COMPARAÇÃO DO USO DO HIPOCLORITO DE SÓDIO E DA CLOREXIDINA COMO SOLUÇÃO IRRIGADORA NO TRATAMENTO ENDODÔNTICO

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202511222002


Nicolly Kamilly Ferreira de Souza Carneiro
Lucas Vinícius Santos Souza


Resumo 

O processo de limpeza e desinfecção do sistema de canais radiculares é uma etapa crucial para o sucesso do tratamento endodôntico. Este trabalho, por meio de uma revisão bibliográfica qualitativa, objetiva comparar as propriedades, eficácia e aplicações clínicas de duas soluções irrigadoras fundamentais: o hipoclorito de sódio (NaOCl) e a clorexidina (CHX). O NaOCl destaca-se por sua potente ação antimicrobiana de amplo espectro e capacidade única de dissolver tecido orgânico necrótico. Por outro lado, a CHX apresenta notória substantividade, conferindo efeito residual prolongado, sendo particularmente eficaz contra microrganismos persistentes como o Enterococcus faecalis. Conclui-se que a escolha entre os irrigantes não é mutuamente exclusiva, devendo ser baseada nas particularidades de cada caso clínico. A associação de ambos os agentes, respeitando um protocolo de irrigação intermediária para evitar a formação de precipitados tóxicos, surge como uma estratégia promissora para potencializar a desinfecção do sistema de canais radiculares.

Palavras-chave: Endodontia; Hipoclorito de Sódio; Clorexidina.

Abstract 

The cleaning and disinfection process of the root canal system is a crucial step for the success of endodontic treatment. This work, through a qualitative bibliographic review, aims to compare the properties, efficacy, and clinical applications of two fundamental irrigating solutions: sodium hypochlorite (NaOCl) and chlorhexidine (CHX). NaOCl stands out for its potent broad-spectrum antimicrobial action and unique ability to dissolve necrotic organic tissue. On the other hand, CHX has notable substantivity, providing a prolonged residual effect, and is particularly effective against persistent microorganisms such as Enterococcus faecalis. It is concluded that the choice between irrigants is not mutually exclusive and should be based on the particularities of each clinical case. The association of both agents, while respecting an intermediate irrigation protocol to avoid the formation of toxic precipitates, emerges as a promising strategy to enhance the disinfection of the root canal system.

Keywords: Endodontics; Sodium Hypochlorite; Chlorhexidine.

Resumen 

El proceso de limpieza y desinfección del sistema de conductos radiculares es una etapa crucial para el éxito del tratamiento endodóntico. Este trabajo, por medio de una revisión bibliográfica cualitativa, tiene como objetivo comparar las propiedades, eficacia y aplicaciones clínicas de dos soluciones de irrigación fundamentales: el hipoclorito de sodio (NaOCl) y la clorhexidina (CHX). El NaOCl se destaca por su potente acción antimicrobiana de amplio espectro y su capacidad única para disolver tejido orgánico necrótico. Por otro lado, la CHX presenta una notable substantividad, lo que confiere un efecto residual prolongado, siendo particularmente eficaz contra microorganismos persistentes como el Enterococcus faecalis. Se concluye que la elección entre los irrigantes no es mutuamente excluyente y debe basarse en las particularidades de cada caso clínico. La asociación de ambos agentes, respetando un protocolo de irrigación intermedia para evitar la formación de precipitados tóxicos, surge como una estrategia prometedora para potenciar la desinfección del sistema de conductos radiculares.

Palabras clave: Endodoncia; Hipoclorito de Sodio; Clorhexidina.

1. Introdução 

O processo de limpeza química e mecânica do sistema de canais de cunho radiculares no decorrer do processo de tratamento caracterizado como endodôntico tem sido realizado de forma ampla e de forma enfática nas últimas décadas (LIOLIOS et al.,1997, ESTRELA et al., 2003).

