REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202510112155
Eduarda Fernanda Veloso Silva1
Lina Mara Teixeira de Sousa2
Orientador: Prof. Me. Jorge de Araújo Rocha3
RESUMO: O Acidente Vascular Encefálico (AVE), comumente conhecido como derrame cerebral, constitui um relevante problema de saúde pública, figurando entre as principais causas de mortalidade e incapacidade no Brasil. Diante desse cenário, este estudo teve como objetivo analisar o perfil epidemiológico dos pacientes acometidos por AVE atendidos em um hospital na cidade de Picos, Piauí, entre os anos de 2019 e 2023. Especificamente, buscou-se identificar os tipos de internação mais frequentes (clínica, cirúrgica ou emergência), examinar a proporção de internações que demandaram cuidados em Unidade de Terapia Intensiva (UTI), avaliar o tempo médio de permanência hospitalar conforme a gravidade do quadro e o tipo de internação, além de comparar os desfechos clínicos dos pacientes (alta ou óbito). Trata-se de um estudo ecológico retrospectivo com abordagem quantitativa, baseado em dados secundários provenientes do Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH/SUS), disponibilizados pelo Departamento de Informática do SUS (DATASUS). O estudo identificou aumento nas internações por AVE em Picos (PI), com casos graves e alta demanda por cuidados intensivos. Destacou-se maior mortalidade entre homens e avanços no atendimento, indicando a necessidade de políticas preventivas e melhor assistência.
Palavras-Chave: Acidente Vascular Cerebral. Perfil Epidemiológico. Internação Hospitalar. Desfechos Clínicos.
1. INTRODUÇÃO
O acidente vascular encefálico (AVE), frequentemente conhecido como derrame cerebral, representa um significativo desafio de saúde pública, sendo uma das principais causas de mortalidade e incapacidade no Brasil. Sua conceituação refere-se a uma patologia cerebrovascular aguda originária por uma interrupção na perfusão sanguínea cerebral, levando a danos no tecido neuronal identificáveis por meio de modalidades de imagem, que podem manifestar sintomas ou sinais clínicos que podem ser transitórios ou duradouros (Silva et al., 2024).
A prevalência e o impacto dos acidentes vasculares cerebrais no Brasil foram amplamente estudados, revelando informações críticas sobre sua epidemiologia, fatores de risco e tendências ao longo do tempo. Em termos de prevalência, o número de casos de AVC no Brasil foi estimado em 101.965 em 2019 e aumentou ligeiramente para 102.812 em 2020, com projeções indicando que aproximadamente 2.231.000 pessoas poderiam ser afetadas por derrames, resultando em 568.000 indivíduos vivendo com deficiências (Alves et al., 2024).
A incidência de derrames mostrou um aumento notável de 18% nos casos diagnosticados entre os anos de 2018 a 2022, atingindo 820.406 hospitalizações (Cancelier et al., 2023). Esse aumento é consistente em todas as regiões do Brasil, potencialmente ligado à pandemia de COVID-19, que pode ter exacerbado a incidência de derrames (Linden et al., 2024). Embora tenha havido um declínio geral nas taxas de mortalidade por AVE ao longo dos anos, com as taxas de mortalidade ajustadas por idade diminuindo significativamente de 95 mortes por 100.000 para 52 mortes por 100.000 habitantes entre 2000 e 2021 (Mcbenedict et al., 2023), certas regiões experimentaram tendências diferentes como a região Nordeste do Brasil, onde registrou-se um aumento nas mortes relacionadas ao AVE, particularmente entre idosos e homens (Coelho et al., 2023).
O sistema de saúde brasileiro avançou na abordagem do AVE por meio do estabelecimento de mais hospitais e do treinamento de profissionais de saúde especializados em cuidados cardiovasculares e neurológicos. No entanto, ainda existem lacunas nas estratégias de prevenção e tratamento, conforme evidenciado pelas altas taxas de mortalidade persistentes e pela necessidade de estudos mais abrangentes para explorar as tendências em evolução (Djaló et al., 2024; Mcbenedict et al., 2023).
