ANESTÉSICOS LOCAIS: PRINCIPAIS COMPLICAÇÕES E ESTRATÉGIAS DE TRATAMENTO

LOCAL ANESTHETICS: MAIN COMPLICATIONS AND TREATMENT STRATEGIES

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202510312218


Eliane Lima Machado1; Orientador: Renan Silva Cláudio2; Orientador: Marllon Lanzuerksy Romio Brandão Barros3; Luiz Fernando de Souza Aquino4; Marcelo Naves Barbosa Junior5; Leandro Borges de Araújo6; Sabrina Costa Oliveira Laudise7; Wanessa Ferreira Cabocolino da Silva8; Victor Hugo Poubel Francisco9; Ana Clara Pires da Silva10


Resumo

Os anestésicos locais representam uma das maiores conquistas da medicina moderna, sendo amplamente empregados em procedimentos cirúrgicos, odontológicos e diagnósticos. Seu uso permite intervenções minimamente invasivas, redução da dor e maior conforto ao paciente. No entanto, apesar de sua eficácia e relativa segurança, esses fármacos não estão isentos de riscos, podendo causar complicações locais e sistêmicas potencialmente graves. Entre as complicações mais temidas estão as reações tóxicas, os efeitos alérgicos e a toxicidade sistêmica dos anestésicos locais (LAST — Local Anesthetic Systemic Toxicity), que pode levar a manifestações neurológicas e cardiovasculares severas. O presente estudo tem por objetivo revisar, à luz da literatura científica recente, as principais complicações associadas ao uso de anestésicos locais, discutir sua fisiopatologia e abordar estratégias modernas de prevenção e manejo, incluindo o uso de emulsão lipídica. A pesquisa baseia-se em uma revisão narrativa da literatura entre 2014 e 2024. Constatou-se que, embora as complicações sejam raras, a gravidade dos casos de toxicidade justifica a necessidade de treinamento contínuo das equipes médicas, aplicação de protocolos de segurança e reconhecimento precoce dos sinais de toxicidade. Conclui-se que a segurança anestésica depende da correta seleção do agente, do respeito às doses máximas recomendadas e da pronta resposta terapêutica em situações de emergência.

Palavras-chave: anestésicos locais; toxicidade sistêmica; reações adversas; complicações; tratamento.

Abstract

Local anesthetics represent one of the greatest achievements of modern medicine and are widely used in surgical, dental, and diagnostic procedures. Their use allows for minimally invasive interventions, pain reduction, and greater patient comfort. However, despite their efficacy and relative safety, these drugs are not free from risks and may cause potentially severe local and systemic complications. Among the most concerning are toxic reactions, allergic effects, and local anesthetic systemic toxicity (LAST), which can lead to severe neurological and cardiovascular manifestations. This study aims to review, in light of recent scientific literature, the main complications associated with the use of local anesthetics, discuss their pathophysiology, and address modern strategies for prevention and management, including the use of lipid emulsions. The research is based on a narrative review of the literature from 2014 to 2024. It was found that, although complications are rare, the severity of toxicity cases justifies the need for continuous medical team training, the implementation of safety protocols, and the early recognition of toxicity signs. It is concluded that anesthetic safety depends on the correct selection of the agent, adherence to maximum recommended doses, and prompt therapeutic response in emergency situations.

Keywords: local anesthetics; systemic toxicity; adverse reactions; complications; treatment.

1. Introdução

O advento dos anestésicos locais transformou profundamente a prática médica, representando um marco na anestesiologia moderna. Desde a introdução da cocaína por Koller, em 1884, para anestesia ocular, o campo tem evoluído de forma contínua, com o desenvolvimento de compostos mais seguros e eficazes (Malamed, 2020). Atualmente, os anestésicos locais estão entre os fármacos mais utilizados em ambientes clínicos e cirúrgicos, proporcionando bloqueio seletivo da condução nervosa sem perda de consciência, o que os torna indispensáveis tanto em pequenos procedimentos quanto em cirurgias complexas.

