NURSING TEAM PERFORMANCE IN CARDIOPULMONARY ARREST CARE: CHALLENGES, TRAINING, AND STRATEGIES FOR IMPROVING ASSISTANCE
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202510072255
Josivania Garcia Gomes1
Marlene De Jesus Pimenta1
Mileide Luna1
Edmilson Bezerra Cruz Junior2
Resumo
Este estudo teve como objetivo analisar a atuação da equipe de enfermagem no atendimento às vítimas de parada cardiorrespiratória (PCR) em ambiente intra-hospitalar, identificando os principais desafios enfrentados e discutindo estratégias de qualificação profissional para a melhoria da assistência. Trata-se de uma revisão integrativa da literatura que reuniu estudos publicados entre 2014 e 2024 nas bases de dados SciELO, LILACS e MEDLINE. Os achados apontaram que fatores como sobrecarga de trabalho, indisponibilidade de recursos materiais, lacunas na capacitação periódica, aspectos emocionais e falhas na liderança influenciam diretamente a qualidade do atendimento. Evidenciou-se que treinamentos frequentes, uso de simulações realísticas, suporte psicológico e fortalecimento da liderança do enfermeiro são estratégias que favorecem a resposta rápida e a redução de complicações decorrentes da PCR. Conclui-se que investimentos em educação permanente e melhoria das condições de trabalho são essenciais para garantir segurança do paciente e desempenho eficiente da equipe multiprofissional.
Palavras-chave: Parada cardiorrespiratória; Enfermagem; Reanimação cardiopulmonar; Capacitação profissional; Segurança do paciente.
1. INTRODUÇÃO
A parada cardiorrespiratória (PCR) constitui-se em uma das principais emergências clínicas, caracterizada pela interrupção súbita da circulação sanguínea e da respiração, decorrente de falhas mecânicas ou elétricas do coração. Essa condição leva, em poucos segundos, à inconsciência e, se não revertida de forma imediata e eficaz, pode resultar em morte (Trentin et al., 2024).
No cenário internacional, a American Heart Association (AHA) apontou que, em 2012, nos Estados Unidos, ocorreram aproximadamente 209 mil casos de PCR intra-hospitalar, com taxa de sobrevida de 23,1% (AHA, 2015). Em atualização mais recente, a mesma entidade destacou que cerca de 1,2% dos adultos internados em hospitais sofrem PCR intra-hospitalar (AHA, 2020).
No Brasil, apesar do reconhecimento das doenças cardiovasculares como principal causa de morte, os dados sobre incidência e sobrevida em PCR ainda são escassos, dificultando a elaboração de políticas públicas mais assertivas (Bernoche et al., 2019).
O manejo da PCR envolve manobras de ressuscitação cardiopulmonar (RCP) de alta qualidade, ventilação adequada e aplicação de condutas específicas de acordo com a identificação do ritmo, que podem ser classificados em chocáveis — Fibrilação Ventricular (FV) e Taquicardia Ventricular (TV) —, com indicação de desfibrilação, e não chocáveis — assistolia e atividade elétrica sem pulso (AESP) —, geralmente associados a piores prognósticos (Lopes et al., 2021; Bernoche et al., 2019).
O sucesso do atendimento depende do reconhecimento precoce, da disponibilidade de equipamentos e da atuação qualificada dos profissionais. Nesse contexto, a equipe de enfermagem, por permanecer em contato direto e contínuo com o paciente, desempenha papel central tanto na detecção precoce da PCR quanto na execução das condutas de suporte à vida. Além disso, o enfermeiro, como líder do time, deve coordenar as ações, atribuir funções e garantir a aplicação das evidências técnico-científicas mais atualizadas (Moura et al., 2019; Ribeiro et al., 2020).
