RELATO DE CASO: INSUFICIÊNCIA HEPÁTICA AGUDA EM CANINA IDOSA DECORRENTE AO USO DE DOXICICLINA EM DOSE INADEQUADA PARA TRATAMENTO PRIMÁRIO DE ERLIQUIOSE

CASE REPORT: ACUTE LIVER FAILURE IN AN ELDERLY DOG DUE TO THE USE OF DOXYCYCLINE IN AN INAPPROPRIATE DOSE FOR THE PRIMARY TREATMENT OF EHRLICHIOSIS

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202510301708


Jayne da Silva Souza1
Jullia de Andrade Guglielmini1
Luiz Eduardo Nunes Ferreira1


RESUMO

Este trabalho aborda os riscos associados ao uso inadequado da doxiciclina no tratamento de hemoparasitoses em cães, em relato de um caso clínico de hepatopatia induzida por intoxicação medicamentosa em uma cadela idosa, no tratamento de erliquiose. Trata-se de uma condição relevante na clínica de pequenos animais, podendo estar associada a erros de dosagem, automedicação ou sensibilidade individual. Propôs-se discutir cuidados na prescrição, sinais clínicos de intoxicação, condutas terapêuticas adotadas e formas de reversão do quadro, reforçando a importância da individualização do tratamento e manejo cuidadoso em pacientes geriátricos. Objetivou-se, neste relato de caso, promover a conscientização sobre uso racional do medicamento em pequenos animais. Apresenta-se quadro clínico da paciente e evolução dos sintomas após o uso da doxiciclina, descrição da conduta terapêutica adotada, resposta ao novo tratamento instituído e a discussão decorrente dos principais efeitos adversos do medicamento em cães, enfatizando as manifestações hepáticas, visando reforçar a importância do cálculo adequado da dosagem e acompanhamento clínico durante o tratamento. Este relato reforça a importância da atenção às doses terapêuticas de antimicrobianos em pacientes geriátricos, bem como da monitorização hepática durante o tratamento.

Palavras-chave: doxiciclina; intoxicação; hepatopatia; cães; relato de caso.

ABSTRACT

This study addresses the risks associated with the inappropriate use of doxycycline in the treatment of hemoparasites in dogs, reporting a clinical case of liver disease induced by drug intoxication in an elderly female dog undergoing treatment for ehrlichiosis. This is a relevant condition in small animal clinics and may be associated with dosing errors, self-medication, or individual sensitivity. The aim was to discuss precautions in prescribing, clinical signs of intoxication, therapeutic approaches adopted, and ways to reverse the condition, reinforcing the importance of individualized treatment and careful management in geriatric patients. The objective of this case report was to promote awareness about the rational use of the drug in small animals. It presents the patient’s clinical picture and the evolution of symptoms after the use of doxycycline, a description of the therapeutic approach adopted, the response to the new treatment instituted, and a discussion of the main adverse effects of the drug in dogs, emphasizing hepatic manifestations, with a view to reinforcing the importance of adequate dosage calculation and clinical monitoring during treatment. This report reinforces the importance of attention to therapeutic doses of antimicrobials in geriatric patients, as well as hepatic monitoring during treatment.

Keywords: doxycycline; poisoning; liver disease; dogs; case report.

INTRODUÇÃO

A doxiciclina é uma tetraciclina amplamente utilizada na medicina veterinária, especialmente no tratamento de hemoparasitoses, como a erliquiose canina. Apesar de ser considerada uma droga segura, sua administração em doses elevadas ou em pacientes com predisposição pode ocasionar efeitos adversos, incluindo lesões hepáticas. Relatos de casos clínicos são importantes para documentar situações atípicas, ampliar o conhecimento sobre reações adversas a fármacos e orientar a conduta terapêutica em situações semelhantes.

De acordo com Jericó (2014) e Taylor (2017), a erliquiose é uma doença infecciosa causada pela bactéria Ehrlichia canis, transmitida pela picada do carrapato marrom (Rhipicephalus sanguineus). A bactéria parasita monócitos circulantes, formando agrupamentos intracitoplasmáticos. Os sinais clínicos são variados e inespecíficos, dependendo da fase da doença, da idade do animal e de comorbidades. Os sintomas mais comuns incluem depressão, febre, anorexia, letargia e sangramentos.

