ATUAÇÃO DOS PROFISSIONAIS DE PSICOLOGIA NO ATENDIMENTO A PESSOAS EM SITUAÇÃO DE VIOLÊNCIA NO CONTEXTO HOSPITALAR: UMA REVISÃO INTEGRATIVA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202511110621


Alice Silva Magalhães1
 Stéfhane Santana Da Silva2


Resumo

A violência constitui um problema relevante de saúde pública, com impactos expressivos na vida das pessoas e na sociedade em geral, podendo ocorrer de forma interpessoal, como violência física, psicológica, sexual, financeira, negligência, tortura e tráfico de pessoas, ou autoprovocadas, incluindo automutilação e tentativa de suicídio. Este trabalho realizou uma revisão bibliográfica integrativa da literatura com o objetivo de compreender as práticas desenvolvidas pelos profissionais psicólogos, os desafios enfrentados e as contribuições dessas intervenções para o fortalecimento psicológico das vítimas de violência no contexto hospitalar. A pesquisa de abordagem qualitativa e descritiva, buscou artigos publicados nas bases de dados Scielo, Google Acadêmico e BVS-Saúde. Os resultados demonstram que a atuação do psicólogo é essencial no contexto de urgência, sendo marcada pela intervenção em crise e pelo acolhimento humanizado, buscando o resgate da autonomia e da subjetividade das pessoas em situação de violência. As práticas incluem plantões psicológicos, grupos e atendimento interdisciplinar. No entanto, os principais desafios identificados estão as barreiras estruturais, como a baixa notificação de casos e a desarticulação da rede de atenção intersetorial, o que resulta em alto índice de abandono do acompanhamento após a alta hospitalar. Conclui-se que, apesar da relevância da intervenção inicial para a saúde mental, a plena efetividade do trabalho do psicólogo depende do fortalecimento das políticas púbicas e da coesão da rede de proteção, garantindo a continuidade do cuidado para além do hospital.

Palavras-chave: Psicologia hospitalar. Atuação do Psicólogo. Violências. Cuidado em saúde mental.

Abstract

Violence constitutes a significant public health problem, with substantial impacts on people’s lives and society in general. It can occur interpersonally, such as physical, psychological, sexual, financial violence, neglect, torture, and human trafficking, or self-inflicted, including self-harm and suicide attempts. This study conducted an integrative literature review to understand the practices developed by psychologists, the challenges faced, and the contributions of these interventions to the psychological strengthening of victims of violence in the hospital setting. The qualitative and descriptive research searched articles published in the Scielo, Google Scholar, and BVS-Saúde databases. The results demonstrate that the psychologist’s role is essential in emergency situations, characterized by crisis intervention and humanized care, seeking to restore the autonomy and subjectivity of people experiencing violence. Practices include psychological support services, group sessions, and interdisciplinary care. However, the main challenges identified are structural barriers, such as low case reporting and the lack of coordination in the intersectoral care network, resulting in a high rate of abandonment of follow-up after hospital discharge. It is concluded that, despite the relevance of initial intervention for mental health, the full effectiveness of the psychologist’s work depends on strengthening public policies and the cohesion of the protection network, ensuring continuity of care beyond the hospital. 

Keywords: Hospital psychology. Psychologists’ role. Violence. Mental health care.

1. INTRODUÇÃO 

A violência constitui um problema relevante de saúde pública, sendo estudada desde a década de 1970, com impactos expressivos na vida das pessoas e na sociedade em geral (Bueno, Souza, Poltronieri, 2024). Conforme a Organização Mundial da Saúde, trata-se do uso intencional da força ou do poder, real ou em ameaça, que pode resultar em lesão, dano psicológico, deficiência ou privação (OMS, 2002). Esse fenômeno apresenta diferentes tipificações e demanda atenção em diversas áreas, evidenciando a complexidade de sua abordagem (Brasil, 2016).

As formas de violência podem ser interpessoais, como violência física, psicológica, sexual, financeira, negligência, tortura e tráfico de pessoas, ou autoprovocadas, incluindo automutilação e tentativa de suicídio (OMS, 2002). Tais violências são notificadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e registradas em instrumentos padronizados, como a Ficha de Notificação Individual (Brasil, 2016). O acompanhamento das ocorrências possibilita a análise de tendências, permitindo a implementação de políticas públicas de prevenção e proteção às vítimas (Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2024). 

Nesse sentido, é importante observar que no cenário regional, o Tocantins registrou em 2023 uma taxa de 2,4 feminicídios por 100 mil mulheres, colocando o estado em 4º lugar, com um dos maiores índices desse crime. E ainda houve aumento de 13,5% nas lesões corporais contra mulheres, passando de 1.984 em 2022 para 2.252 em 2023 (Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2024). Tais dados evidenciam também a intersecção com as questões de gênero que estruturalmente também formaram a base para a construção da sociedade brasileira, demonstrando os efeitos das relações de poder e violência contra a vida das mulheres.

