AVALIAÇÃO DA EFICÁCIA DAS TÉCNICAS DE IRRIGAÇÃO ULTRASSÔNICA NA DESINFECÇÃO DO SISTEMA DE CANAIS RADICULARES: UMA REVISÃO DE LITERATURA

EVALUATION OF THE EFFECTIVENESS OF ULTRASONIC IRRIGATION TECHNIQUES IN ROOT CANAL SYSTEM DISINFECTION: A LITERATURE REVIEW

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202511171356


Helon Bonfim Lisboa1, Renato Neves Bergamini2, Sthefany Bento e Silva3, Débora Maria de Oliveira Silva4, Camila Silva do Valle5, Rhuann Ayran Castro Borburema6, Daniella Medrado Caldas de Andrade7, Emyli Vieira dos Santos8, Camilla Almeida Braga Venâncio9, Camila de Albuquerque Fam10


Resumo

A irrigação endodôntica é uma etapa essencial para o sucesso do tratamento de canais radiculares, sendo responsável pela remoção de detritos, tecidos necróticos e microrganismos. Entretanto, as complexidades anatômicas do sistema radicular dificultam a desinfecção completa, motivando o desenvolvimento de técnicas de ativação como a irrigação ultrassônica passiva (PUI), que potencializa a ação dos irrigantes por meio de cavitação e microstreaming acústico. Objetivo: Avaliar, por meio de uma revisão de literatura, a eficácia das técnicas de irrigação ultrassônica na desinfecção do sistema de canais radiculares, comparando seu desempenho com métodos convencionais quanto à redução microbiana, remoção da smear layer e eficiência de limpeza. Metodologia: Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, realizada nas bases de dados PubMed, SciELO, LILACS, Cochrane e Science Direct, incluindo artigos publicados entre 2020 e 2025. Foram utilizados os descritores “Therapeutic Irrigation”, “Ultrasonics” e “Endodontics”. Após a triagem e exclusão de duplicatas, nove estudos foram selecionados para análise. Resultados: Os estudos analisados demonstraram que a ativação ultrassônica aumenta significativamente a penetração do irrigante, a remoção de debris e a descontaminação intratubular, apresentando melhor desempenho em comparação à irrigação convencional. Técnicas como a iVac, ANP e o uso de pontas ultrassônicas específicas mostraram resultados promissores na limpeza do terço apical. No entanto, a literatura ainda carece de evidências clínicas consistentes que comprovem o impacto dessas técnicas no sucesso a longo prazo do tratamento endodôntico. Conclusão: A irrigação ultrassônica é mais eficaz que os métodos convencionais na remoção de detritos, smear layer e microrganismos, sendo uma técnica recomendada como complementar ao preparo químico-mecânico. Apesar de seus benefícios comprovados, são necessários estudos clínicos adicionais e protocolos padronizados para determinar sua influência direta na taxa de cicatrização apical e no prognóstico endodôntico.

Palavras-chave: Endodontia. Irrigação ultrassônica. Desinfecção. Sistema de canais radiculares.

Abstract

Endodontic irrigation is an essential step for the success of root canal treatment, being responsible for the removal of debris, necrotic tissues and microorganisms. However, the anatomical complexities of the root system make complete disinfection difficult, motivating the development of activation techniques such as passive ultrasonic irrigation (PUI), which enhances the action of irrigators through cavitation and acoustic microstreaming. Objective: To evaluate, through a literature review, the effectiveness of ultrasonic irrigation techniques in root canal system disinfection, comparing their performance with conventional methods for microbial reduction, smear layer removal and cleaning efficiency. Methodology: This is an integrative literature review, conducted in the PubMed, SciELO, LILACS, Cochrane and Science Direct databases, including articles published between 2020 and 2025. The descriptors “Therapeutic Irrigation”, “Ultrasonics” and “Endodontics” were used. After screening and exclusion of duplicates, nine studies were selected for analysis. Results: The analyzed studies showed that ultrasonic activation significantly increases irrigation penetration, debris removal and intratubular decontamination, presenting better performance compared to conventional irrigation. Techniques such as iVac, ANP and the use of specific ultrasonic tips showed promising results in cleaning the apical third. However, the literature still lacks consistent clinical evidence to prove the impact of these techniques on the long-term success of endodontic treatment. Conclusion: Ultrasonic irrigation is more effective than conventional methods in the removal of debris, smear layer and microorganisms, being a technique recommended as complementary to chemical-mechanical preparation. Despite its proven benefits, additional clinical studies and standardized protocols are needed to determine its direct influence on apical healing rate and endodontic prognosis.

