CYANOBACTERIA AND CYANOTOXINS IN WATER FROM RIVERSIDE COMMUNITIES: AN INTEGRATIVE REVIEW AND IMPACTS ON PUBLIC HEALTH
CIANOBACTERIAS Y CIANOTOXINAS EN EL AGUA DE COMUNIDADES RIBEREÑAS: UNA REVISIÓN INTEGRADORA Y SUS IMPACTOS EN LA SALUD PÚBLICA
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202511261420
Gerbgleisse Bahia Machado1
José Antônio Corrêa dos Santos2
Leiliane Souza da Silva3
RESUMO
Introdução: A água é essencial para a manutenção da vida e o equilíbrio dos ecossistemas, sendo um recurso indispensável às populações humanas. Entretanto, a contaminação de corpos hídricos por cianobactérias e suas toxinas representa uma ameaça crescente à saúde pública, especialmente em regiões de vulnerabilidade social e ambiental, como a Amazônia. Objetivo: Este estudo teve como objetivo realizar uma revisão integrativa da literatura sobre a ocorrência de cianobactérias e cianotoxinas em águas utilizadas por comunidades ribeirinhas da região Norte do Brasil, analisando suas implicações para a saúde e as estratégias de vigilância e controle adotadas. Metodologia: Trata-se de uma pesquisa qualitativa, conduzida nas bases LILACS, SciELO, PubMed/MEDLINE e Google Scholar, contemplando artigos publicados entre 2015 e 2025. A amostra final foi composta por 11 estudos, analisados segundo a metodologia de Bardin. Resultados e discussão: Os resultados foram organizados em três categorias: (1) ocorrência de cianobactérias e tipos de cianotoxinas; (2) implicações para a saúde das populações ribeirinhas; e (3) estratégias de vigilância, monitoramento e controle. Os achados evidenciaram a presença recorrente de Microcystis sp., Dolichospermum spiroides e Nostoc sp., produtoras de microcistinas, associadas à vulnerabilidade hídrica e ao déficit de saneamento básico. Considerações finais: Conclui-se que a ocorrência contínua de cianotoxinas, mesmo em níveis abaixo dos limites legais, reforça a necessidade de monitoramento permanente, políticas públicas integradas e tecnologias sociais de tratamento domiciliar, visando garantir a segurança hídrica e a saúde das populações ribeirinhas amazônicas.
Palavras-chaves: Cianobactérias; Cianotoxinas; Qualidade da água; Ribeirinhos; Saúde pública.
ABSTRACT
Introduction: Water is essential for the maintenance of life and the balance of ecosystems, being an indispensable resource for human populations. However, the contamination of water bodies by cyanobacteria and their toxins represents a growing threat to public health, especially in regions of social and environmental vulnerability, such as the Amazon. Objective: This study aimed to conduct an integrative literature review on the occurrence of cyanobacteria and cyanotoxins in waters used by riverside communities in the Northern region of Brazil, analyzing their implications for health and the surveillance and control strategies adopted. Methodology: This is a qualitative research, conducted in the LILACS, SciELO, PubMed/MEDLINE and Google Scholar databases, including articles published between 2015 and 2025. The final sample consisted of 11 studies, analyzed according to Bardin’s methodology. Results and discussion: The results were organized into three categories: (1) occurrence of cyanobacteria and types of cyanotoxins; (2) implications for the health of riverside populations; and (3) surveillance, monitoring and control strategies. The findings evidenced the recurrent presence of Microcystis sp.. Final considerations: It is concluded that the continuous occurrence of cyanotoxins, even at levels below legal limits, reinforces the need for permanent monitoring, integrated public policies and social technologies for home treatment, aiming to guarantee water security and the health of Amazonian riverside populations.
Keywords: Cyanobacteria; Cyanotoxins; Water quality; Riverside communities; Public health.
RESUMEN
Introducción: El agua es esencial para el mantenimiento de la vida y el equilibrio de los ecosistemas, siendo un recurso indispensable para las poblaciones humanas. Sin embargo, la contaminación de los cuerpos de agua por cianobacterias y sus toxinas representa una creciente amenaza para la salud pública, especialmente en regiones de vulnerabilidad social y ambiental, como la Amazonía. Objetivo: Este estudio tuvo como objetivo realizar una revisión bibliográfica integrativa sobre la presencia de cianobacterias y cianotoxinas en aguas utilizadas por comunidades ribereñas en la región norte de Brasil, analizando sus implicaciones para la salud y las estrategias de vigilancia y control adoptadas. Metodología: Se trata de una investigación cualitativa, realizada en las bases de datos LILACS, SciELO, PubMed/MEDLINE y Google Scholar, incluyendo artículos publicados entre 2015 y 2025. La muestra final consistió en 11 estudios, analizados según la metodología de Bardin. Resultados y discusión: Los resultados se organizaron en tres categorías: (1) presencia de cianobacterias y tipos de cianotoxinas; (2) implicaciones para la salud de las poblaciones ribereñas; y (3) estrategias de vigilancia, monitoreo y control. Los hallazgos evidenciaron la presencia recurrente de Microcystis sp., Dolichospermum spiroides y Nostoc sp., productoras de microcistinas, asociada a la vulnerabilidad del agua y la falta de saneamiento básico. Consideraciones finales: Se concluye que la presencia continua de cianotoxinas, incluso en niveles inferiores a los límites legales, refuerza la necesidad de un monitoreo permanente, políticas públicas integrales y tecnologías sociales para el tratamiento domiciliario, con el fin de garantizar la seguridad hídrica y la salud de las poblaciones ribereñas amazónicas.
Palabras clave: Cianobacterias; Cianotoxinas; Calidad del agua; Comunidades ribereñas; Salud pública.
