NASAL COLONIZATION BY STAPHYLOCOCCUS AUREUS IN MEDICAL STUDENTS
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202510112216
Jefferson Fernando Firmino Gomes1
Ana Paula Saita2
Ana Cléria Gonçalves Yasui3
Caio Ferreira de Oliveira4
Resumo
Staphylococcus aureus (S. aureus) é considerado um membro persistente da microbiota endógena humana e tem sido historicamente associado a casos importantes e graves de infecção. Entre 20 e 30% da população é colonizada de forma permanente, mas assintomática, por S. aureus na cavidade nasal. Os estudantes da área da saúde desempenham um papel importante na epidemiologia e patogênese da infecção por S. aureus e podem atuar como fonte de disseminação tanto na comunidade quanto em ambientes hospitalares, e no transporte de bactérias de um desses ambientes para outro. Dessa forma, o trabalho teve por objetivo detectar a presença da bactéria Staphylococcus aureus da cavidade nasal de estudantes dos 6 anos do curso de medicina de uma instituição do interior do estado de São Paulo. Este trabalho teve início após a aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) sob Número do Parecer: 7.552.805. Foram convidados a participar alunos dos seis anos do Curso de Medicina, maiores de 18 anos, que leram e concordaram com o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Foram excluídos do estudo alunos que estivessem em uso de antimicrobiano, infecção do sistema respiratório e em tratamento de doenças imunológicas no momento da coleta. 234 aceitaram participar e tiveram a amostra nasal coletada. A maioria dos participantes é do sexo feminino (148; 63%) e 37% do sexo masculino (86 participantes). S. aureus foi encontrado na mucosa nasal de 55 estudantes (23,5%), sendo 27 do sexo masculino e 28 do sexo feminino, e estava presente em alunos dos seis anos do curso, embora mais prevalente nos primeiros quatro anos. Indivíduos colonizados por patógenos têm maior risco de infecção, mas também se tornam uma fonte de transmissão para outros membros da comunidade ou pacientes suscetíveis
Palavras-chave: MRSA. Microbiota nasal. Transmissão. Infecção Hospitalar.
1 INTRODUÇÃO
Staphylococcus aureus (S. aureus) é considerado um membro persistente da microbiota endógena humana e tem sido historicamente associado a casos importantes e graves de infecção. Entre 20 e 30% da população é colonizada de forma permanente, mas assintomática, por S. aureus na cavidade nasal, e outros 30% podem ser portadores de S. aureus de forma intermitente. Essa bactéria tem a capacidade de adquirir rapidamente resistência aos antimicrobianos. S. aureus resistente à meticilina (MRSA) é considerado um paradigma para infecções bacterianas, uma vez que está associado a altas taxas de morbidade e mortalidade (GEHRKE, GIAI e GÓMEZ, 2023).
A pele é considerada uma barreira física contra patógenos e agressões químicas frente as quais, eventualmente, possa ser exposta. A cavidade nasal, porta de entrada para potenciais patógenos e partículas alergênicas para os tratos respiratório superior (TRS) e inferior (TRI), apresentam diferentes tipos de superfícies que albergam distintas espécies de microrganismos, eucariontes e procariontes (SOBIESK e MUNAKOMI, 2023).
O átrio, região da cavidade nasal que mantém contato com o meio externo, é formado por epitélio escamoso queratinizado estratificado bem como glândulas sebáceas, responsáveis pela secreção de sebo, glândulas sudoríparas, secretora de suor, e glândulas apócrinas, secretora de lipídios e aminoácidos, além de vibrissas ou pelos (SCHERZAD, HAGEN, e HACKENBERG, 2019). Apesar dessas barreiras da imunidade inata, a cavidade nasal, de um modo geral, apresenta uma microbiota composta por Actinobacteria, Firmicutes e Proteobacteria e, com menor frequência, por Corynebacterium spp., Propionibacterium spp. e Staphylococcus spp. (KRISMER et al., 2017). Essa colonização pode ser, ainda, regulada por mediadores imunológicos do hospedeiro como: lisozima, lactoferrina, defensinas e espécies reativas de oxigênio (EROS), bem como bacteriocinas liberadas por representantes da microbiota normal desse sítio, garantindo a competição e sobrevivência (KUMPITSCH et al., 2019).
