REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202511122103
Ana Beatriz Da Conceição Nascimento
Sócrates Antônio Nicacio Da Silva Júnior
Profª. Orientadora Drª. Mariana da Silva Santos
RESUMO
O presente estudo investigou a correlação entre a demanda turística e a incidência de dengue em Maceió, Alagoas, no período de 2007 a 2017, sob a hipótese de que o fluxo de visitantes agrava a dispersão da doença em um contexto tropical endêmico. Utilizando a Análise de Coerência de Wavelet para identificar padrões de sincronização local no tempo e na frequência, o estudo buscou isolar o efeito do turismo, controlado por variáveis meteorológicas e climáticas. Os resultados obtidos demonstraram baixa e inconsistente coerência temporal direta entre a demanda turística e a incidência da doença (tanto clássica como hemorrágica). Concluiu-se que a dinâmica da dengue em Maceió é primariamente impulsionada por fatores sazonais, e não pela demanda turística, o que implica na concentração das ações de vigilância e controle vetorial com base em fatores climáticos.
Palavras-chave: Dengue; Turismo; Fatores Climáticos; Coerência Wavelet; Maceió.
ABSTRACT
The present study investigated the correlation between tourist demand and the incidence of dengue in Maceió, Alagoas, during the period 2007 to 2017, under the hypothesis that the flow of visitors aggravates the disease’s dispersion in an endemic tropical context. Using Wavelet Coherence Analysis to identify patterns of local synchronization in time and frequency, the study aimed to isolate the effect of tourism, controlled by meteorological and climatic variables. The results obtained demonstrated low and inconsistent direct temporal coherence between tourist demand and the disease’s incidence (both classic and hemorrhagic). It was concluded that the dynamics of dengue in Maceió are primarily driven by seasonal factors, and not by tourist demand, which implies concentrating vector surveillance and control actions based on climatic factors.
Keywords: Dengue, Tourism, Climate Factors; Wavelet Coherence; Maceió.
1 INTRODUÇÃO
O turismo, como atividade econômica global, impulsionada pela alta mobilidade humana, pode potencializar a disseminação de patógenos, expondo destinos a riscos significativos de biossegurança. A literatura confirma a dinâmica bidirecional: surtos epidemiológicos afetam a demanda turística, enquanto o deslocamento de viajantes pode acelerar a dispersão, chegando a transformar infecções locais em crises globais (Chen, Law e Zhang, 2020).
Para a cidade de Maceió, capital alagoana, o risco permanente para arboviroses é produto de sua localização tropical, com a dengue sendo endêmica e manifestando surtos sazonais. Como um importante destino turístico costeiro (G1, 2025), a cidade enfrenta grandes desafios de segurança sanitária, pois a facilidade de disseminação das arboviroses coincide com a alta circulação de pessoas. O turismo de massa, portanto, expõe a cidade de Maceió a desafios de biossegurança e ao controle de doenças relacionadas à mobilidade, onde o turista é um possível disseminador de patógenos em contextos urbanos tropicais (Dantas, 2016).
Neste contexto, as arboviroses transmitidas pelo Aedes aegypti, como a dengue, a zika e a chikungunya, figuram entre os principais riscos. A literatura sobre biossegurança e turismo indica que o viajante internacional pode atuar como portador, até mesmo assintomático, introduzindo novos sorotipos e ampliando o risco de surtos mais severos (Fukusumi et al., 2016; Vasquez et al., 2018).
Quadro 1 – A Dengue no Contexto Turístico Global
| Tipo de Transmissão | Mecanismo de Risco em Viagem | Exemplos |
| Vetorizada | Exposição a vetores em locais tropicais; Dispersão de sorotipos | Dengue; Chikungunya; Zika e Malária |
| Aérea | Contato em massa; Risco de transmissão internacional | SARS; MERS e H1N1 |
Portanto, a intensa dependência do setor turístico em Maceió torna a cidade suscetível a impactos sanitários e econômicos, pois os surtos de arboviroses influenciam tanto a percepção de risco dos turistas, gerando retração temporária na demanda (Novelli et al., 2018), como um mecanismo de dispersão de sorotipos (Chen, Law e Zhang, 2020). Desta forma, pressupõe-se que a demanda turística está relacionada com a proliferação dessas doenças em áreas costeiras, como em Maceió.
Do ponto de vista social e de gestão, a mensuração quantitativa dessa relação produz um subsídio direto e essencial para a formulação de políticas públicas integradas. O impacto das arboviroses em regiões turísticas não se limita à saúde pública, mas também afeta gravemente a competitividade e a imagem do destino, podendo gerar grandes perdas econômicas para a hotelaria e serviços associados. A literatura de gestão de crises enfatiza que a preparação e a comunicação de risco proativas são vitais (Ritchie e Jiang, 2019; Novelli et al., 2018).
