REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/fa10202512062005
Sabrina Schneidereit Nunes
Paulo Victor da Costa Campos
Professor Orientador: Yiceth Vanessa Daza Lizarazo
RESUMO
Os cistos odontogênicos são lesões frequentes nos ossos gnáticos, muitas vezes assintomáticas, mas com potencial expansivo e destrutivo, exigindo diagnóstico e tratamento adequados. O objetivo é comparar as principais técnicas de exérese de cistos odontogênicos, destacando indicações, vantagens, limitações e impacto clínico para o paciente. A relevância do tema está na alta incidência clínica, nos danos funcionais e estéticos que podem causar e na necessidade de condutas cirúrgicas seguras e conservadoras. Esta é uma revisão integrativa de literatura em bases científicas, com foco em estudos dos últimos 15 anos que abordam técnicas cirúrgicas aplicadas aos cistos odontogênicos. Os cistos odontogênicos dividem-se em inflamatórios e de desenvolvimento; seu manejo envolve técnicas como enucleação, marsupialização e terapias combinadas. A enucleação foi a técnica mais utilizada; marsupialização e descompressão se mostraram eficazes em casos específicos; métodos adjuvantes, como solução de Carnoy, reduzem recidivas. A escolha da técnica deve ser individualizada, considerando tipo de cisto, comportamento biológico, idade do paciente e relação com estruturas adjacentes. Nenhuma técnica é universalmente superior; o conhecimento comparativo permite condutas mais assertivas, melhor prognóstico funcional e redução de recidivas.
Palavras chave: Cistos; Odontogênicos; Histopatologia
ABSTRACT
Odonto genétics cysts are frequent lesions in the gnathic bones, often asymptomatic but with expansive and destructive potential, requiring proper diagnosis and treatment. The objective is to compare the main surgical techniques for the excision of odontogenic cysts, highlighting their indications, advantages, limitations, and clinical impact on the patient. The relevance of the topic lies in its high clinical incidence, the functional and esthetic damage it may cause, and the need for safe and conservative surgical approaches. This is an integrative literature review in scientific databases, focusing on studies from the last 15 years addressing surgical techniques applied to odontogenic cysts. Odontogenic cysts are classified into inflammatory and developmental types; their management involves techniques such as enucleation, marsupialization, and combined therapies. Enucleation was the most widely used technique; marsupialization and decompression proved effective in specific cases; adjuvant methods, such as Carnoy’s solution, reduced recurrences. The choice of technique should be individualized, considering the type of cyst, biological behavior, patient’s age, and relationship with adjacent structures. No technique is universally superior; comparative knowledge allows for more assertive clinical decisions, better functional prognosis, and reduced recurrence rates.
Keywords: Cysts; Odontogenic; Histopathology
1.0 INTRODUÇÃO
Ao se referir a cistos presentes nos ossos gnáticos, observa-se duas ramificações destas lesões: os cistos fissurais e os cistos odontogênicos. O primeiro grupo se refere aos cistos advindos do epitélio oral, já os cistos odontogênicos representam um grupo heterogêneo de lesões intraósseas ou extraósseas que se originam a partir de remanescentes epiteliais relacionados ao desenvolvimento dentário. Essas lesões podem acometer tanto a maxila quanto a mandíbula e, apesar de muitas vezes serem assintomáticas e identificadas incidentalmente por meio de exames radiográficos de rotina, algumas apresentam comportamento expansivo e potencial destrutivo. Quando não diagnosticados e tratados adequadamente, podem ocasionar alterações significativas como deformidades ósseas, mobilidade dentária, reabsorção radicular, dor e infecções secundárias (Neville et al., 2016; Hupp et al., 2021).
A abordagem terapêutica dos cistos odontogênicos é predominantemente cirúrgica e a escolha da técnica de exérese depende de uma série de fatores, como o tipo histológico da lesão, o tamanho, localização anatômica, relação com estruturas adjacentes nobres, idade do paciente e o risco de recidiva (Hupp et al., 2021). Entre as principais técnicas utilizadas destacam-se a enucleação, a marsupialização e a combinação de ambas, sendo que cada uma apresenta vantagens e limitações conforme o caso clínico.
Hupp et al., (2021) destaca que a conduta cirúrgica deve ser individualizada. Por exemplo, a exérese de uma lesão cística que deu origem a um carcinoma odontogênico exige uma abordagem agressiva e radical, muitas vezes com a remoção de estruturas anatômicas vizinhas, com o intuito de garantir a completa erradicação tumoral e reduzir o risco de recidivas. Por outro lado, cistos como o dentígero, que possuem comportamento mais benigno e previsível, podem ser removidos com técnicas conservadoras, minimizando os danos aos tecidos saudáveis circundantes.
A compreensão das características clínicas, radiográficas e histopatológicas dos diferentes tipos de cistos odontogênicos torna-se fundamental para o correto diagnóstico e escolha da conduta terapêutica mais adequada. A comparação entre as técnicas cirúrgicas disponíveis permite não apenas avaliar sua eficácia na erradicação da lesão, mas também considerar fatores como tempo de recuperação, complicações associadas e impacto funcional e estético para o paciente. Assim, o presente trabalho tem como objetivo analisar comparativamente as principais técnicas de exérese de cistos odontogênicos, contribuindo para a formação de condutas clínicas mais embasadas e seguras na prática odontológica.
2.0 OBJETIVOS
2.1 OBJETIVOS GERAIS
O presente estudo tem como objetivo comparar as diferentes técnicas cirúrgicas utilizadas na remoção de cistos odontogênicos, destacando suas indicações, vantagens, limitações e taxas de recidiva.
