ATUAÇÃO DO ENFERMEIRO NO PRÉ-NATAL DA ESTRATÉGIA DA FAMÍLIA EM COMUNIDADE QUILOMBOLA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202511192334


Ivanete Ribeiro Soares1
Giselmo Pinheiro Lopes2


RESUMO

O pré-natal é a ação necessária para que ocorra a diminuição e prevenção de complicações no período do gravídico e pós, contudo, existem fatores que impeçam a paciente grávida aderir esse programa. Nesse contexto, este estudo objetivou demonstrar a importância dos profissionais de enfermagem na promoção da adesão ao pré-natal para mulheres quilombolas. Trata-se de uma revisão de literatura, do tipo integrativa, realizada por meio das bases de dados da LILACS e SCIELO. Os artigos analisados e selecionados totalizaram 10 trabalhos. De acordo com os artigos analisados existem fatores que dificultam a paciente a aderir ao pré-natal como desigualdades socioeconômica e bem como falta de acolhimento e apoio. Todavia, a relação entre os profissionais de saúde e as pacientes passa a ser uma ferramenta importante para que ocorra uma assistência individualizada e efetiva, além de mostrar à mulher quilombola que esse profissional reconhece e valoriza seus aspectos culturais, esforços e suas atitudes no desempenho do seu papel de mulher-mãe, incentivando, assim, a autoconfiança no seu cuidado e no bebê.

Palavras-chave: Enfermagem. Pré-natal. Quilombola. Estratégia de Saúde da Família.

ABSTRACT 

Prenatal care is essential for reducing and preventing complications during pregnancy and postpartum. However, there are factors that prevent pregnant patients from adhering to this program. In this context, this study aimed to demonstrate the importance of nursing professionals in promoting prenatal adherence for quilombola women. This is an integrative literature review conducted using the LILACS and SCIELO databases. A total of 10 articles was analyzed and selected. According to the articles analyzed, factors hinder patients’ adherence to prenatal care, such as socioeconomic inequalities and a lack of care and support. However, the relationship between healthcare professionals and patients becomes an important tool for providing individualized and effective care. It also demonstrates to quilombola women that these professionals recognize and value their cultural aspects, efforts, and attitudes in fulfilling their role as mothers, thus encouraging self-confidence in caring for themselves and their babies.

Keywords: Nursing. Prenatal. Quilombola. Family Health Strategy.

INTRODUÇÃO

A saúde da criança e da mulher é uma das ações da área da saúde de prioridade no território brasileiro, entretanto, verifica-se uma prevalência elevada de complicações da gravidez e do parto que afetam a saúde desse público. De acordo Organização Mundial de Saúde (OMS) é admissível entre 6 e 20 óbitos por 100 mil nascidos vivos (Mayor et al., 2018). 

Nesse contexto, a mortalidade materna devido a complicações no parto ainda é um grande problema de saúde, sendo que segundo a Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID-10), a morte materna pode ocorrer durante ou no decorrer de 42 dias após o final do período gestacional, contudo, não é por causa de acidentes ou incidentes (Toss et al., 2023).

As complicações maternas como abortamento, doenças hipertensivas, prematuridade, infecções perinatais e diabetes gestacional, associado a não realização do pré-natal, são fatores que causam problemas significativos à saúde materna. De acordo com Trigueiro et al. (2021) o pré-natal é a ação necessária para que ocorra a diminuição e prevenção de complicações no período do gravídico e pós, para que aconteça o desenvolvimento de um parto e nascimento saudável, diminuindo a morbimortalidade materna e fetal.

O pré-natal é composto por ações que tem como finalidade o cuidado e prevenção a saúde da gestante e do feto, garantindo a profilaxia e verificação precoce de complicações gestacionais e o com isso possibilitar a realização do tratamento adequado. Além disso, o pré-natal incluem orientações sobre o estilo de vida saudável e sobretudo sobre a gravidez, bem como o preparo da gestante para o parto e o puerpério (Trigueiro et al., 2021). 