O ambiente de emergência hospitalar é marcado pela imprevisibilidade, pela alta demanda assistencial e pela necessidade de respostas rápidas. Entretanto, a qualidade da assistência pode ser comprometida por múltiplos fatores: sobrecarga de trabalho, déficit de pessoal, escassez de recursos materiais e estruturais, bem como a necessidade de capacitação contínua e o impacto emocional sobre os profissionais (Silva et al., 2021; Oliveira; Santos; Batista, 2019).
Soma-se a isso a dificuldade de retenção do conhecimento teórico-prático: estudos demonstram redução significativa das habilidades em RCP poucos meses após treinamentos, reforçando a necessidade de reciclagens periódicas e simulações clínicas realísticas para manter a prontidão da equipe (Kuzma et al., 2020).
Diante desse cenário, a presente revisão integrativa tem como objetivo geral analisar a importância da capacitação para os profissionais da equipe de enfermagem no atendimento de pacientes vítimas de PCR e identificar os desafios enfrentados na prática clínica, com vistas a subsidiar estratégias de qualificação da assistência. A realização deste estudo se justifica pela alta morbimortalidade associada à PCR e pelo papel estratégico da enfermagem no reconhecimento precoce, execução das manobras de RCP e liderança das ações no ambiente de emergência. Compreender essas barreiras é fundamental para propor intervenções que incluam adequação do dimensionamento de pessoal, melhoria da infraestrutura, suporte emocional aos profissionais e fortalecimento de programas de educação permanente.
Por fim, ao sistematizar a produção científica sobre o tema, este estudo busca contribuir para o fortalecimento da prática baseada em evidências, incentivando gestores e instituições a investir em treinamento regular, protocolos atualizados e estratégias que favoreçam o trabalho em equipe e a segurança do paciente. Os resultados esperados podem apoiar a implementação de políticas institucionais voltadas à melhoria dos desfechos clínicos e à redução da mortalidade por PCR, além de estimular futuras pesquisas que aprofundem a compreensão dos aspectos emocionais, estruturais e organizacionais que permeiam esse cuidado.
2. REFERENCIAL TEÓRICO
2.1 ATENDIMENTO AO PACIENTE VÍTIMA DE PARADA CARDIORRESPIRATÓRIA
A parada cardiorrespiratória (PCR) é considerada um grave problema de saúde pública mundial e permanece como uma das principais causas de morte, mesmo com os avanços na prevenção e no tratamento das doenças cardiovasculares. É definida como a interrupção abrupta das atividades elétricas e mecânicas do coração, resultando na ausência de pulso e movimentos respiratórios. Essa condição gera hipóxia tecidual generalizada, levando a um processo de isquemia que compromete progressivamente a funcionalidade dos órgãos vitais e, se não revertida rapidamente, evolui para o óbito (Farias et al., 2022).
O atendimento à PCR requer resposta imediata e coordenada de uma equipe multiprofissional. A literatura evidencia que o determinante mais importante para a sobrevivência do paciente é a agilidade e a competência do profissional que inicia a reanimação cardiopulmonar (Pinheiro et al., 2019; Silva et al., 2020). No ambiente hospitalar, a equipe deve estar capacitada para realizar as etapas do Suporte Básico de Vida (SBV) e do Suporte Avançado de Vida (SAV), que incluem compressões torácicas de qualidade, ventilação adequada, administração de drogas vasoativas e identificação das causas reversíveis da PCR.
O SBV segue uma sequência sistemática: avaliar a segurança do ambiente, verificar responsividade da vítima, acionar ajuda e desfibrilador, checar respiração e pulso, e, diante da PCR, iniciar compressões torácicas imediatas associadas à ventilação (AHA, 2015). Protocolos nacionais e internacionais reforçam a importância da cadeia de sobrevivência, cujo êxito está diretamente ligado à execução de manobras de RCP de alta qualidade, com frequência e profundidade adequadas, mínima interrupção nas compressões e retorno completo do tórax entre elas (Villela, 2023).
