CLINICAL EVALUATION OF ORAL HEALTH STATUS IN CARDIAC PATIENTS AT RISK OF INFECTIVE ENDOCARDITIS
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202512140610
Carlos Alberto Mendes Soares Júnior; Danila Lorena Nunes dos Santos; Raquel Coelho Netto da Costa; Telcilene Martins Feitosa Lopes; Franklin Monteiro de Sousa; Jonatha Matheus Mendes Moreira; Vitória Lourdes Galvão Frota; Enya Laissah Freire Ribeiro; Quiarele da Silva Soares
Resumo
De acordo com a literatura científica, pessoas com determinadas cardiopatias são mais suscetíveis ao desenvolvimento da endocardite infecciosa, cuja característica é a infecção do endocárdio e estruturas correlatas por patógenos provenientes de uma bacteremia transitória que pode advir principalmente da cavidade bucal a partir de infecções odontogênicas. Dessa forma, a análise das condições de saúde bucal de pacientes cardiopatas submetidos a tratamento odontológico é importante para conhecimento da situação de risco à endocardite infecciosa destes pacientes. O objetivo desse estudo foi avaliar a condição de saúde bucal de pacientes cardiopatas atendidos no ambulatório odontológico de um hospital de alta complexidade referência ao Sistema Único de Saúde- SUS do estado do Maranhão e identificar as principais alterações bucais dos pacientes cardiopatas atendidos e caracterizamos o perfil sociodemográfico destes pacientes. Este é um estudo quantitativo, observacional e transversal. Foi realizado no ambulatório de odontologia do Hospital Universitário Presidente Dutra (HUPD). Teve como amostra e critério de inclusão pacientes cardiopatas com idade igual e superior a 18 anos de ambos os sexos, que necessitassem de avaliação odontológica e teve como critério de exclusão pacientes menores de 18 anos e que se recusassem a participar da pesquisa. A participação do paciente ocorreu após aplicação do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Os dados necessários para o estudo foram coletados através de informações presentes em prontuários clínicos, aplicação de questionário e exame clínico odontológico. Os resultados obtidos permitiram caracterizar o perfil de saúde bucal da amostra de pacientes cardiopatas avaliados, bem como investigar possíveis associações entre hábitos de vida, escolaridade e achados clínicos.
Palavras-chave: Assistência odontológica. Endocardite bacteriana. Saúde bucal.
1 INTRODUÇÃO
A endocardite infecciosa caracteriza-se por infecção da superfície endocárdica, válvulas cardíacas e regiões adjacentes portadoras de anormalidades predisponentes, provocada por vírus, fungos e principalmente bactérias advindas de uma bacteremia transitória que pode ser gerada por procedimentos invasivos dentre os quais cirurgias odontológicas. Durante as últimas décadas estudos sugerem que as características da endocardite mudaram tanto no seu componente microbiológico como no perfil demográfico (ARANGO et al., 2021).
O endotélio valvar normal é resistente à colonização por bactérias, assim cerca de 70% das endocardites infecciosas acometem pessoas com doenças cardíacas prévias, sendo a causa mais comum o turbilhonamento sanguíneo que ocorre em valvas previamente lesadas (ACCORSI, 2016), ou seja, geralmente há desenvolvimento da endocardite infecciosa em pacientes com defeitos cardíacos estruturais onde existem fatores que facilitam a colonização bacteriana e o consequentemente desenvolvimento de uma infecção focal diante de uma bacteremia. Entretanto, esta enfermidade pode se desenvolver mesmo em pacientes sem qualquer defeito cardíaco (DAJANI, 1997).
Trata-se de uma doença com incidência anual variando de 1,5 a 15 casos por 100.000 habitantes e embora relativamente infrequente, apresenta alta taxa de mortalidade, variando de 20 a 25%, uma vez que mais de um terço dos pacientes falecem no primeiro ano após o diagnóstico (MELO, 2021) e incide globalmente em uma proporção de dois homens para cada mulher, já sendo possível inferir que a média de idade dos pacientes aumentou gradualmente (ZIPES, 2013).
Observou-se um risco 4,6 maior de endocardite infecciosa em pacientes idosos, principalmente aqueles que apresentam comorbidades prévias, como diabetes (20%), insuficiência renal crônica (14%) e anemia (10%), corroborando com Holland et al. (2016) que relata que a incidência de endocardite infecciosa por idade aumentou de 5 casos por 100.000 pessoas/ano entre indivíduos com menos de 50 anos de idade para 15 a 30 casos por 100.000 pessoas/ano entre indivíduos com 60 a 80 anos. Desse modo, a Endocardite Infecciosa pode ocorrer em qualquer idade. A incidência da infecção e a mortalidade aumentam à medida que a idade aumenta (ARMSTRONG G. P., 2022).