O tratamento é baseado na administração de antibacterianos, sendo a doxiciclina o fármaco preconizado. O protocolo recomendado é de 28 dias, com dose de 10mg/kg, por via oral. A doxiciclina é um antibiótico bacteriostático que age inibindo a síntese de proteínas bacterianas. Segundo Spinosa, Górniak e Bernardi (2022), as tetraciclinas podem causar irritação tecidual com manifestações gastrointestinais, como náuseas, vômito e diarreia, além de efeitos tóxicos em células hepáticas.

A doxiciclina é um antibiótico comumente usado na prática veterinária de pequenos animais, com um amplo espectro de atividade contra bactérias, Rickettsia, Mycoplasma e espécies de Chlamydophila (Prescott, 2000). Pertence ao grupo dos antibióticos tetraciclinas bacteriostáticas que inibem a síntese proteica bacteriana ao ligarem-se a três unidades ribossomais (Greene et al, 2006). Em comparação com outras tetraciclinas, a doxiciclina é cerca de cinco a dez vezes mais lipofílica, resultando em melhor penetração nos tecidos, maior absorção enteral e um espectro antimicrobiano alargado. Além disso, a doxiciclina sofre um metabolismo hepático extenso e é excretada nas fezes como conjugados ou quelatos inativos (Aronson 1980, Shaw e Rubin 1986).

Segundo Schulz et al (2011), embora tenham sido publicados dados sobre a farmacocinética e a toxicologia da doxiciclina em seres humanos e animais de laboratório, há pouca informação disponível sobre os efeitos secundários induzidos pelo medicamento em cães. Relatos de casos de reações adversas atribuídas à doxiciclina e outras tetraciclinas descrevem sinais gastrointestinais, como anorexia, vômitos e diarreia (Bartlett e outros 1975, Aronson 1980). 

A insuficiência hepática pode ter diversas causas, incluindo toxicose medicamentosa, hepatite crônica, infecções virais e bacterianas. Os sinais clínicos de hepatopatia incluem icterícia, encefalopatia e sangramento excessivo, além de sinais inespecíficos como vômito, anorexia e letargia, que podem se sobrepor a outros distúrbios.

Este trabalho tem como objetivo relatar e analisar um caso clínico de hepatopatia induzida por fármaco (HIF) em uma cadela geriátrica, decorrente da administração de doxiciclina em dose supraterapêutica. A proposta visa contribuir para a conscientização sobre o uso racional de antimicrobianos na clínica de pequenos animais, com ênfase na importância do cálculo posológico adequado e do monitoramento clínico durante a terapêutica medicamentosa.

O relato contempla a descrição do histórico clínico da paciente, a apresentação dos sinais clínicos observados após o início do tratamento com doxiciclina, bem como a evolução do quadro hepático. Além disso, são detalhadas as condutas terapêuticas adotadas, a resposta clínica ao novo protocolo instituído e uma discussão baseada na literatura acerca dos principais efeitos adversos associados ao uso da doxiciclina em cães, especialmente as alterações hepáticas. Este estudo reforça a necessidade da avaliação individualizada do paciente, da precisão na prescrição de fármacos e do acompanhamento clínico-laboratorial, a fim de garantir a eficácia e a segurança do tratamento veterinário.

RELATO DE CASO

Este relato de caso descreve a evolução clínica de Juma, uma cadela SRD (Sem Raça Definida) de 17 (dezessete) anos com diagnóstico de erliquiose, que progrediu para uma insuficiência hepática aguda. A paciente já havia sido tratada para tumor venéreo infeccioso (TVT) em 2012 e fazia uso contínuo de Gabapentina.

Em 09/12/2024, exames indicaram elevação de enzimas hepáticas (ALT: 229; FA: 184; AST: 50,79) e contagem plaquetária discretamente diminuída. Em 16/12/2024, um teste sorológico confirmou o diagnóstico de erliquiose com titulação de 1:80.

O tratamento para erliquiose foi iniciado com Doxiciclina. A paciente, com peso de 16,8 kg, recebeu uma prescrição de um comprimido e um quarto de Doxitrat 200 mg a cada 12 horas, durante 28 dias. O cálculo resultou em uma dosagem de aproximadamente 14,88 mg/kg, superior à dose recomendada de 10 mg/kg.

Em 06/01/2025, a paciente retornou ao atendimento com hiporexia e anorexia. O exame físico revelou desidratação moderada, mucosas ictéricas e taquipneia. A glicemia estava baixa (63 mg/dl) e os exames bioquímicos mostraram uma elevação drástica das enzimas hepáticas (ALT: 4260; FA: 865; AST: 357,20), confirmando a insuficiência hepática aguda. A paciente foi internada para tratamento intensivo.