Diversos estudos apontam lacunas no conhecimento teórico-prático dos profissionais de enfermagem sobre PCR. Carlos, Costa e Nascimento (2023) identificaram déficit na identificação da tríade diagnóstica — inconsciência, ausência de respiração e pulso — e na padronização das condutas após a PCR, incluindo uso correto de fármacos como a epinefrina. Pesquisa realizada em um pronto-socorro adulto em São Paulo constatou que, apesar de reconhecerem os sinais clássicos e a sequência de atendimento, muitos profissionais apresentaram dificuldade em identificar ritmos chocáveis e condutas pós-desfibrilação (Rios; Oliveira, 2023). De forma semelhante, Oliveira, Lima e Scholze (2021) verificaram que, embora os profissionais conheçam os passos do SBV, apresentam fragilidade na execução do SAV, na relação compressão/ventilação e no uso de drogas.
Essas evidências reforçam a necessidade de processos contínuos de educação permanente, treinamentos regulares e simulações realísticas, que aumentem a segurança do profissional e promovam uma assistência mais eficaz e padronizada. Além de atualizar conhecimentos, essas estratégias contribuem para reduzir inseguranças, melhorar a comunicação da equipe e alinhar condutas de acordo com os protocolos mais recentes.
2.2 PAPEL DO ENFERMEIRO DURANTE A PCR
O enfermeiro desempenha um papel central no atendimento à parada cardiorrespiratória (PCR), sendo frequentemente o primeiro profissional a identificar alterações no estado clínico do paciente e a acionar o time de resposta rápida (Kugaz, 2021). Sua atuação não se limita ao conhecimento técnico de protocolos de reanimação; ela envolve habilidades de liderança, comunicação efetiva e tomada de decisão em situações de alta pressão, coordenando as ações da equipe, delegando funções, estabelecendo prioridades e garantindo que cada etapa do atendimento ocorra de maneira ágil e eficaz (Pereira et al., 2020).
Segundo Rios et al. (2023), os desfechos positivos após emergências médicas estão diretamente relacionados à capacidade dos primeiros respondedores — frequentemente a equipe de enfermagem — em reconhecer precocemente a PCR e iniciar as manobras de reanimação nos minutos iniciais. Essa ação imediata, combinada com a liderança do enfermeiro e a colaboração entre os membros da equipe, aumenta significativamente a taxa de sucesso da reanimação, reduzindo a morbimortalidade associada à PCR (Smith & Jones, 2019). Além disso, o enfermeiro atua como facilitador da comunicação entre profissionais de diferentes áreas e garante a integração das diretrizes clínicas aos procedimentos práticos, contribuindo para a segurança do paciente e a eficácia do atendimento (Souza & Carvalho, 2022). Diante disso, o investimento na formação e capacitação contínua desses profissionais, especialmente no desenvolvimento de habilidades de liderança, comunicação e tomada de decisão em contexto crítico, torna-se essencial para assegurar respostas mais efetivas às situações de PCR, fortalecendo a qualidade do cuidado e a segurança da equipe (Kleinman et al., 2020).
Além disso, estudos evidenciam que a prática de simulações e treinamentos periódicos em PCR é fundamental para consolidar as habilidades técnicas e de liderança do enfermeiro, aprimorando a tomada de decisão sob pressão e a coordenação da equipe (Anderson et al., 2021). A simulação realística permite que os profissionais vivenciem situações críticas em um ambiente controlado, identifiquem falhas na comunicação e nos processos, e desenvolvam estratégias para otimizar o atendimento (Gonzalez & Martins, 2022). Dessa forma, o treinamento contínuo não apenas fortalece a confiança do enfermeiro, mas também contribui para a segurança do paciente e melhora os desfechos clínicos, reafirmando a importância da educação permanente como ferramenta estratégica na resposta à PCR (Resuscitation Council, 2020).