A assistência pré-natal deve cobrir toda a população de gestantes, assegurando o acompanhamento e a continuidade do atendimento, tendo como objetivo prevenir, identificar ou corrigir as intercorrências maternas fetais, e também instruir à gestante quanto a gravidez, parto, puerpério e cuidados com o recém nascido. É preciso salientar, também, que a gestante é o foco principal desse processo, mas junto com ela é necessário, se possível, incluir a família para interagir nesse momento, trazendo mais segurança para a gestante. Pode-se dizer ainda que o pré-natal consiste em um conjunto de fatores e ações que interagem e o principal deles seria a humanização, ou seja, o respeito pela mulher (Toss et al., 2023).

Portanto, para o acompanhamento na consulta de pré-natal é necessário que todos os cuidados sejam tomados evitando à exposição desnecessária da gestante. O pré-natal de todas as gestantes deve ser garantido, podendo haver espaçamento entre as consultas. Para otimização, recomenda-se incluir as coletas de exames e ultrassonografias no dia da consulta presencial (Gomes et al., 2019). 

Diante do exposto, destaca-se que o atendimento do pré-natal para as mulheres quilombolas, visto que são grupos vulneráveis, devido a distância física das comunidades e às precárias condições socioeconômicas que foram desenvolvidas no decorrer do contexto histórico de pessoas negras no território brasileiro, refletindo diretamente nas condições de saúde desse grupo (Pereira et al., 2020). 

Ressalta-se ainda que as causas obstétricas, apesar dessas condições ocupem o 19º lugar, o risco de morte para as gestantes negras é duas vezes maior do que para população de etnia branca, embora as causas sejam evitáveis. O mesmo acontece com sintomas, sinais e achados anormais, exames clínicos e laboratoriais, o que demonstra a falta de interesse em pesquisas voltadas para os óbitos das pessoas negras ou o retardo no diagnóstico, agravando o quadro clínico e diminuindo as chances de recuperação (Aiquoc et al., 2021). 

Esse cenário de desigualdade possibilitou a implementação de novas políticas públicas no Sistema Único de Saúde (SUS), direcionada a população negra e outras populações que se encontram em estado de vulnerabilidade. Surgindo, a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN), que trata-se de um instrumento na promoção da equidade e da humanidade na saúde brasileira. A PNSIPN compreende que a equidade racial como um movimento para “reconhecimento do racismo, das desigualdades étnico-raciais e do racismo institucional como determinantes sociais das condições de saúde, com vistas à promoção da equidade em saúde” (Sousa; Rocha; Nunes, 2024, p.5). 

Visando a equidade na saúde, as comunidades que possuem uma equipe da Estratégia de Saúde da Família (ESF), as gestantes têm acompanhamento de prénatal e de pós-parto. Cumpre lembrar que esses territórios quilombolas recebem visitas quinzenais ou mensais da equipe de ESF, contudo, na maioria das comunidades não dispõem de instalações adequadas ou de equipamentos para exame clínico em consultas médicas e multiprofissionais. Logo, essas consultas ocorrem, geralmente, em salas escolares, em salões comunitários ou nas casas dos moradores. Atendimentos prioritários são voltados para pessoas idosas ou para quem possui dificuldades de locomoção (Firmiano Júnior et al., 2021). 

Nesse contexto, surge a importância dos profissionais de enfermagem, visto que são peças essenciais no incentivo para adesão ao pré-natal, sendo, portanto, a comunicação a estratégia que pode possibilitar o compartilhamento de pensamentos, crenças, valores, as vantagens e desvantagens do tipo de parto, amamentação, etc. Nesse momento, é importante considerar a influência que esse profissional poderá ter para gestantes, além da possibilidade de respeitar e compreender as inúmeras situações que envolvem a experiência de ser mãe, a fim de ajudá-la.  

Além dos aspectos assistenciais, é importante destacar que o acompanhamento pré-natal em comunidades quilombolas exige sensibilidade cultural e social por parte dos profissionais de saúde. As mulheres quilombolas carregam histórias de resistência e de enfrentamento às desigualdades estruturais, que repercutem diretamente na forma como percebem o cuidado em saúde. Assim, compreender o contexto histórico, os costumes, as crenças e as relações comunitárias é essencial para que o enfermeiro possa desenvolver uma prática realmente humanizada e resolutiva.

