EVALUATION OF THE TOXIC EFFECT OF GUAZUMA ULMIFOLIA LAM. ON THE CELL PROLIFERATION OF ALLIUM CEPA L.
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ar10202512141216
Ana Carla Gomes Rosa¹; Ana Clara Sacchi Franco²; Ana Hisi Fujii Ramos³; Ana Paula da Silva Pacheco⁴; Ana Victoria de Souza Batalha⁵; Brenda da Silva Santana⁶; Eduardo Peixoto Ferreira⁷; Ruiter Junior Pereira Borges de Abreu⁸; Skarlett Lopes de Vargas⁹; Ana Paula Machado Cunha¹⁰.
RESUMO
A medicina moderna tem valorizado cada vez mais o uso de plantas medicinais em busca de melhorias para a saúde. Com o avanço das pesquisas e o consequente aumento do conhecimento sobre as potencialidades terapêuticas das plantas e suas funções, estas passaram a ser procuradas de forma mais sistemática, com maior interesse e atenção. Este trabalho teve como objetivo analisar a utilização da Guazuma ulmifolia Lam. e investigar seu potencial de toxicidade por meio do teste Allium cepa. A pesquisa foi de caráter experimental, na qual foram analisados 12 bulbos, divididos em três grupos: controle (água filtrada) e dois grupos com extratos de cascas em diferentes concentrações (50g/1200ml e 100g/1200ml). O experimento foi realizado nos laboratórios da Universidade Anhanguera- UNIDERP, com medidas diárias durante 4 dias do crescimento radicular, objetivando determinar a taxa de proliferação celular. Os resultados mostraram efeito tóxico dose-dependente. O grupo controle apresentou crescimento médio de 76,11 mm em 10 dias, enquanto os grupos tratados com 50g e 100g tiveram médias significativamente menores, 7,80 mm e 6,32 mm, respectivamente. Com base nos dados obtidos, sugere-se que a Guazuma Ulmifolia Lam. apresenta potencial antiproliferativo dose-dependente. O estudo contribui para a segurança no uso de plantas medicinais e destaca a importância de pesquisas adicionais para estabelecer doses seguras.
Palavras-chave: Guazuma ulmifolia Lam. Bioativos. Allium cepa. Proliferação celular. Plantas Medicinais.
1. INTRODUÇÃO
O uso de plantas está enraizado na história humana, tendo sido amplamente empregado em diversas circunstâncias e contextos. Inicialmente, foram utilizadas como fontes de alimentos, tendo seus efeitos no organismo humano estudados por meio da observação direta. Há relatos que dão testemunho da manipulação de ervas e congêneres antes da era Cristã, com especial relevo, entre os renomados da época, para Hipócrates, denominado o “pai da medicina”, que em sua obra “Corpus Hippocraticum”, associou a cada doença um vegetal terapêutico em particular como possível forma de tratamento. No Brasil, os povos originários também utilizavam um acervo diversificado oriundo da flora nativa em rituais de cura e adoração antes da chegada dos colonizadores. Com a chegada dos europeus, que adquiriram o conhecimento dessas ervas utilizadas pelos povos nativos, a aquisição de conhecimento fez com que avançasse a produção de estudos acerca das potencialidades do universo vegetal local (BRAGA, 2011; CONCEIÇÃO, 2023).
Nesse contexto, o uso de plantas medicinais está em constante crescimento e vem ganhando espaço no sistema de saúde. Badke, et al. (2021) afirmam que a Organização Mundial da Saúde (OMS) não apenas incentiva a incorporação de Práticas Integrativas Complementares em Saúde (PICS) na Atenção Primária à Saúde (APS), mas também ressalta a contribuição da medicina tradicional na prestação de assistência social, principalmente aos cidadãos mais restritos do acesso aos sistemas de saúde. Estima-se que cerca de 25% de todos os medicamentos modernos são derivados de plantas medicinais (CARVALHO, 2010). Por isso, a ANVISA, em 2013, publicou regulamentos para a área de fitoterápicos, estabelecendo boas práticas de armazenamento, preparo e dispensação desses produtos em farmácias no Sistema Único de Saúde (SUS), tendo em vista que ele oferece essas plantas medicinais para tratamento ginecológico, de gastrite e de queimaduras (CHIACCHIO, 2020). Os autores Krausset al. (2000), enfatizam que grande parte da sociedade utiliza plantas medicinais para acelerar o metabolismo, devido à presença de compostos bioativos (CBAs). Nesse panorama, dentre elas, destacam-se as antocianinas da Guazuma ulmifolia, presente na América Latina, como no Peru, Cuba, Argentina, Paraguai, México, Equador e Costa Rica, conhecida popularmente, no Brasil, como mutamba ou chico magro, pertencente à Família Sterculiaceae (CARVALHO, 2010).
