EXPLORATORY ANALYSIS OF THE ALCOHOL CONTENT OF COMMERCIAL BEERS USING PYCNOMETRY AND REFRACTOMETRY AFTER SIMPLE DISTILLATION
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202512010025
Vanessa Maria Batista Prudente
Rodrigo Otávio de Faria
Charyane Satie Sato
RESUMO
A determinação do teor alcoólico em cervejas é fundamental para o controle de qualidade e atendimento às exigências regulatórias, porém métodos oficiais nem sempre são acessíveis em ambientes didáticos ou laboratórios de pequena complexidade. Nesse cenário, técnicas simplificadas como picnometria e refratometria podem auxiliar na compreensão de propriedades físico-químicas associadas ao etanol e permitir comparações preliminares entre diferentes estilos de cerveja. Assim, este estudo teve como objetivo avaliar o comportamento físico-químico de destilados obtidos de diferentes estilos de cerveja por meio das técnicas de picnometria e refratometria, investigando sua sensibilidade, aplicabilidade e capacidade de diferenciação comparativa entre amostras com teores alcoólicos distintos. As amostras de cerveja (Pilsen, IPA e English IPA) foram submetidas à destilação simples, seguida de análises de densidade relativa e índice de refração. Os resultados mostraram que a refratometria apresentou maior sensibilidade para diferenciar os estilos segundo seus teores alcoólicos declarados, enquanto a picnometria produziu distinção menos acentuada, especialmente entre IPA e English IPA. Embora as metodologias apresentem limitações inerentes à concentração do etanol no destilado e à ausência de calibração específica, ambas se mostraram adequadas para análises comparativas e aplicações didáticas. Conclui-se que a combinação de picnometria e refratometria representa uma alternativa acessível e eficaz para estudos exploratórios sobre variações de teor alcoólico em bebidas fermentadas.
Palavras-chave: teor alcoólico; cerveja; destilação simples; picnometria; refratometria.
ABSTRACT
The determination of alcohol content in beer is essential for quality control and regulatory compliance; however, official analytical methods are not always accessible in teaching laboratories or low-complexity settings. In this context, simplified techniques such as pycnometry and refractometry can support the understanding of physicochemical properties associated with ethanol and enable preliminary comparisons among different beer styles. Therefore, this study aimed to evaluate the physicochemical behavior of distillates obtained from different beer styles using pycnometry and refractometry, investigating their sensitivity, applicability, and comparative ability to distinguish samples with different alcohol contents. Pilsen, IPA, and English IPA beers were subjected to simple distillation, followed by relative density and refractive index measurements. The results showed that refractometry exhibited greater sensitivity in discriminating the styles according to their declared alcohol content, whereas pycnometry provided less pronounced differentiation, particularly between IPA and English IPA. Although the methodologies present limitations related to ethanol concentration in the distillate and the absence of specific calibration curves, both proved suitable for comparative analyses and educational purposes. It is concluded that the combined use of pycnometry and refractometry represents an accessible and effective alternative for exploratory studies on variations in alcohol content in fermented beverages.
Keywords: Alcohol content; Beer; Simple distillation; Pycnometry; Refractometry.
1. INTRODUÇÃO
A determinação do teor alcoólico em bebidas fermentadas, como a cerveja, é um parâmetro crítico para o controle de qualidade, conformidade regulatória e caracterização do produto. No Brasil, a legislação estabelece faixas específicas de graduação alcoólica para cada estilo, cabendo aos métodos analíticos garantir que os valores declarados estejam de acordo com os padrões oficiais (BRASIL, 2009; MAPA, 2019). Entretanto, em ambientes acadêmicos e laboratórios de ensino, a aplicação de métodos oficiais torna-se limitada devido ao custo e à necessidade de infraestrutura avançada. Métodos simplificados, como picnometria e refratometria, representam alternativas acessíveis para compreender princípios físico-químicos fundamentais e avaliar diferenças relativas entre matrizes hidroalcoólicas. Esses métodos exigem menor investimento instrumental e possibilitam atividades práticas de ensino, contribuindo para a formação técnica e científica de estudantes e profissionais da área de Química e Ciências de Alimentos (GAUTO et al., 2013; FIOROTTO, 2014). Assim, investigar a aplicabilidade e o comportamento dessas técnicas em cervejas comerciais apresenta relevância tanto no contexto pedagógico quanto exploratório.
