ANEMIA NEONATAL E A IMPORTÂNCIA DA OBSTETRÍCIA NA FASE PRÉ-NATAL E  SUA REPERCUSÃO NA CLÍNICA MÉDICA GERAL: REVISÃO DE LITERATURA 

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202601310950


Carla Regina Ribeiro; Cadma da Silva Pereira; Cristhiane Taimara Haito; Daniela Falcão Nobre; Flori Menezes da Silva; Luciana Serafim; Marcela Cristina Borges dos Santos; Rafaela Rodrigues Gomes Alencar; Rafael Ferreira Batista; Tatiane Santana Lima


RESUMO 

Logo de inicio, devemos deixar claro que a anemia neonatal não aparecerá apenas  na fase pós-parto, longe disso, a fase pré-natal tem papel predominante na  participação de um diagnóstico precoce, devendo o obstetra participar de forma ativa  no diagnóstico. Logicamente, que será no período neonatal o aparecimento de  acentuada variação dos índices de glóbulos vermelhos (GV) em relação aos índices  apresentados por crianças e adultos. A determinação da etiologia da anemia em um  RN transforma-se em um desafio que exige conhecimento suficiente dos valores  sanguíneos normais e anormais. A anemia é definida como a incapacidade de os  GV (eritrócitos) circulantes atenderem à demanda de oxigênio dos tecidos. Nesse sentido, muitas das condições que afetam a eritropoiese neonatal representam as  alterações iniciais dos valores “normais”, mas não a anemia verdadeira. A  importância de se descobrir a etiologia referente à hemoglobina alterada do RN ou  de outros parâmetros eritrocitários reside na prevenção potencial de um futuro  estado anêmico, no qual a ação imediata de uma transfusão de eritrócitos possa  fazer-se necessária. É primordial reunir informações além da hemoglobina ou do  hematócrito, a fim de definir um estado patológico. A anemia pode ocorrer em  diversos momentos no período neonatal, resultando de uma (ou de uma combinação) das três causas principais: hemorragia sanguínea (quer interna, quer  externa ao corpo), destruição aumentada das hemácias (hemólise) ou produção  inadequada dos eritrócitos. A anemia grave que se apresenta nas primeiras horas de  vida provavelmente representa a hemorragia aguda ou a hemólise significativa  decorrente da isoimunização. Tendo papel importante, a eritropoiese ativa que  ocorre in utero, e as contagens de reticulócitos se mostram elevadas ao nascimento. 

Palavras chave: anemia neonatal, anemia do RN, anemia neontal e diagnóstico. 

ABSTRACT 

From the outset, we must make it clear that neonatal anemia does not appear only in  the postpartum period; far from it, the prenatal phase plays a predominant role in  early diagnosis, and the obstetrician should actively participate in the diagnosis.  Logically, it is in the neonatal period that a marked variation in red blood cell (RBC)  levels appears in relation to the levels presented by children and adults. Determining  the etiology of anemia in a newborn becomes a challenge that requires sufficient  knowledge of normal and abnormal blood values. Anemia is defined as the inability of circulating RBCs (erythrocytes) to meet the oxygen demand of the tissues. In this  sense, many of the conditions that affect neonatal erythropoiesis represent initial  alterations of “normal” values, but not true anemia. The importance of discovering the  etiology related to altered hemoglobin in the newborn or other erythrocyte  parameters lies in the potential prevention of a future anemic state, in which the  immediate action of a red blood cell transfusion may be necessary. It is essential to  gather information beyond hemoglobin or hematocrit in order to define a pathological  state. Anemia can occur at various times during the neonatal period, resulting from  one (or a combination) of three main causes: bloody hemorrhage (whether internal or  external to the body), increased destruction of red blood cells (hemolysis), or  inadequate erythrocyte production. Severe anemia that presents in the first hours of  life likely represents acute hemorrhage or significant hemolysis resulting from  isoimmunization. Active erythropoiesis that occurs in utero plays an important role,  and reticulocyte counts are elevated at birth. 

Keywords: neonatal anemia, anemia of the newborn, neonatal anemia and diagnosis. 

I INTRODUÇÃO 

O período neonatal caracteriza-se por acentuada variação dos índices de glóbulos  vermelhos (GV) em relação aos índices apresentados por crianças e adultos. A  determinação da etiologia da anemia em um RN transforma-se em um desafio que  exige conhecimento suficiente dos valores sanguíneos normais e anormais. A  anemia é definida como a incapacidade de os GV (eritrócitos) circulantes atenderem  à demanda de oxigênio dos tecidos. Nesse sentido, muitas das condições que  afetam a eritropoiese neonatal representam as alterações iniciais dos valores “normais”, mas não a anemia verdadeira. A importância de se descobrir a etiologia  referente à hemoglobina alterada do RN ou de outros parâmetros eritrocitários reside  na prevenção potencial de um futuro estado anêmico, no qual a ação imediata de  uma transfusão de eritrócitos possa fazer-se necessária. É primordial reunir informações além da hemoglobina ou do hematócrito, a fim de definir um estado  patológico. 

A anemia pode ocorrer em diversos momentos no período neonatal, resultando de  uma (ou de uma combinação) das três causas principais: hemorragia sanguínea  (quer interna, quer externa ao corpo), destruição aumentada das hemácias  (hemólise) ou produção inadequada dos eritrócitos. A anemia grave que se  apresenta nas primeiras horas de vida provavelmente representa a hemorragia  aguda ou a hemólise significativa decorrente da isoimunização. A anemia que se  evidencia após o primeiro ou o segundo dia de vida pode ser por causada por vários  motivos, incluindo perda sanguínea recente ou continuada, hemólise imunomediada  ou hemólise não imune. A tarefa do médico consiste em decifrar a evidência, a fim  de evitar uma queda adicional na concentração de hemácias, quando possível, e  tratar apropriadamente a anemia. 

ERITROPOIESE FETAL E ADAPTAÇÃO À VIDA EXTRAUTERINA 

A eritropoiese in utero é controlada pelos fatores de crescimento eritroides  produzidos apenas pelo feto. A eritropoietina (Epo) é a principal reguladora da  eritropoiese nos adultos e parece ser o fator de controle para a eritropoiese fetal. A Epo não atravessa a placenta nos seres humanos, e a estimulação da produção de  Epo materna não resulta em estimulação da produção de eritrócitos fetais. As concentrações de Epo no feto aumentam gradualmente até o nascimento. As  concentrações elevadas de Epo no sangue fetal e/ou no líquido amniótico podem  indicar hipóxia fetal; além disso, embora a Epo possa desempenhar papel protetor  para algumas células fetais, como neurônios, células placentárias, hepáticas e das vilosidades intestinais, também pode ser um marcador para o resultado ruim no  neurodesenvolvimento com base na hipóxia grave ou crônica. Em geral, as  concentrações séricas de Epo no nascimento variam de 5 a 100 mU/mL. As concentrações de Epo nos adultos saudáveis, por sua vez, variam de 0 a 25  mU/mL, enquanto as concentrações séricas de Epo nos adultos anêmicos e não  urêmicos variam de 300 a 400 mU/mL. 

ÍNDICES ERITROCITÁRIOS NO FETO E NO RN 

Concentrações de Eritrócitos e Hematócritos Os índices eritrocitários variam durante  a gestação e continuam assim por todo o primeiro ano de vida. 
Em paralelo com as concentrações de hemácias crescentes, os hematócritos  aumentam de 30% a 40% no segundo trimestre e assim continuam até atingir os  valores encontrados no RN a termo, na parte final do terceiro trimestre. No RN a  termo, os hematócritos variam de 50% a 63%, com alguma margem a mais ou a menos provocada pelo clampeamento tardio do cordão umbilical (Jopling et al.,  2009). Os valores também dependem do sítio de coleta. Os hematócritos capilares  podem medir 9 a 12 pontos acima das amostras venosas ou arteriais. FIGURA 8-1 Alterações no hematócrito (gráfico superior) e hemoglobina (grá fico  inferior) após o parto prematuro, desde 22 semanas de gestação até o termo. As  linhas representam o 5o percentil, a média e o 95o percentil da faixa de referência.  (De Jopling J., Henry E. Wiedmeier SE, Christensen RD: Reference ranges for  hematócrito and blood hemoglobin concentration during the neonatal period: data  from a multihospital healthcare system, Pediatrics 123:e333-337, 2000.) 

Hemoglobina 

As concentrações de hemoglobina elevam-se gradualmente durante a gest.ação Com 10 semanas de gestação, a hemoglobina média é de aproximadamente 9 g/dL.  As concentrações da hemoglobina continuam a aumentar durante a gestação,  mostram-se relativamente constantes durante as 6 a 8 semanas de gestação e, a termo, são de aproximadamente 16 a 17 g/dL. Ao nascimento, pode haver elevação  de 1 a 2 g/dL na hemoglobina, em consequência da transfusão de sangue da  placenta no parto. Na maioria dos RN, ocorre aumento da hemoglobina em torno de  2 horas de vida pós-natal, devido a uma diminuição do volume plasmático. No RN a termo, a oxigenação melhorada depois do nascimento resulta em produção  eritrocitária significativamente diminuída, refletindo adaptação natural ao ambiente  extrauterino. A queda continuada na concentração de hemoglobina nas semanas  seguintes resulta de (1) produção eritrocitária diminuída; (2) espectro de vida dos  eritrócitos fetais encurtado; e (3) diluição plasmática e aumento do volume sanguíneo relacionado com o crescimento. Nos neonatos a termo, observa-se o  mínimo de concentração de hemoglobina com cerca de 4 a 8 semanas, com uma  concentração de hemoglobina média de 11,2 g/dL e uma faixa normal inferior de 9 g/dL. Esse mínimo é chamado de anemia fisiológica. Em torno de 6 meses, o bebê  que nasceu a termo apresenta concentração média de hemoglobina de 12,1 g/dL.  O declínio médio na hemoglobina dos RNs pré-termo que pesam menos de 1.500 g  é muito diferente daquele apresentado pelos RNs a termo. Isso se deve, em parte,  às perdas por flebotomia, que acontecem com certa fre quência, bem como ao efeito  das transfusões sobre a eritropoiese endógena. Esses RNs atingem o mínimo de  hemoglobina – que alcança a média de 8 g/dL – com 4 a 8 semanas de idade. Os  RNs pequenos para a idade gestacional, os filhos de mães diabéticas, os filhos de  mães fumantes e os RNs nascidos em altitudes elevadas tendem a apresentar  concentração de hemoglobina mais elevada ao nascimento. 

