REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202510310237
Gabrielly Da Costa Santos
Joyce Soares De Araújo
Orientadora: Dra. Karina D’elia Alburquerque
RESUMO
Este trabalho tem como objetivo relatar um caso clínico de uma felina com diagnóstico de anemia hemolítica imunomediada (AHIM). A AHIM é uma condição grave tanto em cães quanto em gatos, sendo consideravelmente menos comum em felinos, o que ressalta a relevância de relatos de caso nesta espécie. Caracteriza-se pela destruição precoce dos eritrócitos pelo sistema imunológico, resultando em anemia, icterícia e, em casos graves, tromboembolismo. O caso clínico descrito aborda uma felina doméstica atendida em clínica veterinária, diagnosticada com AHIM, após uma investigação inicial que apontou para associação com o vírus da leucemia felina (FeLV) por teste rápido, posteriormente não confirmada por PCR. O tratamento envolveu transfusões sanguíneas e uso de imunossupressores, incluindo a introdução de leflunomida (Arava®️), com evolução favorável e completa normalização dos parâmetros hematológicos. O relato destaca a importância do diagnóstico precoce, da investigação etiológica aprofundada e da conduta terapêutica adequada para o sucesso clínico.
Palavras-chave: Anemia hemolítica imunomediada; Felino; FeLV; Hemograma; Relato de caso.
Abstract
This paper aims to report a clinical case of a feline diagnosed with immune-mediated hemolytic anemia (IMHA). IMHA is a serious condition in both dogs and cats, although considerably less common in felines, highlighting the relevance of case reports in this species. It is characterized by the premature destruction of erythrocytes by the immune system, resulting in anemia, jaundice, and, in severe cases, thromboembolism. The clinical case described involves a domestic feline treated at a veterinary clinic, diagnosed with IMHA after an initial investigation that pointed to an association with feline leukemia virus (FeLV) by rapid test, later not confirmed by PCR. Treatment involved blood transfusions and the use of immunosuppressants, including the introduction of leflunomide (Arava®), with favorable evolution and complete normalization of hematological parameters. The report highlights the importance of early diagnosis, in-depth etiological investigation, and appropriate therapeutic management for clinical success.
Keywords: Immune-mediated hemolytic anemia; Feline; FeLV; Blood count; Case report.
1. INTRODUÇÃO
A anemia hemolítica imunomediada (AHIM) é uma doença que pode se manifestar de diferentes formas clínicas, sendo caracterizada pela redução dos níveis de hemoglobina circulante devido à destruição imunológica das hemácias. Trata-se de uma enfermidade ‘imunomediada’ por modificar os epítopos das hemácias, levando o sistema imunológico a reconhecê-las como corpos estranhos. Como resposta, o organismo produz anticorpos que destroem os glóbulos vermelhos, resultando na anemia. (SANTOS, 2020).
A AHIM está associada a uma reação de hipersensibilidade do tipo II, com produção de anticorpos IgG e IgM dirigidos contra as hemácias. Os anticorpos IgM estão envolvidos em cerca de 8% dos casos relatados em felinos. (PAES et al., 2010). A doença pode apresentar hemólise intravascular, quando ocorre destruição diretamente na corrente sanguínea, ou extravascular, quando o processo ocorre no sistema mononuclear fagocitário — esta última sendo a forma mais comum (PAES et al., 2010).
A AHIM pode ser primária ou secundária. A forma primária é mais frequente em cães e geralmente idiopática, enquanto em felinos a forma secundária predomina, frequentemente associada à infecção pelo vírus da leucemia felina (FeLV) ou ao Mycoplasma spp. (CRIVELLENTI; BORIM-CRIVELLENTI, 2015). Outras causas secundárias incluem reações a fármacos, neoplasias, e toxinas. (RAMOS; LEITE, 2017).
A anemia pode ser regenerativa, quando há resposta adequada da medula óssea com liberação de reticulócitos, ou não regenerativa, quando não há compensação hematopoiética (UNIME, 2023). Nos felinos, a resposta regenerativa é menos evidente do que em cães. O diagnóstico baseia-se em exames laboratoriais como hemograma, contagem de reticulócitos e testes específicos, incluindo o teste de Coombs e a autoaglutinação eritrocitária. (COSTA, 2014; OLSON; HOHENHAUS, 2019).
O tratamento tem como objetivo controlar a destruição das hemácias e tratar a causa subjacente. São utilizados imunossupressores, corticosteroides e, em casos graves, transfusões sanguíneas. O prognóstico depende da resposta terapêutica e da presença de doenças associadas.(CRIVELLENTI; BORIM-CRIVELLENTI, 2015; SCHAER, 2003).
2. DESCRIÇÃO DO CASO
Foi atendida em uma clínica veterinária localizada em Guarulhos-SP, uma felina doméstica, fêmea, de aproximadamente dois anos, castrada e com protocolo vacinal atualizado (V4 e V5).
A tutora relatou que, nas últimas semanas, o animal vinha apresentando alterações comportamentais, como ingestão de substratos não alimentares, como areia da caixa sanitária e cimento das paredes, além de episódios de êmese, sem outras alterações clínicas aparentes. Ao exame físico, a única anormalidade observada foi a coloração das mucosas, que se apresentavam hipocoradas, com discreta tonalidade ictéricas.
Foi realizado o teste rápido Alere® para detecção de FIV e FeLV, apresentando resultado positivo para FeLV e negativo para FIV.
Devido à importância do diagnóstico de FeLV para o prognóstico e manejo terapêutico da AHIM, e buscando confirmação, foi solicitado a Reação em cadeia da Polimerase (PCR) qualitativa para vírus da imunodeficiência felina (FIV) e vírus da leucemia felina (FeLV – Feline Leukemia Virus), cujos resultados foram negativos para ambos os agentes.

