CINQUENTA ANOS DE HANSENÍASE NO BRASIL: PERFIL EPIDEMIOLÓGICO E DISTRIBUIÇÃO DAS FORMAS CLÍNICAS

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/dt10202511171322


Giovanna de Sousa Almeida1
Grace Lugnani Lopes Oliveira2
Mariana Menezes de Mauro3
Mariana Lopes Hernandez Quintana4
Maria Fernanda Mendes Moreira5


RESUMO

Introdução: A hanseníase é uma doença infecciosa crônica causada pelo Mycobacterium leprae, caracterizada por lesões cutâneas e comprometimento dos nervos periféricos, podendo levar a deformidades se não tratada. Apesar dos avanços no controle da doença, o Brasil permanece entre os países com maior número de casos no mundo. Objetivo: Realizar um levantamento epidemiológico dos casos notificados de hanseníase no Brasil entre 1975 e 2025, analisando distribuição temporal, localidade, sexo, raça, forma clínica, número de lesões e resultados de baciloscopia. Metodologia: Estudo epidemiológico, ecológico, descritivo, transversal e retrospectivo. Os dados foram obtidos do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) e do DATASUS. Foram analisadas variáveis como distribuição anual, unidade federativa, sexo, raça, classificação operacional, forma clínica, número de lesões e resultados de baciloscopia. Resultados: Entre 1975 e 2025, foram notificados 776.563 casos de hanseníase. Observou-se predominância de casos nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, com Maranhão, Mato Grosso e Pará como os estados mais afetados. A maior parte dos casos ocorreu em homens (56,3%) e indivíduos pardos (54,74%). A forma multibacilar predominou (69,12%), sendo a forma dimorfa a mais frequente (42,28%). Mais de 34% dos pacientes apresentaram mais de cinco lesões e cerca de 19,63% tiveram baciloscopia positiva, enquanto 30,47% apresentaram dados ignorados. Conclusão: Apesar da redução gradual de casos, a hanseníase ainda representa desafio à saúde pública no Brasil. A predominância de formas multibacilares e múltiplas lesões evidencia a necessidade de diagnóstico precoce, realização adequada de exames complementares e estratégias de vigilância diferenciadas, visando reduzir a transmissão e prevenir incapacidades físicas. 

PALAVRAS-CHAVE: “Hanseníase” ; “Hanseníase virchowiana” ; “Hanseníase multibacilar” ; “Hanseníase Paucibacilar”. 

INTRODUÇÃO

A hanseníase trata-se de uma doença infecciosa crônica causada pelo Mycobacterium leprae, caracterizada principalmente por lesões na pele e comprometimento dos nervos periféricos, podendo levar a deformidades físicas e incapacidades físicas se não tratada adequadamente (BRASIL, 2020). 

A fisiopatologia da hanseníase envolve a interação entre o Mycobacterium leprae e o sistema imunológico do hospedeiro. O bacilo tem tropismo por células da pele e nervos periféricos, onde se multiplica lentamente, levando a danos nos nervos e à destruição de fibras sensoriais e motoras (SANTOS; SILVA, 2021). A resposta imunológica determina a forma clínica da doença: pacientes com resposta celular intensa apresentam formas paucibacilares, com poucas lesões e bacilos escassos, enquanto indivíduos com resposta imune deficiente desenvolvem formas multibacilares, caracterizadas por lesões extensas e maior carga bacilar (SANTOS; SILVA, 2021). 

A transmissão ocorre, em geral, por contato prolongado com pessoas infectadas, sendo a detecção precoce e o tratamento multidrogas fundamentais para a interrupção da cadeia de transmissão e a prevenção de complicações (BRASIL, 2020). 

A hanseníase é transmitida principalmente por via respiratória, por meio de gotículas expelidas por indivíduos infectados durante a fala, tosse ou espirro, sendo necessário contato próximo e prolongado para que ocorra a infecção (BRASIL, 2020). Embora o Mycobacterium leprae tenha baixa infectividade, fatores como condições de moradia precárias, aglomeração e imunidade comprometida aumentam o risco de contágio. A transmissão por contato direto com lesões de pele de pacientes infectados é menos frequente, e a doença não é considerada altamente contagiosa (BRASIL, 2020). 

