MEDICAL CARE IN RURAL COMMUNITIES IN THE AMAZON: EXPERIENCE REPORT OF THE RURAL INTERNSHIP IN THE JATUARANA SETTLEMENT, CANUTAMA–AM
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ma10202601081116
Maricélia Messias Cantanhêde dos Santos1
Regilany Freitas Monteiro2
Andressa Lima da Silva3
Soraia Rohers Penha4
RESUMO
A atenção à saúde em comunidades rurais amazônicas representa um campo estratégico para o Sistema Único de Saúde – SUS em razão da combinação singular de determinantes sociais, barreiras geográficas e especificidades culturais que condicionam o adoecimento e o cuidado. Este artigo tem como objetivo descrever e analisar a experiência, as estratégias e os desafios do atendimento médico em uma comunidade rural amazônica durante um Internato Rural no Ramal Jatuarana, Canutama–AM, à luz dos princípios da Atenção Primária à Saúde e das políticas públicas brasileiras, considerando os determinantes sociais do processo saúde-doença, utilizando como método o relato de experiência descritivo-reflexivo, baseado em observação participante, registros de campo e discussões com equipe da Estratégia Saúde da Família e Agentes Comunitários de Saúde. A experiência evidenciou barreiras relevantes de acesso, como sazonalidade de estradas vicinais, transporte sanitário irregular e limitações estruturais como conectividade instável, escassez de insumos, concluindo que em territórios amazônicos, a efetividade da APS depende de organização territorial adaptativa, tecnologias leves e leves-duras e pactuações logísticas regionais, destacando o Internato Rural como dispositivo formativo e assistencial potente para fortalecer vínculo, resolutividade e equidade no SUS, mesmo em cenários de escassez.
Palavras-chave: Atenção Primária à Saúde; Populações Rurais; Amazônia; Medicina; Internato Rural; Estratégia Saúde da Família; Determinantes Sociais da Saúde.
1. INTRODUÇÃO
A atenção à saúde em comunidades rurais amazônicas representa um campo estratégico para o Sistema Único de Saúde – SUS em razão da combinação singular de determinantes sociais, barreiras geográficas e especificidades culturais que condicionam o adoecimento e o cuidado. Na Amazônia, a dispersão demográfica, a intermitência de vias de acesso (rodoviárias e fluviais), a sazonalidade climática e a baixa densidade de serviços dificultam a garantia dos atributos essenciais da Atenção Primária à Saúde que são: acesso de primeiro contato, longitudinalidade, integralidade e coordenação do cuidado estabelecidos como norteadores do modelo de atenção brasileiro (STARFIELD, 2002; BRASIL, 2017).
A Política Nacional de Atenção Básica – PNAB, orienta a organização da APS em bases territoriais, com adscrição de populações e responsabilização sanitária, incorporando trabalho em equipe multiprofissional e participação social como eixos estruturantes (BRASIL, 2017). Em paralelo, a Política Nacional de Saúde Integral das Populações do Campo, da Floresta e das Águas reconhece a diversidade de modos de vida e a necessidade de arranjos organizativos sensíveis às condições ecológicas, produtivas e culturais, propondo estratégias específicas para superar iniquidades históricas (BRASIL, 2011). Na prática, essas diretrizes demandam processos de trabalho flexíveis que articulem tecnologias leves como acolhimento, vínculo, escuta qualificada, negociação de planos e leves-duras como protocolos clínicos, estratificação de risco, classificação de vulnerabilidades, com tecnologias duras adequadas como transporte sanitário, insumos, conectividade para o alcance de resultados em saúde (OPAS, 2020; GIOVANELLA et al., 2020).