Ao prestar assistência a portadores de infecções bacterianas ou a pacientes colonizados/infectados, ou ao manusear objetos contaminados, as mãos dos profissionais de saúde podem ficar contaminadas. Esses trabalhadores podem, posteriormente, transmitir o microrganismo a outros pacientes. Contudo, esta situação não é exclusiva do ambiente hospitalar. Doenças manifestadas clinicamente na comunidade ou em profissionais e/ou pacientes podem levar a situações em que alguns indivíduos sejam portadores assintomáticos, também chamados de indivíduos colonizados ou simplesmente portadores, quando o microrganismo está presente no hospedeiro sem causar manifestações aparentes. Nos Estados Unidos e em Taiwan, a prevalência de cepas multirresistentes adquiridas na comunidade é de 52%, excedendo, assim, a proporção de cepas adquiridas em ambientes hospitalares (EFA et al., 2019; MOREMI et al., 2019).
Os estudantes da área da saúde desempenham um papel importante na epidemiologia e patogênese da infecção por S. aureus e podem atuar como fonte de disseminação tanto na comunidade quanto em ambientes hospitalares, e no transporte de bactérias de um desses ambientes para outro (ABROO, HOSSEINI-JAZANI e SHARIFI, 2017). No Brasil, esse tema tem sido pouco abordado, mas sabe-se que a presença de MRSA entre estudantes vem se espalhando gradativamente (CARVALHO et al., 2016).
Portanto, a presença de microrganismos multirresistentes como componentes da microbiota normal de indivíduos que vão realizar atividades laborais dentro de ambientes de assistência à saúde pode ser um fator de risco para a disseminação desses patógenos entre pacientes hospitalizados. Os estudantes de cursos da saúde são, particularmente, importantes no ciclo de transmissão e disseminação de S. aureus. Microrganismos já presentes na cavidade nasal desses indivíduos podem carregar genes de virulência importantes para a patogenicidade bacteriana. Esses, por sua vez, podem ser disseminados no ambiente de assistência à saúde quando não se mantém protocolos rígidos de controle de infecções nesses ambientes de vulnerabilidade. Dessa forma, o trabalho teve por objetivo detectar a presença da bactéria Staphylococcus aureus da cavidade nasal de estudantes dos 6 anos do curso de medicina da Faculdades de Dracena – UNIFADRA.
2 METODOLOGIA
Este trabalho teve início após a aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) sob Número do Parecer: 7.552.805. Foram convidados a participar alunos dos seis anos do Curso de Medicina, maiores de 18 anos, que leram e concordaram com o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Foram excluídos do estudo alunos que estivessem em uso de antimicrobiano, infecção do sistema respiratório e em tratamento de doenças imunológicas no momento da coleta.
As coletas foram realizadas de acordo com o protocolo descrito por Gushiken e colaboradores (2016), entre março e abril de 2025. A coleta consistiu em: 1) triagem inicial com aplicação de questionário padronizado pelo grupo de pesquisa a respeito das características do hospedeiro e histórico de saúde; e 2) coleta de amostras da mucosa nasal anterior dos estudantes por movimentos circulares (3 vezes), utilizando swab previamente umedecido em salina esterilizada, para cultura e análises microbiológicas fenotípicas.
O swab contendo a amostra de mucosa nasal foi mergulhado em caldo de soja tripticaseína (TSB) acrescido de 6,5% de NaCl e agitado para desprendimento das possíveis células bacterianas coletadas e incubado a 36ºC ± 1ºC, por 24 horas. Após a incubação, as bactérias crescidas foram semeadas em Ágar manitol-salgado, e as placas incubadas a 36ºC ± 1ºC, por 48 horas, para isolamento e identificação de S. aureus.
As colônias com características morfológicas e macroscópicas sugestivas de S. aureus foram identificadas fenotipicamente a partir da realização de coloração de Gram e testes de catalase em lâmina, coagulase em tubo e produção da enzima DNAse (KATEETE et al., 2010).
