RECENT ADVANCES IN THE TREATMENT OF ACUTE MYELOID LEUKEMIA: A LITERATURE REVIEW
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202511122045
Dannilo Raizer Gonzaga2
João Pedro Rios Lacerda3
Omar Borges de Oliveira Júnior4
Rodrigo Izidório Leoni5
Ricardo Torres Negraes6
RESUMO: A Leucemia Mieloide Aguda (LMA) é uma neoplasia hematológica agressiva caracterizada pela proliferação descontrolada de blastos mieloides, associada a altas taxas de mortalidade e prognóstico desfavorável, especialmente em pacientes idosos. Tradicionalmente, o tratamento baseia se na quimioterapia intensiva e no transplante alogênico de células-tronco hematopoiéticas; contudo, as elevadas taxas de recaída e os efeitos adversos impulsionaram o desenvolvimento de terapias inovadoras. Este trabalho consiste em uma revisão bibliográfica integrativa, realizada em bases de dados como PubMed, SciELO, Springer, MDPI e Nature, considerando artigos publicados entre 2016 e 2025. Foram inicialmente identificados 40 estudos, dos quais 26 atenderam aos critérios de inclusão e compuseram a análise final. Os resultados evidenciam avanços significativos com terapias-alvo, como inibidores de FLT3 e IDH1/IDH2, que ampliaram as possibilidades de tratamento personalizado. Além disso, a imunoterapia — incluindo bloqueadores de checkpoints imunológicos e terapias celulares — apresenta potencial promissor, apesar de desafios relacionados à toxicidade e aplicabilidade clínica. Estratégias combinadas, como a associação de hipometilantes e venetoclax, demonstraram aumento nas taxas de resposta e de sobrevida em pacientes inelegíveis para regimes intensivos. O transplante de células-tronco permanece como terapia central, com inovações que buscam reduzir complicações e ampliar sua aplicabilidade. Conclui-se que, embora os avanços recentes representem um marco na evolução terapêutica da LMA, os desafios persistem, incluindo a resistência a drogas, a necessidade de estudos de longo prazo e o acesso desigual às novas terapias. Dessa forma, reforça-se a importância da pesquisa contínua e da integração de abordagens personalizadas no manejo clínico da LMA.
Palavras-chave: Leucemia mieloide aguda. Terapias-alvo. Imunoterapia. Transplante de células tronco. Revisão integrativa.
ABSTRACT: Acute Myeloid Leukemia (AML) is an aggressive hematological malignancy characterized by uncontrolled proliferation of myeloid blasts, with high mortality rates and poor prognosis, particularly in elderly patients. Traditionally, treatment has relied on intensive chemotherapy and allogeneic hematopoietic stem cell transplantation; however, high relapse rates and treatment-related toxicities have driven the development of innovative therapeutic strategies. This study is an integrative literature review conducted in databases such as PubMed, SciELO, Springer, MDPI, and Nature, including articles published between 2016 and 2025. A total of 40 studies were initially identified, of which 26 met the inclusion criteria and were analyzed in depth. Findings highlight significant progress with targeted therapies, including FLT3 and IDH1/IDH2 inhibitors, which have broadened the scope of personalized medicine. Furthermore, immunotherapy — encompassing immune checkpoint inhibitors and cellular therapies — has shown promising results, despite ongoing challenges related to toxicity and clinical feasibility. Combined strategies, such as the use of hypomethylating agents plus venetoclax, have improved response and survival rates in patients unfit for intensive regimens. Hematopoietic stem cell transplantation remains a cornerstone of AML therapy, with innovations aimed at reducing complications and expanding its applicability. In conclusion, while recent therapeutic advances mark a milestone in AML management, persistent challenges remain, including drug resistance, unequal access to novel therapies, and the need for long-term studies. Continued research and the integration of personalized approaches are essential to further improve patient outcomes.
Keywords: Acute myeloid leukemia. Targeted therapy. Immunotherapy. Hematopoietic stem cell transplantation. Integrative review.
1. INTRODUÇÃO
A Leucemia Mieloide Aguda (LMA) é um câncer hematológico agressivo e de rápida progressão, caracterizado pela proliferação descontrolada de células mieloides imaturas na medula óssea, o que compromete a produção de células sanguíneas normais (National Cancer Institute, S.D.; Verywell Health, 2025). Essa condição representa aproximadamente 1,1 % de todos os novos casos de câncer nos Estados Unidos em 2025 e corresponde a cerca de 22010 novos diagnósticos, com uma estimativa de 11090 óbitos, demonstrando uma alta mortalidade associada à doença (National Cancer Institute, 2025; Verywell Health, 2025).