A literatura evidencia que, em áreas remotas da Amazônia, o acesso geográfico e financeiro aos serviços constitui barreira crítica, impactando o tempo oportuno de atendimento e a continuidade terapêutica, sobretudo em condições crônicas como hipertensão e diabetes (GARNELO et al., 2018). A intermitência de transporte e comunicação também afeta a vigilância de agravos infecciosos e eventos sazonais (malária, arboviroses, diarreias), que exigem respostas rápidas, coordenação intersetorial e estratégias educativas contextualizadas (BRASIL, 2021; BRASIL, 2023). Neste cenário, a presença ativa de Agentes Comunitários de Saúde – ACS e a organização de agendas móveis por microterritórios tornam-se arranjos custo efetivos para ampliar cobertura, reduzir itinerários terapêuticos desnecessários e qualificar a responsabilização longitudinal (BRASIL, 2019).
O eixo formativo do Internato Rural em saúde ao aproximar estudantes e equipes da realidade vivida pela população, contribui para o desenvolvimento de competências clínicas generalistas, comunicação intercultural e gestão do processo de trabalho, articulando ensino, atenção, gestão e controle social, tornando-se dispositivos privilegiados para conformar práticas clínicas e comunitárias alinhadas ao território, fortalecendo a capacidade resolutiva da APS e a qualidade do cuidado. (GIOVANELLA et al., 2020).Sob a perspectiva pedagógica e assistencial, a imersão territorial possibilita o exercício crítico da clínica ampliada, a integração ensino-serviço-comunidade e a produção de evidências práticas sobre o que funciona, em que condições e com quais custos de oportunidade. Esse aprendizado situado é decisivo para consolidar uma APS centrada nas pessoas e na família, com foco em determinantes sociais e no cuidado compartilhado (OPAS, 2020).
1.1 Atenção Primária à Saúde (APS) e as Políticas Públicas Brasileiras
A Atenção Primária à Saúde no Brasil configura-se como eixo estruturante das políticas públicas de saúde, sendo essencial para o enfrentamento das iniquidades regionais e para a consolidação do direito universal à saúde. A efetividade desse nível de atenção exige a integração entre as políticas nacionais, o fortalecimento das equipes multiprofissionais e a adaptação contínua das práticas ao contexto sociocultural dos territórios.
A APS constitui-se como a principal porta de entrada do SUS e base estruturante da rede de atenção à saúde no Brasil, fundamentada nos princípios de universalidade, integralidade e equidade, a APS busca garantir o cuidado contínuo, integral e resolutivo, orientado pelas necessidades de saúde da população representando não apenas um nível de atenção, mas uma estratégia de reorganização do modelo assistencial, visando à ampliação do acesso e à coordenação do cuidado ao longo das redes de atenção.
A consolidação da APS no Brasil decorre de um conjunto de marcos normativos e políticas públicas. Entre eles, destaca-se a Política Nacional de Atenção Básica – PNAB, instituída pela Portaria nº 2.436/2017, que define a Atenção Básica como o primeiro nível de atenção e ordenadora do cuidado, com base em ações de promoção, prevenção, diagnóstico, tratamento e reabilitação (BRASIL, 2017). A PNAB reforça a atuação das Equipes de Saúde da Família – ESF e das Equipes de Atenção Básica como arranjos centrais da estratégia, reafirmando os atributos essenciais de acesso de primeiro contato, longitudinalidade, integralidade e coordenação do cuidado, além dos atributos derivados como orientação comunitária e competência cultural.
A estruturação da APS brasileira está profundamente articulada à proposta constitucional do SUS, instituído pela Constituição Federal de 1988, que reconhece a saúde como direito de todos e dever do Estado, assegurando o acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação (BRASIL, 1988). A partir da década de 1990, políticas estruturantes, como o Programa Saúde da Família – PSF, posteriormente denominado Estratégia Saúde da Família – ESF, consolidaram o paradigma da territorialização, do vínculo e da responsabilização sanitária das equipes. A PNAB em conjunto com outras políticas complementares reforçam o papel estratégico da APS, entre elas a Política Nacional de Promoção da Saúde – PNPS, que orienta ações intersetoriais voltadas à melhoria das condições de vida e à redução das vulnerabilidades sociais; Política Nacional de Educação Permanente em Saúde – PNEPS, que valoriza o aprendizado em serviço como eixo de qualificação contínua dos profissionais do SUS e a Política Nacional de Humanização (PNH), que propõe práticas centradas no usuário e no trabalho colaborativo (BRASIL, 2018).
