APLICAÇÃO DA TÉCNICA DE FIGUEIREDO COMO ALTERNATIVA PARA CIRURGIAS RECONSTRUTIVAS NA MEDICINA VETERINÁRIA – RELATO DE CASO

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202511052141



Izabela Rodrigues Corazza
Orientação: Professor Diego de Mattos Alves Silva (CRMV-SP 25.175)
Coorientação: Médico Veterinário Murilo Cardoso Nascimento (CRMV-SP 45.463)


RESUMO 

O presente Trabalho de Conclusão de Curso tem como objetivo descrever e analisar a  aplicação da Técnica de Figueiredo no contexto da Medicina Veterinária, especialmente  em casos de lesões traumáticas extensas em cães. Desenvolvida originalmente na  medicina humana, essa técnica se baseia no uso de uma prótese de polipropileno ou  material derivado de PVC estéril para cobertura provisória de feridas complexas,  promovendo cicatrização por segunda intenção. Trata-se de um método acessível,  reprodutível e de baixo custo, capaz de substituir procedimentos reconstrutivos  tradicionais em contextos de recursos limitados. O estudo inclui um relato de caso clínico  de um canino com ferimento extenso em membro posterior, no qual a Técnica de  Figueiredo foi empregada com resultados satisfatórios. O trabalho busca contribuir para  o avanço das abordagens reconstrutivas e o aprimoramento de alternativas terapêuticas  economicamente viáveis e clinicamente eficazes na medicina veterinária contemporânea.  

Palavras-chave: Técnica de Figueiredo; cirurgia reconstrutiva; cicatrização; feridas  cutâneas; prótese de polipropileno; semioclusiva; medicina veterinária; cão. 

ABSTRACT 

This study aims to describe and analyze the application of the Figueiredo Technique  within Veterinary Medicine, especially in cases of extensive traumatic lesions in dogs.  Originally developed for human medicine, the technique employs a polypropylene  prosthesis or sterile PVC-derived material as a temporary wound covering, promoting  second-intention healing. It is a low-cost, reproducible, and accessible method that may  replace traditional reconstructive techniques in limited-resource contexts. The study  includes a clinical case report of a dog with a large wound on its hind limb, successfully  treated using the Figueiredo Technique. This research contributes to the development of  reconstructive approaches and the improvement of therapeutic alternatives that are both  economically viable and clinically effective in modern veterinary medicine.  

Keywords: Figueiredo Technique; reconstructive surgery; wound healing; skin lesions;  polypropylene prosthesis; semi-occlusive; veterinary medicine; dog 

Introdução 

As feridas complexas representam um dos maiores desafios da prática cirúrgica em  medicina veterinária, sobretudo em situações que envolvem extensa perda tecidual,  infecção, ou comprometimento das estruturas adjacentes. Em cães e gatos, fatores  anatômicos e fisiológicos do sistema tegumentar influenciam diretamente o processo de  cicatrização, que, embora natural, depende de uma série de eventos celulares, moleculares  e vasculares para o restabelecimento da integridade cutânea (FOSSUM, 2021;  JUNQUEIRA; CARNEIRO, 2017).  

Nas últimas décadas, o desenvolvimento de novas técnicas reconstrutivas e o uso de  biomateriais têm se mostrado essenciais para o avanço das terapias de feridas. Entretanto,  em muitos contextos clínicos, o custo elevado e a complexidade de execução de  determinados procedimentos cirúrgicos ainda limitam o acesso a soluções eficazes,  especialmente em clínicas de pequeno porte ou em atendimentos a animais em situação  de vulnerabilidade (RMMG, 2019; PAVLETIC, 2018).  

Nesse cenário, destaca-se a Técnica de Figueiredo, idealizada originalmente para uso  humano pelo Dr. Leandro Azevedo de Figueiredo, ortopedista especializado em  microcirurgia. A técnica consiste na aplicação de uma prótese de polipropileno — ou  material similar, como o derivado de bolsas de soro fisiológico — sobre o leito da ferida,  formando uma cobertura semipermeável e biocompatível que protege a área lesada e  estimula a cicatrização por segunda intenção (FIGUEIREDO et al., 2017)  

A adaptação desse método à medicina veterinária demonstra-se promissora, pois alia  baixo custo, fácil execução e resultados clínicos satisfatórios. A técnica possibilita a  formação adequada de tecido de granulação, reduz o risco de infecção e elimina, em  muitos casos, a necessidade de enxertos cutâneos complexos (FIGUEIREDO, 2020;  FRANCO NETO et al., 2024). Tais características reforçam seu potencial de aplicação  em hospitais veterinários, clínicas de ensino e serviços de atendimento emergencial, nos  quais o manejo de feridas é uma rotina constante.  

