AVALIAÇÃO DAS METAS TERAPÊUTICAS EM PACIENTES DE ALTO RISCO CARDIOVASCULAR OU COM DOENÇA ARTERIAL CORONARIANA: UMA REVISÃO DAS EVIDÊNCIAS E DIRETRIZES ATUAIS

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202511062305


Fabiana Dias Lopes Matias1
Jackeline Butzske Freire Dantas da Costa1
Juliana Pinheiro Scheidt Porto1
Maria Eduarda Pinheiro Figueiredo1
Luiz Henrique Gasparelo1


RESUMO

INTRODUÇÃO: As doenças cardiovasculares (DCV) permanecem como a principal causa de morbimortalidade no Brasil e no mundo, com impacto expressivo na saúde pública. Entre elas, a doença arterial coronariana (DAC) destaca-se pela alta prevalência e gravidade, exigindo estratégias terapêuticas cada vez mais rigorosas para o controle dos fatores de risco. METODOLOGIA:Trata-se de uma revisão bibliográfica narrativa realizada nas bases PubMed/MEDLINE e Scielo, com descritores relacionados à doença arterial coronariana e metas terapêuticas. Incluíram-se guidelines e revisões sistemáticas publicadas a partir de 2020. As diretrizes da ESC (2024-2025), AHA/ACC (2023), SBD (2023) e SBC (2025) foram analisadas quanto às metas de pressão arterial, HbA1c, lipídios e controle de peso. A análise descritiva permitiu comparar recomendações nacionais e internacionais recentes. RESULTADOS: Foram analisadas as diretrizes da European Society of Cardiology (ESC) de 2024 e 2025, da American Heart Association (AHA) e American College of Cardiology (ACC) de 2023 e da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) em conjunto com outras sociedades brasileiras de 2025. De maneira geral, todas as diretrizes convergem para pressão arterial <130/80 mmHg como meta ideal, HbA1c <7% como alvo padrão e metas lipídicas cada vez mais baixas, com destaque para a inclusão da categoria de extremo risco na SBC 2025 (LDL-C <40 mg/dL). Em relação ao peso corporal, o benefício metabólico inicia-se com perda de ≥5%, mas a redução de eventos cardiovasculares é comprovada apenas com perdas ≥10% do peso máximo previamente atingido. CONCLUSÃO: Conclui-se que a implementação dessas metas, aliada a mudanças de estilo de vida, monitoramento contínuo e acesso ampliado a terapias de alta eficácia, é essencial para reduzir a morbimortalidade cardiovascular e enfrentar os desafios organizacionais e econômicos do sistema de saúde brasileiro.

PALAVRAS-CHAVE: Doença Arterial Coronariana; Diretrizes; Metas Terapêuticas, Alto Risco Cardiovascular.

ABSTRAT

INTRODUCTION: Cardiovascular diseases (CVD) remain the leading cause of morbidity and mortality in Brazil and worldwide, with a significant impact on public health. Among these, coronary artery disease (CAD) stands out for its high prevalence and severity, requiring increasingly rigorous therapeutic strategies to control risk factors. METHODOLOGY: This study is a narrative literature review conducted in the PubMed/MEDLINE and Scielo database using descriptors related to coronary artery disease and therapeutic goals. Guidelines and systematic reviews published from 2020 onward were included. The ESC (2024-2025), AHA/ACC (2023) and SBC (2025) guidelines were analyzed regarding targets for blood pressure, HbA1c, lipids, and weight control. A descriptive analysis was performed to compare recent national and international recommendations. RESULTS: The 2024 and 2025 guidelines from the European Society of Cardiology (ESC), the 2023 guidelines from the American Heart Association (AHA), American College of Cardiology (ACC), and Brazilian Diabetes Society, and the 2025 guidelines from the Brazilian Society of Cardiology (SBC) together with other Brazilian societies were analyzed. In general, all guidelines converge on blood pressure <130/80 mmHg as the ideal goal, HbA1c <7% as the standard target, and increasingly lower lipid goals, with emphasis on the inclusion of the extreme-risk category in the SBC 2025 (LDL-C <40 mg/dL). Regarding body weight, the metabolic benefit begins with a loss of ≥5%, but the reduction in cardiovascular events is only proven with losses ≥10% of the previously achieved maximum weight. CONCLUSION: It is concluded that the implementation of these goals, combined with lifestyle changes, continuous monitoring and expanded access to highly effective therapies, is essential to reduce cardiovascular morbidity and mortality and face the organizational and economic challenges of the Brazilian health system.

