do tecido.9
Entretanto, a pele ficará esbranquiçada ao decorrer do tempo e possivelmente apresentará sinais de dor, em seguida ocorre o processo de mudança da coloração tornando-se avermelhada, cinza-azulada e posteriormente resultando na morte do tecido. 11
3.7 O papel do ultrassom e da hialuronidase na prevenção e correção das complicações
3.7.1 Ultrassom
A Resolução CFO nº 198/2019 reconhece e oficializa a harmonização orofacial como especialidade odontológica, autorizando o cirurgião-dentista a realizar procedimentos com preenchedores faciais e a utilizar tecnologias associadas, como a ultrassonografia, desde que cumpram critérios técnicos e científicos que garantam a segurança das intervenções.15
Diante do crescimento da procura por procedimentos estéticos por cirurgiões-dentistas e da responsabilidade técnica associada, é essencial compreender a importância do ultrassom como método preventivo. 16
A ultrassonografia proporciona um mapeamento anatômico detalhado por meio de ondas sonoras de alta frequência, viabilizando a visualização precisa das estruturas anatômicas em tempo real, o que é crucial para evitar complicações.18
O aparelho de ultrassom é composto por um processador e uma sonda que emite ondas sonoras que penetram nos tecidos, enfraquecendo-se progressivamente à medida que se dissipam. O sistema Doppler, acoplado ao ultrassom e denominado duplex, permite visualizar o fluxo sanguíneo em tempo real, com modos básicos como o modo B (escala de cinza) e Doppler colorido (fluxo sanguíneo evidenciado em azul e vermelho), amplamente utilizados na área estética. 17
Essa técnica possibilita a distinção clara entre tecidos como pele, músculos, vasos sanguíneos e nervos, além da identificação de corpos estranhos e substâncias preenchedoras previamente aplicadas, o que ajuda no planejamento e na execução precisa dos tratamentos. A ultrassonografia ainda permite identificar o tipo de material utilizado e sua localização, mesmo quando o paciente não lembra, pois cada preenchedor apresenta características específicas visíveis ao exame.17
Além de prevenir riscos, o ultrassom permite que a aplicação do ácido hialurônico seja feita com maior precisão, evitando áreas nobres e sensíveis, e fornece suporte na resolução de eventuais erros e complicações. Regiões como nasal, temporal, glabela, lábios, sulcos nasolabiais e região infraorbital são exemplos que demandam cuidado especial durante os procedimentos.18
3.7.2 Hialuronidase
A hialuronidase, enzima eficaz na degradação do ácido hialurônico, desempenha papel fundamental no manejo das complicações clínicas, especialmente vasculares. Embora produzida naturalmente pelo organismo, pode ser obtida de fontes animais e é usada para tratar efeitos adversos causados por preenchedores dérmicos.19
Aprovada pelo Food and Drug Administration (FDA) em 2005, a hialuronidase possui indicações clínicas específicas. É recomendada como adjuvante para otimizar a absorção e dispersão de anestésicos locais em cirurgias oftalmológicas; como auxiliar na administração de medicamentos por via subcutânea em casos de desidratação leve a moderada, especialmente em idosos; e para favorecer a reabsorção de agentes radiopacos utilizados em procedimentos urológicos em crianças e adultos jovens 19
Apesar dessas indicações formais, a hialuronidase tem sido amplamente empregada off label em procedimentos estéticos e de harmonização orofacial, sobretudo no tratamento de complicações associadas ao uso de preenchedores à base de ácido hialurônico. Nessa área, é considerada o padrão ouro para o manejo de eventos adversos como nódulos, efeito Tyndall, assimetrias e até complicações vasculares Por se tratar de um uso fora das indicações aprovadas, é fundamental que o profissional informe o paciente sobre essa condição e obtenha consentimento formal, por meio da assinatura de um termo específico 19, 20
A aplicação é simples, mas exige cuidado: assepsia rigorosa, preparo imediato da solução na concentração adequada para evitar alterações na viscosidade e monitoramento pós-aplicação. A enzima tem efeito imediato, que pode durar até 48 horas, e sua difusão depende da concentração aplicada.19
Os efeitos colaterais relacionados à aplicação de hialuronidase são raros, normalmente leves e autolimitados, ocorrendo principalmente no local da aplicação. Para minimizar riscos, recomenda-se a realização prévia de teste intradérmico para detecção de possíveis quadros de hipersensibilidade.19
4. DISCUSSÃO
O preenchimento facial com ácido hialurônico é hoje um dos procedimentos estéticos minimamente invasivos mais populares, valorizado por oferecer resultados naturais e rejuvenescimento. No entanto, seu uso inadequado pode provocar desde reações leves até complicações graves, como necrose e até perda da visão¹,². Isso ressalta a importância de um conhecimento técnico aprofundado, domínio da anatomia facial, habilidades específicas e capacidade de agir rapidamente diante de intercorrências.
A literatura destaca que o conhecimento detalhado da anatomia facial, especialmente dos vasos e suas anastomoses, é essencial para prevenir complicações vasculares⁶,⁷. Como não existem áreas totalmente seguras, cada ponto de aplicação deve ser avaliado conforme seu risco⁷.
As técnicas de aplicação, seja com agulhas ou cânulas, impactam diretamente a segurança do procedimento. O uso das cânulas tende a reduzir traumas, e é preferível em regiões de maior risco vascular¹⁰. Ainda assim, o respeito aos planos anatômicos e técnicas assépticas é imprescindível independentemente do instrumento utilizado.
Entre as complicações imediatas mais comuns estão hematomas, inchaços e vermelhidão, que geralmente desaparecem sozinhos e decorrem do trauma da injeção¹²,¹³. As complicações tardias incluem nódulos, efeito Tyndall, granulomas e edema intermitente persistente, relacionadas a fatores técnicos, imunológicos e à qualidade do produto⁹,¹¹,¹⁴. A ocorrência de infecções e biofilmes reforça a necessidade de protocolos rigorosos de assepsia e o uso exclusivo de produtos aprovados⁹,¹¹.
A necrose tecidual é uma das complicações mais graves, causada por injeção acidental em vasos ou compressão vascular⁹,¹¹. O diagnóstico rápido é crucial, e o tratamento com hialuronidase é o padrão para reverter essas obstruções, restabelecendo o fluxo sanguíneo e prevenindo danos permanentes¹⁹,²⁰.
Um avanço importante é a utilização do ultrassom, que permite visualizar em tempo real a anatomia vascular, guiando aplicações precisas e reduzindo riscos¹⁵, ¹⁸.
Por fim, ressalta-se a importância da qualificação profissional e da adesão a protocolos clínicos rígidos para assegurar segurança e eficácia. A contínua atualização científica permite reconhecer sinais precoces de complicações e responder rapidamente, minimizando danos e otimizando resultados⁵.
5. CONCLUSÃO
A harmonização facial com AH constitui um marco nas práticas estéticas minimamente invasivas. Contudo, o procedimento exige domínio técnico, anatômico e científico para garantir segurança, visto que as complicações podem variar desde reações leves à eventos graves.
Identificar e tratar bem as complicações, com técnicas como cânulas e ultrassom, ajuda a prevenir sequelas e manter os resultados seguros. A literatura também destaca o papel essencial da hialuronidase no tratamento de complicações vasculares e estruturais. Por isso, a constante atualização dos profissionais é essencial para uma prática responsável. Conclui-se, portanto, que o uso do ácido hialurônico é seguro e eficaz quando realizado com técnica, ética e conhecimento.
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