Tal procedimento visa a completa remoção de tecidos necróticos, microrganismos e detritos presentes no interior do sistema de canais radiculares, elementos estes que, se não eliminados de maneira eficaz, podem comprometer o sucesso do tratamento endodôntico. A complexidade anatômica dos canais, com suas variações morfológicas, exige a utilização de instrumentos adequados e soluções irrigadoras com propriedades antimicrobianas e dissolventes de matéria orgânica, a fim de potencializar os resultados da desinfecção (SIQUEIRA et al., 2002).

Além disso, o avanço nas tecnologias endodônticas contribuiu significativamente para a otimização do processo de limpeza e modelagem dos canais. O uso de sistemas rotatórios e reciprocantes, aliados à irrigação ultrassônica passiva, representa uma evolução nas práticas clínicas, promovendo maior eficiência na remoção do biofilme bacteriano. Tais inovações, somadas ao conhecimento científico em constante atualização, reforçam a importância de uma abordagem criteriosa e baseada em evidências para garantir o sucesso do tratamento endodôntico a longo prazo. (SIQUEIRA et al., 2002).

Qual a melhor técnica, seria a utilização do hipoclorito de sódio ou clorexidina como solução irrigadora no tratamento endodôntico? Quando usar clorexidina e porque no tratamento endodôntico. Quando usar hipoclorito de sódio e porque no tratamento endodôntico.

2. Metodologia 

O presente trabalho será desenvolvido por meio de uma revisão bibliográfica de caráter qualitativo, com o objetivo de reunir, analisar e discutir estudos já publicados que abordem a utilização do hipoclorito de sódio e da clorexidina como soluções irrigadoras no tratamento endodôntico. A escolha pela revisão bibliográfica justifica-se pela necessidade de compreender, a partir do conhecimento científico consolidado, as principais vantagens, limitações e diferenças entre essas substâncias, sem a realização de experimentação direta.

A coleta de dados será realizada por meio da pesquisa de artigos científicos, livros, dissertações e teses disponíveis em bases de dados acadêmicas como SciELO, PubMed, Google Acadêmico, LILACS e BDTD. Serão selecionados materiais publicados nos últimos 20 anos, priorizando estudos que apresentem abordagens comparativas e análises microbiológicas ou clínicas sobre o uso do hipoclorito de sódio e da clorexidina em endodontia.

Os critérios de inclusão abrangerão publicações em português, inglês e espanhol, com foco na área de odontologia, especialmente na endodontia. Serão excluídos trabalhos que não apresentem dados relevantes para o tema ou que não possuam fundamentação científica adequada. Após a seleção do material, será realizada uma análise crítica do conteúdo, visando estabelecer um panorama comparativo entre as duas soluções irrigadoras, considerando seus aspectos clínicos, microbiológicos e toxicológicos.

3. Resultados e Discussão 

A irrigação do sistema de canais radiculares é uma etapa fundamental no tratamento endodôntico, sendo essencial para a eliminação de microrganismos, detritos necróticos e toxinas que podem comprometer a saúde periapical. Entre as substâncias mais utilizadas como soluções irrigadoras estão o hipoclorito de sódio (NaOCl) e a clorexidina (CHX), ambas amplamente estudadas quanto à sua eficácia antimicrobiana e propriedades físico-químicas (VIANNA; GOMES, 2005).

Percebe que a relevância clínica, científica e acadêmica no campo da Endodontia. A desinfecção do sistema de canais radiculares é uma etapa crucial para o sucesso do tratamento endodôntico, e a seleção da solução irrigadora adequada impacta diretamente na eliminação de microrganismos, na dissolução de tecidos necróticos e na prevenção de infecções persistentes. Este estudo visa fornecer uma análise crítica baseada em evidências científicas, auxiliando cirurgiões-dentistas na escolha da solução irrigadora mais adequada para cada caso clínico. Além disso, pode:

Orientar protocolos de desinfecção em pacientes com hipersensibilidade ao NaOCl; Sugerir o uso combinado de ambas as substâncias para potencializar a desinfecção; Discutir novas tendências, como a associação de irrigantes com terapia fotodinâmica ou ultrassom

O tratamento endodôntico vem evoluindo em técnicas, instrumentais e protocolos, facilitando o trabalho do cirurgião dentista e diminuindo o tempo clínico, assim beneficiando o profissional e o paciente, porém o hipoclorito de sódio e a clorexidina se mantém até hoje como base de soluções irrigadoras mesmo com a evolução. (ROJAS et al., 2004).