Durante a internação, o protocolo terapêutico incluiu fluidoterapia, protetores gástricos, antieméticos e suplementos para o fígado. Exames subsequentes em 07/01/2025 mostraram melhora parcial, com diminuição de ALT (de 4260 para 2951) e AST (de 357,20 para 172,8), mas um aumento contínuo da FA (de 865 para 946). A bilirrubina total também estava elevada (1,17). O diagnóstico de alta em 14/01/2025 foi de insuficiência hepática aguda. A Tab. 1 apresenta a progressão dos principais exames laboratoriais da paciente ao longo do tratamento:

Tabela 1. Comparativo de Exames Laboratoriais entre dezembro de 2024 e janeiro de 2025.

Exame/Data09/12/202416/12/202402/01/202506/01/202507/01/2025
PlaquetasDiscretamente diminuídasDentro da normalidade258 mil283 mil (normais)245 mil
LeucócitosN/AN/A12.9007.6 mil (normais)20.6 mil
Hematócrito (Ht)N/AN/A55%48% (ref: 38-47%)44%
Hemoglobina (Hg)N/AN/A18,415,212
CreatininaN/AN/A1,521,070,98
UreiaN/AN/A56,562732,47
ErlichioseN/APositivo (Titulação 1:80)N/AN/AN/A

Fonte: Prontuário Clínico (2024/2025)

DISCUSSÃO

O caso de Juma demonstra a complexidade do manejo de um paciente geriátrico com múltiplas comorbidades. A icterícia, observada nas mucosas da paciente, é um sinal típico de disfunção hepática, e a elevação expressiva da FA, que continuou a aumentar mesmo com a melhora parcial das outras enzimas, reforça o quadro de lesão hepática. Os sinais inespecíficos como vômito e anorexia também se sobrepõem aos sinais de hepatopatia.

Embora a doxiciclina seja o tratamento de escolha para a erliquiose, sua administração em dose supraterapêutica pode ter sido o gatilho para a toxicidade hepática, especialmente em um animal com histórico de alterações bioquímicas hepáticas. A evolução do quadro foi rápida, passando de uma elevação discreta das enzimas hepáticas para uma insuficiência aguda em menos de um mês. A queda do hematócrito e hemoglobina, assim como a leucocitose, indicam a complexidade do quadro, com possível anemia associada à doença e uma resposta inflamatória exacerbada.

Um estudo de Schulz et al (2011), indica que a terapia com doxiciclina em cães pode estar associada a efeitos colaterais gastrointestinais e a um aumento na atividade das enzimas hepáticas. Como foram incluídos apenas dados de cães que desenvolveram anormalidades clínicas e laboratoriais durante o tratamento com doxiciclina, é menos provável que esses sinais clínicos possam ser atribuídos ao processo da doença subjacente, mas sim que representem efeitos adversos induzidos pelo medicamento.

A conduta terapêutica adotada, focada em suporte hepático, fluidoterapia e controle de sintomas, foi eficaz na estabilização do quadro. A necessidade de postergar o tratamento para a doença cardíaca, mesmo com um diagnóstico já em estadiamento B2, sublinha a urgência do quadro hepático.

CONCLUSÃO

Este trabalho teve como objetivo relatar o caso de uma cadela idosa que desenvolveu sinais clínicos de hepatopatia após o uso de dose elevada de doxiciclina no tratamento de erliquiose. A paciente apresentou sinais inespecíficos de apatia, anorexia e icterícia, sendo realizados exames laboratoriais e de imagem compatíveis com lesão hepática. O tratamento de suporte incluiu fluidoterapia, protetores hepáticos e manejo sintomático, com evolução clínica desfavorável.

O presente relato evidencia a importância da atenção à dosagem de doxiciclina em cães, especialmente em pacientes geriátricos. Destaca-se o fato da administração de uma dose superior à recomendada pode desencadear uma crise hepática aguda, mesmo em um tratamento comumente considerado seguro. A evolução clínica da paciente Juma reforça a necessidade de um monitoramento clínico e laboratorial rigoroso durante a terapêutica medicamentosa, a fim de prevenir complicações e garantir a segurança do paciente. Este estudo serve como um lembrete para a prática veterinária sobre os riscos da superdosagem e a importância da avaliação individualizada em todos os casos.

REFERÊNCIAS

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1Universidade Guarulhos, Faculdade de Medicina Veterinária, Guarulhos, São Paulo, Brasil.