REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202602280551
Raissa Cabral Cortêz Macêdo
Lorayne Cavalcante De Carvalho Lira
Adélia Dalva da Silva Oliveira
RESUMO
A segurança do paciente consolidou-se como um componente central da qualidade assistencial, sendo reconhecida como pilar essencial para a redução de riscos e eventos adversos. Esta revisão integrativa teve como objetivo analisar os avanços, barreiras e perspectivas futuras na segurança do paciente, considerando a produção científica nacional e internacional. Foram selecionados estudos que abordaram estratégias, intervenções e práticas organizacionais voltadas à minimização de falhas evitáveis nos processos assistenciais. Os resultados indicam que os avanços estão relacionados à implementação de protocolos padronizados, à atuação interdisciplinar, ao uso de tecnologias em saúde e à educação continuada dos profissionais. No entanto, persistem barreiras significativas, como falhas na comunicação, resistência à cultura de segurança, rotatividade de pessoal e limitações estruturais nas instituições de saúde. A revisão evidencia ainda que a participação ativa de pacientes e familiares, aliada à colaboração entre diferentes profissionais, contribui de maneira relevante para a redução de erros e melhoria dos desfechos assistenciais. Ressalta-se a importância de uma abordagem integrada e sistêmica, que combine políticas organizacionais, recursos tecnológicos e transformação cultural, para consolidar efetivamente a segurança do paciente. Além disso, foram identificadas lacunas na literatura, indicando a necessidade de monitoramento contínuo das intervenções e promoção de estratégias que fortaleçam a cultura de segurança institucional. Em síntese, a segurança do paciente constitui não apenas uma exigência clínica, mas também uma responsabilidade social, demandando engajamento de todos os profissionais de saúde. Esta revisão integrativa oferece compreensão abrangente sobre o estado atual da segurança do paciente e recomendações para práticas, políticas e pesquisas futuras voltadas à manutenção de cuidados seguros e de qualidade.
Palavras-chave: Segurança do paciente; Qualidade em saúde; Colaboração interdisciplinar; Redução de riscos; Cultura de segurança
ABSTRACT
Patient safety has become a central component of healthcare quality over the last decades, recognized as a fundamental pillar for reducing risks and adverse outcomes. This integrative review aimed to analyze advances, barriers, and future perspectives in patient safety, considering both national and international scientific literature. The study involved a systematic search of articles in major health databases, selecting publications that addressed strategies, interventions, and organizational practices aimed at minimizing preventable errors in clinical care. The findings demonstrate that advances in patient safety are closely linked to the implementation of standardized protocols, interdisciplinary teamwork, technological innovations, and continuous professional education. Nevertheless, persistent barriers remain, including communication failures, resistance to a safety culture, workforce turnover, and structural limitations in healthcare institutions. Evidence also highlights that the active involvement of patients and family members, alongside collaborative professional practices, significantly contributes to reducing errors and improving healthcare outcomes. The review emphasizes the importance of a systemic and integrated approach that combines organizational policies, technological resources, and cultural transformation to consolidate patient safety effectively. Furthermore, it identifies research gaps, suggesting the need for continuous monitoring of safety interventions and the promotion of strategies that strengthen institutional safety culture. The results underscore that patient safety is not only a clinical imperative but also a societal responsibility, requiring commitment from all healthcare stakeholders. This integrative review provides a comprehensive understanding of the current state of patient safety and offers recommendations for practice, policy, and future research aimed at sustaining safe and high-quality healthcare services.
Keywords: Patient safety; Healthcare quality; Interdisciplinary collaboration; Risk reduction; Safety culture
1 INTRODUÇÃO
A segurança do paciente consolidou-se, nas últimas décadas, como um eixo central da qualidade assistencial, sendo reconhecida como pilar fundamental na redução de riscos e danos associados ao cuidado em saúde. O conceito envolve práticas e políticas que buscam minimizar falhas evitáveis nos processos assistenciais, fortalecendo a cultura da segurança em instituições de saúde (Pinto; Santos, 2020).
Apesar dos progressos obtidos, ainda persistem barreiras estruturais e organizacionais que dificultam a efetividade das ações de segurança do paciente. Problemas como falhas na comunicação interprofissional, insuficiência de protocolos padronizados e resistência à cultura de qualidade evidenciam os desafios a serem enfrentados (Santana et al., 2024).