A associação entre infecções bucais e doenças sistêmicas tem sido demonstrada, correlacionando a doença periodontal com a disseminação de microrganismos patogênicos especialmente em indivíduos com comprometimento sistêmico (VIEIRA et al., 2015). Estima-se que, aproximadamente, 10% a 20% dos casos de endocardite infecciosa estejam associados a focos infecciosos de origem bucal (ARAUJO et al., 2015).
Desta forma, as intervenções odontológicas constituem uma das causas principais de bacteremia transitória, podendo resultar em endocardite bacteriana. Os riscos de uma bacteremia de origem bucal dependem da extensão do trauma aos tecidos moles (risco de sangramento) e o grau de inflamação local preexistente. Esta situação pode ser observada após exodontia, gengivectomia, raspagem periodontal, profilaxia, escovação e manipulação endodôntica (TEIXEIRA et al., 2008).
Ademais, a má higienização bucal e as infecções orais podem causar bacteremias transitórias mesmo que não sejam realizados procedimentos odontológicos. A ocorrência e a severidade destas bacteremias, em geral, são diretamente proporcionais ao nível de inflamação ou infecção dos tecidos orais. Indivíduos considerados de risco para desenvolver endocardite infecciosa têm que ser orientados a obter e manter a melhor qualidade de saúde bucal possível, reduzindo dessa forma, fontes de colonização e crescimento bacteriano (IVERSEN KH. et al., 2020).
Neste ínterim, o conhecimento da correlação entre as doenças bucais e a endocardite infecciosa deve ser entendido pelo cirurgião-dentista para que assim possa identificar os pacientes com risco de desenvolver esta doença e tratar com medidas profiláticas necessárias tais como antibioticoterapia preventiva, tratamento de infecções periodontais e visitas regulares ao profissional para manutenção da saúde bucal (CANGUSSU et al., 2015).
Assim, a existência de focos infecciosos dentários constitui um perigo potencial para o corpo humano, pois podem tornar-se fonte de doenças sistêmicas graves que envolvem o coração, articulações, rins e outros órgãos, e sendo a cavidade oral o ponto de entrada mais comum, principalmente em pessoas com mais de 50 anos, torna-se importante avaliar as condições de saúde bucal do paciente cardiopata (PIZZO et al., 2010).
Diante disso, se faz necessário identificar clinicamente os pacientes cardiopatas, avaliar a presença de fontes de infecção bucal e o risco de desenvolvimento da endocardite infecciosa na comunidade atendida em um hospital de alta complexidade.
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA OU REVISÃO DA LITERATURA
2.1 Definição e Epidemiologia
De acordo com RIBEIRO et al. (2009) a Endocardite Infecciosa (E.I.) é uma infecção microbiana do endotélio cardíaco podendo também se estender a valvas cardíacas nativas ou protéticas, septos e, portanto, em qualquer estrutura cardíaca. Dentre os microrganismos envolvidos nesta doença estão as bactérias, fungos, micobactérias, rickettsias, clamídias e micoplasmas. Entretanto, as espécies de bactérias estreptococos, estafilococos e enterococos gram negativos são os principais agentes etiológicos.
Segundo BIGNOTO (2023) a endocardite infecciosa é uma doença rara, mas com elevada taxa de complicações graves e que muitas vezes pode ser vista como uma síndrome. Para FERNANDEZ (2018) sua ocorrência é mais comum em homens com 1,6 a 2,5 mais casos do que em mulheres, em usuários de drogas injetáveis e em indivíduos com doenças cardíacas estruturais como febre reumática, cardiopatia congênita entre outras. Possui uma mortalidade de até 25% e sua incidência anual é de 3 a 10 casos/100.000 habitantes. De acordo com OTTO et al. (2021), a taxa de mortalidade intra-hospitalar da endocardite infecciosa é de 15 a 20% e a taxa de mortalidade em um ano aproximando-se de 40%.
2.2 Endocardite Infecciosa e Odontologia
Nesta perspectiva, as infecções bucais, como cárie dentária, abscessos dentais e periodontais, periodontites, pericoronarites, periimplantites impactam negativamente a saúde sistêmica do paciente hospitalizado, sendo assim explicada a associação de infecções bucais com a endocardite infecciosa (MOUGEOT et al., 2015).
