BRINQUEDOS E LUDICIDADE NO DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA COM PARALISIA CEREBRAL EM AMBIENTE DOMICILIAR E NA FISIOTERAPIA: REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

TOYS AND PLAY IN THE DEVELOPMENT OF CHILDREN WITH CEREBRAL PALSY IN THE HOME ENVIRONMENT AND IN PHYSIOTHERAPY: BIBLIOGRAPHICAL REVIEW

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202506300535


Monielly Lima Souza


RESUMO

A paralisia cerebral é definida como um grupo de lesões permanentes não progressivas que ocorrem durante o período pré ou pós natais e pode ocorrer por causas externas até os 3 anos de idade. Brinquedos e atividades lúdicas geram estímulos e motivação para execução das tarefas, exercitam a imaginação, memória, concentração, exploração de ambiente, conhecimento da sua imagem corporal e assim estimulam o desenvolvimento motor. O objetivo deste estudo é verificar a influência dos recursos lúdicos e brinquedos para o desenvolvimento motor de crianças com paralisia cerebral em ambiente domiciliar e na fisioterapia através de uma revisão bibliográfica, 6 artigos e dois livros. A coleta de dados foi realizada através de revisão de publicações científicas nas seguintes bases de dados: SciELO (Centro Latino-Americano e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde, Scientific Electronic Library Online), Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), PubMed, LILACS, Livros. Conclui-se que a fisioterapia lúdica é uma abordagem essencial para a reabilitação de crianças com paralisia cerebral, seja em casa ou em um ambiente clínico. O uso do jogo facilita o desenvolvimento motor, cognitivo, emocional e social além de fortalecer o vínculo familiar. 

Palavras-chave: Brincadeiras, Brinquedos, Paralisia Cerebral, Fisioterapeutas, Ludoterapia, Modalidades de Fisioterapia.

ABSTRACT

Cerebral palsy is defined as a group of permanent, non-progressive lesions that occur during the pre- or post-natal period and can occur due to external causes up to 3 years of age. Toys and play activities generate stimuli and motivation to perform tasks, exercise imagination, memory, concentration, exploration of the environment, knowledge of body image and thus stimulate motor development. The objective of this study is to verify the influence of play resources and toys on the motor development of children with cerebral palsy in the home environment and in physical therapy through a bibliographic review, 7 articles and two books. Data collection was performed through a review of scientific publications in the following databases: SciELO (Latin American and Caribbean Center for Health Sciences Information, Scientific Electronic Library Online), Virtual Health Library (BVS), PubMed, LILACS, Books. Play-based physical therapy is an essential approach for the rehabilitation of children with cerebral palsy, whether at home or in a clinical setting. The use of games facilitates motor, cognitive, emotional and social development, as well as strengthening family bonds.

Keywords: Games, Toys, Cerebral Palsy, Physiotherapists, Play Therapy, Physiotherapy Modalities.

INTRODUÇÃO

Brincar é essencial na vida de uma criança além de ser uma forma prazerosa de movimento e independência. Por meio da brincadeira, a criança desenvolve seus sentidos, adquire habilidades manuais e corporais, reconhece objetos e suas características, textura, forma, tamanho, cor e som. Por meio do brincar, a criança entra em contato com o ambiente, se conecta com os outros, desenvolve físico, mental, autoimagem, emocional, torna-se ativa e curiosa. O estímulo de uma área em desenvolvimento sempre beneficiará outras áreas como por exemplo o motor pode estimular cognitivo.1

A criança com paralisia cerebral pode ter déficits sensoriais, comunicativos e cognitivos devido à lesão permanente não progressiva, esse grupo de lesões permanentes afetam tônus muscular, postura, desenvolvimento motor, limitações funcionais e pode ocorrer no período de desenvolvimento ainda na barriga da mãe ou pós nascimento até 3 anos de idade. O grau de comprometimento é de acordo com as áreas do sistema nervoso central afetadas e sua extensão, frequentemente sendo associado à outras patologias e distúrbios como a epilepsia.2

A PC é classificada de duas formas, de acordo com o tipo clínico (espástico, atetoide, atáxico, hipotônico e misto), e de acordo com a distribuição topográfica, a saber: hemiparesia que compromete apenas um hemicorpo, diparesia que acomete principalmente os membros inferiores, e a tetraparesia que acomete os quatro membros. As alterações mais comuns são: padrões específicos que perturbam o movimento funcional da criança. Estes podem, dependendo da área afetada no sistema nervoso, apresentar alterações neuromusculares como: tônus ​​muscular diferente, reflexos primitivos persistentes, rigidez, espasticidade, entre outras alterações. Essas alterações podem se destacar em padrões posturais e movimentos específicos que podem comprometer a capacidade motora e funcional da criança. 2

Os brinquedos e jogos são importantes para o físico, mental e social da criança e muito natural na infância criando oportunidades para aprender, desenvolver e ensinando também interação com ambiente em que vive, objetos, espaços e pessoas. Um tratamento fisioterapêutico bem estruturado deve ser pensado nas características de cada paciente e suas necessidades, dificuldades, limitações e alterações. O mais comum a ser utilizado no tratamento lúdico são brinquedos de montar, encaixar, alcançar objetos, estímulo visual e auditivo, pular, empurrar brinquedos e entre outras opções nas quais haja manipulação pela criança.3