 No que se refere a capital do estado, vale ressaltar que de acordo com o estudo realizado no município de Palmas, contabilizou-se um número de 779 casos de violência interpessoal notificados no ano de 2022 (Oliveira et. Al, 2023). E com base no Boletim Epidemiológico observa-se um número absoluto de notificações de violência autoprovocada, por Território de Saúde do município de Palmas/TO, no ano de 2022, contabilizando 451 casos no total. Como também, os dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) ressaltam, que no primeiro quadrimestre de 2023, foram notificados 607 casos de violência interpessoal e autoprovocada em Palmas/TO, com aumento de 30% com relação ao ano de 2022 (PALMAS, 2023).

Diante disso, a pesquisa se propõe a responder a seguinte questão norteadora: como ocorre a atuação dos profissionais de psicologia no atendimento as pessoas em situação de violência no ambiente hospitalar? E considerando a literatura científica é possível perceber que a intervenção desses profissionais contribui significativamente para o fortalecimento psicológico das vítimas.

Assim, o objetivo geral da pesquisa consiste em compreender as práticas desenvolvidas pelos psicólogos no atendimento a vítimas em situação de violência no contexto hospitalar. Como objetivos específicos propõe-se: identificar as estratégias utilizadas pelos profissionais; analisar as dificuldades enfrentadas no atendimento; e compreender a relação entre os impactos das intervenções psicológicas e a saúde mental das vítimas. 

A pesquisa adota a metodologia da revisão bibliográfica integrativa, com caráter qualitativo e descritivo, permitindo a sistematização de informações provenientes de artigos científicos, livros e documentos oficiais (Galvão; Sawada, 2015). O objeto de análise são os estudos sobre atuação de psicólogos em contextos hospitalares voltados a vítimas de violência. O procedimento envolve busca, seleção, análise e síntese dos dados disponíveis, garantindo rigor científico e coerência teórica.

Diante do que foi exposto, observa-se a importância de desenvolver investigações que consideram o respaldo nos dados oficiais e em estudos recentes, que evidenciam o aumento da violência interpessoal no Brasil e a necessidade de suporte especializado às vítimas. Esta pesquisa, portanto, demonstra uma relevância acadêmica, científica e social, uma vez que encontra em dados da realidade a justificativa para a sua execução, relacionando-se com questões sociais complexas que precisam ser debatidas em diversos espaços, tanto na academia, como nos serviços onde os profissionais atuam e na sociedade de forma geral. Com isso, a relevância do estudo se fundamenta na possibilidade de contribuir para o aprimoramento da atuação profissional e para a proteção e recuperação das pessoas atendidas (Santi, Nakano, Viana, 2010).

2. METODOLOGIA

A pesquisa foi desenvolvida com base na abordagem qualitativa, descritiva, utilizando-se do método de revisão bibliográfica integrativa. O estudo foi orientado pelo objetivo geral de compreender a atuação dos profissionais de psicologia no atendimento a pessoas em situação de violência no ambiente hospitalar.

Diante disso, a revisão integrativa da literatura auxilia o pesquisador a se aproximar do problema que deseja estudar, oferecendo uma visão geral da produção científica sobre o tema, o que permite entender como o assunto evoluiu ao longo do tempo e identificar novas possibilidades de pesquisa (Botelho; Cunha; Macedo, 2011).

Segundo Gil (2002), esse tipo de pesquisa permite identificar, analisar e sintetizar resultados de estudos previamente publicados, fornecendo suporte teórico e científico para compreender as práticas profissionais, seus desafios e contribuições. A revisão de literatura possibilitou, portanto, construir uma base sólida para responder à questão norteadora da pesquisa.

A opção por uma pesquisa qualitativa e descritiva foi justificada pela necessidade de compreender os significados atribuídos pelos profissionais às práticas realizadas no contexto hospitalar. A pesquisa qualitativa, segundo Minayo (2010), objetiva compreender os significados que as pessoas atribuem aos fenômenos com os quais estão em contato, levando em consideração suas perspectivas e contextos, além de analisar a dinâmica social, cultural e histórica que os envolve. Dessa forma, a metodologia adotada possibilitou observar de forma detalhada as estratégias e intervenções psicológicas empregadas junto a pessoas em situação de violência.

Com isso, a pesquisa seguiu as seis etapas descritas por Botelho, Cunha e Macedo (2011): identificação do tema e da questão de pesquisa; estabelecimento de critérios para inclusão e exclusão de estudos; definição das informações a serem extraídas dos artigos selecionados; categorização dos estudos incluídos; interpretação dos resultados; e apresentação da síntese do conhecimento.

A coleta de dados foi realizada por meio de pesquisa em bases de dados, utilizando-se SciELO, Google Acadêmico e BVS-Saúde. A busca foi realizada a partir de descritores específicos, combinados com operadores booleanos. Os descritores utilizados foram: (atendimento psicológico AND violência); (intervenção psicológica AND hospital); (Psicologia Hospitalar AND vítimas de violências).

Os critérios de inclusão abrangeram publicações que abordassem diretamente a atuação de psicólogos em contextos hospitalares com vítimas de violência, disponíveis na íntegra e publicados dentro do período de 15 anos. Como critérios de exclusão, foram desconsiderados artigos escritos em idioma diferente do português; relatos de experiência sem embasamento científico; e artigos duplicados em diferentes bases de dados.

