CÁRIE DA PRIMEIRA INFÂNCIA: MALES E CONSEQUÊNCIAS PARA A VIDA FUTURA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202510301737


Lucas Horácio Arantes Gusmão
Orientador: Prof. Paulo Victor Costa Campos


1. INTRODUÇÃO

1.1 Contextualização

A cárie da primeira infância (CPI) é reconhecida como uma das doenças bucais mais prevalentes na população pediátrica, caracterizada por sua rápida progressão e alto potencial destrutivo nos dentes decíduos. Classificada como uma doença multifatorial, a CPI resulta da interação entre fatores biológicos, comportamentais, sociais e ambientais, afetando principalmente crianças menores de cinco anos (Bernardes; Dietrich; França, 2021). Sua etiologia envolve a presença de biofilme dentário cariogênico, a ingestão frequente de açúcares fermentáveis, a suscetibilidade do hospedeiro e o tempo prolongado de exposição desses fatores (De Lucena; Pereira, 2024).

Além da natureza infecciosa e transmissível, a CPI é considerada um problema de saúde pública global, dada sua incidência elevada e sua forte associação com determinantes sociais, como renda, escolaridade dos responsáveis e acesso aos serviços de saúde (Carvalho et al., 2022). A literatura destaca que hábitos como o aleitamento noturno prolongado, o uso indiscriminado de mamadeiras com líquidos açucarados e a ausência de higiene oral precoce contribuem significativamente para o desenvolvimento da doença (Pomponet; Abreu, 2023).

Os primeiros sinais da CPI geralmente se manifestam sob a forma de manchas brancas opacas nos incisivos superiores, podendo evoluir rapidamente para destruição coronária extensa e perda precoce dos elementos dentários. Esta condição compromete não apenas a função mastigatória, mas também o desenvolvimento da fala, a nutrição, o bem-estar psicológico e o rendimento escolar da criança (Castilho et al., 2023; Alves et al., 2023). Nesse contexto, o diagnóstico precoce e a atuação multidisciplinar tornam-se fundamentais para interromper o ciclo da doença e garantir o desenvolvimento saudável do indivíduo.

1.2 Justificativa

A relevância do estudo da cárie da primeira infância reside no seu impacto direto e indireto sobre o crescimento e o desenvolvimento integral da criança. A CPI interfere em aspectos fundamentais da vida infantil, como a alimentação adequada, a formação da linguagem, a qualidade do sono e a convivência social (Mateus et al., 2024). Quando não tratada precocemente, a doença pode levar a quadros infecciosos graves, comprometimento das estruturas faciais, prejuízos emocionais e necessidade de tratamentos invasivos e custosos.

Do ponto de vista clínico, a progressão da CPI representa um desafio para o cirurgião-dentista, pois exige intervenções complexas mesmo em idades muito precoces. Há relatos de casos em que crianças acometidas necessitam de reabilitação oral total sob anestesia geral, o que reforça a urgência do diagnóstico e do tratamento preventivo (Assunção; Maia, 2022; Da Silva et al., 2023).

Além disso, a CPI reflete desigualdades sociais e educacionais, sendo mais prevalente em populações vulneráveis. A ausência de políticas públicas efetivas voltadas à odontologia preventiva, especialmente na atenção primária, contribui para a manutenção do ciclo da doença (Castilho et al., 2022). Assim, compreender os fatores associados à CPI e suas consequências para a vida futura é essencial não apenas para a prática clínica, mas também para a formulação de estratégias de saúde pública mais eficazes.

1.3 Problema de Pesquisa

Considerando a elevada prevalência da cárie da primeira infância, sua capacidade de provocar impactos sistêmicos e suas implicações no desenvolvimento biopsicossocial da criança, surge a seguinte problemática central:

Quais são os efeitos da cárie na primeira infância e de que forma ela pode impactar negativamente a saúde e a qualidade de vida da criança ao longo de seu desenvolvimento?

A investigação dessa questão permitirá compreender a magnitude dos males provocados pela CPI e a necessidade de ações preventivas e terapêuticas precoces, tanto no âmbito clínico quanto na educação em saúde.

1.4 Objetivos

Objetivo Geral

  • Análise dos males provocados pela cárie da primeira infância e suas consequências ao longo do desenvolvimento da criança.

Objetivos Específicos:

  • Descrição das causas, fatores de risco e formas de manifestação da CPI.
  • Identificação das implicações clínicas, nutricionais, emocionais e sociais da doença.
  • Avaliação da importância da prevenção e do tratamento precoce.
  • Discussão sobre o papel dos profissionais da odontologia na educação familiar e no cuidado contínuo.

2. REVISÃO DE LITERATURA

2.1 Cárie da Primeira Infância: Definição e Etiologia

A cárie da primeira infância (CPI) é definida como a presença de uma ou mais superfícies dentárias cariadas (com ou sem cavitação), perdidas por cárie ou restauradas em qualquer dente decíduo, em crianças com idade de até 71 meses (Bernardes; Dietrich; França, 2021). A doença apresenta características clínicas de progressão rápida, principalmente em ambientes desfavoráveis à saúde bucal, com alta ingestão de açúcares e higiene bucal precária.