2. JUSTIFICATIVA
A cidade de Picos, localizada no estado do Piauí, apresenta diversidade em suas características socioeconômicas e de infraestrutura em saúde sendo sede do Hospital Regional, Local de oferta de serviços de saúde especializados, de urgência e emergência. Diante desse contexto, a principal questão de pesquisa que este estudo buscou responder é: “Qual é o perfil epidemiológico dos pacientes com Acidente Vascular Cerebral atendidos no hospital na cidade de Picos, Piauí, entre os anos de 2019 e 2023?”. O fenômeno de interesse, o AVE, é amplamente documentado nos registros hospitalares e puderam ser analisados de forma objetiva através dos dados disponíveis no Sistema de Informações Hospitalares (SIH/SUS) via Departamento de Informação e Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS), que possibilitou a realização de tabulações e filtragens de variáveis selecionadas como: dados sociodemográficos, tipo de internação, necessidade de UTI, e tempo de permanência hospitalar sendo diretamente observáveis e mensuráveis.
O estudo do perfil epidemiológico do AVE em Picos, Piauí, é crucial para preencher lacunas de conhecimento sobre como essa condição afeta populações em regiões com características socioeconômicas distintas. A análise detalhada das variáveis pôde fornecer insights valiosos para a comunidade científica e local contribuindo para a literatura existente, além de instigar futuras pesquisas sobre AVE em regiões com desafios semelhantes. O AVE é uma doença com impacto profundo nas famílias, economia e no sistema de saúde, compreender melhor os padrões de incidência, mortalidade e os fatores associados permite políticas públicas e estratégias de saúde direcionadas, resultando em melhoria nos cuidados prestados, maior eficiência no uso de recursos.
3. OBJETIVOS:
3.1 Objetivo Geral
Descrever o perfil epidemiológico dos pacientes internados por Acidente Vascular Cerebral (AVE) na cidade de Picos, Piauí, entre 2019 e 2023.
3.2 Objetivos Específicos:
- Identificar os tipos de internação (clínica, cirúrgica, emergência) mais comuns entre os pacientes acometidos por AVC na cidade de Picos, Piauí.
- Examinar a proporção de internações que exigiram cuidados em Unidade de Terapia Intensiva (UTI) durante o período estudado.
- Avaliar o tempo médio de permanência hospitalar dos pacientes internados por AVC e as variações desse tempo de acordo com a gravidade do caso e o tipo de internação.
- Comparar os desfechos clínicos (alta e óbito) dos pacientes.
4. REFERENCIAL TEÓRICO
A complexidade e o impacto do AVE é influenciada por fatores demográficos, socioeconômicos e de acesso a serviços de saúde. Estudos epidemiológicos de abrangência nacional e internacional, demonstram a incidência maior na população idosa, com variações significativas em função de fatores de risco como hipertensão, diabetes, tabagismo, e estilo de vida (Rodrigues; Santana; Galvão, 2017).
O total de casos de AVE na região nordeste brasileira no período de tempo entre 2010 a 2019 indicou um aumento significativo na taxa de internações ao longo dos anos, aumentando progressivamente ao final do período. Houve uma tendência maior de AVE na região, com um aumento nos casos de internações. O predomínio da doença no gênero masculino foi maior do que no sexo feminino, assim como a permanência hospitalar. O total de internações de AVE aumentou com a idade, com altas observações registradas entre as pessoas idosas com 60 anos ou mais. Embora as crianças e os jovens tenham uma média de tempo com internação mais longa, os adultos e idosos apresentam maiores taxas de mortalidade, sugerindo que o menor tempo de internação desses grupos possa estar relacionado a óbitos precoces (Barbosa, et al., 2021).