As referências encontradas foram selecionadas em duas etapas: triagem de títulos e resumos e posterior leitura integral dos textos elegíveis, visando a extração dos dados, o que foi facilitado pela elaboração de uma matriz de síntese, contemplando título, autores, ano, objetivo, metodologia, principais resultados e contribuições de cada estudo.

Nesse sentido, a análise de dados é o processo de sistematizar e interpretar as informações coletadas, com o objetivo de extrair significados, identificar padrões, e responder às perguntas de pesquisa. Essa etapa é crítica em estudos qualitativos, pois possibilita ao pesquisador entender a realidade investigada atribuindo sentido aos dados coletados (Vigorena; Battisti, 2011). Assim, com base na interpretação e síntese dos resultados, os dados evidenciados na análise dos artigos são comparados ao referencial teórico, identificando possíveis lacunas do conhecimento e prioridades para estudos futuros (Souza; Silva; Carvalho, 2010).

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

Inicialmente foram pré-selecionados 25 artigos, após a leitura dos resumos selecionou-se 13 artigos para compor a matriz de síntese e serem analisados. A análise dos 13 artigos selecionados demonstra a importância da atuação dos psicólogos a pessoas em situação de violências no contexto hospitalar, como também os desafios e fragilidades desta atuação.

A atuação dos profissionais de psicologia no atendimento a pessoas em situação de violência no ambiente hospitalar configura-se como um elemento primordial e complexo na promoção da saúde mental, conforme demonstrado pela revisão integrativa da literatura. O perfil das vítimas majoritariamente aponta para mulheres jovens, no contexto da violência por parceiro íntimo (Fonseca, 2021; Lawrenz et al., 2018), mas também inclui adolescentes do sexo masculino, em situações de violência comunitária (Silva; Silva; Marinho, 2019). Essa diversidade de cenários e o reconhecimento de que a violência é um fenômeno complexo e relacional (Pires; Miyasaki, 2005) impõem ao psicólogo a responsabilidade de ir além da lesão física, buscando a compreensão integral da situação e o resgate da subjetividade da vítima (Monteiro, 2012).

A intervenção psicológica imediata e humanizada é a principal contribuição identificada na literatura, sendo essencial para estabelecer o bem estar emocional e o suporte em crise. A atuação do psicólogo se baseia no acolhimento pautado pela Política Nacional de Humanização (Brasil, 2013), que exige escuta ativa e sensível para lidar com os aspectos legais, clínicos, sociais e culturais envolvidos (Guzmán, 2023). Estratégias como o plantão psicológico, os grupos e o atendimento interdisciplinar são as práticas mais destacadas para garantir o suporte emocional e fortalecer a autonomia da vítima (Silva; Ataíde; Moreira, 2021; Nicolau et al., 2018).

Contudo, a análise revela uma fragilidade: a predominância do modelo de assistência clínica individual e a baixa notificação dos casos (Avellar, 2011; Fiorini; Boeckel, 2021) indicam que o potencial do hospital na promoção de ações preventivas e de cuidado contínuo ainda é pouco utilizado, limitando a eficácia do trabalho do psicólogo ao momento de crises.

Assim, os resultados demonstram que, embora a presença do psicólogo no ambiente hospitalar seja essencial para o enfrentamento da situação de violência, a efetividade de seu trabalho depende da superação de desafios estruturais e de rede. A principal barreira para o fortalecimento psicológico das vítimas após o primeiro atendimento é a desarticulação intersetorial, que se manifesta na falta de conhecimento da rede e no alto índice de abandono do acompanhamento ambulatorial (Aguiar et al., 2023; Cabral et al., 2015). Essa desconexão transforma o acolhimento hospitalar em um ponto de interrupção em vez de ser um elo no fluxo do cuidado. 

Nesse sentido, com base na interpretação e discussão dos dados, foi possível construir três categorias temáticas, sendo a primeira: A Violência como Demanda Hospitalar. A segunda categoria tem como tema: Práticas do Psicólogo no contexto hospitalar, e por fim, a última categoria intitulada: Os Desafios e a Necessidade do Cuidado Integral.

 Portanto, os estudos apontam para a urgência de aprimoramento das políticas públicas, capacitação profissional e fortalecimento da rede de proteção para que o cuidado seja de fato integral (Cavalcante et al., 2025). As principais características, objetivos, metodologias e achados dos artigos que embasam esta discussão estão sintetizados no quadro 1 descrito logo abaixo. 