1. INTRODUÇÃO
A água é essencial para a manutenção da vida no planeta Terra. Ecossistemas, sociedades e economias dependem de água limpa e em quantidade suficiente para seu funcionamento e desenvolvimento. Os recursos hídricos doces são continuamente renovados pelo ciclo da água, que envolve evaporação, precipitação e escoamento, determinando a distribuição e a disponibilidade desse recurso ao longo do tempo e do espaço. Nenhum processo metabólico ocorre sem a ação direta ou indireta da água, o que torna os ambientes aquáticos fundamentais para a existência humana e para a manutenção dos ecossistemas (Merel; Walker; Snider, 2021).
Entre os inúmeros organismos que habitam os ecossistemas aquáticos, a comunidade fitoplanctônica se destaca por sua relevância ecológica. O fitoplâncton é responsável pela produtividade primária e reflete, de forma sensível, os impactos antrópicos e naturais sobre o ecossistema. Nesse contexto, o monitoramento do fitoplâncton, especialmente das cianobactérias, é fundamental, uma vez que certas espécies podem produzir toxinas (cianotoxinas) capazes de comprometer a qualidade da água e representar risco à saúde humana e animal. Em comunidades ribeirinhas que utilizam a água dos rios para consumo doméstico, pesca e irrigação, a presença dessas toxinas pode causar efeitos adversos diversos, incluindo distúrbios hepáticos, neurológicos e gastrointestinais (Guimarães et al., 2021).
Historicamente, o fitoplâncton de ambientes lóticos recebeu menor atenção em estudos limnológicos devido à dificuldade de mensurar variáveis ambientais em habitats sujeitos a rápidas alterações temporais e espaciais. No entanto, em reservatórios de abastecimento público, espécies potencialmente tóxicas, como as cianobactérias, são reconhecidas como bioindicadoras da qualidade da água (Bernardes et al., 2022).
As cianotoxinas são metabólitos secundários produzidos por cianobactérias e podem causar sérios danos à saúde humana. Diversos gêneros são reconhecidos como potenciais produtores de cianotoxinas, incluindo Microcystis, Dolichospermum, Planktothrix, Nostoc, Anabaenopsis, Cylindrospermopsis, Aphanizomenon, Umezakia, Raphidiopsis, Oscillatoria, Nodularia, Geitlerinema, Phormidium, Lyngbya e Trichodesmium (Souza; Cáceres-durán, 2023). Entre essas toxinas, a microcistina e a nodularina estão envolvidas na maioria dos casos de intoxicação: enquanto a microcistina é produzida por diversos gêneros, a nodularina é exclusiva do gênero Nodularia. Além disso, uma mesma cianotoxina pode ser produzida por diferentes gêneros de cianobactérias, e uma única espécie pode sintetizar múltiplas toxinas (Gradíssimo; Mourão; Santos, 2020).
Os efeitos das cianotoxinas em humanos variam desde sintomas agudos, como irritação cutânea, vômitos, diarreia e gastroenterites, até efeitos crônicos, incluindo formação de tumores hepáticos, convulsões e danos hepáticos graves que podem levar à morte (Cardoso, 2024). Classicamente, as cianotoxinas são categorizadas conforme seus efeitos: neurotóxicas (anatoxina-a, anatoxina-a(s) e saxitoxinas), que afetam o sistema nervoso; hepatotóxicas (microcistina, nodularina e cilindrospermopsina), que prejudicam o fígado; e dermatotóxicas, que causam lesões cutâneas (Bernardes et al., 2022).
Dessa forma, conhecer a composição, abundância e distribuição das espécies fitoplanctônicas em rios e reservatórios é essencial para avaliar a saúde ambiental e prevenir riscos à saúde pública. A identificação de florações de cianobactérias permite monitorar alterações ecológicas e antecipar possíveis episódios de contaminação por cianotoxinas, fornecendo subsídios para ações de manejo, vigilância sanitária e educação em saúde nas comunidades que dependem desses recursos hídricos. A integração de dados limnológicos com informações sobre a dinâmica hidrológica e o uso do solo na bacia hidrográfica amplia a capacidade de prever proliferações de espécies tóxicas, contribuindo para estratégias de mitigação mais eficazes e para a proteção da população ribeirinha (Cardoso, 2024).
De acordo com a International Union for Conservation of Nature (IUCN, 2019), três fatos são fundamentais para compreender a disponibilidade e a gestão da água doce: a demanda global por água doce é cerca de 40% maior que a oferta, sobrecarregando muitos sistemas hídricos e provocando o desaparecimento de alguns; aproximadamente 80% das águas residuais globais retornam aos ecossistemas aquáticos sem tratamento, causando poluição em praticamente todos os sistemas de água doce do planeta; e cerca de um bilhão de pessoas já enfrentam escassez de água, tornando comunidades dependentes dos serviços ecossistêmicos cada vez mais vulneráveis (Bernardes et al., 2022).
Além disso, a ausência, inadequação ou gestão ineficiente dos serviços de água e saneamento pode expor a população a riscos graves à saúde devido à presença de micro-organismos patogênicos. Para avaliar a qualidade microbiológica da água, são utilizados micro-organismos indicadores de contaminação (APHA, 2012).
As doenças de veiculação hídrica (DVH) recebem essa denominação quando causadas por organismos ou outros contaminantes disseminados diretamente pela água (Brasil, 2013). Entre os micro-organismos patogênicos presentes na água estão protozoários, helmintos, vírus e bactérias, que podem provocar doenças como diarreia, febre tifoide e paratifoide, disenterias bacilar e amebiana, cólera, gastroenterites agudas e crônicas, hepatites A e E e poliomielite (Brasil, 2013; COPASA, 2019).