A taxa de sobrevida relativa em cinco anos após o diagnóstico permanece baixa, com cerca de 32,9 %. A LMA afeta principalmente indivíduos mais velhos, com mediana de idade aproximadamente 69 anos ao diagnóstico. Diante desse cenário crítico, torna-se evidente a necessidade premente de terapias inovadoras. Abordagens como terapias-alvo, imunoterapia, transplante de células-tronco hematopoiéticas e estratégias terapêuticas combinadas vêm sendo desenvolvidas e testadas para superar limitações das terapias convencionais e melhorar os desfechos clínicos (National Cancer Institute, 2025).
Embora o tratamento da LMA tenha historicamente se baseado na quimioterapia intensiva e no transplante alogênico de células-tronco hematopoiéticas, resultados subótimos, especialmente em pacientes idosos ou com doença refratária, motivaram o desenvolvimento de novas terapias mais precisas e menos tóxicas. A compreensão dos mecanismos moleculares da doença possibilitou o surgimento de inibidores direcionados a mutações específicas (por exemplo, mutações no gene FLT3), imunoterapias emergentes e estratégias combinadas que visam aumentar a eficácia e reduzir a resistência terapêutica (National Cancer Institute, 2025; Verywell Health, 2025).
Além disso, o avanço em técnicas de transplante, como a modulação da resposta imunológica no receptor, tem mostrado potencial de melhorar a qualidade de vida dos pacientes submetidos a esse tratamento complexo. Por isso, atualizar o conhecimento sobre os avanços terapêuticos recentes na LMA é fundamental para embasar práticas clínicas mais eficazes, bem como orientar pesquisas futuras.
Diante do exposto, o presente trabalho tem como objetivo revisar de forma sistemática os principais avanços terapêuticos recentes no manejo da Leucemia Mieloide Aguda (LMA), buscando oferecer uma visão atualizada e abrangente sobre as estratégias de tratamento mais promissoras. Especificamente, pretende-se identificar novas terapias-alvo e agentes em desenvolvimento, analisar a evolução do transplante de células-tronco hematopoiéticas, destacando inovações que minimizam riscos e ampliam as possibilidades de sucesso terapêutico, bem como avaliar o papel da imunoterapia e de estratégias terapêuticas combinadas na melhoria dos resultados clínicos e na sobrevida dos pacientes acometidos por essa neoplasia hematológica agressiva.
2. MATERIAIS E MÉTODOS
O presente estudo caracteriza-se como uma revisão bibliográfica integrativa, cuja finalidade é reunir, analisar e sintetizar as evidências disponíveis sobre os avanços recentes no diagnóstico e no tratamento da Leucemia Mieloide Aguda (LMA). Para a construção deste trabalho, foram consultadas bases de dados de ampla relevância científica, como PubMed, SciELO, Springer, MDPI e Nature, além de periódicos especializados na área da hematologia e oncologia.
Foram adotados critérios de inclusão que contemplaram artigos publicados no período compreendido entre 2016 e 2025, redigidos em inglês ou português, e que abordassem diretamente o diagnóstico da LMA, bem como estratégias terapêuticas inovadoras, incluindo terapias-alvo, imunoterapias e transplante de células-tronco hematopoiéticas. Por outro lado, foram excluídos estudos com foco exclusivo em outros subtipos de leucemias sem relação direta com a LMA, além de artigos duplicados nas bases de dados e trabalhos de caráter opinativo que não apresentarem fundamentação científica.
O processo metodológico envolveu a leitura integral dos artigos selecionados, seguida da extração sistemática de informações consideradas relevantes para o escopo da pesquisa. Posteriormente, os dados foram organizados em categorias temáticas, possibilitando uma análise crítica e comparativa entre os diferentes estudos e permitindo identificar avanços, desafios e perspectivas futuras no manejo da LMA.
3. RESULTADOS E DISCUSSÕES

Foram inicialmente identificados 40 artigos científicos nas bases de dados selecionadas, publicados entre os anos de 2016 e 2025. Após a leitura preliminar, 14 estudos foram excluídos por não atenderem aos critérios estabelecidos, seja por abordarem outras neoplasias hematológicas sem relação direta com a Leucemia Mieloide Aguda (LMA), seja por apresentarem caráter meramente opinativo ou duplicado em mais de uma base. Assim, 26 artigos foram incluídos para leitura integral, criteriosa e objetiva, contemplando publicações em inglês e português, oriundas de periódicos de alta relevância na área da hematologia.