O Brasil, ao longo das últimas décadas, tem avançado na ampliação da cobertura e na consolidação da ESF como eixo do cuidado primário, embora enfrente desafios quanto à integração das redes e à sustentabilidade financeira do modelo. A qualificação da APS depende do uso de tecnologias de informação e comunicação, da incorporação de práticas de vigilância em saúde e da valorização dos profissionais que atuam na ponta do sistema. O e-SUS na Atenção Primária, sistema de informação do Ministério da Saúde, constitui um avanço na padronização de registros e no monitoramento da produção em saúde, permitindo maior integração entre os diferentes níveis de atenção (BRASIL, 2019).
A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS, 2020) reafirma que uma APS forte e resolutiva é a base para sistemas de saúde sustentáveis e equitativos, sendo responsável por até 80% das necessidades em saúde da população quando devidamente estruturada. O fortalecimento da APS implica reconhecer a complexidade do território e seus determinantes sociais. Estudos de Garnelo et al. (2018) evidenciam que a cobertura e a qualidade da APS no Brasil variam conforme as desigualdades regionais, sendo mais críticas nas áreas rurais, indígenas e ribeirinhas da Amazônia. Nesses contextos, o acesso geográfico, a comunicação e a oferta de profissionais de saúde são determinantes centrais da equidade.
1.2 Determinantes Sociais da Saúde e os Atributos da Atenção Primária à Saúde no Processo Saúde-Doença
A compreensão do processo saúde-doença ultrapassa a dimensão biológica e envolve múltiplos fatores que interagem no contexto social, econômico, ambiental e cultural das populações. Esses fatores, conhecidos como Determinantes Sociais da Saúde, influenciam diretamente as condições de vida, o acesso aos serviços de saúde e os desfechos em saúde da população (BUSS; PELLEGRINI FILHO, 2007). A Organização Mundial da Saúde define os DSS como “as circunstâncias em que as pessoas nascem, crescem, vivem, trabalham e envelhecem”, influenciadas pela distribuição de recursos, poder e políticas públicas (OMS, 2008).
No Brasil, o Comitê Nacional sobre Determinantes Sociais da Saúde reforça que as desigualdades em saúde são produto das iniquidades sociais, expressas em fatores como renda, educação, moradia, saneamento básico e acesso à informação (BRASIL, 2008). Portanto, a promoção da equidade requer uma abordagem intersetorial e uma atenção primária estruturada sobre os determinantes sociais e o território.Diante do contexto, a Atenção Primária à Saúde é o nível organizador do sistema de saúde, sendo reconhecida como a principal estratégia para enfrentar as desigualdades e garantir a integralidade do cuidado (STARFIELD, 2002; BRASIL, 2017).
Segundo Starfield (2002), a APS deve se orientar por quatro atributos essenciais: acesso de primeiro contato, longitudinalidade, integralidade e coordenação do cuidado aos quais se somam atributos derivados, como a orientação familiar e comunitária que interagem com os determinantes sociais e condicionam a efetividade das políticas públicas de saúde.
1.3 Os Atributos da Atenção Primária à Saúde no Processo Saúde-Doença
A compreensão dos Determinantes Sociais da Saúde e a consolidação dos atributos essenciais da APS são condições indispensáveis para a efetivação do SUS e para a construção de uma atenção à saúde verdadeiramente universal, equitativa e centrada nas pessoas. A articulação entre clínica, território e política pública representa o caminho mais consistente para a promoção da saúde e a redução das iniquidades no Brasil contemporâneo.