Apesar de amplamente utilizados em laboratórios de ensino, poucos estudos sistematizam a eficiência e as limitações de métodos simplificados quando aplicados a diferentes estilos de cerveja, considerando a variabilidade de composição entre Pilsen, IPA e English IPA. A literatura técnico-regulatória privilegia métodos oficiais, enquanto análises exploratórias em laboratório são pouco documentadas e geralmente dispersas. A literatura descreve de forma consolidada a composição química da cerveja, a dinâmica da fermentação alcoólica e os parâmetros característicos de cada estilo (BREWERS ASSOCIATION, 2023; 2025). Também é amplamente conhecido que a densidade de misturas hidroalcoólicas diminui conforme aumenta a fração de etanol (ZENEBON; PASCUET; TIGLEA, 2008; PUBCHEM, 2025), que o índice de refração se correlaciona com a composição de etanol e extrato (VOGEL, 2002; ANSELMO, 2018) e que métodos densimétricos e ópticos podem ser utilizados de forma comparativa, desde que aplicados com rigor operacional (CHARAPITSA et al., 2014; PLUGATAR et al., 2023). Além disso, a Brewers Association (2023) estabelece diferenças claras entre os estilos de cerveja, Pilsen, IPA e English IPA, incluindo gradação alcoólica distinta.
Apesar dessas evidências, não está suficientemente documentado como a picnometria e a refratometria se comportam quando aplicadas a destilados obtidos por destilação simples de diferentes estilos de cerveja, particularmente em contextos de ensino sem uso de técnicas oficiais de alcoometria. Também não está esclarecido o grau de sensibilidade comparativa entre as duas técnicas, a capacidade real de discriminar estilos com teores alcoólicos distintos e o impacto prático das limitações instrumentais em análises didáticas. Essa lacuna justifica a necessidade de investigar o comportamento físico-químico dos destilados e a aplicabilidade das técnicas de forma sistemática. Assim, o objetivo geral deste estudo foi avaliar o comportamento físico-químico de destilados obtidos de diferentes estilos de cerveja por meio das técnicas de picnometria e refratometria, investigando sua sensibilidade, aplicabilidade e capacidade de diferenciação comparativa entre amostras com teores alcoólicos distintos.
2. DESENVOLVIMENTO
2.1. Bases físico-químicas da cerveja e caracterização dos estilos avaliados
A cerveja é uma bebida alcoólica obtida pela fermentação de mosto à base de água, malte de cevada, lúpulo e levedura, formando uma matriz físico-química complexa com carboidratos residuais, proteínas, compostos nitrogenados, minerais, voláteis e etanol (BREWERS ASSOCIATION, 2023).
Durante a fermentação alcoólica, açúcares fermentescíveis são convertidos em etanol e dióxido de carbono pelas leveduras, acompanhados da formação de compostos secundários que influenciam o aroma e o sabor, tais como ésteres, álcoois superiores e aldeídos, os quais diferenciam os estilos cervejeiros (BREWERS ASSOCIATION, 2025). O etanol apresenta propriedades relevantes para sua determinação analítica, incluindo alta volatilidade, miscibilidade total com a água, densidade inferior (0,789 g mL⁻¹ a 20 °C) e ponto de ebulição de 78,2 °C, características amplamente documentadas na literatura química (PUBCHEM, 2025; VOGEL, 2002).
Os estilos selecionados neste estudo, American-Style Pilsener, American-Style IPA e British-Style IPA, apresentam distintos perfis físico-químicos, teores alcoólicos e concentrações de compostos voláteis, refletindo variações na composição do mosto, no uso de lúpulos e no processo fermentativo (BREWERS ASSOCIATION, 2023). A American-Style Pilsener apresenta teor alcoólico típico entre 4,9% e 6,0% v/v, enquanto a American-Style IPA varia entre 6,3% e 7,5% v/v, e a British-Style IPA entre 4,5% e 7,1% v/v, sendo essas diferenças adequadas para avaliar métodos analíticos sensíveis à variação da concentração alcoólica (BREWERS ASSOCIATION, 2023). A literatura reforça que diferenças na composição da matriz, como presença de açúcares residuais e compostos aromáticos, podem interferir em análises físico-químicas simplificadas, especialmente quando técnicas indiretas são utilizadas (CASTANHEIRA et al., 2020; ZENEBON; PASCUET; TIGLEA, 2008). Assim, compreender as características físico-químicas desses estilos é essencial para interpretar os resultados obtidos por métodos como refratometria e picnometria.