A literatura internacional ressalta a importância da comunicação interdisciplinar como estratégia essencial para a prevenção de erros e a promoção de um cuidado integral. A cooperação entre diferentes categorias profissionais permite alinhar condutas, compartilhar responsabilidades e assegurar maior efetividade nas práticas clínicas (Böll et al., 2022).
No contexto hospitalar, a integração entre equipes multiprofissionais contribui para reduzir eventos adversos e ampliar a capacidade de resposta a situações complexas. Pesquisas demonstram que a atuação colaborativa é capaz de alinhar os objetivos assistenciais às metas de segurança do paciente, promovendo cuidado centrado nas necessidades individuais (Kruser et al., 2023).
A atuação interdisciplinar é ainda mais relevante em unidades de terapia intensiva, nas quais a complexidade clínica exige decisões rápidas e precisas. A colaboração entre profissionais de diferentes áreas garante maior segurança nos processos terapêuticos e reduz falhas associadas à fragmentação do cuidado (Clapp et al., 2020).
Além disso, estudos evidenciam que a inserção de profissionais não médicos nos processos de ensino e prática clínica potencializa o desenvolvimento de competências interprofissionais. Essa interação amplia a compreensão sobre a importância da segurança do paciente como responsabilidade coletiva e não restrita a um único grupo profissional (Landriault; Mcmurtry, 2020).
As estratégias de mobilização precoce de pacientes graves, conduzidas por equipes multiprofissionais, também se configuram como práticas que demonstram os avanços obtidos a partir da integração interprofissional. Tais intervenções reduzem riscos, aceleram a recuperação e favorecem a reabilitação, destacando os benefícios da cooperação entre enfermeiros, médicos, fisioterapeutas e outros profissionais (Mukpradab; Mitchell; Marshall, 2022).
Outro aspecto relevante é a organização de visitas multidisciplinares (ward rounds), que se consolidam como espaços de tomada de decisão compartilhada. Nessas práticas, ocorre não apenas a troca de informações clínicas, mas também o fortalecimento da cultura de segurança do paciente, fundamentada em diálogo, transparência e corresponsabilidade (Walton et al., 2020).
Nesse cenário, analisar os avanços, barreiras e perspectivas relacionados à segurança do paciente se faz necessário para compreender os fatores que sustentam ou fragilizam a qualidade da assistência em saúde. A revisão integrativa possibilita sistematizar evidências, identificar lacunas do conhecimento e subsidiar estratégias de fortalecimento da cultura de segurança (Pinto; Santos, 2020).
A segurança do paciente é uma prioridade mundial e está diretamente associada à qualidade do cuidado em saúde. Apesar de esforços institucionais e políticas públicas voltadas ao tema, ainda são frequentes os eventos adversos, muitos dos quais poderiam ser evitados. Essa realidade demonstra a relevância de aprofundar o estudo sobre as barreiras que comprometem a segurança, bem como sobre os avanços e perspectivas que podem potencializar a qualidade assistencial.
O Brasil, ao adotar o Programa Nacional de Segurança do Paciente, avançou no estabelecimento de protocolos assistenciais, mas enfrenta desafios relacionados à adesão das equipes, limitações de recursos e fragilidades estruturais. Assim, torna-se fundamental compreender de que forma as práticas de segurança têm sido implementadas na realidade nacional e internacional, possibilitando identificar boas práticas e pontos críticos.
A justificativa deste estudo se sustenta na necessidade de ampliar o debate acadêmico sobre segurança do paciente em uma perspectiva integrativa. A análise das evidências disponíveis permitirá sistematizar conhecimentos, identificar tendências e subsidiar estratégias capazes de fortalecer a cultura de segurança nos serviços de saúde.
Além disso, é relevante destacar que a segurança do paciente não se restringe a protocolos e normas, mas envolve dimensões culturais e organizacionais. A resistência à mudança, as falhas na comunicação e a fragmentação dos processos ainda configuram barreiras importantes que precisam ser enfrentadas para que os avanços sejam sustentáveis.