Diante desse cenário, o estudo se justifica pela necessidade de compreender, de forma detalhada, o monitoramento do fitoplâncton e das cianotoxinas em águas utilizadas por comunidades ribeirinhas, bem como suas implicações para a saúde pública. Essa análise permitirá identificar tendências, padrões de ocorrência e potenciais riscos à população, fornecendo subsídios para a implementação de estratégias de prevenção e manejo da qualidade da água.
Portanto, a avaliação sistemática do fitoplâncton e das cianotoxinas em águas consumidas por populações vulneráveis constitui uma ferramenta estratégica de saúde pública, permitindo prevenir intoxicações e orientar políticas de gestão ambiental e de saneamento básico.
Para tanto, o estudo busca responder às seguintes questões-problema:
De que forma a contaminação por cianotoxinas compromete a qualidade de vida e a saúde das populações ribeirinhas?
Existem políticas públicas ou ações de vigilância sanitária voltadas à detecção e controle das cianotoxinas?
Quais lacunas de conhecimento persistem sobre o tema na perspectiva da saúde pública?
Objetivo desse estudo é descrever uma revisão integrativa da literatura sobre a ocorrência de cianobactérias e cianotoxinas em águas utilizadas por comunidades ribeirinhas da região Norte do Brasil, analisando suas implicações para a saúde pública e as estratégias de vigilância e controle adotadas.
2. METODOLOGIA
A presente pesquisa baseou-se em um estudo do tipo Revisão Integrativa da Literatura (RIL), com abordagem qualitativa (Mendes et al., 2020).
A RIL caracterizou-se como uma pesquisa científica composta por objetivos próprios, problema de pesquisa, metodologia, resultados e conclusões, não se constituindo apenas como uma introdução de uma pesquisa maior, como ocorre nas revisões de literatura de conveniência. Seguiu-se o rigor metodológico e a clareza na apresentação dos resultados, de forma que o leitor pudesse identificar as características reais dos estudos incluídos na revisão (Mendes et al., 2020).
A pesquisa qualitativa teve caráter essencialmente interpretativo, uma vez que o pesquisador realizou uma análise dos dados a partir de uma visão holística dos fenômenos sociais. Quanto mais complexa, interativa e abrangente a narrativa, melhor se configurou o estudo qualitativo (Cesário et al., 2021).
Para a elaboração deste trabalho, foram seguidas as seis fases do processo de desenvolvimento de uma Revisão Integrativa da Literatura: 1ª Etapa – Identificação do tema e seleção da hipótese ou questão de pesquisa para a elaboração da revisão integrativa; 2ª Etapa – Busca das melhores evidências disponíveis; 3ª Etapa – Avaliação crítica das evidências encontradas; 4ª Etapa – Integração das evidências; 5ª Etapa – Discussão dos resultados; e 6ª Etapa – Apresentação da síntese do conhecimento produzido e revisão/sistematização do conhecimento (Mendes et al., 2020).
Para este estudo, definiu-se como pergunta norteadora: “Quais são as evidências disponíveis na literatura científica sobre a ocorrência de cianobactérias e cianotoxinas em águas utilizadas por comunidades ribeirinhas da região Norte do Brasil e suas implicações para a saúde pública? ”
O estudo foi realizado nas bases eletrônicas de dados Literatura LatinoAmericana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), Scientific Electronic Library Online (SciELO) acessadas por meio da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), PubMed/MEDLINE e Google Scholar. Essas plataformas foram selecionadas por sua relevância na indexação de publicações científicas nacionais e internacionais na área da saúde, o que possibilitou o acesso a estudos atualizados e de qualidade sobre a ocorrência de cianobactérias e cianotoxinas em águas utilizadas por comunidades ribeirinhas e suas implicações para a saúde pública.
Foram incluídos artigos científicos disponíveis nas bases de dados definidas, com base nos descritores: “Cianobactérias; Cianotoxinas; Qualidade da água; Ribeirinhos; Saúde pública”, retirados dos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS). Foram selecionados artigos publicados na íntegra, originais, em língua portuguesa, espanhola ou inglesa, com acesso gratuito, que abordaram a questão norteadora do estudo, e que foram publicados no período de 2015 a 2025.
Foram excluídos trabalhos de conclusão de curso de graduação, projetos de dissertação, relatórios de pesquisa, resumos de eventos, resenhas, editoriais, livros, capítulos de livros, publicações governamentais e boletins informativos, bem como estudos fora do período de recorte temporal de 2015 a 2025.
A coleta de dados foi realizada por meio da aplicação de um formulário estruturado, adaptado do modelo proposto por Ursi (2005), previamente validado para o levantamento e organização de informações em revisões integrativas da literatura. O instrumento foi elaborado com o objetivo de sistematizar a extração dos dados de forma padronizada, favorecendo a comparação e a síntese dos estudos incluídos.
O formulário contemplou variáveis relacionadas à identificação e caracterização dos artigos, incluindo: título, autores, ano de publicação, país de origem do estudo, base de dados de indexação, idioma e periódico de publicação. Além desses aspectos, o instrumento abrangeu também informações metodológicas, tais como: tipo de estudo, delineamento da pesquisa, população e amostra investigada, objetivos, principais resultados e conclusões apresentadas pelos autores.
Durante o processo de coleta, cada artigo selecionado foi analisado individualmente, e os dados foram registrados manualmente e organizados em planilha eletrônica para facilitar a tabulação, a categorização e a posterior análise qualitativa. Esse procedimento permitiu a construção de uma base comparativa entre os estudos, assegurando maior rastreabilidade, transparência e rigor metodológico na condução da revisão integrativa.
A análise dos resultados foi conduzida conforme a metodologia proposta por Bardin (2020), a qual se caracteriza por um conjunto de técnicas de análise de comunicações que visam obter, por procedimentos sistemáticos e objetivos, indicadores que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção e recepção das mensagens.