2.2. Legislação brasileira aplicada ao teor alcoólico
A legislação brasileira referente às bebidas alcoólicas estabelece diretrizes para padronização, rotulagem, classificação e controle de qualidade, incluindo a obrigatoriedade de declaração do teor alcoólico nos rótulos das cervejas. O Decreto nº 6.871/2009 regulamenta as exigências relacionadas à padronização e fiscalização das bebidas, determinando a necessidade de que o teor alcoólico seja informado de acordo com critérios técnicos e verificáveis (BRASIL, 2009). A Instrução Normativa nº 65/2019 complementa esse documento ao definir faixas aceitáveis de variação entre o valor declarado e o valor real medido, além de classificar as cervejas em categorias de acordo com sua graduação alcoólica, como “cerveja sem álcool”, “cerveja com teor reduzido” e “cerveja”, considerando limites estabelecidos para cada classificação (BRASIL, 2019).
A necessidade de métodos analíticos confiáveis é reforçada pelo impacto socioeconômico da indústria cervejeira, que movimentou aproximadamente US$ 878 bilhões em 2023, segundo relatório da Oxford Economics em parceria com a World Brewing Alliance (OXFORD ECONOMICS; WORLD BREWING ALLIANCE, 2025). Assim, a verificação do teor alcoólico declarado no rótulo é essencial não apenas para a conformidade legal, mas também para assegurar transparência e qualidade ao consumidor. A legislação, portanto, estabelece os parâmetros de comparação que fundamentam a relevância do presente estudo, cuja proposta é avaliar a confiabilidade de métodos analíticos simplificados para determinação exploratória do teor alcoólico.
2.3. Fundamentos da destilação simples e sua aplicação na determinação do teor alcoólico
A destilação é um método clássico de separação baseado nas diferenças de volatilidade entre os componentes de uma mistura líquida, permitindo que substâncias mais voláteis sejam vaporizadas e posteriormente condensadas (KISTER, 1992). No caso de misturas hidroalcoólicas, como a cerveja, o etanol apresenta menor ponto de ebulição que a água, vaporiza mais rapidamente e pode ser separado da matriz contendo açúcares, proteínas, compostos nitrogenados e minerais. A destilação simples, utilizada neste estudo, consiste na vaporização da mistura e na condensação posterior dos vapores, gerando um destilado enriquecido em compostos voláteis, especialmente etanol (FIOROTTO, 2014).
Embora seja uma técnica acessível, a destilação simples exige controle adequado da taxa de aquecimento, evitando arraste indesejado de compostos altamente voláteis que possam interferir nas análises subsequentes (KISTER, 1992). O processo também deve garantir a integridade do sistema de condensação e minimizar perdas de etanol, pois tais interferências afetam a exatidão das medições de densidade e índice de refração. Considerando essas características, a destilação simples é amplamente aplicada em contextos acadêmicos e didáticos, sendo adequada para preparar amostras destinadas a métodos exploratórios como a refratometria e a picnometria (FIOROTTO, 2014).
2.4. Refratometria aplicada a misturas hidroalcoólicas
A refratometria é uma técnica analítica baseada na medição do índice de refração (n), propriedade óptica que expressa o desvio da luz ao atravessar um meio transparente, variando conforme sua composição química e a concentração de solutos presentes (VOGEL, 2002). Em sistemas binários simples, como misturas homogêneas água–etanol, o índice de refração tende a diminuir com o aumento da fração de etanol devido à menor polarizabilidade e densidade óptica do etanol em comparação à água (GAUTO et al., 2013).
Entretanto, esse comportamento não se aplica diretamente a matrizes complexas, como a cerveja, especialmente após destilação simples. O processo de destilação concentra compostos voláteis além do etanol, como álcoois superiores, ésteres e aldeídos, que possuem índices de refração mais elevados e podem contribuir para o aumento da leitura refratométrica do destilado (CASTRITIUS et al., 2010; LACHENMEIER et al., 2010). Assim, os valores obtidos neste estudo representam o índice de refração do destilado enriquecido, e não o comportamento ideal de uma solução binária água–etanol.
No presente trabalho, a refratometria foi aplicada como técnica comparativa entre os estilos analisados, utilizando o refratômetro portátil INSTRUTEMP ITREF-10 previamente calibrado com água destilada. O destilado obtido por destilação simples foi aplicado diretamente sobre o prisma óptico (2 a 3 gotas), e as leituras de índice de refração foram registradas imediatamente após a aplicação. O método destaca-se por sua rapidez, baixo consumo de amostra e boa reprodutibilidade para análises comparativas, ainda que não forneça o teor alcoólico absoluto da cerveja original (PILLING, 2025; VOGEL, 2002).