Desses 26 artigos, todos foram aproveitados para a composição do presente Trabalho de Conclusão de Curso, sendo organizados de forma sistemática em categorias temáticas previamente definidas: aspectos epidemiológicos e fisiopatológicos da LMA; diagnóstico e estratificação de risco; terapias tradicionais; avanços terapêuticos recentes; e transplante de células-tronco hematopoiéticas. Essa divisão permitiu não apenas uma análise exploratória e seletiva, mas também uma discussão crítica sobre as tendências atuais e futuras no manejo clínico da doença.
A análise dos estudos selecionados evidencia que o tratamento da Leucemia Mieloide Aguda (LMA) passou, nas últimas décadas, por uma transformação significativa. As terapias tradicionais, centradas na quimioterapia intensiva e no transplante alogênico de células-tronco hematopoiéticas (Dinardo; Weisdorf, 2020; Cornelissen; Blaise, 2016), embora ainda fundamentais em muitos protocolos, demonstram limitações consideráveis, sobretudo em pacientes idosos ou com comorbidades, resultando em altas taxas de recaída e mortalidade (Freitas et al., 2016; Ravandi; Stone, 2019).
Nesse contexto, os avanços terapêuticos recentes têm proporcionado perspectivas mais promissoras. As terapias-alvo destacam-se como uma das principais inovações, com a introdução de inibidores de FLT3, como o midostaurin e o gilteritinibe, que mostraram benefício significativo em pacientes com mutações específicas, aumentando a sobrevida global (Stone et al., 2017; Perl et al., 2019). Da mesma forma, os inibidores de IDH1 e IDH2, como ivosidenibe e enasidenibe, demonstraram eficácia em subgrupos de pacientes com mutações nesses genes, ampliando o leque de opções personalizadas (Dinardo et al., 2018; Stein et al., 2017).
Outra frente de inovação refere-se à imunoterapia. Estudos recentes evidenciam avanços tanto no uso de inibidores de checkpoints imunológicos quanto no desenvolvimento de terapias celulares, como CAR-T e células NK, com resultados preliminares encorajadores (Davids; Kim, 2019; Nishida; Saito, 2020; Ramanujam et al., 2020). Apesar de ainda enfrentarem desafios relacionados à toxicidade e à aplicabilidade clínica, essas estratégias apontam para um futuro em que o sistema imune será mais amplamente explorado como ferramenta terapêutica contra a LMA.
As terapias combinadas também se mostram promissoras, especialmente na associação de quimioterapia ou agentes hipometilantes com novas drogas-alvo. Ensaios com azacitidina associada ao venetoclax demonstraram taxas de resposta superiores às obtidas com regimes convencionais, inclusive em pacientes não elegíveis para quimioterapia intensiva (Di Nardo et al., 2020; Wei et al., 2019). Essa tendência de combinações personalizadas reforça a necessidade de abordagens flexíveis, adaptadas ao perfil genômico e clínico do paciente.
O impacto clínico desses avanços é evidente: melhorias consistentes em sobrevida global, redução de recaídas e ampliação das opções terapêuticas, sobretudo para pacientes antes considerados sem alternativa terapêutica eficaz (Haematologica, 2023; Amantéa et al., 2025). Entretanto, os desafios persistem. A resistência adquirida a novas drogas continua sendo um obstáculo relevante, limitando a durabilidade das respostas (Aziz et al., 2017).
O acesso desigual a terapias inovadoras, especialmente em países de baixa e média renda, restringe a aplicabilidade universal dos avanços descritos (Silva; Lima; Souza, 2021). Finalmente, a necessidade de estudos de longo prazo permanece, uma vez que muitos ensaios clínicos ainda apresentam segmento restrito, não permitindo conclusões definitivas sobre a sustentabilidade dos benefícios observados.
Assim, os resultados desta revisão confirmam que, embora a quimioterapia e o transplante continuem como pilares do tratamento da LMA, os avanços recentes nas terapias-alvo, imunoterapias e estratégias combinadas têm remodelado o cenário terapêutico, oferecendo maior possibilidade de individualização e aumento da eficácia. Contudo, superar os entraves relacionados à resistência, ao acesso e ao monitoramento de longo prazo será essencial para consolidar tais progressos no manejo clínico cotidiano da doença.