Quadro 1 – Matriz da revisão integrativa com 13 obras bibliográficas utilizadas para a construção dos resultados e discussão
AUTORESTÍTULOOBJETIVOSMÉTODORESULTADOS
Aguiar et al. (2023)Atenção primária à saúde e os serviços especializados de atendimento a mulheres em situação de violência: expectativas e desencontros na voz dos profissionaisAnalisar as diferentes perspectivas do trabalho em rede na assistência a mulheres em situação de violência.Qualitativa. Exploratória/Descritiva (Análise temática). Coleta de Dados: Entrevistas semiestruturadas com 16 profissionais de serviços especializados e 46 da saúde.Os dados revelaram conhecimento insuficiente sobre os distintos serviços, causando dificuldades de comunicação e encaminhamentos equivocados. Dentre os serviços estão os hospitais de referência para violência sexual. Conclui-se que o conjunto funciona mais como uma “trama” de serviços.
Avellar (2011)Atuação do psicólogo nos hospitais da Grande Vitória/ES: uma descriçãoVerificar a existência de psicólogos nos hospitais da Região Metropolitana da Grande Vitória/ES, descrever atividades e objetivos de trabalho, e discutir sua inserção.Qualitativa/Quantitativa. Descritivo. Coleta de Dados: Entrevistas com 23 psicólogos em 2006.A distribuição de profissionais é irregular. Predomina o modelo tradicional de atendimento (clínico individual), mas há busca por novas formas de atuação, com foco na atenção integral.
Azevêdo e Crepaldi (2010)A Psicologia no hospital geral: aspectos históricos, conceituais e práticosApresentar os aspectos históricos, conceituais e práticos da Psicologia no hospital geral nos Estados Unidos da América e no Brasil.Qualitativa. Revisão teórica/bibliográfica. Coleta de Dados: Não se aplica (revisão de literatura).A atuação iniciou na década de 1950. A prática ocorre por meio de avaliação e intervenção, visando facilitar a adaptação e enfrentamento do paciente, família e equipe.
Cabral et al. (2015)Perfil de mulheres vítimas de abuso sexual atendidas em hospital de ensinoCaracterizar vítimas de violência sexual atendidas pelo Projeto Acolher no período de 2001 a 2012.Quantitativa. Descritivo retrospectivo. Coleta de Dados: Dados colhidos a partir das fichas de atendimento de 260 vítimas.As vítimas foram principalmente mulheres jovens e metade dos agressores eram conhecidos. Mais da metade abandonou o acompanhamento ambulatorial, considerado altamente relevante.
Cavalcante et al. (2025)Acolhimento às mulheres vítimas de violência doméstica no brasil: revisão de escopoMapear as ações que promovem o acolhimento às mulheres vítimas de violência doméstica no Brasil, destacando o papel da Atenção Primária à Saúde.Qualitativa. Scoping Review (estudo de escopo), utilizando o método JBI e checklist PRISMA-ScR. Critérios de Inclusão/Busca: Busca em Scielo, Lilacs, BDENF, PePSIC e PubMed (set/out 2024).Estratégias de acolhimento e obstáculos (falta de capacitação/precariedade de recursos) foram identificados. O estudo reforça a necessidade de abordagem integrada, multiprofissional e humanizada, com aprimoramento de políticas.
Fiorini e Boeckel (2021)Violência Interpessoal e suas Repercussões na Saúde em um Hospital de Pronto-SocorroRealizar um levantamento de frequência e análises de associação da violência interpessoal em um hospital de pronto-socorro.Quantitativa. Descritivo-transversal. Coleta de Dados: Retrospectiva de dados de notificação de violências.A violência física foi a mais notificada e relacionada às internações. Os atendimentos psicológicos tiveram baixo índice. Os resultados evidenciam a gravidade do tema e a morosidade no ato de notificar.
Fonseca (2021)Análise dos atendimentos a mulheres em situação de violência pelo parceiro íntimo em uma unidade hospitalarConhecer o panorama do atendimento a mulheres agredidas fisicamente pelo parceiro íntimo, em um hospital público de grande porte referência em urgência e emergência.Quantitativa. Transversal, descritivo e com abordagem clínica. Coleta de Dados: Análise retrospectiva de 205 prontuários de mulheres (15 anos ou mais) atendidas devido à violência pelo parceiro, no período de 2016 a 2019.Mulheres jovens, casadas/união estável e comorbidades psiquiátricas foram mais vulneráveis. A residência foi o local mais frequente. O estudo conclui que mulheres agredidas demandam cuidados especializados, urgentes e emergentes, configurando a magnitude da VPI.
Hanada, D’Oliveira e Schraiber (2010)Os psicólogos na rede de assistência a mulheres em situação de violênciaIdentificar e analisar a inserção dos psicólogos na rede intersetorial de serviços para mulheres em situação de violência.Qualitativa. Pesquisa de campo. Coleta de Dados: Análise de entrevistas com profissionais de serviços específicos da Grande São Paulo.Psicólogos estão presentes em todos os serviços, atuando na capacitação, supervisão e atendimento. A diversidade de práticas pode gerar impasses ou oportunidades de inovação.
Lawrenz et al. (2018)Violência contra Mulher: Notificações dos Profissionais da Saúde no Rio Grande do SulCaracterizar as situações de violência contra mulheres notificadas pelos profissionais da saúde no Rio Grande do Sul.Quantitativa. Descritiva (análise de notificações). Coleta de Dados: Análise de 20.999 notificações realizadas entre 2010 e 2014.As notificações incluíram, com maior frequência, mulheres de 19 a 29 anos. A violência física foi predominante, sendo a residência o principal local. O estudo identificou fragilidades nas informações notificadas e nos encaminhamentos.
Monteiro (2012)O papel do psicólogo no atendimento às vítimas e autores de violência domésticaDelimitar, descrever e discutir as possibilidades de atuação do psicólogo no atendimento às vítimas e autores de violência conjugal.Qualitativa (com revisão bibliográfica). Revisão Bibliográfica e Pesquisa de Campo (entrevista). Coleta de Dados: Revisão bibliográfica e entrevista semiestruturada com psicóloga.Os resultados da revisão e entrevista subsidiam a discussão sobre a prática da psicóloga. Sugere formas alternativas de atuação para favorecer o combate e prevenção da violência de gênero.
Pinto et al. (2017)Políticas públicas de proteção à mulher: avaliação do atendimento em saúde de vítimas de violência sexualAvaliar as políticas públicas, a legislação de proteção à mulher e os atendimentos de saúde às vítimas de violência sexual.Quantitativa. Exploratório e descritivo. Coleta de Dados: Entrevistas com profissionais e coleta de dados de prontuários de vítimas em Teresina-PI.O serviço avaliado preconiza a humanização e sigilo. Os procedimentos (exames, assistência farmacêutica, acompanhamento) são eficazes, concluindo que a legislação e diretrizes são eficazes no serviço de referência estudado.
Silva, Ataíde e Moreira (2021)Atenção psicológica à mulher em situação de violência doméstica no Brasil: uma revisão integrativaIdentificar as possibilidades de intervenção psicológica direcionadas à superação das diferentes formas de violência doméstica sofridas pela mulher.Qualitativa. Revisão Integrativa da Literatura. Critérios de Inclusão/Busca: Artigos na BVS Brasil de 2007 a 2019, que apresentavam ou propunham intervenção psicológica.Foram identificadas intervenções de três tipos: grupos reflexivos, plantões psicológicos e atendimentos interdisciplinares.
Silva, Silva e Marinho (2019)Vulnerabilidade social e violência: perfil de vítimas de violência atendidas em um hospital de urgênciasDescrever o perfil das vítimas de violência atendidas em um hospital de urgência, correlacionando aos fatores de risco.Quantitativa. Descritivo, transversal. Coleta de Dados: Dados de notificação do Núcleo de Vigilância Epidemiológica Hospitalar em 2017 (671 notificações).Maior atendimento a adolescentes do sexo masculino, vítimas de perfuração por arma de fogo. Os resultados reforçam a necessidade de políticas públicas para redução das desigualdades sociais.