Dessa forma, o presente trabalho tem como objetivo descrever e analisar a aplicação da  Técnica de Figueiredo na medicina veterinária, apresentando seus fundamentos teóricos  e um relato de caso clínico em canino com lesão traumática extensa em membro posterior.  Busca-se, com isso, contribuir para a difusão de alternativas terapêuticas economicamente acessíveis, de fácil reprodução e com alto potencial de aplicabilidade prática, promovendo  o avanço das técnicas reconstrutivas e o bem-estar animal. 

Metodologia  

O presente Trabalho de Conclusão de Curso caracteriza-se como uma pesquisa aplicada,  de natureza qualitativa e descritiva, com delineamento do tipo estudo de caso clínico. Tal  abordagem foi escolhida por permitir a análise detalhada de um fenômeno específico — a aplicação da Técnica de Figueiredo em um canino com lesão traumática extensa — dentro de seu contexto real, possibilitando a observação e descrição das etapas de  tratamento, evolução clínica e desfechos obtidos.  

O método técnico utilizado foi o estudo de caso único, documentado por meio de  anotações clínicas, registros fotográficos e acompanhamento veterinário contínuorespeitando critérios éticos e científicos.  

A coleta de dados ocorreu de forma observacional e documental, por meio de registros  clínicos do paciente durante o período de 60 dias de acompanhamento, observação direta  do processo de cicatrização e revisão bibliográfica sobre fisiologia da cicatrização,  terapias reconstrutivas e aplicação da Técnica de Figueiredo em medicina humana e  veterinária.  

A análise dos dados foi conduzida de forma descritiva e comparativa, relacionando as  evidências obtidas no caso clínico com os resultados de estudos previamente publicados  sobre o tema. 

Revisão de Literatura 

O sistema tegumentar constitui o maior órgão do corpo em pequenos animais, com  funções de barreira, termorregulação, sensibilidade e imunidade (JUNQUEIRA;  CARNEIRO, 2017). Em cães e gatos, peculiaridades anatômicas e histológicas  influenciam a ocorrência de lesões e a trajetória cicatricial, com implicações diretas para  o manejo clínico e cirúrgico (FOSSUM, 2021; TOBIAS; JOHNSTON, 2017).  

A pele organiza-se em três camadas: epiderme (epitélio estratificado pavimentoso  queratinizado), derme (tecido conjuntivo denso com fibras colágenas e elásticas) e  hipoderme ou tecido subcutâneo (tecido conjuntivo frouxo com panículo adiposo)  (DYCE; SACK; WENSING, 2017; JUNQUEIRA; CARNEIRO, 2017). A espessura  cutânea varia por espécie, raça e topografia; em geral, cães apresentam pele mais espessa  e vascularizada que gatos, impactando a cicatrização e a resistência tênsil pós-operatória  (FOSSUM, 2021; TOBIAS; JOHNSTON, 2017).  

Os anexos cutâneos incluem folículos pilosos, glândulas sebáceas e sudoríparas apócrinas  e músculos eretores dos pelos, fundamentais para termorregulação, comunicação  química, proteção e sensibilidade tátil (especialmente vibrissas nos felinos) (KÖNIG;  LIEBICH, 2016; DYCE; SACK; WENSING, 2017). A pele felina é relativamente mais  frouxa e móvel sobre os planos profundos, característica que favorece a contração de  feridas, mas aumenta o risco de deiscência em áreas de tensão (SLATTER, 2007;  PAVLETIC, 2018).  

A cicatrização é descrita em três fases sobrepostas: inflamatória, proliferativa e  remodelação (ou maturação) (JUNQUEIRA; CARNEIRO, 2017; FOSSUM, 2021):  

  1. Fase inflamatória – Inicia-se com hemostasia (vasoconstrição e agregação  plaquetária) e formação de coágulo de fibrina; segue-se vasodilatação com  extravasamento de plasma e migração de neutrófilos e macrófagos, que realizam  desbridamento celular e liberam citocinas/fatores de crescimento (como TGF-β,  PDGF, VEGF) que orquestram as etapas subsequentes (JUNQUEIRA;  CARNEIRO, 2017; FOSSUM, 2021).  
  2. Fase proliferativa – Caracteriza-se por angiogênese, deposição de colágeno tipo  III por fibroblastos, formação de tecido de granulação e reepitelização, além do  início da contração mediada por miofibroblastos (FOSSUM, 2021; EURELL; FRAPPIER, 2017). Ocorre remoção de tecido desvitalizado por ação celular e/ou  técnicas cirúrgicas, redução da carga bacteriana e preparo do leito para granulação  (FOSSUM, 2021; PAVLETIC, 2018).  
  3. Fase de remodelação – O colágeno tipo III é gradualmente substituído por tipo  I; as fibras se reorganizam, os vasos recém-formados regridem e a resistência  tênsil aumenta, atingindo até 80% do tecido original, sem retorno completo às  propriedades prévias (SLATTER, 2007; JUNQUEIRA; CARNEIRO, 2017).  