Os micro-organismos que infectam o endocárdio podem ser oriundos de sítios infectados distantes, como a cavidade bucal. Estes micro-organismos variam em função da fonte da bacteremia e dos fatores de risco do hospedeiro, mas na maioria dos casos relacionam-se os gêneros Streptococus e Staphylococus. Como minoria tem-se os Enterococus, organismos HACEK (haemophylus sp, Actinobacilus actinomycetemcomitans, Cardiobactterium hominis, Eikenella corrodens, E.kingella kingae) e fungos (ARMSTRONG G.P., 2022).
Bactérias pertencentes à microflora oral como estreptococos viridans, em situação de bacteremia podem infectar trombos e gerarem processos obstrutivos culminando com Insuficiência cardíaca congestiva (BOSSARDI, 2019).
Segundo TARASOUTCHI et al. (2020), 50% dos casos de endocardite infecciosa em pacientes com doenças valvares no Brasil tem como causa principal os estreptococos, demonstrando-se a ocorrência de bacteremia pelos estreptococos do grupo viridans em até 61% dos pacientes após extração dentária e cirurgia periodontal (36% a 88%).
Com base nesta possível associação entre bacteremias induzidas por sítios bucais e endocardite infecciosa, a American Heart Association (AHA) publicou recomendações para profilaxia antibiótica como primeiro meio de prevenção desta enfermidade para os pacientes de risco e que seriam submetidos a tratamento odontológico (NISHIMURA et al., 2014).
Assim, a American Heart Association classifica os pacientes em níveis de risco para endocardite infecciosa, onde temos os pacientes com alto risco, com risco moderado e com risco insignificante. Pacientes com alto risco de endocardite infecciosa: com prótese cardíaca valvar, valvopatia corrigida com material protético, cardiopatia congênita cianótica não corrigida, cardiopatia congênita corrigida com material protético, cardiopatia congênita corrigida com lesão tecidual, valvopatia em transplantado cardíaco. Pacientes com risco moderado: valva aórtica bicúspide, valvopatia reumática, valvopatia não-reumática, prolapso da valva mitral. Pacientes com risco insignificante ou incerto: cardiomiopatia hipertrófica, dispositivo de assistência ventricular, dispositivo elétrico implantável (marcapasso) (ZEGRI REIRIZ et al., 2018).
De acordo com a American Heart Association, os pacientes que apresentam risco de adquirir endocardite infecciosa grave são os portadores de válvulas cardíacas protéticas, de doenças cardíacas congênitas, de valvulopatia adquirida por transplante e pacientes com antecedente de endocardite infecciosa (PINHEIRO et al, 2020).
As diretrizes nacionais e internacionais recomendam também a manutenção da saúde e higiene bucal, como segundo meio de prevenir a endocardite infecciosa, podendo reduzir a incidência de bacteremia advindas das atividades diárias, a qual seria mais importante que os antibióticos profiláticos para a redução da endocardite infecciosa resultante de procedimentos odontológicos (NISHIMURA et al., 2014).
O protocolo de profilaxia da endocardite infecciosa recomendado pela American Heart Association se dá por meio da administração de 2 gramas de amoxicilina para pacientes adultos e 50 mg/ kg para crianças, em dose única, por via oral, 1 hora antes do procedimento odontológico em pacientes que não possuem contraindicações a este medicamento (PINHEIRO et al.,2020). No caso das crianças com alergia a penicilinas, é indicada a Azitromicina, na dosagem de 15 mg/kg de peso corporal. Em pacientes incapazes de fazer uso da medicação por via oral, é recomendado o uso de ampicilina 2 gramas (crianças: 50 mg/kg), por via intramuscular ou intravenosa, 30 minutos antes do procedimento. É fundamental que esse intervalo de tempo entre a administração do antibiótico e a intervenção odontológica seja respeitado para que ocorra a absorção e distribuição farmacológica, de modo que o antimicrobiano esteja em alta concentração sérica durante a exposição do paciente (JESUS et al.,2023).
A causa mais frequente de infecção odontológica é a necrose pulpar proveniente da cárie dentária ou da doença periodontal (FONSECA et al., 2020). Recentemente tem se notado que há bacteremias espontâneas, de origem dentária e gengival, em situações do dia-a-dia como escovação de dentes (0 a 50%), uso de fio dental (20% a 68%), uso de palito de dentes e mastigação de refeição (7% a 51%) (TARASOUTCHI, 2020).