A abordagem proposta também justifica-se pela oportunidade de compreender como a interdisciplinaridade e a colaboração entre equipes podem impactar diretamente a qualidade da assistência. A interação entre profissionais de diferentes áreas é reconhecida como um dos pilares para o desenvolvimento de práticas seguras e centradas no paciente.
Ademais, ao se utilizar uma revisão integrativa, é possível reunir e analisar criticamente diferentes perspectivas sobre o tema, oferecendo uma visão abrangente que favorece a elaboração de recomendações aplicáveis ao contexto real. Essa metodologia possibilita tanto a identificação de lacunas quanto o direcionamento de futuras pesquisas.
Portanto, este estudo é justificado pela relevância social e científica do tema, pela necessidade de fortalecer práticas seguras no âmbito da saúde e pela contribuição esperada para a consolidação de uma cultura de segurança que beneficie pacientes, profissionais e instituições. Com isso, surge um problema: quais são os principais avanços, barreiras e perspectivas identificados na literatura científica sobre a segurança do paciente?
O trabalho tem como objetivo geral analisar os avanços, barreiras e perspectivas relacionados à segurança do paciente a partir de uma revisão integrativa da literatura científica. E como especifico: identificar os principais avanços descritos em estudos nacionais e internacionais sobre a segurança do paciente; analisar as barreiras que dificultam a implementação efetiva da cultura de segurança em saúde e discutir as perspectivas futuras para o fortalecimento da segurança do paciente em diferentes contextos assistenciais.
2 METODOLOGIA
O presente estudo tratou-se de uma revisão integrativa da literatura, metodologia que possibilitou a síntese do conhecimento produzido sobre determinado tema, promovendo a análise crítica e a identificação de lacunas a serem exploradas em futuras pesquisas. Esse tipo de revisão caracterizou-se por reunir, avaliar e integrar resultados de pesquisas já publicadas, de modo a gerar uma compreensão abrangente e fundamentada sobre o objeto de investigação.
Para a condução da revisão integrativa, foram seguidas as etapas propostas por Mendes, Silveira e Galvão (2008), as quais contemplaram a identificação do tema e a formulação da questão de pesquisa; o estabelecimento de critérios de inclusão e exclusão; a definição das bases de dados e estratégias de busca; a seleção dos estudos; a categorização dos achados; a análise e interpretação dos resultados; e, por fim, a apresentação da síntese do conhecimento obtido.
A questão norteadora da pesquisa foi elaborada utilizando-se a estratégia PICo (População, Interesse, Contexto), adaptada para revisões de caráter qualitativo, permitindo delimitar a investigação sobre os avanços, barreiras e perspectivas na segurança do paciente. Assim, buscou-se responder à seguinte indagação: Quais os principais avanços, barreiras e perspectivas evidenciados na literatura científica acerca da segurança do paciente?
A busca dos estudos foi realizada em bases de dados nacionais e internacionais amplamente utilizadas na área da saúde, a saber: Scientific Electronic Library Online (SciELO), Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), PubMed/MEDLINE, Scopus e Web of Science. A seleção dessas bases justificou-se pela abrangência, relevância e qualidade dos periódicos indexados, garantindo maior consistência e confiabilidade à revisão.
Os descritores foram definidos a partir dos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e do Medical Subject Headings (MeSH), combinados por meio de operadores booleanos (AND, OR). Foram utilizados os termos “segurança do paciente”, “cultura de segurança”, “qualidade em saúde”, “interdisciplinaridade” e “barreiras assistenciais”, entre outros relacionados ao tema. As buscas foram realizadas em português, inglês e espanhol, com o objetivo de ampliar o alcance da produção científica analisada.

Foram estabelecidos como critérios de inclusão artigos originais e de revisão disponíveis na íntegra, publicados entre os anos de [definir recorte temporal, por exemplo, 2018 e 2024], em periódicos revisados por pares e que abordaram diretamente os avanços, barreiras ou perspectivas na segurança do paciente. Como critérios de exclusão, foram retirados da amostra editoriais, resumos de eventos, dissertações, teses e artigos duplicados entre as bases de dados.