De acordo com estudos de Chiacchio (2020) e Carvalho (2010), verifica-se que as árvores da espécie Guazuma ulmifolia Lam. – quando atigem a idade adulta – costuma alcançar alturas entre 8 e 16 m com diâmetro atingindo em média 30-50 cm, podendo chegar a 60 cm. Seu tronco atinge em média 30-50 cm de diâmetro, sendo revestido por uma casca de cor acinzentada com ritidoma escamoso. A madeira obtida da Guazuma ulmifolia Lam. é considerada leve, de consistência tenra e de pouca resistência; contudo, quando submetida à proteção adequada à chuva e umidade, apresenta durabilida de razoável. Em razão dessas características, é muito usada no fabrico de tonéis, construções internas, caixotaria, carvão e pasta celulósica.Essa espécie arbórea possui partes botânicas (folhas, cascas de caule e frutos), as quais são utilizadas como forma de medicação, por ter ação antioxidante, antiobesidade, anti-inflamatório, antiulcerosa, antimicrobiana, antiviral, laxativa e sudorífera (Santana ; Silva, 2018). Ademais, os CBAs, a exemplo dos fenólicos e flavonoides, agem como um antioxidante por possuírem o potencial de oxirredução de certas moléculas com capacidade de competir por sítios ativos e receptores e por realizarem a modulação da expressão de genes que codificam proteínas que atuam na defesa de mecanismos (HOLETZ ET AL., 2002).
Contudo, deve ser feito o uso consciente dessas plantas medicinais,assim como foi relatado, no ano de 2006, com o lançamento pelo governo da Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos, incentivando pesquisas, inovações e o desenvolvimento sustentável (Silva; Fogaça, 2018). Tendo em vista que possuem uma diversidade de compostos químicos, o uso inadequado desses recursos vegetais pode resultar em quadros de intoxicações ou ainda em eventos mutacionais em tecidos somáticos, efeitos teratogênicos e danos genéticos hereditários (SILVA; FOGAÇA, 2018). Por isso, é necessária a sensibilização social do seu modo de preparo e, também, a atenção dos profissionais de saúde voltada à temática (PEDROSO; ANDRADE; PIRES, 2021).
Pesquisadores atestam que bioensaios com plantas são considerados sensíveis no controle dos efeitos citotóxicos de compostos químicos (Grant 1999; Leme, Marin-Morales 2008). Entre os modelos vegetais comumente utilizados a Allium cepa L., popularmente conhecida como cebola, mostra-se como um modelo eficiente para avaliação de citotoxicidade devido suas propriedades cinéticas de proliferação ou a redução de células tissulares expostas a compostos químicos (TABREZ ET AL., 2011; GOMES ET AL., 2013).
Diante do exposto, o objetivo deste trabalho foi identificar as possíveis alterações quanto à taxa de proliferação celular em diferentes concentrações da Guazuma ulmifolia Lam. com o uso de Allium cepa como organismo teste, nas diferentes concentrações de infusão da Guazuma ulmifolia Lam. em bioensaio com Allium cepa. Assim, os resultados poderão contribuir para a determinação de parâmetros seguros de utilização desta espécie medicinal, auxiliando tanto na prática clínica quanto no desenvolvimento de novos fitoterápicos.