Sua etiologia é multifatorial, envolvendo a presença de microrganismos cariogênicos, como o Streptococcus mutans, substrato fermentável (açúcares), um hospedeiro suscetível (estrutura dentária imatura), tempo de exposição prolongado e a presença de biofilme dental não controlado (De Lucena; Pereira, 2024). A saliva também desempenha papel crucial nesse processo, pois sua quantidade e composição podem influenciar a capacidade de tamponamento e a remoção de resíduos alimentares.

A doença também está fortemente associada a fatores comportamentais e sociais. Estudos mostram que crianças de famílias com menor nível socioeconômico, menor escolaridade dos responsáveis e acesso limitado aos serviços de saúde bucal têm maior risco de desenvolver CPI (Carvalho et al., 2022; Alves et al., 2023). A associação entre o desmame precoce, a introdução inadequada da alimentação e a exposição prolongada a líquidos açucarados é recorrente na literatura como fator precipitante da doença (Pomponet; Abreu, 2023).

2.2 Fatores de Risco e Hábitos Orais Inadequados

Os hábitos alimentares inadequados e a negligência com a higiene bucal nos primeiros anos de vida são considerados fatores críticos para o desenvolvimento da CPI. Entre os comportamentos de risco mais evidentes estão o aleitamento materno noturno prolongado sem higienização bucal posterior, o uso contínuo de mamadeiras com líquidos açucarados, a introdução precoce de sucos e chás adoçados e a ausência de escovação dental (Pomponet; Abreu, 2023; Costa; Queiroz; Gama, 2022).

Autores como Bernardes; Dietrich; França (2021) ressaltam que a ausência da remoção mecânica da placa bacteriana, aliada à fermentação constante de carboidratos, propicia o abaixamento do pH bucal, promovendo desmineralização do esmalte e iniciando o processo carioso. Este risco é acentuado em crianças que dormem logo após as mamadas sem a higienização dos dentes.

Além disso, a falta de acompanhamento odontológico nos primeiros anos de vida impede a identificação precoce de lesões incipientes, dificultando medidas de reversão por meio de orientações ou intervenções minimamente invasivas. A literatura também destaca que o desconhecimento dos responsáveis sobre a importância da saúde bucal infantil contribui para o atraso na adoção de práticas preventivas (Castilho et al., 2022; Alves et al., 2022).

Tais fatores indicam a necessidade de ações educativas dirigidas às famílias desde a gestação, com enfoque na promoção da saúde e no empoderamento dos cuidadores quanto à higiene oral e alimentação saudável.

3. METODOLOGIA

3.1 Tipo de Pesquisa

Este estudo caracteriza-se como uma pesquisa qualitativa, de natureza exploratória e bibliográfica, fundamentada na análise de publicações científicas relacionadas à cárie da primeira infância (CPI). De acordo com Gil (2008), a pesquisa exploratória visa proporcionar maior familiaridade com o problema investigado, com vistas a torná-lo mais explícito e a construir hipóteses ou novas abordagens. A vertente bibliográfica, por sua vez, consiste no exame sistemático de materiais já publicados, permitindo uma compreensão abrangente do tema por meio de fontes reconhecidas da literatura científica.

A escolha por uma abordagem qualitativa justifica-se pela complexidade do fenômeno estudado, que envolve dimensões biológicas, clínicas, sociais e comportamentais, as quais não podem ser plenamente capturadas por métodos quantitativos. Assim, a pesquisa visa não apenas descrever os efeitos da CPI, mas também compreender seus impactos e significados ao longo do desenvolvimento infantil.

3.2 Fontes de Dados

Foram utilizados como principais recursos para coleta de dados os artigos científicos disponíveis em bases indexadas, tais como SciELO, PubMed, LILACS, Google Scholar, e em periódicos nacionais e internacionais de Odontopediatria. Também foram incluídos manuais clínicos, protocolos de atendimento em saúde bucal infantil e produções acadêmicas atualizadas publicadas entre os anos de 2020 e 2024.

A escolha das fontes priorizou materiais com relevância científica, rigor metodológico e aplicabilidade prática, abordando tanto estudos teóricos quanto relatos de caso e revisões sistemáticas.

3.3 Critérios de Seleção

Foram adotados critérios rigorosos para a seleção dos materiais utilizados na pesquisa. Os critérios de inclusão contemplaram:

  • Publicações em português, inglês ou espanhol;
  • Estudos publicados entre 2020 e 2024;
  • Artigos completos com acesso aberto;
  • Trabalhos que abordassem direta ou indiretamente a cárie da primeira infância em aspectos clínicos, etiológicos, preventivos, reabilitadores e psicossociais.

Os critérios de exclusão incluíram:

  • Estudos com amostras exclusivamente de adultos;
  • Trabalhos duplicados;
  • Publicações com linguagem opinativa sem embasamento científico;
  • Fontes sem revisão por pares.