Diferenças interespecíficas relevantes incluem vascularização superficial relativamente  menor e epiderme mais fina em felinos, associadas à formação menos exuberante de  tecido de granulação e cicatrização mais lenta. Em primeira intenção, podem apresentar  menor resistência à ruptura quando comparados aos cães (TOBIAS; JOHNSTON, 2017;  PAVLETIC, 2018).  

Durante a fase de remodelação, também denominada fase de maturação, observa-se  intensa atividade de macrófagos, células endoteliais, epiteliais e fibroblastos na matriz  extracelular, promovendo a síntese e a degradação do colágeno no sítio da lesão. Nesse  estágio, a Técnica de Figueiredo exerce papel fundamental no processo de cicatrização,  uma vez que, por meio da manutenção de um ambiente semioclusivo, favorece condições  térmicas e úmidas ideais para a formação do tecido de granulação. Essa condição impede  a desidratação tecidual e acelera os processos de desbridamento e epitelização. Além  disso, a migração aumentada de leucócitos para o local contribui para a redução da carga  bacteriana, por meio de intensa atividade fagocitária, minimizando o risco de infecção no  ferimento. A tensão baixa do oxigênio sob uma bandagem oclusiva estimula a atividade  dos macrófagos, a proliferação de fibroblastos e o crescimento de capilares  (FOSSUM,2014). Dentro desse contexto e considerando a extensão da lesão, a  disponibilidade de tecido e de materiais, as linhas de tensão anatômicas e o estímulo do  processo cicatricial compreende-se a Técnica de Figueiredo como uma alternativa viável  para cirurgias reconstrutivas em animais.  

Relato de Caso Clínico: Aplicação da Técnica de Figueiredo em Canino com Lesão  Traumática Extensa em Membro Posterior 

Lesões traumáticas extensas em cães representam um desafio terapêutico  significativo na medicina veterinária, especialmente quando há comprometimento de  tecidos profundos e risco de infecção. As técnicas reconstrutivas convencionais, como  enxertos e retalhos, podem apresentar limitações em termos de custo, tempo cirúrgico e  risco de complicações pós-operatórias. Nesse contexto, a técnica de Figueiredo surge  como uma alternativa eficaz e acessível, promovendo um ambiente semioclusivo  favorável à cicatrização por segunda intenção. O presente relato tem como objetivo  descrever a aplicação da técnica de Figueiredo em um canino com lesão traumática  extensa em membro posterior, destacando o processo de cicatrização e o desfecho clínico  obtido. 

O paciente, um canino macho de 2 anos de idade, sem raça definida e pesando  50 quilos, residente de um sítio, deu entrada ao serviço veterinário do hospital em Arujá,  apresentando lesão traumática no membro posterior direito, decorrente de aprisionamento  em cerca. O ferimento acometia de forma circunferencial a região da musculatura  gastrocnêmica, com avulsão da derme e presença de exsudato purulento fétido, indicativo  de infecção bacteriana local. 

Diante do quadro infeccioso, instituiu-se imediatamente antibioticoterapia  empírica com amoxicilina associada ao ácido clavulânico, com o objetivo de conter a  infecção e estimular a formação do tecido de granulação. A administração foi mantida por  14 dias até a intervenção cirúrgica. Além disso, foi prescrito para controle de dor  Cloridrato de Tramadol 2 mg/kg BID por 5 dias e Dipirona 25 mg/kg TID por 3 dias; e  limpeza da lesão com solução fisiológica.  

A técnica, aplicada pelo médico veterinário Murilo Cardoso (citado previamente  como coorientador) e sua equipe, consistiu na criação de um ambiente semioclusivo,  utilizando como base uma prótese de PVC recortada de frasco estéril de solução  fisiológica 0,9%. A mesma solução foi empregada na lavagem vigorosa da ferida,  garantindo assepsia inicial. Realizou-se desbridamento cirúrgico dos bordos com remoção  de aproximadamente 0,5 cm de tecido desvitalizado ao redor da lesão. Utilizou-se tesoura cirúrgica tipo Mayo para a divulsão tecidual, seguida de cauterização dos vasos  sanguíneos responsáveis por sangramento ativo. 