A endodontia surgiu em meados do século XIX, com uso de soluções irrigadoras, sendo o hipoclorito de sódio usando até hoje já que o mesmo apresenta excelentes resultados, porém surgiu por volta dos anos de 1959 o uso da clorexidina na odontologia, apresentando bons resultados clínicos com ação antimicrobiana (SIQUEIRA; LOPES, 1999).

O tratamento endodôntico é sem sombra de dúvidas necessário em alguns pacientes e por esta razão é importante conhecer as técnicas irrigadores utilizadas no processo, já que pacientes podem reagir de forma diferente em cada situação, e o profissional deve estar atento a esses fatores.

O hipoclorito de sódio, tradicionalmente utilizado na concentração entre 0,5% e 5,25%, é reconhecido por sua capacidade de dissolver matéria orgânica e por sua potente ação antimicrobiana. Essa solução tem a vantagem de agir diretamente sobre os tecidos necróticos e o biofilme bacteriano, tornando-se eficaz contra uma ampla gama de microrganismos encontrados no interior dos canais radiculares (ESTRELA et al., 2002).

Entretanto, apesar de sua eficácia, o hipoclorito de sódio apresenta desvantagens importantes, como o potencial citotóxico quando extravasado para os tecidos periapicais, além de um odor desagradável e possibilidade de causar reações adversas nos tecidos moles. Por isso, o seu uso requer cautela por parte do profissional e técnicas que minimizem riscos durante o procedimento (SPANGBERG; ENGSTRÖM; LAVAL, 1973).. 

Por outro lado, a clorexidina, normalmente utilizada em concentrações de 0,2% a 2%, apresenta excelente ação antimicrobiana, especialmente contra microrganismos Gram-positivos, incluindo o Enterococcus faecalis, frequentemente relacionado a casos de insucesso endodôntico Sua propriedade de substantividade — a capacidade de se adsorver aos tecidos dentinários e manter efeito residual — é uma vantagem clínica importante. (GOMES et al., 2001).

Contudo, a clorexidina não possui capacidade de dissolver matéria orgânica, o que limita sua aplicação como solução irrigadora única. Por isso, alguns autores sugerem seu uso em associação com outras substâncias ou como irrigação final, após a utilização de hipoclorito de sódio. Essa estratégia permite combinar o poder dissolvente do NaOCl com a substantividade da CHX. (FAGUNDES et al., 2010).

Diversos estudos comparativos têm buscado avaliar a eficácia antimicrobiana de ambas as soluções. Vianna e Gomes (2005) observaram que o hipoclorito de sódio apresenta ação mais rápida e abrangente, enquanto a clorexidina se mostrou mais eficaz contra microrganismos persistentes. Assim, a escolha da substância pode depender do perfil microbiano presente e da fase do tratamento.

Além disso, há discussões relevantes sobre a interação química entre o hipoclorito de sódio e a clorexidina. Quando essas duas substâncias são usadas em sequência, ocorre a formação de um precipitado marrom, chamado de paracloroanilina (PCA), potencialmente tóxico e que pode interferir na vedação do canal, por isso, recomenda-se a irrigação intermediária com solução salina ou EDTA antes da troca entre os irrigantes. (BASRANI et al., 2007).

A literatura atual também enfatiza a importância de protocolos de irrigação bem estruturados, com o uso de agitação ultrassônica ou sônica para potencializar a ação das soluções irrigadoras, independentemente da substância escolhida O sucesso do tratamento endodôntico depende não apenas da escolha da substância, mas também da técnica empregada na irrigação. (ROJAS et al., 2004).