KEYWORKS: Coronary Artery Disease”, “Guideline”, “Therapeutic Goals” E “High Cardiovascular Risk 

INTRODUÇÃO

As doenças cardiovasculares (DCV) são reconhecidas como a principal causa de morte e morbidade no Brasil e no mundo, representando um dos maiores desafios para a saúde pública. Entre as doenças crônicas não transmissíveis (DCNT), as DCV respondem pela maior taxa de mortalidade, resultando em cerca de 38 milhões de óbitos a cada ano. Além das mortes prematuras, essas doenças geram impacto socioeconômico significativo, pois contribuem para incapacidade laboral, redução da renda familiar e diminuição da produtividade social (Oliveira; Magalhães, 2023; Siqueira et al., 2017).

No Brasil, a doença arterial coronariana (DAC) apresenta alta relevância dentro do espectro das DCV. Em 2017, a prevalência de DAC foi estimada em 1,75% da população acima de 20 anos, o que corresponde a aproximadamente 2,5 milhões de pessoas. Dados da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) mostram que, em 2018, o Sistema Único de Saúde (SUS) realizou mais de 78 mil angioplastias coronarianas, com taxa de mortalidade hospitalar de 2,96% (Marinho, 2021). 

A DAC é causada pela formação de placas de aterosclerose nas artérias coronárias, compostas por lipídios e tecido fibroso, que reduzem o fluxo sanguíneo e podem provocar isquemia miocárdica. Clinicamente, pode manifestar-se de forma crônica, como na cardiopatia isquêmica estável, ou de maneira aguda, como nas síndromes coronarianas agudas, incluindo infarto do miocárdio com ou sem supradesnivelamento do segmento ST (Neto et al., 2022; Norris, 2021).

Diversos fatores contribuem para o desenvolvimento e progressão da DAC, incluindo aspectos genéticos, sociais, culturais e comportamentais. Entre os fatores de risco modificáveis, destacam-se o tabagismo, a hipertensão arterial, a dislipidemia, a diabetes mellitus e a obesidade. O controle rigoroso desses fatores é fundamental para prevenir novos eventos cardiovasculares e reduzir a mortalidade. Interromper o tabagismo, adotar hábitos alimentares saudáveis, praticar atividade física regular, controlar o peso corporal e manter níveis adequados de pressão arterial, glicemia e colesterol são estratégias comprovadamente eficazes para reduzir complicações e melhorar a qualidade de vida (Sharifi-rad et al., 2020; Mody et al., 2023).

Nos últimos anos,  estudos de grande impacto clínico, como SPRINT, IMPROVE-IT, FOURIER, EMPA-REG OUTCOME, DECLARE-TIMI 58 e SELECT demonstraram que o alcance de metas terapêuticas otimizadas está diretamente associado à redução da mortalidade e de eventos cardiovasculares maiores (MACE). Com base nessas evidências, diretrizes nacionais e internacionais têm revisado e atualizado as metas terapêuticas de manejo dos fatores de risco cardiovascular.

As recomendações recentes indicam metas cada vez mais rigorosas, como pressão arterial abaixo de 130/80 mmHg, hemoglobina glicada (HbA1c) inferior a 7% para o controle do diabetes, níveis de LDL-C abaixo de 50 mg/dL para pacientes de muito alto risco, podendo chegar a <40 mg/dL em risco extremo, além da promoção de perda de peso de pelo menos 5% para melhora metabólica e 10% para redução comprovada de eventos cardiovasculares (SBC, 2025; ESC, 2025; ESC, 2024; AHA/ACC, 2023). 

Tais recomendações refletem avanços no entendimento da fisiopatologia e na disponibilidade de novas terapias, mas também impõem desafios relacionados ao acesso a medicamentos, adesão ao tratamento e acompanhamento clínico. Considerando que pacientes com DAC são classificados como de muito alto risco cardiovascular, torna-se essencial avaliar o cumprimento dessas metas terapêuticas e compreender as estratégias mais eficazes para o seu alcance. Essa análise é fundamental para orientar a prática clínica e melhorar os resultados em saúde.

Assim, o presente estudo tem como objetivo revisar a literatura científica e as principais diretrizes nacionais e internacionais para identificar e comparar as metas terapêuticas recomendadas para hipertensão arterial, diabetes mellitus tipo 2, dislipidemia e controle de peso em pacientes com alto risco cardiovascular ou doença arterial coronariana.

