CHIKUNGUNYA NO PARANÁ: ASPECTOS EPIDEMIOLÓGICOS E EVOLUÇÃO DOS CASOS NOTIFICADOS (2019–2025)

CHIKUNGUNYA IN PARANÁ: EPIDEMIOLOGICAL ASPECTS AND EVOLUTION OF REPORTED CASES (2019-2025)

CHIKUNGUNYA EN PARANÁ: ASPECTOS EPIDEMIOLÓGICOS Y EVOLUCIÓN DE LOS CASOS NOTIFICADOS (2019-2025)

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ma10202601260924


Thalita Lainy Zoche1
Gustavo Hister Lopes2
Maira Rocha Almeida3


RESUMO

O estudo analisou os casos notificados de Chikungunya no estado do Paraná entre 2019 e junho de 2025. Trata-se de um estudo epidemiológico transversal, descritivo e retrospectivo, com dados obtidos do SINAN. No período, o Paraná registrou 18.804 casos, representando 60,85% das notificações da Região Sul. Houve maior acometimento em mulheres (58,79%), adultos de 20–59 anos (62,8%) e pessoas brancas (67,03%). Observou-se aumento expressivo em 2025, com 10.553 casos apenas no primeiro semestre, colocando o estado na 5ª posição nacional. As macrorregiões Oeste e Noroeste foram as mais afetadas, com destaque para Cascavel e Foz do Iguaçu. Conclui-se que o Paraná desempenha papel relevante na expansão da Chikungunya no Brasil, sobretudo em 2025, reforçando a necessidade de estratégias de vigilância epidemiológica e prevenção.

Palavras-chave: Chikungunya; Epidemiologia; Paraná; Arboviroses; Saúde Pública.

ABSTRACT

This study analyzed reported cases of chikungunya in the state of Paraná between 2019 and June 2025. It was a cross-sectional, descriptive, and retrospective epidemiological study using data from SINAN. During the period, Paraná reported 18,804 cases, accounting for 60.85% of notifications in Southern Brazil. Women (58.79%), adults aged 20–59 years (62.8%), and White individuals (67.03%) were the most affected groups. A significant increase was observed in 2025, with 10,553 cases in the first semester alone, ranking Paraná 5th nationally. The Western and Northwestern macro-regions were the most impacted, especially the cities of Cascavel and Foz do Iguaçu. These findings highlight Paraná’s important role in chikungunya expansion in Brazil, particularly in 2025, underscoring the need for strengthened epidemiological surveillance and prevention strategies.

Keywords: Chikungunya; Epidemiology; Paraná; Arboviruses; Public Health.

RESUMEN

Este estudio analizó los casos notificados de chikungunya en el estado de Paraná entre 2019 y junio de 2025. Se trató de un estudio epidemiológico transversal, descriptivo y retrospectivo con datos del SINAN. En el período, Paraná registró 18.804 casos, lo que representó el 60,85% de las notificaciones en la Región Sur. Las mujeres (58,79%), los adultos de 20–59 años (62,8%) y las personas blancas (67,03%) fueron los más afectados. En 2025 se observó un aumento significativo, con 10.553 casos solo en el primer semestre, ubicando al estado en la 5ª posición nacional. Las macrorregiones Oeste y Noroeste fueron las más impactadas, con énfasis en Cascavel y Foz do Iguaçu. Se concluye que Paraná desempeña un papel relevante en la expansión de la chikungunya en Brasil, especialmente en 2025, lo que refuerza la necesidad de fortalecer la vigilancia epidemiológica y las estrategias de prevención.

Descriptores: Chikungunya; Epidemiología; Paraná; Arbovirosis; Salud Pública.

Introdução

A febre chikungunya, arbovirose transmitida pela picada de fêmeas infectadas do gênero Aedes, se manifesta com uma notável ascensão, especialmente em áreas de clima tropical e subtropical. No Brasil, sua introdução ocorreu em 2014, com concentração de casos na região Nordeste até 2022. Contudo, a partir de 2023, observou-se significativa dispersão territorial, com destaque para o Sudeste.1

Desde 2016, o país é considerado o principal epicentro das epidemias nas Américas, enfrentando surtos anuais recorrentes. Entre os fatores que favorecem a manutenção e a disseminação do vírus no Brasil, destacam-se as condições climáticas favoráveis e a ampla distribuição de seu principal vetor, o Aedes aegypti.2

No estado do Paraná especificamente, além da introdução do vírus a partir da disseminação proveniente das regiões Nordeste e Sudeste, há ainda registros de vínculos com surtos provenientes do Paraguai, sobretudo na porção Oeste do estado.4

Clinicamente, a doença torna-se crônica em mais da metade dos casos, com o desenvolvimento de intensa artralgia que pode perdurar por vários anos. Somado a esse cenário, os surtos das manifestações agudas da doença também contribuem para evidenciar o potencial da Chikungunya em gerar sobrecarga aos serviços de saúde e impacto significativo no absenteísmo laboral.1,5

Assim, tornam-se fundamentais estudos para suprir as lacunas de conhecimento existentes sobre a doença e suas repercussões na saúde coletiva. Logo, a análise epidemiológica da Chikungunya no estado do Paraná entre 2019 e 2025 é essencial para entender as suas particularidades e como ela se faz prevalente na população.