Neste contexto, o presente estudo limita sua análise para a dengue, considerando sua importância para saúde pública em Maceió, a existência de múltiplos sorotipos identificados e sua manifestação em uma forma clássica ou hemorrágica. Parte-se da hipótese (H1) de que a demanda turística está significantemente correlacionada com a incidência da doença.
Essa análise é fundamental para quantificar, com rigor metodológico, a real contribuição da mobilidade turística sobre a dinâmica epidemiológica local. A validação dessa hipótese permite a construção de um sistema de alerta precoce híbrido, combinando a previsibilidade de longo prazo dos índices oceânicos (Silva; Souza Neto, 2025) com o direcionamento tático das ações de vigilância, garantindo a biossegurança e a sustentabilidade econômica de Maceió.
2 OBJETIVOS
2.1 Objetivo Geral
Analisar a correlação entre a demanda turística (variável independente) e as internações por dengue (variável dependente), considerando fatores meteorológicos e climáticos (variáveis de controle).
2.2 Objetivos Específicos
– Descrever a dinâmica temporal de internações por dengue clássica e hemorrágica em Maceió por mês no período 2007-2017;
– Processar e correlacionar séries temporais de indicadores de demanda turística e variáveis climáticas com a internações por dengue;
– Aplicar análise de coerência wavelet para identificar escalas temporais nas quais turismo, clima e dengue apresentam sincronização relevante;
– Interpretar padrões de fase entre séries para inferir se alterações no fluxo turístico ou variáveis climáticas precedem aumentos de casos.
METODOLOGIA
A cidade de Maceió, com um regime climático de elevadas temperaturas acúmulo de água das chuvas sazonais no verão, acelera a proliferação do vetor da dengue, o Aedes aegypti. Logo, para entender a relação entre demanda turística e incidência da doença, torna-se imperativo o uso de uma metodologia capaz de modelar e controlar rigorosamente o forte sinal de sazonalidade e as variações climáticas de larga escala, que são os determinantes primários da infestação local.
A análise da relação entre as variáveis climáticas, a demanda turística e os indicadores epidemiológicos da dengue foi conduzida por meio do método de Coerência de Wavelet (Wavelet Coherence Analysis). Essa abordagem permite identificar correlações locais no tempo e na frequência entre duas séries temporais, evidenciando padrões não estacionários e relações de fase entre os fenômenos estudados. Todas as análises foram realizadas no software R (versão 4.5.2), utilizando-se os pacotes específicos para processamento de wavelets, como o biwavelet e o WaveletComp. Foi empregada a Wavelet de Morlet como função-mãe, por sua ampla aplicação em estudos climatológicos e epidemiológicos.
Os dados utilizados foram secundários, provenientes de bases oficiais e de acesso público. As variáveis climáticas compreenderam precipitação pluviométrica e temperatura média do ar, obtidas junto ao Sistema Hidroweb da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) e ao Banco de Dados Meteorológicos para Ensino e Pesquisa (BDMEP), do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), respectivamente. Os dados de internação por dengue clássica e hemorrágica foram colhidos do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS). Os dados sobre demanda e fluxo turístico foram dos relatórios da Associação Brasileira da Indústria de Hoteis (ABIH Alagoas).
O recorte utilizado foi de 2007 a 2017. Inicialmente, os dados foram organizados em planilhas, padronizando-se os formatos temporais e as unidades de medida. Foram realizados procedimentos de verificação de consistência, com exclusão de registros incompletos ou inconsistentes. As séries temporais foram agregadas em periodicidade mensal, de modo a compatibilizar as variáveis climáticas com as epidemiológicas. Quando necessário, aplicaram-se métodos de interpolação linear para preencher pequenas lacunas de dados, evitando distorções nos resultados.
Para o controle climático preditivo, estudos como o Dipolo do Atlântico (DA) o Índice de Oscilação Sul (IOS) foram utilizados para estimar estatisticamente o máximo de internações pela doença, com atrasos que variam de 20 a 120 dias, dependendo da escala temporal analisada (Silva; Souza Neto, 2025). O uso desses determinantes garante que, ao introduzir a variável de demanda turística, o estudo busque um sinal epidemiológico independente, ou um efeito de modulação, distinto dos ciclos climáticos já estabelecidos.
Por se tratar de dados secundários e de domínio público, o estudo não envolveu informações individuais ou identificáveis de pacientes, estando dispensado de submissão a comitê de ética em pesquisa, conforme a Resolução nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde.
4 RESULTADOS E DISCUSSÃO
A análise de coerência wavelet entre as internações por dengue clássica hemorrágica, e o número de alojamentos ocupados em Maceió, no período de 2007 a 2017, permitiu observar o grau de associação temporal entre as internações por dengue e a movimentação turística no município. A técnica de wavelet permite identificar se há sincronização entre as séries em diferentes escalas de tempo, revelando padrões sazonais e suas possíveis relações.