METODOLOGIAS

O presente estudo trata-se de uma revisão bibliográfica de caráter narrativo, elaborada com o objetivo de reunir, descrever e comparar as metas terapêuticas recomendadas para hipertensão arterial, diabetes mellitus tipo 2, dislipidemia e controle de peso em pacientes com alto risco cardiovascular ou com doença arterial coronariana (DAC). A coleta de dados foi realizada nas bases PubMed/MEDLINE e Scientific Electronic Library Online (SciELO), utilizando os descritores em inglês “coronary artery disease”, “guideline”, “therapeutic goals” e “high cardiovascular risk”, combinados pelos operadores booleanos “AND” e “OR”. Para a execução do trabalho, foram seguidas etapas sequenciais que compreenderam a delimitação do tema, a definição dos critérios de inclusão e exclusão, a busca nas bases de dados, a seleção dos estudos e, posteriormente, a organização e análise dos dados. Foram incluídos guidelines e revisões sistemáticas publicados em português, inglês ou espanhol a partir do ano de 2020, que abordassem metas terapêuticas e manejo de doenças cardiovasculares, principalmente DAC, em adultos. Excluíram-se trabalhos repetidos, publicações anteriores a 2020 e aqueles que não apresentassem informações relevantes ao tema.

Após a triagem inicial por títulos e resumos, os artigos selecionados foram lidos na íntegra e seus dados extraídos e compilados em planilha do Microsoft Excel. Nessa planilha, foram registradas as metas terapêuticas recomendadas para pressão arterial, controle HDL glicêmico (hemoglobina glicada – HbA1c), lipídios (LDL-C, não-HDL) e perda de peso, além das estratificações de risco cardiovascular, adotadas pelas diretrizes da European Society of Cardiology (ESC) de 2025, da American Heart Association (AHA) e American College of Cardiology (ACC) de 2023, Sociedade Brasileira de Diabete (SBD) de 2023 e da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) em conjunto com outras sociedades brasileiras de 2025. Por fim, os dados foram analisados de forma descritiva, permitindo a comparação entre as recomendações nacionais e internacionais mais recentes e possibilitando a discussão crítica das semelhanças, diferenças e evolução das metas ao longo do período avaliado (Figura 1).

Figura 1. Fluxograma com embasamento nos dados fornecidos pelos artigos científicos

FONTE: Autoria própria 

RESULTADOS

Os resultados deste estudo foram obtidos, principalmente, a partir da análise do Focused Update of the 2019 ESC Guidelines for the management of dyslipidaemias European Society of Cardiology (ESC) de 2025, da American Heart Association (AHA) e American College of Cardiology (ACC) Guideline for the management of patients with chronic coronary disease de 2023, da Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da

Aterosclerose 2025, Diretriz Brasileira Baseada em Evidências de 2025 para o Manejo da Obesidade e Prevenção de Doenças Cardiovasculares e Complicações Associadas à

Obesidade, Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial 2025, todas realizadas pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) em conjunto com outras sociedades brasileiras, e Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabete (SBD) de 2023- Metas no tratamento do diabetes, sintetizados no Quadro 1. 

Quadro 1. Metas terapêuticas recomendadas pelas diretrizes ESC, AHA/ACC, SBC e SBD entre 2023 e 2025.

LEGENDA: ESC: European Society of Cardiology; AHA: American Heart Association; ACC: American College of Cardiology; SBD: Sociedade Brasileira de Diabetes; HbA1c: hemoglobina glicada; LDL-C: colesterol da lipoproteína de baixa densidade; Não-HDL-C: Colesterol não-lipoproteína de alta densidade;ApoB: Apolipoproteína B; CV: cardiovascular.
FONTE: Elaborada pelos autores com base em Pititto B. et al, 2023; Virani S.S. et al, 2023; Brandão A.A. et al,2025; Mach F. et al, 2025; Rached F.H. et al, 2025; Saraiva J.F.K. et al, 2025.

O guideline da ESC de 2025 recomenda redução inicial da pressão arterial para valores abaixo de 140/90 mmHg, com meta considerada ótima entre 120 e 130 mmHg para a pressão arterial sistólica (PAS) em pacientes de 18 a 69 anos, quando tolerado. Para pacientes com 70 anos ou mais, a PAS alvo é <140 mmHg, podendo chegar a 130 mmHg se houver boa tolerância. Em qualquer faixa etária, a pressão arterial diastólica (PAD) deve ser mantida abaixo de 80 mmHg. 

