REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ma10202601260956
Mônica Gadelha dos Santos1
RESUMO
Introdução: A obesidade é uma condição crônica de elevada prevalência mundial, associada a múltiplas complicações metabólicas, cardiovasculares e inflamatórias. Paralelamente, a deficiência de vitamina D tem sido frequentemente observada em indivíduos com obesidade. Estudos reforçam a hipótese de que a deficiência de vitamina D não seja apenas uma consequência do excesso de adiposidade, mas também um fator potencialmente envolvido na amplificação da inflamação sistêmica Objetivo: Avaliar a relação entre deficiência de vitamina D e marcadores inflamatórios em pacientes com obesidade torna-se relevante para elucidar mecanismos fisiopatológicos e identificar possíveis estratégias terapêuticas complementares. Metodologia: Revisão sistemática narrativa baseada em publicações indexadas nas bases PubMed, SciELO e LILACS, entre 2021 e 2025. Foram incluídos ensaios clínicos, metanálises e estudos observacionais em humanos, com texto completo disponível. Resultados: Os estudos demonstraram elevada prevalência de deficiência de vitamina D em indivíduos com obesidade, associada a maior inflamação sistêmica. Entretanto, a suplementação isolada de vitamina D não reduziu significativamente os marcadores inflamatórios, apresentando benefícios mais consistentes quando associada ao exercício físico. Conclusão: A vitamina D relaciona-se inversamente à obesidade, porém a suplementação isolada apresenta benefícios limitados sobre a inflamação, sendo mais eficaz quando associada ao exercício físico. As diretrizes indicam seu uso para correção da deficiência, reforçando a necessidade de estratégias integradas no manejo da obesidade.
Palavras-chave: Vitamina D; Deficiência de vitamina D; Obesidade; marcadores inflamatórios.
INTRODUÇÃO
A obesidade é uma condição crônica de elevada prevalência mundial, associada a múltiplas complicações metabólicas, cardiovasculares e inflamatórias. Atualmente, reconhece-se que o excesso de tecido adiposo não atua apenas como um reservatório energético, mas também como um órgão metabolicamente ativo, capaz de secretar citocinas pró-inflamatórias e contribuir para um estado de inflamação crônica de baixo grau. Esse processo inflamatório sistêmico desempenha papel central na fisiopatologia das doenças associadas à obesidade, como resistência à insulina, diabetes mellitus tipo 2 e doença cardiovascular(1,2).
No Brasil, a obesidade apresenta crescimento progressivo nas últimas décadas, configurando-se como um importante desafio de saúde pública. Dados populacionais indicam aumento significativo da prevalência de excesso de peso e obesidade em todas as faixas etárias, fenômeno que tem sido associado ao aumento da carga de doenças cardiovasculares e metabólicas na população(3).
Paralelamente, a deficiência de vitamina D tem sido frequentemente observada em indivíduos com obesidade, configurando-se como um problema comum nessa população. Mecanismos como o sequestro da vitamina D pelo tecido adiposo, menor exposição solar e alterações no metabolismo da vitamina têm sido propostos para explicar os baixos níveis séricos de 25-hidroxivitamina D em pacientes obesos. Essa deficiência tem despertado interesse científico devido ao papel da vitamina D na regulação do sistema imunológico e na modulação da resposta inflamatória(4,5)
Diversos estudos observacionais têm demonstrado uma associação inversa entre os níveis séricos de vitamina D e marcadores inflamatórios, como proteína C-reativa, interleucina-6 e fator de necrose tumoral alfa, sugerindo que a hipovitaminose D possa contribuir para a intensificação do estado inflamatório presente na obesidade. Esses achados reforçam a hipótese de que a deficiência de vitamina D não seja apenas uma consequência do excesso de adiposidade, mas também um fator potencialmente envolvido na amplificação da inflamação sistêmica(6,7).
Nesse contexto, avaliar a relação entre deficiência de vitamina D e marcadores inflamatórios em pacientes com obesidade torna-se relevante para elucidar mecanismos fisiopatológicos e identificar possíveis estratégias terapêuticas complementares.
METODOLOGIA
Este estudo consiste em uma revisão narrativa da literatura, com síntese qualitativa e análise crítica dos achados recentes. Por se tratar de análise de dados secundários, sem envolvimento direto de seres humanos, o estudo não necessitou de submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa, conforme a Resolução nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde.
A busca bibliográfica foi realizada nas bases PubMed, SciELO e LILACS, contemplando publicações dos últimos cinco anos (2021 a 2025). Foram utilizados os descritores “vitamina D”, “obesidade” e “marcadores inflamatórios”, aplicando-se filtros quanto ao tipo de estudo e à disponibilidade do texto completo. Foram incluídos artigos originais, de acesso aberto, que abordassem a associação entre níveis séricos de vitamina D e parâmetros inflamatórios em indivíduos com obesidade. Foram excluídas publicações duplicadas, bem como cartas, editoriais e capítulos de livros.