Uma análise conduzida por Margarido et al. (2021) revelou que mulheres com idade entre 40 e 79 anos, independentemente da cor da pele, apresentaram uma permanência hospitalar ligeiramente mais curta do que os homens com as mesmas características. No entanto, a proporção de óbitos foi um pouco mais alta entre as mulheres, o que sugere que, apesar de serem menos afetadas em termos de permanência hospitalar, elas têm maior probabilidade de sofrer complicações graves após um Acidente Vascular Encefálico (AVE). Em relação aos aspectos étnico-raciais, os brancos tiveram mais hospitalizações, com uma taxa de mortalidade mais baixa em comparação com os pretos. Por outro lado, os pardos, devido à sua maior representatividade, apresentaram um maior número de internações e uma maior taxa de mortalidade.
De acordo com o estudo de revisão integrativa da literatura de Santos e Waters (2020) outros aspectos foram analisados como o baixo nível de escolaridade é atribuído à população mais afetada pelo AVE, considerando a falta de informações sobre a patologia.
Os fatores de riscos do AVE, aumentam ao passar dos anos, com idade igual ou superior a 60 anos, pacientes ficam mais propícios a serem afetados por essa patologia devido a comorbidades como colesterol elevado, doenças cardíacas, alcoolismo e principalmente a hipertensão arterial sistêmica (Oliveira; Maciel, 2021).
Os fatores de risco relacionados ao AVE são classificados como não-modificáveis (raça, idade e história familiar) e modificáveis (AVE isquêmico prévio, doença artéria carótida, tabagismo, hipertensão arterial, diabetes, alcoolismo e processos inflamatório). Dentre os fatores modificáveis o mais relacionado é a hipertensão arterial, acometendo 50% a 80% dos pacientes, gerando diversos sintomas como, náusea e vômitos, resposta cerebral e hipóxia. Através do conhecimento sobre os riscos detectados pelo acidente vascular encefálico pode haver a prevenção, a fim de minimizar as sequelas físicas e psíquicas dos pacientes, melhorando a capacidade funcional (Rodrigues; Santana; Galvão, 2017).
O Sistema Único de Saúde (SUS), estabelecido pela Lei 8080/90, é uma política pública fundamental no Brasil, projetada para atender a todas as necessidades de saúde da população. Essa lei reforça o artigo 196 da Constituição Federal, que afirma o direito universal à saúde e o dever do Estado em garantir o acesso igualitário a serviços de saúde por meio de políticas sociais e econômicas que visem à prevenção, proteção e recuperação da saúde dos cidadãos (Flauzino et al., 2022).
Dentre as obrigações do SUS destaca-se a produção de informação para o controle social, onde utiliza-se sistemas de informação em saúde que coletam, processam, armazenam e distribuem dados essenciais para a tomada de decisões e a gestão de organizações de saúde (Brasil, 2015). Esses sistemas são fundamentais para o planejamento e monitoramento de programas e políticas públicas, permitindo o controle logístico e avaliativo dos procedimentos em saúde nas esferas federal, estadual e municipal. Dessa forma, atuam como ferramentas estratégicas que contribuem para a qualificação da gestão em saúde e, consequentemente, para a melhoria da qualidade de vida da população (Reis et al., 2022).
A análise dos dados de saúde por meio de sistemas, possibilita a identificação de demandas específicas, permitindo diagnosticar áreas com carência ou sobrecarga de procedimentos. Em um estudo ecológico realizado na Bahia, Aleluia et al. (2017) utilizaram esses sistemas para analisar a produção ambulatorial de fisioterapia no SUS entre 2008 e 2014. Esse estudo foi crucial para traçar o perfil dos atendimentos de fisioterapia e entender o perfil epidemiológico dessa demanda no estado, destacando a importância dos sistemas de informação na gestão eficiente dos serviços de saúde.
5. METODOLOGIA
Tratou-se de um estudo ecológico retrospectivo com abordagem quantitativa. Com a pesquisa quantitativa, buscamos encontrar dados representativos, demonstráveis e reprodutíveis que possibilitaram a comparação dos dados, por meio de análise estatística. Já na abordagem ecológica objetiva-se, verificamos o comportamento de grandes grupos populacionais, dentro de sua esfera sócio-político-demográfica, possibilitando averiguar o comportamento de um fenômeno (Lakatos; Marconi, 2022).