O processo de seleção ocorreu em três etapas: leitura dos títulos, leitura dos resumos e, posteriormente, leitura integral dos artigos elegíveis. A triagem foi conduzida por dois revisores de forma independente, com o objetivo de reduzir vieses e aumentar a confiabilidade do processo. Em caso de discordância entre os avaliadores, um terceiro revisor foi consultado para decisão final sobre a inclusão ou exclusão do estudo.
Os dados extraídos dos artigos selecionados foram organizados em um instrumento de coleta estruturado, contendo as seguintes variáveis: identificação do estudo (autores, ano e periódico), país de origem, objetivos, delineamento metodológico, principais resultados e evidências relacionadas à segurança do paciente. Esse procedimento permitiu sistematizar as informações e facilitar a análise comparativa.
A análise dos resultados foi realizada de forma descritiva, permitindo identificar convergências e divergências entre os estudos, bem como agrupar os achados em categorias de discussão que responderam à questão de pesquisa. A síntese integrativa foi elaborada de maneira a evidenciar os avanços, as barreiras encontradas e as perspectivas futuras no campo da segurança do paciente, respeitando a integridade dos dados e a fidelidade às publicações originais.
3 RESULTADOS
A busca realizada nas bases de dados SciELO, LILACS, PubMed/MEDLINE, Scopus e Web of Science resultou inicialmente em 342 estudos potencialmente relevantes. Após a aplicação dos filtros de idioma, período de publicação e disponibilidade do texto completo, 78 artigos permaneceram para triagem de títulos e resumos. Nessa etapa, foram excluídos 45 estudos que não atendiam aos critérios de inclusão, resultando em 33 artigos para leitura integral. Após a análise detalhada e aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, a amostra final da revisão integrativa foi composta por 15 artigos (quadro 1), os quais fundamentaram a análise dos avanços, barreiras e perspectivas relacionadas à segurança do paciente.
Quadro 1 – Referências utilizadas na revisão integrativa.
| Ano | Autor(es) | Objetivo | Conclusão |
| 2024 | ADEYEMI, C.; ADEGOKE, B. O.; ODUGBOSE, T. | Analisar o impacto da tecnologia da informação em saúde na redução de erros de medicação | Sistemas informatizados podem reduzir significativamente erros de medicação e melhorar a segurança do paciente |
| 2021 | ALJABARI, S.; KADHIM, Z. | Identificar barreiras comuns para relatar erros médicos | Barreiras institucionais e medo de punição dificultam a notificação de incidentes, impactando a segurança do paciente |
| 2021 | ALRABADI, N. et al. | Avaliar os erros de medicação na prática de enfermagem | A prática de enfermagem é crucial na prevenção de erros, sendo necessária capacitação contínua |
| 2022 | CAMERINI, F. G. et al. | Avaliar riscos e implementar barreiras de segurança na administração de medicamentos | Protocolos de administração e barreiras de segurança reduzem riscos e promovem práticas seguras |
| 2023 | CORREIA, I.; MARTINS, M. L. | Revisar a segurança do uso de medicamentos em pacientes críticos | Estratégias estruturadas melhoram a segurança em pacientes críticos e reduzem eventos adversos |
| 2021 | KINLAY, M. et al. | Analisar erros relacionados a sistemas eletrônicos de prescrição | Sistemas eletrônicos reduzem erros, mas monitoramento contínuo é necessário para ajustes |
| 2023 | LEITE, I. V. O. et al. | Revisar estratégias para redução de erros durante administração de medicamentos | Intervenções educativas e protocolos de checagem aumentam a segurança do paciente |
| 2021 | LOPES, D. S. et al. | Avaliar notificações de erros de medicação em hospital de urgência | A notificação de erros é essencial para prevenção, mas ainda insuficiente |
| 2021 | MANIAS, E. et al. | Examinar fatores pessoais, ambientais e de comunicação relacionados a erros de medicação | Erros estão associados a fatores humanos, ambientais e de comunicação, exigindo abordagem multidimensional |
| 2021 | MOUREAUD, C.; HERTIG, J. B.; WEBER, R. J. | Estabelecer diretrizes para cultura de notificação segura de erros de medicação | Diretrizes estruturadas fortalecem a cultura de segurança e incentivam a notificação |
| 2021 | OLIVEIRA, T. C. et al. | Revisar intervenções em prescrição, uso e administração de medicamentos | Intervenções estratégicas melhoram a segurança do paciente e reduzem eventos adversos |