4. REFERENCIAL TEÓRICO
4.1 Aspectos epidemiológicos e fisiopatologia da LMA
A Leucemia Mieloide Aguda (LMA) é uma neoplasia hematológica agressiva que tem sido descrita como uma das leucemias mais incidentes em adultos, especialmente em indivíduos com idade superior a 60 anos. Historicamente, o reconhecimento da LMA remonta ao final do século XIX, quando se iniciaram as primeiras descrições clínicas e hematológicas da doença. Desde então, avanços significativos permitiram a compreensão mais detalhada de sua fisiopatologia e de seus fatores predisponentes (Karger, 2024).
Do ponto de vista epidemiológico, a LMA apresenta incidência variável de acordo com a faixa etária e a região geográfica. No Brasil, estudos demonstram que a maioria dos casos ocorre em adultos, com discreta predominância no sexo masculino, refletindo padrões observados em outros países (Silva; Lima; Souza, 2021; Freitas et al., 2016). Além disso, aspectos como exposição ocupacional a agentes químicos, radiação ionizante, história prévia de quimioterapia e predisposição genética estão entre os principais fatores de risco associados ao desenvolvimento da doença (Haematologica, 2023).
No campo da fisiopatologia, a LMA é caracterizada pela proliferação descontrolada de blastos mieloides imaturos, que se acumulam na medula óssea e comprometem a produção de células hematopoiéticas normais. Avanços recentes têm evidenciado que mutações em genes reguladores da diferenciação celular, como FLT3, NPM1, IDH1 e IDH2, além de alterações epigenéticas e disfunções em vias de sinalização, desempenham papel central na patogênese e no prognóstico da doença (Karger, 2024; Haematologica, 2023). Dessa forma, a compreensão desses mecanismos moleculares não apenas aprimora o conhecimento sobre a progressão da LMA, como também fundamenta o desenvolvimento de terapias-alvo cada vez mais eficazes.
4.2 Diagnóstico e estratificação de risco
O diagnóstico da Leucemia Mieloide Aguda (LMA) baseia-se inicialmente em achados clínicos e laboratoriais clássicos — citopenias, presença de blastos no hemograma e alterações morfológicas na medula óssea — complementados por imunofenotipagem por citometria de fluxo e exames citogenéticos convencionais. Entretanto, nas últimas décadas houve um avanço significativo na incorporação de análises moleculares ao processo diagnóstico, o que permitiu não apenas confirmar o diagnóstico, mas também estratificar o risco e orientar decisões terapêuticas mais precisas (Small; Oh; Platanias, 2022).
O emprego de painéis de sequenciamento de nova geração (NGS) para detectar variantes em genes recorrentes na LMA — como FLT3, NPM1, IDH1/2, TP53, entre outros — tem-se mostrado fundamental para a classificação prognóstica e para a indicação de terapias-alvo. Revisões recentes ressaltam que painéis padronizados e otimizados para diagnóstico clínico permitem identificação rápida e sensível de alterações acionáveis, favorecendo a abordagem terapêutica individualizada e a seleção de pacientes para ensaios clínicos (Chaudhary et al., 2024).
Além disso, a literatura tem apontado para biomarcadores emergentes com potencial prognóstico e preditivo. Estudos que investigam mutações genéticas como biomarcadores de resposta e resistência, assinaturas de expressão e marcadores de superfície celular (ex.: CD36) sugerem utilidade na previsão de recorrência e na estratificação de risco, embora muitos desses achados ainda requeiram validação prospectiva ampla antes de adoção rotineira clínica (Aziz et al., 2017; Amantéa et al., 2025).
Complementarmente, revisões sobre biomarcadores ressaltam o papel de marcadores moleculares e epigenéticos no acompanhamento da doença mínima residual (DMR), fator cada vez mais importante para prever recaída e modular decisões terapêuticas pós-indução (Small; Oh; Platanias, 2022).
A integração de exames laboratoriais clássicos, citometria de fluxo, citogenética e, sobretudo, análises moleculares por NGS e biomarcadores emergentes vem transformando o diagnóstico e a estratificação de risco da LMA, viabilizando uma medicina mais dirigida e baseada no perfil molecular individual do paciente (Chaudhary et al., 2024; Aziz et al., 2017; Small; Oh; Platanias, 2022; Amantéa et al., 2025).