Busca-se, ainda, fornecer uma base prática e teórica para a atuação clínica do cirurgião-dentista frente a essas lesões, considerando aspectos histológicos, morfológicos e radiográficos
2.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS
- Identificar os principais tipos de cistos odontogênicos descritos na literatura atual;
- Comparar técnicas cirúrgicas utilizadas na exérese de cistos odontogênicos com base em critérios como taxa de recidiva, preservação anatômica,
- Complicações pós-operatórias e impacto na qualidade de vida do paciente;
- Propor diretrizes clínicas fundamentadas para escolha da técnica mais adequada, conforme as características da lesão e do paciente.
3.0 JUSTIFICATIVA
A escolha deste tema justifica-se pela frequência com que os cistos odontogênicos são encontrados na prática clínica odontológica e pelo impacto que podem causar nas estruturas orofaciais. Embora, em muitos casos, apresentem crescimento lento e silencioso, sua evolução pode resultar em deformidades significativas, destruição óssea e comprometimento funcional (Paz et al., 2022). Dessa forma, a correta identificação e manejo dessas lesões são fundamentais para a preservação da saúde bucal e sistêmica do paciente.
Além disso, os avanços nas técnicas cirúrgicas e nos métodos de diagnóstico têm proporcionado abordagens mais conservadoras e eficazes, que devem ser conhecidas e aplicadas pelos cirurgiões-dentistas. A análise crítica e comparativa das técnicas disponíveis visa aprimorar a tomada de decisão clínica, promovendo intervenções mais seguras e com melhor prognóstico (Caliento et al., 2013; Fernanda et al., 2022)
4.0 METODOLOGIA
Este trabalho será desenvolvido por meio de uma revisão integrativa da literatura, método que permite a síntese de evidências científicas provenientes de diferentes delineamentos de pesquisa, proporcionando uma compreensão ampla e crítica sobre o tema investigado. A busca dos estudos será conduzida nas bases de dados PubMed, SciELO e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), selecionadas por sua relevância e abrangência na área da saúde.
Serão incluídos artigos publicados nos últimos 15 anos, período escolhido para garantir a atualização das informações e considerar os avanços mais recentes nas técnicas cirúrgicas aplicadas aos cistos odontogênicos. A seleção dos estudos seguirá critérios previamente estabelecidos, contemplando pesquisas que abordem diretamente as modalidades de tratamento cirúrgico desses cistos, com ênfase em estudos comparativos, séries de casos e revisões sistemáticas, por serem delineamentos capazes de fornecer dados robustos e detalhados acerca das condutas empregadas e seus resultados clínicos.
Além disso, serão considerados apenas estudos disponíveis na íntegra, publicados em inglês, português ou espanhol, que apresentem descrição clara dos procedimentos cirúrgicos adotados, dos desfechos avaliados e dos critérios diagnósticos utilizados.
5.0 REVISÃO DE LITERATURA
5.1 Classificação dos Cistos Odontogênicos
A classificação dos cistos odontogênicos se dá de acordo com o fator de crescimento deste, dividindo-se em dois grandes grupos: os cistos de desenvolvimento e os cistos de inflamação. O primeiro desenvolve-se sem o um processo inflamatório adjacente, já o segundo origina-se a partir do processo de inflamação (Neville et al, 2016).
Além desta divisão, ambos os grupos se subdividem. Fazem parte do grupo dos cistos de desenvolvimento: o cisto dentígero, o cisto de erupção, o queratocisto odontogênico, o cisto odontogênico ortoceratinizado, o cisto gengival (alveolar) do recém-nascido, o cisto gengival do adulto, o cisto periodontal lateral, o cisto odontogênico calcificante e cisto odontogênico glandular. Vale lembrar que de acordo com a OMS, o queratocisto odontogênico também se enquadra na lista de tumores odontogênicos de acordo com a classificação de 2005 (Neville et al, 2016).
A subdivisão dos cistos de inflamação é reduzida, participando deste: o cisto periapical (radicular), o cisto periapical (radicular) residual e o cisto de bifurcação vestibular (Neville et al, 2016).
Segundo Neville et al. (2016), o cisto dentígero corresponde a aproximadamente 20% dos cistos odontogênicos de desenvolvimento, sendo, portanto, a forma mais prevalente dentro desse grupo de lesões. Sua principal característica é o envolvimento da coroa de um dente incluso, aderindo-se à junção cemento-esmalte. Em alguns casos, o cisto dentígero pode se apresentar juntamente com um processo inflamatório, porém, não sendo o fator de origem deste (cisto). Assim, o termo cisto parietário é utilizado por alguns autores e profissionais da área odontológica, não sendo muito indicado pois este termo já foi utilizado para se referir aos cistos de bifurcação vestibular (Neville et al, 2016).
O 3° molar inferior é o elemento dentário ao qual o cisto dentígero mais acomete. Além disto, visualiza-se a predileção para paciente do sexo masculino e leucodermas. É raro o surgimento deste cisto em dentes decíduos. A descoberta do cisto dentígero ocorre em sua grande maioria através de exames radiográficos, haja visto que raramente esta lesão é sintomática. Em casos aos quais o cisto torna-se muito volumoso pode ocorrer a expansão óssea na região e, consequentemente, causar dor e assimetria facial (Neville et al, 2016).
Radiograficamente observa-se os cistos dentígeros como uma área radiolúcida delimitada por uma margem radiopaca, com bordas bem definidas. Em cistos extensos, pode aparentar ser multilocular. Suas variantes são: Lateral, central e circunferencial, diferenciando-se unicamente pelo sentido de crescimento e extensão. Os cistos dentígeros laterais crescem lateralmente ao longo da superfície radicular, já os cistos dentígeros centrais projetam-se com a coroa dentro e centralizada do cisto e, por último, os cistos dentígeros circunferenciais realizam o envolvimento da coroa e estendem-se por uma determinada distância do longo da raiz (Neville et al, 2016).