Na primeira etapa, correspondente à pré-análise, o material foi organizado e analisado de modo a torná-lo operacional, mediante leitura flutuante, seleção dos documentos, formulação das hipóteses e objetivos, e preenchimento individual dos artigos selecionados segundo os critérios de inclusão e exclusão previamente estabelecidos.
Na segunda etapa, referente à exploração do material, foram definidas as categorias e sistemas de codificação, sendo realizada a leitura aprofundada dos artigos e a exposição individual dos dados em quadros de síntese.
Na terceira etapa, correspondente ao tratamento dos resultados e interpretação, foram apresentados os achados que responderam aos objetivos da pesquisa, com os resultados descritos, categorizados e discutidos à luz da literatura pertinente.
Além disso, foi realizada uma análise descritiva qualitativa, considerando o contexto e a relevância dos resultados obtidos. Para tanto, foi efetuada uma leitura minuciosa dos artigos a fim de responder à questão norteadora da pesquisa, discutindo e comparando os resultados encontrados nas revisões bibliográficas, com o intuito de confirmar os objetivos propostos (Bardin, 2020).
A pesquisa foi conduzida em conformidade com os preceitos éticos estabelecidos pela Resolução nº 466, de 12 de dezembro de 2012, do Conselho Nacional de Saúde (CNS), a qual dispõe sobre os princípios de autonomia, beneficência, não maleficência, justiça e equidade, que norteiam as pesquisas científicas envolvendo seres humanos.
Por se tratar de uma revisão integrativa da literatura, sem a realização de intervenções ou coletas de dados diretas com seres humanos, não houve necessidade de submissão do projeto ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP), conforme o disposto na Resolução nº 510/2016 do CNS, que estabelece as diretrizes aplicáveis a pesquisas que utilizam informações de acesso público e dados secundários.
Durante todas as etapas do estudo, foram respeitados integralmente os direitos autorais dos autores das obras consultadas, observando-se rigorosamente as normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) quanto às citações e referências bibliográficas.
Além disso, foram assegurados os princípios de integridade científica e responsabilidade ética, garantindo a fidedignidade das informações, a transparência na apresentação dos resultados e a devida atribuição de crédito às fontes utilizadas.
3. RESULTADOS
A busca nas bases de dados LILACS, SciELO, PubMed/MEDLINE e Google Scholar, utilizando os descritores “Cianobactérias; Cianotoxinas; Qualidade da água; Ribeirinhos; Saúde pública”, resultou inicialmente em 67 registros. Após a remoção das duplicatas, permaneceram 53 artigos.
Na etapa de triagem dos títulos e resumos, 36 estudos foram excluídos por não atenderem aos critérios de inclusão, por abordarem temáticas não relacionadas à qualidade da água em comunidades ribeirinhas ou por não apresentarem enfoque na saúde pública.
A leitura na íntegra dos 17 artigos restantes resultou na exclusão de seis estudos, os quais se configuravam como revisões de literatura, editoriais, relatórios técnicos ou não estavam disponíveis em texto completo. Dessa forma, a amostra final da revisão integrativa foi composta por 11 artigos científicos, publicados entre 2015 e 2025, que atenderam integralmente aos critérios de elegibilidade definidos para esta pesquisa.
Os dados extraídos dos estudos selecionados foram organizados em quadros e categorizados conforme ano de publicação, autoria, título, objetivos e principais resultados, a fim de subsidiar a quarta etapa da revisão integrativa, referente à avaliação crítica dos estudos primários, apresentada na seção de resultados.
Quadro 1 – Artigos selecionados nas bases de dados LILACS, SciELO, PubMed/MEDLINE e Google Scholar utilizados como base para esta revisão integrativa no período de 2015 a 2025.




Fonte: Extraído os artigos selecionados para RIL (2025).
A análise qualitativa desses estudos permitiu identificar padrões de ocorrência de cianobactérias e cianotoxinas em águas utilizadas por comunidades ribeirinhas da região Norte do Brasil, assim como compreender suas implicações para a saúde pública local. Os resultados foram organizados em categorias temáticas, a seguir discutidas, relacionando os achados de cada estudo à literatura pertinente.
A avaliação detalhada dos 11 artigos evidenciou informações sobre a ocorrência de cianobactérias e cianotoxinas, seus impactos sobre a saúde das populações ribeirinhas e as estratégias de vigilância e monitoramento adotadas. Para facilitar a análise, os resultados foram estruturados em três categorias principais: Categoria 1: Ocorrência de cianobactérias e tipos de cianotoxinas; Categoria 2: Implicações para a saúde das populações ribeirinhas e Categoria 3: Estratégias de vigilância, monitoramento e controle.
4. DISCUSSÕES
Categoria 1: Ocorrência de cianobactérias e tipos de cianotoxinas
A presença de cianobactérias e suas toxinas, especialmente microcistinas, constitui um importante indicador da qualidade da água e um potencial risco à saúde pública em regiões ribeirinhas da Amazônia. Essas toxinas podem provocar efeitos adversos em seres humanos e animais, incluindo doenças hepáticas e gastrointestinais, e estão frequentemente associadas à proliferação de espécies como Microcystis, Dolichospermum e Nostoc.
Os estudos incluídos nesta categoria destacam tanto a diversidade de cianobactérias presentes nos ecossistemas aquáticos da região quanto a detecção de microcistinas em níveis que, embora muitas vezes abaixo dos limites legais para uso recreativo, indicam a necessidade de monitoramento contínuo. Além disso, inventários de espécies fornecem informações detalhadas sobre a composição da comunidade fitoplanctônica, permitindo identificar potenciais riscos toxicológicos e subsidiar estratégias de vigilância e gestão da qualidade da água.