Volume Corpuscular Médio 

O tamanho da hemácia diminui gradualmente no curso de seu desenvolvimento. O  volume corpuscular médio (VCM) é maior que 180 fL no embrião, cai para 130 a 140  fL na metade da gestação e diminui para 115 fL ao término da gravidez. Valores de  VCM inferiores ao quinto percentil são notados em RN com um traço de talassemia  alfa ou esferocitose hereditária. VCM baixo ao nascimento causado por deficiência  de ferro fetal é menos comum, mas pode acontecer na hemorragia materno-fetal  (HMF) crônica ou na síndrome de transfusão entre gemelares. Em torno de 1 ano de  idade, o VCM alcança uma média de 82 fL.  

Concentração da Hemoglobina Corpuscular Média 

A concentração da hemoglobina corpuscular média (CHCM) permanece  relativamente constante desde 12 semanas de gestação, em média, até a fase  adulta, variando de 33 a 34 g/dL. Aumentos na CHCM refletem distorções do volume  da hemácia que provocam compressão da hemoglobina em um espaço menor. 
Distúrbios como esferocitose hereditária, incompatibilidade ABO ou anemia  hemolítica microangiopática evidenciarão CHCM elevadas, pois a área de superfície  do eritrócito diminui, enquanto a concentração da hemoglobina permanece estável. 

Hemoglobina Corpuscular Média 

A hemoglobina corpuscular média (HCM) reflete a quantidade média de  hemoglobina nos eritrócitos circulantes, medida em pg/célula, variando de 34 a 36  pg próximo ao momento do parto. 

Amplitude de Distribuição dos Eritrócitos 

A amplitude de distribuição dos eritrócitos (RDW) reflete a variação no tamanho da  hemácia. Uma população de hemácias mais heterogênea refletirá uma RDW “mais  ampla” (maior). Como as células imaturas são maiores que as células mais antigas,  um RN com eritropoiese ativa apresentará RDW elevada. 

Contagem de Reticulócitos 

A eritropoiese ativa ocorre in utero, e as contagens de reticulócitos se mostram  elevadas ao nascimento. Os RNs a termo geralmente possuem contagens de  reticulócitos na faixa de 3% a 7% (ARC 150.000 a 400.000/μL). Os RNs prematuros, por sua vez, exibirão contagens de reticulócitos mais elevadas, em geral entre 6% e  10%. A eritropoiese diminui após o nascimento de tal modo que a contagem de  reticulócitos cai para 1% em torno de 1 semana de vida. As contagens de  reticulócitos aumentarão após o nadir fisiológico (em torno de 4 a 8 semanas de vida), quando a eritropoiese se torna ativa. 

Formato, Deformabilidade e Espectro de Vida Da mesma maneira que há muita variação no tamanho das hemácias do RN, existe muita variação em seu formato.  As células com formato irregular estão presentes em números muito maiores do que  as dos adultos. As células-alvo, os acantócitos, siderócitos e outras projeções  irregulares podem ser encontrados com frequência. 

A deformabilidade do eritrócito é governada principalmente por três fatores: relação  entre área de superfície e volume do eritrócito, viscosidade do citoplasma da célula e  rigidez intrínseca da membrana eritrocitária. A deformidade da hemácia parece ser  um determinante importante do espectro de vida do eritrócito in vivo. 
Acredita-se que a remoção de um eritrócito da circulação resulte da deformabilidade  decrescente, tornando o eritrócito suscetível ao sequestro no baço e em outros  órgãos onde deve transpor passagens extraordinariamente estreitas. Além disso, a  deformabilidade do eritrócito influencia diretamente o fluxo sanguíneo na circulação periférica. Por fim, a viscosidade do sangue total é afetada pela deformabilidade do  eritrócito, que, por sua vez, afeta a resistência vascular periférica e a carga de  trabalho cardíaco. 

Os eritrócitos neonatais mais densos (representando as células mais antigas na  circulação) perdem menos volume que os eritrócitos adultos, possuem uma CHCM  maior e são menos deformáveis que os eritrócitos mais antigos observados nos  adultos. Os eritrócitos do RN têm uma sobrevida eritrocitária mais curta que os eritrócitos de crianças e adultos. Estima-se que o espectro de vida dos eritrócitos do  RN a termo seja de 60 a 80 dias através do método do 51Cr e de 45 a 70 dias com o  emprego do 59Fe. Estudos fetais empregando eritrócitos marcados com [14C] em  carneiros revelaram aumento no espectro de vida eritrocitária médio de 35 para 107  dias quando a idade fetal aumentou de 97 dias (metade da gestação) para 136 dias  (a termo). 

HEMORRAGIA 

A hemorragia é uma causa comum de anemia no RN. Algumas vezes, ocorre perda  sanguínea antes do nascimento ou durante o parto, que pode estar associada à  hemorragia materna ou a acidentes obstétricos, ou pode ser causada por  hemorragia interna ou perdas por flebotomia recorrente depois do nascimento. Os  fatores maternos que acentuam a incidência de hemorragia incluem sangramento no  terceiro trimestre com placenta prévia, descolamento abrupto de placenta, vasos  prévios, cesariana de emergência, gestação gemelar, amniocentese e coleta de  sangue umbilical percutânea (PUB). 
As manifestações clínicas da hemorragia ao nascimento dependem da extensão e  da duração da perda sanguínea. Quando ocorre perda sanguínea aguda  significativa, o RN fica flácido, pálido e não responsivo, necessitando de expansão  imediata de volume e (provavelmente) de uma transfusão rápida. Embora a hemoglobina possa estar na faixa de normalidade a princípio, ou apresentar-se baixa, cairá algumas horas após o nascimento. A hemorragia interna deve ser  suspeitada quando um RN com 24 a 48 horas de vida apresentar evidência de  choque hipovolêmico, sem sinais de perda sanguínea externa. 
Até um quarto dos RNs admitidos nas unidades de terapia intensiva neonatais  (UTIN) experimentam diminuição no volume de seus eritrócitos devido à hemorragia.  A anemia hemorrágica no período neonatal pode ser dividida em três categorias  gerais: 
Hemorragia pré-natal a partir do feto para dentro da circulação materna ou para um  gemelar; hemorragia causada por acidentes obstétricos da placenta ou do cordão umbilical no momento do parto; e hemorragia causada por trauma,  sepse/coagulação intravascular disseminada (CIVD) ou perda por flebotomia. A  hemorragia grave produzirá palidez e choque, devendo ser imediatamente reconhecida, a fim de evitar lesão orgânica significativa ou morte. 

Causas de Hemorragia no Período Perinatal 

A. Antes do parto 
1. Síndrome de transfusão entre gemelares crônica e/ou aguda 
2. Hemorragia fetal-materna crônica e/ou aguda 
3. Hemorragia para dentro do líquido amniótico após amostra de sangue periumbilical (PUBS) 
4. Amniocentese traumática 
5. Trauma materno 
6. Trauma após a versão cefálica externa 

B. Durante o parto 
1. Descolamento de placenta 
2. Placenta prévia 
3. Vasos prévios 
4. Trauma ou incisão da placenta durante a cesariana 
5. Cordão umbilical normal ou anormal (varizes, aneurismas) rompido
6. Hematoma do cordão umbilical ou da placenta 
7. Inserção velamentosa do cordão umbilical 
8. Cordão nucal 

C. Durante ou após o parto 
1. Hemorragia subgaleal 
2. Cefaloematoma 
3. Hemorragia intraventricular/intracraniana (prematuridade, trauma, trombocitopenia isoimune) 
4. Hemorragia associada a CIVD/sepse 
5. Trauma orgânico (fígado, baço, suprarrenal, renal) 
6. Hemorragia pulmonar 
7. Perda sanguínea iatrogênica (flebotomia, acidentes de cateteres centrais,  acidentes de cateteres arteriais) 

VOLUME SANGUÍNEO 

A placenta e o cordão umbilical contêm 75 a 125 mL de sangue a termo ou  aproximadamente um quarto a um terço do volume sanguíneo fetal. As artérias  umbilicais sofrem constrição logo após o nascimento, mas a veia umbilical  permanece dilatada. O volume sanguíneo neonatal pode ser 50% maior nos RNs que apresentaram clampeamento tardio do cordão umbilical (ou ordenha de cordão)  que nos RNs que têm seus cordões clampeados imediatamente após o nascimento. 

Os RNs pré-termo apresentam volume sanguíneo ligeiramente mais elevado (89 a  105 mL/kg), devido ao volume plasmático aumentado. Com 30 semanas de  gestação, metade do volume sanguíneo total de aproximadamente 120 mL/kg da  circulação fetoplacentária está no feto. Os RNs pré-termo comumente experimentam  clampeamento rápido de cordão, o que resulta em volume sanguíneo diminuído. O  hematócrito mais elevado, as necessidades diminuídas de transfusão e a incidência  diminuída de hemorragia intracraniana (HIC) foram reportados em ensaios clínicos  randomizados nos RNs com clampeamento tardio do cordão ou ordenha do cordão  (deve-se ordenhar o cordão umbilical desde a placenta no sentido do neonato, duas  a quatro vezes, antes de clampeá-lo). 

HEMORRAGIA FETAL-MATERNA 

A passagem de sangue fetal para a circulação materna pode acontecer antes do  parto. Até 75% das gestações estão associadas a menos de 1 mL de hemorragia  fetal-materna (HFM), enquanto uma gravidez em 400 está associada a sangramento  transplacentário fetal de 30 mL ou mais, e uma gestação em 2.000 está associada a  uma hemorragia transplacentária fetal de 100 mL ou mais. A HFM grave ocorre em  um a cada 1.000 partos, tendo sido associada a movimentos fetais diminuídos e  padrão de frequência cardíaca sinusoidal (SHR) fetal (Kosasa et al., 1993). 
Após a HFM, o risco total de imunização por Rh que acontece em uma gestação Rh incompatível é de 16%, caso o feto seja Rh positivo, ABO compatível com sua mãe.  Esse risco diminui para 1,5% quando o feto é Rh positivo, ABO incompatível. A  transferência fetal de células para a mãe também ocorre ao longo de abortos (com incidência de cerca de 2% dessa transferência no aborto espontâneo e de 4% a 5%  quando ocorre indução). 