O cisto de erupção é consequência da cisão do folículo dentário o qual envolve a coroa de um dente em erupção e que está revestido por tecidos moles do osso alveolar contido. Geralmente esse tipo de lesão não resulta em dores ou desconforto e pode ser observada através do desenvolvimento de volume que se sobrepõe-se à coroa de um elemento dentário decíduo ou permanente em estágio de erupção. Tal cisto acomete pacientes da faixa etária inferior aos 10 anos e se correlaciona principalmente com os incisivos centrais inferiores decíduos, primeiros molares permanentes e incisivos (centrais e laterais) superiores decíduos. Histopatologicamente, observa-se que na maioria dos casos, é enviado para a análise amostras do teto cisticial visando auxiliar o aparecimento do dente em questão. Assim, analisa-se a região superior das amostras compostas do epitélio oral de superfície e na parte mais profunda uma fina camada de epitélio pavimentoso não queratinizado (Neville et al, 2016).
Por anos, observou-se uma grande controvérsia a respeito do cisto primordial, visto que, no início este se remetia à uma lesão cisticial consequente do processo de degeneração cística do epitélio do órgão de esmalte antes mesmo do desenvolvimento de tecido duro dentário, ou seja, no local de erupção dentária. Em 1950, definiu-se na Europa que este termo seria sinônimo dos queratocistos e, em 1972, o termo cisto primordial foi considerado uma predileção para referir-se ao queratocisto. A separação das classificações entre queratocisto e cisto primordial só ocorreu em meados de 1992, ao passo que se observou que a lesão cisticial primordial é considerada muito rara, visto que microscopicamente, todos os cistos primordiais são considerados e avaliados como um queratocisto (Neville et al, 2016).
O queratocisto odontogênico possui peculiaridades histopatológicas e um desenvolvimento específico, emergindo-se através de restos celulares da lâmina dentária. O seu desenvolvimento é consequente de fatores genéticos e do metabolismo enzimático na parede fibrosa deste. Suas principais características são: alto potencial de aumento volumétrico, altas taxas de recidiva, provável relação com a síndrome do carcinoma nevoide basocelular (Neville et al, 2016).
Antes da 4ª edição da publicação da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre a Classificação de Tumores de Cabeça e Pescoço, o queratocisto odontogênico era nomeado de tumor odontogênico queratocisto. De acordo com Tolentino alteração se deu pelo consenso de que não existem evidências suficientes para mantê-lo na classificação de neoplasia, haja visto que há alguns relatos em que os queratocistos retrocederam após descompressão (e em neoplasias, o tumor evolui mesmo após a remoção do estímulo). Soluk-Tekkesin, Wright, afirmou que a 5 ª edição manteve as alterações realizadas anteriormente sobre estas nomenclaturas e classificações.
O queratocisto acomete principalmente pacientes de 10 a 40 anos e podem ser sintomáticos em casos extemos. O seu crescimento ocorre geralmente na direção anteroposterior no interior da cavidade medular óssea, não ocasionando expansão óssea. Observa-se nas radiografias nas quais estas lesões estão presentes uma região radiolúcida com bordas radiopacas bem definidas. Geralmente, são uniloculadas, porém, em casos nos quais o cisto é muito grande, pode ser multiloculadas. Em alguns casos, o queratocisto pode ser confundido radiograficamente ao envolver um dente incluso, sendo apenas confirmado através de um exame histopatológico (assim, infere-se que o seu surgimento tenha se dado a partir de restos da lâmina dentária adjacente ao elemento não erupcionado) (Neville et al, 2016).
As características histopatológicas mais comuns são: cápsula delgada e friável, cavidade interna possuindo um líquido claro ou preenchido por um material caseoso (lâminas de queratina) e revestimento epitelial contendo uma camada de epitélio pavimentoso estratificado (Neville et al, 2016).
O cisto odontogênico ortoqueratinizado representa um conjunto de cistos que apresentam um revestimento epitelial ortoqueratinizado. Originalmente este era considerado uma variante ortoqueratinizada dos queratocistos. Radiograficamente, se apresenta com uma radiolucidez unilocular e tem um acometimento mais recorrente nos 3°molares inclusos. O revestimento destes é formado por um epitélio pavimentoso estratificado, com uma camada superficial de ortoqueratina cuja espessura pode variar. Na parte superior do epitélio, podem ser observados grânulos de querato-hialina bastante evidentes. Esse epitélio tende a ser fino e não apresenta uma camada basal em paliçada marcante, o que o diferencia do queratocisto (Neville et al, 2016).
O cisto gengival do recém-nascido é uma espécie de cisto conhecido por ser bem recorrente no dia a dia clínico, tratando-se de cistos pequenos, superficiais e contendo no seu interior queratina. Estes se originam de remanescentes da lâmina dentária e se localizam na mucosa alveolar de crianças. Geralmente desaparecem sem a necessidade de um tratamento adjacente e são raramente submetidos à biópsia. No geral, não possuem mais do que 2 a 3 mm de diâmetro. Histopatologicamente se apresentam com um revestimento epitelial delgado e achatado com superfície luminal de paraqueratina (Neville et al, 2016).
O cisto gengival do adulto é uma lesão benigna rara que afeta os tecidos moles da cavidade oral, especialmente na gengiva vestibular, próximo a caninos e pré-molares inferiores. Tem origem nos restos da lâmina dentária (restos de Serres) e é considerado a contraparte em tecido mole do cisto periodontal lateral. Clinicamente, apresenta-se como um nódulo pequeno, indolor, de crescimento lento, com coloração azulada ou cinza e geralmente menor que 0,5 cm. Pode surgir, raramente, após cirurgias como enxertos, sendo nesses casos um cisto de inclusão epitelial. Em alguns casos, causa reabsorção óssea superficial em forma de “taça”. Ao exame histológico, é revestido por epitélio escamoso delgado com áreas de células claras e restos epiteliais no tecido conjuntivo (Neville et al, 2016).