Keywords: Endodontics. Ultrasonic irrigation. Disinfection. Root canal system.

1   INTRODUÇÃO

A terapia endodôntica constitui o principal método utilizado para eliminar a infecção intracanal de origem bacteriana e tratar a periodontite apical. O sucesso desse tratamento está diretamente relacionado à efetiva desinfecção e descontaminação do sistema de canais radiculares, etapas que visam a completa remoção de tecidos orgânicos, inorgânicos e microrganismos. Assim, o preparo químico-mecânico é considerado uma das fases mais importantes do tratamento endodôntico, pois envolve não apenas o preparo mecânico do canal, mas também a ação química e biológica das soluções irrigadoras (Navarro et al., 2024).

Durante o preparo dos canais, o uso de soluções irrigadoras tem como objetivo reduzir ao máximo a carga microbiana intracanal, prevenir a ocorrência de periodontite apical e auxiliar na limpeza e lubrificação do canal radicular. Entre os irrigantes disponíveis, o hipoclorito de sódio (NaOCl) é o mais amplamente empregado na prática endodôntica por sua reconhecida capacidade antimicrobiana e de dissolução de tecidos orgânicos. Em associação, o ácido etilenodiaminotetracético (EDTA) é comumente utilizado para remover o componente inorgânico e a camada residual (smear layer) formada durante a instrumentação (Orozco et al., 2019).

Contudo, a complexa anatomia do sistema de canais radiculares, que inclui ramificações apicais, istmos e túbulos dentinários, representa um desafio para a completa desinfecção. Essas estruturas, por serem cavidades fechadas, dificultam a penetração do irrigante e favorecem o aprisionamento de bolhas de ar — fenômeno conhecido como bloqueio de vapor. Além disso, o fluxo da solução irrigadora, responsável pela ruptura mecânica e remoção do biofilme bacteriano, tende a ser limitado às áreas principais do canal devido às restrições espaciais e à viscosidade do irrigante (Boutsioukis; Moliz, 2022).

Os métodos de irrigação endodôntica podem ser classificados em técnicas manuais e técnicas mecanicamente ativadas. As abordagens manuais incluem a irrigação convencional com agulha (CNI) e a ativação dinâmica manual (MDA), geralmente realizada com cones ou limas de guta-percha. Já entre as técnicas de ativação mecanizada, destacam-se a irrigação sônica (SI), a irrigação ultrassônica passiva (PUI) e a irrigação com pressão negativa apical (ANP). A eficiência da irrigação está associada à capacidade do irrigante de alcançar toda a extensão do sistema de canais radiculares, especialmente o terço apical, garantindo a dissolução de resíduos pulpares e a completa eliminação microbiana (Kumar et al., 2023).

Dentre essas abordagens, a irrigação ultrassônica passiva (PUI) é amplamente reconhecida por promover uma maior penetração e agitação das soluções irrigadoras. Essa técnica utiliza uma ponta fina e flexível que vibra em alta frequência, gerando efeitos de cavitação e microstreaming acústico, os quais favorecem a remoção de detritos, smear layer e microrganismos das paredes e irregularidades do canal (Atav et al., 2025). Diferentemente da irrigação convencional, que apresenta limitações na limpeza do terço apical, a ativação ultrassônica melhora o contato do irrigante com as áreas de difícil acesso, otimizando a desinfecção.

Outros métodos, como o microagulhamento dinâmico manual (MDA), utilizam o movimento repetido de um cone de guta-percha para minimizar o bloqueio de vapor apical, enquanto a irrigação com pressão negativa apical (ANP) utiliza sucção controlada para promover o fluxo do irrigante até o comprimento de trabalho, reduzindo o risco de extrusão. Assim, a evolução das técnicas de irrigação tem buscado maximizar a eficiência da limpeza e minimizar complicações, consolidando a irrigação ultrassônica como uma das alternativas mais promissoras na endodontia contemporânea (Kumar et al., 2023).