Método

Estudo epidemiológico, transversal, descritivo e retrospectivo, com abordagem quantitativa mediante coleta de dados extraídos do sistema de informações do SINAN (Sistema de Informação de Agravos de Notificação), plataforma pública vinculada ao DATASUS (Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde). Foram incluídos todos os casos notificados de Chikungunya (CID-10: A92.0) ocorridos no período de janeiro de 2019 a junho de 2025, comparando os dados encontrados no Paraná com os encontrados no resto do Brasil. 

Para análise estatística foi calculada a prevalência de casos notificados, faixa etária, raça e sexo acometidos. Os dados foram tabulados no Microsoft Excel e a análise foi realizada através de estatística descritiva simples e comparativa ao longo dos anos de 2019 e o primeiro semestre de 2025 no Paraná, suas macrorregiões e no Brasil.

Resultados

No período de 2019 a junho de 2025 foram registrados, na Região Sul do Brasil, 30.907 casos de Chikungunya, e o estado de destaque foi o Paraná, representando sozinho 60,85% dos casos, com 18.804, enquanto Santa Catarina teve 7.295 casos (23,60%) e Rio Grande do Sul 4.808(15,55%).

Nesse mesmo período, foram notificados 1.536.312 casos de Chikungunya no Brasil e o Paraná ocupou a 17° posição em ordem de notificações, representando 1,22% com 18.804 casos. Analisando separadamente o primeiro semestre de 2025, foram notificados 208.279 casos no Brasil e 10.553 no Paraná, em que ele passou a ocupar a 5° posição em ordem de número de casos, representando 5,06%, ficando atrás somente dos estados do Mato Grosso (29,97%), Mato Grosso do Sul (20,04%), Minas Gerais (10,91%) e São Paulo (10,24%).

Como observado na figura 1, a macrorregião mais acometida no estado do Paraná entre 2019 e 2025 foi a Oeste com 68,34% dos casos. Além disso, os municípios com mais casos foram Cascavel e Foz do Iguaçu, representando 4.556(24,22%) e 3.156(16,78%).

Gráfico 1 – Casos de Chikungunya distribuídos nas macrorregiões do Paraná,

Fonte: Adaptado do SINAN, 2025

Na figura 2 verifica-se a distribuição dos casos de Chikungunya no Paraná entre os anos de 2019-2025. A princípio, nos anos de 2019 e 2021 a porcentagem era relativamente estável, com 2019 correspondendo a 4,47% do total de casos e 2020 com 3,63%, em 2021 essa taxa declinou levemente para 1,97% e voltou a crescer no ano de 2022 com 2,26% do total de casos. Em 2023 a porcentagem de notificações foi equivalente a 20,45% do total, e em 2024 a 11,09%. 

Há destaque para o pico observado no ano de 2025, que com dados apenas dos 6 primeiros meses, representa 56,09% do total de casos desde o ano de 2019 no estado do Paraná. Em comparação ao Brasil, há destaque ao ano de 2024 com 403.730 notificações (26,27%), seguido de 2022 (17,67%) e 2023 (16,19%).

Gráfico 2 – Casos de Chikungunya no Paraná de 2019-2025

Fonte: Adaptado do SINAN, 2025

Em relação à faixa etária, no Paraná as mais acometidas foram as faixas de 20-39 anos com 5.956(31,67%) e 40-59 anos com 5.856(31,14%). No território brasileiro também foram as faixas de 20-39 anos com 525.903(34,23%) e 40-59 com 466.828(30,38%).

Nos dados a respeito da análise por sexo, no estado do Paraná as mulheres equivaleram a 11.056(58,79%) e os homens a 7.713(41,01%). E no Brasil, as mulheres representaram 912.710 dos casos (59,40%) e os homens 621.634(40,46%).

Em relação a raça, no Paraná os brancos foram mais acometidos com 12.606 casos (67,03%) seguidos de pardos com 4599 (24,45%). Já no Brasil observou-se o inverso, os Pardos foram mais acometidos com 845.229(55,01%) e os Brancos com 325.944(21,21%).