Acesso à saúde– corresponde à capacidade dos indivíduos de obter atendimento apropriado quando dele necessitam, sem barreiras geográficas, econômicas ou organizacionais (TRAVASSOS; MARTINS, 2004). No Brasil, ainda existem desigualdades expressivas entre áreas urbanas e rurais, regiões metropolitanas e amazônicas, com populações que enfrentam grandes distâncias e carência de serviços básicos (GARNELO et al., 2018). O acesso na APS, portanto, não se limita à presença física dos serviços, mas inclui disponibilidade de profissionais, acolhimento, horário de funcionamento, acessibilidade cultural e resolutividade das equipes (GIOVANELLA et al., 2020).
Longitudinalidade– refere-se ao acompanhamento contínuo do indivíduo ao longo do tempo, por uma equipe que conhece sua história de saúde, contexto familiar e social, esse atributo favorece o vínculo e a confiança entre profissionais e usuários, além de permitir a detecção precoce de agravos e a prevenção de complicações.
A longitudinalidade é especialmente relevante em populações vulneráveis, em que a fragmentação da atenção aumenta o risco de descontinuidade terapêutica e de agravos evitáveis. Integralidade– é entendida como a oferta de ações de promoção, prevenção, tratamento e reabilitação, articuladas entre os diferentes níveis de atenção e ajustadas às necessidades da pessoa e da comunidade (MATTOS, 2004). Esse princípio implica reconhecer que os problemas de saúde não se limitam ao âmbito biológico, mas envolvem dimensões psicológicas, sociais e culturais. Assim, a integralidade traduz a capacidade do sistema de ofertar cuidado ampliado e centrado na pessoa, articulando práticas clínicas, vigilância em saúde e políticas intersetoriais (BRASIL, 2017).
Coordenação do cuidado– é o atributo que garante a continuidade e a coerência das ações entre os diferentes serviços e profissionais que acompanham o usuário. No SUS, ela se materializa por meio da referência e contrarreferência, do uso de sistemas de informação integrados e do papel mediador das equipes da APS (BRASIL, 2019). A ausência de coordenação leva à fragmentação, repetição de exames, desperdício de recursos e descontinuidade terapêutica. Já quando bem estruturada, a coordenação assegura a integralidade do cuidado e contribui para a eficiência e equidade do sistema.
1.4 Relação entre APS e Determinantes Sociais da Saúde
A atuação da APS sobre os DSS é fundamental para reduzir iniquidades e melhorar os indicadores populacionais. Estudos demonstram que países com sistemas de saúde orientados pela APS apresentam menor mortalidade infantil, melhor controle de doenças crônicas e menores custos em saúde.
No Brasil, experiências exitosas da Estratégia Saúde da Família em áreas vulneráveis confirmam que o fortalecimento da APS repercute positivamente na redução das desigualdades regionais e na melhoria da qualidade de vida.
O modelo de atenção centrado no território, preconizado pela PNAB (BRASIL, 2017), possibilita o reconhecimento das vulnerabilidades locais e a articulação com políticas de educação, saneamento, assistência social e segurança alimentar. Dessa forma, o cuidado torna-se integral e equitativo, fortalecendo a cidadania e a justiça social. A APS, ao atuar de forma intersetorial e comunitária, torna-se não apenas uma instância clínica, mas também um instrumento de transformação social, ao influenciar positivamente os determinantes que produzem saúde ou doença. Diante do contexto, o presente artigo objetiva descrever e analisar a experiência, estratégias e desafios do atendimento médico em uma comunidade rural amazônica durante um Internato Rural, à luz dos princípios da Atenção Primária à Saúde e das políticas públicas brasileiras.
2. MATERIAIS E MÉTODOS
O presente estudo trata-se de um relato de experiência de natureza descritivo-reflexiva, fundamentado em vivência prática ocorrida durante o Internato Rural em Medicina no Ramal Jatuarana, município de Canutama–AM, no período de julho a setembro de 2025. Esse tipo de estudo tem como objetivo descrever e analisar criticamente situações vivenciadas no campo profissional, buscando gerar reflexões e contribuir para o aprimoramento das práticas em saúde a partir da realidade observada (GIL, 2019).