Devemos ressaltar que muitas das afecções odontológicas que mais causam endocardite infecciosa são oligossintomáticas, como a gengivite e lesões periapicais endodônticas (TARASOUTCHI, 2020).
Desta forma, se faz necessário na prática odontológica, o conhecimento do desenvolvimento das doenças sistêmicas e suas implicações no tratamento e no ambiente bucal. Por conseguinte, a avaliação odontológica dos pacientes depende de um detalhado histórico e de consulta ao médico do paciente. Esta avaliação de forma integrada já é consenso na área odontológica, principalmente diante da incidência crescente de doenças crônicas na população. Os objetivos principais da anamnese são detectar problemas, avaliar o paciente quanto ao seu estado de saúde geral e verificar quais são os fatores de risco associados ao comprometimento cardiovascular existente (PINHEIRO et al., 2020).
3 METODOLOGIA
Trata-se de um estudo observacional, de caráter descritivo e analítico, realizado nos ambulatórios de odontologia do Hospital Universitário da Universidade Federal do Maranhão (HU-UFMA), em São Luís, Maranhão, Brasil. A pesquisa foi conduzida com pacientes maiores de 18 anos, de ambos os gêneros, portadores de cardiopatias e que apresentavam condições predisponentes à endocardite infecciosa, atendidos entre novembro de 2024 e dezembro de 2025. No total, 30 pacientes atenderam aos critérios de inclusão e compuseram a amostra final do estudo. A participação foi voluntária mediante assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), em conformidade com a resolução 466/12 do conselho nacional de saúde, assegurando confidencialidade e permitindo o desligamento a qualquer momento.
Os dados foram coletados por meio de anamnese, exame clínico odontológico e consulta ao prontuário médico. As informações registradas incluíram idade, gênero, presença de comorbidades (como diabetes mellitus, hipertensão arterial sistêmica, infarto agudo do miocárdio, alterações valvares, febre reumática, insuficiência renal crônica, entre outras), histórico de tabagismo, etilismo e eventuais cirurgias cardíacas prévias. O exame odontológico abrangeu avaliação intra e extra oral, com ênfase na identificação de focos infecciosos, tais como lesões cariosas, alterações periodontais e periapicais, mobilidade dental, lesões de mucosa e lesões intra ósseas. Também foi avaliada a condição e higiene de próteses fixas ou removíveis, além da palpação de linfonodos submentonianos e submandibulares. Exames radiográficos complementares foram realizados quando necessários, de acordo com o julgamento clínico.
Foram excluídos aqueles que se recusaram a participar do estudo. Os principais riscos estiveram relacionados à quebra de sigilo e eventual desconforto durante a coleta das informações sociodemográficas; tais riscos foram minimizados por meio da anonimização dos dados e da garantia de privacidade durante as entrevistas. Como benefício, espera-se que os resultados contribuam para o aprimoramento do manejo clínico e prevenção de endocardite infecciosa em pacientes cardiopatas.
Os dados foram organizados em planilhas do microsoft excel e apresentados em tabelas. Para a caracterização da amostra, utilizaram-se frequências absolutas e relativas para variáveis qualitativas e médias e desvios padrão para variáveis quantitativas. As análises inferenciais de associação foram conduzidas pelo teste qui-quadrado de pearson ou pelo teste exato de fisher, quando apropriado. O nível de significância adotado foi de p ≤ 0,05.
4 RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS
Os resultados obtidos permitiram caracterizar o perfil de saúde bucal da amostra de pacientes cardiopatas avaliados, bem como investigar possíveis associações entre hábitos de vida, escolaridade e achados clínicos. Todas as análises foram realizadas com nível de significância de p ≤ 0,05, utilizando o teste qui-quadrado de pearson ou o teste exato de fisher quando apropriado.
Foram avaliados um total de 30 pacientes onde 46% eram do sexo feminino e 54% do sexo masculino. Vale ressaltar que 24% não possuíam o ensino fundamental completo, apenas 8% tinham o ensino fundamental completo, 56% tinham o ensino médio completo e 12% possuíam o ensino superior completo.
Outro indicador que foi possível identificar foi se os pacientes tinham ou se já tiveram o hábito de fumar ou consumir bebidas alcoólicas. Foi possível verificar que 46% eram ex tabagistas, 43% eram ex etilistas, 3% ainda consumiam bebidas alcoólicas e nenhum paciente mantinha ainda o hábito de fumar.