3 RESULTADOS E DISCUSSÕES
Foram convidados para participar deste trabalho todos os alunos dos seis anos do Curso de Medicina da Faculdades de Dracena – UNIFADRA, dos quais 234 aceitaram participar e tiveram a amostra nasal coletada. A maioria dos participantes é do sexo feminino (148; 63%) e 37% do sexo masculino (86 participantes). Cerca de 36% dos estudantes (85) disseram já ter trabalhado na área da saúde ou estarem inseridos em ambiente de assistência à saúde, devido a atividades de ensino do Curso de Medicina. Os demais achados podem ser observados na tabela 1.
Tabela 1: características epidemiológicas e hábitos dos 234 estudantes do curso de medicina que aceitaram participar do estudo.


S. aureus foi encontrado na mucosa nasal de 55 estudantes (23,5%), sendo 27 do sexo masculino e 28 do sexo feminino, e estava presente em alunos dos seis anos do curso, embora mais prevalente nos primeiros quatro anos. Na tabela 2 podem ser observadas as características e hábitos dos estudantes portadores desta bactéria.
Tabela 2: características epidemiológicas e hábitos dos 55 estudantes do curso de medicina que aceitaram participar do estudo e foram portadores da bactéria Staphylococcus aureus.

Estudantes em instituições de ensino, como escolas, faculdades e universidades, interagem frequentemente com colegas que podem estar colonizados por S. aureus . O compartilhamento de itens pessoais e as condições sanitárias precárias nessas instituições levantam preocupações significativas de saúde pública. Este trabalho mostrou que 23,5% dos estudantes de um curso de medicina, de 234 que aceitaram participar do estudo, apresentavam esta bactéria em sua fossa nasal, indicando que eles podem transmitir esta bactéria para seus colegas ou, então, para os futuros pacientes.
Devido ao contato frequente com a comunidade em geral e o ambiente de saúde, os estudantes de medicina comumente encontram uma variedade de patógenos que podem colonizá-los. Indivíduos colonizados por patógenos têm maior risco de infecção, mas também se tornam uma fonte de transmissão para outros membros da comunidade ou pacientes suscetíveis (BHATTA et al., 2018).
4 CONCLUSÃO
Estudantes de medicina podem apresentar Staphylococcus aureus em suas narinas, como colonizante, desde o primeiro ano de faculdade. A presença desta bactéria pode contribuir para sua disseminação, em especial aos futuros pacientes que serão atendidos.
REFERÊNCIAS
Bhatta, D. R., Hamal, D., Shrestha, R., Parajuli, R., Baral, N., Subramanya, S. H., Nayak, N., & Gokhale, S. (2018). Nasal and Pharyngeal Colonization by Bacterial Pathogens: A Comparative Study between Preclinical and Clinical Sciences Medical Students. The Canadian journal of infectious diseases & medical microbiology = Journal canadien des maladies infectieuses et de la microbiologie medicale, 2018, 7258672. https://doi.org/10.1155/2018/7258672.
Gehrke AE, Giai C, Gómez MI. Staphylococcus aureus Adaptation to the Skin in Health and Persistent/Recurrent Infections. Antibiotics (Basel), 2023.
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SCHERZAD, A.; HAGEN, R.; HACKENBERG, S. Current understanding of nasal epithelial cell mis-differentiation. Journal of Inflammation Research, v. 12, p. 309–317, 2019.
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Moremi, N., Claus, H., Vogel, U., & Mshana, S. E. The role of patients and healthcare workers Staphylococcus aureus nasal colonization in occurrence of surgical site infection among patients admitted in two centers in Tanzania. Antimicrobial resistance and infection control, 8, 102, 2019.
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1 Discente do Curso Superior de Medicina da Faculdades de Dracena – UNIFADRA e-mail: jefferson.gomes@unifadra.fundec.edu.br
2 Discente do Curso Superior de Medicina da Faculdades de Dracena – UNIFADRA e-mail: ana.saita@unifadra.fundec.edu.br
3 Discente do Curso Superior de Medicina da Faculdades de Dracena – UNIFADRA e-mail: ana.yasui@unifadra.fundec.edu.br
4 Docente do Curso Superior de Medicina da Faculdades de Dracena – UNIFADRA e-mail: caio.ferreira@docente.fundec.edu.br
