REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202511111849
Gláucia Líbia Pinto1
Rosilene Gomes Leite Teixeira2
Adriana Coelho Lira Fortes3
Francisco Otávio Alves Cordeiro4
Waylla Emanuely Olegaria da Luz5
Karina Pinheiro da Silva6
Resumo
A terapia de Substituição Renal Contínua (TSRC) é uma ferramenta fundamental no cuidado de pacientes críticos que enfrentam a insuficiência renal aguda, especialmente nas Unidades de Terapia Intensiva (UTI). Este relato busca compartilhar a experiência da equipe de enfermagem em uma Unidade Terapia Adulto, com o objetivo de desenvolver um protocolo de cuidados de enfermagem que seja humanizado e centrado na segurança do paciente. O relato de experiência se desenvolveu em um Hospital Público em Belém do Pará, onde acompanhamos as rotinas diárias e os desafios enfrentados pela equipe de enfermagem no desenvolvimento da assistência. Observamos detalhadamente as práticas realizadas, identificando dificuldades na monitorização adequada, na manutenção do circuito de diálise e no controle rigoroso do balanço hídrico, além de buscar estratégias para prevenir possíveis complicações. Baseados na experiência vivida e nas evidências científicas disponíveis, elaboramos um protocolo de cuidados que prioriza a segurança do paciente e a padronização de condutas. Observamos que a implementação de um protocolo bem estruturado favorece a redução de intercorrências, aprimora a comunicação entre os profissionais envolvidos e fortalece o processo de educação contínua da equipe. Conclui-se que a elaboração de protocolos na prática clínica e na humanização do cuidado contribui significativamente para melhorar a qualidade e a segurança do atendimento ao paciente em terapia dialítica contínua.
Descritores: Terapia Renal Substitutiva Contínua (TRSC), Cuidados de Enfermagem e Enfermagem em Cuidados Intensivos.
Abstract
Continuous Renal Replacement Therapy (CRRT) is a fundamental tool in the care of critically ill patients facing acute kidney injury, especially in Intensive Care Units (ICUs). This report aims to share the experience of a nursing team in an Adult Intensive Care Unit, with the objective of developing a nursing care protocol that is both humanized and centered on patient safety. The experience took place in a public hospital in Belém, Pará, where the daily routines and challenges faced by the nursing team in delivering care were closely observed. The practices were carefully analyzed, identifying difficulties related to adequate monitoring, maintenance of the dialysis circuit, and strict fluid balance control, as well as strategies to prevent possible complications. Based on the lived experience and available scientific evidence, a care protocol was developed prioritizing patient safety and the standardization of clinical practices. The implementation of a well-structured protocol was found to reduce adverse events, improve communication among professionals, and strengthen the team’s ongoing education process. It is concluded that the creation of protocols within clinical practice and humanized care significantly contributes to improving the quality and safety of care for patients undergoing continuous renal replacement therapy.
Descriptors: Continuous Renal Replacement Therapy (CRRT); Nursing Care; Intensive Care Nursing.
Introdução
A Insuficiência Renal Aguda (IRA) é uma condição que frequentemente desafia os profissionais de saúde que cuidam de pacientes em estado crítico em Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Essa complicação, constantemente, está relacionada a altas taxas de morbidade e mortalidade, o que reforça a importância de uma abordagem cuidadosa e bem planejada. Para o manejo adequado desses pacientes, a Terapia de Substituição Renal Contínua (TSRC) tem se mostrado uma ferramenta valiosa, especialmente em situações onde há instabilidade hemodinâmica, sobrecarga volêmica e disfunção cardiovascular (BOSCHINI, 2025). Essa modalidade de intervenção exige uma atuação conjunta de uma equipe multiprofissional, na qual a enfermagem desempenha um papel fundamental desde a instalação do equipamento até a monitorização constante e a prevenção de possíveis complicações.
A segurança do paciente é o princípio norteador desse cuidado. Pesquisas recentes demonstram que a assistência de enfermagem, quando guiada por protocolos bem estruturados, ajuda a padronizar ações e a diminuir a ocorrência de eventos adversos (ALMEIDA et al., 2023; SÃO CAMILO, 2024). Além disso, práticas como higienização rigorosa, o cuidado na manutenção do acesso venoso e a monitorização hemodinâmica contínua são essenciais para evitar problemas relacionados a TSRC, como infecções, coagulação do sistema ou desequilíbrios hidroeletrolíticos (DIAS et al., 2025).