Dessa forma, este trabalho tem como objetivo avaliar, por meio de uma revisão de literatura, a eficácia das técnicas de irrigação ultrassônica na desinfecção do sistema de canais radiculares, analisando seu desempenho em comparação com métodos convencionais, especialmente no que se refere à redução microbiana, remoção da smear layer e eficiência de limpeza.

2   METODOLOGIA 

   Esta revisão integrativa da literatura possui uma metodologia qualitativa, sendo baseada no desenvolvimento da seguinte pergunta de pesquisa: “Qual é a eficácia das técnicas de irrigação ultrassônica na desinfecção do sistema de canais radiculares em comparação às técnicas convencionais de irrigação?” Para isto, foram utilizadas as bases de dados eletrônica: U. S. National Library of Medicine (PubMed), Scientific Electronic Library Online (SciELO), Cochrane Library, Literatura Latino Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS) e Science Direct para pesquisar e identificar estudos que respondessem à pergunta norteadora desta revisão integrativa da literatura. A base de dados foi pesquisada para estudos realizados entre 2020 e 2025. Obtemos um total de 1.047 artigos, foram excluídos 941 após os critérios, foram encontradas 7 duplicatas e, após a triagem, 9 artigos foram selecionados para compor esta pesquisa. Dentre esses, o estudo de Orozco et al. (2019) não foi incluído na tabela 2 de resultados por não se enquadrar no recorte temporal definido (últimos 5 anos). Contudo, foi considerado relevante para a discussão e citado ao longo do texto. Esta revisão integrativa baseou-se em cinco etapas: Na primeira etapa foi o estabelecimento dos descritores para ambas as bases de dados, sendo uma com a utilização de MeSHterms (PubMed) e DeCS/MeSH (BVS). Em seguida, na segunda etapa, foram feitas uma busca avançada nas bases e análise do quantitativo dos artigos científicos presentes na íntegra. Logo em seguida, na terceira etapa, foram selecionados os artigos que se adequaram aos critérios de elegibilidade estabelecidos pelos pesquisadores. Na quarta e quinta etapa, os pesquisadores formularam uma tabela descritiva sobre os autores, objetivo de pesquisa, resultados e conclusão e em seguida, desenvolvimento da discussão dos artigos científicos, a fim de responder à pergunta norteadora estabelecida no início desta metodologia. Foram utilizados dois descritores para a composição da chave de pesquisa, sendo os seguintes (MeSH/DeCS): [(Irrigação Terapêutica / Therapeutic Irrigation) AND (Ultrassom / Ultrasonics) AND (Endodontia / Endodontics)]. Em seguida, os pesquisadores selecionaram os trabalhos com análise no título e resumo, com base nos critérios de elegibilidade. Os critérios de elegibilidade foram os seguintes: artigos publicados em português e inglês; ensaios clínicos randomizados ou não randomizados; metanálise; revisões sistemáticas e artigos que se adequem à temática. Também foi utilizado o sistema de formulário avançado para busca e seleção dos artigos utilizando conector booleano “AND”. Em seguida, artigos que preencheram os critérios de elegibilidade foram identificados e incluídos na revisão.

3   RESULTADOS

Os trabalhos que preencheram todos os critérios de seleção foram incluídos no estudo, os que não preencheram os critérios e/ou não se mostraram relevantes foram excluídos. Os resultados por análise foram representados na Tabela 1 e estabeleceu-se a construção da Tabela 2 aos estudos selecionados, com formulação das colunas (Autor/Ano; Objetivo; Resultados e Conclusão).

Tabela 1 – Seleção dos artigos por análise empregada e estabelecimento dos critérios de inclusão.

Fonte: Elaborado pelo autor, 2025.

Tabela 2 – Estudos detalhados em tabela de resultados.