Através da avaliação odontológica podemos avaliar a condição bucal destes, onde 36% deles tinham presença de cárie, 50% possuíam algum dente que necessitava de exodontia, estes pacientes também detinham uma média de 17 dentes hígidos, uma média de 9 dentes ausentes por paciente e somente 12 pacientes possuíam restaurações dentárias.
4.1 Associação entre tabagismo e condição de cárie
Ao analisar a relação entre histórico de tabagismo e a presença de cárie dentária com indicação de restauração, observou-se que 6 ex-tabagistas e 5 não ex-tabagistas apresentavam cárie, enquanto 8 ex-tabagistas e 11 não ex-tabagistas não apresentavam a alteração. Não foi identificada associação estatisticamente significativa entre as variáveis (p = 0,7807).
| PACIENTES PORTADORES DE CÁRIE DENTÁRIA COM INDICAÇÃO DE RESTAURAÇÃO | ||
| EX TABAGISTA | NÃO EX TABAGISTA | |
| COM CÁRIE | 6 | 5 |
| SEM CÁRIE | 8 | 11 |
| P = | 0.7807 | |
*Teste qui-quadrado
4.2 Associação entre tabagismo e necessidade de exodontia
Quanto à indicação de exodontia, 8 ex-tabagistas e 7 não ex-tabagistas necessitavam de exo, enquanto 6 ex-tabagistas e 9 não ex-tabagistas não apresentavam essa necessidade. Novamente, não foi observada associação significativa (p = 0,7144).
| PACIENTES PORTADORES DE DENTES COM INDICAÇÃO DE EXODONTIA | ||
| EX TABAGISTA | NÃO EX TABAGISTA | |
| INDICAÇÃO DE EXODONTIA | 8 | 7 |
| SEM INDICAÇÃO DE EXODONTIA | 6 | 9 |
| P = | 0.7144 | |
*Teste qui-quadrado
4.3 Associação entre etilismo e condição de cárie
Na avaliação entre ex-etilismo e presença de cárie, encontraram-se resultados idênticos aos do tabagismo: 6 ex-etilistas e 5 não ex-etilistas apresentaram cárie, enquanto 8 ex-etilistas e 11 não ex-etilistas não apresentaram a alteração. A associação não foi estatisticamente significativa (p = 0,7807).
| PACIENTES PORTADORES DE CÁRIE DENTÁRIA COM INDICAÇÃO DE RESTAURAÇÃO | ||
| EX ETILISTA | NÃO EX ETILISTA | |
| COM CÁRIE | 6 | 5 |
| SEM CÁRIE | 8 | 11 |
| P = | 0.7807 | |
*Teste qui-quadrado
4.4 Associação entre etilismo e indicação de exodontia
Da mesma forma, a necessidade de exodontia não se associou ao ex-etilismo: 6 ex etilistas e 9 não ex-etilistas necessitavam de exo, enquanto 8 ex-etilistas e 7 não ex-etilistas não apresentavam essa indicação. O resultado não foi significativo (p = 0,7144).
| PACIENTES PORTADORES DE DENTES COM INDICAÇÃO DE EXODONTIA | ||
| EX ETILISTA | NÃO EX ETILISTA | |
| INDICAÇÃO DE EXODONTIA | 6 | 9 |
| SEM INDICAÇÃO DE EXODONTIA | 8 | 7 |
| P = | 0.7144 | |
*Teste qui-quadrado
4.5 Associação entre escolaridade e condição de cárie
Ao analisar a relação entre escolaridade (ensino médio completo ou não) e presença de cárie, observou-se que 5 indivíduos com ensino médio e 4 sem ensino médio apresentavam cárie, enquanto 12 com ensino médio e 4 sem ensino médio não apresentavam a alteração. Não foi encontrada associação significativa (p = 0,3942).
| PACIENTES PORTADORES DE CÁRIE DENTÁRIA COM INDICAÇÃO DE RESTAURAÇÃO | ||
| COM ENSINO MÉDIO | SEM ENSINO MÉDIO | |
| COM CÁRIE | 5 | 4 |
| SEM CÁRIE | 12 | 4 |
| P = | 0.3942 | |
*Teste Exato de Fisher
4.6 Associação entre escolaridade e indicação de exodontia
Em relação à necessidade de exodontia, 6 pacientes com ensino médio e 4 sem ensino médio necessitavam de exo, enquanto 11 com ensino médio e 4 sem ensino médio não necessitavam. Não houve associação estatisticamente significativa (p = 0,7144).