A identificação e seleção dos estudos ocorreram em etapas sequenciais, incluindo a leitura dos títulos e resumos e, quando necessário, a análise do texto completo para confirmação dos critérios de elegibilidade. A avaliação crítica do conteúdo foi realizada de forma independente, e os estudos selecionados fundamentaram a síntese qualitativa dos achados apresentados nesta revisão.
RESULTADOS
Foram incluídos oito estudos publicados entre 2021 e 2025, compreendendo estudos observacionais, ensaios clínicos e revisões sistemáticas que, de modo geral, demonstraram elevada prevalência de deficiência de vitamina D em indivíduos com obesidade e associação entre baixos níveis de 25(OH)D e maior inflamação sistêmica.
Entretanto, a maioria das revisões sistemáticas e estudos intervencionais indicou que a suplementação isolada de vitamina D não promoveu redução significativa dos principais marcadores inflamatórios em populações com sobrepeso ou obesidade. Em contrapartida, benefícios específicos foram observados em contextos particulares, como melhora de parâmetros hemodinâmicos e autonômicos e potencialização dos efeitos metabólicos do exercício físico quando a suplementação foi utilizada de forma combinada.
Tabela 1: Análise dos artigos selecionados que abordam sobre os efeitos da Vitamina D


DISCUSSÃO
A obesidade é um importante desafio de saúde pública global, associada a complicações metabólicas, cardiovasculares e inflamatórias, além de disfunção do tecido adiposo e alterações na composição corporal. Estudos populacionais indicam uma associação inversa entre os níveis séricos de vitamina D e a obesidade, embora a relação causal ainda não esteja totalmente esclarecida. Entre os mecanismos propostos estão o sequestro de vitamina D pelo tecido adiposo, a diluição volumétrica em indivíduos com maior massa corporal e menor exposição à luz solar. Além de seu papel na homeostase do cálcio, a vitamina D exerce funções endócrinas, metabólicas e imunomoduladoras, regulando a diferenciação e apoptose de adipócitos, a função de adipocinas e o metabolismo energético, impactando a adiposidade e o risco de doenças cardiometabólicas(16,17).
O metabolismo da vitamina D envolve sua conversão em 25-hidroxivitamina D no fígado, seguida de ativação em 1α,25-dihidroxivitamina D nos rins, com efeitos mediados pelo receptor nuclear de vitamina D (VDR), expresso em diversos tecidos, incluindo o tecido adiposo. Evidências experimentais indicam que a vitamina D regula o recrutamento e a diferenciação de células-tronco adiposas em adipócitos, além de influenciar propriedades metabólicas, endócrinas e imunológicas do tecido adiposo. Em indivíduos obesos, baixos níveis de vitamina D estão associados à disfunção do tecido adiposo, promovendo resistência insulínica, inflamação crônica e aumento do risco de doenças cardiometabólicas, reforçando a relevância de manter níveis adequados de vitamina D para a saúde metabólica(9).
A obesidade é caracterizada por inflamação crônica de baixo grau, que contribui para a progressão de complicações metabólicas e cardiovasculares. A vitamina D modula a expressão de citocinas pró-inflamatórias, como proteína C-reativa (PCR), interleucina-6 (IL-6) e fator de necrose tumoral alfa (TNF-α), além de influenciar marcadores emergentes de inflamação sistêmica, incluindo a relação neutrófilo-linfócito (NLR), relação plaqueta-linfócito (PLR), índice sistêmico de inflamação imune (SII) e índice de resposta inflamatória sistêmica (SIRI)(11,16).
Outro estudo avaliou o impacto da suplementação de vitamina D (4000 UI/dia por 3 meses) sobre marcadores inflamatórios em pacientes obesos com doenças ortopédicas agudas e crônicas, demonstrando aumento significativo dos níveis séricos de vitamina D em ambos os grupos, porém sem efeito anti-inflamatório consistente. Observou-se aumento de IL-17 no grupo com condições agudas e elevação de IL-6 e TNF-α no grupo com condições crônicas, enquanto os níveis de adiponectina não foram influenciados pela suplementação, apesar de serem maiores no grupo crônico ao final do estudo. Os achados sugerem que a inflamação persistente associada à obesidade, somada ao tipo e à cronicidade das doenças ortopédicas, possivelmente superou o potencial efeito modulador da vitamina D, sendo a dose e o tempo de suplementação insuficientes para reduzir citocinas pró-inflamatórias(15).