Nesse contexto, criar e colocar em prática protocolos específicos para o cuidado se torna uma estratégia importante para orientar a prática clínica e garantir maior consistência nas condutas. Vieira et al. (2020) ressaltam que a validação desses protocolos fortalece a qualidade do atendimento e aumenta a segurança do paciente em estado crítico. Da mesma forma, o uso adequado de recursos como o balanço hídrico é fundamental para avaliar como o paciente está respondendo ao tratamento e evitar complicações causadas pelo excesso ou déficit de líquidos (SILVA et al., 2021).
Sendo assim, este relato tem como objetivo compartilhar a experiência da equipe de enfermagem na assistência a pacientes adultos submetidos à hemodiálise contínua em uti, destacando as ações implementadas, os desafios enfrentados e as estratégias adotadas, além de propor um protocolo assistencial baseado na prática diária e nas evidências científicas atuais.
Método:
Este é um relato de experiência baseado na vivência da equipe de enfermagem em uma Unidade de Terapia Intensiva Adulta de um Hospital Público localizado em Belém do Pará durante os meses de junho a setembro de 2025.
A construção deste relato de experiência ocorreu a partir da prática diária da assistência de enfermagem durante a realização da Terapia Renal Substitutiva Contínua (TRSC), levando em consideração:
- Etapas do Cuidado: incluem a avaliação preliminar do paciente, a implementação da terapia, a monitorização constante, a prevenção de complicações e a documentação no prontuário clínico.
- Situações Críticas Identificadas: envolvem a coagulação do sistema, risco de infecção, instabilidade hemodinâmica e deficiências do registro assistencial.
- Análise dos resultados e discussão com a literatura científica: os achados do estudo foram confrontados com evidências disponíveis nas bases de dados PubMed, LILACS e SciELO, usando os descritores: Terapia Renal Substitutiva Contínua (TRSC), Cuidados de Enfermagem e Enfermagem em Cuidados intensivos.
Após refletirmos sobre essa experiência, foi desenvolvido um protocolo de assistência de enfermagem apresentado em formato de tabela e check list que contempla etapas sequenciais do cuidado. A elaboração do protocolo fundamentou-se nos princípios da Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) e da segurança do paciente.
Considerando que se trata de um relato de experiência, que não envolveu a coleta de dados pessoais e identificáveis dos pacientes, não houve a necessidade de submetê-lo ao comitê de ética em pesquisa, conforme a Resolução n° 466/12 do Conselho Nacional de Saúde.
Resultados
A experiência vivenciada foi construída a partir do acompanhamento de pacientes internados na UTI de um Hospital Público em Belém do Pará, que receberam indicação de Terapia de Substituição Renal Contínua (TSRC) devidos a quadros de insuficiência renal aguda (IRA) acompanhados de instabilidade hemodinâmica. Durante esse período de observação e prática clínica, foram identificadas etapas essenciais no cuidado, que merecem atenção especial:
Instalação do sistema: a instalação do sistema exigiu um preparo minucioso do circuito, incluindo a conferência detalhada dos materiais e a verificação da permeabilidade dos acessos venosos, garantindo a segurança e a eficácia ao procedimento.
Monitorização contínua: a monitorização contínua envolveu um controle rigoroso do balanço hídrico, acompanhamento dos parâmetros hemodinâmicos e vigilância para sinais de possíveis complicações como hipotensão ou coagulação do filtro.
Prevenção de infecções: quanto a prevenção de infecções, adotamos medidas de higienização das mãos, uma antissepsia adequada dos dispositivos utilizados e troca programada de curativos, buscando minimizar riscos.
Educação da equipe: a educação da equipe foi fundamental, com a necessidade de atualização constante sobre o manejo da terapia e o reconhecimento precoce de qualquer sinal de complicação.
Com base nessa experiência, elaboramos um protocolo assistencial de enfermagem que contempla um checklist para a instalação da TSRC, um fluxograma para a monitorização do paciente, critérios específicos para a troca dos filtros, diretrizes para o controle do balanço hídrico e as ações voltadas à prevenção de complicações infecciosas e mecânicas conforme evidenciam os anexos I, II, III e IV.
Discussão
Os resultados desta experiência reforçam o que a literatura evidencia: a Terapia de Substituição Renal Contínua (TSRC) se mostra uma estratégia eficaz para cuidar de pacientes críticos com instabilidade hemodinâmica. A atuação da equipe de enfermagem foi fundamental para o sucesso do tratamento, destacando-se pela vigilância contínua, intervenções rápidas e na prevenção de eventos adversos, em consonância com o que Silva e Bastos (2022) descrevem.