No Brasil, a Hanseníase continua a representar um importante desafio de saúde pública: em 2022 foram notificados cerca de 19 635 casos novos, o que representa um aumento de 14,4% em relação ao ano anterior (BRASIL, 2024). O país ocupa a segunda posição mundial em número de novos casos, ficando atrás do primeiro país que é a Índia, e concentra mais de 90% dos registros das Américas (BRASIL, 2024). As taxas de detecção são particularmente elevadas nas regiões Norte, Nordeste e Centro‑Oeste, com estados como Mato Grosso e Maranhão destacando‑se em número de casos novos por 100 mil habitantes (BRASIL, 2024). Essa distribuição evidencia desigualdades regionais e reforça a necessidade de estratégias diferenciadas de vigilância para cada localidade, diagnóstico precoce e tratamento para reduzir a transmissão e prevenir incapacidades físicas (BRASIL, 2024) 

O diagnóstico da hanseníase baseia-se no reconhecimento clínico de lesões cutâneas com alteração de sensibilidade e espessamento de nervos periféricos, complementado pelo exame baciloscópico e, em casos mais complexos, por testes sorológicos ou moleculares (BRASIL, 2020; ROMERO et al., 2022). A abordagem diagnóstica precoce é essencial para reduzir incapacidades físicas e interromper cadeias de transmissão (BRASIL, 2020). 

OBJETIVOS

O objetivo do presente trabalho é realizar o levantamento epidemiológico, dos casos notificados de hanseníase, no Brasil, entre o período de 1975 a 2025. Fazendo a avaliação de variáveis 

METODOLOGIA

O presente estudo trata-se de um estudo epidemiológico ecológico, descritivo, transversal e retrospectivo. Os dados foram coletados a respeito dos casos novos notificados no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), os quais encontram-se disponíveis no banco de dados online do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS). Foi realizada coleta de dados de casos de hanseníase no Brasil, entre os anos de 1975 a 2025. 

A coleta dos dados foi realizada em 2025. Utilizou-se as variáveis: distribuição anual, por unidade federativa, sexo, raça, cassificação de diagnóstico, forma clínica, quantidade de lesões e baciloscopia (CID A30). 

Em conformidade com a Resolução no 4661/2012, como o estudo trata-se de uma análise realizada por meio de banco de dados secundários de domínio público, este não foi encaminhado para apreciação de um Comitê de Ética em Pesquisa. 

RESULTADOS

No período analisado houveram 776.563 casos notificados de hanseníase no Brasil.

A distribuição anual dos casos se deu: <1975: 67 (0,01%), 1976: 3 (0,00%), 1977: 3 (0,00%), 1978: 2 (0,00%), 1979: 11 (0,00%), 1980: 3 (0,00%), 1981: 3 (0,00%), 1982: 4 (0,00%), 1983: 7 (0,00%), 1984: 6 (0,00%), 1985: 3 (0,00%), 1986: 4 (0,00%), 1987: 4 (0,00%), 1988: 9 (0,00%), 1989: 9 (0,00%), 1990: 10 (0,00%), 1991: 8 (0,00%), 1992: 19 (0,00%), 1993: 13 (0,00%), 1994: 18 (0,00%), 1995: 26 (0,00%), 1996: 89 (0,01%), 1997: 63 (0,01%), 1998: 74 (0,01%), 1999: 89 (0,01%), 2000: 208 (0,03%), 2001: 221 (0,03%), 2002: 331 (0,04%), 2003: 610 (0,08%), 2004: 3.276 (0,42%), 2005: 56.094 (7,22%), 2006: 51.071 (6,58%), 2007: 47.770 (6,15%), 2008: 47.526 (6,12%), 2009: 44.884 (5,78%), 2010: 42.521 (5,47%), 2011: 41.400 (5,33%), 2012: 40.671 (5,23%), 2013: 38.116 (4,91%), 2014: 38.448 (4,95%), 2015: 35.942 (4,63%), 2016: 32.249 (4,15%), 2017: 34.716 (4,47%), 2018: 36.853 (4,75%), 2019: 36.291 (4,67%), 2020: 23.523 (3,03%), 2021: 24.462 (3,15%), 2022: 26.018 (3,35%), 2023: 30.102 (3,88%), 2024: 29.467 (3,79%) e 2025: 13.246 (1,71%) (Gráfico 1). 