Como a hemoglobina fetal é resistente à eluição ácida, as células portadoras de  hemoglobina fetal (Hb F) podem ser diferenciadas das células que contêm  hemoglobina adulta (Hb A). A coloração de Kleihauer Betke (KB) do sangue materno  periférico utiliza essa característica da hemoglobina fetal para detectar as células  fetais na circulação materna. Os esfregaços periféricos de sangue materno obtidos  dessa maneira revelam as “célulasfantasma” de origem materna (contendo  previamente a hemoglobina adulta), bem como as células fetais róseas, ainda  portando a hemoglobina fetal, que resistiram à eluição. Os resultados das mães com  síntese de hemoglobina fetal aumentada (ou seja, doença falciforme, talassemia e  persistência hereditária da hemoglobina fetal) são menos confiáveis. O diagnóstico  da HFM também pode passar despercebido com a incompatibilidade ABO, pois as  células fetais são rapidamente depuradas da circulação materna pelos anticorpos  anti-A e anti-B maternos.  

O RN com suspeita de hemorragia aguda significativa necessita de avaliação e  tratamento rápido. O RN com hemorragia maciça se apresenta com palidez e  taquipneia, mas pode não necessitar de oxigênio. As concentrações de hemoglobina  podem estar extremamente baixas ao nascimento, entre 4 e 6 g/dL. Com frequência,  está presente acidose metabólica significativa em decorrência de hipoperfusão.  Existem outras causas de palidez no período neonatal que podem ser excluídas quando o RN se encontra estável. Os RNs com asfixia e aqueles com anemia crônica decorrente de hemólise também podem apresentar-se com palidez. Esses  diagnósticos podem ser diferenciados da hemorragia aguda com base nas  diferenças dos sinais e sintomas clínicos. 

Diagnóstico Diferencial do Recém-nascido Pálido 

Sistema 
Orgânico 
Afetado Hemorragia Aguda Grave Hemólise Asfixia 
Neurológico Normal ou hiperalerta/hiperirritável (“resposta de catecolamina”)
Normal Período de transição anormal, hipotônico, estado de vigília diminuído, convulsões nos primeiros dias de vida 
Respiratório Taquipneia, necessidade de O2 mínimo ou ausente 
Normal Desconforto respiratório, necessidade de O2 
Cardiovascular Taquicardia, hipotensão Pode variar do normal até a presença de  insuficiência cardíaca congestiva e hidropisia, dependendo do grau da anemia
Normal à bradicardia 
Hematológico Queda no hematócrito/hemoglobina Anêmico desde o nascimento
Hepatoesplenomegalia 
Icterícia 
Teste de Coombs positivo 
Hematócrito/hemoglobina permanecem estáveis no tempo; pode desenvolver trombocitopenia e CIVD a partir de lesão hipóxica da medula 

SÍNDROME DE TRANSFUSÃO FETO-FETAL 
A síndrome de transfusão feto-fetal (TFF) é uma complicação das gestações  gemelares monocoriônicas, 
acometendo de 5% a 30% dos casos. A taxa de mortalidade perinatal pode ser tão  elevada quanto 70% a 100%, dependendo da gravidade e do momento em que  ocorre. 
Em geral, a TFF aguda resulta em gêmeos de tamanho similar, mas com  concentrações de hemoglobina que variam em mais de 5 g/dL. Na forma crônica da  TFF, um gêmeo se torna progressivamente anêmico e exibe crescimento restrito,  enquanto o gêmeo receptor se transforma em policitêmico, macrossômico e, por  vezes, hipertenso. Ambos os RNs podem desenvolver hidropisia fetal; o gêmeo  doador se torna hidrópico a partir da anemia profunda, enquanto o gêmeo receptor  se torna hidrópico a partir da insuficiência cardíaca congestiva e da hipervolemia.  Por causa das diferenças significativas em volume sanguíneo, fluxo sanguíneo renal  e débito urinário, o gêmeo doador apresenta oligodrâmnia, enquanto o receptor  experimenta polidrâmnia. 
O diagnóstico de TFF crônica pode ser feito a partir de ultrassonografia pré-natal  seriada, que afere cardiomegalia, produção discordante de líquido amniótico,  discrepância do crescimento fetal superior a 20% e dosagem de hemoglobina com  diferenças superiores a 5 g/dL entre os gêmeos. Após o nascimento, o gêmeo doador frequentemente necessita de transfusões e também pode experimentar  neutropenia, hidropisia decorrente de anemia grave, restrição do crescimento,  insuficiência cardíaca congestiva e hipoglicemia. Com frequência, o gêmeo receptor  se mostra mais afetado, podendo sofrer de miocardiopatia hipertrófica, insuficiência  cardíaca congestiva, policitemia, hiperviscosidade, dificuldade respiratória,  hipocalcemia e hipoglicemia. O risco de lesões neurológicas cerebrais adquiridas no período antenatal é de 20% a 30% em ambos os gêmeos, e a incidência de morbidades neurológicas após a morte intrauterina de um dos fetos atinge, em  média, 20% a 25% do feto sobrevivente. As morbidades incluem infartos cerebrais  múltiplos, síndromes de hipoperfusão a partir da hipotensão e leucomalacia  periventricular. O acompanhamento neurológico no longo prazo está indicado para todos os sobreviventes de TFF. 
Evidências atuais sugerem que o melhor tratamento para a TFF significativa inclui  ablação a laser dos vasos interligados. Os tratamentos alternativos consistem em  monitoração rigorosa, amniocentese de redução para diminuir o estiramento uterino  e prolongar a gestação, feticídio seletivo ou septostomia. Um estudo randomizado comparando a ablação a laser com a amniorredução em mães randomizadas antes  de 26 semanas de gestação foi concluído precocemente, por conta do benefício  significativo no grupo de laser (Senat et al., 1004). Os RNs no grupo de laser  apresentaram taxa de sobrevida de 76% de pelo menos um gemelar com 28 dias,  em comparação com a sobrevida de 56% no grupo de amniorredução. Os RNs no  grupo de laser exibiram menor incidência de leucomalácia periventricular cística (6%  versus 14%, p = 0,02), com maior probabilidade de estarem isentos de complicações  neurológicas aos 6 meses de idade (52% versus 31%, p = 0,003). Os ensaios  clínicos randomizados prosseguem, a fim de identificar o momento da terapia com  laser para a TFF e, assim, atingir melhores resultados para ambos os gêmeos. 

COMPLICAÇÕES OBSTÉTRICAS 

As complicações obstétricas podem vir a ser fonte significativa de perda de sangue,  incluindo placenta prévia e descolamento de placenta, incisão ou laceração da  placenta durante a cesárea e avulsão de cordão umbilical normal ou anormal. Além  disso, os RNs podem experimentar perda sanguínea significativa para a placenta (hemorragia fetoplacentária). Ademais, as anomalias da placenta, inclusive a  placenta multilobulada e os corioangiomas placentários, podem ser fonte de  hemorragia no período perinatal. 

Descolamento Prematuro de Placenta e Placenta Prévia 

O descolamento de placenta envolve a separação prematura entre placenta e útero,  acometendo cerca de três a seis a cada 1.000 nascidos vivos. Grave restrição do  crescimento fetal, ruptura prolongada das membranas, corioamnionite, hipertensão  (crônica ou induzida pela gestação), fumo, idade materna avançada e feto de sexo masculino representam fatores de risco em potencial para descolamento de  placenta. A incidência aumenta quanto menor for o tempo de gestação, e a  mortalidade varia de 0,8 a 2 a cada 1.000 nascidos vivos, o que se iguala a 15% a  20% dos partos em que há descolamento prematuro de placenta significativo.
A placenta prévia está presente quando parte ou a totalidade da placenta se  sobrepõe ao óstio cervical. Mulheres com história de cesariana prévia e paridade  aumentada apresentam risco aumentado de ter uma gestação complicada por  placenta prévia. Além disso, o fumo na gestação está associado a um risco  aumentado em duas a quatro vezes de placenta prévia. 

Em geral, a necessidade de se realizarem transfusões pós-natais no RN está  associada ao volume combinado de hemorragia materna e fetal. Sempre que há  evidências de descolamento de placenta, placenta prévia ou sangramento vaginal  incomum, a hemoglobina do RN deve ser determinada no momento do nascimento e, mais uma vez, com 12 a 24 horas. Uma coloração de KB também deve ser  efetuada no sangue materno para se determinar eventual ocorrência de hemorragia  fetal-materna. A monitorização de mães com histórico de sangramento no segundo  ou terceiro trimestre através de ultrassonografia do fluxo com Doppler pode diminuir  a incidência de anemia e perda fetal no RN, ao antecipar a hemorragia fetal  associada às anormalidades placentárias. 

Hemorragia Fetoplacentária 

A perda sanguínea para dentro da placenta é uma etiologia comum para um  hematócrito baixo nos RNs. 
Conforme já mencionado, permanece um grande volume residual de sangue na  placenta, fluindo principalmente na direção da gravidade depois do nascimento.  Pode haver fluxo sanguíneo fetoplacentário quando o RN é mantido acima da  placenta depois do nascimento; por esse motivo, os RNs nascidos por cesariana  apresentam volumes sanguíneos menores que aqueles nascidos por parto vaginal.  Além disso, os RNs podem perder cerca de 10% a 20% do volume sanguíneo total  quando nascem com compressão de cordão. A com pressão de cordão permite que  o sangue seja bombeado através das artérias umbilicais enquanto fazem a  constrição do fluxo através da veia umbilical. 