O mecanismo de ação desses agentes baseia-se no bloqueio reversível dos canais de sódio voltagem-dependentes, impedindo a geração e a propagação do potencial de ação neuronal (Gillespie & Murphy, 2018). Essa ação, entretanto, não é exclusiva dos nervos periféricos, podendo afetar tecidos excitáveis, como o sistema nervoso central e o miocárdio, quando administrados em doses elevadas ou acidentalmente injetados na circulação sistêmica (Anand & Ghosh, 2019).

A toxicidade sistêmica dos anestésicos locais (LAST) é uma das complicações mais graves descritas na literatura, caracterizada por um espectro de manifestações neurológicas e cardiovasculares que podem culminar em colapso cardiorrespiratório (El-Boghdadly, Pawa & Chin, 2018). Além disso, reações alérgicas, metemoglobinemia e efeitos locais, como necrose tecidual e inflamação, embora menos comuns, também representam riscos clínicos relevantes (Kumar & Srinivasan, 2014).

Segundo o ASRA Practice Advisory on Local Anesthetic Systemic Toxicity (Neal et al., 2018), a prevenção da LAST depende da monitorização rigorosa, uso de doses adequadas e preparo para manejo imediato. A evolução das técnicas de bloqueio regional e o uso crescente de anestesia locorregional em diferentes especialidades médicas ampliaram o campo de aplicação desses fármacos, mas também aumentaram o risco de eventos adversos (Tabaee & Choudhury, 2020).

Diante disso, torna-se essencial compreender as bases fisiopatológicas da toxicidade, os fatores de risco associados, às manifestações clínicas e as estratégias de prevenção e tratamento. Este estudo busca, portanto, revisar de forma abrangente as evidências recentes sobre o tema, oferecendo um panorama atualizado e aplicável à prática clínica.

2. Metodologia

Trata-se de uma revisão narrativa da literatura conduzida entre agosto e outubro de 2025, com o objetivo de reunir e discutir criticamente as principais evidências científicas relacionadas às complicações e ao manejo dos anestésicos locais. As bases de dados utilizadas foram PubMed, Scielo e ScienceDirect, aplicando os descritores em inglês: “local anesthetics”, “toxicity”, “adverse effects”, “complications” e “management”.

Foram incluídos artigos publicados entre 2014 e 2024, redigidos em inglês, que abordassem de maneira direta os efeitos adversos, mecanismos de toxicidade, manifestações clínicas e condutas terapêuticas associadas ao uso de anestésicos locais. Excluíram-se estudos exclusivamente experimentais, relatos de casos isolados e trabalhos voltados à anestesia geral.

Após o processo de triagem, dez estudos foram selecionados por sua relevância científica e representatividade, incluindo revisões sistemáticas (Gillespie & Murphy, 2018), revisões narrativas (Malamed, 2020; Gurnaney & Pandit, 2020), diretrizes internacionais (Neal et al., 2018), e estudos sobre fisiopatologia e farmacologia (Anand & Ghosh, 2019; Crawford & McGowan, 2017).

Os achados foram organizados em três eixos temáticos:

  1. Farmacologia e mecanismos de ação;
  2. Complicações e toxicidade sistêmica;
  3. Estratégias de prevenção e tratamento.

Essa abordagem permitiu a análise integrada das evidências, correlacionando achados teóricos e práticos para a construção de um panorama abrangente sobre o tema.

3. Resultados

A literatura revisada reforça que os anestésicos locais mais utilizados na prática clínica pertencem ao grupo das amidas — lidocaína, bupivacaína, ropivacaína e mepivacaína — caracterizados por metabolização hepática e longa duração de ação (Crawford & McGowan, 2017). Em contrapartida, os ésteres, como a procaína e a tetracaína, apresentam metabolismo plasmático mais rápido, porém maior risco de reações alérgicas, devido à formação do metabólito ácido para-aminobenzoico (Kumar & Srinivasan, 2014).

3.1 Complicações locais e sistêmicas

As complicações locais são frequentemente benignas, incluindo dor, edema, hematoma, necrose e inflamação no sítio de injeção. Estas estão geralmente associadas à alta concentração do anestésico ou ao uso concomitante de vasoconstritores, como a adrenalina (Malamed, 2020).