Figura 1 – Teste rápido Alere® para detecção de FIV e FeLV, com resultado positivo para FeLV.
Fonte: Arquivo pessoal (2024).

Figura 2 – Resultado do exame PCR para FIV.
Fonte: Arquivo pessoal (2024).

Figura 3 – Resultado do exame PCR para FeLV.
Fonte: Arquivo pessoal (2024).
Foi solicitado hemograma completo com contagem de reticulócitos, o qual evidenciou anemia macrocítica normocrômica, com regeneração reticulocitária leve.
Considerando o hematócrito de 18% (Valores de referência:: 28–45%) e a contagem plaquetária de 160.000/mm³ (valores de referência: 300.000- 800.000/mm³) foi realizada transfusão sanguínea com sangue total. Foi instituído tratamento imunossupressor à base de corticosteroide, utilizando prednisolona na dose de 2mg/kg, por via oral, a cada 12 horas por 5 dias, seguida de 2 mg/kg via oral, a cada 24 horas por mais 5 dias. Associou-se amoxicilina com clavulanato de potássio (Agemoxi) na dose de 12,5 mg/kg via oral, a cada 12 horas por 10 dias, Hemolipet® 1 ml via oral, a cada 24 horas até novas recomendações, e Nuxcell Fel® 2g via oral, uma vez ao dia por 3 dias consecutivos, seguido de administração semanal.

Figura 4 – Hemograma completo inicial com contagem de reticulócitos, evidenciando anemia macrocítica normocrômica.
Fonte: Arquivo pessoal (2024).
Após quatro dias da transfusão sanguínea, um novo hemograma associado à pesquisa de Mycoplasma spp. (cujo resultado foi negativo). O hematócrito apresentava-se em 17%, e redução da contagem plaquetárias para 153.000/mm³. Sem evidência de melhora significativa nos parâmetros hematológicos. Diante disso, foi instituída a finalização do protocolo terapêutico previamente prescrito e recomendado novo hemograma de controle após 15 dias.

Figura 5 – Hemograma de controle realizado quatro dias após a transfusão sanguínea.
Fonte: Arquivo pessoal (2024).

Figura 6 – Teste para detecção de Mycoplasma spp., com resultado negativo.
Fonte: Arquivo pessoal (2024).
Após 15 dias da finalização do protocolo terapêutico, foi realizado um novo hemograma no qual se observou anemia macrocítica hipocrômica com regeneração moderada e redução significativa de hematócrito, atingindo 12% e queda da contagem plaquetária para 117.000/mm³, indicando agravamento do quadro hematológico.

Figura 7 – Hemograma realizado 15 dias após o início do tratamento, demonstrando agravamento do quadro hematológico.
Fonte: Arquivo pessoal (2024).
Diante dos resultados hematológicos e da piora clínica, foi realizada uma nova transfusão sanguínea com sangue total e o paciente encaminhado para avaliação com a Médica Veterinária hematologista, visando investigação complementar e ajuste terapêutico.
Após consulta com a especialista, análise do quadro e dos resultados dos exames hematológicos, o paciente foi diagnosticado com anemia hemolítica imunomediada (AHIM) e foi instituído tratamento com prednisolona 2 mg/kg, via oral, uma vez ao dia e foi associado a administração de Arava® (leflunomida) na dose de 2 mg/kg, via oral, uma vez ao dia por 15 dias, seguida de administração em dias alternados até novas recomendações.
O hemograma realizado 15 dias após o início do novo tratamento, revelou melhoras significativas dos parâmetros hematológicos, evidenciado pelo aumento das hemácias, hemoglobina e hematócrito, além da normalização da contagem plaquetária. Observou-se também, normalização o VCM e do HCM, indicando recuperação da eritropoese e melhora na concentração de hemoglobina por célula, enquanto a presença de eritroblasto confirmou a atividade regenerativa persistente da medula óssea.