Dessa forma, a refratometria foi utilizada como ferramenta auxiliar para avaliar a tendência entre os estilos de cerveja, permitindo observar a relação esperada entre maior teor alcoólico declarado e maiores valores refratométricos do destilado, em concordância com estudos de refratometria aplicados a matrizes fermentadas complexas (LACHENMEIER et al., 2010; ROSENFELD; GÄNZLE, 2021).
2.5. Picnometria e determinação de densidade relativa
A picnometria é uma técnica consagrada para determinação da densidade relativa de líquidos e baseia-se na comparação das massas de volumes iguais de água e da amostra contidos em um picnômetro calibrado (ZENEBON; PASCUET; TIGLEA, 2008). Em misturas hidroalcoólicas, a densidade diminui conforme aumenta a concentração de etanol, permitindo a utilização de tabelas oficiais que correlacionam densidade relativa e teor alcoólico. Para a confiabilidade do método, é imprescindível que o picnômetro esteja rigorosamente limpo, livre de bolhas e estabilizado termicamente a 20 °C, além de ser necessária balança analítica de alta precisão, pois pequenas diferenças de massa afetam diretamente o valor final (ZENEBON; PASCUET; TIGLEA, 2008).
Estudos demonstram que, quando adequadamente conduzida, a picnometria apresenta boa reprodutibilidade e pode ser utilizada para determinar o teor alcoólico de bebidas como cervejas, destilados e vinhos (CASTANHEIRA et al., 2020). Entretanto, em condições laboratoriais simplificadas, oscilações de temperatura, erro de pesagem e diferenças entre picnômetros podem comprometer a exatidão das medições. Neste estudo, a técnica foi usada de forma complementar à refratometria, permitindo avaliar sua aplicabilidade prática e suas limitações em ambiente de análise preliminar.
2.6. METODOLOGIA
A presente pesquisa caracteriza-se como um estudo experimental, de abordagem quantitativa e natureza básica, cujo objetivo foi comparar dois métodos físico-químicos simples, picnometria e refratometria, aplicados ao extrato alcoólico obtido por destilação simples de diferentes estilos de cervejas comerciais. Os resultados experimentais foram avaliados quanto à coerência com os teores alcoólicos declarados nos rótulos pelos fabricantes, bem como quanto ao comportamento físico-químico das amostras após destilação.
2.6.1. Seleção das amostras
Foram selecionadas três marcas de cervejas comerciais contendo teores alcoólicos declarados de 4,7%, 5,8% e 7,1% (v/v), adquiridas em supermercados da cidade de Curitiba – Paraná. As amostras foram armazenadas conforme orientação do fabricante e identificadas por código numérico e marca para padronização das análises.
2.6.2. Determinação da densidade por picnometria
A determinação da densidade relativa do destilado foi realizada utilizando picnômetro de 10 mL, conforme metodologia descrita por Zenebon, Pascuet e Tiglea (2008). picnômetro foi higienizado, lavado com álcool, enxaguado com éter e seco à temperatura ambiente. Foram realizadas três pesagens sucessivas: picnômetro vazio, picnômetro com água destilada a 20 °C e picnômetro com o destilado obtido.
A densidade relativa foi calculada de acordo com a Equação 1:

Os valores obtidos foram utilizados para comparar o comportamento físico-químico dos estilos analisados.
2.6.3. Determinação refratométrica
A análise refratométrica foi conduzida utilizando refratômetro portátil INSTRUTEMP ITREF-10. O equipamento foi calibrado com água destilada antes de cada série de leituras. A técnica fundamenta-se na variação do índice de refração (n) de soluções hidroalcoólicas, que depende da concentração de etanol, da temperatura e do comprimento de onda da radiação incidente, conforme descrito por Vogel (2002) e Gauto et al.(2013).
O destilado obtido por destilação simples foi aplicado no prisma do refratômetro (2 a 3 gotas), e a leitura do índice de refração foi registrada. Assim como em estudos de refratometria para misturas hidroalcoólicas (CASTRITIUS et al., 2010; LACHENMEIER et al., 2010), as leituras foram utilizadas como indicadores comparativos entre as amostras, e não como medida direta do teor alcoólico original das cervejas, considerando que o destilado apresenta maior concentração alcoólica que a cerveja original.