2.3 DA CAPACITAÇÃO DOS PROFISSIONAIS DE ENFERMAGEM PARA O ATENDIMENTO AO PACIENTE VÍTIMA DE PARADA CARDIORRESPIRATÓRIA
A demora em se iniciar ou mesmo a não realização da RCP por parte dos profissionais da saúde, diminuem as chances de sobrevida do paciente, assim como a falta de preparo e treinamento dos profissionais são fatores que prejudicam o atendimento. Por outro lado, melhorias na execução do SBV são importantes para o atendimento das vítimas de PCR, pois a rapidez e a eficiência da intervenção da equipe são cruciais para evitar maiores complicações (Silva et., 2020).
As diretrizes da American Heart Association (AHA) para o cuidado de pacientes com PCR são atualizadas frequentemente, portanto este grupo de profissionais deve atualizar continuamente seus conhecimentos teóricos e práticos a respeito da temática (Silva et al., 2020).
No contexto hospitalar, o enfermeiro atua na linha de frente junto com a equipe técnica, fato que o torna um dos profissionais que pode primeiro visualizar a evolução da parada cardiorrespiratória de um paciente. Diante desse fato, o profissional deve estar apto a acionar a equipe para o processo de reanimação e é sua importante responsabilidade buscar melhorias técnicas e científicas para coordenar e alinhar o trabalho em equipe (Gusmão et al., 2021).
Estudo de revisão integrativa da literatura, realizado com o objetivo de evidenciar e discutir as principais dificuldades do enfermeiro diante a uma RCP, reuniu artigos científicos publicados entre os anos de 2011 a 2019 da área da saúde. Os resultados da pesquisa mostraram que os obstáculos enfrentados pela equipe de enfermagem diante de um atendimento de uma PCR estão diretamente relacionados com a falta de atualização profissional frente às diretrizes e protocolos vigentes em conjuntura a aptidão física e o tempo resposta do atendimento (Araújo et al., 2021).
Corroborando com os autores supracitado Martins, 2020 reflete que é importante dar continuidade à capacitação com outras estratégias, a fim de se obter melhores resultados na assistência ao paciente (Martins et al., 2020).
Em contrapartida, uma experiência exitosa foi observada por pesquisadores que utilizaram a simulação in situ, ou seja, no setor/ambiente de trabalho para o ganho da autoconfiança de profissionais de enfermagem na parada cardiopulmonar. Ao final do estudo observaram que a autoconfiança dos profissionais de enfermagem havia melhorado significativamente com o emprego da simulação in situ, quando comparada à aula didática tradicional, dialogada (Rodrigues, 2022).
Diante das discussões e evidências, salienta-se a relevância de investir na educação permanente desses profissionais de saúde, sempre revisando os métodos utilizados e seu grau de eficácia, de forma a desenvolver nos serviços de saúde trabalhadores qualificados, que tenham segurança em suas práticas por meio de conhecimento embasado em protocolos atualizados e evidências científicas, a fim de também assegurar a segurança do paciente.
3. METODOLOGIA
Trata-se de um estudo de revisão integrativa da literatura, método que possibilita a busca, a avaliação crítica e a síntese de evidências disponíveis sobre determinado tema, proporcionando maior compreensão do fenômeno investigado e identificação de lacunas no conhecimento (Mendes et al, 2008).
O processo de revisão seguirá as seis etapas propostas por Mendes et al. (2008): (1) identificação do problema e formulação da questão de pesquisa; (2) estabelecimento de critérios de inclusão e exclusão; (3) definição das bases de dados e estratégia de busca; (4) avaliação crítica dos estudos selecionados; (5) análise e interpretação dos achados; e (6) apresentação da revisão e síntese do conhecimento. A questão norteadora definida foi: “Quais são os desafios enfrentados pelos profissionais de enfermagem em serviços de emergência na assistência a pacientes vítimas de parada cardiorrespiratória?”.
Para orientar a construção da estratégia de busca, utilizou-se o mnemônico População, Conceito e Contexto (PCC), conforme Hortelan (2019). Foram selecionados descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e Medical Subject Headings (MeSH), além de sinônimos e palavras chave relacionados ao tema.