| PACIENTES PORTADORES DE DENTES COM INDICAÇÃO DE EXODONTIA | ||
| COM ENSINO MÉDIO | SEM ENSINO MÉDIO | |
| INDICAÇÃO DE EXODONTIA | 6 | 4 |
| SEM INDICAÇÃO DE EXODONTIA | 11 | 4 |
| P = | 0.7144 | |
*Teste Exato de Fisher
4.7 Caracterização das doenças e comorbidades dos pacientes
A amostra foi composta por diversas formas de doenças cardiovasculares e comorbidades associadas, dos 30 pacientes somente foi possível verificar a doença e comorbidade de 28 pacientes. Entre as condições mais frequentes estão a doença arterial coronariana (DAC), insuficiências valvares (IV, IM, IA), hipertensão arterial sistêmica (HAS) e diabetes mellitus (DM). Também foram observados casos de cardite reumática, febre reumática, doenças renais e intercorrências metabólicas.
Esse perfil clínico evidencia o alto grau de complexidade sistêmica dos pacientes e a possível contribuição dessas condições para o risco de endocardite infecciosa.
PACIENTES DOENÇAS E COMORBIDADES
| 1 | DAC |
| 2 | ICFER |
| 3 | DAC, HAS e G |
| 4 | MH e IAM |
| 5 | IC |
| 6 | DAC e DM |
| 7 | ICC |
| 8 | IV |
| 9 | IV e FR |
| 10 | CC e EP |
| 11 | DAC, HAS, MI e DRC |
| 12 | IV |
| 13 | DAC |
| 14 | DAC |
| 15 | IA |
| 16 | DAC |
| 17 | IV, HAS, DM e FR |
| 18 | DAC e HAS |
| 19 | IM e EM |
| 20 | CR e IM |
| 21 | IM, HAS, FR e EH |
| 22 | IA, AA e HAS |
| 23 | IM |
| 24 | IAM e HAS |
| 25 | IV |
| 26 | IM, HAS e DM |
| 27 | IM e HAS |
| 28 | IM |
Legendas:
| DAC: Doença Arterial Coronariana | CC: Cardiopatia Congênita |
| ICFER: Insuficiência Cardíaca com Fração de Ejeção Reduzida | EP: Esteatose Pulmonar |
| HAS: Hipertensão Arterial Sistêmica | MI: Miocardiopatia Isquêmica |
| G: Glauc | DRC: Doença Renal Crônica |
| MH: Miocardiopatia Hipertrófica | EM: Esteatose Mitra |
| IAM: Insuficiência Aórtica e Mitral | IM: Insuficiência Mitral |
| IC: Insuficiência Cardíaca | CR: Cardite Reumática |
| DM: Diabetes Mellitus | EH: Esteatose Hepática |
| ICC: Insuficiência Cardíaca Congênita | IA: Insuficiência Aórtica |
| IV: Insuficiência Valvar | AA: Aneurisma de Aorta |
| FR: Febre Reumática |
5 CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente estudo permitiu avaliar a condição de saúde bucal de 30 pacientes cardiopatas com potencial risco para endocardite infecciosa, destacando a importância da assistência odontológica integrada a esses indivíduos. Os resultados mostraram um perfil clínico marcado por diversas comorbidades cardiovasculares, associadas a achados odontológicos significativos, como alta prevalência de cárie, necessidade de exodontia e perdas dentárias. Essa realidade reforça o impacto que a saúde bucal pode exercer na geração de bacteremias e, consequentemente, no risco de endocardite.
As análises de associação entre tabagismo, etilismo, escolaridade e as alterações dentárias não apresentaram significância estatística, o que sugere que os danos observados parecem resultar de componentes multifatoriais e não apenas dos hábitos isolados investigados. Ainda assim, a ocorrência de focos infecciosos na amostra reforça a necessidade de monitoramento odontológico frequente, educação em saúde e intervenções precoces, especialmente em populações de alto risco.
Dessa forma, torna-se evidente que a promoção da saúde bucal em pacientes cardiopatas deve ser considerada componente essencial na prevenção da endocardite infecciosa. O estudo contribui para o reconhecimento da importância do cirurgião-dentista na equipe multiprofissional, destacando que o manejo adequado dos focos infecciosos orais pode reduzir complicações sistêmicas e melhorar a qualidade de vida destes pacientes. Recomenda-se a realização de ações educativas, seguimento odontológico regular e adoção de protocolos de prevenção baseados nas diretrizes atuais.
REFERÊNCIAS
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