4.3 Terapias tradicionais
O tratamento convencional da Leucemia Mieloide Aguda (LMA) permanece centrado na quimioterapia citotóxica, aplicada em fases distintas que envolvem indução, consolidação e suporte clínico. O objetivo da quimioterapia de indução é alcançar a remissão completa por meio da erradicação dos blastos leucêmicos circulantes e medulares. Tradicionalmente, utiliza-se a combinação de citarabina em regime contínuo associado a um antraciclínico, protocolo conhecido como “7+3” (Döhner; Estey; Amadori, 2017).
Após a remissão, a terapia de consolidação busca eliminar clones residuais e prevenir recaídas. A citarabina em altas doses constitui o pilar dessa fase, com diferentes esquemas ajustados conforme idade e status clínico do paciente. Pacientes de alto risco citogenético ou com resposta insatisfatória podem ser encaminhados ao transplante alogênico de células-tronco hematopoéticas (Dinardo; Weisdorf, 2020).
O tratamento de suporte também é parte essencial do manejo da LMA, envolvendo transfusões de hemocomponentes, antibióticos profiláticos, antifúngicos, fatores de crescimento hematopoiético e monitoramento rigoroso das complicações infecciosas e hemorrágicas (Döhner; Estey; Amadori, 2017).
Apesar dos avanços, os esquemas tradicionais enfrentam limitações importantes. A toxicidade hematológica e sistêmica restringe seu uso em idosos e em pacientes com comorbidades, além de impactar na qualidade de vida. Ademais, mesmo com protocolos consolidados, as taxas de recaída permanecem elevadas, especialmente em subgrupos de risco adverso. Estudos recentes apontam que aproximadamente 40–50% dos pacientes recaem após o tratamento convencional, o que evidencia a necessidade de terapias inovadoras e estratégias individualizadas (Dinardo; Weisdorf, 2020; Döhner; Estey; Amadori, 2017; Ravandi; Stone, 2019).
4.4 Avanços terapêuticos recentes
O tratamento da LMA tem passado por transformações, impulsionadas pela compreensão mais detalhada de seus mecanismos moleculares. Entre os principais avanços destacam-se as terapias-alvo, a imunoterapia e o desenvolvimento de estratégias combinadas e personalizadas, que ampliam as perspectivas de sobrevida e qualidade de vida dos pacientes.
No campo das terapias-alvo, inibidores específicos têm demonstrado eficácia contra mutações recorrentes associadas ao prognóstico desfavorável. Os inibidores de FLT3, como o midostaurina e o gilteritinibe, mostraram melhora significativa nas taxas de sobrevida global quando incorporados ao tratamento padrão, especialmente em pacientes com mutações FLT3-ITD e FLT3-TKD (Stone et al., 2017; Perl et al.,2019). Da mesma forma, os inibidores de IDH1 e IDH2, como ivosidenibe e enasidenibe, possibilitam a diferenciação celular e têm se consolidado como opções relevantes em pacientes com mutações específicas nesses genes (Dinardo et al., 2018; Stein et al., 2017).
Outro campo promissor é o da imunoterapia, que busca explorar o sistema imune no combate à LMA. Os inibidores de checkpoints imunológicos, como anti-PD 1 e anti-CTLA-4, ainda em fase de investigação, têm mostrado potencial em subgrupos selecionados (Davids; Kim, 2019). Estratégias de terapias celulares, como células CAR-T e células NK modificadas, vêm sendo estudadas como alternativas inovadoras, com resultados preliminares encorajadores na redução da carga leucêmica (Ramanujam et al., 2020; Nishida; Saito, 2020).
Ganham destaque as terapias combinadas e personalizadas, que integram quimioterapia convencional com agentes-alvo e imunoterapias, visando aumentar a eficácia e reduzir a resistência terapêutica. Ensaios clínicos recentes apontam que a combinação de hipometilantes com inibidores de BCL-2, como a associação de azacitidina e venetoclax, resultou em taxas mais elevadas de resposta completa, especialmente em pacientes idosos ou inelegíveis para regimes intensivos (Wei et al., 2019; Di Nardo et al., 2020). Esses avanços apontam para uma transição gradual do modelo de tratamento universal para abordagens personalizadas, baseadas no perfil genômico e imunológico de cada paciente.