Dessa forma, conclui-se que tanto o hipoclorito de sódio quanto a clorexidina apresentam vantagens e limitações no contexto do tratamento endodôntico. O conhecimento profundo sobre suas propriedades, indicações e interações é fundamental para que o cirurgião-dentista estabeleça o protocolo mais adequado a cada caso clínico, maximizando as chances de sucesso do tratamento (SIQUEIRA; LOPES, 1999).

Em suma, a escolha entre o NaOCl e a CHX deve ser baseada em uma avaliação criteriosa do caso clínico, considerando-se fatores como a presença de tecidos necróticos, o tipo de microrganismo predominante, o estágio do tratamento e a técnica de irrigação utilizada. A literatura sugere que a abordagem combinada ou sequencial pode ser mais eficaz do que o uso isolado de uma única substância (GOMES et al., 2001).

A análise da literatura evidencia que o debate NaOCl versus CHX não se resume a uma simples escolha binária, mas à compreensão de que cada agente possui um perfil distinto que pode ser aproveitado em diferentes momentos do tratamento. A superioridade do hipoclorito de sódio na dissolução da polpa vital ou necrótica é incontestável, um atributo crítico principalmente na fase inicial de instrumentação, quando a presença de debris orgânicos é maior. Esta capacidade, como destacado por Estrela et al. (2002), é fundamental para desorganizar o biofilme bacteriano e eliminar substratos essenciais para a sobrevivência microbiana.

Contudo, em casos de retratamento ou de infecções persistentes, onde microrganismos como o Enterococcus faecalis estão frequentemente envolvidos, a substantividade da clorexidina a torna um coadjuvante de enorme valor. Como observado por Gomes et al. (2001), a capacidade da CHX de se ligar às proteínas da dentina e ser liberada gradualmente, mantendo uma atividade antimicrobiana por dias após o procedimento, oferece uma barreira química contra a recolonização bacteriana, algo que o NaOCl, de ação rápida, mas sem efeito residual, não proporciona.

Esta complementaridade levou à proposta de protocolos sequenciais que buscam sinergia entre as propriedades de ambos os irrigantes. A estratégia sugerida por estudiosos como Vianna e Gomes (2005) envolve utilizar o NaOCl durante a fase ativa de preparo químico-mecânico do canal para aproveitar seu poder de dissolução e ação antibacteriana ampla, seguido por uma irrigação final com CHX 2% para conferir efeito residual prolongado. É imperativo, porém, como alerta Basrani et al. (2007), que entre a troca dessas soluções seja realizada uma irrigação abundante com EDTA ou soro fisiológico. E também o líquido de tiossulfato de sódio, mais conhecido por inibir a ação entre a troca das soluções. Esta etapa intermediária é crucial para evitar a neutralização química entre os agentes e a formação do precipitado de paracloroanilina (PCA), que pode manchar a dentina e potencialmente interferir na obturação.

Além da sequência de uso, a técnica de ativação do irrigante mostrou-se um fator tão determinante quanto a escolha da substância em si. Rojas et al. (2004) demonstraram que a agitação ultrassônica passiva potencializa significativamente a eficácia de ambos os irrigantes, permitindo que a solução alcance áreas de complexidade anatômica, como istmos, canais laterais e recessos, que seriam inatingíveis pela irrigação convencional com seringa. Isso sugere que um protocolo ideal não depende apenas do “o quê” usar, mas do “como” usar, integrando a escolha química do irrigante a uma técnica de aplicação mecanicamente avançada.