Gráfico 1. Distribuição anual dos casos de hanseníase, entre 1975 a 2025, no Brasil.

Fonte: Datasus.

A distribuição por localidade se deu: Rondônia: 17.543 (2,26%), Acre: 4.641 (0,60%), Amazonas: 13.958 (1,80%), Roraima: 3.133 (0,40%), Pará: 79.283 (10,21%), Amapá: 3.370 (0,43%), Tocantins: 29.031 (3,74%), Maranhão: 87.348 (11,25%), Piauí: 28.267 (3,64%), Ceará: 44.646 (5,75%), Rio Grande do Norte: 6.240 (0,80%), Paraíba: 14.920 (1,92%), Pernambuco: 62.019 (7,99%), Alagoas: 8.680 (1,12%), Sergipe: 9.687 (1,25%), Bahia: 58.966 (7,59%), Minas Gerais: 35.687 (4,59%), Espírito Santo: 17.024 (2,19%), Rio de Janeiro: 32.558 (4,19%), São Paulo: 40.954 (5,27%), Paraná: 20.978 (2,70%), Santa Catarina: 4.468 (0,58%), Rio Grande do Sul: 3.510 (0,45%), Mato Grosso do Sul: 14.042 (1,81%), Mato Grosso: 83.433 (10,74%), Goiás: 45.565 (5,87%), Distrito Federal: 6.612 (0,85%) (Gráfico 2).

Os estados com maior número de casos foram o Maranhão (87.348; 11,25%), seguido por Mato Grosso (83.433; 10,74%) e Pará (79.283; 10,21%), que juntos representam aproximadamente um terço do total de registros de hanseníase no Brasil.

Gráfico 2. Distribuição por localidade dos casos de hanseníase, entre 1975 a 2025, no Brasil.

Fonte: Datasus.

A distribuição das notificacções por sexo se deu: Ignorado: 39 (0,01%), Masculino: 437.282 (56,30%), Feminino: 339.241 (43,70%) (Tabea 1). Destacando-se a pequena quantidade de ignorados no período analisado, fator positivo para a monitorização da doença.

Tabela 1. Distribuição por sexo dos casos de hanseníase, entre 1975 a 2025, no Brasil.

Fonte: Datasus.

Os casos foram separados nas seguintes raças: Ign/Branco: 31.978 (4,12%), Branca: 206.258 (26,56%), Preta: 100.955 (13,00%), Amarela: 8.896 (1,15%), Parda: 425.045 (54,74%), Indígena: 3.431 (0,44%) (Tabela 2). 

As raças com maior número de casos foram as pessoas da raça parda (54,74%) e da raça branca (26,56%), totalizando mais de 81% do total de registros.

Tabela 2. Distribuição racial dos casos de hanseníase, entre 1975 a 2025, no Brasil.

Fonte: Datasus.

A classificação dos pacientes no momento do diagnóstico foi: Ign/Branco: 1.371 (0,18%), Paucibacilar: 238.351 (30,70%) e Multibacilar: 536.841 (69,12%) (Tabela 3).

Tabela 3. Distribuição por classificação de diagnóstico dos casos de hanseníase, entre 1975 a 2025, no Brasil.

Fonte: Datasus.

A classificação por forma clínica se deu: Ign/Branco: 33.722 (4,34%), Indeterminada: 114.619 (14,76%), Tuberculóide: 122.231 (15,74%), Dimorfa: 328.349 (42,28%), Virchowiana: 135. 384 (17,44%), Não classificada: 42.258 (5,44%) (Tabela 4). 

As formas clínicas com maior número de casos foram a Dimorfa (42,28%) e a Virchowiana (17,44%), somando juntas mais de 59% do total de notificações.