2. METODOLOGIA
Foi realizado um estudo experimental em réplicas do organismo Allium cepa, através da observação e registro fotográfico do crescimento radicular. O experimento foi conduzido nos laboratórios de Química e Biologia da Universidade Anhanguera UNIDERP.
2.1 Obtenção da amostra vegetal
As cascas de Guazuma ulmifolia Lam. e a A. cepa foram obtidas no Mercadão Municipal de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, sendo acondicionadas em recipientes aerados, isentos de umidade, luz e contaminação exógena, internalizado nos laboratórios da Universidade.
2.2 Preparo dos extratos aquosos
Foram preparados extratos aquosos obtidos por infusão das cascas de Guazuma ulmifolia Lam. em duas concentrações distintas e um grupo controle sem nenhuma concentração. No grupo controle foi utilizado apenas água filtrada, sem extrato da casca da planta. O segundo grupo, assemelhando-se ao uso popular, utilizou-se uma concentração de três (3) colheres de sopa (50 gramas) da casca da planta, e o último com uma dose mais concentrada de seis (6) colheres de sopa (100 gramas) da casca da planta. Ambas as concentrações foram infusionadas separadamente e aquecidas em uma chaleira de inox com 1.200 ml de água filtrada em cada concentração, em uma temperatura de 100°C, tamponadas por 15 minutos e depois coadas com filtro de papel e armazenadas em copos de vidro americano com 200ml em cada copo. A análise foi realizada diariamente (24/24h) nas dependências dos laboratórios da UNIDERP durante 10 dias (240h), com a substituição da solução a cada 24 horas até o final dos 10 dias, evitando a contaminação exógena, interferência de luz, temperatura e avaliando o pH da água (feitos por fita de indicador de pH) na atividade dos metabólitos presentes no vegetal. A metodologia em questão baseou-se – com adaptações – nos trabalhos de Ferro (2006), Panizza e Panizza (2005) e Wiesenauer (2006).
2.2 Modelo experimental
O início do experimento foi feito com 12 réplicas de A. cepa mantidas sem suas cascas e raízes, cada cebola branca foi acoplada nos copos americanos para que ficassem suspensas e com a raiz em contato com o extrato aquoso de Guazuma ulmifolia Lam., imersas por 24 horas a 1.200 ml de cada concentração (200 ml em cada copo americano), ocorrendo a troca dessa solução a cada 24 horas até o final dos 10 dias (240 horas), na expectativa de um crescimento de 60mm.
As cebolas foram divididas em 3 grupos, dois grupos em diferentes concentrações e um grupo controle com solução à base de água. O parâmetro mais importante analisado foi o crescimento das raízes medidas de 6 a 8 filamentos pelo paquímetro digital e uso fotográfico (estiramento das raízes em fundo preto para fotografia).
Especificação dos grupos experimentais com 4 exemplos cada:
- Grupo 1 (GC): grupo controle (raízes imersas em água filtrada sem concentração de G. ulmifolia);
- Grupo 2 (GX1): grupo experimental + 1.200 ml de água filtrada + o extrato na concentração 50 gramas;
- Grupo 3 (GX2): grupo experimental + 1.200 ml de água filtrada + o extrato na concentração 100 gramas.

2.3 Análise estatística
Para análise dos dados da pesquisa, foram utilizados Microsoft Excel para tabulação dos dados e pacotes estatísticos (Epi Info). As análises foram pautadas em testes de comparação entre os grupos visando identificar a relação entre as raízes sem tratamento e as submetidas ao tratamento vegetal, através de uma relação de média e comparação de crescimento das raízes.
3. ANÁLISE DOS RESULTADOS
Os gráficos abaixo (Figuras 2 e 3) demonstram um padrão de comparação quanto as taxas de crescimento radicular, de cebolas submetidas a distintas características físico/químicas da H20, Campo Grande – Mato Grosso do Sul, 2025, visando estabelecer um padrão de crescimento diário em condições de normalidade para condução do ensaio experimental.


Diante do ensaio de condução, observamos que em condições naturais, espera-se um crescimento de 30 mm em 4 dias, o que equivale a uma taxa diária de 6mm/dia. Os resultados desta etapa revelaram que:
- A A. cepa trocada em água filtrada (36,82 mm) cresceu mais que a taxa esperada, superando a expectativa natural.