2.6.4. Técnica de Destilação para Obtenção do Extrato Alcoólico
A destilação simples foi empregada para separar a fração alcoólica da matriz cervejeira, removendo compostos não voláteis como açúcares, proteínas e extratos, os quais poderiam interferir nas análises de densidade e índice de refração. O procedimento seguiu a metodologia descrita por Kister (1992) e Fiorotto (2014).
Cada amostra foi transferida para um balão de destilação previamente higienizado, acoplado a condensador de refluxo e aquecido em manta elétrica. Próximo ao ponto de ebulição do etanol (78,2 °C), os vapores foram condensados por resfriamento e o destilado foi coletado em recipiente limpo e seco (Figura 1).
Figura 1: Destilação simples

Fonte: Fiorotto, Nilton R, (2014).
2.6.5. Procedimentos experimentais
Todos os procedimentos foram realizados em dez repetições para cada método e para cada estilo. As análises foram conduzidas em temperatura ambiente controlada entre 20 °C e 22 °C, devido à influência térmica tanto na densidade quanto no índice de refração (GAUTO et al., 2013; ZENEBON; PASCUET; TIGLEA, 2008).
As técnicas foram aplicadas imediatamente após a obtenção do destilado, garantindo a ausência de evaporação significativa.
2.6.6. Análise dos dados
Os valores de densidade e índice de refração foram organizados e processados em planilhas no software Microsoft Excel®. Para cada estilo de cerveja e para cada método analítico (picnometria e refratometria), foram calculadas a média aritmética e o desvio padrão das dez repetições experimentais. Os gráficos utilizados na seção de Resultados foram gerados no próprio Excel®, utilizando barras com médias e barras de erro representando os desvios padrão. Os teores alcoólicos declarados nos rótulos das cervejas foram empregados apenas como referência comparativa para interpretação físico-química dos dados, sem aplicação de validação formal ou cálculo de erro percentual.
3. RESULTADOS E DISCUSSÕES
3.1. Picnometria: densidade relativa das amostras
Os valores de densidade relativa obtidos por picnometria após destilação simples são apresentados na Tabela 1 e no Gráfico 1. A amostra Pilsen apresentou densidade média de 0,91 ± 0,01 (n = 8), enquanto a IPA e a English IPA exibiram valores muito próximos, 0,90 ± 0,02 e 0,89 ± 0,01, respectivamente. Duas repetições da Pilsen foram descartadas por apresentarem valores discrepantes, atribuídos à formação de bolhas e à instabilidade no preenchimento do picnômetro, o que afetaria a precisão do cálculo.
Tabela 1 – Densidade relativa média dos destilados de cervejas comerciais, determinada por picnometria (20 °C).

Gráfico 1 – Densidade média das amostras (± desvio padrão).

A tendência observada, redução moderada da densidade com o aumento do teor alcoólico, é coerente com o comportamento físico-químico de misturas hidroalcoólicas. Entretanto, as diferenças entre IPA e English IPA não se traduziram em variações densimétricas significativas, evidenciando baixa sensibilidade do método quando aplicado a sistemas de composição alcoólica próxima.
Esse resultado está alinhado com a literatura, que reconhece que a determinação da densidade por picnometria requer rigoroso controle térmico, ausência de bolhas, equipamento calibrado e alta precisão de pesagem, especialmente quando as variações entre amostras são pequenas (Zenebon; Pascuet; Tiglea, 2008; OIV, 2023). Pequenas alterações de temperatura ou diferenças milimétricas no enchimento do picnômetro podem mascarar variações reais entre os destilados.
Estudos recentes (Plugatar; Ionin; Malyarov, 2023; Meza-Márquez et al., 2024) reforçam que a picnometria é útil em análises exploratórias e didáticas, mas apresenta limitações quando aplicada a matrizes complexas ou a destilados obtidos por processos simplificados, devido à presença de voláteis adicionais que afetam a densidade.
Dessa forma, embora a técnica tenha sido adequada para distinguir a Pilsen dos demais estilos, seus resultados não foram suficientemente sensíveis para diferenciar IPA e English IPA, reforçando seu caráter comparativo e preliminar em investigações de bebidas fermentadas.
3.2. Refratometria — teor alcoólico aparente do destilado
As leituras refratométricas apresentaram maior capacidade discriminatória entre os estilos avaliados (Tabela 2; Gráfico 2). A Pilsen apresentou leitura média de 55%, seguida pela IPA (59%) e pela English IPA (64%), mantendo coerência com os teores alcoólicos declarados pelos fabricantes.