A metodologia adotada baseou-se na observação participante, instrumento característico das abordagens qualitativas que permite ao pesquisador integrar-se ao ambiente e compreender fenômenos a partir da interação direta com os sujeitos e contextos envolvidos (MINAYO, 2014). Durante o estágio, foram realizadas atividades clínicas, educativas e comunitárias em conjunto com a equipe da Estratégia Saúde da Família, Agentes Comunitários de Saúde e moradores locais. As observações foram sistematicamente registradas em diário de campo, contendo informações sobre o território, o processo de trabalho em saúde, as condições de vida e os principais agravos de saúde identificados.
Foi realizada também uma revisão integrativa da literatura, cujo propósito é sintetizar e analisar criticamente o conhecimento científico disponível acerca do acesso à saúde, estratégias e desafios do atendimento médico em comunidades rurais na Amazônia, utilizando artigos indexados publicados nos últimos quatro anos.
A análise das experiências seguiu uma abordagem descritivo-interpretativa, apoiada em categorias analíticas da Atenção Primária à Saúde: acesso, integralidade, longitudinalidade e coordenação do cuidado. Os Determinantes Sociais da Saúde, foram incorporados como eixo transversal de interpretação, de modo a contextualizar as práticas de cuidado e as vulnerabilidades observadas, segundo o modelo conceitual proposto pela Organização Mundial da Saúde e pelo Comitê Nacional sobre Determinantes Sociais da Saúde.
Por se tratar de um relato de experiência, não houve aplicação de instrumentos padronizados ou coleta de dados quantitativos. As informações foram analisadas qualitativamente, enfatizando o significado das práticas, os desafios enfrentados e as estratégias desenvolvidas para o enfrentamento das barreiras de acesso e para o fortalecimento dos princípios da APS em territórios rurais amazônicos.
A dimensão ética do estudo foi assegurada pelo compromisso com a confidencialidade das informações e o anonimato dos participantes, não sendo identificados indivíduos ou situações específicas. A devolutiva dos resultados ocorreu por meio de discussão coletiva com a médica de família e preceptora do internato, que estava responsável pela ação e pelo repasse dos registros e prontuários manuais realizados no dia e relatório de informações a equipe da USF que atende o ramal e para a Secretaria Municipal de Saúde – SEMUSA, em consonância com os princípios éticos da pesquisa em saúde pública.
A metodologia adotada privilegiou a imersão territorial, a reflexão crítica e a integração ensino-serviço-comunidade, configurando o Internato Rural como um dispositivo pedagógico e investigativo que articula teoria e prática, fortalecendo o aprendizado situado e a produção de conhecimento em contextos reais do Sistema Único de Saúde.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
A análise dos dados e sistematização dos resultados foi conduzida de forma descritiva e interpretativa, buscando identificar padrões, lacunas e contribuições relevantes dos manuscritos selecionados e da vivência em campo.
A experiência do Internato Rural no Ramal Jatuarana, no município de Canutama, AM, permitiu identificar múltiplas dimensões do cuidado em saúde em territórios amazônicos, revelando tanto potencialidades locais quanto fragilidades estruturais no acesso e na efetivação dos princípios da Atenção Primária à Saúde, pois a combinação de moradias dispersas, economia baseada na agricultura familiar e extrativismo, saneamento básico limitado e conectividade digital irregular conforma um perfil de necessidades que requer desenho organizacional adaptativo.