TOCOTRAUMATISMO 

Hemorragia Subgaleal 

Pode ocorrer perda sanguínea para dentro do espaço subgaleal durante partos  difíceis que exigem assistência instrumental, como apresentação de face,  apresentação occipital posterior ou distóccia de ombro. Os hematomas subgaleais  são eventos com potencial risco de vida, devendo ser reconhecidos o mais  precocemente possível, a fim de evitar morbidade significativa ou mortalidade. Esses  hematomas acontecem quando as veias emissárias ou “interligantes” são laceradas.  O sangue se acumula em um grande espaço potencial, entre a aponeurose epicraniana e o periósteo do crânio. O espaço subgaleal estende-se da crista  orbitária à base do crânio, podendo acomodar facilmente mais de 85 mL/kg de  sangue, o volume sanguíneo total de um RN. 
Os hematomas subgaleais podem formar-se por causa dos fatores de risco  preexistentes (como coagulopatia ou asfixia), mas a própria extração a vácuo  predispõe ao sangramento subgaleal. A presença de uma coleção de líquido  depressível nas regiões da cabeça do RN – em conjunto com os sinais de  hipovolemia – levanta a possibilidade de sangramento subgaleal. O tratamento dos  RN sintomáticos requer restauração do volume sanguíneo e controle do  sangramento. Há relatos de exsanguinação decorrente da hemorragia subgaleal, e a mortalidade é elevada quando a hemorragia passa despercebida. Foi desenvolvida  uma fórmula que prediz o volume de perda sanguínea: para cada 1 cm de aumento  que tem lugar no perímetro cefálico, há perda de 38 mL de sangue. A limitação da frequência e da duração da assistência a vácuo no RN de alto risco  pode reduzir a incidência dos hematomas subgaleais. É importante lembrar que o  parto por cesariana não impede a utilização de vácuo ou de fórceps, e ainda pode  ocorrer hemorragia significativa nessa modalidade de parto.

Hemorragia Interna 

A anemia que surge após as primeiras 24 horas de vida em um RN sem icterícia  pode resultar de hemorragia interna. Além do tocotraumatismo que provoca  hemorragias visíveis, como céfalo-hematomas, equimoses extensas e hemorragias  subgaleais, a hemorragia interna pode ocorrer após um parto traumático. Os partos pélvicos podem estar associados a hemorragias renal, adrenal ou esplênica para  dentro do espaço retroperitoneal. 

O parto de RNs grandes, como os nascidos de mães diabéticas, também podem  resultar em lesão orgânica e hemorragia. Os RNs com sepse grave podem  desenvolver CIVD e hemorragia para dentro do fígado, glândulas suprarrenais e  pulmões. 

Hemorragia da Suprarrenal 

A hemorragia adrenal pode resultar em anemia, mas também pode vir a se revelar  como colapso circulatório devido à insuficiência suprarrenal. A incidência reportada  de hemorragia da suprarrenal é de 1,7 em 1.000 nascimentos. A hemorragia adrenal  pode ser causada por trauma. No entanto, as etiologias infecciosas que resultam em  CIVD também foram relatadas com hemorragia. A hemorragia adrenal também pode  afetar os órgãos adjacentes, acarretando obstrução intestinal e disfunção renal. O  diagnóstico pode ser feito através de ultrassonografia, na qual se notam  calcificações ou massas císticas. A hemorragia da suprarrenal pode ser distinguida  da trombose da veia renal pelo ultrassom de tal modo que a trombose da veia renal  geralmente resulta em uma massa sólida. Os RNs com trombose da veia renal  podem exibir hematúria macroscópica ou microscópica, podendo também  desenvolver insuficiência renal e hipertensão. 

Hemorragias Hepática, Esplênica e de Outros Tecidos Moles 

A ruptura hepática ou esplênica pode resultar de tocotraumatismo ou como  consequência da distensão causada pela hematopoiese extramedular, como aquela  observada na eritroblastose fetal. Distensão e coloração abdominais, edema da  bolsa escrotal e palidez constituem sinais clínicos de ruptura esplênica, mas também podem ser observados na hemorragia adrenal ou na ruptura hepática. As outras  causas menos comuns de hemorragia no RN incluem os hemangiomas do trato  gastrointestinal, as malformações vasculares da pele e a hemorragia para dentro  dos tumores moles, como os teratomas sacrococcígeos gigantes. 

CIVD/Sepse 

A hemorragia associada à sepse grave pode decorrer de CIVD e do consumo de  fatores da coagulação no RN. As infecções causadas por Streptococcus do grupo B  (SGB), Escherichia coli (E. coli) e outros organismos podem progredir para choque  séptico e CIVD. Patógenos virais como citomegalovírus (CMV), toxoplasmose,  herpes simples e outros podem provocar anemia hemolítica, mas também podem  ser a causa de sepse grave e CIVD. 
Hemorragia decorrente de Mecanismos de Coagulação Anormais ou Causas  Iatrogênicas. 
Os RNs podem desenvolver anemia hemorrágica devido a anormalidades na  hemostasia. Os RNs do sexo masculino com deficiência dos fatores VIII ou IX  podem sangrar de modo excessivo após a circuncisão, enquanto aqueles com  deficiência do fator XIII podem apresentar sangramento continuado a partir do coto  umbilical. 
Esses RNs requerem avaliação adicional do sangramento. 
Os RNs com cateteres umbilicais centrais estão em risco para hemorragia externa a  partir de perda sanguínea acidental. Os cateteres devem ser monitorados de forma  constante para assegurar que as conexões não se desloquem, pois,  inadvertidamente, pode ocorrer perda de sangue. Os RNs pré-termo também podem desenvolver anemia causada por perda excessiva decorrente de flebotomia, que,  eventualmente, supera até 10% do volume sanguíneo total do RN por dia. 

DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO DA HEMORRAGIA 

Algumas vezes, o diagnóstico da hemorragia no RN é difícil. Os RNs podem  apresentar-se com um espectro de características clínicas, dependendo dos graus  de hipovolemia e anemia, e também do momento de perda sanguínea. 

Os RNs com hemorragia aguda mostram-se pálidos e taquicárdicos. Eles podem  apresentar-se neurologicamente normais e hipervigilantes ou letárgicos. Os RNs que  se apresentam com hipotensão geralmente experimentaram perda sanguínea  significativa, e estão em risco para choque e morte. Com frequência, os RNs se  mostram taquipneicos a partir da acidose metabólica observada na hipoperfusão. As  concentrações de hemoglobina podem estar inicialmente normais, caindo em  seguida, nas primeiras 6 a 8 horas de vida. A morfologia do eritrócito mostra as típicas células neonatais normocrômicas e macrocíticas. 

As medidas de reanimação rápidas podem salvar a vida dos RNs com hemorragia  aguda significativa. Em um RN com palidez extrema, as medidas de reanimação  incluem o estabelecimento de acesso intravenoso rápido. A reanimação pela  administração de volume com a solução disponível, geralmente soro fisiológico,  pode ser feita mesmo quando a etiologia da palidez ainda não foi determinada,  porque alguns RNs se apresentam com anemia e asfixia (como os RNs nascidos  após o descolamento de placenta). O emprego de um concentrado de hemácias (CH) como expansor de volume inicial sem se conhecer a etiologia da palidez pode  resultar em transfundir um RN com um hematócrito normal, levando, possivelmente,  a uma sobrecarga circulatória associada à transfusão ou a uma lesão pulmonar  aguda relacionada (TRALI). Com frequência, os RNs com perda sanguínea aguda demonstram melhora significativa, enquanto aqueles com hemorragia interna  continuada, CIVD ou hemorragia subgaleal e os RN asfixiados podem permanecer  flácidos e não responsivos. 

Quando se estabelece o diagnóstico de hipovolemia decorrente de perda sanguínea  aguda, bolus repetidos podem ser administrados quando necessário, ressaltando-se  que os concentrados de hemácias do tipo O negativo podem ser infundidos em trinta  minutos. Os RNs com perda sanguínea aguda (ao contrário daqueles com perda sanguínea crônica) perde plaquetas e fatores de coagulação ao lado da perda de eritrócitos. As medidas de reanimação adicionais devem, por conseguinte, incluir a  avaliação do estado hemorrágico do RN e a reposição com plasma fresco congelado  e plaquetas, quando necessário. 
Os RNs que se apresentam anêmicos ao nascimento por perda sanguínea crônica  podem estar assintomáticos. Sua concentração de hemoglobina está baixa e, com  frequência, o esfregaço periférico revela células hipocrômicas e microcíticas,  indicando deficiência de ferro. O RN com perda sanguínea crônica significativa (como o gêmeo doador na TFF) pode apresentar-se em insuficiência cardíaca  congestiva e hidropisia. A terapia inclui o suporte da função cardíaca com agentes  pressores e diuréticos, sempre que necessário. 

A hemólise pode ser classificada em três categorias gerais: hemólise  imunomediada, defeitos congênitos do eritrócito e defeitos adquiridos do eritrócito. 

Causas de Hemólise no Período Neonatal 

A. Imunomediada 
Incompatibilidade Rh (anticorpo anti-D) 
Incompatibilidade ABO 
Incompatibilidade de grupos sanguíneos menores: c, C, e, G, Fya (Duffy), grupo Kell,  Jka, MNS, Vw 
Induzida por drogas (penicilina, alfa-metil DOPA, cefalotina) 
Anemia hemolítica autoimune materna 
E. Defeitos congênitos das enzimas eritrocitárias 
Deficiência de glicose-6-fosfato desidrogenase (G6PD) 
Deficiência de piruvato quinase 
Deficiência de hexoquinase 
Deficiência de glicose fosfato isomerase 
Deficiência de pirimidina 5’-nucleotidase 
F. Defeitos da hemoglobina 
B. Infecção 
Sepse bacteriana (Escherichia coli, Streptococcus do Grupo B) 
Parvovírus B-19 (pode apresentar-se com hidropisia fetal) 
Sífilis congênita 
Malária congênita 
Infecções congênitas do tipo TORCH (Toxoplasmose, Citomegalovírus, Rubéola,  Herpes disseminado) 
Outras infecções virais congênitas 
C. Coagulação intravascular disseminada (CIVD) 
D. Distúrbios hereditários da membrana eritrocitária Esferocitose Síndromes da talassemia alfa 
Síndromes da talassemia gama 
Anomalias estruturais das cadeias alfa e gama 
G. Hemólise macro e microangiopática 
Hemangiomas cavernosos 
Malformações arteriovenosas 
Estenose ou trombose da artéria renal 
Tromboses de outros grandes vasos 
Coartação da aorta grave 
Estenoses valvulares graves
Eliptocitose 
Estomatocitose 
Piropoiquilocitose 
Outros distúrbios da membrana 
H. Outras causas 
Galactosemia 
Doenças de armazenamento lisossomal 
Acidose metabólica prolongada a partir de doença metabólica (distúrbios de  aminoácidos e ácidos orgânicos) 
Reações transfusionais 
Síndrome da trombocitopenia-ausência de rádio 
Hemólise induzida por droga (ácido valproico) 

ANEMIAS HEMOLÍTICAS ISOIMUNES 

Os antígenos eritrocitários nos sistemas ABO, MN, Rh, Kell, Duffy e Vel estão bem  desenvolvidos na vida Os antígenos eritrocitários nos sistemas ABO, MN, Rh, Kell,  Duffy e Vel estão bem desenvolvidos na vida intrauterina precoce. Eles são  facilmente demonstrados nas quinta, sexta e sétima semanas de gestação, permanecendo constantes por todo o desenvolvimento intrauterino. Os antígenos A  e B estão presentes precocemente in utero, mas a produção de anticorpos ocorre  apenas muito tempo depois. No entanto, em torno da 30a à 34a semanas de  gestação, aproximadamente 50% dos RNs apresentarão alguns anticorpos anti-A ou anti-B mensuráveis. A produção fetal desses anticorpos não está relacionada com o  tipo sanguíneo ABO materno. 