A adoção de protocolos padronizados para orientar as condutas contribuiu para aumentar a segurança do paciente, fortalecer a confiança da equipe e promover maior uniformidade de condutas assistenciais, estando em alinhamento com os achados de Almeida et al. (2023) e Vieira et al. (2020). Além disso, essa experiência evidenciou a educação permanente da equipe é indispensável para garantir a efetividade da assistência, pois a Terapia de Substituição Renal Contínua exige conhecimento técnico aprofundado e tomada de decisão rápida diante de intercorrências, conforme Dias et al. (2025) ressaltam.
Portanto, o desenvolvimento de um protocolo assistencial não apenas sistematiza o cuidado, mas também promove uma abordagem mais humanizada e segura no manejo da insuficiência renal segura (IRA) em pacientes críticos. Essa experiência reforça a importância de validar e ampliar esse protocolo em diferentes cenários hospitalares, fortalecendo a prática baseada em evidência.
Conclusão
A assistência de enfermagem aos pacientes em hemodiálise contínua em Unidade de Terapia Intensiva é uma atividade que demanda um cuidado criterioso, conhecimento técnico e uma rotina padronizada de ações. O relato de experiência demonstrou que a adoção de protocolos específicos contribui para garantir a segurança do paciente, manter a uniformidade de condutas e diminuir as chances de complicações relacionadas à terapia renal substitutiva contínua.
A apresentação de um protocolo assistencial apresentado neste estudo, representa um avanço importante na prática clínica, pois oferece orientações claras para que a equipe de enfermagem possa cuidar dos pacientes de forma organizada, segura e fundamentada em evidências científicas. É recomendado que esse protocolo seja validado em outras instituições e atualizado regularmente, à medida que novas pesquisas e conhecimentos surgirem, para garantir uma assistência cada vez mais humanizada e eficaz.
Anexo 1
Quadro- resumo do Protocolo Assistencial de Enfermagem na Terapia de Substituição Renal Contínua (TRRC)
| Etapa | Ações de Enfermagem | Objetivo/Finalidade |
| 1. Preparação e Instalação | – Conferir prescrição médica e parâmetros da TRRC.- Higienizar as mãos e utilizar EPI adequado.- Preparar circuito e filtro conforme fabricante.- Realizar antissepsia rigorosa do cateter.- Fixar o acesso de forma segura. | Garantir a segurança do paciente e reduzir risco de infecção e falhas no sistema. |
| 2. Monitorização Contínua | – Registrar balanço hídrico horário.- Aferir sinais vitais a cada 30 min nas 2 primeiras horas e depois de hora em hora.- Avaliar nível de consciência e perfusão periférica.- Monitorar pressões do sistema (transmembrana e venosa). | Detectar precocemente instabilidade hemodinâmica e falhas no sistema. |
| 3. Prevenção de Complicações | – Trocar curativo do cateter conforme protocolo.- Avaliar sinais flogísticos no sítio de inserção.- Manter técnica asséptica em todas as manipulações.- Monitorar a coagulação do filtro. | Prevenir infecções, obstruções do sistema e intercorrências mecânicas. |
| 4. Intercorrências | – Interromper TRRC em casos de hipotensão grave, coagulação total ou desconexão.- Comunicar imediatamente à equipe médica.- Registrar intercorrências e condutas no prontuário. | Garantir segurança imediata e rastreabilidade do cuidado. |
| 5. Educação da Equipe e da Família | – Promover treinamentos periódicos sobre TRRC.- Orientar familiares quanto à terapia e cuidados. | Favorecer a adesão, humanização e continuidade da assistência segura. |
Anexo II
Checklist
Protocolo Assistencial de Enfermagem na TRRC
1. Preparação e Instalação
( ) Conferir prescrição médica e parâmetros da TRRC.
( )Higienizar as mãos e paramentar-se conforme protocolo de precauções.
( )Preparar o circuito e o filtro de acordo com as recomendações do fabricante.
( )Realizar antissepsia rigorosa do acesso venoso central.
( )Garantir a fixação segura do cateter.
2. Monitorização Contínua
( ) Registrar balanço hídrico a cada hora.
( ) Monitorar sinais vitais (PA, FC, FR, SpO₂) a cada 30 minutos nas primeiras 2 horas, depois a cada hora.
( ) Avaliar nível de consciência e perfusão periférica.
( ) Observar a integridade do sistema e possíveis alarmes da máquina.
3. Prevenção de Complicações
( ) Trocar curativos de acesso venoso conforme protocolo institucional.
( ) Observar sinais flogísticos no local de inserção do cateter.
( ) Monitorar sinais de coagulação do filtro (pressões transmembrana e venosa).