A seguir, apresenta-se o Quadro 2, que sintetiza os principais achados relacionados à ocorrência de cianobactérias e tipos de cianotoxinas em diferentes ecossistemas aquáticos da região amazônica. Esta categoria inclui estudos que investigaram tanto a diversidade de cianobactérias quanto a presença de microcistinas e outras toxinas, destacando os riscos potenciais à saúde pública, especialmente para populações ribeirinhas que dependem diretamente desses recursos hídricos para consumo, recreação e atividades domésticas.
Quadro 2 – Síntese da Categoria 1

Fonte: Elaborado pelos autores a partir da síntese dos estudos incluídos na RIL (2025)
A ocorrência de cianobactérias em ambientes aquáticos tem se intensificado nas últimas décadas, impulsionada por fatores como o aumento da eutrofização, elevação das temperaturas médias e alterações no regime hidrológico. Esses microrganismos fotossintetizantes proliferam em águas doces e salobras, formando florações que comprometem a qualidade da água e a segurança ambiental (Torres et al., 2020). A diversidade e a frequência dessas florações indicam uma adaptação das cianobactérias às condições ambientais modificadas pelas ações antrópicas.
No estado do Pará, estudos recentes têm demonstrado a ampla distribuição de cianobactérias potencialmente tóxicas, como observado por Nunes (2022), que identificou 153 táxons distribuídos em 27 famílias, com destaque para Merismopediaceae, Oscillatoriaceae, Microcystaceae e Microcoleaceae. A predominância desses grupos reforça a importância do monitoramento regional, visto que muitas dessas famílias incluem gêneros produtores de toxinas com alto potencial de impacto sobre ecossistemas aquáticos e a saúde humana.
As cianotoxinas são metabólitos secundários produzidos por algumas espécies de cianobactérias. Entre as mais estudadas estão as microcistinas, cilindrospermopsinas, anatoxinas e saxitoxinas, que variam em toxicidade e efeitos fisiológicos (Carmichael, 2008; Chorus & Welker, 2021). Dentre elas, as microcistinas se destacam pela alta estabilidade química e pelo risco hepatotóxico, sendo comumente associadas às espécies do gênero Microcystis, como observado em diversos corpos d’água da Amazônia.
Em pesquisa realizada no Rio Tapajós, Silva, Peleja e Melo (2019) detectaram microcistinas em todo o período amostrado, associadas à presença de Microcystis sp. Embora as concentrações observadas estivessem abaixo do limite estabelecido pela Resolução CONAMA nº 357/2005 para uso recreativo, a detecção contínua evidencia a persistência dessas toxinas no ambiente e a necessidade de monitoramento permanente para prevenir riscos à saúde pública.
O estudo de Torres et al. (2020) reforça essa preocupação ao relatar a predominância de espécies produtoras de cianotoxinas, como Microcystis aeruginosa, Dolichospermum spiroides e Nostoc sp., correspondendo a 38% dos indivíduos identificados. Essa alta representatividade indica que as condições limnológicas locais favorecem o desenvolvimento de cianobactérias toxigênicas, potencializando o risco de episódios de floração nociva com implicações diretas para o abastecimento e uso recreativo das águas.
As microcistinas, principais toxinas registradas nos estudos amazônicos, são hepatotoxinas de estrutura peptídica cíclica, conhecidas por inibir as proteínas fosfatases 1 e 2A em células hepáticas, causando degeneração celular e necrose hepática (Chorus & Bartram, 1999). Além de afetarem organismos aquáticos e animais domésticos, sua bioacumulação pode atingir níveis tróficos superiores, representando risco potencial à saúde humana por meio do consumo de água ou alimentos contaminados.
Em estudo mais recente, Oliveira et al. (2025) identificaram níveis de microcistina de até 24 μg/L em águas de praias da região de Santarém, valor classificado como nível de alerta 1 segundo os parâmetros da Organização Mundial da Saúde (OMS, 2020). Apesar de os parâmetros limnológicos gerais estarem dentro dos limites de balneabilidade estabelecidos pela CONAMA 357/2005, a presença de cianobactérias potencialmente tóxicas reforça que a boa qualidade físico-química da água não elimina o risco biológico associado às florações.
A variabilidade espacial e temporal das florações cianobacterianas depende de fatores como luminosidade, disponibilidade de nutrientes e temperatura. No estudo de Silva, Peleja e Melo (2019), não foram observadas variações significativas relacionadas à pluviosidade ou ao pulso de inundação, o que sugere que a ocorrência contínua de Microcystis sp. pode estar associada à resiliência ecológica da espécie e à estabilidade térmica das águas tropicais, comuns na região amazônica.
O monitoramento da ocorrência de cianobactérias e cianotoxinas é essencial para subsidiar planos de gestão da qualidade da água, sobretudo em regiões com intenso uso recreativo e turístico, como o oeste do Pará. A integração entre pesquisa científica, vigilância ambiental e políticas públicas é fundamental para mitigar os impactos das florações tóxicas, especialmente em contextos de vulnerabilidade sanitária e mudanças climáticas (Paerl & Otten, 2016).
Em síntese, os estudos revisados demonstram que a ocorrência de cianobactérias e suas toxinas na Amazônia paraense não é um evento isolado, mas um fenômeno recorrente e multifatorial. A identificação de espécies toxigênicas e de microcistinas em diferentes corpos d’água, desde o Rio Tapajós até as praias de Santarém. Evidencia a necessidade de ações interinstitucionais de monitoramento e controle, garantindo a proteção da saúde pública e a conservação dos ecossistemas aquáticos amazônicos.