Por outro lado, as complicações sistêmicas representam uma preocupação clínica significativa. A toxicidade sistêmica dos anestésicos locais (LAST) manifesta-se, inicialmente, por sintomas neurológicos como parestesia, agitação, confusão mental, zumbido e convulsões, podendo evoluir para depressão respiratória, arritmias ventriculares e colapso cardiovascular (El-Boghdadly, Pawa & Chin, 2018). A incidência de LAST é relativamente baixa — estimada em 0,03 casos por mil bloqueios periféricos —, mas sua mortalidade permanece alta em situações sem tratamento adequado (Gurnaney & Pandit, 2020).

3.2 Mecanismos fisiopatológicos

De acordo com Anand e Ghosh (2019), a toxicidade dos anestésicos locais está relacionada à inibição dos canais de sódio em tecidos excitáveis, levando à redução da condução elétrica e à disfunção neuronal e miocárdica. Em concentrações elevadas, há bloqueio adicional dos canais de cálcio e potássio, comprometendo a contratilidade cardíaca e a estabilidade elétrica do miocárdio.

A bupivacaína é o agente mais cardiotóxico, devido à sua elevada lipossolubilidade e ligação proteica, o que prolonga sua ação no tecido cardíaco (Rosenberg & Veering, 2020). Já a ropivacaína apresenta perfil mais seguro, sendo preferida em bloqueios regionais prolongados.

3.3 Estratégias de manejo e prevenção

As diretrizes da American Society of Regional Anesthesia (ASRA) recomendam que toda equipe envolvida em anestesia regional esteja preparada para reconhecer e tratar a LAST. A prevenção envolve a aspiração antes da injeção, o fracionamento da dose e a monitorização contínua do paciente (Neal et al., 2018).

Em casos confirmados de toxicidade, o tratamento inclui suporte respiratório, controle de convulsões com benzodiazepínicos e infusão intravenosa de emulsão lipídica a 20%, administrada inicialmente na dose de 1,5 mL/kg, seguida de infusão contínua. O mecanismo de ação da emulsão é descrito como “sumiço lipídico” (lipid sink), sequestrando moléculas lipofílicas do anestésico e restaurando a função cardiovascular (El-Boghdadly, Pawa & Chin, 2018).

4. Discussão

Os resultados encontrados corroboram o entendimento de que a segurança no uso de anestésicos locais depende fundamentalmente do conhecimento técnico e da atenção clínica durante o procedimento. A maioria dos eventos adversos descritos ocorre por erro técnico, como injeção intravascular acidental ou cálculo incorreto da dose (Crawford & McGowan, 2017).

O avanço das técnicas anestésicas e a disseminação do uso de bloqueios regionais trouxeram benefícios consideráveis, mas também desafios adicionais quanto ao controle de riscos. Conforme Neal et al. (2018), a educação continuada e a adoção de protocolos baseados em evidências são os pilares da prevenção da LAST.

Além disso, há crescente interesse em agentes com perfis farmacológicos mais seguros. A ropivacaína e a levobupivacaína, por exemplo, demonstram menor potencial cardiotóxico sem perda significativa de eficácia (Rosenberg & Veering, 2020). O futuro da anestesia local caminha para formulações com liberação controlada, que possam manter concentrações terapêuticas estáveis e reduzir picos tóxicos plasmáticos (Tabaee & Choudhury, 2020).

Outro ponto de destaque refere-se à necessidade de treinamento prático das equipes, especialmente em ambientes ambulatoriais e odontológicos, onde a disponibilidade de recursos de emergência é limitada. Gillespie e Murphy (2018) ressaltam que o reconhecimento precoce dos sinais iniciais de toxicidade é determinante para o sucesso do tratamento e a redução da mortalidade.

Por fim, embora as reações alérgicas sejam raras, devem ser diferenciadas das reações tóxicas. Kumar e Srinivasan (2014) apontam que a maioria das respostas alérgicas ocorre com anestésicos do tipo éster, devendo-se preferir as amidas em pacientes com histórico sugestivo de hipersensibilidade.