Tabela 4. Distribuição por classificação de forma clínica dos casos de hanseníase, entre 1975 a 2025, no Brasil.

Fonte: Datasus.

A classificação por forma clínica se deu: Lesão única: 190.695 (24,56%), 2-5 lesões: 228.250 (29,38%), >5 lesões: 268.291 (34,56%), Informado 0 ou 99: 89.327 (11,50%) (Tabela 5).

Tabela 5. Distribuição por número de lesões cutâneas devido à hanseníase, entre 1975 a 2025, no Brasil.

Fonte: Datasus.

Os resultados da baciloscopia foram: Ign/Branco: 236.500 (30,47%), Positivo: 152.445 (19,63%), Negativo: 190.740 (24,57%), Não realizado: 196.878 (25,34%) (Tabela 6).

Tabela 6. Distribuição por baciloscopia no diagnóstico de hanseníase, entre 1975 a 2025, no Brasil.

Fonte: Datasus.

DISCUSSÃO

Entre 1975 e 2025, os dados indicam que houve flutuações significativas em relação ao número anual de casos de hanseníase no Brasil, com picos como em 2005 (56.094 casos) e quedas expressivas em anos posteriores, como 2016 (32.249 casos) e 2025 (13.246 casos). Essa tendência é consistente com estudos que relatam uma redução gradual na detecção de novos casos no Brasil desde o início dos anos 2000, refletindo, em parte, o impacto do tratamento com múltiplos medicamentos e das políticas nacionais de controle da hanseníase (SANTOS et al., 2024; VIEIRA et al., 2017). 

Contudo a presença de aumentos pontuais em determinados anos sugere que fatores locais, como intensificação de campanhas de rastreio ou melhorias no sistema de notificação, podem influenciar temporariamente nos números observados. Essa variação também pode refletir atrasos na detecção de casos, especialmente em regiões endêmicas, como observado na literatura, onde áreas com alta vulnerabilidade social apresentam maior risco de surtos intermitentes (ROCHA et al., 2021). 

Em relação aos dados coletados observou-se forte concentração nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, com destaque para Maranhão (87.348 casos; 11,25%), Mato Grosso (83.433 casos; 10,74%) e Pará (79.283 casos; 10,21%), que juntas representam aproximadamente um terço do total de notificações. Esse padrão reflete a persistência de desigualdades regionais e socioeconômicas, caracterizadas por baixa cobertura de serviços de saúde, maior índice de pobreza e condições precárias de moradia, fatores reconhecidos como facilitadores da transmissão do Mycobacterium leprae (BRASIL, 2024; SALES et al., 2020). 

Segundo Lopes (2019) e Rodrigues (2021), os estados amazônicos, como Pará e Mato Grosso, apresentam alta endemicidade devido à combinação de fatores ambientais, acesso limitado à atenção básica e dispersão populacional, dificultando o rastreio de contatos e o diagnóstico precoce (LOPES et al., 2019; RODRIGUES et al., 2021). Discordante das regiões Sul e Sudeste, incluindo Santa Catarina (0,58%) e Rio Grande do Sul (0,45%), as quais apresentaram menor número de casos, possivelmente em função de maior cobertura de saúde, urbanização e melhor infraestrutura de vigilância epidemiológica. 

A distribuição regional observada também sugere que políticas de controle, quando direcionadas de forma insuficiente ou desigual, reforçam a persistência de endemias em determinadas unidades federativas, exigindo estratégias localizadas de prevenção e detecção precoce (SANTOS et al., 2022). 

A análise por sexo demonstrou predominância masculina entre os casos de hanseníase no Brasil, com 56,3% dos registros, enquanto as mulheres representaram 43,7%. Esse achado é compatível com estudos nacionais e internacionais, que indicam maior prevalência em homens, os quais pode estar relacionado a diferenças biológicas na resposta imunológica, exposição ocupacional e padrões de busca por serviços de saúde, uma vez que homens tendem a procurar atendimento médico com menor frequência, o que pode resultar em diagnóstico mais tardio e formas mais graves da doença (SANTOS et al., 2020; KANTOR et al., 2018). 