( ) Manter técnica asséptica rigorosa em todas as manipulações.
4. Intervenções em Intercorrências
( ) Interromper a TRRC em casos de hipotensão grave, coagulação total do sistema ou desconexão acidental.
( ) Comunicar imediatamente à equipe médica.
( ) Registrar detalhadamente a intercorrência e condutas realizadas.
5. Educação da Equipe e do Paciente/Família
( ) Realizar treinamentos periódicos sobre o manuseio da TRRC.
( ) Orientar familiares quanto à importância da terapia e medidas de segurança.
Anexo III
Fluxograma Assistencial de Enfermagem na Terapia de Substituição Renal Contínua

Anexo IV
Registro de Sinais Vitais e Balanço Hídrico


Referências
ALMEIDA, L. F. P. et al. A importância da enfermagem na segurança do paciente em serviços de urgência e emergência. RECISATEC – Revista Científica Saúde e Tecnologia, v. 3, n. 3, p. e299, 2023. Disponível em: https://recisatec.com.br/index.php/recisatec/article/view/299. Acesso em: 18 set. 2025.
BOSCHINI, Leonardo Cortázio. Terapia de substituição renal contínua em pacientes críticos: benefícios, desafios e perspectivas no manejo da insuficiência renal aguda. In: CONGRESSO INTERNACIONAL DE SAÚDE E BEM-ESTAR: conexões para o futuro, 1., 2025, Vitória da Conquista. Anais… Vitória da Conquista: Online, 2025. Disponível em: https://www.even3.com.br/anais/congresso-internacional-saude-bem-estar/1060274-TERAPIA-DE-SUBSTITUICAO-RENAL-CONTINUA-EM-PACIENTES-CRITICOS–BENEFICIOS-DESAFIOS-E-PERSPECTIVAS-NO-MANEJO-DA-I. Acesso em: 18 set. 2025.
DIAS, S. et al. Cuidados de enfermagem na prevenção de infecção da corrente sanguínea associada a cateter venoso periférico. Revista Piauiense de Enfermagem – REPEn, UESPI, 2025. Disponível em: https://revistaenfermagem.uespi.br/index.php/revistaenfermagem/article/download/6/13/115. Acesso em: 18 set. 2025.
SILVA, P. C. G.; BASTOS, W. D. G. Assistência de enfermagem ao portador de doença renal crônica na unidade de terapia intensiva. Revista Recien, São Paulo, v. 12, n. 38, p. 257-267, 2022.
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SÃO CAMILO. A importância da segurança do paciente em enfermagem. Pós EAD São Camilo, 2024. Disponível em: https://www.posead.saocamilo.br/a-importancia-da-seguranca-do-paciente-em-enfermagem/noticia/670. Acesso em: 18 set. 2025.
VIEIRA, T. W. et al. Métodos de validação de protocolos assistenciais de enfermagem: revisão integrativa. Revista Brasileira de Enfermagem, v. 73, n. 5, e20200050, 2020. Disponível em: https://www.scielo.br/j/reben/a/J6N8kqf8QQDq6t9PpDPCcnP/?lang=pt&format=pdf. Acesso em: 18 set. 2025.
INSTITUTO DE MEDICINA INTEGRAL PROFESSOR FERNANDO FIGUEIRA (IMIP). Ficha de Sinais Vitais e Balanço Hídrico. Código: IMIP.FOR.CONT.010. Versão 00. Recife: IMIP, [s.d.].
HOSPITAL ESTADUAL ANTÔNIO BEZERRA DE FIGUEIREDO. Formulário – Sinais Vitais e Balanço Hídrico. Código: F.HABF.187. Versão 00. Vila Velha – ES: Inova Capixaba, 2023.
1Enfermeira Intensivista Adulto e Pediátrico (UNINTER)/ Neonatologista (UFPA)/ Mestre em Enfermagem ( PPGENF/ UFPA), Enfermeira Intensivista do HFSCMPA. E-mail: glaucialibiapinto@gmail.com
2Enfermeira Intensivista. E-mail: rosileneleite@hotmail.com
3Gerente de Enfermagem da Clínica Médica.
4Gerente de Enfermagem Uti Materna, Chefe do Serviço de Nefrologia do HFSCMPA.
5Enfermeira Intensivista ( ESAMAZ)/ MBA Gestão (MPOG)/ Mestranda em Gestão e Saúde FSMPA, Gerente de Enfermagem Uti Adulto. E-mail: wayllaluz@yahoo.com.br
6Enfermeira Intensivista e da Clínica médica FSCMPA. E-mail: karina.silva@santacasa.pa.gov.br