A exposição intrauterina a organismos Gram-negativos cujos antígenos estejam  quimicamente relacionados com aqueles dos grupos sanguíneos A e B representa  um potente estímulo para o desenvolvimento desses anticorpos. 

ISOIMUNIZAÇÃO RH E ABO 

A isoimunização relacionada com o anticorpo anti-D materno é uma das formas mais  comuns de hemólise imunomediada.  

Hemólise grave pode levar a hidropisia e morte fetal. Com o desenvolvimento do  RhoGAM, a incidência de doenças hemolíticas por incompatibilidade Rh grave  diminuiu significativamente. Nos fetos gravemente afetados pela doença hemolítica  por Rh, as transfusões intrauterinas intravasculares orientadas por ultrassom podem  tratar a anemia e reverter a hidropisia. Com frequência, os RNs com doença  hemolítica por Rh apresentam anemia precoce (congênita) decorrente de hemólise,  podendo desenvolver anemia “tardia” (1 a 3 meses de idade) devido à produção  eritrocitária diminuída. 

A isoimunização decorrente da incompatibilidade ABO é a causa mais comum de  doença hemolítica no período neonatal.  

A incompatibilidade ABO representa um espectro da doença hemolítica nos RNs,  variando de RN com pouca ou nenhuma evidência de sensibilização eritrocitária,  mas com evidência de hemólise, até aqueles com doença hemolítica grave em que a  sensibilização eritrocitária se mostra acentuadamente presente. A incompatibilidade  ABO pode estar presente na primeira gestação, bem como nas gestações subsequentes. Ao contrário da doença por Rh, não existe um modo de predizer a  gravidade para a incompatibilidade ABO nas gestações subsequentes.  

OUTRAS ANEMIAS ISOIMUNES 

Os fetos anêmicos por incompatibilidade anti-Kell apresentam contagem de  reticulócitos e níveis de bilirrubina Os fetos anêmicos por incompatibilidade anti-Kell  apresentam contagem de reticulócitos e níveis de bilirrubina sérica total menores do  que os fetos anêmicos por anti-D. O nível de hemólise causada por anticorpos anti Kell é menor do que aquela que tem como causa anticorpos anti-D, mas a  eritropoiese fetal parece diminuída, sugerindo que a sensibilização por Kell resulta  em supressão da eritropoiese fetal e hemólise (Vaughn et al., 1998). Os fetos com  anemia hemolítica anti-Kell podem, por conseguinte, beneficiar-se da amostra  sanguínea fetal em vez da análise do líquido amniótico, a qual poderia subestimar o  grau de anemia. 
Títulos extremamente altos de anticorpos anti-C foram associados à hemólise  neonatal, mas a triagem rotineira dos títulos não é garantida, porque os títulos de  anticorpos não refletem com exatidão a gravidade da doença hemolítica. O estado dos antígenos Rhesus e Kell pode ser determinado por exames do ácido  desoxirribonucleico (DNA). 
Observa-se que, recentemente, as técnicas de biologia molecular, como a reação de  cadeia de polimerase (PCR), foram utilizadas para determinar o tipo sanguíneo fetal.  Esses métodos podem representar um avanço no tratamento clínico da  isoimunização por Rh e Kell no futuro. 

DEFEITOS CONGÊNITOS DOS ERITRÓCITOS 

Os defeitos congênitos dos eritrócitos incluem os enzimáticos, os de membrana e  aqueles relacionados à síntese da hemoglobina. Defeitos enzimáticos, como  deficiência de glicose-6-fosfato desidrogenase (G6PD), deficiência de piruvatoquinase, deficiência de hexoquinase e deficiência de glicose-fosfato  isomerase, podem apresentar-se acompanhados de anemia hemolítica na primeira  semana de vida. 

Por sua vez, defeitos de membrana, como esferocitose hereditária, eliptocitose  hereditária e outros distúrbios hereditários do citoesqueleto da hemácia, também  podem causar hemólise no período neonatal. As membranas do eritrócito neonatal  deformam-se mais sob determinada força de cisalhamento que as membranas do  eritrócito adulto, resultando em maior suscetibilidade das células neonatais para  ceder e se fragmentar. Essas propriedades mecânicas levam à perda acelerada da  membrana e a um espectro de vida diminuído nos RNs normais. Os eritrócitos de  RN com anormalidades de membrana apresentam espectros de vida ainda menores. 

A esferocitose hereditária é um defeito congênito na deformabilidade da membrana  causado por inúmeros defeitos nas proteínas da membrana da hemácia, como  espectrina, anquirina, faixa 3 e proteína 4.2. Diagnosticase a esferocitose hereditária  ao se determinar a fragilidade osmótica dos eritrócitos. As hemácias neonatais apresentam resistência osmótica aumentada em comparação com as do adulto.  Quando se obtém um teste de fragilidade osmótica em um RN, deve-se recorrer aos  valores de referência neonatais. Além disso, os eritrócitos em outras doenças  hemolíticas, como a incompatibilidade ABO, podem demonstrar anormalidade similar na fragilidade osmótica e, por conseguinte, demandar exames adicionais para  distinguir esses dois distúrbios. A fragilidade osmótica aumentada da esferocitose  hereditária (mas não a incompatibilidade ABO) pode ser reduzida pela adição de  glicose. 

Os distúrbios da síntese de hemoglobina também podem provocar hemólise  aumentada. O traço da talassemia alfa é um importante diagnóstico a ser feito no  período neonatal. Essa anormalidade na produção da cadeia alfa é comum nas  populações afro-americana e asiática. Esses RNs podem beneficiar-se de uma  avaliação inicial de seus índices eritrocitários para pesquisar microcitose, a fim de  detectar eventual presença do traço da talassemia alfa. 

Como, nessa idade, o diagnóstico diferencial da microcitose é limitado, o período  neonatal representa o melhor momento para se estabelecer o diagnóstico. Após  alguns meses de vida, a deficiência de ferro torna-se a causa mais comum de  microcitose. A eletroforese da hemoglobina no traço da talassemia alfa é normal,  embora alguns estudos tenham reportado aumentos menores na hemoglobina de  Barr (2% a 8%), a qual está transitoriamente presente nos RNs e é detectável em  muitos laboratórios de triagem neonatal. As técnicas de biologia molecular estão  sendo avaliadas; contudo, ainda é mais fácil estabelecer o diagnóstico por meio da  observação de um VCM baixo (< 95 fL) no período neonatal. 

As síndromes da talassemia-α constituem distúrbios de deleção de gene,  envolvendo até quatro deles. Quatro genes são necessários para construir o  complemento total da α-globina. Vinte e oito por cento dos adultos e crianças afro americanos carecem de um único gene. Essa condição é conhecida como o estado  de portador silencioso da talassemia-α. O estado de portador silencioso não é  detectável por qualquer exame laboratorial rotineiro. Um estado de deleção de dois  genes, observado em cerca de 3% dos afro-americanos, é conhecido como traço da  talassemia-α. Um distúrbio de deleção de três genes é conhecido como doença da  hemoglobina H. Essa patologia resulta na produção de uma grande quantidade de  cadeias γ (em comparação com as cadeias de α- globina), levando à formação da  hemoglobina de Bart. O estado de deleção de quatro genes provoca hidropisia fetal  e é incompatível com a vida. 

Diferentemente da talassemia α, o traço da talassemia β não produz anormalidade  nos índices eritrocitários ao nascimento porque a produção da cadeia da β-globina  não está suficientemente desenvolvida em comparação com a produção da cadeia  da globina α. Os defeitos estruturais da cadeia da globina β (como a anemia falciforme) normalmente não se apresentam ao nascimento. O traço da talassemia β  pode ser diagnosticado no RN com mais idade ou na criança através da elevação da  hemoglobina A2 e/ou da hemoglobina F nos exames de eletroforese de  hemoglobina. 

DEFEITOS ADQUIRIDOS DOS ERITRÓCITOS 

Infecção, drogas ou toxinas podem desencadear anemias hemolíticas adquiridas.  Além disso, patologias vasculares como as malformações arteriovenosas, os  hemangiomas cavernosos e as tromboses vasculares podem resultar em um  processo hemolítico.

Infecção e DIC 

Os RNs com sepse viral ou bacteriana podem desenvolver anemia hemolítica. A  sepse provocada por bactérias, como a EGB e a E. coli, pode resultar em hemólise,  CIVD e hemorragia. Com frequência, os RNs estão ictéricos e apresentam  hepatoesplenomegalia, embora o grau de hiperbilirrubinemia nem sempre esteja  correlacionado com o grau da anemia. Os RNs também podem apresentar bilirrubina  direta elevada devido à hepatite. Algumas bactérias como a E. coli produzirão  endotoxinas hemolíticas, as quais resultam em destruição aumentada das hemácias,  frequentemente associada a um processo microangiopático. 

As infecções virais congênitas causadas por CMV, toxoplasmose, rubéola e herpes  simples também podem estar associadas à anemia hemolítica, constituindo uma  causa de hidropisia não imune.  