4.5 Transplante de células-tronco hematopoiéticas
O transplante de células-tronco hematopoiéticas (TCTH) continua sendo uma das estratégias terapêuticas mais eficazes para pacientes com Leucemia Mieloide Aguda (LMA), especialmente naqueles com risco intermediário e alto de recaída. O procedimento consiste na substituição da medula óssea doente por células-tronco hematopoiéticas saudáveis, geralmente obtidas de um doador compatível, possibilitando a reconstituição hematológica e imunológica do paciente (Appelbaum, 2019).
A indicação do TCTH depende de critérios clínicos, biológicos e prognósticos. Pacientes jovens e com bom desempenho clínico são os principais candidatos ao transplante alogênico, que se mostrou superior em termos de sobrevida livre de doença quando comparado a regimes exclusivamente quimioterápicos (Dohner et al., 2017). Além disso, avanços na tipagem molecular e na estratificação de risco têm permitido selecionar com maior precisão os pacientes que mais se beneficiam do procedimento (Cornelissen; Blaise, 2016).
Apesar de seu impacto positivo, o TCTH ainda enfrenta desafios relevantes. Entre eles, destacam-se a toxicidade relacionada ao regime de condicionamento, a doença do enxerto contra o hospedeiro (DECH), as complicações infecciosas e a mortalidade associada ao procedimento. Estratégias como o uso de regimes de condicionamento de intensidade reduzida e a melhoria no suporte clínico têm contribuído para a redução dessas complicações, ampliando a aplicabilidade do transplante, inclusive em pacientes mais idosos (Passweg et al., 2019).
O TCTH permanece como uma abordagem terapêutica fundamental no manejo da LMA, mas exige constante aprimoramento para equilibrar eficácia e segurança, além de integração com terapias-alvo e imunoterapias em protocolos combinados.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A presente revisão demonstrou que o tratamento da Leucemia Mieloide Aguda tem avançado de forma expressiva, especialmente com a incorporação de terapias alvo, imunoterapias e estratégias combinadas. Os inibidores de FLT3 e IDH1/IDH2, bem como o uso de venetoclax associado a agentes hipometilantes, representam marcos importantes na individualização do tratamento, ampliando as possibilidades terapêuticas para perfis moleculares específicos. De igual modo, as abordagens em imunoterapia, incluindo bloqueadores de checkpoints e terapias celulares, embora ainda em fase de consolidação, apontam para um futuro em que o sistema imunológico terá papel central no manejo da doença.
Apesar dos progressos alcançados, os desafios persistem. A resistência a drogas, a toxicidade de algumas modalidades terapêuticas e, sobretudo, o acesso desigual a essas inovações permanecem como barreiras relevantes para a universalização dos benefícios observados. Nesse sentido, a pesquisa contínua é imprescindível, tanto para o desenvolvimento de novos agentes quanto para a compreensão dos mecanismos de escape tumoral que limitam a durabilidade das respostas.
Como perspectiva futura, destaca-se a necessidade de maior integração de biomarcadores moleculares na prática clínica, de forma a orientar decisões terapêuticas mais precisas e individualizadas. Além disso, a combinação racional entre terapias tradicionais, terapias-alvo e imunoterapias poderá se consolidar como a estratégia mais eficaz para otimizar a resposta clínica e reduzir as taxas de recaída. Por fim, a implementação de políticas que assegurem acesso equitativo às novas modalidades de tratamento será fundamental para que os avanços científicos se traduzam, de fato, em benefícios populacionais, reduzindo a mortalidade e melhorando a qualidade de vida dos pacientes com LMA.
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1Artigo apresentado ao curso de Medicina do Centro Universitário São Lucas Porto Velho, ANO, como pré-requisito para conclusão do curso, sob orientação de xxxxxxxxxxxx.
2Graduando em Medicina no Centro Universitário São Lucas Porto Velho, ANO. E-mail: xxxxxxxxx.
3Graduando em Medicina no Centro Universitário São Lucas Porto Velho, ANO. E-mail: xxxxxxxxx.
4Graduando em Medicina no Centro Universitário São Lucas Porto Velho, ANO. E-mail: xxxxxxxxx.
5Graduando em Medicina no Centro Universitário São Lucas Porto Velho, ANO. E-mail: xxxxxxxxx.
6Professor(a) do curso de Medicina do Centro Universitário São Lucas Porto Velho. E-mail: xxxxxxxxx.