O cisto periodontal lateral ou cisto odontogênico botrioide surge lateralmente à raiz de um dente, resultante dos restos de lâmina dentária. Sua denominação descrevia, anteriormente, qualquer cisto presente na superfície lateral da raiz de um dente, englobando queratocistos e cistos radiculares laterais. Posteriormente, ocorreu esta subdivisão por consequência de distinções comportamentais e histopatológicas de cada cisto. Estes são, geralmente, assintomáticos e são detectados radiograficamente. Assim, observa-se uma região radiolúcida localizada lateralmente em raízes de elementos dentários com vitalidade, com o seu maior diâmetro apresentando 1cm. Existe aqueles considerados uma variante do cisto periodontal lateral, os quais apresentam-se multiloculares, assemelhando-se com ‘’cachos de uva’’ (Neville et al, 2016).
O cisto odontogênico calcificante é uma lesão odontogênica benigna considerada um tumor odontogênico. Sua principal característica histopatológica é o seu conteúdo interno, o qual é composto por ‘’células fantasmas’’ (células sem a presença de núcleo) as quais podem sofrer o processo de calcificação. Tal lesão pode ser denominada também de: tumor odontogênico cístico calcificante; tumor dentinogênico de células fantasmas e carcinoma odontogênico de células fantasma. Assim, o surgimento destas lesões ocorre geralmente em pacientes mais jovens, sem predileção de sexo. O tamanho dos cistos odontogênicos calcificantes pode variar, porém, já existe registros na literatura de cistos de até 12 cm de diâmetro. Estes podem causar reabsorção radicular dos elementos dentários adjacentes e expansão óssea. Radiograficamente observa-se uma região circunscrita radiolúcida, podendo muitas vezes conter regiões internas radiolúcidas resultante da calcificação das ‘’células fantasmas’’ (Neville et al, 2016).
Assim como o queratocisto odontogênico, a 4ª edição da publicação da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre a Classificação de Tumores de Cabeça e Pescoço também alterou a nomenclatura do cisto odontogênico calcificante. Antes desta reunião, a lesão era denominada de tumor odontogênico cístico calcificante. A alteração se deu por haver pouca ou nenhuma justificativa para classificá-lo como uma neoplasia. (Tolentino, 2018). A nomenclatura permanece igual desde esta alteração.
Finalizando-se a lista dos cistos odontogênicos de desenvolvimento, observa-se o cisto odontogênico glandular, caracterizado pelo seu comportamento agressivo e aspectos glandulares. Também denominado de cisto sialo-odontogênico, o cisto odontogênico glandular surge principalmente em pacientes de meia idade na região da mandíbula, com tamanhos variados desde 1 cm até grandes lesões as quais podem ocasionar dor e parestesia. Observa-se como uma lesão radiolúcida nas radiografias e, histopatologicamente, possui formações glandulares semelhantes a ductos, observadas no epitélio de revestimento, compostas por células cuboides e frequentemente preenchidas por material mucinoso que se cora positivamente com mucicarmina (Neville et al, 2016).
Iniciando-se a abordagem dos cistos de inflamação, os cistos periapicais são descritos comocavidades patológicas com revestimento epitelial e que contém material líquido ou pastoso. Estes estão associados à processos inflamatórios de origem pulpar e geralmente surgem como consequência da necrose da polpa dental, gerando, inicialmente, a formação de um granuloma periapical e que pode evoluir para cisto. Sua origem está relacionada aos restos epiteliais de Malassez, ativados pela inflamação crônica. Essa lesão é mais comum na região anterior da maxila em pacientes entre 30 e 40 anos. Em consequência do seu crescimento lento e ausência de dor, costuma ser descoberto em exames radiográficos de rotina. Pode causar inchaço local, leve desconforto, mobilidade ou deslocamento dentário em casos avançados (de Carvalho mariano, E. et al. 2020).
O cisto da bifurcação vestibular é um tipo raro e específico de cisto o qual acomete crianças de cinco a 13 anos de idade, inexistindo relatos na literatura em que este tipo específico ocorra em adultos. Sem predileção de gênero, esta lesão acomete a face vestibular do primeiro e/ou segundo molar permanente e envolve a região de bifurcação de raízes do dente acometido pela lesão. Geralmente, esta lesão é acompanhada da secreção purulenta e é encontrada com o auxílio do exame radiográfico (Custódio, et al. 2021).
5.2 Técnicas cirúrgicas
Ao abordar as técnicas cirúrgicas existentes para a exérese dos cistos odontogênicos, deve-se assimilar, primeiramente, os objetivos principais destes procedimentos, que são: a retirada completa da lesão cística de forma à não deixar resquícios celulares que podem se disseminar e ocasionar recidivas e proporcionar a reabilitação funcional do paciente em questão. Esses objetivos só podem ser alcançados a depender da análise clara da natureza comportamental da lesão e, consequentemente, da escolha segura da técnica cirúrgica (Hupp et al., 2021).
A enucleação é uma técnica na qual remove-se a lesão em sua totalidade através da formação de um plano de clivagem (zona de rompimento entre um cisto e o osso) para, consequentemente, evitar a dissecção cística. Logo, indica-se a realização desta técnica quando a lesão apresentar uma camada de tecido conjuntivo fibroso circundante à parede óssea da cavidade cística. A sua principal vantagem é possibilitar a realização de uma biópsia/ estudo histopatológico em toda a lesão (Hupp et al., 2021).