Fonte: produção própria.

3.1 A Violência como Demanda Hospitalar

A presente categoria temática foi elaborada com base na interpretação e análise dos dados extraídos dos artigos selecionados para a pesquisa, evidenciando a importância de compreender a centralidade do fenômeno da violência no contexto hospitalar. Os estudos indicam que a porta de entrada do hospital, especialmente a urgência e emergência, é o primeiro ponto de contato para muitas vítimas de violência, tornando-se, de fato, um observatório privilegiado de um grave problema de saúde pública (Deslandes, 1999). A literatura é unânime em reconhecer a violência como um evento biopsicossocial, que exige uma resposta integrada dos serviços de saúde (Fiorini; Boeckel, 2021).

O perfil das vítimas de violência que chegam aos hospitais, conforme apresentado nos estudos, é majoritariamente composto por mulheres jovens, no contexto da violência por parceiro íntimo, e um outro perfil é composto por adolescentes do sexo masculino, em casos de violência comunitária mais letal. 

A pesquisa de Fonseca (2021), por exemplo, ao analisar prontuários de um hospital de urgência, identificou que mulheres agredidas fisicamente pelo parceiro íntimo são jovens, majoritariamente pardas e pretas, frequentemente casadas ou em união estável, e muitas vezes já possuem comorbidades psiquiátricas, indicando um ciclo de violência e sofrimento antes da crise que levou ao atendimento emergencial. O local de agressão mais comum é a própria residência, o que reforça o caráter por vezes, crônico da violência por parceiros íntimos.

Corroborando a dimensão de gênero da violência, o estudo de Lawren et al. (2018), que analisou mais de 20 mil notificações, confirma a predominância da violência física e sexual contra mulheres jovens (19 a 29 anos), com a residência como principal local de ocorrência, e uma alta taxa de agressores conhecidos. Este se alinha diretamente com o estudo de Cabral et al. (2015), que foca em vítimas de abuso sexual e aponta que mais da metade dos agressores eram pessoas conhecidas da vítima, frequentemente com grau de parentesco, e que as agressões ocorriam majoritariamente na rua ou nas residências da vítima ou do agressor. 