Figuras 1 e 2 – Limpeza e desbridamento da ferida  
Fonte: Médico Veterinário Murilo Cardoso (2024) 

Com base no molde da lesão, confeccionou-se a prótese em PVC, respeitando uma  margem de 1,5 cm além do limite da ferida para permitir adequada fixação. Procedeu-se  à sutura inicial com pontos cardeais, para ancoragem da prótese, seguida por suturas  simples separadas, distribuídas de forma homogênea, com espaçamento entre 0,5 e 1 cm.  Para prevenir tracionamento excessivo e deiscência dos pontos, foi considerada uma  margem segura tanto na fixação da prótese quanto na pele adjacente. 

Figura 3 – Aplicação da prótese e sutura inicial  
Fonte: Médico Veterinário Murilo Cardoso (2024)

O protocolo medicamentoso pós-operatório incluiu a utilização de Ceftriaxona  25mg/kg SID por 7 dias, Cloridrato de Tramadol 3mg/kg BID por 5 dias, Dipirona  25mg/kg TID por 5 dias e Meloxicam 0,1mg/kg por 3 dias.  

Durante o período inflamatório inicial, observou-se produção significativa de  exsudato inflamatório, o que demandou troca de curativo duas vezes ao dia, utilizando  compressas de gaze estéril e bandagem elástica autoaderente, com limpeza cuidadosa dos  pontos cirúrgicos. 

Figura 4 – Evolução cicatricial após 15 dias da cirurgia  
Fonte: Médico Veterinário Murilo Cardoso (2024) 

Figura 5 – Evolução cicatricial após 35 dias da cirurgia  
Fonte: Médico Veterinário Murilo Cardoso (2024)

Com a redução do processo inflamatório, a frequência da troca foi reduzida para  uma vez ao dia, mantendo-se os cuidados locais e limpeza diária com solução fisiológica.  O processo cicatricial evoluiu de forma satisfatória, com fechamento total da ferida em 60 dias. 

Figuras 6 e 7 – Evolução cicatricial final  
Fonte: Médico Veterinário Murilo Cardoso (2024) 

A técnica de Figueiredo mostrou-se uma alternativa eficaz para o tratamento de  lesões cutâneas extensas, especialmente em cães de grande porte. Em comparação a  técnicas reconstrutivas convencionais, o método semioclusivo apresenta vantagens como  menor custo, simplicidade de execução e menor incidência de complicações pós operatórias, como deiscência e necrose tecidual. Além disso, a utilização de materiais  acessíveis, como o PVC de frasco de solução fisiológica, amplia a aplicabilidade em  contextos clínicos com recursos limitados. 

A técnica de Figueiredo demonstrou-se eficaz na condução de lesão extensa e  complexa em canino de grande porte, oferecendo. A adoção de materiais alternativos e  estéreis, como o PVC de frasco de solução fisiológica, comprova-se como uma alternativa  viável em situações em que recursos convencionais são limitados. 

Conclusão 

A Técnica de Figueiredo demonstrou-se uma alternativa eficaz, segura e economicamente  viável para o tratamento de feridas complexas em cães, especialmente em contextos nos  quais o uso de enxertos ou retalhos cutâneos não é possível ou pode ser substituído, pois  em comparação a técnicas reconstrutivas convencionais, o método semioclusivo  apresenta vantagens como menor incidência de complicações pós-operatórias, como  deiscência e necrose tecidual. A aplicação da técnica evidencia a importância da  interdisciplinaridade entre medicina humana e veterinária, promovendo a adaptação de  métodos cirúrgicos acessíveis e sustentáveis.  

O uso de materiais simples, como o polipropileno derivado de frascos de solução  fisiológica, associado à facilidade de execução, à baixa taxa de complicações e  simplicidade do manejo pós-operatório, mesmo em ambiente domiciliar demonstrando  resultado clínico satisfatório, reforça o potencial da técnica em ambientes clínicos com  restrição de recursos, representando uma alternativa terapêutica eficiente e ética.  

Recomenda-se a continuidade de estudos clínicos controlados que comparem os  resultados da Técnica de Figueiredo a outras modalidades reconstrutivas, ampliando a  base científica e consolidando sua aplicação como opção terapêutica de rotina em feridas  de alta complexidade na Medicina Veterinária.

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