A infecção fetal e neonatal pelo parvovírus B19 pode causar anemia grave,  hidropisia e morte fetal. Em geral, o RN se apresenta com anemia hipoplásica, mas  também pode ocorrer hemólise. O vírus se replica exclusivamente nas células  progenitoras dos eritroides. Dessa maneira, no RN com distúrbio hemolítico  subjacente, a infecção pelo parvovírus B19 pode resultar em anemia aplásica.  Transfusões in utero em fetos hidrópicos são realizadas, mas não se mostram bem sucedidas em todos os pacientes. O tratamento com imunoglobulina intravenosa (IVIG) durante as crises aplásicas conduz à resolução da anemia. 

As outras infecções associadas à anemia neonatal incluem malária e vírus da  imunodeficiência humana (HIV). 

A malária congênita pode ocorrer em áreas urbanas endêmicas, onde os casos  importados de malária estão aumentando. A infecção congênita pelo HIV pode ser  assintomática no RNs. Os RNs nascidos de mães que recebem zidovudina podem  exibir anemia hipoplásica causada pelos efeitos colaterais do medicamento. 

PRODUÇÃO COMPROMETIDA DE ERITRÓCITOS 

A produção comprometida de eritrócitos pode sobrevir de inúmeras causas. A falta  de um ambiente medular apropriado ou suficiente para o crescimento, como  observado na osteopetrose, pode provocar diminuição da produção de eritrócitos. A  carência de substratos específicos ou de seus transportadores, como ferro, folato e vitamina B12, ou a deficiência de transcobalamina II podem levar a uma produção  deficiente. A falta de atividade do fator de crescimento do eritrócito específico, como  a produção diminuída de eritropoietina (Epo), observada na anemia da  prematuridade, ou as anormalidades nos receptores da Epo, observadas na  síndrome de Diamond- Blackfan, também podem conduzir à anemia  hipoproliferativa. 

DEFICIÊNCIAS NUTRICIONAIS QUE GERAM ANEMIA 

À exceção da anemia ferropriva no RN com hemorragia prolongada, as anemias  hipoproliferativas causadas por deficiências nutricionais raramente se apresentam  em RN a termo. Entretanto, nos RNs pré-termo, as anemias por deficiência  nutricional realmente acontecem, embora, em geral, não fiquem evidentes até  depois das primeiras semanas de vida. As deficiências de ferro, folato, B12, vitamina  E e cobre foram descritas e podem conduzir a graus variados de anemia.

A anemia ferropriva pode ocorrer em momentos variados do período neonatal tanto  em RN a termo quanto naqueles pré-termo. Após HFM crônica ou TFF, os RNs a  termo e pré-termo podem apresentar-se com anemia por deficiência de ferro,  manifestada por eritrócitos hipocrômicos e microcíticos em um esfregaço periférico e  por um hematócrito baixo. Como 75% a 80% do ferro corporal total estão  armazenados na hemoglobina, os RNs nascidos com volumes eritrocitários  reduzidos apresentam reservas de ferro diminuídas. Os RNs pré-termo (RNPT)  desenvolverão um estado deficiente em ferro com rapidez ainda maior, diante de  seu volume sanguíneo total relativamente menor e das perdas maiores por  flebotomia. À medida que as células sanguíneas são destruídas, o ferro da  hemoglobina é reciclado, tornando-se disponível para a futura eritropoiese. Sem os  volumes eritrocitários iniciais adequados, o ferro para a produção da nova  hemoglobina está ausente, estabelecendo-se a anemia por deficiência de ferro. 

Dessa maneira, a concentração inicial de hemoglobina tem impacto significativo sobre a capacidade de os RNs pré-termo manterem os índices hematológicos  normais durante o crescimento. 

O emprego da Epo para evitar e tratar anemia em RNPT acrescentou um novo nível  de complexidade na determinação dos requisitos de ferro dos RNPT. Inúmeros  estudos de RNPT recebendo Epo demonstraram evidências de deficiência de ferro  quando a respectiva suplementação com ferro não é apropriada. O ferro foi administrado tanto por via parenteral quanto por via enteral nos estudos publicados,  variando de 3 a 7 mg/kg/semana por via parenteral até 2 a 40 mg/kg/dia por via oral  nos estudos clínicos. Nenhuma evidência de hemólise foi percebida em qualquer um  dos dois estudos da Epo em que se empregaram as maiores quantidades de ferro  suplementar, sendo que os estudos mais recentes continuam a mostrar  concentrações diminuídas de ferritina naqueles que receberam Epo, apesar da  suplementação de ferro tanto parenteral quanto enteral. Há necessidade de  avaliação adicional para se determinarem a dose ótima e a via de administração do  ferro nesses RNPT. 

A vitamina E é um antioxidante que inibe a peroxidação dos ácidos graxos poli insaturados (PUFAs) presentes nas duplas camadas lipídicas de todas as  membranas celulares. Como a vitamina E é transferida através da placenta em  maior quantidade no último trimestre, os RNPT nascem com reservas menores que  os RNs a termo. 

Diferente de outras anemias por deficiência nutricional, a deficiência de vitamina E  não resulta em anemia hipoproliferativa, mas em uma anemia hemolítica, devido às  funções do composto. A anemia hemolítica por deficiência de vitamina E  desapareceu por causa da melhora nas fórmulas infantis para pré-termo contendo concentrações menores de PUFA e suplementação adequada de vitamina E. Os  RNs com má absorção de gorduras grave requerem suplementação de vitamina E  maior. Além disso, a necessidade de vitamina E provavelmente está aumentada nos  RNPT que recebem suplementação aumentada de ferro, porque esse mineral promove oxidação das membranas celulares e também inibe a absorção intestinal  da vitamina E. Os RNPT que recebem Epo precisam de maior suplementação de  ferro, devendo, portanto, também receber suplementação de vitamina E. A dose  ótima de vitamina E nos RNPT que recebem Epo não foi determinada, porém as  doses orais em estudos recentes variaram de 15 a 25 UI por dia. Os pesquisadores que avaliam o uso de doses mais elevadas de vitamina E (50 UI por dia) não  demonstraram evidência de eritropoiese aumentada (Pathak et al., 2003). 

O folato é armazenado no fígado fetal no final da gestação, e os RNs podem tornar se deficientes quando nascem prematuros. Os RNs alimentados com dieta pobre em  folato, aqueles com má absorção e aqueles ainda que recebem leite de cabra ou  leite que foi fervido estão em risco de se tornar deficientes em folato. 

As concentrações de folato eritrocitárias representam as reservas corporais totais de  folato, enquanto as concentrações séricas de folato refletem a ingestão recente de  folato. As concentrações de folato tanto séricas quanto eritrocitárias são maiores no  RNPT e no RN a termo que nos adultos. As concentrações de folato nas hemácias  diminuem rapidamente depois do nascimento e, em geral, são menores que as  concentrações nos adultos em torno de 1 a 3 meses de vida. A deficiência de folato  resulta em anemia megaloblástica, com o VCM geralmente maior que 110 fL. Os  RNPT com reservas de folato menores precisam de suplementação em situações nas quais a eritropoiese está aumentada, como o RN com anemia hemolítica ou  aqueles que recebem Epo. Os requisitos gerais para o RN a termo e pré-termo são  de 25 a 50 μg por dia por via oral, o que exige suplementação separada, pois o  folato não é um componente das preparações multivitamínicas do pré-termo. 

A vitamina B12 (ou cobalamina) deve ser obtida pela ingestão da dieta porque  apenas os microrganismos são capazes de sintetizar o composto. A B12 é  ativamente transportada pela placenta e armazenada no fígado fetal. A deficiência  de B12 é rara nos RNPT, mas, algumas vezes, é percebida nos RNs em aleitamento  materno de mães vegetarianas que são deficientes em B12 ou naqueles que  apresentam anormalidades gastrointestinais, como síndrome do intestino curto,  enterocolite necrosante (ECN) ou estenoses pós-ECN. As características hematológicas da anemia por deficiência de B12 são similares àquelas observadas  na anemia por deficiência de folato. A hiperplasia eritroide e uma proporção  mieloide/eritroide (M:E) diminuída estão presentes na faixa de 2:1 a 1:1. Os pró eritroblastos megaloblásticos apresentam sobrevida encurtada, sendo que as  demais células exibem VCM aumentado. A reticulocitose acontece com rapidez  mediante a suplementação com B12. 

Em algumas situações específicas, pode ocorrer anemia por deficiência de cobre,  em que o cobre suplementar não é fornecido: RNPT com baixo peso de nascimento  alimentado apenas com leite, nutrição parenteral total prolongada protraída sem  suplementos minerais e diarreia crônica com desnutrição grave. Em geral, a neutropenia grave precede o início da anemia hipocrômica sideroblástica. Com  frequência, as concentrações séricas de ferro se mostram baixas, porém a terapia  com ferro se mostra ineficaz na resolução da anemia. O diagnóstico é estabelecido  por baixas concentrações séricas de cobre, pela presença de fraturas ou de reação 

periostal nas radiografias, e por reticulocitose acentuada em resposta à terapia com  cobre. A ingestão recomendada de cobre para os RNs a termo é de 0,4 a 0,6 mg por  dia. 

ANEMIA DA PREMATURIDADE 

Nos RNPT, os mecanismos de adaptação ao ambiente extrauterino estão  incompletos. As concentrações de Epo nos RNPT anêmicos ainda são muito  menores que aquelas encontradas nos adultos, diante do grau de sua anemia. Essa  anemia normocítica normocrômica, denominada “anemia da prematuridade”, é a  mais comumente observada em RN com gestação ≤ 32 semanas. A anemia da  prematuridade não responde à adição de ferro, folato ou vitamina E. Alguns RNs  podem estar assintomáticos, enquanto outros demonstram sinais de anemia, os quais são aliviados pela transfusão. Esses sinais compreendem taquicardia, mais  episódios de apneia e bradicardia, ganho deficiente de peso, necessidade  aumentada de oxigênio e concentrações séricas de lactato elevadas, que diminuem  depois da transfusão. 

Os RNs com anemia da prematuridade apresentam capacidade diminuída de  aumentar as concentrações séricas de Epo, apesar do “oxigênio disponível”  diminuído para os tecidos e do aparecimento dos sinais de anemia. No entanto, os  progenitores eritroides medulares se mostram altamente sensíveis à Epo, sendo que  a concentração de outros fatores de crescimento eritropoiéticos responsáveis pela produção das hemácias parece estar normal. 