O Quadro 1 apresenta a correspondência entre os elementos do PCC e os descritores utilizados.
A busca foi realizada nas bases de dados: Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), via Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), Index Medicus Eletronic da National Library of Medicine (MEDLINE/PubMed), Scientific Electronic Library Online (SciELO) e PsycINFO. Critérios de inclusão: artigos completos disponíveis on-line e gratuitamente, publicados entre 2014 e 2024, nos idiomas português, inglês ou espanhol, que abordam a atuação da enfermagem frente à parada cardiorrespiratória em contextos de emergência. Critérios de exclusão: editoriais, cartas ao leitor, dissertações, teses, estudos repetidos nas bases ou que não respondessem à questão norteadora.
Quadro 1. Descrição dos DECS, meSH e termos livres utilizados na formulação das estratégias de busca

O recorte temporal para a presente pesquisa deve-se, pois, as atualizações AHA acontecem a cada 5 anos, portanto a pesquisa abrange as duas últimas atualizações ocorridas em 2015 e 2024.
Quadro 2. Mecanismos de busca nas bases de dados selecionadas através dos descritores/termos da estratégia PCC

Este estudo seguiu as recomendações Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and MetaAnalyses (PRISMA), conforme ilustrado na Figura 1. Para a interpretação dos resultados e a apresentação da revisão, optou-se por discutir os achados a partir de avaliação crítica dos temas sobre a questão de pesquisa do estudo.Para a extração e organização dos dados será utilizado um quadro sinóptico contendo informações sobre autor, ano de publicação, objetivo do estudo, tipo de pesquisa, principais resultados (O’BRIEN et al., 2014).
Após leitura cuidadosa e análise dos arquivos encontrados, foram excluídos os estudos que se enquadrarem na tipologia de teses ou dissertações, que apresentaram conteúdo fora da temática proposta e repetidos. Resultando por final a elaboração de um quadro de resumos, no qual foram tabulados os principais resultados.
Figura 1. Fluxograma de busca e seleção dos artigos, Porto Velho, Brasil, 2025

4. RESULTADOS
A busca nas bases de dados previamente selecionadas resultou em um total de 72 estudos. Após a leitura dos títulos e resumos, foram excluídos os artigos duplicados e aqueles que não atendiam aos critérios de inclusão previamente definidos. Restaram 64 artigos para leitura na íntegra. Destes, 46 foram excluídos por não responderem à questão norteadora ou por apresentarem baixa qualidade metodológica, compondo, assim, uma amostra final de 18 artigos que integraram esta revisão.
O processo de seleção seguiu as etapas recomendadas pelo método PRISMA, garantindo maior rigor e transparência na condução da pesquisa. Dessa forma, buscou-se contemplar estudos que abordassem os desafios enfrentados pela equipe de enfermagem nos serviços de emergência durante o atendimento ao paciente em parada cardiorrespiratória, incluindo aspectos relacionados à capacitação, tempo de resposta, recursos disponíveis e liderança do enfermeiro.
A caracterização dos artigos incluídos encontra-se descrita no Quadro 3, que apresenta os principais autores, ano de publicação, país, objetivo do estudo, método e resultados relevantes para esta investigação.
Quadro 3 Caracterização dos estudos incluídos na revisão integrativa




5. DISCUSSÃO
A demora em se iniciar ou mesmo a não realização da ressuscitação cardiopulmonar (RCP) por parte dos profissionais da saúde diminui as chances de sobrevida do paciente. A falta de preparo e de treinamento dos profissionais são fatores que prejudicam o atendimento, reforçando a importância de melhorias na execução do Suporte Básico de Vida (SBV). A rapidez e a eficiência da intervenção são cruciais para evitar complicações neurológicas e garantir o retorno da circulação espontânea (Silva et al., 2020).