Essas comunidades, muitas vezes localizadas em áreas rurais de difícil acesso, enfrentam desafios que ultrapassam as barreiras geográficas. A ausência de transporte adequado, a limitação de recursos básicos e a precariedade dos espaços de atendimento são fatores que comprometem a continuidade do cuidado e o vínculo com os profissionais. Diante disso, a atuação do enfermeiro deve ir além do espaço físico da unidade, alcançando a comunidade em seu território, por meio de visitas domiciliares, rodas de conversa e ações educativas que valorizem o saber popular e o protagonismo das mulheres.

Nesse contexto, o profissional de enfermagem deve se posicionar como um mediador entre o saber científico e o saber tradicional, fortalecendo o diálogo entre ambos e promovendo o respeito às práticas culturais de cuidado. Essa interação permite que o acompanhamento gestacional ocorra de forma mais acolhedora, contribuindo para a redução de riscos e para o fortalecimento do vínculo entre equipe de saúde e comunidade. O papel educativo do enfermeiro, aliado à escuta ativa e à empatia, torna-se um instrumento poderoso na construção da confiança e na ampliação do acesso aos serviços de saúde.

Portanto, este estudo objetivou identificar e demonstrar a importância dos profissionais de enfermagem na promoção da adesão ao pré-natal para mulheres quilombolas. 

METODOLOGIA

Trata-se de uma revisão de literatura, do tipo integrativa. Segundo Ercole, Melo e Alcoforado (2014) refere-se a um método que visa sintetizar resultados obtidos em pesquisas sobre um tema, fornecendo informações mais amplas sobre um assunto/problema, constituindo, assim, um corpo de conhecimento. 

A primeira etapa do estudo foi a formulação de uma pergunta para subsidiar a busca eletrônica em bases de dados, nesse sentido indagou-se: “qual é o papel do profissional de enfermagem na promoção da adesão do pré-natal para mulher quilombola?”. Na segunda etapa, após o desenvolvimento da pergunta, foi realizada uma busca nas bases de dados da LILACS e SCIELO, utilizando-se os seguintes descritores: “pré-natal”, “quilombola” e “cuidados de enfermagem”, associados ao operador booleano AND. 

Na terceira etapa, após a busca inicial e verificação dos títulos e obtenção dos resumos, foram selecionados os trabalhos pertinentes de acordo com os critérios de inclusão e de não inclusão. Estudos quantitativos e qualitativos que analisavam a comunicação como estratégia na assistência de enfermagem no pré-natal, foram incluídos na realização da revisão integrativa, que estavam na língua portuguesa, inglês e espanhol, publicados no período de 05 anos (2020-2025).  Os critérios de não inclusão foram: trabalhos cuja publicação estava fora do período estipulado para a pesquisa, revisão de literatura, resenhas, cartas editoriais, livros, capítulos de livros e entrevistas. 

Após a seleção dos artigos foi feita a leitura dos textos na íntegra. Em seguida para coleta de dados dos artigos foi elaborado um instrumento baseado em um protocolo de revisão de literatura que analisou as características dos estudos (autor/ano, amostra, método e resultados principais). Os dados extraídos foram organizados em quadros padronizados que abrangeu a caracterização da amostra e a discussão dos trabalhos.

Na quarta etapa, verificou-se que na base de dados LILAS foram encontrados 64 artigos, com 44 elegíveis após a análise dos títulos e dos resumos. Na plataforma SCIELO, foram encontrados 59 artigos, mas apenas 37 eram elegíveis. E na quinta etapa, para selecionar os artigos que fariam parte do estudo foram aplicados os critérios de não inclusão conforme demonstra o fluxograma (Figura 1). Ao final da busca, os artigos analisados e selecionados totalizaram 08, que foram lidos na íntegra e incluídos na organização dos dados. 