- A A. cepa trocada em água destilada (20,47 mm) cresceu abaixo da taxa, ficando próximo da expectativa.
- As A. cepa não trocadas em água filtrada e destilada cresceram acima da taxa de expectativa natural.
Assim, analisa-se que o melhor crescimento ocorreu na A. cepa trocada diariamente em água filtrada, com um crescimento 49,7% maior que nas trocadas de água destilada. Quando não trocadas as A. cepa mantiveram um crescimento similar entre filtrada e destilada, com um leve aumento na destilada.
A tabela 1 demonstra a taxa de crescimento radicular, comparando todos os grupos analisados.
Tabela 1: Análise do crescimento radicular (em %) das cebolas (do dia 1 ao dia 10), Campo Grande – Mato Grosso do Sul, 2025.
| Amostra | Dia 1 (mm) | Dia 10 (mm) | Crescimento (%) |
| Grupo 1 (GC) | |||
| C1 | 6,83 | 62,12 | 809,96% |
| C2 | 8,81 | 86,85 | 885,36% |
| C3 | 4,02 | 75,86 | 1787,06% |
| C4 | 10,12 | 81,61 | 706,42% |
| Grupo 2 (GX1) | |||
| G1X1 | 3,73 | 5,97 | 60,05% |
| G2X1 | 1,97 | 5,68 | 188,27% |
| G3X1 | 7,08 | 8,41 | 18,78% |
| G4X1 | 6,20 | 9,12 | 47,10% |
| Grupo 3 (GX2) | |||
| G1X2 | 4,43 | 5,98 | 35,00% |
| G2X2 | 3,97 | 5,80 | 46,10% |
| G3X2 | 5,63 | 6,06 | 7,63% |
| G4X2 | 4,69 | 7,44 | 62,09% |
Os resultados sobre os valores observados versus os valores esperados do grupo controle (60mm em 10 dias), estão expostos na tabela 2
Tabela 2: Tabela do resultado do Grupo Controle (6cm em 10 dias/60mm em 10 dias), Campo Grande – Mato Grosso do Sul, 2025.
| Amostra | Dia 10 (mm) | Diferença do esperado (mm) |
| C1 | 62,12 | +2,12 |
| C2 | 86,85 | +26,85 |
| C3 | 75,86 | +15,86 |
| C4 | 81,61 | +21,61 |
Reforça-se que em relação ao Grupo Controle, com média de 76,11 mm, desvio padrão (DP) de 10,75 mm, observou-se um resultado muito acima da expectativa.
Os resultados sobre os valores observados versus os valores esperados do grupo guazuma 1x (6cm em 10 dias/60mm em 10 dias), estão expostos na tabela 3
Tabela 3: Tabela do resultado do Grupo 1 – 1x(G1X) (6cm em 10 dias/60mm em 10 dias), Campo Grande – Mato Grosso do Sul, 2025
| Amostra | Dia 10 (mm) | Diferença do esperado (mm) |
| G1X1 | 5,97 | –54,03 |
| G2X1 | 5,68 | –54,32 |
| G3X1 | 8,41 | –51,59 |
| G4X1 | 9,12 | –50,88 |
Reforça-se que em relação ao Grupo Guazuma ulmifolia Lam. 1X, com média de 7,80 mm, desvio padrão (DP) de 1,44 mm, observou-se um resultado muito abaixo da expectativa.
Os resultados sobre os valores observados versus os valores esperados do grupo guazuma 2x (6cm em 10 dias/60mm em 10 dias), estão expostos na tabela 4.