As diretrizes da American Heart Association (AHA) são atualizadas frequentemente e enfatizam a necessidade de atualização contínua dos profissionais de saúde. Manter conhecimentos teóricos e práticos atualizados é essencial para que a equipe multiprofissional execute as manobras corretamente e de acordo com os protocolos mais recentes (Silva et al., 2020). No contexto hospitalar, o enfermeiro atua na linha de frente, muitas vezes sendo o primeiro a identificar a evolução de uma parada cardiorrespiratória. Cabe a esse profissional acionar rapidamente a equipe e coordenar o processo de reanimação, buscando alinhar o trabalho em equipe de maneira técnica e científica (Gusmão et al., 2021).
Nesse sentido, estudos apontam que a equipe de enfermagem é geralmente responsável por identificar e iniciar as manobras de RCP. Assim, torna-se imprescindível a capacitação periódica de enfermeiros e técnicos, de forma a garantir que a assistência seja prestada em conformidade com as diretrizes e protocolos atualizados (Nassau et al., 2018). Entretanto, obstáculos como a falta de atualização profissional, aptidão física e tempo de resposta impactam negativamente os resultados. Esses fatores, identificados por Araújo et al. (2021), demonstram a relevância da educação permanente para o desenvolvimento de competências técnicas e de raciocínio clínico.
Moura et al. (2019), ao investigar o conhecimento da equipe de enfermagem em um hospital universitário, identificaram que as respostas dos profissionais, em relação à detecção da PCR e às ações de SBV e SAV, foram apenas parcialmente corretas. Essa constatação demonstra a necessidade de uniformização das práticas e padronização das condutas para que o atendimento seja ágil e eficaz.
No entanto, nem todas as estratégias de capacitação se mostram igualmente efetivas. Martins et al. (2020), ao utilizar videoaulas como ferramenta de ensino sobre RCP, concluíram que essa metodologia isolada não foi suficiente para o aprendizado adequado. Os autores sugerem a adoção de métodos complementares, como simulações realísticas e treinamentos presenciais, para garantir melhor desempenho da equipe durante situações reais de PCR.
Uma experiência bem-sucedida foi observada por Almeida, Duarte e Magro (2019), que utilizaram simulação in situ no próprio ambiente de trabalho, proporcionando maior aproximação da prática clínica. Essa estratégia resultou em melhora significativa na autoconfiança dos profissionais, em comparação às aulas dialogadas tradicionais. Essa evidência corrobora a importância de metodologias ativas que favoreçam a prontidão da equipe para situações de emergência.
Outro desafio importante identificado foi a sobrecarga de trabalho e as condições assistenciais. O dimensionamento inadequado de pessoal, a alta demanda de pacientes e o ritmo intenso nas emergências comprometem o reconhecimento precoce da PCR e aumentam o tempo para início das manobras, reduzindo as chances de sobrevida (Dias et al.; Moura et al., 2020). Além disso, a multitarefa e o acúmulo de funções geram fadiga, impactando diretamente na qualidade das compressões torácicas.
A indisponibilidade de recursos materiais e estruturais também se mostrou um fator crítico. Oliveira et al. (2017) e Campos et al. (2016) relataram situações de desfibriladores inoperantes, carrinhos de emergência incompletos e falhas na organização de insumos, que atrasam intervenções essenciais. A literatura recomenda padronização de kits de emergência e manutenção preventiva de equipamentos para reduzir o tempo de resposta e assegurar maior eficiência no atendimento.
A capacitação periódica, nesse contexto, surge como eixo central para a melhoria do atendimento. Estudos como os de Pisciottani et al. (2023), Rios et al. (2019) e Sonnberger et al. (2021) comprovaram que treinamentos regulares, uso de simulações, serious games e outras estratégias aumentam o conhecimento, a autoconfiança e reduzem erros durante o atendimento. Esse achado dialoga com as recomendações da AHA, que orientam capacitações anuais e contínuas. Um estudo comparativo ainda mostrou que simulações realizadas a cada dois ou quatro meses foram mais eficazes do que treinamentos em longos intervalos (Trentini, 2024).