Essa triagem buscou garantir que as informações analisadas fossem atuais, relevantes e metodologicamente confiáveis, assegurando a consistência da fundamentação teórica e empírica.

3.4 Procedimentos de Análise

A análise dos dados coletados foi realizada com base em uma leitura crítica e interpretativa do conteúdo dos artigos selecionados. Os dados foram organizados por temas, respeitando os objetivos específicos do estudo e a estrutura capitular proposta, a fim de evitar repetições, redundâncias ou sobreposição de argumentos.

Conforme orientações metodológicas de Gil (2008), adotou-se uma abordagem analítica qualitativa, voltada à identificação de padrões, convergências e divergências entre os autores, bem como à extração de conceitos-chave e evidências empíricas relevantes. Os resultados foram sistematizados e sintetizados em categorias temáticas: definição e etiologia da CPI; fatores de risco; evolução clínica; consequências funcionais, estéticas e psicossociais; estratégias preventivas; e papel do cirurgião-dentista e da equipe multiprofissional.

4. REFERÊNCIAS

BERNARDES, Andressa Lara Braga; DIETRICH, Lia; DE FRANÇA FRANÇA, Mayra Maria Coury. A cárie precoce na infância ou cárie de primeira infância: uma revisão narrativa. Research, Society and Development, v. 10, n. 14, p. e268101422093-e268101422093, 2021.

BERALDI¹, Maria Isabel Ribas et al. Cárie na primeira infância: uma revisão de literatura. 2020.

CARVALHO, Wendel Chaves et al. Cárie na primeira infância: um problema de saúde pública global e suas consequências à saúde da criança. Revista fluminense de odontologia, v. 2, n. 58, p. 57-65, 2022.

CASTILHO, Cristiane de Oliveira Santos et al. Cárie na primeira infância e o impacto na qualidade de vida. Revista Pró-univerSUS, v. 14, n. 1, p. 83-88, 2023.

DA SILVA COSTA, Açucena et al. Tratamento restaurador atraumático: técnica minimamente invasiva para lesões de cárie na primeira infância. Archives of health investigation, v. 11, n. 2, p. 297-303, 2022.

POMPONET, Cândida Tannus Brandão; ABREU, Cristina de Carvalho Guedes. A relação do aleitamento materno com a cárie de primeira infância-revisão de literatura. Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação, v. 9, n. 9, p. 3932-3944, 2023.

COSTA, Tâmara Cristina Oliveira; DA SILVA QUEIROZ, Larissa; GAMA, Amanda Carvalho Cangussu. A eficácia do dentifrício fluoretado na prevenção de cárie na primeira infância. Scire Salutis, v. 12, n. 2, p. 268-280, 2022.

DE SOUSA, Emerson Tavares et al. O diamino fluoreto de prata no controle da cárie na primeira infância durante a pandemia da COVID-19. Research, Society and Development, v. 10, n. 6, p. e7710615380-e7710615380, 2021.

ALVES, Suzan Kelren Cardoso; DO VALE, Tailana Mendes; DE OLIVEIRA, Nayhane Cristine da Silva. Cárie na primeira infância. Brazilian Journal of Health Review, v. 6, n. 6, p. 30208-30218, 2023.

MATEUS, Alanna Ramalho et al. Cárie na primeira infância: uma abordagem holística. Revista de Odontologia da UNESP, v. 52, n. Especial, p. 0-0, 2024.

DA SILVA, Ranna Castro et al. Intervenção clínica, cirúrgica e reabilitadora em paciente com cárie na primeira infância: relato de caso. Revista Científica do CRO-RJ (Rio de Janeiro Dental Journal), v. 8, n. 3, p. 76-80, 2023.

DE ALMEIDA, Eduarda Martins Fontes Cantarella et al. Tratamento estético e reabilitador em paciente com cárie na primeira infância: relato de caso. Revista de Odontologia da UNESP, v. 52, n. Especial, p. 0-0, 2024.

CASTILHO, Giovanna Torqueto et al. Manejo clínico, cirúrgico e reabilitador de cárie na primeira infância: relato de caso. Revista de Odontologia da UNESP, v. 50, n. Especial, p. 0-0, 2022.

ALVES, Liandra Nishio Cardoso et al. ODONTOPEDIATRIA:: cárie na primeira infância. Revista Multidisciplinar do Nordeste Mineiro, v. 4, n. 1, 2022.

DE LUCENA, Bruna Ramos; PEREIRA, Tulio Silva. CÁRIE NA PRIMEIRA INFÂNCIA-PREVALÊNCIA, PATOGÊNESE E ABORDAGEM PREVENTIVA–Uma revisão narrativa da literatura. Scientia Generalis, v. 5, n. 2, p. 276-285, 2024.

ASSUNÇÃO, Jusciellen Pales Ribeiro; MAIA, Ana Carolina Del Sarto Azevedo. Reabilitação oral em paciente acometido por cárie da primeira infância: relato de caso. Revista da Faculdade de Odontologia de Porto Alegre, v. 63, n. 1, p. 136-144, 2022.