Tabela 4: Tabela do resultado do Grupo 2 (GC2) 2x (6cm em 10 dias/60mm em 10 dias), Campo Grande – Mato Grosso do Sul, 2025.
| Amostra | Dia 10 (mm) | Diferença do esperado (mm) |
| G1X2 | 5,98 | -54,02 |
| G2X2 | 5,80 | -54,20 |
| G3X2 | 6,06 | -53,94 |
| G4X2 | 7,44 | -52,56 |
Reforça-se que em relação ao Grupo Guazuma ulmifolia Lam. 2X, com média de 6,32 mm, desvio padrão (DP) de 0,70 mm, observou-se um resultado muito abaixo da expectativa. Diante desses resultados, foi observado que o grupo controle cresceu mais do que o esperado (média 76,11 mm > 60 mm), indicando bom desenvolvimento. Ambos os grupos tratados com Guazuma ulmifolia Lam. (1x e 2x) apresentaram crescimento muito inferior ao esperado (7,80 mm e 6,32 mm, respectivamente). A infusão de Guazuma ulmifolia Lam. parece exercer um efeito inibitório, e a inibição foi ligeiramente mais intensa no grupo 2x. O desvio padrão menor nos grupos tratados sugere que o efeito da Guazuma ulmifolia Lam. foi consistente entre as amostras.
Em relação à análise histológica do grupo controle, pode-se observar células organizadas com divisão celular ativa visível na região meristemática. Estrutura típica da zona de crescimento da raiz, coloração azulada intensa indicando a presença de células em mitose (corante azul de metileno marca núcleos), como demonstrado na figura 4.

Em relação à confecção do material histológico dos grupos de Guazuma ulmifolia Lam. pode-se observar que algumas raízes se apresentavam frágeis e outras extremamente endurecidas, demonstrando que houve uma impregnação dos metabólitos oriundos do extrato nos tecidos radiculares.
O grupo 1x de concentração de chá de Guazuma ulmifolia Lam. possui células alongadas, mas com pouca evidência de divisão celular, algumas células com aparência deformada e coloração mais irregular com presença de núcleos menos evidentes e possível vacuolização. Podese observar que houve uma resistência considerável em relação à impregnação do corante, como demonstrado na figura 5.

O grupo 2x de concentração de Chá de Guazuma ulmifolia Lam. possui células mais desorganizadas, com coloração irregular e menos definida, ausência de mitose e possíveis sinais de degeneração celular. Estrutura da raiz menos evidente, indicando inibição total ou quase total de crescimento. Pode-se observar que houve uma resistência considerável em relação a impregnação do corante, como demonstrado na figura 6.

4. DISCUSSÃO
Em que pesem os muitos conhecimentos produzidos a respeito da eficácia das plantas e seus usos terapêuticos, Mohana e colaboradores (2025) chamam atenção para o fato de que ainda há poucas pesquisas sobre o tema; bem como sobre os reais efeitos à saúde dos usuários. No que tange aos efeitos positivos das plantas e congêneres, Conceição (2023) indicam a real efetividade medicinal de fitoterápicos no processo de cicatrização, sendo, portanto, alternativa terapêutica para o tratamento de feridas cutâneas.
Pereira (2019) chama atenção para o potencial terapêutico da Guazuma ulmifolia Lam. no tratamento de variadas condições adversas de saúde, a exemplo dos distúrbios gastrointestinais e cardiovasculares, de tosses e acometimento de episódios diarreicos. Pesquisas realizadas com a planta apresentaram como resultado a descoberta de metabólitos secundários cujas propriedades demonstraram bioatividades como atividades antimicrobiana, antiprotozoária, antioxidante e efeito cardioprotetor. Ainda conforme Pereira (2019), a efetividade da Guazuma ulmifolia Lam. como estratégia terapêutica teve sua comprovação cientificada por estudos e experimentos in vitro e in vivo, em que as bioatividades se apresentaram intrinsecamente relacionadas à sua composição fitoquímica, notadamente proantocianidinas dímero B e trímero C (taninos condensados).
Não obstante, dados os muitos componentes químicos, grande parte ainda não estudados, constantes em plantas e congêneres, autores como Ferreira e Vasconcelos (2022), Pedroso, Andrade e Pires (2021) e Pedroza (2023) enfatizam os perigos relacionados ao uso indiscriminado de plantas medicinais, como os efeitos adversos provocados pelas interações medicamentosas, a prática da automedicação, o acirramento de problemas de saúde pré- existentes e os muitos riscos que correm os contingentes populacionais com maior vulnerabilidade, a exemplo de crianças, gestantes e idosos.