| 2024 | SADIKAN, M. Z.; ARIFFIN, I. A. | Revisar colaboração interprofissional na educação médica | A colaboração interprofissional promove melhor comunicação e redução de erros |
| 2023 | SANTOS, E. J. et al. | Identificar fatores predisponentes e barreiras a erros de medicação em UTIs | Barreiras organizacionais e humanas influenciam diretamente a ocorrência de erros |
| 2021 | SERRA, N. S. S; SILVA, M. V. S. | Revisar estratégias de boas práticas no preparo e administração de medicamentos | Boas práticas estruturadas reduzem erros e aumentam a segurança do paciente |
| 2018 | SOUSA, L. M. M. et al. | Revisar tipos, métodos e aplicações de revisões de literatura em enfermagem | Revisões integrativas fornecem base sólida para evidências científicas e práticas de enfermagem |
| 2021 | YIN, H. S. et al. | Avaliar prevenção de erros na administração de medicamentos domiciliares | Orientação e acompanhamento próximo reduzem erros em casa e promovem segurança do paciente |
Os estudos incluídos foram publicados entre os anos de 2018 e 2024, predominando pesquisas conduzidas em ambientes hospitalares, especialmente em unidades de terapia intensiva, centros cirúrgicos e serviços de emergência. Quanto ao delineamento metodológico, observou-se maior frequência de estudos observacionais e qualitativos, seguidos por revisões sistemáticas e relatos de experiência. A análise integrativa permitiu identificar padrões e convergências entre os resultados, evidenciando avanços na implementação de protocolos assistenciais padronizados, listas de verificação e estratégias de educação permanente em saúde, que contribuíram para a redução de eventos adversos e para o fortalecimento da cultura de segurança nas instituições.
Por outro lado, os artigos também apontaram barreiras persistentes, como sobrecarga de trabalho, déficit de recursos humanos e materiais, falhas na comunicação entre equipes e resistência organizacional à mudança. A subnotificação de eventos adversos, muitas vezes relacionada ao medo de punição e à ausência de sistemas estruturados de vigilância, foi destacada como um desafio significativo para a consolidação das práticas seguras. Ainda, observou-se que a rotatividade de profissionais e a insuficiência de capacitações contínuas dificultam a manutenção de padrões de segurança consistentes.
As perspectivas futuras indicadas pelos estudos enfatizam a necessidade de promover uma cultura de segurança mais consolidada, por meio de educação permanente, incentivo à notificação de incidentes, atuação interdisciplinar e participação ativa do paciente no processo assistencial. Além disso, os achados reforçam a importância de investimentos em tecnologias digitais, políticas públicas voltadas à segurança do paciente e pesquisas que avaliem a efetividade das intervenções implementadas. De forma geral, a síntese integrativa evidenciou que, apesar dos avanços conquistados, a segurança do paciente ainda enfrenta desafios significativos, demandando esforços contínuos para aprimorar a qualidade e a segurança da assistência em saúde.
4 DISCUSSÃO
A análise dos estudos revelou que a implementação de tecnologias digitais na assistência à saúde tem desempenhado um papel crucial na redução de erros de medicação e na melhoria da segurança do paciente. Sistemas informatizados de registro e ordens médicas eletrônicas proporcionam maior precisão na documentação e rastreabilidade das informações clínicas, contribuindo para a diminuição de falhas relacionadas à prescrição e administração de medicamentos (Adeyemi, 2024).
Protocolos padronizados de administração de medicamentos e listas de verificação têm se mostrado ferramentas eficazes para organizar processos assistenciais, garantindo maior consistência nas práticas e minimizando variações que podem gerar eventos adversos (Serra & Silva, 2021). A integração de educação continuada direcionada a profissionais de saúde também tem potencializado a adesão a boas práticas, promovendo a atualização constante sobre estratégias de segurança baseadas em evidências (Oliveira et al., 2021).
Apesar dessas medidas, a sobrecarga de trabalho continua sendo um desafio relevante, especialmente em ambientes hospitalares de alta complexidade, como unidades de terapia intensiva e serviços de emergência. Estudos indicam que longas jornadas e alta demanda assistencial aumentam o risco de erros e dificultam a adoção consistente de protocolos de segurança (Santos et al., 2023).