Quanto à distribuição racial, a maioria dos casos ocorreu em indivíduos pardos (54,74%) e brancos (26,56%), perfazendo mais de 81% do total de notificações. A elevada proporção de casos em pessoas pardas reflete a composição demográfica do país, especialmente nas regiões Norte e Nordeste, e reforça a associação entre hanseníase e vulnerabilidade social, uma vez que grupos com menor acesso à educação, saneamento básico e serviços de saúde apresentam maior risco de infecção e diagnóstico tardio (PEREIRA et al., 2019; SALES et al., 2020). Sendo tal cenário compatível com o mencionado em relação às desigualdades socioeconômicas e regionais. 

Observa-se também que a proporção de casos em pretos (13%) e indígenas (0,44%) é relativamente baixa, possivelmente devido a subnotificação ou barreiras de acesso aos serviços de saúde em populações mais marginalizadas (RODRIGUES et al., 2021). Esses achados sugerem que políticas de vigilância e atenção devem considerar fatores sociodemográficos e culturais, promovendo estratégias direcionadas para grupos específicos, os quais encontram-se em maior vulnerabilidade. 

A análise da classificação operacional dos casos de hanseníase no Brasil revela predominância das formas multibacilares, correspondendo a 69,12% dos registros, enquanto as paucibacilares representaram 30,70%. Esse padrão é consistente com achados da literatura, nos quais. a forma multibacilar costuma predominar em áreas endêmicas, refletindo diagnóstico tardio, maior carga bacilar e maior potencial de transmissão (MONTEIRO et al., 2018; SMITH et al., 2019). 

Ainda nesse contexto, a elevada proporção de casos multibacilares também está associada a fatores socioeconômicos, como desigualdade no acesso aos serviços de saúde, diagnóstico precoce insuficiente e barreiras à detecção ativa de casos (SOUZA et al., 2020). 

Em relação à forma clínica, observou-se maior ocorrência da forma dimorfa (42,28%), seguida pela virchowiana (17,44%), tuberculóide (15,74%) e indeterminada (14,76%). A predominância da forma dimorfa reflete a heterogeneidade da resposta imunológica da população, na qual indivíduos apresentam imunidade intermediária, favorecendo manifestações clínicas mistas e maior possibilidade de progressão para formas mais graves se não tratados adequadamente (ABRAHÃO et al., 2017; GARCIA et al., 2021).

Esses dados indicam novamente que esforços de vigilância e estratégias de detecção precoce devem priorizar o rastreamento de formas multibacilares e dimorfas, visando reduzir a transmissão da doença e prevenir incapacidades físicas. 

A distribuição do número de lesões cutâneas nos casos notificados evidencia que 34,56% dos pacientes apresentavam mais de cinco lesões, 29,38% tinham entre duas e cinco lesões e 24,56% possuíam lesão única, enquanto 11,50% estavam com dados incompletos. Esse perfil confirma a predominância de casos mais extensos, em linha com a alta proporção de formas multibacilares e dimorfas observadas, sugerindo diagnóstico tardio e maior potencial de transmissão (MONTEIRO et al., 2018; SANTOS et al., 2021). 

A análise da baciloscopia mostrou que 19,63% dos casos foram positivos, 24,57% negativos, 25,34% não realizaram o exame e 30,47% apresentaram dados ignorados. O percentual relativamente elevado de exames não realizados ou com registro ignorado aponta para lacunas no acesso ou na realização de exames complementares, que são cruciais para a classificação precisa e monitoramento da carga bacilar (GARCIA et al., 2021; ROMERO et al., 2022). 

A baciloscopia positiva se correlaciona fortemente com a presença de múltiplas lesões e formas multibacilares, reforçando a necessidade de estratégias de detecção precoce e rastreamento sistemático para reduzir a transmissão da hanseníase e prevenir incapacidades físicas permanentes (SOUZA et al., 2020; ABRAHÃO et al., 2017). 