Para portadores de diabetes mellitus tipo 2 (DM2), a meta geral é manter a HbA1c <7%, podendo ser ≤6,5% em pacientes jovens e sem fragilidade, já em idosos e frágeis essas metas são menos rigorosas e adaptada conforme a necessidade do indivíduo. Em relação aos lipídios, os alvos variam conforme o risco: <55 mg/dL de LDL-C ou redução ≥50% do basal para muito alto risco; <70 mg/dL ou redução ≥50% para alto risco; <100 mg/dL para risco moderado; e <130 mg/dL para risco baixo. O não-HDL-C deve permanecer 30 mg/dL acima da meta de LDL-C correspondente. 

A diretriz também recomenda perda de 5 a 10% do peso inicial para melhor controle glicêmico, pressórico e lipídico, além de dieta com restrição de sal e controle de carboidratos. Outras medidas de estilo de vida enfatizadas incluem manter o índice de massa corporal (IMC) entre 18 e 25 kg/m², cessar o tabagismo, limitar a ingestão de álcool, reduzir o tempo sedentário e praticar 30 a 60 minutos de atividade física moderada em, pelo menos, cinco dias por semana.

A ESC 2025 manteve as recomendações principais de 2024, porém acrescentando a categoria de LDL-C de extremo risco, com alvo de <40 mg/dL ou redução ≥50% do valor basal. Além disso, reforçou a importância do início precoce de terapias combinadas (estatina, ezetimiba, inibidor de PCSK9, ácido bempedoico) em pacientes de muito alto e alto risco cardiovascular. Acrescentou-se, a recomendação do uso do ácido bempedoico como estratégia de intensificação terapêutica em pacientes intolerantes às estatinas e que não atingem as metas lipídicas mesmo com o uso de ezetimiba.

O guideline AHA/ACC 2023 especificou a meta pressórica para pacientes com doença coronariana, recomendando PA <130/80 mmHg, e manteve a meta de HbA1c <7%, individualizada conforme idade e estado clínico. Para lipídios, os valores são semelhantes aos da ESC, mas sem a categoria de baixo risco para LDL-C. 

As diretrizes brasileiras de 2025 apresentam recomendações integradas. Para hipertensão, indicam PA <130/80 mmHg para todos, permitindo meta menos rigorosa (<140/90 mmHg) em idosos frágeis. Para obesidade, preconizam perda de peso ≥5% para redução de fatores de risco cardiovasculares e ≥10% para redução de eventos em indivíduos com risco moderado ou alto, com abordagem escalonada: mudança de estilo de vida, farmacoterapia e, quando indicado, cirurgia bariátrica. Em dislipidemia, além de reafirmar as metas anteriores, introduzem a categoria de extremo risco, com LDL-C <40 mg/dL ou redução ≥50% do basal, e acrescentam a necessidade de redução percentual (≥30%) para categorias de risco moderado e baixo. Além disso, foi incluída a Apolipoproteína B (ApoB) como meta secundária, para aqueles pacientes que já atingiram suas metas de LDL-C e não-HDL-C. Para diabetes, a diretriz de 2023 mantém a meta de HbA1c <7% para a maioria, ≤6,5% em jovens de baixo risco e valores mais brandos em idosos, principalmente, idoso frágil.

De maneira geral, todas as diretrizes convergem para pressão arterial <130/80 mmHg como meta ideal, HbA1c <7% como alvo padrão (podendo ser ≤6,5% em baixo risco e menos rigoroso em idosos) e metas lipídicas cada vez mais baixas, com destaque para a inclusão da categoria de extremo risco na SBC e EAS 2025 (LDL-C <40 mg/dL) e a verificação da ApoB. Em relação ao peso corporal, o benefício metabólico inicia-se com perda de ≥5%, mas a redução de eventos cardiovasculares é comprovada apenas com perdas ≥10% do peso máximo previamente atingido. 

DISCUSSÕES

As metas terapêuticas para prevenção e manejo de doenças cardiovasculares vêm se tornando progressivamente mais rigorosas, refletindo o acúmulo de evidências de que intervenções precoces e intensivas reduzem de forma consistente a morbimortalidade. A comparação entre as diretrizes brasileiras e internacionais revela não apenas a atualização dos alvos numéricos, mas também uma mudança conceitual em direção ao tratamento baseado no risco cardiovascular global, em que a intensidade da intervenção é guiada pelo perfil de risco e não apenas pelos valores isolados de pressão, lipídios ou glicemia.