Tabela 2 – Valores refratométricos dos destilados das cervejas analisadas (média ± DP).

Gráfico 2 – Leitura refratométrica média das amostras (± desvio padrão).

Esse comportamento ocorre porque a refratometria responde não apenas à fração alcoólica, mas também à presença de compostos voláteis concentrados durante a destilação, tais como aldeídos, álcoois superiores e ésteres, que aumentam o índice de refração (Castritius et al., 2010; Lachenmeier et al., 2010). Assim, embora os valores obtidos não representem o teor alcoólico absoluto, constituem um parâmetro comparativo sensível para diferenciar amostras com diferentes níveis de etanol.
A literatura demonstra consistente relação entre índice de refração e concentração de etanol em matrizes fermentadas, principalmente quando utilizadas para fins comparativos (Rosenfeld; Gänzle, 2021). Essa tendência foi confirmada no presente estudo, reafirmando a utilidade da refratometria como ferramenta de triagem em laboratórios didáticos ou de pequeno porte.
3.3. Comparação entre Picnometria e Refratometria
A comparação entre os dois métodos permitiu identificar diferenças importantes na sensibilidade analítica de cada técnica. A picnometria apresentou pequenas variações entre as amostras, sendo capaz de distinguir apenas a Pilsen com clareza. Já a refratometria exibiu separação nítida e consistente entre Pilsen, IPA e English IPA, acompanhando progressivamente o teor alcoólico declarado.
Esse comportamento confirma achados de Spedding (2016), Charapitsa et al. (2014) e Plugatar et al. (2023), que destacam a complementaridade entre propriedades densimétricas e ópticas. Em condições simplificadas, porém, métodos ópticos tendem a apresentar maior sensibilidade, sobretudo quando diferenças entre amostras são pequenas.
No presente estudo, a utilização concomitante das duas técnicas permitiu estabelecer, de maneira qualitativa, a ordenação dos estilos segundo seus teores alcoólicos, demonstrando a validade de ambas como ferramentas exploratórias em análises de bebidas fermentadas.
3.4. Limitações e implicações
Apesar da coerência geral dos resultados, algumas limitações devem ser consideradas:
- a destilação simples concentra múltiplos voláteis além do etanol, afetando tanto densidade quanto índice de refração;
- pequenas variações térmicas influenciam significativamente as medições;
- não foram utilizadas curvas de calibração específicas para as matrizes avaliadas;
- a picnometria demonstrou elevada sensibilidade a erros operacionais (bolhas e enchimento do picnômetro).
Tais limitações não comprometem o caráter exploratório do estudo, mas reforçam a necessidade de rigor metodológico em análises quantitativas.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente estudo investigou o comportamento físico-químico de destilados obtidos de três estilos comerciais de cerveja por meio de duas técnicas acessíveis: picnometria e refratometria, aplicadas após destilação simples. Os resultados demonstraram que ambas as metodologias foram capazes de refletir, de forma qualitativa, a ordem crescente dos teores alcoólicos declarados pelos fabricantes.
A picnometria permitiu diferenciar a Pilsen em relação aos demais estilos, porém apresentou baixa sensibilidade para distinguir a IPA da English IPA, possivelmente devido à pequena variação de densidade entre misturas hidroalcoólicas e à interferência de voláteis no destilado. A refratometria, por sua vez, mostrou melhor precisão relativa e maior capacidade discriminatória, evidenciando separação clara entre os três estilos e acompanhando o aumento previsto no teor alcoólico aparente.
Embora as técnicas aplicadas não permitam a determinação quantitativa absoluta do teor alcoólico sem calibração específica e sem métodos oficiais de referência, os resultados demonstram que a combinação de destilação simples, picnometria e refratometria constitui uma abordagem viável, de baixo custo, reprodutível e didática para análises preliminares e comparativas de bebidas fermentadas.
Pesquisas futuras podem incluir o uso de destilação fracionada, curvas de calibração específicas para cada matriz, medição de extrato residual e técnicas instrumentais avançadas (como GC ou densimetria digital), permitindo maior precisão e profundidade na caracterização físico-química das amostras. Ressalta-se que as técnicas empregadas devem ser utilizadas exclusivamente para fins exploratórios e acadêmicos, não substituindo a alcoometria oficial.
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