CONCLUSÃO

Portanto, conclui-se que o presente trabalho evidencia que, apesar dos avanços no controle da hanseníase no Brasil, a doença ainda apresenta elevada incidência, especialmente em regiões com vulnerabilidade socioeconômica. A predominância de formas multibacilares e casos com múltiplas lesões destaca a importância do diagnóstico precoce e da realização adequada de exames complementares, como a baciloscopia, para prevenir incapacidades físicas e reduzir a transmissão. Assim, necessita-se de estratégias de vigilância diferenciadas, educação em saúde e acesso equitativo ao diagnóstico e tratamento são essenciais para alcançar a eliminação da hanseníase que ainda hoje atua como problema importante na saúde pública no país. 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ABRAHÃO, A. et al. Clinical forms of leprosy and their immunopathological correlates. Journal of Tropical Medicine, v. 53, n. 4, 2017. 

BRASIL. Ministério da Saúde. Guia de vigilância em saúde: volume único. 3. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2020.

BRASIL. Ministério da Saúde. Estratégia Nacional para Enfrentamento à Hanseníase 2024‑2030. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 

GARCIA, L. F.; et al. Immune response and clinical spectrum of leprosy. Frontiers in Immunology, v. 12, 2021. 

LOPES, F. F.; et al. Spatial distribution of leprosy in the Brazilian Amazon: Implications for public health interventions. Tropical Medicine & International Health, v. 24, n. 3, 2019. 

MONTEIRO, L. et al. Multibacillary leprosy: Epidemiology and challenges in endemic regions. Leprosy Review, v. 89, n. 3, 2018. 

KANTOR, I. et al. Gender disparities in leprosy: Diagnosis, treatment, and outcomes. International Journal of Dermatology, v. 57, n. 9, 2018. 

PEREIRA, R. S.; et al. Social determinants and leprosy: An ecological study in Brazil. Revista Brasileira de Epidemiologia, v. 22, e190050, 2019. 

ROCHA, C. L. et al. Temporal trend of leprosy among the elderly in Brazil, 2001‑2018. Revista Panamericana de Salud Pública, 2021. 

RODRIGUES, L. C.; et al. Leprosy transmission and endemicity in Brazil: Regional disparities. Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, v. 54, 2021. 

ROMERO, C.N. P. et al. Accuracy of rapid point-of-care serological tests for leprosy diagnosis: a systematic review and meta-analysis. Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, v. 117, e220317, 2022. 

SALES, A. M.; et al. Social determinants of leprosy in Brazil: A systematic review. PLoS Neglected Tropical Diseases, v. 14, n. 7, 2020. 

SANTOS, F. A.; SILVA, R. T. Hansen’s disease: immunopathology and clinical manifestations. Journal of Tropical Medicine, v. 45, n. 3, p. 120-130, 2021. 

SANTOS, B. S.; et al. Geographical inequalities in leprosy burden in Brazil: An epidemiological analysis, 2001‑2019. Research, Society and Development, v. 11, n. 6, 2022. 

SANTOS, Bruno de Santana; et al. Epidemiological profile of leprosy in Brazil. Research, Society and Development, v. 13, n. 4, 2024. 

SMITH, W. C. et al. Clinical spectrum and diagnosis of leprosy: Global perspectives. International Journal of Leprosy and Other Mycobacterial Diseases, v. 87, n. 2, 2019. 

SOUZA, A. R.; et al. Socioeconomic factors and multibacillary leprosy: An ecological study in Brazil. PLoS Neglected Tropical Diseases, v. 14, n. 5, 2020.

VIEIRA, R. S.; et al. Multibacillary leprosy by population groups in Brazil: Lessons from an observational study. PLOS Neglected Tropical Diseases, 2017.


1Universidade Nove de Julho São Paulo – SP – email: giovannas_gsa@hotmail.com. Autora principal.

2Universidade paranaense unipar – Umuarama – PR – email: glugnanilopes@gmail.com

3Graduada em medicina pela universidade São Francisco – Bragança Paulista – Sp – email: mariana.demauro@gmail.com

4Universidade São Judas Tadeu – email: marianalopeshquintana@gmail.com

5Universidade Prof. Edson Antônio Velano – Alfenas – MG – email: mariafmendesm@gmail.com