Em Maceió, o período de maior internações por dengue ocorre entre os meses de junho e julho, quando as chuvas são mais intensas. Nessa época, há maior acúmulo de água em recipientes e locais propícios à proliferação do vetor, o Aedes aegypti. Por outro lado, o período de maior movimento turístico, entre dezembro e fevereiro, coincide com redução no número de casos, o que reforça que o turismo não é o principal determinante do aumento de internações, e sim as condições ambientais e climáticas associadas à estação chuvosa.
Figura 1 – Coerência wavelet entre internações por dengue clássica e turismo

Na Figura 1, observa-se a coerência entre as internações por dengue clássica e o turismo. Os padrões de coerência são discretos e esparsos, o que reforça a ausência de relação direta entre o fluxo turístico e o aumento das internações. Esses resultados indicam que os picos de internações estão associados à sazonalidade das chuvas e ao consequente aumento do vetor, não havendo coincidência com o período de alta turística.
Figura 2 – Coerência wavelet entre internações por dengue hemorrágica e turismo

A Figura 2 mostra a coerência entre as internações por dengue hemorrágica e o turismo. As áreas de coerência são ainda mais escassas e sem continuidade temporal, evidenciando que os casos graves da doença não apresentam relação com o turismo. Esses casos estão mais vinculados a fatores virológicos e imunológicos, como a circulação de sorotipos e reinfecções, do que à variação no número de visitantes.
De modo geral, os resultados demonstram baixa coerência direta entre o número de alojamentos ocupados e internações por dengue clássica e hemorrágica.
As regiões de coerência observadas nos gráficos das Figuras 1 e 2 se mostraram intermitentes e pouco consistentes, o que indica que o turismo não apresenta correlação temporal significativa com o aumento dos casos de internações. Além disso, as áreas de coerência observadas ocorrem em escalas de 8 a 16 meses, correspondendo à sazonalidade climática característica de Maceió, e não às flutuações no fluxo turístico.
Os resultados obtidos indicam que o aumento de internações por dengue em Maceió está mais fortemente associado à sazonalidade e ao regime de chuvas do que ao turismo. Durante o período chuvoso, as condições ambientais favorecem a proliferação do mosquito vetor, com acúmulo de água em recipientes e ambientes urbanos, aumentando a densidade de Aedes aegypti. Já o período de alta turística, que ocorre no final do ano, apresenta baixo registro de casos, reforçando a falta de correlação entre turismo e dengue.
Constatada a primazia da sazonalidade climática, sem efeitos significativos da demanda turística, o modelo de Zanardo (2024) se torna promissor para previsibilidade da incidência da dengue em Maceió. Para refinamento desse modelo e uma melhor compreensão da incidência da dengue, outro fator notável está no trabalho de Tridello et al (2022), que esclarece a interação entre o período chuvoso e a “Vulnerabilidade urbana” (infraestrutura precária), promovendo a proliferação do Aedes aegypti.
Essa descoberta reforça a urgência de concentrar as ações de vigilância e controle vetorial nos meses que antecedem as chuvas e nas condições infraestruturais da cidade de Maceió, independente da flutuação turística. A integração de dados climáticos, epidemiológicos, entomológicos e urbanos é, logo, essencial para criar sistemas de alerta precoce. A aplicação prática das cadeias de impacto climático (Tridello et al, 2022) e a entrega dos modelos de previsão (Zanardo, 2024) podem fundamentar um insumo para a gestão pública. Em última análise, o uso de modelos preditivos bem estabelecidos é a chave para subsidiar políticas públicas mais eficazes, garantindo que a resposta de saúde coletiva seja alinhada aos fatores sazonais e ambientais que realmente impulsionam a transmissão da dengue.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente estudo atingiu seu objetivo ao demonstrar, por meio da Análise de Coerência de Wavelet, que a demanda turística de Maceió apresenta uma coerência temporal insignificante e inconsistente com a incidência de dengue, tanto em sua forma clássica quanto hemorrágica. A hipótese inicial de que o intenso fluxo de visitantes agravaria a dispersão da doença não se sustentou, uma vez que os picos de internação não coincidem com os períodos de alta estação turística, mas sim com a sazonalidade e o regime de chuvas. Os resultados reforçam que os determinantes primários da dinâmica epidemiológica são ambientais e climáticos, não a mobilidade humana, fornecendo um subsídio direto e essencial para a (re)formulação das políticas públicas de saúde.
A constatação da primazia dos fatores sazonais e a ausência de um sinal epidemiológico significativo vindo da demanda turística alertam a gestão pública para a interação entre o clima e a vulnerabilidade urbana. O acúmulo de água provocado pelas chuvas, potencializado pela infraestrutura precária em áreas específicas, configura um fator de risco crucial para a proliferação do Aedes aegypti. Diante disso, reforça-se a urgência de concentrar as ações de vigilância e de manejo ambiental nos meses que precedem a sazonalidade pluviométrica, assim como reformas infraestruturais de zonas vulnerabilizadas..
REFERÊNCIAS
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