Figura 8 – Hemograma de controle após 15 dias, mostrando evolução hematológica.
Fonte: Arquivo pessoal (2024).
Um mês após, foi realizado um novo hemograma para avaliação da evolução clínica do paciente, no qual todos os parâmetros hematológicos encontravam-se dentro da faixa de normalidade, confirmando a estabilização e recuperação completa do quadro hematológico.

Figura 9 – Hemograma realizado um mês após o início do tratamento, evidenciando recuperação hematológica completa.
Fonte: Arquivo pessoal (2025).]
Após a melhora significativa dos parâmetros hematológicos, foi indicado acompanhamento frequente com a hematologista e monitoramento regular por meio de hemogramas, além da continuação da administração Arava® até novas recomendações, considerando que o medicamento apresentou respostas terapêuticas significativa no quadro clínico do paciente.
3. DISCUSSÃO
A Anemia Hemolítica Imunomediada (AHIM) é uma enfermidade de ocorrência relativamente comum em cães, porém rara em felinos (em comparação com os cães), o que torna os relatos de caso nesta espécie de grande relevância científica e clínica. A menor frequência de notificações pode estar relacionada à dificuldade diagnóstica, à variação na resposta imune dos gatos e à menor predisposição imunológica quando comparada à espécie canina (SANTA, 2021). Assim, o registro e análise de casos clínicos felinos contribuem significativamente para o aprimoramento do diagnóstico e manejo terapêutico dessa condição.
No caso relatado, observou-se um resultado falso-positivo para FeLV (vírus da leucemia felina) no teste rápido ELISA (menos comum, mas possível), achado que pode ocorrer em situações de resposta imune exacerbada, presença de imunocomplexos circulantes ou erros analíticos, sobretudo em pacientes com distúrbios autoimunes (LUTZ et al., 2020). Posteriormente, o teste de PCR apresentou resultado negativo, descartando a infecção ativa. Essa diferença se explica pelo fato de que o teste rápido detecta antígenos livres do vírus, enquanto o PCR identifica o DNA proviral integrado ao genoma das células infectadas, apresentando maior especificidade e sensibilidade (HARTMANN, 2019). A negatividade do PCR teve impacto direto na interpretação clínica, levando à reclassificação do caso como uma AHIM idiopática, visto que nenhuma causa secundária (como infecção retroviral, neoplasia ou fármaco) foi confirmada. A ausência de infecção ativa por FeLV permitiu que o diagnóstico se baseasse primariamente em evidências hematológicas e resposta ao tratamento imunossupressor.
Inicialmente, o tratamento foi instituído apenas com prednisolona, fármaco de primeira escolha devido à sua ação imunossupressora potente, capaz de reduzir a fagocitose e a destruição eritrocitária (FELDMAN; NELSON, 2020). Entretanto, observou-se resposta parcial, sugerindo resistência à monoterapia com corticosteroide, situação relatada em parte dos casos felinos (BAILEY; GRINDEM, 2021). A introdução da leflunomida (Arava) foi determinante para a melhora clínica e hematológica. A leflunomida é um imunossupressor que inibe a proliferação de linfócitos T e B, reduzindo a síntese de autoanticorpos e citocinas inflamatórias (WHITLEY et al., 2017). Embora o uso em felinos ainda seja pouco documentado, estudos recentes apontam eficácia significativa em casos refratários à corticoterapia (MORAES et al., 2023). No presente caso, a estabilização dos parâmetros hematológicos após a introdução do fármaco reforça seu potencial terapêutico na AHIM felina.
Por fim, destaca-se a importância do acompanhamento clínico e da monitorização hematológica periódica, essenciais para avaliar a resposta terapêutica, detectar possíveis recidivas e monitorar os efeitos adversos dos imunossupressores utilizados. O controle adequado permitiu observar a normalização dos parâmetros eritrocitários, confirmando a recuperação hematológica e o bom prognóstico do paciente.
Dessa forma, o caso reforça a raridade e complexidade da AHIM em felinos, além da necessidade de diagnóstico diferencial criterioso e de um manejo terapêutico individualizado, que considere a resposta clínica, a tolerância ao tratamento e a importância do monitoramento contínuo.
4. CONCLUSÃO
Conclui-se que a anemia hemolítica imunomediada é uma enfermidade de evolução potencialmente grave, porém, quando diagnosticada precocemente e tratada de forma adequada, o prognóstico pode ser favorável. No caso apresentado, a resposta positiva ao tratamento e a recuperação dos parâmetros hematológicos evidenciam a importância do diagnóstico rápido e da intervenção terapêutica direcionada. Esse resultado reforça que, com acompanhamento clínico constante, manejo apropriado, suporte contínuo, é possível alcançar a estabilização e a recuperação completa do paciente.
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