Além dos aspectos técnicos e estruturais, os fatores emocionais também impactam o desempenho da equipe. Pesquisas qualitativas de Almeida et al. (2014) e Dias et al. (2020) relataram que sentimentos de ansiedade, insegurança e medo de falhar são comuns, especialmente em situações inesperadas ou envolvendo pacientes pediátricos. Esses estados emocionais podem comprometer a coordenação motora e a tomada de decisão. Ademais, sinais de burnout foram identificados em profissionais de enfermagem, indicando necessidade de suporte psicológico e estratégias de cuidado à saúde mental.
Por fim, a liderança e o trabalho em equipe foram amplamente destacados como determinantes para o sucesso da reanimação. Moura et al. (2019) e Rodrigues et al. (2020) evidenciaram que a presença de um enfermeiro líder treinado reduz o tempo de início das manobras e aumenta a sincronia das ações da equipe. A comunicação clara, a definição de papéis e os treinamentos multiprofissionais são fatores que fortalecem a colaboração e ampliam a eficiência no atendimento à PCR.
A análise dos 18 artigos revelou que os desafios enfrentados pela equipe de enfermagem durante o atendimento à PCR são multifatoriais e interdependentes. Sobrecarga de trabalho, limitações estruturais, carência de treinamentos regulares e fatores emocionais impactam diretamente a qualidade da assistência. Por outro lado, a presença de liderança efetiva, protocolos bem definidos e programas contínuos de capacitação surgem como estratégias potencialmente eficazes para otimizar o atendimento e reduzir a mortalidade em casos de PCR intra-hospitalar.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este estudo teve como objetivo identificar os principais desafios enfrentados pela equipe de enfermagem no atendimento a pacientes vítimas de parada cardiorrespiratória em serviços de emergência. A revisão integrativa de 18 artigos evidenciou que os obstáculos mais frequentes estão relacionados à sobrecarga de trabalho, insuficiência de recursos estruturais, necessidade de capacitação contínua, fatores emocionais e liderança no trabalho em equipe. Esses achados confirmam que o atendimento à PCR é um evento complexo, que demanda não apenas conhecimento técnico, mas também condições adequadas de trabalho e suporte institucional.
Os resultados desta revisão reforçam a importância de investimentos em treinamento regular, uso de simulações realísticas e protocolos padronizados, além da manutenção preventiva de equipamentos e do dimensionamento adequado de pessoal. A implementação de estratégias de apoio emocional, como debriefing pós-evento e programas de saúde mental, também se mostraram essenciais para a redução do estresse ocupacional e para a preservação da qualidade da assistência. A liderança do enfermeiro como coordenador da equipe multiprofissional se destacou como fator determinante para o sucesso do atendimento, evidenciando a necessidade de desenvolver habilidades de gestão e comunicação entre os profissionais.
Como contribuição para futuras pesquisas, sugere-se o desenvolvimento de estudos multicêntricos que avaliem o impacto de programas de capacitação periódica e de intervenções institucionais voltadas à melhoria da infraestrutura e do bem-estar dos profissionais. Investigações qualitativas mais aprofundadas também são recomendadas, para explorar como os fatores emocionais influenciam a performance clínica durante a PCR e para identificar estratégias inovadoras que potencializam a segurança do paciente e a efetividade das manobras de ressuscitação.
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1Discente do Curso Superior de Enfermagem Centro Universitário Aparício Carvalho e-mail: josygarcia056@gmail.com; mileideluna@gmail.com; almeidamarlene587@gmail.com.
2Docente do Curso Superior de Enfermagem do Instituto Centro Universitário . Mestre em Práticas do Cuidado em saúde UFPR e-mail: edmilson.junior@fimca.com.br