Hipertensão arterial

As recomendações mais recentes, ESC 2025, AHA/ACC 2023 e Diretriz Brasileira de Hipertensão 2025, convergem para a meta de pressão arterial <130/80 mmHg para a maioria dos adultos, especialmente aqueles com risco cardiovascular elevado ou com doença aterosclerótica estabelecida. Essa meta é mais intensiva do que a sugerida na Diretriz Brasileira de 2019, que ainda aceitava <140/90 mmHg como objetivo para grande parte da população. A mudança baseia-se em evidências robustas de ensaios clínicos e meta-análises. O estudo SPRINT (SPRINT Research Group, 2015), envolvendo mais de 9. 300 participantes com risco cardiovascular elevado, demonstrou redução de 25% em eventos cardiovasculares maiores e de 27% na mortalidade por todas as causas com alvo de pressão sistólica <120 mmHg em comparação com <140 mmHg. Meta-análises mais recentes como, Blood Pressure Lowering Treatment Trialists’ Collaboration, 2021 e Manta et al., 2024, reforçam que a redução de PA é benéfica mesmo em níveis basais normais-altos, indicando que a decisão terapêutica deve considerar o risco cardiovascular global, não apenas valores absolutos de PA. Dessa maneira, as diretrizes recomendam individualização, reconhecendo que em idosos frágeis, portadores de comorbidades ou risco de hipotensão, uma meta mais conservadora (<140/90 mmHg) continua apropriada.

Diabetes mellitus tipo 2

As diretrizes internacionais e brasileiras mantêm o HbA1c <7% como alvo padrão para a maioria dos pacientes, com flexibilização de acordo com idade, tempo de doença e risco de hipoglicemia. Metas mais baixas (≤6,5%) são recomendadas para indivíduos jovens, com curta duração de diabetes e bom estado geral, enquanto metas menos rigorosas (<8%) são aceitáveis em idosos frágeis ou com múltiplas comorbidades. Além do controle glicêmico, as novas diretrizes enfatizam a escolha de fármacos com benefício cardiovascular comprovado. Ensaios com agonistas do peptídeo semelhante ao glucagon-1 (GLP-1) demonstraram redução significativa de desfechos cardiovasculares: a meta-análise de Tang et al. (2025) mostrou queda consistente no risco de infarto do miocárdio e mortalidade cardiovascular. Resultados semelhantes foram reportados por An et al. (2025) em comparação com diferentes agonistas GLP-1, e por Krychtiuk et al. (2024) na análise do albiglutide no estudo Harmony Outcomes. Essas evidências reforçam o papel desses agentes em pacientes com DM2 e alto risco cardiovascular, especialmente na presença de obesidade ou doença aterosclerótica estabelecida.

Dislipidemia

As metas lipídicas evoluíram para níveis cada vez mais baixos, sustentadas por extensa evidência de que a redução do LDL-C se traduz em redução proporcional de eventos ateroscleróticos. A diretriz americanas recomenda LDL-C <55 mg/dL ou redução mínima de 50% do valor basal para indivíduos de muito alto risco, enquanto as Diretrizes Brasileira de Dislipidemias e europeia de 2025 avançam ao criarem a categoria de risco extremo, propondo LDL-C <40 mg/dL ou redução ≥50% em relação ao basal. O documento também reforça metas de não-HDL-C (LDL alvo +30 mg/dL) e introduz a dosagem de ApoB como marcador secundário, com valor recomendado <45 mg/dL para pacientes em risco extremo ou que já atingiram as metas de LDL-C e não-HDL. Esses alvos mais agressivos são respaldados por estudos com inibidores de PCSK9 e ezetimiba, que demonstraram reduções adicionais de LDL-C e de eventos cardiovasculares (Imran et al., 2023; Khan et al., 2022). Meta-análises recentes confirmam a relação linear entre queda de LDL-C e redução de risco, sem evidência de limite inferior perigoso, reforçando a segurança de níveis extremamente baixos (Byrne et al., 2022; Burger et al., 2024; Hodkinson et al., 2022).

Obesidade e perda de peso

A Diretriz Brasileira de Obesidade 2025 introduz metas graduadas de perda ponderal que diferenciam desfechos intermediários e clínicos duros: a redução de ≥5% do peso inicial é suficiente para melhora de fatores de risco metabólico, incluindo pressão arterial, glicemia e perfil lipídico, enquanto uma perda sustentada de ≥10% do peso máximo atingido pelo indivíduo associa-se a diminuição comprovada de eventos cardiovasculares e redução da carga de fibrilação atrial. Ensaios clínicos e meta-análises demonstraram que programas de exercício aeróbico proporcionam redução significativa da mortalidade cardiovascular de maneira dose-resposta, ou seja, quanto maior a frequência e a intensidade do treino, maior a proteção conferida. De forma complementar, o treinamento resistido também se associa a menor risco de mortalidade geral e cardiovascular, mesmo em volumes semanais moderados, reforçando que diferentes modalidades de atividade física oferecem benefícios independentes e aditivos para a saúde cardiometabólica (Shailendra et al., 2022; Jayedi et al., 2024). Dietas de baixo índice glicêmico também mostraram impacto positivo no controle glicêmico e lipídico (Chiavaroli et al., 2021). 