O fluxograma (Figura 1), demonstra o processo de gerenciamento da seleção das publicações da presente revisão.

Figura 1 – Fluxograma

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A partir do aspecto de elegibilidade para a revisão, foram selecionados ao todo foram 08 artigos para análise. Objetivando apresentar os artigos analisados de forma mais didática e facilitando uma análise comparativa, optou-se por dispô-los em forma de quadro e suas características (Quadro 1).

Quadro 1 – Distribuição dos artigos selecionados para o estudo.

Fonte: Autora (2025).

Segundo os artigos pesquisados, a assistência integral à saúde da mulher no ciclo gravídico-puerperal, é fundamental para uma cobertura de pré-natal. A assistência, nesse período, necessita mudanças significativas com a humanização do parto e os direitos reprodutivos das mulheres, demonstrando a necessidade de aperfeiçoar a assistência obstétrica. Nesse sentido, de acordo com Pereira et al., (2020) as práticas do profissional de enfermagem no pré-natal possuem características que englobam tanto condutas assistenciais quanto educativas, centradas nos princípios da humanização estabelecidas na Política Nacional de Humanização (PNH) e não somente o conhecimento científico. 

Com relação às atividades educativas, Cunha (2025) afirma que, geralmente, na consulta essas ações são inexistentes, corroborando a fragilidade na assistência prestada ao binômio mãe-bebê, resultando na insatisfação da usuária com o serviço prestado pelo profissional. Cunha (2025) reforça que as atividades de educação em saúde no pré-natal são de suma importância para a adoção de medidas que garantam a saúde da criança, da promoção da prática do aleitamento materno, permitindo assim a conscientização das mulheres sobre os benefícios de tal ato. Logo, as palestras educativas como estratégias de educação em saúde têm se mostrado eficazes no trabalho com a comunidade quilombola, possibilitando aos profissionais de saúde, atuar nas suas competências específicas, como promoção da saúde e prevenção de agravos. 

Vale ressaltar também, que o atendimento qualificado e acolhedor proporciona além do acompanhamento clínico com a prevenção de intercorrências, a atuação em face das necessidades sociais, culturais, psicológicas, econômicas e espirituais da paciente (Silva et al., 2021).

Além disso, Santos et al. (2025) e Rezende et al. (2020) apontam outras barreiras que fragilizam a adesão ao pré-natal, sendo eles: discriminação racial; pobreza extrema; invasões territoriais; interferência na cultura e no equilíbrio ambiental; baixo índice de renda domiciliar e emprego informal; precárias condições das habitações; dificuldade de acesso à saúde e à educação, aos bens duráveis e de consumo e à informação; vulnerabilidade alimentar; conflitos institucionais; e invisibilidade da população. 

Referente à prática do enfermeiro, no cotidiano da ESF nas comunidades quilombolas, observa-se que existe um acúmulo de atividades e sobreposição de atribuições que distanciam o enfermeiro do encontro efetivo com o usuário/família. Nesse contexto, Santos et al. (2025) e Rezende et al. (2020) afirmam que o profissional de enfermagem necessita estar mergulhado na realidade da população quilombola, considerando valores e as experiências do modo de vida dessa população, para refletir sobre a sua atuação e precisa fazê-lo de maneira crítica e responsável, o que impactará em suas ações, libertando a comunidade da condição determinante da vulnerabilidade social existente.

Outro ponto que merece destaque é a necessidade de fortalecimento da formação profissional dos enfermeiros que atuam nas comunidades quilombolas. Observa-se que muitos desses profissionais não receberam, durante sua trajetória acadêmica, uma preparação adequada para lidar com a diversidade cultural e com as especificidades das populações tradicionais. Isso pode gerar insegurança e, por vezes, distanciamento entre profissional e paciente, prejudicando o processo de cuidado. A capacitação continuada, com foco na competência cultural, é uma ferramenta essencial para que o enfermeiro desenvolva habilidades de comunicação, empatia e reconhecimento das diferenças.