A realidade virtual também é considerada lúdica, utiliza simulações de ambiente da vida real para gerar movimento, seus benefícios são para todo o corpo, melhorando a funcionalidade das mãos, coordenação motora, equilíbrio, deambulação, dentre outros ganhos físicos. Deve ser utilizada associada a outros métodos de intervenção para potencializar os ganhos.4

O tratamento deve ser multidisciplinar, constituído por fisioterapeuta, terapeuta ocupacional, fonoaudiólogo, psicólogo e a equipe médica geralmente é composta pelo ortopedista e neurologista. É necessário essa abordagem na qual vários profissionais atuam no atendimento para que a necessidade da criança e da família seja tratada de forma individualizada e sejam encaminhadas para terapias adequadas em cada fase. A fisioterapia é ampla e trabalha principalmente equilíbrio muscular e articular, força e postura. Os recursos podem ser hidroterapia, equoterapia, cinesioterapia, FES, dentre outros.5

MÉTODOS

Este é um estudo descritivo do tipo revisão bibliográfica, cujo objetivo é avaliar e sintetizar a produção científica sobre a aplicação de brinquedos e ludicidade no desenvolvimento de crianças com paralisia cerebral. A coleta de dados foi realizada através de revisão de publicações científicas nas seguintes bases de dados: SciELO (Centro Latino-Americano e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde, Scientific Electronic Library Online), Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), PubMed, LILACS, Livros. Para a busca foram utilizadas as palavras: Brincadeiras, Brinquedos, Paralisia Cerebral, Fisioterapeutas, Ludoterapia, Modalidades de Fisioterapia. Foram incluídos artigos publicados no período de 2010 a 2024, com linguagem em português, inglês ou espanhol, em que se usa brinquedos e ludicidade no tratamento de crianças com paralisia cerebral. A seleção de artigos foi feita através da leitura dos títulos e resumos e, posteriormente, a leitura dos textos completos daqueles que atenderam aos critérios estabelecidos anteriormente. Os dados extraídos foram sistematicamente estruturados para possibilitar uma análise crítica e reflexiva dos conteúdos referidos na literatura.

RESULTADOS

Tabela 1: Resultados dos estudos

Autor/AnoTipo de EstudoObjetivoPrincipais Resultados
Silva et al. (2017)Revisão de literaturaAnalisar a importância da ludicidade na fisioterapia pediátricaMelhora adesão, desenvolvimento motor, cognitivo e social de crianças na fisioterapia
Ministério da Saúde (2013)Diretriz técnicaOferecer orientações sobre o cuidado integral à pessoa com paralisia cerebralReforça terapias lúdicas e multidisciplinares na reabilitação, incluindo fisioterapia
Chicarelli et al. (2018)Estudo qualitativoAvaliar a relação do brincar com o desenvolvimento motor e comunicativo em crianças com paralisia cerebral.Contribui para ganhos motores, cognitivos, comunicativos e sociais.
Arnoni et al. (2018)Estudo preliminarAvaliar os efeitos do videogame ativo no autoconceito e equilíbrio em crianças com PC.Melhora no equilíbrio, desempenho motor e percepção de autoconceito das crianças.
Camargos et al. (2019)Livro técnicoApresentar práticas baseadas em evidências na fisioterapia pediátrica.Destaca a ludicidade como facilitadora no desenvolvimento motor, funcional e social.
Camila et al. (2016)Estudo qualitativoAnalisar a percepção de pais e terapeutas sobre o brincar na PC.Melhora motivação, interação e desenvolvimento infantil.
Ribeiro e Iwabe-Marchese (2015)Estudo de casoAvaliar o uso da realidade virtual na reabilitação motora de uma criança com PC atáxica.Melhora no equilíbrio, coordenação motora e funcionalidade.
Felício et al. (2019)Estudo de casoAvaliar o uso de brinquedos educativos e contação de histórias na intervenção com crianças com deficiência múltipla.Contribuiu para desenvolvimento motor, social e da comunicação.

DISCUSSÃO

Os resultados encontrados na revisão reforçam que a fisioterapia lúdica, como recurso terapêutico a ser aplicado em crianças com paralisia cerebral, tem sido abordada na literatura científica e também é vista como eficaz para o desenvolvimento motor, cognitivo e social dos pacientes. Estudos incluídos nesta revisão sugerem que o jogo, quando integrado intencionalmente com intervenções de fisioterapia, tem um impacto considerável no envolvimento das crianças e na mudança funcional, se usado consistentemente na clínica e em casa. As técnicas de atividade lúdica podem ser ajustadas às necessidades individuais, assegurando que a criança respeite os limites e trabalhe para melhorar as funções, com o fisioterapeuta disponível como facilitador da ludicidade, tanto na prática clínica quanto fora dela.6