Discussão

A organização mundial da saúde (OMS) emitiu um alerta em julho de 2025 a respeito do risco de uma nova epidemia global do vírus Chikungunya devido à alta incidência de surtos da doença em países que são afetados por essa arbovirose, como a China, que presencia o maior surto desde a introdução do vírus no território.22,8

De acordo com um novo alerta da Organização Pan-Americana da saúde (OPAS) os maiores surtos da doença em 2025 se concentram na América do Sul. Desde 2016 o Brasil é considerado o maior epicentro das Américas, favorecido pelo clima tropical, temperaturas quentes e períodos de chuvas intensas, condições ideais para a transmissão do vírus e proliferação dos vetores da doença.23

Com o advento do aquecimento global, o aumento das temperaturas médias globais é a principal hipótese para o alastramento dos casos para a região sul do Brasil. Tal fato corrobora o observado nos dados, uma vez que, em relação ao período completo de 2019-2025 o Paraná não apresentou uma posição significativa entre os estados mais acometidos no Brasil, já no ano de 2025, o Paraná foi o 5° mais prevalente em número de casos.24

 Verifica-se, portanto, a alta incidência de casos registrados no ano de 2025 no Paraná, em que, apesar de apresentar dados de apenas 1 semestre, já ultrapassou os anos anteriores representando mais da metade dos casos notificados entre 2019 e 2025.

Além disso, o estado do Paraná representou sozinho mais da metade dos casos ocorridos na região sul. Esse dado pode ser atribuído à importante dispersão territorial do vírus que ocorreu sentido nordeste a sudeste e posterior região sul no ano de 2023, acometendo, em ordem de proximidade, principalmente o estado do Paraná.1

Em relação à distribuição estadual, a macrorregional de saúde oeste representou sozinha mais da metade dos casos, apesar de não corresponder à macrorregião de maior população do estado. Essa maior prevalência pode ser atribuída a eventuais vínculos com surtos ocorridos no Paraguai e sua disseminação na região da fronteira do Paraná, compreendida na região oeste. Tal hipótese é reforçada ao observar que as cidades com maior número de casos são Foz do Iguaçu, cidade de fronteira, e Cascavel, cidade próxima, apesar de estas serem, respectivamente, a 7° e 5° cidade mais populosa do estado.4,25

Analisando a distribuição dos casos no Paraná entre os anos de 2019-2025, observa-se que, a princípio, em 2019 e 2020 a quantidade de casos se manteve estável, porém em 2021 houve uma queda no número de notificações, isso pode decorrer de possíveis subnotificações das arboviroses devido ao impacto da pandemia da Covid-19, visto que os surtos de Chikungunya tem prevalência nos meses de fevereiro a junho, período que foi encoberto pela pandemia no ano de 2021.6,7

Em 2022 a taxa voltou a crescer e em 2023 e 2024 foram observados mais casos em comparação aos anos anteriores, com 2023 tendo um pouco menos do dobro de casos de 2024, essa falta de constância pode ser explicada pela ocorrência em surtos da febre Chikungunya, que podem ser mais prevalentes em determinado ano, fato observado em 2025, que extrapolou todos os anos anteriores.

Ademais, o comportamento da doença em relação à distribuição etária no estado do Paraná corrobora a epidemiologia no restante do Brasil, visto que em ambos os casos o maior número de casos foi entre 20-60 anos. Em relação ao sexo, tanto no Paraná quanto no restante do Brasil as mulheres foram as mais acometidas. Por fim, no que se refere à raça, houve uma inversão nos dados paranaenses e brasileiros, no Paraná os brancos foram os mais acometidos enquanto no Brasil foram pardos, isso provavelmente se correlaciona à porcentagem de cada uma dessas populações residentes dentro destes territórios.25

Considerações Finais

Diante do exposto, verifica-se que o Paraná possui notável papel no surto de Chikungunya no ano de 2025 no Brasil, achado observado principalmente na macrorregião oeste do estado. Portanto, quantificar o avanço da doença na região é fundamental para a realização de ações de promoção à saúde e vigilância epidemiológica.

Entretanto, é preciso levar em conta limitações como a subnotificação e a dificuldade diagnóstica em relação a outras arboviroses, reforçando a necessidade de pesquisas futuras capazes de esclarecer lacunas de conhecimento existentes. Logo, uma maior compreensão do cenário epidemiológico da Chikungunya no Paraná é essencial para orientar políticas públicas e propor estratégias de prevenção mais eficazes.