Para a realização da enucleação, primeiro realiza-se um retalho mucoperiosteal a partir da região cervical dos dentes adjacentes e remove-se, através de uma broca cirúrgica esférica e irrigação constante com soro estéril, a cortical óssea, resultando na formação de uma janela óssea. Logo após, com o auxílio de uma cureta cirúrgica, descola-se o cisto do osso. A face côncava da cureta deve estar voltada para o osso (a face convexa é a parte ativa do instrumental). Por último, cureta-se quaisquer fragmentos residuais restantes e sutura-se os tecidos. Assim, o material cístico é colocado no fixador (Formalina) e enviado ao laboratório (Hupp et al., 2021).
Por outro lado, a marsupialização é outra técnica na qual esvazia-se o conteúdo contido no cisto e mantém-se a parede cística. Assim, suas principais indicações são: cistos presentes em locais de difícil acesso ou que envolvam estruturas importantes (com risco de prejudicá-las); cistos que impeçam a erupção de algum elemento dental e sua remoção implicaria na exodontia deste elemento; cistos volumosos e extensos. Assim, esta técnica é de fácil execução, porém, inviabiliza a análise histopatológica da lesão por inteiro, haja visto que deixa o tecido patológico in situ (no lugar)(Hupp et al., 2021).
Para realizar a marsupialização, cria-se uma janela óssea com aproximadamente 1 cm de diâmetro ou mais com brocas cirúrgicas e pinça-goiva. Logo após, incisiona-se o cisto para formar uma ‘’janela’’ e, este material será estudo para o exame histopatológico. Posteriormente, retira-se o conteúdo do cisto e realiza-se uma inspeção visual, seguida de irrigação com soro estéril para remover restos teciduais. Com uma gaze estéril embebida de tintura de benzoína ou creme antibiótico, preenche a cavidade cística e permanece por 10 a 14 dias, visando impedir a cicatrização da mucosa oral sob a janela cística (Hupp et al., 2021).
Na maioria dos casos, a marsupialização vem seguida de uma enucleação após o período estipulado de 10 à 14 dias. As principais indicações se dão caso o cisto apresente regiões ulcerativas ou com espessamento na parede cística, indicando a necessidade de examinar a lesão por inteiro; caso não haja a obliteração total do cisto e caso o paciente tenha dificuldade de higienizar a cavidade cística (Hupp et al., 2021).
Assim, outra técnica que deve ser relatada é a enucleação com curetagem. Nesta, evidencia-se a remoção de cerca de 1 a 2 mm de osso circundante na cavidade cística. A remoção não é feita necessariamente com curetas, mas pode ser utilizado brocas cirúrgicas. A sua principal indicação é quando se suspeita da presença de cistos agressivos com altas taxas de recidiva e/ou quando já foi realizado, anteriormente, uma remoção da lesão por completo e ocorreu a recidiva (Hupp et al., 2021).
A enucleação com aplicação de Carnoy’s Solution (ou solução de Carnoy) é outra técnica em que, após a realização da enucleação, aplica-se esta substância na cavidade cística por cerca de cinco minutos e, posteriormente, realiza-se a lavagem. Esta substância é composta por álcool absoluto, ácido acético glacial, cloreto férrico e clorofórmio e visa preservar a arquitetura óssea e facilitar a regeneração. Entretanto, seu uso requer cautela devido à potencial toxicidade para tecidos moles e estruturas nervosas, podendo causar danos irreversíveis e inviabilizar enxertos imediatos (Fernanda, M. et al. 2015; Bartolomeu, S et al 2024).
6.0 RESULTADOS
A apresentação dos dados contempla a caracterização das lesões encontradas, as condutas cirúrgicas adotadas e os principais desfechos clínicos observados nos artigos pesquisados e analisados. Caliento et al relatou na pesquisa de 2013 às modalidades de tratamento para os cistos dentígeros através da apresentação de um caso clínico, evidenciando que a enucleação do cisto seguida da extração do dente envolvido por esta lesão compõe cerca de 85% dos casos abordados na literatura atual. Assim, no caso clínico relatado por este estudo, foi realizado a punção aspirativa, biópsia incisional e instalação de um dispositivo de descompressão sob anestesia local para a avaliação clínica e radiográfica por seis meses. Após este período, realizou-se a exodontia do elemento 48 (ao qual estava envolvido pelo cisto dentígero) e a enucleação da lesão através da curetagem. Os autores justificaram que, levando-se em consideração apenas o tamanho da lesão, o ideal seria realizar apenas a enucleação, contudo, como havia o dente adjacente (elemento 47) envolvendo a lesão, foi realizado a descompressão.
Também acerca dos cistos dentígeros, evidencia-se os resultados contemplados por Araújo, R P. De et al de 2024, no qual reforça a necessidade de individualização de cada caso pelo tamanho do cisto, idade do paciente e localização da lesão. O estudo demonstra que as modalidades de tratamento dos cistos dentígeros, concentram-se na enucleação, marsupialização e descompressão. A enucleação foi descrita como a técnica mais amplamente indicada, visto que possibilita a remoção completa da cápsula cística e reduz o risco de recorrência. Em contrapartida, a marsupialização e a descompressão mostraram-se estratégias eficazes em casos pediátricos ou em lesões de maior dimensão, favorecendo a erupção espontânea dos dentes associados e preservando estruturas adjacentes. Ademais, terapias combinadas, como marsupialização seguida de enucleação, foram relatadas com resultados favoráveis, conciliando preservação tecidual e bom prognóstico clínico.
Já Silva, I D et al evidenciou em sua pesquisa de 2019 a quantidade de casos de clínicos de cistos registrados entre 1995 e 2018 no Projeto de Extensão “Diagnóstico, tratamento e epidemiologia das doenças da cavidade bucal” (LEBU), da Universidade Estadual de Maringá (UEM). Assim, encontrou-se 70 casos de pacientes com cistos odontogênicos, sendo: 53 casos de cistos de origem inflamatória e 17 casos de cistos de desenvolvimento. Segundo os autores, o tratamento mais realizado foi a enucleação, abrangendo todas as classificações de cistos odontogênicos abordadas no período informado, com exceção para os casos de queratocisto odontogênico, nos quais a marsupialização foi feita antes da enucleação em cerca de 75% dos casos.