Autor/AnoObjetivoResultadosConclusão
Kumar et al. (2023)Estabelecer se diferentes técnicas de ativação do irrigante (TAIs) resultam em maior penetração do irrigante até o comprimento de trabalho. Os resultados revelaram que as técnicas de irrigação intracanal (IATs) apresentaram melhora significativa na distribuição do irrigante até o comprimento de trabalho (CT) em canais retos (diferença percentual: 51,94%, IC 95%: 39,20-64,67%) e curvos (DMP: 1,08, IC 95%: 0,64-1,52) em comparação com a técnica de irrigação contínua (ICN). Tanto em canais retos quanto curvos, a técnica ANP é a mais eficaz para levar o irrigante até o comprimento de trabalho, seguida pelas técnicas PUI, SI e MDA. Portanto, recomenda-se a adaptação das técnicas IAT mais recentes na prática endodôntica de rotina.
Navarro et al. (2024)Fazer uma avaliação dos papéis preventivos e terapêuticos dos sistemas de irrigação ativa no tratamento de canal radicular.Existe consenso na comunidade endodôntica de que a ativação ultrassônica da solução irrigadora melhora a limpeza do canal radicular, eliminando tecido pulpar, detritos dentinários e smear layer, quando comparada à seringa convencional. Com as técnicas de ativação da solução irrigadora, o volume e a velocidade de fluxo são maiores durante a irrigação dos canais, resultando em remoção mais eficaz de detritos, menor obstrução apical e melhor acesso da solução irrigadora às irregularidades dos canais (áreas não instrumentadas e canais laterais)– Os sistemas de irrigação ativa parecem ser mais eficazes do que as seringas convencionais na realização de tratamentos de canal radicular. A irrigação é aprimorada, assim como sua penetração em áreas complexas, removendo mais detritos e restos pulpares, além de eliminar mais bactérias presentes nas irregularidades do canal radicular. -Não há evidências claras de que a irrigação ativa influencie o resultado do tratamento ou a cicatrização da periodontite apical. Isso não é bem compreendido devido à falta de pesquisas sobre a eficácia antimicrobiana e os resultados do tratamento com irrigação ultrassônica ou qualquer outro método de irrigação ativa.
Boutsioukis e Moliz (2022)    Estabelecer o panorama dos obstáculos que a irrigação precisa superar, avaliar criticamente os irrigantes e métodos de irrigação atualmente utilizados, destacar as lacunas de conhecimento e as limitações metodológicas nos estudos disponíveis e fornecer diretrizes para desenvolvimentos futuros. O hipoclorito de sódio permanece o irrigante de escolha, mas precisa ser complementado por um agente quelante. A administração dos irrigantes por meio de seringa e agulha e a ativação por lima ultrassônica são os métodos de irrigação mais populares. Não há evidências de que qualquer método de irrigação adjuvante, incluindo a ativação ultrassônica, possa melhorar o resultado a longo prazo do tratamento endodôntico além do que pode ser alcançado com instrumentação e irrigação por seringa. Com base no conhecimento atual, o NaOCl e o EDTA administrados por seringa e agulha, e possivelmente ativados por uma lima ultrassônica, continuam sendo a base dos protocolos de irrigação do canal radicular. Futuros esforços multidisciplinares, combinando conhecimentos de ciências básicas como Química, Microbiologia e Dinâmica dos Fluidos, poderão levar ao desenvolvimento de antimicrobianos mais eficazes e a métodos de ativação aprimorados, permitindo sua maior interação com o biofilme residual no sistema de canais radiculares.
Conti et al. (2025)    Este estudo investigou as associações entre instrumentos endodônticos, pontas ultrassônicas e diferentes protocolos de irrigação final para a remoção de biofilmes intracanais e intratubulares em canais ovais longos.O NaOCl e o CHX foram eficazes na descontaminação intracanal e intratubular. A solução salina demonstrou descontaminação significativa nas áreas intratubulares quando se utilizou a técnica CUI. O método CI foi o menos eficaz para a descontaminação intracanal.O uso das pontas ultrassônicas Flatsonic e Clearsonic é promissor para a desinfecção do canal radicular.
Atav et al. (2025)  Avaliar a eficácia de diferentes técnicas de ativação da irrigação na remoção da camada residual dos canais radiculares.As técnicas de irrigação ativada superaram significativamente a irrigação convencional (p < 0,05), com a técnica iVac demonstrando os melhores resultados na remoção da camada residual no terço apical. A irrigação assistida por laser (LAI) e a irrigação ultrassônica passiva (PUI) apresentaram resultados comparáveis em todos os terços dentários. Diferenças significativas na eficácia da limpeza foram observadas entre os diferentes terços dentários em cada grupo experimental, com o terço apical apresentando a maior presença de camada residual.Dentro das limitações do estudo, a ativação do irrigante demonstrou maior eficiência na remoção da camada residual dos canais radiculares em comparação com as técnicas de irrigação convencionais. O iVac apresentou o melhor desempenho de limpeza em cada terço, particularmente no terço apical.
Barbosa et al. (2021)Comparar o desempenho dos sistemas de IUP e irrigação não ativada (INA) na redução do ATTD durante protocolos de irrigação final, com base exclusivamente em estudos cujas análises utilizaram tomografia computadorizada de microfoco (microCT).A meta-análise comparando a capacidade dos protocolos PUI e NAI na remoção de detritos de tecido duro mostrou uma porcentagem maior de redução de acúmulo de detritos de tecido duro (AHTD) (P<0,01) para PUI, com um intervalo de confiança de 1,41 [0,79, 2,02]. A heterogeneidade entre os estudos foi de 82%. Os resultados apresentados no presente estudo reforçam o conceito de que a PUI pode aumentar a remoção de resíduos e melhorar a limpeza do canal radicular em tratamentos endodônticos.
Andrade et al. 2025Investigou a descontaminação intratubular promovida por dispositivos sônicos e ultrassônicos de alta potência, utilizando uma técnica de ativação intraoperatória gradual (SIA) ou uma abordagem de ativação convencional final (CA) durante o preparo químicomecânico do canal radicular.O grupo SUA apresentou a menor viabilidade bacteriana, seguido pelo grupo FSA, ambos estatisticamente semelhantes. Os grupos SSA e FUA apresentaram eficácia semelhante, porém menor que a do grupo SUA e do grupo FSA (p<0,05). O grupo CSI apresentou viabilidade bacteriana significativamente maior em comparação a todos os outros grupos (p<0,05).A agitação sônica de alta potência e a ativação ultrassônica aprimoraram a descontaminação intratubular contra E. faecalis. A técnica SIA, utilizando os sistemas IRRI S ou Eddy, reduziu efetivamente a viabilidade bacteriana e representa uma abordagem promissora para a desinfecção do canal radicular.
Silva et al. 2023Comparar a eficácia do XP-endo Finisher e da Irrigação Ultrassônica Passiva (IUP) na remoção de detritos de tecido duro de canais curvos. Ambos os métodos suplementares reduziram a quantidade de detritos em comparação com o volume inicial. Notavelmente, o XP-endo Finisher alcançou uma porcentagem significativamente maior de remoção de detritos (71% para o canal total e 74% para as áreas do istmo) em comparação com o PUI (41% para o canal total e 52% para a área do istmo) (P < 0,05).Ambas as abordagens suplementares reduziram a quantidade de detritos de tecido duro provenientes do preparo do canal, porém o XP-endo Finisher apresentou uma redução maior em comparação com o PUI ( p  < 0,05).