Os mecanismos moleculares e celulares responsáveis pela anemia da  prematuridade permanecem indefinidos. 

As possíveis explicações incluem transição da hemoglobina fetal para a adulta,  sobrevida encurtada do eritrócito e hemodiluição associada a uma massa corporal  com crescimento rápido. Não se sabe se os RNPT se baseiam na Epo produzida  pelo fígado (a fonte da Epo in utero) ou naquela produzida pelo rim, ou ainda em  uma combinação de ambas. A anemia da prematuridade provavelmente envolve  atraso no deslocamento do sítio anatômico de produção da Epo do fígado para o rim  e representa uma incapacidade de os RNs com extremo baixo peso ao nascer (EBP)  de modificar, de maneira prematura, a expressão do gene no rim em resposta ao ambiente extrauterino. 

Diante dos riscos das transfusões, como transmissão de hepatite, CMV e HIV, do  possível desenvolvimento da doença do enxerto-versus-hospedeiro e do potencial  aumento das morbidades associadas à prematuridade, como ECN e HIC, o  tratamento da anemia da prematuridade empregando os ESA poderia exibir uma  relação de custo-benefício. 

Em um estudo recente realizado em RNPT com peso de nascimento entre 500 e  1.250 gramas, verificou-se que aqueles que receberam ESA necessitaram de  metade do número de transfusões e foram expostos à metade dos doadores em  relação aos RNs que estavam no grupo placebo (Ohls et al., 2013). A instituição de 

critérios de transfusão mais rigorosos e padronizados, a diminuição do volume de  sangue perdido através da flebotomia e o uso criterioso dos ESA terão impacto  máximo na diminuição da indicação de transfusão em RN a termo e pré-termo.

ANEMIAS CONGÊNITAS 

As síndromes congênitas podem principalmente diminuir ou inibir a produção de  eritrócitos ou, de maneira secundária, alterar a massa eritrocitária através de  hemólise ou perda sanguínea crônica.  

Distúrbios Genéticos Associados à Anemia 

Síndrome Características Genéticas Fenótipo Hematológico 
Anemia de Diamond Blackfan Autossômica recessiva (AR); mutações esporádicas e  herança autossômica dominante (AD) foram descritas Anemia hipoplásica  responsiva a esteroides, frequentemente macrocítica após os 5 meses de idade Síndrome de Schwachman Diamond AR, decorrente de mutações no gene da  Síndrome de Schwachman Bodian Diamond (SSBD), cromossoma 7q11 A  neutropenia é mais comum, porém podem ocorrer anemia e trombocitopenia Pancitopenia de Fanconi AR, acredita-se que seja causada por anormalidades em  múltiplos genes (pelo menos cinco subtipos genéticos foram identificados). 

Anemia hipoplásica responsiva a esteroides, reticulocitopenia, alguns eritrócitos  macrocíticos, espectro de vida da hemácia diminuído Síndrome Asse AR, possível  AD Anemia hipoplásica responsiva a esteroides que melhora com a idade Síndrome  de Pearson Anormalidades do DNA mitocondrial; está ligada ao X ou ao AR Anemia  sideroblástica hipoplásica não responsiva à piridoxina Osteopetrose AR, causada  por reabsorção defeituosa do osso imaturo Anemia hipoplásica resultante de  compressão medular Anemias diseritropoiéticas congênitas (CDA) AR Tipo I:  hiperplasia eritroide megaloblastoide e pontes de cromatina nucleares entre as  células 

Tipo II: multinuclearidade eritroblástica e resultados positivos do teste sérico  acidificado (HEMPAS) 

Tipo III: eritroblastos multinucleares e macrocitose 

Síndrome de Peutz Jeghers AD Anemia por deficiência de ferro a partir de perda  sanguínea crônica 

Disceratose congênita Recessiva ligada ao X, locus no Xq28, alguns casos com  herança AD Comumente, a anemia hipoplásica se apresenta entre 5 a 15 anos de  idade 

Síndromes de talassemia-α ligada ao X/retardo mental (ATR-X e ATR-16) ATR-X: recessiva ligada ao X, mapeada no Xq13.3 

ATR-16: mapeada no 16p13.3, deleções do lócus da globina α 

ATR-X: anemia microcítica hipocrômica; forma branda da doença da hemoglobina H ATR-16: estão presentes a anemia e a doença da hemoglobina H mais significativas Síndrome de Pearson Anormalidades do DNA mitocondrial; está ligada ao X ou ao  AR Anemia sideroblástica hipoplásica não responsiva à piridoxina Síndrome da trombocitopenia-ausência de rádio (TAR) 

Autossômica recessiva (AR) Anemia hemorrágica, possivelmente também anemia  hipoplásica 

Síndrome da telangiectasia hemorrágica de Osler AD, mapeada no 9q33-34 Anemia  hemorrágica 

Anemia de Diamond-Blackfan

A anemia de Diamond-Blackfan (ADB) consiste em um grupo de aplasias  eritrocitárias puras congênitas, em A anemia de Diamond-Blackfan (ADB) consiste  em um grupo de aplasias eritrocitárias puras congênitas, em geral diagnosticadas no  primeiro ano de vida. A síndrome representa uma expressão fenotípica de múltiplas anormalidades genotípicas que afetam a eritropoiese. Até 25% dos pacientes estão  anêmicos ao nascer. A hidropisia fetal associada à anemia grave foi relatada, porém  é rara. A maioria dos casos é esporádica, mas 10% a 15% são familiares.  Recentemente, inclusive, foram reportados mais casos de herança autossômica  dominante (AD). 

As anormalidades físicas estão presentes em cerca de um terço dos pacientes com  ADB. As anormalidades incluem baixa estatura, polegares com três falanges ou  duplicados, fenda palatina, anomalias oculares, pescoço alado ou curto e cardiopatia  congênita. Os pacientes podem estar profundamente anêmicos e reticulocitopênicos; no entanto, as outras linhagens celulares estão normais em número e função. A  medula óssea reflete a eritropoiese hipoproliferativa, mostrando um número muito  pequeno de precursores eritropoiéticos e a redução das células progenitoras eritroides. A proliferação e a diferenciação das outras linhagens estão normais.  Muitos pacientes respondem clinicamente aos corticosteroides e alguns  desenvolvem até mesmo remissões hematológicas (tanto espontâneas quanto após  a terapia com corticosteroide). 

Síndrome de Shwachman-Diamond 

A síndrome de Shwachman-Diamond (SSD) tem natureza de falência medular  autossômica recessiva, decorrente de anormalidades no gene da síndrome de  Shwachman-Bodian-Diamond (SSBD), um regulador da elaboração ribossomal. A  neutropenia é a anormalidade hematopoiética mais comum, acometendo  praticamente todos os pacientes, com a predisposição para o desenvolvimento da  síndrome mielodisplásica e da leucemia mieloide aguda. A anemia hipoplásica  ocorre em até 80% dos pacientes com SSD. A insuficiência pancreática exócrina é outro componente clínico proeminente dessa patologia. Podem ocorrer  anormalidades esqueléticas, inclusive no tamanho e no formato do tórax. Além  disso, cérebro, fígado, rins, dentes e o sistema imune podem ser afetados. 

Os pacientes requerem reposição de enzimas pancreáticas e vigilância para  citopenias e mielodisplasia ou leucemia. 

Anemia de Fanconi 

A anemia de Fanconi (AF) é um distúrbio autossômico recessivo, caracterizado pela  falência da medula e por anomalias congênitas, inclusive anormalidades na  pigmentação cutânea, anomalias gastrointestinais, anomalias renais e anomalias de  membro superior. Cerca de um terço dos pacientes não exibe anomalias congênitas  óbvias. 

Na maioria dos pacientes, apresenta-se no início da infância, mas também há  relatos de RN com AF, frequentemente quando estão presentes anomalias  congênitas óbvias. Em geral, os pacientes apresentam anemia hipoplásica  responsiva a esteroides, reticulocitopenia, eritrócitos macrocíticos no esfregaço  periférico e espectro de vida do eritrócito encurtado. Um percentual significativo dos  pacientes irá desenvolver síndrome mielodisplásica ou leucemia mielógena aguda mais adiante na vida. O tratamento da AF é semelhante àquele da ADB, sendo que  o transplante de medula tem-se mostrado bem-sucedido. 

As diretrizes para administrar uma transfusão de eritrócitos diferem nos RNs a termo  e naqueles pré-termo, dependendo da etiologia e da duração de perda sanguínea.  Independentemente da etiologia, um RN nunca deve ser transfundido com base  apenas na hemoglobina. Todos os fatores envolvidos, como frequência cardíaca, pressão arterial, necessidade de oxigênio, estado neurológico, estado metabólico e  concentração de hemoglobina, devem ser considerados, a fim de se determinar a  necessidade imediata de eritrócitos. 

Na última década, as indicações para as transfusões nos RNPT vêm mudando  gradativamente, e isso se deve especialmente aos estudos clínicos de administração  de Epo nessa população. A instituição de rigorosas diretrizes de transfusão resultou  em um número diminuído de transfusões administradas aos RNPT. As diretrizes de transfusão associadas às perdas decrescentes por flebotomia e à instituição de  terapia com Epo formam a tríade de medidas que impactaram a terapia de  transfusão neonatal.  

Os cuidadores precisam determinar o nível de conforto de seus grupos no  acompanhamento dos critérios específicos de transfusão; no entanto, as diretrizes  gerais ainda podem ser utilizadas. As perdas por flebotomia devem ser minimizadas  da melhor forma possível, sem comprometer o tratamento do paciente. Os valores  de hemoglobina ou hematócrito devem ser determinados ao nascer, sendo  acompanhados em intervalos de 1 a 4 semanas durante a hospitalização (conforme  determinado pelo nível de bem-estar do RN). Na primeira semana de vida, a  reposição do volume sanguíneo com um cristaloide ou coloide isotônico alternativo  pode beneficiar o RN com peso de nascimento extremamente baixo, na manutenção  do volume intravascular adequado. Estudos anteriores demonstraram melhora  equivalente na diminuição da apneia da prematuridade com expansão do volume  usando soro fisiológico, albumina a 5% ou concentrado de hemácias. A  suplementação com ferro assim que possível (por via intravenosa, quando  disponível) evitará deficiência de ferro, mantendo a respectiva reserva em nível  adequado. Por fim, a otimização da nutrição e o estabelecimento de suplementos  vitamínicos e minerais adequados irão melhorar a produção de hemácias e diminuir  a destruição eritrocitária, esteja a criança recebendo Epo ou não. 