5.1 Local do Estudo
Foram utilizados dados sobre as internações realizadas na cidade Picos- Piauí, obtidos por meio do Sistema de Informações do Ministério da Saúde, disponibilizados pelo Departamento de Informática do SUS (DATASUS), na base referente ao Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH/SUS), divulgados na página eletrônica https://datasus.saude.gov.br/transferencia-dearquivos/#, onde dispõem-se de todos os dados hospitalares das unidades de saúde do Brasil, com dados referentes aos atendimentos e custos de assistência especializada, agrupados por tipo de procedimento, de financiamento, de regras contratuais, de caráter do atendimento, da esfera administrativa, tipo de prestador e Classificação Brasileira de Ocupações (CBO) (Aleluia et al., 2017; Souza; Mourão; Emiliano, 2022).
5.2 População do Estudo
A população selecionada para obtenção dos dados, foram pacientes internados nos Hospitais públicos da cidade de Picos, diagnosticados com AVE, entre o período de janeiro de 2019 a dezembro de 2023.
5.3 Critérios de Inclusão e exclusão
Para inclusão de dados dessa pesquisa foram utilizados os seguintes critérios: internações realizadas por Diagnóstico de AVE, classificados pelas seguintes CIDs (código internacional das doenças): I60 (Hemorragia subaracnóidea), I61 (Hemorragia intracerebral), I63 (Infarto cerebral) e I64 (Acidente Vascular Cerebral não especificado como hemorragia ou infarto) contabilizados na produção Hospitalar do SUS no município de Picos, correspondente ao período de janeiro de 2019 a dezembro de 2023.
Como critérios de exclusão foram desconsiderados dados Incompletos ou Inconsistentes, Duplicidade de Registros ou Prontuários e Ausência ou suspeita de diagnóstico Confirmado de AVE
5.4 Coleta de dados
Para a coleta de dados foi realizada a filtragem, tabulação gráfica e organização dos dados obtidos no SIH/SUS, comportando as variáveis (dados) sociodemográficas: sexo, etnia, faixa etária e dados Hospitalares de frequência de internação, número de óbitos, complexidade do procedimento.
5.5 Análise de dados
Os dados foram analisados utilizando abordagem descritiva através do software TABWIN e exportados para formulário de coleta no programa Microsoft Excel para formulação de gráficos e quadros para compor análise dos resultados finais a serem discutidos.
5.6 Critérios éticos
Por se tratar de um estudo ecológico e, portanto, sem sujeitos, mas sim agregados populacionais para análise, não foi necessária avaliação do comitê de ética para pesquisas com seres humanos. Além disso, os dados são de domínio público e não contêm informações sobre a identidade dos participantes ou outras informações sensíveis que possam violar o sigilo dos dados com base nas normas da Resolução nº 510 de 04/12/2016 do Conselho Nacional de Saúde/Ministério da Saúde do Brasil.
6. RESULTADOS E DISCUSSÕES
Entre os anos de 2019 a 2023 foram diagnosticados 1.202.179,0 casos de AVE não identificados como hemorrágicos ou isquêmicos, conforme o gráfico 1 apresentado a seguir:
Figura 01 – Quantitativo de casos por AVE entre 2019 a 2023

Fonte: Dos próprios autores, 2025.
Os resultados deste estudo evidenciaram um aumento significativo no número de internações por Acidente Vascular Encefálico (AVE) no município de Picos, Piauí, entre 2019 e 2023. Esse crescimento acompanha a tendência nacional, conforme apontado por Alves et al. (2024) e Cancelier et al. (2024), que destacam o aumento progressivo dos casos de AVE no Brasil. Entre os possíveis fatores que explicam essa elevação estão o envelhecimento populacional, o crescimento na detecção precoce da doença e o impacto da pandemia de COVID-19, que pode ter exacerbado a incidência de derrames, conforme discutido por Linden et al. (2024). Dentre os casos de internação, 100% foram considerados como urgência, evidenciando a gravidade dos sintomas e o risco de óbito associados ao AVC. Esse cenário reforça a necessidade de um atendimento emergencial, conforme destacado por Bispo et al. (2024), que enfatizam a utilização de protocolos para classificar o risco dos pacientes em unidades de urgência, facilitando a priorização do atendimento e a regulação da demanda assistencial.