Integração das metas

Um ponto central que emerge dessa análise é que as metas não devem ser vistas de forma isolada, mas como componentes de uma estratégia integrada de redução do risco cardiovascular global. O controle de peso facilita o alcance das metas pressóricas, lipídicas e glicêmicas, enquanto a intensificação do tratamento lipídico e da hipertensão atua sinergicamente na redução de eventos CV. Mudanças de estilo de vida, como cessação do tabagismo, que reduz risco mesmo em fumantes que apenas diminuem o consumo, e a adesão a padrões alimentares saudáveis, permanecem a base de todas as intervenções, estando associadas a menor incidência de eventos cardiovasculares em segmentos de longo prazo (Chang et al., 2021; Sebastian et al., 2024).

Implicações para a prática brasileira

Apesar da clara convergência internacional em direção a metas mais intensivas, a implementação no Brasil enfrenta desafios estruturais. O custo elevado de terapias como inibidores de PCSK9, agonistas de GLP-1 e novos agentes anti-obesidade limita sua incorporação no Sistema Único de Saúde, exigindo políticas de saúde que ampliem o acesso e incentivem a prescrição racional. Além disso, a efetivação dessas metas depende de estratégias de rastreamento precoce, monitorização ambulatorial da pressão arterial (MAPA) e acompanhamento multiprofissional intensivo, bem como de programas populacionais voltados à educação alimentar, incentivo à atividade física e cessação do tabagismo. A adoção ampla dessas intervenções é fundamental para que o Brasil alcance os benefícios de redução de morbimortalidade observados nos grandes ensaios clínicos e meta-análises.

CONCLUSÕES 

Conclui-se que as diretrizes internacionais e brasileiras evidenciam um movimento convergente em direção a metas terapêuticas cada vez mais rigorosas, refletindo o avanço das evidências científicas que demonstram benefícios consistentes de intervenções precoces e intensivas no controle de pressão arterial, glicemia, lipídios e peso corporal. Dessa maneira, fica claro que o risco cardiovascular global deve orientar a conduta clínica, de modo que, embora existam metas numéricas a serem alcançadas, é fundamental considerar as características individuais de cada paciente. 

Entretanto, persistem desafios organizacional e econômico para a implementação plena dessas recomendações, especialmente diante da incorporação de novas terapias consideradas de alta eficácia, como inibidores de PCSK9 e agonistas de GLP-1, que, apesar de comprovado impacto na redução de eventos cardiovasculares, ainda apresentam alto custo e acesso limitado, sobretudo no sistema público de saúde.

Assim, a adoção de estratégias integradas, que combinem mudança de estilo de vida, monitoramento contínuo e tratamento farmacológico escalonado, é essencial para reduzir a morbimortalidade cardiovascular no Brasil. Paralelamente, investimentos em políticas públicas, programas de educação em saúde e ampliação do acesso a terapias de alta eficácia são fundamentais para que as metas propostas pelas diretrizes se traduzam em benefícios concretos para a população.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AN, X.; SUN, W.; WEN, Z.; et al. Comparison of the efficacy and safety of GLP-1 receptor agonists on cardiovascular events and risk factors: a review and network meta-analysis. Diabetes, Obesity and Metabolism, v. 27, n. 4, p. 1735-1751, 2025. DOI: 10.1111/dom.16228.

BLOOD PRESSURE LOWERING TREATMENT TRIALISTS’ COLLABORATION. Pharmacological blood pressure lowering for primary and secondary prevention of cardiovascular disease across different levels of blood pressure: an individual participant-level data meta-analysis. Lancet, v. 397, n. 10285, p. 1625-1636, 2021. DOI: 10.1016/S0140-6736(21)00590-0.