As consequências do mal uso de plantas medicinais e congêneres verificam-se na ocorrência de lesões hepáticas e insuficiência renal, além de complicações cardiovasculares e óbitos. Em razão dessa problemática, faz-se necessária a orientação de profissionais qualificados no sentido de desmistificar a noção de que só porque são oriundos da natureza, o uso de fitoterápicos é inofensivo (ANVISA, 2020; FRANCA et al. 2021). A ANVISA advoga o uso de plantas medicinais, visto que estas são “capazes de aliviar ou curar enfermidades e têm tradição de uso como remédio em uma população ou comunidade”; não obstante, para usá-las, “é preciso conhecer a planta e saber onde colhê-la, e como preparála. Normalmente são utilizadas na forma de chás e infusões” (BRASIL, 2019).
Nos resultados preliminares apresentados por Chiacchio (2020), trabalhando com dados divergentes entre estatísticas e grupo controle, notadamente referente ao peso e ao consumo de alimentos, identificou-se a inexistência, nas dosagens testadas, de toxicidade do extrato bruto de Guazuma ulmifolia Lam. O estudo de Chiacchio (2020) foi realizado utilizando 25 camundongos Swiss, agregados por semelhanças em 5 grupos experimentais, nos quais a exposição ao extrato em forma bruta foi feita por meio da administração oral, por meio de gavagem, com diferentes concentrações. A exemplo do trabalho de Chiacchio, embora com outra metodologia, os estudos de Santos (2020) também não encontraram toxicidade nos experimentos realizados.
Segundo pesquisas realizadas por Chiacchio (2020), foi constatado entre os diferentes componentes da Guazuma ulmifolia Lam. que a casca chama atenção especial por seu alto teor de taninos. A superfície da casca é acinzentada, nervurada e áspera, com uma espessura de até 12 mm, o que a torna facilmente destacável em tiras retangulares para uso posterior. Os principais componentes dos extratos em acetato de etila das cascas de Guazuma ulmifolia Lam. foram: ácido linolênico, tocoferol (vitamina E), esqualeno, estigmasterol e fucosterol (MARTINS, 2017).
Alguns estudos com o extrato dessa casca demonstraram melhor atividade bacteriostática contra bactérias Gram-positivas (Staphylococcus aureus e Bacillus subtillis) e Gram-negativas (Escherichia. coli e Pseudomona aeruginosa), mas o efeito bactericida foi eficaz apenas com bactérias Gram-positivas; comprovando o que já havia sido testado em experimentos anteriores realizados por Galina (2003; 2005). Porém, como observa Mafra (2019), há poucos estudos científicos publicados na tentativa de identificar ações farmacológicas desta espécie, o que deixa margem para a realização de pesquisas que possam dirimir essa lacuna no conhecimento sobre a Guazuma ulmifolia Lam.
Santos (2020) obteve resultado comprobatório de atividade biológica na inibição da produção de fator de necrose tumoral alfa (TNF-α), uma citocina pró-inflamatória, com a utilização de extrato metanólico do fruto de Guazuma Ulmifolia Lam., em célula endotelial de aorta humana, o que indica um potencial efeito anti-inflamatório. Em um estudo com modelo animal (murino) realizado por Roese (2011), com extratos da casca de Guazuma Ulmifolia Lam., demonstraram elevada capacidade antioxidante, a qual pode ser associada a maior conteúdo de compostos fenólicos.
A intervenção com o chá da casca influenciou o consumo de ração pelos animais, que apresentaram menor tendência de ganho de peso e melhora nos níveis de colesterol total e triglicerídeos.
Dessa forma, os compostos biologicamente ativos presentes na espécie Guazuma ulmifolia Lam. mostraram-se capazes de contribuir para o tratamento de doenças relacionadas a processos oxidativos, assim como para a obesidade. Isso porque a Guazuma ulmifolia Lam. segundo Martins (2017), tem em sua composição a presença de taninos, saponinas e ácidos orgânicos, elementos ativos de importância medicinal, cuja ação tem se comprovado benéfica quando relacionada a terapêuticas de uso da medicina popular.