Portanto, a discussão transcende a pergunta “qual é melhor?” e avança para “quando e como usar cada um?”. Para a maioria dos casos clínicos de polpa necrótica sintomática, com presença de exsudato purulento e tecido orgânico abundante, o NaOCl mantém-se como irrigante de primeira escolha. Já a CHX mostra-se extremamente valiosa em situações específicas: como solução principal em pacientes com hipersensibilidade ao NaOCl; como irrigante final em retratamentos; ou como agente intracanal em medicações entre as sessões, especialmente em casos de apicificação. A tomada de decisão clínica, fundamentada no conhecimento dessas nuances, é o que normalmente garantirá a desinfecção eficaz e o sucesso a longo prazo do tratamento endodôntico.

A desinfecção tridimensional do sistema de canais radiculares permanece como o pilar central do sucesso em Endodontia. A complexidade anatômica, com a presença de canais laterais, istmos e deltas apicais, cria um nicho ideal para a persistência de microrganismos, tornando a irrigação química-mecânica uma etapa insubstituível. Entre o arsenal de soluções disponíveis, o hipoclorito de sódio (NaOCl) e a clorexidina (CHX) consolidaram-se como os irrigantes mais estudados e utilizados globalmente, gerando um debate contínuo sobre suas aplicações, vantagens e limitações (Siqueira & Rôças, 2008).

A relevância deste tema é inquestionável, pois a seleção e o protocolo de uso do irrigante impactam diretamente na eliminação do biofilme bacteriano, na dissolução de debris orgânicos e, consequentemente, na prevenção de infecções perirradiculares persistentes. Este estudo tem como objetivo realizar uma análise crítica e atualizada da literatura, contrastando as propriedades do NaOCl e da CHX, para embasar a tomada de decisão clínica de forma segura e eficaz.

O hipoclorito de sódio, um potente agente oxidante, é considerado o irrigante de escolha para a fase inicial de desorganização do biofilme e dissolução de tecidos necróticos. Sua eficácia é atribuída à sua alta capacidade de dissolução de matéria orgânica, ação antimicrobiana de amplo espectro e baixo custo (Zehnder, 2006). Estrela et al. (2002) demonstram que sua ação é concentração-dependente; soluções a 5,25% dissolvem tecido orgânico mais rapidamente, enquanto concentrações menores, como 1% ou 2,5%, mantêm uma ação antimicrobiana significativa com um perfil de segurança ligeiramente melhor.

O mecanismo de ação do NaOCl envolve a saponificação de ácidos graxos, neutralização de aminoácidos e reações de cloração, que culminam na degradação de proteínas e lípides (Häring & Wrbas, 2000). No entanto, sua notória citotoxicidade quando em contato com tecidos periapicais é uma grande desvantagem. Spångberg et al. (1973) foram pioneiros em alertar sobre os danos tissulares graves causados pelo extravasamento de NaOCl, incluindo necrose hemorrágica, destruição de células endoteliais e danos aos nervos. Além disso, ele enfraquece a estrutura dentinária ao reduzir sua micro dureza e flexibilidade (Grigoratos, Knowles, & Ng, 2001), e carece de efeito residual (substantividade), permitindo a possível recolonização bacteriana se o selamento coronário e apical não for eficaz (Mohammadi & Abbott, 2009).

A clorexidina, um bisbiguanida de ação antisséptica, emergiu como uma alternativa ou coadjuvante ao NaOCl, principalmente devido à sua excelente substantividade. Sua principal vantagem reside na capacidade de se ligar às proteínas da superfície dentinária e ser liberada lentamente, mantendo atividade antimicrobiana por dias ou mesmo semanas após o tratamento (Rosenthal et al., 2004). Gomes et al. (2001) comprovaram sua alta eficácia contra Enterococcus faecalis, um microrganismo frequentemente associado a falhas endodônticas, devido à sua capacidade de se adsorver à dentina e resistir a condições adversas.