Além da formação, o suporte institucional é igualmente relevante. As equipes da Estratégia de Saúde da Família muitas vezes trabalham em condições adversas, com recursos limitados e sobrecarga de atividades. Nesse cenário, o planejamento das ações e a articulação com os demais setores sociais, como assistência social e educação, tornam-se fundamentais para a construção de uma rede de apoio às gestantes quilombolas. O enfermeiro pode atuar como elo entre esses serviços, favorecendo o acompanhamento integral e contínuo da mulher e do bebê.

Vale ressaltar, ainda, a importância das práticas educativas como estratégias de empoderamento. Quando a mulher é estimulada a participar ativamente das decisões sobre seu corpo e sua gestação, há um aumento significativo na adesão ao pré-natal e na autoconfiança para o parto e o puerpério. A educação em saúde, quando realizada de forma participativa, pode contribuir para romper estigmas e fortalecer o senso de pertencimento das mulheres à comunidade, criando um ambiente mais solidário e colaborativo.

Dessa forma, a prática do enfermeiro ultrapassa o atendimento clínico, assumindo também um papel político e social. O profissional deve estar atento aos fatores que determinam as desigualdades em saúde e atuar como agente transformador, promovendo a equidade e a justiça social dentro do sistema de saúde. Essa perspectiva ampliada reforça que o cuidado à mulher quilombola não é apenas uma ação técnica, mas um compromisso ético e humanitário.

Em alguns casos o conhecimento das puérperas com relação ao pré-natal é restrito à importância para o bebê, evidenciando falha na comunicação entre elas e os profissionais de saúde no repasse das informações durante o pré-natal e o puerpério. Nesse contexto, a adesão do pré-natal deve ser um compromisso de todas as equipes que prestam assistência ao binômio mãe-filho, como forma de minimizar os problemas que surgem durante a amamentação, garantindo assim o sucesso desta prática. Nesse contexto, Martins et al. (2020) e Silva et al. (2020) ressaltam que a mulher quilombola segue os ensinamentos das matriarcas ao cuidar e amamentar seus filhos, mesmos que tenham acesso a outros meios de informação, tais como televisão, internet e orientações de saúde por profissionais. Portanto, as tradições e costumes perpetuados na comunidade acerca a gestação e o cuidado com mãe e criança.

Oliveira et al. (2024) reforça que a cultura das mulheres quilombolas está relacionada diretamente com a memória e com o modo de vida associado ao meio ambiente. Essa associação é demonstrada quando animais e plantas são transformados em medicamentos produzidos de múltiplas formas, a exemplo de garrafadas, lambedores, chás para banho ou ingestão e rezas. 

Portanto, segundo Oliveira et al. (2024) e Bonfim et al. (2018) é necessário que o profissional de enfermagem, tenha consciência do fator cultural para esse público, como a utilização de chás/ervas e das as parteiras, que podem ajudar os profissionais de enfermagem a tranquilizarem as gestantes, promovendo o alívio de incômodos por causa do mau posicionamento do feto e, principalmente o fortalecimento do vínculo que elas possuem por meio do toque, desenvolvendo uma relação de confiança, possibilitando para uma assistência mais humanizado. 

Logo, a confiança é um fator fundamental para o sucesso na adesão ao prénatal, pois esse sentido está associado ao acolhimento, à interação e à comunicação da equipe com as mães. Ressalta-se que a confiança da paciente ao profissional é desenvolvida a partir das ações humanizadas e de acolhimento, evidenciando a importância das relações interpessoais, além da realização de exames e presteza no atendimento (Silva et al., 2021).

Pereira et al. (2020) afirmam ainda que apoio à gestante é de fundamental influência para a busca por assistência logo no primeiro trimestre. Além disso, quando procuram um serviço de saúde, esperam a criação de vínculo de confiança com os profissionais de saúde e que esses lhe acolham com cordialidade e respeito, entretanto, o que ocorre que a durante a consulta são despersonalizados, cercados de impaciência e pressa dos profissionais, aspectos que geram insegurança e insatisfação às usuárias. 