Em crianças e adolescentes, a suplementação de vitamina D3 também não influenciou significativamente PCR, IL-6 ou TNF-α, embora tenha promovido redução nos níveis de leptina, sugerindo que os efeitos metabólicos da vitamina D podem ser mais evidentes em populações jovens e em vias hormonais específicas. Estudos populacionais, como os dados do NHANES 2009–2018, evidenciaram que a deficiência de 25(OH)D em crianças e adolescentes está associada a maior risco de obesidade (OR = 0,634; IC 95%: 0,440–0,915; p = 0,018), com marcadores inflamatórios, particularmente NLR e SII, atuando como mediadores parciais dessa relação, reforçando que a vitamina D pode influenciar a obesidade via modulação da inflamação sistêmica(10).
Um dos estudos realizados promoveu a suplementação diária de vitamina D durante oito semanas em uma população de adultos com obesidade/sobrepeso. Neste, a suplementação de doses elevadas de vitamina D por curto período em adultos com excesso de peso e hipovitaminose D promoveu aumento significativo dos níveis séricos de 25(OH)D, com efeitos benéficos sobre parâmetros cardiovasculares e autonômicos, evidenciados pela redução da pressão arterial periférica, preservação de marcadores indiretos de rigidez arterial e melhora do balanço autonômico, com aumento do tônus parassimpático e redução do simpático, sem ocorrência de toxicidade. Apesar de não haver impacto significativo nos índices antropométricos, observou-se correlação favorável com composição corporal e recuperação da matriz óssea, sugerida pela redução da fosfatase alcalina(8).
Além dos efeitos isolados da suplementação, a associação entre vitamina D e exercício físico tem se mostrado promissora na melhora da composição corporal e da responsividade metabólica em indivíduos com sobrepeso ou obesidade. Evidências provenientes de análises transcriptômicas integradas a meta-análises de ensaios clínicos randomizados indicam que essa combinação potencializa a resposta metabólica muscular, especialmente em adultos mais velhos e em programas aeróbicos, resultando em redução da circunferência da cintura e melhorias no peso corporal e no índice de massa corporal, sugerindo efeito sinérgico sobre a saúde metabólica(14).
Um dos estudos avaliados concluiu que um dos grandes limitantes é que esses achados estão relacionados a doses e tempo de suplementação insuficientes, além de limitações metodológicas dos estudos, destacando a necessidade de ensaios clínicos maiores e mais robustos. Além disso, concluiu ainda que as evidências sobre os efeitos da suplementação de vitamina D3 na inflamação em crianças e adolescentes com sobrepeso ou obesidade é limitada. Apesar do aumento dos níveis séricos de 25(OH)D, não foram observadas reduções significativas em PCR, IL-6 e TNF-α, embora tenha sorte melhorada no perfil de adipocinas, especialmente com redução da leptina e da razão leptina/adiponectina(10).
As diretrizes da Endocrine Society reconhecem que indivíduos com obesidade apresentam maior risco de deficiência de vitamina D, porém não recomendam rastreamento universal nem suplementação com finalidade anti-inflamatória ou metabólica. De forma semelhante, a U.S. Preventive Services Task Force e a European Society of Endocrinology afirmam que a suplementação de vitamina D deve ser indicada prioritariamente para correção da deficiência documentada e manutenção da saúde óssea, refletindo que a evidência atual é insuficiente para seu uso como intervenção isolada no manejo da obesidade e da inflamação associada(18–20).
O posicionamento da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) reconhece que a hipovitaminose D é uma condição comum e identifica grupos com maior risco de deficiência, nos quais a dosagem de 25-hidroxivitamina D pode ser indicada. Entre os fatores clínicos associados a níveis reduzidos de vitamina D, a literatura destaca a obesidade, atribuída a mecanismos como sequestro pelo tecido adiposo e diluição volumétrica(21).
CONCLUSÃO
A evidência atual indica que a vitamina D está inversamente associada à obesidade e participa da regulação do tecido adiposo, da inflamação sistêmica e do metabolismo energético; contudo, a suplementação isolada mostra efeitos limitados e inconsistentes sobre marcadores inflamatórios clássicos (PCR, IL-6, TNF-α), especialmente em adultos obesos e em contextos de inflamação persistente. Alguns benefícios metabólicos específicos são observados, como redução de leptina, melhora de parâmetros autonômicos e cardiovasculares e modulação de vias metabólicas, com maior impacto em crianças/adolescentes e quando associada ao exercício físico, evidenciando efeitos sinérgicos na composição corporal. As limitações metodológicas, doses e tempos de intervenção insuficientes e a heterogeneidade dos estudos restringem conclusões definitivas. Assim, as diretrizes recomendam a suplementação para correção da deficiência e saúde óssea, não como estratégia anti-inflamatória ou terapêutica isolada para obesidade, reforçando a necessidade de ensaios clínicos maiores, mais longos e combinados a intervenções no estilo de vida.
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1Hospital Nilton Lins