Seguindo a abordagem dos cistos de desenvolvimento, o relato de caso apresentado por Clínico A. et al relatou um caso de cisto odontogênico calcificante abordado na clínica de Estomatologia da faculdade de odontologia da USP. A paciente de 19 anos, sexo feminino, relatou estar com o ‘’rosto inchado’’ há cerca de 3 meses e, através dos exames radiográficos, constatou-se uma cavidade cística radiopaca à direita da maxila. Logo, o tratamento realizado foi uma punção aspirativa seguida de biópsia excisional e curetagem, obtendo-se uma cicatrização adequada e confirmação diagnóstica através da análise histopatológica do material. Neste estudo, é afirmado que o tratamento ideal do COC (cisto odontogênico calcificante) é a enucleação cística seguida de curetagem, com taxas reduzidas de recidivas.
Também sobre o COC, o estudo de Elton, J. et al aborda, através de um relato de caso, outro método de tratamento dos cistos de Gorlin, a descompressão, na qual deve ser realizada anteriormente à exérese da lesão. Assim, um paciente de 18 anos, sexo masculino, apresentou um aumento de volume na região mandibular próxima aos molares inferiores direito. Observou-se nos exames radiográficos a expansão na cortical óssea devido ao tamanho do cisto ali presente, sendo necessário a punção aspirativa para a realização da análise histopatológica. Com a obtenção do diagnóstico, foi realizado previamente a instalação de um dispositivo para a descompressão em região retromolar, haja visto o tamanho da lesão e a proximidade com estruturas nobres. O paciente permaneceu com o dispositivo por seis meses e, diante disso, observou-se uma redução volumétrica significativa, possibilitando assim a realização da enucleação e curetagem de maneira segura e eficaz.
O relato de caso realizado por França, G. M et al relata sobre a presença de um cisto odontogênico glandular em um paciente de 36 anos do sexo masculino. O paciente relatou dor durante a mastigação na região posterior esquerda da mandíbula e, ao observar as radiografias, constatou-se uma lesão radiolúcida, osteolítica e multilocular envolvendo corpo, ramo e ângulo mandibular esquerdo. Através da biópsia incisional e envio do material para análise histopatológica, constatou-se fragmentos de lesão cística de origem odontogênica, sendo comprovado (pelas características celulares) a natureza da lesão como cisto odontogênico glandular. O tratamento consistiu na ressecção da lesão mandibular com margem de segurança de 1 cm, seguida da instalação de placa de reconstrução mandibular do sistema 2,4 mm, previamente moldada em biomodelo. Em paralelo, foi retirado enxerto da crista ilíaca anterior, que foi adaptado e fixado na área ressecada com parafusos. A mecanoterapia ativa por elásticos foi iniciada no pós-operatório imediato, utilizada tanto para fixação maxilomandibular quanto para fisioterapia. O paciente apresentou boa evolução, com diagnóstico confirmado de margens livres e acompanhamento por seis meses.
Ferreira, L et al (2018) abordou em seu relato de caso o aparecimento de um cisto odontogênico ortoceratinizado em uma paciente do sexo feminino de 19 anos. A paciente relato histórico de mobilidade dentária e dor periodontal no dente 85 (o elemento 45 não havia erupcionado). Assim, após a constatação do diagnóstico através do exame histopatológico, foi realizado a enucleação, curetagem e exodontia dos elementos 85 e 45. Em dois anos de pós operatório, não houve recidiva da lesão e a região apresentou alto estágio de neoformação óssea.
Acompanhando-se os cistos de desenvolvimento, foi observado dois casos a respeito dos cistos gengivais. Em 2023, Mota et al, realizou um relato de caso sobre o cisto gengival do adulto. A paciente de 52 anos, sexo feminino, observou o desenvolvimento da lesão em 3 meses. A lesão não apresentou qualquer tipo de sintomas e media cerca de 6mm. O tratamento em questão foi através da biópsia excisional e, após um ano, observou-se ausência de características que indicassem recidiva. Já em 2011, foi observado por MODA, A. alguns cistos gengivais do recém-nascido em um paciente de 15 dias, sendo que tais lesões apareceram desde o seu nascimento. O profissional acompanhou o paciente e em três meses, a lesão desapareceu espontaneamente sem que houvesse qualquer tipo de intervenção.
De Carvalho et al (2011) relatou o caso de uma paciente de 50 anos, sexo feminino, melanoderma, na qual apresentou um cisto lateral periodontal na região do elemento 32. A paciente observou o surgimento desta mobilidade por seis meses. Assim, a palpação era assintomática na região e os elementos 32 e 33 estavam com vitalidade pulpar. Foi realizada a enucleação lateral da lesão e, com o acompanhamento de 2 anos, constatou-se uma cicatrização sem intercorrências e regeneração óssea espontânea. A biópsia foi realizada após a enucleação, confirmando-se o diagnóstico de cisto lateral periodontal.
O relato de caso publicado em 2017 por Fernanda, M et al apresentou um relato no qual houve a exérese do cisto odontogênico ceratocisto com a associação de três etapas de tratamento: a instalação de um dreno para descompressão, a enucleação e a irrigação copiosa da solução de Carnoys. Assim, os autores afirmam que, no primeiro momento, a suspeita diagnóstica era de um cisto dentígero, realizando-se a instalação de um dreno logo após a coleta de material resultante da biópsia incisional. A constatação diagnóstica de um queratocisto trouxe a necessidade de realização de um tratamento mais radical, sendo necessário a enucleação cística e, logo após, aplicou-se por três vezes a solução de Carnoys, durante um minuto, intercalando-se com a lavagem de água destilada na região. O paciente ficou com parestesia por mais de sessenta dias, porém, ao retornar em 1 ano, estava sem sintomas e com reparo ósseo satisfatório.