Outro fator necessário é a visita domiciliar pela equipe de saúde no último mês de gestação e na primeira semana de vida do RN, sendo uma ação prioritária na vigilância à saúde materno-infantil, por causa da vulnerabilidade desse grupo. Logo, as famílias em situação de vulnerabilidade, como as mulheres quilombolas, devem receber um apoio maior, através das visitas domiciliares, incluindo por vez ações de médicos especializados (Cunha, 2025). 

É importante relatar que o início tardio do cuidado pré-natal é reconhecido como um dos principais riscos para complicações maternas e fetais e para mulher quilombola, ainda existem as condições de discriminações raciais e de gênero, relacionadas às experiências de violência obstétrica no trabalho de parto e nos processos de aborto, historicizadas pelas próprias mulheres. Mesmo com as inovações nas políticas de atenção à saúde das mulheres brasileiras, reconhece-se que o racismo e o sexismo como determinantes sociais em saúde, apontando necessidades urgentes e contínuas de enfrentamentos (Cunha, 2025; Silva et al., 2020; Silva et al., 2021). 

CONSIDERAÇÕES FINAIS 

Ao longo da elaboração deste trabalho, foi possível perceber que o tema da atuação do enfermeiro no pré-natal em comunidades quilombolas é mais amplo do que se imagina à primeira vista. Trata-se de um campo que envolve não apenas o conhecimento técnico-científico, mas também aspectos éticos, sociais, culturais e políticos. O cuidado voltado às mulheres quilombolas requer do enfermeiro uma escuta sensível e uma postura de respeito diante das tradições e valores que compõem a identidade dessas comunidades. A empatia e a valorização da cultura local são elementos que fortalecem o vínculo entre profissional e gestante, tornando o acompanhamento mais humanizado e efetivo.

É importante reconhecer que o enfermeiro, enquanto protagonista da atenção básica, tem potencial para transformar a realidade das comunidades onde atua. Sua presença constante e sua proximidade com as famílias possibilitam a construção de um cuidado baseado na confiança e na corresponsabilidade. O fortalecimento das práticas de enfermagem no pré-natal representa, portanto, uma estratégia essencial para a promoção da saúde materno-infantil e para a redução das desigualdades que ainda persistem no sistema público de saúde.

O presente estudo possibilitou refletir de forma ampla sobre a importância da atuação do enfermeiro no pré-natal de mulheres quilombolas, ressaltando que o cuidado à saúde desse grupo populacional ultrapassa a dimensão técnica e científica. A análise dos trabalhos evidenciou que a assistência efetiva somente se concretiza quando os profissionais conseguem aliar seus conhecimentos biomédicos ao respeito pelas práticas tradicionais, à escuta qualificada e à valorização das experiências culturais que permeiam a vida das gestantes. Assim, o pré-natal em comunidades quilombolas não deve ser compreendido apenas como um protocolo de consultas e exames, mas como um espaço de construção de vínculos, de reconhecimento de direitos e de promoção de equidade.

As considerações levantadas ao longo desta revisão integrativa apontam que, embora os avanços na atenção à saúde da população negra e quilombola sejam inegáveis, persistem barreiras estruturais, sociais e culturais que dificultam o acesso e a adesão ao pré-natal. Entre elas, destacam-se o racismo institucional, as condições socioeconômicas precárias, a distância física dos serviços de saúde e a invisibilidade histórica desse grupo no planejamento das políticas públicas. Nesse contexto, a atuação do enfermeiro revela-se estratégica, uma vez que ele é frequentemente o primeiro profissional a estabelecer contato direto com as gestantes e pode, por meio de práticas humanizadas, acolhedoras e culturalmente competentes, reduzir desigualdades e contribuir para a prevenção de agravos à saúde materno-infantil.

Cabe destacar que este estudo apresentou limitações, por se tratar de uma revisão integrativa baseada em um número restrito de artigos. Os resultados, portanto, não são passíveis de generalização, mas funcionam como um recorte que reforça a relevância de novas investigações. É necessário que pesquisas futuras aprofundem a análise de práticas específicas no cotidiano da Estratégia de Saúde da Família em territórios quilombolas, com enfoque tanto nas percepções das gestantes quanto nas estratégias utilizadas pelos profissionais para superar desafios locais. Pesquisas de campo com abordagem qualitativa poderão, ainda, iluminar aspectos subjetivos e simbólicos do cuidado, muitas vezes não captados por estudos mais técnicos.