Diante disso, a violência é compreendida pelos estudos como uma expressão direta das desigualdades de gênero. Nesse sentido, os autores, mostra que a violência praticada por parceiros íntimos reflete o controle e a dominação masculina sobre a vida da mulher, sustentados por valores patriarcais reforçando papéis de submissão feminina. Assim, a violência de gênero se apresenta como uma forma de manter essas hierarquias, com maior intensidade em contextos de vulnerabilidade social. Portanto, os autores reforçam que compreender a violência sob essa perspectiva é essencial para promover intervenções que considerem as dimensões culturais, econômicas e emocionais que mantêm o ciclo da violência contra a mulher.

Essa convergência demonstra que a situação de violência não é um evento isolado, mas sim um fenômeno relacional e complexo, que exige a atenção psicossocial integrada na abordagem hospitalar. A classificação da violência, seja intrafamiliar ou comunitária, é apenas uma forma de categorizar um problema que frequentemente ocorre de maneira dinâmica e simultânea (Pires; Miyasaki, 2005).

Por outro lado, o estudo de Silva, Silva e Marinho (2019), ao traçar o perfil de vítimas de violência atendidas em um hospital de urgência, notou-se maior ocorrência de atendimento em adolescentes do sexo masculino, vítimas de perfuração por arma de fogo. Embora este achado pareça divergir dos estudos anteriores, ele complementa o panorama geral, apontando para a vulnerabilidade social e comunitária dos jovens, com a urgência se tornando a principal resposta do Estado a essa falha social. A conclusão dos autores sobre a necessidade de políticas públicas eficazes no enfrentamento da violência e redução das desigualdades sociais estabelece um elo importante entre o agravo individual, o atendimento hospitalar e as políticas públicas.

A observação de Fiorini e Boeckel (2021) é particularmente relevante neste contexto de urgência, pois, ao identificarem a violência física como a mais notificada e a mais relacionada a internações, eles contrastam esse dado com o baixo índice de atendimentos psicológicos realizados. Essa contradição sugere que, embora a violência seja claramente uma demanda de saúde mental, a resposta assistencial imediata do hospital ainda está primeiramente focada na lesão física e de modo insuficiente, na intervenção psicológica do trauma. Esse é justamente o ponto onde a atuação do psicólogo pode ser mais transformadora. 

A despeito da centralidade da lesão física, o acolhimento emergencial, para Deslandes (1999), oferece uma oportunidade ímpar para a prevenção, especialmente nos casos de violência doméstica e tentativas de suicídio, e o hospital pode e deve ser um potencializador de ações preventivas, desde que possua as condições necessárias.

3.2) Práticas do Psicólogo no Contexto Hospitalar

Com base nos dados extraídos observou-se que os profissionais de psicologia desenvolvem práticas como plantão psicológico, atendimento interdisciplinar como também grupos no atendimento as pessoas em situação de violência no contexto hospitalar.  

A inserção do psicólogo no hospital geral remonta à década de 1950 (CRP/SP, 2004), quando a prática médica no hospital, historicamente voltada para a observação científica do corpo (Foucault, 2004), começou a se expandir para o conceito de cuidado integral. Essa evolução fez com que a Psicologia Hospitalar passasse a olhar para o indivíduo de forma ampliada, reconhecendo que o processo de adoecimento e tratamento afeta a saúde mental, indo além dos aspectos físicos (Simonetti, 2016). 

Assim, o acompanhamento psicológico busca facilitar a adaptação e o enfrentamento das situações vivenciadas, priorizando a tríade paciente, família e equipe de saúde (Azevêdo; Crepaldi, 2010). No cenário da violência, o profissional de psicologia emerge com um papel central de acolhimento humanizado e intervenção no trauma. A Política Nacional de Humanização (PNH) orienta que o acolhimento deve reconhecer a necessidade do outro como legítima e singular, construindo relações de confiança e vínculo entre as equipes, o trabalhador e o usuário (Brasil, 2013).

Essa necessidade de humanização é crucial para as vítimas de violência. O estudo de Pinto et al. (2017), ao avaliar um Serviço de Atendimento à Mulher Vítima de Violência, concluiu que a legislação e as diretrizes de políticas públicas são eficazes no serviço de referência, principalmente porque preconizam a humanização e o sigilo. Essa abordagem evita a revitimização e o desgaste das vítimas no ambiente hospitalar.

A referências técnicas para atuação de psicólogas nos serviços hospitalares do SUS apontam que o setting terapêutico no hospital deve assegurar um ambiente de escuta para o sofrimento psíquico, integrando os processos biológicos e socioculturais do indivíduo (CFP, 2019). Em conformidade a isso, é ressaltado também pelas referências técnicas que a escuta deve ser ampliada e direcionada não somente ao paciente como também, a família e a instituição que está inserido, visando o cuidado integral do indivíduo.

A intervenção psicológica, no entanto, vai além da simples escuta. Guzmán (2023) enfatiza que o atendimento deve ser integrado e humanizado, com escuta ativa, suporte emocional e articulação com a rede, mas também deve ser sensível, sem desconsiderar os princípios técnicos e éticos do trabalho, levando em conta os diversos aspectos envolvidos, como os legais, clínicos, sociais, culturais e psicológicos. 