A análise do perfil das internações revelou que 100% dos casos foram classificados como urgência, reforçando a gravidade dos quadros clínicos e a necessidade de um atendimento hospitalar ágil e especializado. Esse achado está alinhado com o estudo de Bispo et al. (2024), que destaca a importância da classificação de risco em unidades de urgência para otimizar o atendimento e reduzir complicações. Além disso, verificou-se que 37% dos pacientes necessitaram de cuidados intensivos, percentual semelhante ao relatado por Mata, Cassavia e Junior (2022), que apontam a necessidade de internação em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) para monitorização contínua e intervenções terapêuticas mais avançadas em pacientes com AVE.
Figura 02 – Diárias em UTI

Fonte: Dos próprios autores, 2025.
Esse dado está em consonância com o que apontam Mata, Cassavia e Junior (2022), ao destacarem que, em fases agudas de instabilidade clínica, os pacientes frequentemente requerem internação em UTIs, onde possam ser submetidos a monitorização contínua.
Outro dado relevante foi o tempo médio de hospitalização, que variou entre 8 e 14 dias, corroborando estudos como o de Mourão et al. (2017), que indicam uma média de permanência hospitalar de 15 dias em unidades especializadas no tratamento do AVE. Esse tempo de internação está diretamente relacionado à complexidade do quadro clínico, à necessidade de suporte intensivo e às estratégias terapêuticas adotadas.
Figura 03 – Quantidade de dias na UTI

Fonte: Dos próprios autores, 2025.
Quanto aos desfechos hospitalares, verificou-se que, apesar da maioria dos pacientes receber alta, houve um aumento expressivo no número de óbitos em 2022. Esse dado pode estar relacionado à sobrecarga dos serviços de saúde durante a pandemia de COVID-19, bem como a dificuldades no acesso a cuidados especializados. Coelho et al. (2023) também apontam um aumento da mortalidade por AVE na região Nordeste, sugerindo que fatores estruturais e socioeconômicos podem influenciar a evolução clínica dos pacientes. No entanto, em 2023, observou-se uma redução nas taxas de mortalidade, o que pode indicar avanços no manejo hospitalar do AVE na região, seja por meio da implementação de novas diretrizes terapêuticas ou pela ampliação do acesso a tratamentos mais eficazes.
O gráfico a seguir retrata os índices de óbitos por AVE no município de Picos.
Figura 04 – Evoluções de óbitos na UTI.

Fonte: Dos próprios autores, 2025.
A análise da mortalidade por sexo revelou que os homens apresentaram maior taxa de óbito por AVE, o que está em concordância com os achados de Pinheiro et al. (2024) e Bispo et al. (2024). Esse dado pode ser explicado pela maior prevalência de fatores de risco modificáveis entre os homens, como tabagismo, alcoolismo e hipertensão arterial não controlada, conforme apontado por Rodrigues, Santana e Galvão (2017). No entanto, alguns estudos, como os de Vasconcelos et al. (2024) e Margarido et al. (2021), indicam que, apesar de os homens apresentarem maior número de internações, as mulheres tendem a ter taxas de mortalidade mais elevadas. Isso pode estar associado a um diagnóstico tardio, idade avançada e maior número de comorbidades pré-existentes entre as mulheres.
Figura 05 – Óbitos por sexo

Fonte: Dos próprios autores, 2025.
Com relação entre o sexo e a mortalidade por AVE em Picos do período analisado. Os indivíduos do sexo masculino apresentaram maior taxa de mortalidade pela afecção estudada, em todos os anos. Os dados encontrados entram em consonância com os achados de Pinheiro et al., 2024, Vasconcelos et al., 2024 e Bispo et al., 2024, que apontam número de óbitos significativamente maior no sexo masculino. Conforme Mourão et al. (2017), homens são mais acometidos, representando 55% dos casos, com uma média de idade de 64,3 anos. Esses dados são consistentes com estudos epidemiológicos que destacam o envelhecimento como um fator de risco importante. Segundo Rodrigues, Santana e Galvão (2017), a maior prevalência em idosos se deve à maior exposição cumulativa a fatores de risco como hipertensão arterial, diabetes, tabagismo e estilos de vida inadequados ao longo do tempo.