Diante do exposto, com base nas análises, é possível concluir que a infusão Guazuma ulmifolia Lam. exerceu um efeito tóxico significativo sobre os crescimentos das radículas da A. cepa, e esse efeito foi proporcional à concentração utilizada. A diferença entres os valores indica que a Guazuma ulmifolia Lam. mesmo em baixa concentração (1x), inibe significativamente o crescimento das raízes, e esse efeito é ainda mais acentuado em concentrações mais altas (2x). Assim, analisa-se que a concentração (2x) de Guazuma ulmifolia Lam. intensificou o efeito tóxico, levando à desestruturação celular, indicando possível toxicidade e ação citotóxica direta. Essa possível toxicidade não foi encontrada, como observado ao longo do texto, em outros experimentos com a mesma planta, a exemplo dos realizados por Chiachiao (2020), Rodrigues (2025) e Santos (2020), em que pese o fato de a metodologia utilizada em cada estudo apresentar especificidades próprias.
Portanto, o estudo demosntrou que a Guazuma ulmifolia Lam. apresenta toxicidade dosedependente, afetando negativamente o desenvolvimento radicular e seus compostos podem interferir nos processos fisiológicos normais da planta com potencial efeito alelopático ou tóxico.
CONCLUSÃO
Conclui-se que ainda são escassas as pesquisas a respeito da Guazuma Ulmifolia Lam.; o que dificulta a recomendação do uso da planta como estratégia terapêutica. Dificulta, mas não invalida, posto que existem algumas pesquisas que demonstram a eficiência da Guazuma Ulmifolia Lam. no combate a alguns problemas de saúde. No que diz respeito ao experimento aqui realizado, tem-se que o grupo controle utilizado no estudo apresentou crescimento médio de 76,11 mm em 10 dias, já os grupos cujo tratamento executou-se com 50g e 100g obtiveram médias significativamente menores, 7,80 mm e 6,32 mm, respectivamente.
Assim, diante dos resultados alcançados com este estudo, identificou-se potencial antiproliferativo dose-dependente na Guazuma Ulmifolia Lam. A pesquisa concorre positivamente para aumentar a segurança no tocante ao uso terapêutico responsável de plantas medicinais; enfatizando a relevância da Guazuma Ulmifolia Lam. e destacando a necessidade imperiosa da realização de pesquisas adicionais para o estabelecimento de doses seguras.
REFERÊNCIAS
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¹Discente do curso superior de Medicina, Anhanguera Uniderp – Campo Grande/MS. E-mail: anacarlagomesrosa76@gmail.com;
²Discente do curso superior de Medicina, Anhanguera Uniderp – Campo Grande/MS. E-mail: aaninhafranco26@gmail.com;
³Discente do curso superior de Medicina, Anhanguera Uniderp – Campo Grande/MS. E-mail: anahisiramos@gmail.com;
⁴Discente do curso superior de Medicina, Anhanguera Uniderp – Campo Grande/MS. E-mail: paulinha8sp@hotmail.com;
⁵Discente do curso superior de Medicina, Anhanguera Uniderp – Campo Grande/MS. E-mail: anav.batalha@hotmail.com;
⁶Discente do curso superior de Medicina, Anhanguera Uniderp – Campo Grande/MS. E-mail: brenda.santana202410@gmail.com;
⁷Discente do curso superior de Medicina, Anhanguera Uniderp – Campo Grande/MS. E-mail: eduardo.p.ferreira@terra.com.br;
⁸Discente do curso superior de Medicina, Anhanguera Uniderp – Campo Grande/MS. E-mail: ruiterborges74@gmail.com;
⁹Discente do curso superior de Medicina, Anhanguera Uniderp – Campo Grande/MS. E-mail: anacarlagomesrosa76@gmail.com;
¹⁰Docente do curso superior de Medicina, Anhanguera Uniderp – Campo Grande/MS. Mestre em Doenças Infecciosas e Parasitárias pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. E-mail: ana.p.cunha@kroton.com.br.