BRANDÃO, A. A.; RODRIGUES, C. I. S.; BORTOLOTTO, L. A. et al. Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial – 2025. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, v. 122, n. 9, p. e20250624, 2025. DOI: 10.36660/abc.20250624

BURGER, P. M.; DORRESTEIJN, J. A. N.; KOUDSTAAL, S.; et al. Course of the effects of LDL-cholesterol reduction on cardiovascular risk over time: a meta-analysis of 60 randomized controlled trials. Atherosclerosis, v. 396, 118540, 2024. DOI: 10.1016/j.atherosclerosis.2024.118540.

BYRNE, P.; DEMASI, M.; JONES, M.; et al. Evaluating the association between low-density lipoprotein cholesterol reduction and relative and absolute effects of statin treatment: a systematic review and meta-analysis. JAMA Internal Medicine, v. 182, n. 5, p. 474-481, 2022. DOI: 10.1001/jamainternmed.2022.0134.

CHANG, J. T.; ANIC, G. M.; ROSTRON, B. L.; et al. Cigarette smoking reduction and health risks: a systematic review and meta-analysis. Nicotine & Tobacco Research, v. 23, n. 4, p. 635-642, 2021. DOI: 10.1093/ntr/ntaa156.

CHIAVAROLI, L.; LEE, D.; AHMED, A.; et al. Effect of low glycaemic index or load dietary patterns on glycaemic control and cardiometabolic risk factors in diabetes: systematic review and meta-analysis of randomised controlled trials. BMJ, v. 374, n. 1651, 2021. DOI: 10.1136/bmj.n1651.

HODKINSON, A.; TSIMPIDA, D.; KONTOPANTELIS, E.; et al. Comparative effectiveness of statins on non-high density lipoprotein cholesterol in people with diabetes and at risk of cardiovascular disease: systematic review and network meta-analysis. BMJ, v. 376, e067731, 2022. DOI: 10.1136/bmj-2021-067731.

IMRAN, T. F.; KHAN, A. A.; HAS, P.; et al. Proprotein convertase subtilisin/kexin type 9 inhibitors and small interfering RNA therapy for cardiovascular risk reduction: a systematic review and meta-analysis. PLoS One, v. 18, n. 12, e0295359, 2023. DOI: 10.1371/journal.pone.0295359.

JAYEDI, A.; SOLTANI, S.; EMADI, A.; et al. Aerobic exercise and weight loss in adults: a systematic review and dose-response meta-analysis. JAMA Network Open, v. 7, n. 12, e2452185, 2024. DOI: 10.1001/jamanetworkopen.2024.52185.

KHAN, S. U.; YEDLAPATI, S. H.; LONE, A. N.; et al. PCSK9 inhibitors and ezetimibe with or without statin therapy for cardiovascular risk reduction: a systematic review and network meta-analysis. BMJ, v. 377, e069116, 2022. DOI: 10.1136/bmj-2021-069116.

KRYCHTIUK, K. A.; MARQUIS-GRAVEL, G.; MURPHY, S.; et al. Effects of albiglutide on myocardial infarction and ischaemic heart disease outcomes in patients with type 2 diabetes and cardiovascular disease in the Harmony Outcomes trial. European Heart Journal – Cardiovascular Pharmacotherapy, v. 10, n. 4, p. 279-288, 2024. DOI: 10.1093/ehjcvp/pvae006.

MACH, F.; KOSKINAS, K. C.; ROETERS VAN LENNEP, J. E.; et al. 2025 Focused Update of the 2019 ESC/EAS Guidelines for the management of dyslipidaemias. European Heart Journal, 29 ago. 2025, p. ehaf190. DOI: 10.1093/eurheartj/ehaf190. 

MANTA, E.; THOMOPOULOS, C.; KARIORI, M.; et al. Revisiting cardiovascular benefits of blood pressure reduction in primary and secondary prevention: focus on targets and residual risk—a systematic review and meta-analysis. Hypertension, v. 81, n. 5, p. 1076-1086, 2024. DOI: 10.1161/HYPERTENSIONAHA.123.22610.

MARINHO, F. Prognóstico da Doença Arterial Coronariana em Hospitais Públicos no Brasil: O Estudo ERICO e Uso do Conhecimento na Saúde Pública. Arquivos Brasileiros De Cardiologia, 117(5), 986–987. https://doi.org/10.36660/abc.20210825.  (2021)

MODY, R. et al. Doença coronariana em jovens: novas formas de detecção, prevenção e tratamento. Journal Transcat Intervent. 2023;31:eA20230015. https://doi.org/10.31160/JOTCI202331A20230015. 