Categoria 2: Implicações para a saúde das populações ribeirinhas
O acesso à água de qualidade é um fator determinante para a saúde das populações ribeirinhas da Amazônia, que dependem diretamente de rios e igarapés para consumo, higiene, pesca e outras atividades domésticas. A contaminação das águas por coliformes, bactérias heterotróficas, microcistinas e outros poluentes representa um risco significativo à saúde humana, podendo provocar doenças gastrointestinais, hepáticas e infecções de pele, além de agravar a vulnerabilidade de comunidades com acesso limitado a serviços de saúde.
Os estudos incluídos nesta categoria evidenciam que a falta de saneamento básico, a precariedade das instalações hidráulicas e a dependência de fontes naturais não tratadas contribuem para o aumento da exposição a agentes patogênicos. Além disso, destacam-se os impactos sociais e econômicos da inacessibilidade à água segura, mostrando que a proteção da saúde das populações ribeirinhas depende tanto do monitoramento da qualidade da água quanto de estratégias de intervenção e educação ambiental.
A seguir, apresenta-se o Quadro 3, que sintetiza os principais achados relacionados às implicações para a saúde das populações ribeirinhas. O quadro organiza os estudos segundo artigo, eixo temático e principais achados, permitindo uma visualização integrada dos riscos à saúde associados à qualidade da água na região amazônica.
Quadro 3 – Síntese da Categoria 2

Fonte: Elaborado pelos autores a partir da síntese dos estudos incluídos na RIL (2025)
As populações ribeirinhas amazônicas vivem em um contexto de intensa interação com o ambiente aquático, o que as torna particularmente vulneráveis às variações na qualidade da água. A dependência direta de rios, igarapés e poços para o consumo e atividades domésticas, aliada à ausência de sistemas de tratamento e saneamento, expõe essas comunidades a múltiplos riscos sanitários. Segundo Rodrigues (2024), o acesso limitado à água potável compromete a sobrevivência e o sustento das famílias ribeirinhas, configurando um grave problema de saúde pública.
A pesquisa de de Sousa et al. (2016), conduzida na microbacia do Igarapé Cumaru (Igarapé-Açu/PA), demonstra que a vulnerabilidade das fontes hídricas rurais é um fator determinante para a contaminação da água, resultando em ameaça direta à saúde humana. O estudo ressalta que a ausência de barreiras sanitárias, como cercas de proteção, cobertura e distanciamento de fontes de contaminação (como fossas e currais), contribui para a introdução de patógenos nas águas consumidas diariamente.
A precariedade das condições de saneamento básico também é destacada por Moraes e Fagundes (2015), ao analisarem a comunidade Paracuri III, onde a água utilizada para consumo e higiene doméstica apresentou coliformes, pH ácido e elevada matéria orgânica. Esses parâmetros, fora dos padrões de potabilidade definidos pela Portaria GM/MS nº 888/2021, indicam risco microbiológico e químico significativo, favorecendo a disseminação de doenças de veiculação hídrica, como diarreia infecciosa, hepatite A e leptospirose.
De forma semelhante, o estudo de Porcy et al. (2020) revela a contaminação microbiológica em águas domiciliares de áreas alagadas, onde foram encontrados 34,8% de coliformes totais, 26,1% de coliformes termotolerantes e 56,5% de bactérias heterotróficas. Essa contaminação foi associada às instalações hidráulicas precárias, à ausência de desinfecção e ao armazenamento inadequado da água. Esses achados evidenciam a interrelação entre infraestrutura deficiente, exposição ambiental e vulnerabilidade sanitária nas margens dos rios amazônicos.
Mesmo em uma região com abundância de recursos hídricos, a escassez de água potável é um paradoxo persistente. Mendonça et al. (2023) apontam que, no Amazonas, muitas comunidades dependem de água de chuva ou fontes superficiais não tratadas, o que amplia a exposição a contaminantes biológicos e químicos. Essa dependência de soluções informais reflete desigualdades históricas no acesso aos direitos fundamentais, reforçando a necessidade de políticas públicas voltadas à universalização do saneamento e da água segura.
A análise de Castro et al. (2020) oferece uma perspectiva integrada ao destacar o panorama sanitário e as tecnologias sociais como alternativas viáveis para mitigar os impactos sobre a saúde. Os autores enfatizam que, embora predominem condições de saneamento inadequadas ou inexistentes, iniciativas de filtros comunitários, cisternas e saneamento ecológico têm demonstrado eficácia na melhoria da qualidade da água e na redução de doenças associadas. Essas estratégias valorizam o conhecimento local e a sustentabilidade, alinhando-se aos princípios da saúde ambiental.
A relação entre a qualidade da água e a saúde das populações ribeirinhas deve ser compreendida sob a ótica da determinação social da saúde, uma vez que fatores socioeconômicos, geográficos e culturais condicionam o acesso aos serviços e o modo de vida dessas comunidades. Segundo Heller e Castro (2019), a precariedade do saneamento básico é uma das expressões mais evidentes da desigualdade social, refletindo-se nos indicadores de morbimortalidade infantil e nas doenças infecciosas associadas ao consumo de água contaminada.
Além das doenças bacterianas e parasitárias, há evidências crescentes de contaminação química das águas por resíduos de mineração, esgoto doméstico e agrotóxicos. Esses contaminantes podem provocar efeitos crônicos, como alterações hepáticas, neurológicas e endócrinas (Silva et al., 2021). Em comunidades ribeirinhas, onde a exposição é contínua e os mecanismos de vigilância sanitária são frágeis, os efeitos tóxicos acumulativos representam um desafio silencioso e de longo prazo à saúde pública.
A ausência de políticas de vigilância ambiental adequadas agrava o cenário, pois a coleta e análise periódica da água são raramente realizadas em comunidades isoladas. Como apontam Rodrigues (2024) e Mendonça et al. (2023), o distanciamento geográfico e a limitação de recursos dificultam a implementação de ações preventivas e educativas. O fortalecimento das redes de vigilância em saúde ambiental, integradas aos serviços de atenção primária, é essencial para reduzir a incidência de agravos relacionados à água.