Referências

1Ministério da Saúde (BR). Chikungunya [Internet]. Brasília (DF): Ministério da Saúde; [citado 2025 ago 10]. Disponível em:https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/c/chikungunya

2Palacio GRS, Bermudi MMM, Macedo FLL, Santana LMR, Chiaravalloti-Neto F. Zika, chikungunya and co-occurrence in Brazil: space-time clusters and associated environmental-socioeconomic factors. Sci Rep. 2023;13:18026. doi: 10.1038/s41598-023-45258-y

4Secretaria da Saúde do Paraná (BR). Estudo aponta que chikungunya em circulação no Paraná tem origem em outras regiões do Brasil [Internet]. Curitiba (PR): SESA-PR; 2024 [citado 2025 ago 10]. Disponível em:https://www.saude.pr.gov.br/Noticia/Estudo-aponta-que-chikungunya-em-circulacao-no-Parana-tem-origem-outras-regioes-do-Brasil

5Borgherini G, Poubeau P, Jossaume A, Gouix A, Cotte L, Michault A, et al. Persistent arthralgia associated with chikungunya virus: a study of 88 adult patients on Réunion Island. Clin Infect Dis. 2008;47(4):469-75. doi: 10.1086/590003

6Fundação Oswaldo Cruz (BR). Pandemia pode mascarar casos de arboviroses, indica seminário [Internet]. Rio de Janeiro (RJ): Fiocruz; 2021 [citado 2025 ago 10]. Disponível em:https://fiocruz.br/noticia/2021/09/pandemia-pode-mascarar-casos-de-arboviroses-indica-seminario

7Floresti F. Chikungunya virus caused seven outbreaks in Brazil in 10 years [Internet]. São Paulo (SP): Revista Pesquisa FAPESP; 2024 [cited 2025 Aug 10]. Available from:https://revistapesquisa.fapesp.br/en/chikungunya-virus-caused-seven-outbreaks-in-brazil-in-10-years

8RTP – Rádio e Televisão de Portugal. Surto por chikungunya: vírus transmitido por mosquitos já infetou 240 mil pessoas e matou 90 em 2025 [Internet]. Lisboa: RTP; 2025 [citado 2025 ago 10]. Disponível em:https://www.rtp.pt/noticias/mundo/surto-por-chinkungunya-virus-transmitido-por-mosquitos-ja-infetou-240-mil-pessoas-e-matou-90-em-2025_n1674608

10Ministério da Saúde (BR). Departamento de Informática do SUS (DATASUS). SINAN – Agravos de Notificação: chikungunya (CID-10 A92.0), Paraná, 2019–2025 [Internet]. Brasília (DF): DATASUS; [citado 2025 ago 10]. Disponível em:https://datasus.saude.gov.br/

22Ribeiro V; VEJA (BR). OMS alerta para risco de disseminação global de Chikungunya [Internet]. São Paulo (SP): VEJA; 24 jul 2025 [citado 2025 ago 10]. Disponível em:https://veja.abril.com.br/saude/oms-alerta-para-risco-de-disseminacao-global-de-chikungunya/

23Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS). Diante de surtos localizados de chikungunya e da circulação sustentada do vírus Oropouche, OPAS pede fortalecimento da vigilância e controle vetorial nas Américas [Internet]. Washington (DC): OPAS; 29 ago 2025 [citado 2025 ago 10]. Disponível em:https://www.paho.org/pt/noticias/29-8-2025-diante-surtos-localizados-chikungunya-e-da-circulacao-sustentada-oropouche-opas

24Soek FJ, Ferreira FE, Klein MV, Bauer NC, Feltrim Roseghini WF, Mendonça F. Mudanças Climáticas e Infestação por Aedes Aegypti na Região Sul do Brasil. Geo UERJ [Internet]. Rio de Janeiro: Geo UERJ; 2023 jun 19 [citado 2025 set 5]. Disponível em:https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/geouerj/article/view/74550

25Governo do Estado do Paraná (BR). População do Paraná cresce acima da média nacional e ganha 65,8 mil habitantes [Internet]. Curitiba (PR): AEN-PR; 28 ago 2025 [citado 2025 ago 10]. Disponível em:https://www.parana.pr.gov.br/aen/Noticia/Populacao-do-Parana-cresce-acima-da-media-nacional-e-ganha-658-mil-habitantes


1Universidade de Castro, Programa de Pós-Graduação (PPG). Brasília, Distrito Federal, Brasil.
https://ocid.org/0050-0001-8624-0176
2Programa de Pós-Graduação, Universidade Católica de Brasília (UCB).  Brasília, Distrito Federal, Brasil.https://orcd.org/0500-5053-2605-1535
3Centro Universitário. Brasília, Distrito Federal, Brasil.https://orci.org/0050-5002-2581-15932


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