NETO, L. W. da F. et al. Relato de caso: métodos terapêuticos e avaliação prognóstica na doença coronariana multiarterial. DOI:10.34117/bjdv8n11-216. Brazilian Journal of Development, Curitiba, v.8, n.11, p.74031-74039, nov., 2022. Disponível em: https://ojs.brazilianjournals.com.br/ojs/index.php/BRJD/article/view/54443/40243. 

NORRIS, T. L. Porth Fisiopatologia. 10 ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2021. Disponível em: Minha Biblioteca, Grupo GEN, 2021.

OLIVEIRA, G. M. M.; MAGALHÃES, M., E. C. Manual de promoção da saúde cardiovascular [livro eletrônico] / Rio de Janeiro : Sociedade de Cardiologia do Estado do Rio de Janeiro, 2023.

Pititto B, Dias M, Moura F, Lamounier R, Calliari S, Bertoluci M. Metas no tratamento do diabetes. Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes (2023). DOI: 10.29327/557753.2022-3, ISBN: 978-85-5722-906-8.

Précoma DB, Oliveira GMM, Simão AF, et al. Updated Cardiovascular Prevention Guideline of the Brazilian Society of Cardiology – 2019. Arq Bras Cardiol. 2019;113(4):787-891. Published 2019 Nov 4. doi:10.5935/abc.20190204

RACHED, F. H.; MINAME, M. H.; ROCHA, V. Z.; et al. Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose – 2025. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, v. 122, n. 9, p. e20250640, 2025. DOI: 10.36660/abc.20250640.

SARAIVA, J. F. K.; VALERIO, C. M.; RACHED, F. H.; et al. Brazilian Evidence-based Guideline on the Management of Obesity and Prevention of Cardiovascular Disease and Obesity-Associated Complications: a Position Statement by Five Medical Societies. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, v. 122, n. 9, p. e20250621, 2025. DOI: 10.36660/abc.20250621.

SEBASTIAN, S. A.; PADDA, I.; JOHAL, G. Long-term impact of mediterranean diet on cardiovascular disease prevention: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. Current Problems in Cardiology, v. 49, n. 5, 102509, 2024. DOI: 10.1016/j.cpcardiol.2024.102509.

SHAILENDRA, P.; BALDOCK, K. L.; LI, L. S. K.; et al. Resistance training and mortality risk: a systematic review and meta-analysis. American Journal of Preventive Medicine, v. 63, n. 2, p. 277-285, 2022. DOI: 10.1016/j.amepre.2022.03.020.

SHARIFI-RAD, J. et al,. Diet, Lifestyle and Cardiovascular Diseases: Linking Pathophysiology to Cardioprotective Effects of Natural Bioactive Compounds. International Journal of Environmental Research and Public Health, v. 17, n. 7, p. 2326, 30 mar. 2020. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32235611/. 

SIQUEIRA, A. DE S. E.; SIQUEIRA-FILHO, A. G. DE.; LAND, M. G. P.. Analysis of the Economic Impact of Cardiovascular Diseases in the Last Five Years in Brazil. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, v. 109, n. 1, p. 39–46, jul. 2017. Disponível em: https://www.scielo.br/j/abc/a/TjBMVD83F7NMGNCJsP9kXKD/?lang=en. 

SPRINT RESEARCH GROUP. A randomized trial of intensive versus standard blood-pressure control. The New England Journal of Medicine, v. 373, n. 22, p. 2103-2116, 2015. DOI: 10.1056/NEJMoa1511939.

VIRANI SS, NEWBY LK, ARNOLD SV, et al. 2023 AHA/ACC/ACCP/ASPC/NLA/PCNA Guideline for the Management of Patients With Chronic Coronary Disease: A Report of the American Heart Association/American College of Cardiology Joint Committee on Clinical Practice Guidelines. Circulation. 2023;148(9):e9-e119. doi:10.1161/CIR.0000000000001168

VRINTS C, ANDREOTTI F, KOSKINAS KC, et al. 2024 ESC Guidelines for the management of chronic coronary syndromes. Eur Heart J. 2024;45(36):3415-3537. doi:10.1093/eurheartj/ehae177

TANG, A. S. P.; HSU, J. T. Y.; CHONG, S. K. S.; et al. Glucagon-like peptide-1 receptor agonist in myocardial infarction and atherosclerotic cardiovascular disease risk reduction: a comprehensive meta-analysis of number needed to treat, efficacy and safety. Cardiovascular Diabetology, v. 24, n. 1, p. 285, 2025. DOI: 10.1186/s12933-025-02840-3.


1MEDICINA, CENTRO UNIVERSITÁRIO SÃO LUCAS, PORTO VELHO, RONDÔNIA.