No entanto, há uma divergência nas interpretações: enquanto Pinheiro et al. (2024) e Bispo et al. (2024) destacam a maior prevalência de óbitos no sexo masculino, Vasconcelos et al. (2024) e Margarido et. al. (2021) apontam que, apesar do maior número de internações entre homens, o sexo feminino apresenta taxas de mortalidade superiores. Essa diferença, segundo Vasconcelos et al. (2024) pode ser explicada pela idade avançada e por condições de saúde pré-existentes mais frequentes entre as mulheres.
Diante desses achados, fica evidente a necessidade de fortalecer as políticas públicas voltadas para a prevenção e o tratamento do AVE, principalmente no que se refere ao controle dos fatores de risco, como hipertensão arterial, diabetes e tabagismo. Além disso, ressalta-se a importância de investimentos em infraestrutura hospitalar, capacitação de profissionais de saúde e ampliação do acesso a terapias especializadas para reduzir a mortalidade e as sequelas associadas ao AVE. Estudos futuros poderão aprofundar a análise dos determinantes sociais e econômicos envolvidos na ocorrência e nos desfechos clínicos do AVE, contribuindo para a formulação de estratégias mais eficazes na redução do impacto dessa condição na população.
7. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente estudo permitiu a análise do perfil epidemiológico dos pacientes internados por Acidente Vascular Encefálico (AVE) no município de Picos, Piauí, entre os anos de 2019 e 2023. Observou-se um aumento expressivo na taxa de internações por AVE, o que pode estar associado tanto à ampliação dos diagnósticos quanto a fatores como o envelhecimento populacional e o impacto da pandemia de COVID-19.
A maioria das internações foi classificada como urgência, reforçando a gravidade da condição e a necessidade de protocolos eficientes para triagem e atendimento precoce. Além disso, verificou-se que cerca de 37% dos pacientes necessitaram de cuidados intensivos, evidenciando a alta complexidade clínica desses casos. O tempo médio de hospitalização variou entre 8 e 14 dias, compatível com a literatura nacional.
Os desfechos clínicos mostraram que, apesar da maioria dos pacientes receber alta, houve um aumento no número de óbitos em 2022, possivelmente relacionado a fatores regionais e à sobrecarga dos serviços de saúde durante a pandemia. No entanto, em 2023, observou-se uma redução nas taxas de mortalidade, o que pode indicar avanços no manejo hospitalar do AVE na região.
A análise por sexo revelou maior mortalidade entre os homens, corroborando estudos que apontam maior exposição a fatores de risco modificáveis nesse grupo. Contudo, há divergências na literatura sobre a mortalidade feminina, sugerindo a necessidade de investigações mais detalhadas sobre as diferenças de gênero na evolução do AVE.
Diante desses achados, destaca-se a importância de políticas públicas voltadas para a prevenção e o controle dos fatores de risco do AVE, especialmente hipertensão arterial e diabetes, bem como o fortalecimento da rede de atenção hospitalar para garantir um atendimento mais ágil e eficiente. Estudos futuros poderão aprofundar a análise dos fatores socioeconômicos e da qualidade da assistência prestada, contribuindo para o aprimoramento das estratégias de prevenção e tratamento dessa condição na região.
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1Orientanda Pibic 2024.2, do Curso de Fisioterapia no Instituto de Educação Superior Raimundo Sá. E-mail: eduardaveloso.0416@gmail.com
2Orientanda Pibic 2024.2, do Curso de Fisioterapia no Instituto de Educação Superior Raimundo Sá. E-mail: maralina00@gmail.com
3Prof. Orientador do Programa de Bolsas de Iniciação Científica, da Faculdade R. Sá. E-mail: dearaujorochajorge@gmail.com