O Código de Ética do Psicólogo, nesse sentido, orienta que a prática deve visar a promoção da saúde e a eliminação de quaisquer formas de negligência, discriminação, exploração e violência (CFP, 2005 apud CFP, 2019). Para as vítimas de violência, o objetivo do atendimento psicológico é essencialmente o resgate da condição de sujeito, da autoestima e dos desejos, que ficaram encobertos e anulados pela relação de violência (Monteiro, 2012). 

A diversidade de intervenções psicológicas é evidenciada em diversos estudos. Na violência doméstica, a revisão de Silva, Ataíde e Moreira (2021) sistematiza as práticas mais propostas na literatura: os grupos, os plantões psicológicos como também, os atendimentos interdisciplinares das pessoas em situação de violências.

O plantão psicológico, em particular, se alinha perfeitamente ao contexto de urgência hospitalar, por oferecer uma escuta imediata e breve, focada na crise e no suporte emocional, reduzindo os impactos decorrentes das violências (Nicolau et al., 2018). Essa intervenção imediata é vista como fundamental para que a mulher consiga romper com o ciclo de violência, tornando o psicólogo indispensável nos espaços de acolhimento (Monteiro, 2012).

A relevância da atuação do psicólogo se estende para além da vítima, pois o trabalho é complexo e engloba a capacitação e a supervisão de outros profissionais, além do atendimento às mulheres (Hanada; D’Oliveira; Schraiber, 2010). Os psicólogos devem ser compreensivos com todos os indivíduos vinculados à situação de violência, inclusive o próprio agressor, mantendo a escuta aberta e realizando um acolhimento de qualidade (Barbosa; Pegoraro, 2008). A atuação multidisciplinar, com a interação fundamental com outros profissionais como enfermeiros e médicos, é crucial para uma visão integrada e mais completa do paciente, possibilitando um suporte mais eficaz ao sujeito (Tonetto; Gomes, 2007).

Apesar da importância teórica e normativa, a prática cotidiana dos psicólogos em hospitais revela desafios internos. Avellar (2011), ao descrever a atuação dos psicólogos hospitalares, observa que, apesar da busca por novas formas de atuação, ainda predomina o modelo tradicional de atendimento, baseado na assistência clínica individual. Essa predominância pode ser uma limitação, especialmente no contexto da violência, que exige uma abordagem de rede e comunitária. 

Contudo, Hanada, D’Oliveira e Schraiber (2010) notam que a relativa indefinição na especificidade do trabalho do psicólogo na rede de assistência (seja em saúde, policial ou psicossocial) pode, criar oportunidades para inovações na prática e ajustamento às necessidades do serviço.

3.3) Os Desafios e a Necessidade do Cuidado Integral

A integralidade do cuidado a vítimas de violência é um conceito base na política de saúde, mas sua concretização depende de uma rede intersetorial efetiva que se estenda para além dos ambientes hospitalares. A literatura aponta que a atuação do psicólogo no hospital, para ser eficaz, deve ser vista como o elo inicial dessa rede e não como um ponto final (Pinto et al., 2017). Um dos maiores desafios identificados nos estudos é a falha na articulação da rede de serviços. 

Com isso, o estudo qualitativo de Aguiar et al. (2023), que ouviu profissionais da Atenção Primária e de serviços especializados, trouxe à tona o “desencontro” entre os serviços. Os dados revelaram conhecimento insuficiente sobre os distintos serviços, o que leva a dificuldades de comunicação e a encaminhamentos equivocados. Os autores concluem que o conjunto funciona mais como uma “trama” de serviços desarticulados do que como uma “rede” coesa, e essa fragilidade na articulação compromete o fluxo de cuidado após a alta hospitalar. 

De acordo com o apresentado por Cabral et al. (2015) a taxa de abandono do acompanhamento ambulatorial foi de 52,69%, o que revela uma falha significativa na continuidade do cuidado depois do atendimento emergencial. Esse dado mostra que, por mais que o atendimento inicial no hospital seja eficaz na proteção, existe uma desconexão entre o atendimento de urgência e o acompanhamento posterior nos serviços de saúde mental e Atenção Primária. 

Nesse sentido, Pinto et al. (2017) destacam que, o acolhimento hospitalar, embora humanizado e eficaz em sua intervenção inicial, se torna um ponto de interrupção se não houver um encaminhamento claro e acolhedor para a rede. Portanto, a principal limitação para a plena efetividade da atuação e para o fortalecimento psicológico das vítimas, reside nos desafios sistêmicos e de rede.

Diante disso, a revisão de escopo de Cavalcante et al. (2025) reforça a necessidade de fortalecimento da rede. O estudo, que mapeou as ações de acolhimento à mulher vítima de violência doméstica no Brasil, identificou que, apesar dos avanços legais e das iniciativas para estruturar a rede de apoio, ainda há obstáculos que comprometem a efetividade dessas ações. 

Tais obstáculos incluem a falta de capacitação específica dos profissionais de saúde em consonância com a crítica feita por Deslandes (1999) e a precariedade de recursos e protocolos. Portanto, é urgente a necessidade de uma abordagem integrada, multiprofissional e humanizada, com aprimoramento das políticas públicas e a capacitação permanente.