Em síntese, os estudos analisados convergem ao demonstrar que as implicações para a saúde das populações ribeirinhas amazônicas decorrem da interação entre fatores ambientais e estruturais, resultando em um ciclo de vulnerabilidade sanitária. Nesse contexto, políticas públicas intersetoriais, baseadas na educação em saúde, no saneamento sustentável e no monitoramento participativo, são fundamentais para garantir o direito humano à água segura e promover equidade em saúde na Amazônia.
Categoria 3: Estratégias de vigilância, monitoramento e controle
A implementação de estratégias de vigilância, monitoramento e controle da qualidade da água é fundamental para reduzir os riscos à saúde pública em comunidades ribeirinhas e áreas vulneráveis da Amazônia. Essas estratégias envolvem desde o monitoramento regular de cianobactérias e cianotoxinas até o uso de tecnologias domésticas, como filtros e sistemas alternativos de tratamento, que visam garantir o acesso à água potável segura.
Os estudos incluídos nesta categoria destacam a importância de programas contínuos de monitoramento de toxinas, inventários de espécies potencialmente nocivas e avaliação da eficácia de tecnologias de tratamento caseiro. A aplicação dessas estratégias permite identificar precocemente ameaças à saúde, orientar políticas públicas e subsidiar ações de educação ambiental, promovendo a proteção das populações ribeirinhas e contribuindo para a sustentabilidade do manejo dos recursos hídricos.
A seguir, apresenta-se o Quadro 4, que sintetiza os principais achados relacionados às estratégias de vigilância, monitoramento e controle da qualidade da água. O quadro organiza os estudos segundo artigo, eixo temático e principais achados, possibilitando uma visão integrada das medidas preventivas e corretivas adotadas na região amazônica.
Quadro 4 – Síntese da Categoria 3

Fonte: Elaborado pelos autores a partir da síntese dos estudos incluídos na RIL (2025).
As estratégias de vigilância e monitoramento da qualidade da água são fundamentais para a prevenção de riscos associados à presença de cianobactérias e cianotoxinas em ecossistemas aquáticos. Tais ações possibilitam a detecção precoce de alterações ambientais, subsidiando a tomada de decisão por parte das autoridades sanitárias e ambientais. Na região amazônica, a ampla extensão territorial e as características hidrológicas complexas tornam o monitoramento um desafio técnico e logístico, exigindo abordagens interdisciplinares e integradas (Chorus & Welker, 2021).
O estudo de Silva, Peleja e Melo (2019) exemplifica uma estratégia eficaz de vigilância ao realizar o acompanhamento quinzenal da microcistina-LR no Rio Tapajós, detectando a presença contínua da toxina mesmo em concentrações abaixo dos limites para uso recreativo. Essa persistência reforça a importância da monitorização sistemática, não apenas em episódios de floração, mas também em períodos de estabilidade aparente, uma vez que baixas concentrações prolongadas podem indicar processos crônicos de eutrofização e risco à saúde ambiental.
Complementarmente, Torres et al. (2020) conduziram um monitoramento físico-químico e biológico que possibilitou a identificação de espécies dominantes produtoras de cianotoxinas, como Microcystis aeruginosa, Dolichospermum spiroides e Nostoc sp. O uso combinado de parâmetros limnológicos e análise taxonômica mostrou-se uma estratégia robusta para detectar potenciais riscos toxicológicos e compreender a dinâmica ecológica das florações, permitindo direcionar medidas preventivas mais precisas.
O monitoramento biológico e químico integrado tem sido amplamente recomendado por órgãos como a Organização Mundial da Saúde (OMS, 2020) e o Ministério da Saúde (Brasil, 2021), que orientam a adoção de protocolos contínuos de vigilância para águas de abastecimento e recreação. No contexto amazônico, essas diretrizes ganham relevância diante da frequência de florações cianobacterianas e da dependência das comunidades ribeirinhas de fontes superficiais para consumo e uso doméstico.
A pesquisa de Oliveira et al. (2025) reforça a importância do monitoramento da balneabilidade e dos níveis de microcistinas em praias do Tapajós, onde foram identificadas concentrações de até 24 μg/L (nível de alerta 1). Embora os parâmetros limnológicos gerais estivessem dentro dos padrões da Resolução CONAMA nº 357/2005, a presença de toxinas evidenciou que a boa aparência da água não garante segurança sanitária, reiterando a necessidade de vigilância contínua mesmo em áreas de uso recreativo.
Além do monitoramento técnico-institucional, estratégias comunitárias e de baixo custo também se mostram relevantes para o controle da qualidade da água. O estudo de Caramello, Furtado e Rodrigues (2022) avaliou o uso de filtros domésticos em áreas vulneráveis e constatou melhora significativa na qualidade da água, com desempenho comparável ao filtro de barro tradicional. Essa evidência demonstra que soluções simples e acessíveis podem reduzir a exposição a contaminantes microbiológicos e químicos, fortalecendo a autonomia sanitária das populações locais.
O emprego de tecnologias sociais e instrumentos de educação ambiental tem papel essencial na sustentabilidade das ações de vigilância. Iniciativas que envolvem as comunidades na coleta de amostras, registro de alterações visuais da água e manutenção de equipamentos favorecem a vigilância participativa e ampliam o alcance das políticas públicas de saúde ambiental (Castro et al., 2020). Tais abordagens reduzem a dependência exclusiva de monitoramentos técnicos centralizados e fortalecem a governança local da água.
A integração entre instituições de ensino, órgãos ambientais e serviços de vigilância sanitária é outro elemento-chave para o fortalecimento das estratégias de controle. Projetos interinstitucionais permitem o compartilhamento de dados e metodologias padronizadas, viabilizando a criação de redes de monitoramento regionalizadas (Paerl & Otten, 2016). No contexto amazônico, essa articulação é particularmente importante para superar barreiras geográficas e operacionais.