Em 2017, o foi relatado na pesquisa de SEN-TUNC, et al 66 casos de cistos de erupção e quais foram as condutas clínicas realizadas. Ao todo, totalizaram-se 53 pacientes, variando-se de 5 meses a 11 anos de idade. O diagnóstico foi realizado através de análise clínica e, quando tinha a colaboração do paciente, era feita a radiografia periapical. De acordo com a análise, 86,8% dos pacientes não apresentaram qualquer tipo de desconforto, porém, 13,2% relataram dor ao mastigar, sendo necessário a realização de intervenção cirúrgica. Assim, o tratamento primordial foi a realização de massagem na região do cisto há cada 15 dias de intervalo, juntamente com o monitoramento da regressão espontânea. Nos 7 casos onde foi necessário intervenção cirúrgica (13,2% dos pacientes), foi-se realizado a incisão e drenagem, sendo que 4 destes foi-se realizado sedação e 3 apenas a anestesia local. Em todos os casos, o dente presente na região da lesão erupcionou-se em poucas semanas.
Ainda falando sobre a utilização da solução de Carnoys, o estudo comparativo abordado por Bartolomeu, S et al comparou este composto químico com a criocirurgia e o 5- fluorouracila no tratamento de lesões ósseas bucomaxilofaciais com potencial de recidiva. Neste trabalho, afirmou-se que a solução de Carnoy atua como agente fixador, prevenindo a recidiva através da erradicação de células remanescentes. Logo, o estudo ressalta que a solução de Carnoys se destacou pela sua eficácia e, dentre as substâncias comparadas, é a melhor opção para o tratamento das lesões mencionadas
Através dos estudos abordados por Nascimento, G et al, a marsupialização pode atuar como alternativa conservadora no manejo de cistos odontogênicos, favorecendo a diminuição do volume da lesão e a regeneração óssea, ao mesmo tempo em que preserva estruturas anatômicas adjacentes. Trata-se de um procedimento menos invasivo, associado a menor morbidade, embora o sucesso dependa da correta execução da técnica, da higiene local e do acompanhamento clínico-radiográfico regular. Nos dois relatos avaliados, a abordagem mostrou-se eficaz em cistos dentígeros e inflamatórios, alcançando resolução completa sem necessidade de cirurgias complementares e sem registro de recidivas.
A etiopatogenia e diagnóstico de cistos odontogênicos inflamatórios foi abordado por Carvalho, G. A. O. et al (2020) e por Lucas Lemos Dupont et al (2024). Ambos os estudos destacaram tratamentos ideais para esta classificação de cistos. O cisto periapical radicular de origem inflamatória, quando se encontra em volume reduzido, pode ser tratado através da extração do elemento dentário que se interliga com a lesão ou através de tratamento endodôntico. Já cistos maiores, certamente precisam de intervenção cirúrgica, variando-se desde a marsupialização e enucleação até a cirurgia paraendodôntica. A origem destes ainda é desconhecida, mas a principal hipótese é um processo infeccioso resultante de uma inflamação pulpar.
O estudo de Martorelli et al. (2021) relatou o caso de um cisto periapical residual em paciente de 52 anos, diagnosticado por meio de exames clínico e tomográfico, que evidenciaram uma lesão radiolúcida bem delimitada na maxila. O tratamento foi realizado inicialmente por marsupialização, visando à descompressão e redução do volume da cavidade, seguida posteriormente de enucleação completa. Após acompanhamento clínico de três anos, não houve sinais de recidiva, demonstrando que a marsupialização é um método eficaz e conservador, capaz de reduzir o trauma cirúrgico e favorecer o prognóstico.
No estudo de Nascimento et al. (2021), foi apresentado um caso de queratocisto odontogênico recidivante em paciente de 30 anos, com histórico de tratamento prévio por marsupialização e enucleação. Após seis anos, a paciente apresentou recidiva na região anterior da mandíbula, confirmada por tomografia computadorizada e exame histopatológico. O tratamento consistiu em nova enucleação completa, com acompanhamento clínico subsequente. O caso reforçou a natureza agressiva e o elevado potencial de recidiva desse tipo de cisto, ressaltando a importância do acompanhamento clínico-radiográfico periódico mesmo após o tratamento cirúrgico.
Silva et al. (2020) descreveram um caso de queratocisto odontogênico em mandíbula direita, diagnosticado por exame radiográfico e confirmado histologicamente. O tratamento foi realizado em duas etapas: inicialmente, uma descompressão com instalação de dispositivo por nove meses, seguida de enucleação e ostectomia periférica. O acompanhamento pós-operatório de seis meses demonstrou neoformação óssea completa e ausência de recidiva. O artigo conclui que a associação entre descompressão e enucleação é eficaz e segura, com preservação das estruturas anatômicas e baixo índice de complicações.
Em estudo conduzido por El Gaouzi e El Harti (2021), relatou-se um caso de cisto dentígero mandibular associado a canino incluso em paciente de 25 anos. O tratamento selecionado foi a enucleação completa com remoção do dente incluso, levando-se em consideração a impossibilidade de acompanhamento periódico. As autoras discutem os critérios para escolha entre enucleação e marsupialização, destacando que a enucleação é indicada para lesões de menor extensão ou quando não há possibilidade de preservação do dente envolvido, enquanto a marsupialização é preferível em lesões volumosas e em pacientes jovens, com possibilidade de monitoramento pós-operatório.