A vivência evidenciou desafios logísticos, socioculturais e organizacionais característicos da realidade rural amazônica, ao mesmo tempo em que demonstrou a capacidade de adaptação e criatividade das equipes de APS e dos internos para garantir a continuidade do cuidado, mesmo em condições adversas descritas a seguir:
3.1. Acesso aos serviços de saúde
Constituiu um dos principais desafios observados, as famílias do ramal Jatuarana residem em áreas de difícil alcance com deslocamento predominantemente terrestre por estradas vicinais não pavimentadas, que se tornam intransitáveis durante o período chuvoso. O transporte sanitário irregular (regularidade, disponibilidade ou adequação dos meios de transporte utilizados para o deslocamento de pacientes entre comunidades rurais e os serviços de saúde como Unidades Básicas, hospitais de referência ou centros de exames) na localidade e a distância entre as residências e a unidade básica de saúde mais próxima de 15 a 40 km, dificulta o atendimento regular e a busca espontânea por assistência em saúde. A estratégia de mitigação desta barreira, são as ações itinerantes e agendas móveis de atendimento, com pontos de encontro comunitários, nestas situações a articulação com Agentes Comunitários de Saúde é fundamental para localizar usuários, acompanhar casos crônicos e convocar famílias, fortalecendo o vínculo e a resolutividade da equipe.
Esses achados corroboram estudos de Garnelo et al. (2018), que destacam a importância da adaptação logística e do papel mediador dos ACS para superar as barreiras geográficas e culturais nas comunidades amazônicas.
3.2. Integralidade do cuidado e práticas assistenciais
A integralidade é abordada por meio de ações clínicas, preventivas e educativas, como a ação em saúde realizada no ramal Jatuarana destacada neste relato de experiência, onde foram realizadas consultas médicas, atendimentos de enfermagem e campanha de vacinação integrando aspectos biológicos, sociais e culturais no plano de cuidado. As demandas mais frequentes envolveram hipertensão arterial sistêmica (HAS), diabetes mellitus (DM), infecções respiratórias, doenças parasitárias, dores osteomusculares e queixas de saúde mental associadas ao isolamento e vulnerabilidades socioeconômicas.
Durante a consulta clínica, a abordagem integral foi sustentada pela escuta ativa, construção de vínculo e valorização dos saberes locais, o que facilitou a adesão ao tratamento e à prevenção, evidenciando a integração entre educação em saúde e clínica ampliada como fator essencial para a resolutividade em um território onde o acesso a serviços especializados é limitado.
A integralidade, nesse contexto, manifestou-se de acordo com a visão de Mattos (2004), não apenas pela oferta de múltiplos serviços, mas pela capacidade de compreender o indivíduo em seu ambiente de vida, articulando determinantes sociais e práticas intersetoriais. Essas ações evidenciam a operacionalização dos princípios da APS e das Políticas Nacionais de Saúde da Família e de Promoção da Saúde, que reconhecem a saúde como produto das condições de vida e das relações sociais.
3.3. Coordenação do cuidado e continuidade do atendimento
A coordenação do cuidado mostrou-se uma das dimensões mais desafiadoras na realidade estudada. A ausência de um sistema informatizado contínuo devido à instabilidade de conectividade dificultou o registro sistemático e a comunicação com os demais níveis da rede. Entretanto, foram adotadas estratégias paliativas, como fichas clínicas impressas, resumos de atendimento e protocolos de referência e contrarreferência manuais, garantindo uma forma de registro e rastreabilidade mínima das ações. Essa prática está alinhada ao conceito de coordenação defendido por Starfield (2002), no qual a APS atua como eixo integrador dos cuidados em saúde, garantindo coerência e continuidade ao longo do tempo.
No contexto amazônico, a coordenação é fortemente dependente da articulação pessoal e do vínculo entre profissionais e comunidade, o que reforça o valor das tecnologias leves no trabalho em saúde. Apesar das limitações, a coordenação foi fortalecida por meio de trocas de informação com a médica preceptora e outros profissionais de referência da rede municipal, demonstrando que, mesmo sem infraestrutura tecnológica, recursos e insumos escassos, é possível manter fluxos comunicativos eficazes, desde que haja engajamento das equipes e compromisso ético com o cuidado.