Fonte: Elaborado pelo autor, 2025.

4   DISCUSSÃO

 A desinfecção do sistema de canais radiculares é um dos pilares para o sucesso do tratamento endodôntico, e as técnicas de irrigação ultrassônica vêm sendo amplamente estudadas por seu potencial em otimizar a limpeza e reduzir a carga microbiana. De modo geral, os estudos analisados evidenciam superioridade da ativação ultrassônica em relação à irrigação convencional, embora alguns autores ressaltem limitações quanto à sua influência no prognóstico clínico a longo prazo.

 Orozco et al. (2019) demonstraram que a ativação ultrassônica passiva (AUP) promoveu maior redução percentual de bactérias cultiváveis (98,37%) em comparação à irrigação convencional (23,56%), destacando-se especialmente na eliminação de espécies anaeróbias, como E. faecalis. Apesar dessa superioridade antimicrobiana, o estudo não encontrou diferença significativa na carga microbiana total entre os grupos, indicando que fatores como o tipo de irrigante e o tempo de ativação ainda influenciam os resultados. Corroborando esses achados, Kumar et al. (2023) observaram que as técnicas de ativação do irrigante (TAIs), incluindo a ultrassônica, promoveram melhor penetração do irrigante até o comprimento de trabalho, tanto em canais retos quanto curvos, o que reforça o papel da ativação ultrassônica na melhoria da dinâmica do fluxo e na eficiência da limpeza intracanal.