Por fim, Cedin et al. (2005) analisaram quatro casos de cistos odontogênicos com extensão intra-sinusal, complicados por fístula oroantral e sinusite crônica, tratados por meio de cirurgia videoendoscópica transmaxilar. Todos os pacientes evoluíram com resolução completa da infecção, cicatrização das fístulas e ausência de recidiva após dois anos de acompanhamento. O estudo demonstrou que a abordagem videoendoscópica é um método seguro e eficaz para remoção de cistos odontogênicos com envolvimento do seio maxilar, reduzindo o risco de complicações e favorecendo a recuperação funcional.
7.0 DISCUSSÃO
A análise dos estudos e relatos de caso evidencia a variedade de manifestações clínicas e de abordagens terapêuticas dos cistos odontogênicos. Embora sejam lesões benignas, muitas delas apresentam comportamento expansivo e localmente agressivo, podendo comprometer estruturas anatômicas importantes. A escolha do tratamento depende do tipo de cisto, da idade do paciente, da extensão da lesão e da possibilidade de acompanhamento pós-operatório, reforçando a necessidade de individualização em cada caso.
Nos cistos de desenvolvimento, como os dentígeros, os trabalhos de Caliento et al. (2013) e Araújo et al. (2024) destacam que a enucleação é o tratamento mais empregado na literatura, por permitir a remoção completa da cápsula e reduzir o risco de recidiva. Entretanto, nas lesões mais extensas ou em pacientes jovens, a marsupialização e a descompressão são alternativas conservadoras eficazes, que possibilitam a preservação dos dentes e o favorecimento da neoformação óssea. Em alguns casos, a combinação de técnicas — como marsupialização seguida de enucleação — apresentou bons resultados clínicos, conciliando a redução do tamanho da lesão com menor agressão cirúrgica.
Nos cistos inflamatórios, como o cisto periapical residual, Martorelli et al. (2021) relataram a eficácia da marsupialização como etapa inicial, seguida de enucleação completa, com cicatrização satisfatória e ausência de recidiva após três anos de acompanhamento. Essa conduta vai ao encontro das recomendações de Carvalho et al. (2020) e Dupont et al. (2024), que ressaltam o benefício de abordagens conservadoras em lesões de maior volume, desde que associadas a acompanhamento clínico e radiográfico periódico.
Em relação aos cistos de comportamento mais agressivo, como o queratocisto odontogênico, os estudos analisados reforçam a necessidade de protocolos mais amplos e acompanhamento prolongado. Nascimento et al. (2021) relataram um caso de recidiva mesmo após tratamento cirúrgico completo, o que demonstra o potencial infiltrativo dessa lesão. Silva et al. (2020) observaram bons resultados com a combinação de descompressão e enucleação, associada à ostectomia periférica, que proporcionou regeneração óssea e ausência de recidiva. Outros autores, como Fernanda et al. (2017) e Bartolomeu et al. (2020), descreveram o uso da solução de Carnoy como adjuvante, destacando sua eficácia na eliminação de remanescentes epiteliais e prevenção de recidivas, embora exija cautela devido à possibilidade de irritação tecidual e parestesia temporária.
Nos cistos odontogênicos calcificantes e glandulares, as condutas também variaram conforme a extensão e o comportamento da lesão. Os casos relatados por Clínico A. et al. e Elton et al. confirmam a enucleação associada à curetagem como o tratamento mais indicado para o cisto odontogênico calcificante, com bom prognóstico e baixa taxa de recidiva. Já no caso descrito por França et al., o cisto odontogênico glandular exigiu ressecção segmentar com enxerto ósseo, devido à sua natureza mais agressiva e à ampla extensão mandibular, resultando em bom reparo e ausência de complicações.
Nos cistos gengivais, observou-se comportamento benigno e evolução favorável. O relato de Maria Emília Mota et al. (2023) mostrou sucesso com biópsia excisional simples, enquanto Moda (2011) registrou regressão espontânea das lesões neonatais, sem necessidade de intervenção. O cisto lateral periodontal, relatado por De Carvalho et al. (2011), também respondeu bem à enucleação, apresentando cicatrização completa e regeneração óssea, o que confirma o bom prognóstico dessas lesões quando diagnosticadas precocemente.
Cedin et al. (2005) abordaram uma técnica menos invasiva para casos de cistos com extensão sinusal, utilizando a cirurgia videoendoscópica transmaxilar, que permitiu a resolução de infecções associadas e preveniu complicações, como fístulas oroantrais e sinusites. Essa abordagem destaca a importância da integração entre especialidades médicas e odontológicas no tratamento de lesões que envolvem o complexo maxilofacial.
De modo geral, os estudos analisados demonstram que, embora as técnicas conservadoras apresentem vantagens funcionais e estéticas, elas exigem acompanhamento rigoroso e prolongado para evitar recidivas. A enucleação permanece como o procedimento mais utilizado e considerado padrão para a maioria dos cistos odontogênicos, sendo especialmente indicada em lesões bem delimitadas e de menor extensão. Já as técnicas complementares, como marsupialização, descompressão e o uso de agentes químicos adjuvantes, têm papel importante em casos complexos, volumosos ou recidivantes.
8.0 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Conclui-se que não existe uma técnica universalmente superior para a exérese de cistos odontogênicos. A escolha cirúrgica deve considerar o tipo de cisto, seu comportamento biológico, a idade do paciente e a relação com estruturas adjacentes. Enquanto a enucleação se mostra eficaz para a maioria dos casos, a marsupialização e as terapias combinadas constituem alternativas seguras em situações específicas. Assim, o conhecimento comparativo das diferentes técnicas contribui para decisões clínicas mais assertivas e para a redução de recidivas, garantindo melhor prognóstico funcional e estético ao paciente.
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