Do ponto de vista prático, os achados desta revisão reforçam a necessidade de investimento contínuo na formação dos enfermeiros, contemplando não apenas a dimensão técnica, mas também a competência cultural e a educação permanente em saúde. Políticas públicas devem priorizar o fortalecimento das equipes de Estratégia de Saúde da Família, garantindo infraestrutura adequada, transporte para acesso aos serviços e apoio multiprofissional. Ademais, torna-se essencial que os programas de saúde incorporem, de forma efetiva, os saberes tradicionais, como o trabalho das parteiras, o uso de ervas e os rituais de cuidado comunitário, de modo a estabelecer uma prática dialógica e intercultural, onde ciência e tradição se complementem.

Conclui-se, portanto, que a atuação do enfermeiro no pré-natal de mulheres quilombolas é um campo de prática que exige sensibilidade, criticidade e compromisso ético. Mais do que aplicar protocolos, cabe a esse profissional reconhecer a singularidade das mulheres quilombolas, fortalecer sua autonomia, combater as formas de discriminação ainda presentes no sistema de saúde e contribuir para que cada gestante vivencie a maternidade com dignidade, segurança e confiança. Assim, espera-se que este trabalho sirva como subsídio não apenas para futuras pesquisas acadêmicas, mas também para a construção de uma enfermagem cada vez mais humanizada, inclusiva e comprometida com a justiça social.

Em síntese, refletir sobre a atuação do enfermeiro no pré-natal de comunidades quilombolas é reconhecer que o cuidado em saúde está profundamente relacionado à equidade e ao respeito à diversidade. O enfermeiro é um dos principais agentes na promoção da dignidade humana, e sua prática cotidiana pode contribuir de maneira significativa para romper barreiras históricas de exclusão. Ao compreender que o ato de cuidar envolve também a valorização da cultura e do pertencimento étnico, o profissional amplia sua visão sobre o processo saúde-doença e se torna um elo fundamental na transformação das realidades sociais.

A prática da enfermagem nesses territórios vai além da execução de procedimentos. Ela envolve diálogo, paciência e sensibilidade para entender o contexto em que as gestantes estão inseridas. Essa compreensão permite que o cuidado seja realmente integral e humanizado, fortalecendo o protagonismo das mulheres e reafirmando o papel do enfermeiro como educador, mediador e defensor do direito à saúde. Cada ação desenvolvida pelo profissional de enfermagem, por menor que pareça, representa um passo importante na construção de um sistema de saúde mais acessível e justo.

Desse modo, reafirma-se que o compromisso do enfermeiro com as gestantes quilombolas deve ser contínuo e pautado em valores éticos, sociais e humanos. É imprescindível que as instituições de ensino e os gestores da saúde reconheçam a importância da formação voltada à diversidade, investindo em capacitações que abordem o cuidado intercultural, a comunicação efetiva e o combate às desigualdades. O fortalecimento da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra e o incentivo às pesquisas sobre saúde quilombola são caminhos possíveis para consolidar práticas mais inclusivas e eficazes.

Portanto, este trabalho reforça que cuidar da mulher quilombola durante o pré-natal é também cuidar da história, da cultura e da identidade de um povo. A enfermagem, enquanto profissão comprometida com a vida, deve continuar assumindo seu papel transformador, atuando de forma ética, empática e comprometida com a justiça social. Somente assim será possível promover uma assistência verdadeiramente equitativa, em que cada gestante, independentemente de sua origem, possa vivenciar a maternidade com segurança, respeito e esperança.

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1 Discente do Curso de Enfermagem da FACSUR – ivaneteribeiro170@gmail.com;
2 Orientador: Docente do Curso de Enfermagem da FACSUR – giselmopinnheiro@hotmail.com