Portanto, o papel do psicólogo na rede, como visto em Hanada, D’Oliveira e Schraiber (2010), é diverso e se ajusta à cultura institucional do serviço (policial, saúde, assistência social). Essa flexibilidade é por um lado, uma potência, mas por outro, contribui para a relativa indefinição da especificidade do trabalho, dificultando a articulação em equipe e em rede, como apontado por Aguiar et al. (2023).

Diante disso, para a superação desses desafios é fundamental que as políticas públicas garantam não só a existência dos serviços, mas também sua conectividade, funcionamento em rede e sustentabilidade, com profissionais capacitados e fluxos bem definidos. Dessa forma, é possível oferecer um atendimento mais humanizado e contínuo, capaz de atender diversas dimensões da violência e contribuir para a superação da situação de violência vivenciada pelos indivíduos (Silva; Silva. Marinho, 2019).

A atuação do psicólogo no hospital, ao lidar com a vítima, deve ser o caminho para a notificação de violências, um ato que, segundo Fiorini e Boeckel (2021), ainda sofre com a morosidade. A notificação é crucial, pois, como demonstrado por Lawrenz et al. (2018), permite o mapeamento das características das situações de violência, fornecendo dados essenciais para a proposição de políticas de prevenção e enfrentamento.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente estudo de revisão bibliográfica integrativa cumpriu o seu objetivo geral ao compreender as práticas desenvolvidas pelos profissionais, os desafios enfrentados e as contribuições dessas intervenções para o fortalecimento psicológico das vítimas de violência no contexto hospitalar. 

Diante disso, a sistematização da literatura demonstrou a importância do profissional de psicologia no cenário de urgência e emergência, evidenciando que a violência não pode ser tratada apenas como um agravo físico, mas sim como biopsicossocial que exige uma resposta imediata para a promoção da saúde mental. A atuação do psicólogo, nesse contexto, é essencial para o bem estar emocional e o auxílio no processo de resgate da autonomia das vítimas.

Os principais achados da pesquisa indicam que a intervenção psicológica no hospital se concentra no manejo do trauma, utilizando-se de estratégias como o plantão psicológico e o suporte interdisciplinar, atuando para minimizar os danos psicológicos imediatos e estabelecer um vínculo de confiança e proteção.

Assim, o acompanhamento psicológico busca facilitar a adaptação e o enfrentamento das situações vivenciadas, priorizando a tríade paciente, família e equipe de saúde (Azevêdo; Crepaldi, 2010). No cenário da violência, o profissional de psicologia emerge com um papel central de acolhimento humanizado e intervenção no trauma.

 Entretanto, os resultados também revelaram um contraste significativo entre a importância dessa intervenção inicial e a persistência de desafios estruturais. O hospital, embora seja a porta de entrada para o cuidado, frequentemente se limita ao atendimento da lesão física e sofre com a baixa notificação dos casos e a desconexão com a rede de serviços subsequentes.

Neste sentido, a fragilidade na articulação da rede de atenção psicossocial e de proteção configura-se como o maior obstáculo para a integralidade e a continuidade do cuidado. Observou-se que a desarticulação entre o serviço de urgência e a Atenção Primária resulta em um alto índice de abandono do acompanhamento ambulatorial, o que compromete o fortalecimento psicológico de longo prazo e impede o rompimento efetivo do ciclo de violência. 

Em relação aos limites do presente estudo, é importante ressaltar que, por se tratar de uma revisão integrativa da literatura, a análise se restringiu aos dados publicados e disponibilizados nas bases de dados selecionadas, e às informações presentes nas matrizes de síntese dos artigos. Essa limitação impede a obtenção de dados diretos sobre a realidade institucional de serviços específicos ou a percepção dos próprios profissionais e usuários sobre as práticas em campo. 

Embora a literatura apresente um panorama robusto, a ausência de estudos aprofundados sobre a eficácia de diferentes modelos de intervenção psicológica em hospitais no Brasil representa uma lacuna a ser explorada. Diante dos resultados e desafios identificados, sugerem-se possíveis desdobramentos para futuras pesquisas. 

Recomenda-se a realização de estudos de campo, de natureza qualitativa, que investiguem a prática do psicólogo hospitalar no atendimento à pessoa em situação de violência. O esforço contínuo para integrar o conhecimento teórico e a prática assistencial é fundamental para garantir o cuidado integral às vítimas, consolidando a Psicologia Hospitalar como um agente transformador no enfrentamento da violência.

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1(Discente do 10º período de Psicologia do Centro Universitário Católica do Tocantins)
2(Mestra em Ensino em Ciências e Saúde pela Universidade Federal do Tocantins (UFT) em 2023. Especialista em Saúde Mental após conclusão do Programa de Residência Multiprofissional em Saúde Mental pela Fundação Escola de Saúde Pública de Palmas/TO (FESP) em 2018 e graduação em Psicologia pela Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF) em 2015. Atualmente está como docente no curso de graduação em Psicologia da UniCatólica/TO)