3.4. Longitudinalidade e vínculo comunitário
A longitudinalidade entendida como a continuidade do cuidado ao longo do tempo é favorecida pelo trabalho conjunto com os ACS e pela presença periódica das equipes de saúde no território. As visitas domiciliares e o acompanhamento de gestantes, puérperas, idosos e pacientes com doenças crônicas permitem um monitoramento mais próximo das condições de saúde e fortaleceram o vínculo entre usuários e profissionais.
Durante a ação em saúde no ramal Jatuarana a confiança estabelecida entre a comunidade e os internos foi evidenciada pela participação ativa dos moradores e pelo relato de satisfação com a presença da equipe. Esse resultado reflete o atributo da longitudinalidade descrito por Giovanella et al. (2020), que destaca o acompanhamento contínuo e relacional como determinante da qualidade assistencial e da adesão terapêutica.
3.5. Determinantes sociais do processo saúde-doença
Os determinantes sociais de saúde observados no ramal Jatuarana exerceram papel determinante sobre as condições de adoecimento. As principais vulnerabilidades identificadas incluíram saneamento básico precário, armazenamento inadequado de água, baixa escolaridade, exposição ocupacional, e isolamento geográfico. Esses fatores contribuem para a persistência de agravos infecciosos, doenças parasitárias e condições crônicas mal controladas, confirmando o que Buss e Pellegrini Filho (2007) descrevem como “iniquidades estruturais do processo saúde-doença”.
A atuação das equipes, nesse contexto, transcende a dimensão biomédica, articulando ações intersetoriais com escolas e lideranças locais para abordar determinantes de forma educativa e participativa, tornando o cuidado um processo de empoderamento social, em consonância com a Política Nacional de Promoção da Saúde e com o conceito ampliado de saúde definido pela Constituição Federal (BRASIL, 1988).
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O cuidado em saúde efetivo em zonas rurais na Amazônia, requer modelos organizacionais sensíveis ao território: equipes ampliadas, logística adaptativa, tecnologias leves (vínculo, escuta) e leves-duras (protocolos simplificados, e-SUS APS), além de teleconsultoria e pactuações regionais de transporte sanitário.
A prática clínica inserida no Internato Rural, implementada via integração, cooperação e convênios entre universidades e o Sistema Único de Saúde (SUS), reafirma que a efetividade da APS está muito além da estrutura física, requer primordialmente organização territorial do cuidado e qualidade nas relações entre profissionais, comunidade e sistema, pois, essa formação situada, favorece a articulação ensino-serviço-comunidade, promovendo tanto o atendimento quanto o fortalecimento da gestão e governança local.
De modo geral, os resultados demonstram que a atenção primária na Amazônia se concretiza por meio de práticas criativas, adaptativas e fortemente humanizadas, revelando que mesmo em cenários adversos com escassez, estrutura, equipes, insumos e tecnologias adequadas, a APS mantém sua potência quando orientada pelos princípios de vínculo, responsabilização e participação social.
A atuação de internos de medicina no contexto rural amazônico, possibilita o desenvolvimento de competências e habilidades profissionais ampliadas: clínica generalista, gestão dos processos de trabalho, comunicação intercultural e reflexão crítica sobre os determinantes sociais da saúde.
O aprendizado em serviço, sustentado pela pedagogia da problematização e pela reflexão sobre o território, reforça o papel deste cenário de prática como estratégia essencial para a formação médica e para a ampliação do atendimento, a operacionalização da APS e o fortalecimento do SUS em territórios historicamente negligenciados. Tal observação está em consonância com a literatura que aponta a importância de formação de profissionais sensíveis ao contexto rural e às vulnerabilidades territoriais (GARNELO et al., 2020; SCHENKMAN et al., 2024).
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1-4Acadêmicas de Medicina – Faculdade Metropolitana de Rondônia (UNESA) / Porto Velho – RO
5Profa Orientadora – Médica/Docente/Pesquisadora – Faculdade Metropolitana de Rondônia (UNESA) / Porto Velho – RO