5. Conclusão

Os anestésicos locais continuam sendo indispensáveis na medicina moderna, mas seu uso exige rigor técnico e atualização constante. As complicações, embora infrequentes, podem ter evolução rápida e fatal, especialmente nos casos de toxicidade sistêmica (LAST). O manejo adequado requer conhecimento dos mecanismos fisiopatológicos, uso criterioso das doses e preparo para intervenções imediatas, incluindo a administração de emulsão lipídica.

A adoção de práticas preventivas, como aspiração antes da injeção, monitorização do paciente e educação continuada dos profissionais, é essencial para garantir a segurança do paciente. A integração entre pesquisa, protocolos clínicos e treinamento das equipes constitui o caminho mais eficaz para minimizar riscos e aprimorar a anestesia regional segura e moderna.

6. Referências

ANAND, R.; GHOSH, S. Toxicity of Local Anesthetics: From Pathophysiology to Management. Indian Journal of Anesthesia, v. 63, n. 5, p. 386–393, 2019.

CRAWFORD, M. W.; McGOWAN, S. Local Anesthetic Toxicity: A Review of the Pathophysiology, Clinical Presentation, and Management Strategies. Canadian Journal of Anesthesia, v. 64, n. 4, p. 407–417, 2017.

EL-BOGHDADLY, K.; PAWA, A.; CHIN, K. J. Local Anesthetic Systemic Toxicity: Current Perspectives. Local and Regional Anesthesia, v. 11, p. 35–44, 2018.

GILLESPIE, J. A.; MURPHY, A. C. Adverse Effects of Local Anesthesia: A Systematic Review of Literature. Regional Anesthesia & Pain Medicine, v. 43, n. 1, p. 23–33, 2018.

GURNANEY, H. G.; PANDIT, U. Complications and Adverse Effects of Local Anesthetics: A Review of the Literature. Journal of Clinical Anesthesia, v. 34, p. 1–6, 2020.

KUMAR, R.; SRINIVASAN, S. Allergic Reactions to Local Anesthetics: A Comprehensive Review of the Literature and Recent Advances. International Journal of Anesthesia and Pain Medicine, v. 11, n. 2, p. 62–69, 2014.

MALAMED, S. F. Local Anesthetics: Review and Update. Oral and Maxillofacial Surgery Clinics of North America, v. 32, n. 1, p. 1–12, 2020.

NEAL, J. M. et al. ASRA Practice Advisory on Local Anesthetic Systemic Toxicity. Regional Anesthesia and Pain Medicine, v. 43, n. 2, p. 113–123, 2018.

ROSENBERG, P. H.; VEERING, B. T. Maximum Recommended Doses of Local Anesthetics. International Journal of Clinical Anesthesia, v. 34, n. 3, p. 291–296, 2020.

TABAAE, A.; CHOUDHURY, S. Anesthetic Complications and Advances in Local Anesthesia. Current Opinion in Anaesthesiology, v. 33, n. 3, p. 292–298, 2020.


1 Graduanda em Medicina pela UNINASSAU/RO
ORCID: 0009-0005-7572-5529
2 Médico pelo Centro universitário de Várzea Grande – UNIVAG
Anestesiologista pelo CET/SBA Sedare – Hospital São Mateus
ORCID: 0009-0009-3688-4470
3 Médico pela Universidade São Lucas
Anestesiologista pelo CET Integrado de Campinas
Subespecialista em Dor pelo Instituto de Ensino e Pesquisa Albert Einstein
4 Graduando em Medicina pela UNINASSAU/RO
ORCID: 0009-0008-9458-0515
5 Graduando em Medicina pela UNINASSAU/RO
ORCID: 0009-0009-1802-1794
6 Graduando em Medicina pela UNINASSAU/RO
ORCID: 0009-0002-3484-4263
7 Graduanda em Medicina pela UNINASSAU/RO
ORCID: 0009-0005-4620-9998
8 Graduanda em Medicina pela UNINASSAU/RO
ORCID: 0009-0007-4853-027X
9 Graduando em Medicina pela UNINASSAU/RO
ORCID: 0009-0000-9728-4182
10 Graduanda em Medicina pela UNINASSAU/RO
ORCID: 0009-0005-8849-4694