 Navarro et al. (2024) reforçaram o consenso clínico de que os sistemas de irrigação ativa, como a ultrassônica, apresentam desempenho superior na remoção de detritos dentinários, smear layer e tecido pulpar residual, melhorando o acesso da solução irrigadora a regiões complexas do sistema de canais. Contudo, o autor também destacou a escassez de evidências sobre o impacto direto dessas técnicas no sucesso clínico e cicatrização periapical, revelando uma lacuna de conhecimento ainda presente na literatura. De maneira complementar, Boutsioukis e Moliz (2022) reconheceram o hipoclorito de sódio associado ao EDTA como base dos protocolos irrigadores, sendo a ativação ultrassônica um método amplamente utilizado, mas cuja efetividade em resultados a longo prazo ainda carece de comprovação robusta. Os autores sugerem que futuros estudos devem integrar conhecimentos de microbiologia, química e dinâmica dos fluidos para otimizar a ação antimicrobiana e o alcance do irrigante nos túbulos dentinários.

 Conti et al. (2025) observaram resultados promissores com o uso de pontas ultrassônicas Flatsonic e Clearsonic, que se mostraram eficazes na remoção de biofilmes intracanais e intratubulares em canais ovais longos, principalmente quando associadas a irrigantes como NaOCl e CHX. Esses achados indicam um avanço no design e na tecnologia das pontas ultrassônicas, favorecendo uma desinfecção mais homogênea e previsível. De forma semelhante, Atav et al. (2025) relataram que as técnicas de irrigação ativada  incluindo a ultrassônica passiva (PUI) e a assistida por laser apresentaram desempenho significativamente superior à irrigação convencional, sobretudo na remoção da camada residual (smear layer) no terço apical, região reconhecidamente mais desafiadora para a limpeza efetiva.

 Barbosa et al. (2021) reforçaram esses resultados ao mostrar, por meio de meta-análise, que a PUI apresentou maior capacidade de remoção de detritos de tecido duro em relação à irrigação não ativada, evidenciando sua relevância como técnica complementar na fase de irrigação final. Ainda, Andrade et al. (2025) destacaram que tanto a agitação sônica quanto a ultrassônica de alta potência aumentaram significativamente a descontaminação intratubular contra E. faecalis, sendo a técnica de ativação intraoperatória gradual (SIA) particularmente eficaz. Esses dados sugerem que a combinação de potência, frequência e tempo de ativação pode influenciar diretamente na eficiência antimicrobiana.

 Por fim, Silva et al. (2023) compararam o desempenho do XP-endo Finisher com a irrigação ultrassônica passiva, observando que ambos reduziram os detritos intracanais, embora o XP-endo Finisher tenha apresentado resultados superiores. Isso indica que, embora a ultrassônica seja eficiente, novas tecnologias rotatórias também podem contribuir para uma limpeza mais completa, especialmente em canais curvos ou com istmos. De modo geral, os estudos revisados convergem para a conclusão de que a ativação ultrassônica do irrigante potencializa a desinfecção, aumenta a penetração da solução irrigadora e favorece a remoção de detritos e smear layer. Entretanto, permanecem divergências quanto à sua influência direta nos resultados clínicos e na cicatrização apical, o que reforça a necessidade de ensaios clínicos longitudinais que avaliem o impacto real dessas técnicas no sucesso endodôntico.

5   CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS

A irrigação ultrassônica representa um importante avanço na endodontia moderna, proporcionando maior eficiência na desinfecção e limpeza do sistema de canais radiculares quando comparada às técnicas convencionais. A análise dos estudos revisados evidencia que a ativação ultrassônica da irrigante melhora a penetração da solução, promove melhor remoção da smear layer e de detritos dentinários e potencializa a redução da carga microbiana intracanal, inclusive em áreas de difícil acesso, como o terço apical e os túbulos dentinários.