Brincar com jogos e brinquedos e participar de circuitos terapêuticos aumenta a motivação durante as sessões e impulsiona a repetição de movimentos que são essenciais para a reabilitação motora. Além disso, o ambiente clínico possui os materiais e instrumentos necessários para a utilização de métodos mais direcionados. Por outro lado, a fisioterapia lúdica em casa permite a continuidade do tratamento, um cuidado indispensável para a manutenção dos ganhos adquiridos na sessão clínica. O envolvimento da família nesse processo é crucial para o sucesso do tratamento. A participação dos cuidadores nas atividades lúdicas melhora a conexão afetiva e permite que a criança experimente a reabilitação em um ambiente natural, promovendo assim o efeito de transferência das habilidades aprendidas.6

Algumas barreiras ocorrem para a adoção da fisioterapia lúdica utilizando a realidade virtual, incluindo, mas não se limitando à falta de recursos materiais, a falta de treinamento profissional para facilitar o uso da ludicidade e a falta de orientação para as famílias.  Soma-se a isso o fato de que a motivação da criança muda, o que requer engenhosidade por parte do fisioterapeuta.7

A literatura, portanto, aponta que a fisioterapia lúdica não deve ser considerada apenas como uma atividade de intereção durante o tratamento, mas como uma abordagem terapêutica sistemática e bem fundamentada que respeita a criança como um todo. O jogo pode então ser usado para aumentar a independência, habilidade e qualidade de vida.8 

CONCLUSÃO

Com base na análise dos resultados obtidos, a fisioterapia, em termos de participação ativa, é uma ferramenta básica para a reabilitação de crianças com paralisia cerebral em um ambiente ambulatorial e domiciliar. A integração de atividades lúdicas nessa terapia é relevante não apenas para o domínio das habilidades, mas também para os componentes cognitivos, afetivos e sociais no tratamento da criança de maneira holística. O melhor de tudo é envolver a criança na terapia e ajudá-la a continuar em casa.6 

No ambiente doméstico, a ludicidade permite a participação da família e maximiza o status funcional da criança em casa, conectando-a emocionalmente por meio do brincar e potencializando a reabilitação para ocorrer de maneira mais contínua e significativa. Na prática clínica, o fisioterapeuta, atuando como um jogador terapêutico, permite o uso de estratégias específicas e individualizadas, considerando as necessidades e potencialidades do paciente. 2

Concluindo, a fisioterapia lúdica é considerada um cuidado eficiente e humanizado para crianças com paralisia cerebral, sendo recomendada em clínicas ambulatoriais e como suporte domiciliar. Além disso, enfatiza-se a necessidade de treinamento profissional e apoio contínuo às famílias para fomentar a ludicidade como uma ferramenta terapêutica rotineira e eficiente na reabilitação pediátrica.5

REFERÊNCIAS 

  1. SILVA A dos S da, VALENCIANO PJ, FUJISAWA DS. Atividade Lúdica na Fisioterapia em Pediatria: Revisão de Literatura. Revista Brasileira de Educação Especial [Internet]. 2017 Dec;23(4):623–36.
  2. Diretrizes de atenção à pessoa com paralisia cerebral / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. – Brasília : Ministério da Saúde, 2013. 80 p. : il.
  3. Chicarelli Marques ML, Boarini dos Santos C, Tibérico Araujo R de C, Dahwache Criado Rocha AN. O brincar e as habilidades motoras e comunicativas da criança com paralisia cerebral. Rev chil ter ocup [Internet]. 2018;79–90.
  4. Arnoni JLB, Verdério BN, Pinto AMA, Rocha NACF. Efeito da intervenção com videogame ativo sobre o autoconceito, equilíbrio, desempenho motor e sucesso adaptativo de crianças com paralisia cerebral: estudo preliminar. Fisioterapia e Pesquisa. 2018 Sep;25(3):294–302.
  5. Camargos ACR, Leite HR, Morais RLDS, Lima V. Fisioterapia em pediatria – Da evidência à prática clínica. Rio de Janeiro: MedBook Editora; 2019.
  6. Camila S, CUNHA TT, PFEIFER LI, TEDESCO SA, Madalena M. Percepção de Pais e Terapeutas Ocupacionais sobre o Brincar da Criança com Paralisia Cerebral. Rev bras educ espec [Internet]. 2016 [cited 2025 Jun 14];221–32
  7. Ribeiro R, Iwabe-Marchese C. Uso da realidade virtual na reabilitação motora de uma criança com Paralisia Cerebral Atáxica: estudo de caso. DOAJ (DOAJ: Directory of Open Access Journals). 2015 Mar 1;8.
  8. Felício FA dos S, Seabra Junior MO, Rodrigues V, Felício FA dos S, Seabra Junior MO, Rodrigues. Brinquedos Educativos Associados à Contação de Histórias Aplicados a uma Criança com Deficiência Múltipla. Revista Brasileira de Educação Especial [Internet]. 2019 Mar 1 [cited 2020 Oct 15];25(1):67–84.

Rolar para cima