Em termos de gestão pública, a vigilância e o controle de cianobactérias devem estar alinhados às políticas nacionais de recursos hídricos, ao Plano Nacional de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano (Vigiagua) e aos instrumentos da Política Nacional de Saneamento Básico (Lei nº 11.445/2007). Esses mecanismos oferecem suporte legal e técnico para a implementação de sistemas de alerta precoce, análises laboratoriais e medidas preventivas que assegurem a proteção da saúde coletiva.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A presente pesquisa teve como objetivo realizar uma revisão integrativa da literatura de 11 artigos selecionados sobre a ocorrência de cianobactérias e cianotoxinas em águas utilizadas por comunidades ribeirinhas da região Norte do Brasil, analisando suas implicações para a saúde pública e as estratégias de vigilância e controle adotadas. A síntese dos resultados permitiu uma compreensão ampla e integrada das relações entre qualidade da água, condições ambientais e vulnerabilidades sociais que caracterizam os contextos amazônicos.
Os achados da Categoria 1 evidenciam que a ocorrência de cianobactérias e suas toxinas é um fenômeno recorrente e de ampla distribuição em diferentes ecossistemas aquáticos da Amazônia, incluindo rios, igarapés e praias urbanas. Espécies toxigênicas como Microcystis aeruginosa, Dolichospermum spiroides e Nostoc sp. foram frequentemente identificadas, associadas à produção de microcistinas, toxinas hepatotóxicas de alta estabilidade e relevância ambiental. A presença contínua dessas substâncias, mesmo em concentrações abaixo dos limites recreativos, demonstra persistência ecológica e risco crônico, exigindo atenção constante das autoridades sanitárias e ambientais.
Na Categoria 2, os estudos analisados reforçam que as implicações para a saúde das populações ribeirinhas são profundas e multifatoriais. A dependência direta de fontes superficiais de água, a ausência de saneamento básico e a contaminação microbiológica e química foram fatores recorrentes. Esses elementos se interligam, resultando em elevada vulnerabilidade sanitária e em maior incidência de doenças de veiculação hídrica, como gastroenterites, hepatites e parasitoses. Mesmo em regiões com abundância de recursos hídricos, a escassez de água potável segura representa um paradoxo social e ambiental, evidenciando desigualdade estrutural no acesso ao direito humano à água.
Além dos riscos imediatos, observou-se também que a exposição crônica às toxinas e contaminantes pode acarretar efeitos cumulativos sobre a saúde, como alterações hepáticas e neurológicas. Esses impactos tornam-se ainda mais críticos diante da fragilidade dos serviços de vigilância ambiental e sanitária nas regiões ribeirinhas e de difícil acesso. Assim, os estudos revisados apontam que a problemática das cianobactérias transcende o campo ecológico, configurando-se como uma questão de saúde pública e justiça ambiental.
A Categoria 3 destacou as principais estratégias de vigilância, monitoramento e controle empregadas para minimizar os riscos associados às cianotoxinas. Os monitoramentos físico-químicos e biológicos realizados em rios e praias amazônicas mostraram-se essenciais para a detecção precoce de florações e para a avaliação dos níveis de alerta de microcistinas. Contudo, a literatura aponta que o monitoramento ainda ocorre de forma pontual e limitada, demandando programas contínuos e regionalizados, baseados em parcerias interinstitucionais entre universidades, órgãos ambientais e serviços de saúde.
Os estudos também evidenciam o potencial das tecnologias sociais e soluções de baixo custo, como o uso de filtros domésticos e sistemas de captação de água de chuva, que mostraram eficácia na melhoria da qualidade da água consumida por famílias ribeirinhas. A incorporação dessas estratégias, aliadas à educação ambiental e à vigilância participativa, amplia a autonomia das comunidades e fortalece a gestão local da água, promovendo sustentabilidade e corresponsabilidade no controle dos riscos hídricos.
De forma transversal às três categorias, nota-se que a integração entre ciência, gestão e participação comunitária é o caminho mais promissor para enfrentar os desafios impostos pelas florações de cianobactérias na região Norte. O fortalecimento das redes de monitoramento ambiental, aliado à ampliação do Vigiagua e de programas estaduais de controle da qualidade da água, pode garantir respostas mais ágeis e preventivas a episódios de contaminação, reduzindo danos ambientais e impactos à saúde coletiva.
Os resultados desta revisão apontam, ainda, para a necessidade de investimentos em pesquisa aplicada e infraestrutura laboratorial que permitam identificar rapidamente as espécies toxigênicas e quantificar as toxinas presentes nas águas. O desenvolvimento de protocolos regionais de vigilância adaptados às características hidrológicas da Amazônia é essencial para otimizar recursos e garantir a continuidade das ações de controle.
Em síntese, a análise integrada das três categorias permite concluir que a ocorrência de cianobactérias e cianotoxinas na região Norte do Brasil reflete a complexa interação entre fatores ambientais, sociais e institucionais. A proteção da saúde das populações ribeirinhas depende de uma abordagem intersetorial, que una monitoramento científico, políticas públicas efetivas e participação social, garantindo o acesso à água segura, à informação e à equidade em saúde ambiental.
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1E-mail: gerbduarte@gmail.com – Orcid: https://orcid.org/0009-0004-8636-9884. Acadêmica de biomedicina.
2Email: acedemico3112@gmail.com – Orcid: https://orcid.org/0009-0008-7110-8779. Acadêmico de biomedicina.
3E-mail: leilianess@gmail.com – Orcid: https://orcid.org/0000-0002-8117-1105. Docente, Universidade da Amazônia