Os resultados relatados por diferentes autores apontam que os efeitos de cavitação e microstreaming acústico gerados pela irrigação ultrassônica favorecem a desorganização dos biofilmes e a dispersão de microrganismos resistentes, especialmente Enterococcus faecalis, frequentemente implicado nas falhas endodônticas. Além disso, a literatura mostra que novas tecnologias como pontas ultrassônicas específicas e técnicas de ativação combinadas vêm contribuindo para uma maior eficácia na descontaminação intracanal, reforçando a importância da inovação nessa área. Entretanto, embora os benefícios microbiológicos e mecânicos sejam consistentes, ainda não há consenso quanto ao impacto clínico da irrigação ultrassônica nos resultados a longo prazo, como a taxa de cicatrização apical e o prognóstico final do tratamento. Essa limitação decorre principalmente da escassez de estudos clínicos longitudinais e da variabilidade metodológica entre as pesquisas, o que dificulta a padronização dos protocolos. Diante disso, pode-se concluir que a irrigação ultrassônica é uma técnica eficaz e promissora, devendo ser considerada uma ferramenta complementar dentro do preparo químico-mecânico do canal radicular. Sua utilização, associada a irrigantes adequados como hipoclorito de sódio (NaOCl) e EDTA, potencializa a limpeza e desinfecção, contribuindo para o sucesso terapêutico. 

Para consolidar o uso clínico baseado em evidências, recomenda-se a realização de novas pesquisas controladas e de longo prazo, voltadas à avaliação dos efeitos da ativação ultrassônica sobre os desfechos clínicos e histológicos, bem como o desenvolvimento de dispositivos e protocolos mais padronizados que maximizem a ação antimicrobiana e minimizem possíveis limitações técnicas.

REFERÊNCIAS

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CONTI, Leticia Citelli et al. Are ultrasonic tips associated with final irrigation protocols effective in removing biofilms in long oval canals and dentinal tubules?. Clinical Oral Investigations, v. 29, n. 1, p. 90, 2025.

DE ANDRADE, Flaviana Bombarda et al. Antimicrobial Effectiveness of High-Power Sonic and Ultrasonic Devices Combined with Stepwise Intraoperative or Final Activation of Sodium Hypochlorite. European Endodontic Journal, v. 10, n. 4.

KUMAR, Ram Surath et al. Comparative efficacy of different irrigant activation techniques for irrigant delivery up to the working length of mature permanent teeth: a systematic review and meta-analysis. European endodontic journal, v. 8, n. 1, p. 1, 2023.

OROZCO, Esteban Isai Flores et al. Effect of passive ultrasonic activation on microorganisms in primary root canal infection: a randomized clinical trial. Journal of Applied Oral Science, v. 28, p. e20190100, 2019.

SILVA, Warley Oliveira et al. Enhancing debris removal in curved canals: a comparative evaluation of XP-endo Finisher and Passive Ultrasonic Irrigation. Clinical Oral Investigations, v. 27, n. 12, p. 7523-7529, 2023.


1 Discente do Curso Superior de Odontologia pela União Metropolitana de Educação e Cultura, UNIFAS – helon.b.santos@gmail.com União Metropolitana de Educação e Cultura, UNIFAS
2 Especialista em Endodontia pela Faculdade São Leopoldo Mandic, Campinas – SP
3 Graduada do Curso Superior de Odontologia pelo Centro Universitário de Patos de Minas
4 Graduada do Curso Superior de Odontologia pela Faculdade Anhanguera, Campus Poços de Caldas – MG
5 Graduada do Curso Superior de Odontologia pelo Centro Universitário Euro Americano – Unieuro
6 Discente do Curso Superior de Odontologia pela Faculdade Maurício de Nassau de Campina Grande
7 Discente do Curso Superior de Odontologia pela União Metropolitana de Educação e Cultura (UNIME) – BA
8 Graduada do Curso Superior de Odontologia pela UNIFG, Campus Guanambi – BA
9 Graduada do Curso Superior de Odontologia pela UNINOVAFAPI
10 Especialista em Endodontia pela Innovare – Núcleo de Pós-Graduação em Odontologia, Salvador – BA