Medidas para Aumentar a Massa Eritrocitária e Reduzir as Transfusões: 

1. Discutir o clampeamento tardio do cordão umbilical ou ordenha do cordão  umbilical com a equipe obstétrica e documentar o plano no prontuário da mãe. O RN  deve ser mantido no nível da placenta ou abaixo dele por trinta a sessenta segundos  antes do clampeamento do cordão. De modo alternativo, o cordão pode ser  ordenhado desde a placenta até o RN, duas a quatro vezes antes do clampeamento.  Esses dois procedimentos aumentam a massa eritrocitária. 

2. Os exames laboratoriais iniciais podem ser coletados a partir do cordão umbilical  (tipagem e Coombs direto, hemograma completo, hemocultura). 

5. Usar amostras sanguíneas para vários exames ou aparelhos de  microamostragem (como o I-Stat), a fim de diminuir o volume necessário para cada  exame laboratorial. 

6. Remover os acessos centrais assim que possível.

7. Prescrever exames laboratoriais com critério (p. ex., evitar prescrições de  “gasometria a cada seis horas”) e reconsiderar a necessidade de exames  laboratoriais “padronizados” ou “de rotina”, como hemogramas completos semanais,  gasometrias diárias ou painéis bioquímicos diários. 

8. Monitorar as perdas por flebotomias diárias. 

3. Iniciar o tratamento com eritropoietina (Epo) durante o primeiro dia de vida.  Administrar uma injeção subcutânea de 4.000 unidades de Epo/kg ou adicionar 200  unidades/kg em uma solução intravenosa (IV) contendo proteína (como uma solução  de glicose a 5% com 2% de aminoácidos, ou nutrição parenteral total [NPT]) para  correr durante 4 a 24 horas. 

4. Administrar ferro parenteral, 3 a 5 mg/kg, uma vez por semana, ou 0,5 mg/kg/dia  (adicionado à NPT ou administrado através de solução IV durante quatro a seis  horas), até que o RN esteja tolerando a alimentação com volume adequado. Em  seguida, administrar ferro oral a 6 mg/kg/dia, juntamente com folato e vitamina E. 

9. Comunicar hemoglobina ou hematócrito mais baixos que a tolerância para vários enários clínicos típicos, como: (1) RN sob oxigênio a 100%, suporte ventilatório significativo, suporte de pressão arterial e presença de acidose metabólica; (2) RN  sob suporte ventilatório mínimo ou CPAP; (3) RN recebendo alimentação enteral e necessitando de oxigênio; (4) RN com alimentação plena, crescendo bem, sem  suporte de oxigênio. Considere esses cenários quando o RN tiver menos de 2  semanas de idade, 2 a 4 semanas de idade ou mais de 4 semanas de idade. 

DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL E TRATAMENTO DA ANEMIA 

Com frequência, o diagnóstico da anemia no período neonatal requer investigação  rápida e avaliação laboratorial. Os RNs que se apresentam em choque decorrente  de anemia sofreram, mais provavelmente, hemorragia maciça, razão pela qual a  estabilização do paciente é de primordial importância para evitar lesão orgânica e  morte. O “ABC” da reanimação do RN deve ser seguido. Quando o RN se encontra  estável, devem-se obter as informações necessárias para determinar a causa da  anemia e traçar um plano de tratamento. Quando a circulação tiver sido restaurada,  e o débito cardíaco, otimizado, existe apenas uma opção de tratamento para um RN  que requeira aumento imediato no aporte de oxigênio para os tecidos, que consiste  na administração de uma transfusão de eritrócitos. Quando o RN não necessita de  aumento imediato no aporte de oxigênio para os tecidos, podem ser consideradas  outras opções de tratamento. 

Um bom exemplo de conduta diagnóstica e de tratamento para a anemia começa na  obtenção da história materna completa, incluindo informações sobre sangramento  vaginal, trauma, infecção ou exposição a indivíduos infectados, e sobre o uso de  qualquer droga prescrita ou não (incluindo ervas ou suplementos dietéticos) durante  a gravidez. É importante notar o momento da apresentação da anemia. Os RNs com  perda sanguínea aguda importante antes ou durante o parto podem estar anêmicos  e hipovolêmicos ao nascer, enquanto os RNs com HFM crônica, TFF ou hemólise a  partir da isoimunização podem não estar sintomáticos por 24 a 48 horas. Os RNs  com trauma interno e hemorragia (adrenal, renal, esplênica ou hepática) podem não ficar sintomáticos por 48 a 72 horas e, em seguida, descompensar rapidamente. A  avaliação laboratorial inicial do RN anêmico inclui hemograma completo com índices  eritrocitários e esfregaço periférico, contagem de reticulócitos, um teste de Coombs direto e de bilirrubina quando a icterícia estiver  evidente. Com exames laboratoriais mínimos, a história completa e um exame físico,  a maioria das causas de anemia no período neonatal pode ser determinada. 

Abordagem diagnóstica de um RN com hematócrito anormal. Coloração de KB,  coloração de Kleihauer- Betke. 
É necessário conhecer diversas terapias a fim de determinar a melhor estratégia de  tratamento para cada RN. 
Este se beneficiaria de fatores de crescimento específicos, como Epo ou  darbopoietina, a fim de aumentar a massa eritrocitária, ou de outros fatores de  crescimento, como o GM-CSF ou fator de células-tronco? O RN requer suporte  nutricional com ferro, vitamina E, folato ou B12? O RN precisará de transfusões de  eritrócitos repetidas e, por conseguinte, estará em risco aumentado para sobrecarga  de ferro? Estão indicados esteroides ou IVIG? Um transplante de medula óssea  proporcionará ao RN melhor chance de sobrevida no longo prazo? Embora alguns RNs com anemia presente no período neonatal passem despercebidos, apesar da  avaliação rigorosa, a maioria das anemias neonatais pode ser diagnosticada e  tratada com sucesso. 

MÉTODOS 

Trata-se de uma revisão narrativa sobre os aspectos epidemiológicos,  fisiopatológicos e clínicos sobre a Anemia Neonatal. Para tal fim, realizou-se um  levantamento bibliográfico a partir da base de dados “Pub Med”, “Lilacs” sendo  incluídos os seguintes termos para direcionar a pesquisa: “anemia neonatal, anemia  do RN”. 

Os critérios de inclusão para a seleção dos estudos, adotaram-se: (a) artigos nos  idiomas português, e ingles; (b) estudos de revisão de literatura ou de revisão  sistemática; (c) ano de publicação de janeiro de 1995 a janeiro de 2026; (d)  relevância do estudo; (e) “Anemia Neonatal”. título e/ou resumo cientifico. Com  relação aos critérios de exclusão, foram levados em consideração: (a) estudos não  relacionados ao tema; (b) artigos publicados anteriormente ao ano de 1995; (c)  artigos que não contemplem os demais critérios de inclusão. Assim, foram  levantados cento e dois artigos, restando sessenta e nove selecionados para esta  revisão de literatura após a utilização dos critérios de elegibilidade descritos. 

DISCUSSÃO 

Diante de tudo oque foi estudado acima, percebe-se, que um bom exemplo de  conduta diagnóstica e de tratamento para a anemia começa na obtenção da história  materna completa, incluindo informações sobre sangramento vaginal, trauma,  infecção ou exposição a indivíduos infectados, e sobre o uso de qualquer droga  prescrita ou não (incluindo ervas ou suplementos dietéticos) durante a gravidez. O  profissional, o Clinico Geral, Obstetra, bem como a Neonatologista, deve ficar atento  ao momento da apresentação da anemia. Os RNs com perda sanguínea aguda  importante antes ou durante o parto podem estar anêmicos e hipovolêmicos ao  nascer, enquanto os RNs com HFM crônica, TFF ou hemólise a partir da  isoimunização podem não estar sintomáticos por 24 a 48 horas. Os RNs com trauma interno e hemorragia (adrenal, renal, esplênica ou hepática) podem não ficar  sintomáticos por 48 a 72 horas e, em seguida, descompensar rapidamente. A  avaliação laboratorial inicial do RN anêmico inclui hemograma completo com índices  eritrocitários e esfregaço periférico, contagem de reticulócitos, um teste de Coombs  direto e de bilirrubina quando a icterícia estiver evidente. Com exames laboratoriais  mínimos, a história completa e um exame físico, a maioria das causas de anemia no  período neonatal pode ser determinada. 

CONCLUSÃO 

A avaliação da anemia hemolítica no período neonatal deve incluir a comparação  dos tipos sanguíneos da mãe e do recém-nascido, o teste de Coombs, a eletroforese  de hemoglobina e a avaliação do esfregaço de sangue periférico. A presença de  incompatibilidade dos antígenos eritrocitários ABO ou Rh pode indicar que  anticorpos maternos direcionados contra os eritrócitos neonatais são a causa, o que  pode ser confirmado por um teste de Coombs direto ou indireto positivo, que avalia a  presença desses anticorpos. Igualmente importante nessa avaliação é a eletroforese  de hemoglobina para identificar hemoglobinopatias que podem predispor os  pacientes à doença hemolítica.  

Deve-se observar que algumas hemoglobinopatias podem não ser detectadas na  triagem neonatal, dependendo do tipo de teste realizado. A deleção de um único  lócus completo do gene da beta-globina, embora excepcionalmente rara, pode levar  a hemólise significativa durante o período neonatal sem anormalidades na  eletroforese de hemoglobina. Outra hemoglobinopatia associada a bebês  gravemente enfermos e anemia hemolítica é a alfa-talassemia com deleção dos  quatro genes da globina alfa, também chamada de hidropisia fetal. Esses fetos  frequentemente são perdidos devido a abortos espontâneos intrauterinos. Se  sobreviverem até a gestação, muitas vezes apresentam outras anomalias fetais  além da hemólise, como anomalias geniturinárias, deformidades dos membros,  microcefalia, hipoplasia pulmonar e cardiopatias congênitas. 

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