Entretanto, a CHX apresenta uma limitação crítica: a incapacidade de dissolver tecido orgânico vital ou necrótico (Kuruvilla & Kamath, 1998). Isso a torna inadequada como irrigante único na fase de preparo químico-mecânico inicial, onde a presença de restos pulpares é abundante. Outra preocupação é a potencial formação de um precipitado, identificado como paracloroanilina (PCA), quando a CHX é colocada em contato direto com o NaOCl. Basrani et al. (2007) alertam que este precipitado, de coloração alaranjada, pode aderir às paredes dentinárias, manchar a estrutura dental e potencialmente interferir na vedação do canal. Para mitigar esse risco, é mandatória uma irrigação intermediária com solução de EDTA ou soro fisiológico e tiossulfato para remover completamente os resíduos de NaOCl antes da introdução da CHX (Krishnamurthy & Sudhakaran, 2010).

A comparação direta entre os dois irrigantes revela que não há um “vencedor” absoluto, mas agentes com indicações específicas. Vianna e Gomes (2005) observaram que o NaOCl possui uma ação antimicrobiana mais rápida e abrangente, enquanto a CHX apresenta maior eficácia contra cepas bacterianas específicas e persistentes. Dametto et al. (2005) corroboram essa visão, acrescentando que a eficácia clínica final é altamente influenciada pela técnica de ativação do irrigante.

Diante das propriedades complementares, a tendência moderna é adotar protocolos combinados ou sequenciais. Um protocolo amplamente difundido envolve o uso do NaOCl durante toda a instrumentação para aproveitar seu poder de dissolução e ação antibacteriana ampla, seguido por uma irrigação final com CHX a 2% para conferir o efeito residual desejado (Fagundes et al., 2010). Essa estratégia sinérgica busca maximizar os benefícios de ambos os agentes enquanto minimiza suas desvantagens.

Além da sequência química, a ativação mecânica do irrigante é um fator de extrema importância. A agitação ultrassônica passiva, conforme defendida por Rojas et al. (2004) e Gu et al. (2009), demonstrou aumentar significativamente a eficácia de penetração e ação de ambos os irrigantes, removendo o “biofilme de fumaça” (smear layer) e alcançando áreas de complexidade anatômica inacessíveis à irrigação convencional. Técnicas de irrigação sônica e a terapia fotodinâmica antimicrobiana (aPDT) também surgem como coadjuvantes promissores para potencializar a desinfecção (Bago et al., 2013; Garcez et al., 2010).

4. Considerações Finais

A partir da análise bibliográfica realizada, conclui-se que a busca pelo protocolo de irrigação ideal em endodontia não se baseia na eleição de um único agente químico superior, mas na compreensão das propriedades complementares do hipoclorito de sódio (NaOCl) e da clorexidina (CHX) e na sua aplicação estratégica. Ambas as soluções possuem papéis distintos e vitais no complexo processo de desinfecção do sistema de canais radiculares.

O hipoclorito de sódio mantém sua posição insubstituível como o irrigante padrão-ouro, graças à sua capacidade única de dissolver matéria orgânica e sua potente ação antimicrobiana de amplo espectro, sendo fundamental na fase inicial de remoção de tecidos necróticos e biofilme. Por outro lado, a clorexidina destaca-se como um adjuvante de grande valor, principalmente devido à sua substantividade, que confere um efeito residual prolongado, tornando-a particularmente eficaz contra infecções persistentes e em casos de retratamento.

A evidência atual aponta que o sinergismo entre essas substâncias, por meio de protocolos sequenciais bem delineados—respeitando a irrigação intermediária com EDTA ou soro fisiológico para evitar a formação de precipitados—representa a abordagem mais criteriosa e eficaz. Esta estratégia permite aproveitar os pontos fortes de cada solução, potencializando a desinfecção e criando um ambiente mais hostil à recolonização bacteriana.

Portanto, a decisão clínica deve ser guiada por uma avaliação individualizada, considerando fatores como a condição pulpar, a microbiota presente, a complexidade anatômica do canal e as particularidades do paciente. O domínio das propriedades de cada irrigante, somado à adoção de técnicas de ativação como a ultrassônica, constitui o pilar para um tratamento endodôntico de excelência, normalmente promovendo maior previsibilidade, sucesso e perenidade terapêutica.

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