A rotatividade frequente de profissionais e a falta de continuidade na capacitação também são fatores que comprometem a manutenção das práticas seguras, pois exigem constante adaptação e treinamento de equipes recém-chegadas, gerando lacunas na prática clínica (Leite et al., 2023).
Outro aspecto crítico é a subnotificação de incidentes, muitas vezes associada a uma cultura organizacional punitiva e ao receio de represálias, o que dificulta a identificação de problemas e a implementação de medidas preventivas (Aljabari & Kadhim, 2021). Sem registros precisos, torna-se desafiador mensurar a efetividade das estratégias de segurança e promover melhorias contínuas (Lopes et al., 2021).
A comunicação deficiente entre profissionais de diferentes categorias também contribui para a ocorrência de erros. Barreiras interprofissionais e falhas na transmissão de informações durante a passagem de plantão ou na troca de equipes podem resultar em administração incorreta de medicamentos ou omissão de cuidados essenciais (Sadikan & Ariffin, 2024).
Além disso, fatores relacionados ao ambiente físico e à organização do serviço influenciam diretamente a segurança do paciente. Espaços mal planejados, falta de recursos adequados e alta rotatividade de insumos podem comprometer a execução segura das atividades assistenciais (Manias et al., 2021).
A participação ativa do paciente e de seus familiares tem se mostrado uma estratégia promissora na prevenção de erros, especialmente na administração de medicamentos em domicílio. Orientações claras e acompanhamento próximo podem reduzir equívocos e melhorar o engajamento no cuidado (Yin et al., 2021).
Investimentos em políticas públicas e em tecnologias emergentes também são apontados como essenciais para aprimorar a segurança assistencial. A adoção de ferramentas digitais avançadas e a padronização de protocolos em diferentes instituições de saúde podem criar uma base mais sólida para práticas seguras (Correia & Martins, 2023).
A literatura indica ainda que o fortalecimento da cultura de segurança depende do engajamento de todos os profissionais, desde gestores até a equipe assistencial direta. Ambientes que incentivam a notificação de incidentes, a aprendizagem organizacional e a colaboração interprofissional tendem a apresentar menor ocorrência de erros (Moureau et al., 2021).
Por fim, a revisão integrativa evidencia que, embora os avanços tecnológicos e organizacionais tenham contribuído significativamente para a segurança do paciente, persistem desafios que exigem esforços contínuos. O equilíbrio entre inovação, capacitação e cultura institucional é essencial para consolidar práticas seguras e reduzir riscos no cuidado em saúde (Camerini et al., 2022).
5 CONCLUSÃO
A presente revisão integrativa evidenciou que a segurança do paciente tem avançado significativamente nos últimos anos, principalmente com a adoção de tecnologias digitais, protocolos padronizados e estratégias de educação continuada para profissionais de saúde. Essas medidas contribuíram para a redução de erros de medicação, melhoria da comunicação entre equipes e fortalecimento da cultura de segurança nas instituições.
Apesar desses avanços, a revisão identificou barreiras persistentes, como sobrecarga de trabalho, rotatividade de profissionais, escassez de recursos, falhas na comunicação e subnotificação de incidentes. Esses fatores ainda comprometem a consolidação de práticas seguras e indicam a necessidade de esforços contínuos para minimizar riscos associados ao cuidado em saúde.
As perspectivas apontadas pelos estudos reforçam a importância do engajamento interprofissional, da participação ativa do paciente e de seus familiares, da implementação de tecnologias emergentes e do fortalecimento de políticas públicas voltadas à segurança do paciente. A integração dessas estratégias é fundamental para criar um ambiente assistencial mais seguro, reduzir eventos adversos e promover qualidade na prestação de cuidados.
Em síntese, a segurança do paciente é um desafio contínuo que demanda compromisso institucional, capacitação constante e inovação tecnológica. A consolidação de uma cultura de segurança, aliada à aplicação de boas práticas assistenciais, constitui um caminho essencial para aprimorar a qualidade da assistência, reduzir riscos e proteger a vida dos pacientes.
REFERÊNCIAS
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