ANÁLISE DOS IMPACTOS DA DANÇATERAPIA NA REABILITAÇÃO MOTORA E NÃO-MOTORA DE INDIVÍDUOS COM DOENÇA DE PARKINSON: REVISÃO INTEGRATIVA DA LITERATURA

ANALYSIS OF THE IMPACTS OF DANCE THERAPY ON MOTOR AND NON-MOTOR REHABILITATION OF INDIVIDUALS WITH PARKINSON’S DISEASE: INTEGRATIVE LITERATURE REVIEW

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202511301022


 Beatriz A. Bronczek
Jordana Rinaldini
Orientadora: Prof. Andyara Sepulveda


RESUMO  

A Doença de Parkinson (DP) é uma condição neurodegenerativa progressiva marcada pela perda de neurônios dopaminérgicos da substância negra, resultando em sintomas motores como: bradicinesia, tremor, rigidez e instabilidade postural, e manifestações não-motoras: como depressão, alterações cognitivas, distúrbios gastrointestinais entre outros que prejudicam a qualidade de vida. Apesar de o tratamento farmacológico ser a principal intervenção, sua eficácia diminui nos estágios avançados, destacando a importância de abordagens não farmacológicas. Este estudo analisou os efeitos da dançaterapia na reabilitação de indivíduos com DP, considerando aspectos motores e não-motores. Foi realizada uma revisão de literatura nas bases PubMed, Scielo, PEDro e Lilacs, com descritores combinados. Incluíram-se artigos de 2018 a 2024, disponíveis na íntegra, em português ou inglês, que investigassem dançaterapia em DP. Após triagem, 14 estudos foram selecionados. Os achados indicam que a dançaterapia melhora o equilíbrio, a mobilidade funcional e a marcha, além de favorecer funções cognitivas, sintomas depressivos, qualidade de vida e participação social. O Tango Argentino foi a modalidade mais estudada, mostrando resultados superiores a outras intervenções. Formatos online também se mostraram eficazes. Conclui-se que a dançaterapia é uma intervenção segura, bem aceita e baseada em evidências, compondo uma estratégia holística relevante no cuidado multidisciplinar da DP. 

Palavras-chave: Doença de Parkinson; Dançaterapia; Reabilitação; Qualidade de vida. 

ABSTRACT  

Parkinson’s Disease (PD) is a progressive neurodegenerative disorder characterized by the loss of dopaminergic neurons in the substantia nigra, leading to motor symptoms—bradykinesia, tremor, rigidity, and postural instability—and non-motor manifestations that significantly affect quality of life. Although pharmacological therapy remains the primary treatment, its effectiveness decreases in advanced stages, highlighting the relevance of non-pharmacological strategies. This study analyzed the effects of dance therapy on the rehabilitation of individuals with PD, considering both motor and non-motor aspects. A literature review was conducted in the PubMed, Scielo, PEDro, and Lilacs databases using combined descriptors. Inclusion criteria comprised full-text articles published between 2018 and 2024, in Portuguese or English, addressing dance therapy in PD. 14 studies were included after screening. Findings indicate that dance therapy improves balance, functional mobility, and gait, and also enhances executive function, depressive symptoms, quality of life, and social participation. Argentine Tango was the most investigated modality, showing superior outcomes compared to other interventions. Online formats also proved feasible and effective. In conclusion, dance therapy is a safe, well-accepted, evidence-based intervention that provides a holistic and valuable approach within multidisciplinary PD management.

Keywords: Parkinson’s Disease; Dance therapy; Rehabilitation; Quality of life.

1. INTRODUÇÃO 

A Doença de Parkinson (DP), é uma enfermidade neurodegenerativa crônica e progressiva, que é caracterizada principalmente pela degeneração dos neurônios dopaminérgicos da substância negra compacta, o que acarreta a diminuição da dopamina nos núcleos da base (Zhou et al., 2023). Essa alteração desencadeia diversos sintomas motores no indivíduo, como bradicinesia, tremor de repouso, rigidez muscular e instabilidade postural (Armstrong & Okun, 2020). 

Além dos sintomas citados, a DP também está associada a uma ampla gama de manifestações não motoras, que incluem alterações cognitivas, distúrbios do sono, sintomas neuropsiquiátricos como depressão, ansiedade, disfunções autonômicas e dor crônica, que impactam de forma significante a qualidade de vida do ser humano (Poewe et al., 2017; Schapira et al., 2017). 

Ademais, o sintomas clínico da enfermidade é progressivo, ou seja, com a piora gradual da mobilidade e das funções cognitivas, o que leva à perda da independência funcional ao longo do tempo (Valent et al., 2023; Ellis et al., 2010). Porém, embora o tratamento farmacológico seja considerado o padrão ouro, sua eficácia tende a reduzir durante fases avançadas, com aparecimento de flutuações motoras e discinesias (Fox et al., 2018). 

Nesse contexto, as estratégias não farmacológicas tornam-se fundamentais no manejo da doença, entre elas, a fisioterapia e os programas de exercícios estruturados, que têm contribuindo para a melhora da qualidade de vida e para a participação social dos pacientes com DP (Armstrong & Okun, 2020; Bloem et al., 2021). 

Dentro da fisioterapia, a dançaterapia existe como uma intervenção terapêutica que utiliza a dança de forma estruturada para fins de reabilitação física, emocional e social (American Dance Therapy Association, 2023). Envolvendo movimentos ritmados, que são geralmente acompanhados de música, essa terapia estimula a coordenação, o equilíbrio, a marcha, a cognição e a interação social (American Dance Therapy Association, 2023; Luvizutto et al., 2023). 

No contexto da Doença de Parkinson, a dançaterapia vem ganhando destaque como uma estratégia complementar ao tratamento, estudos preliminares indicam que atividades como o tango argentino, a dança contemporânea e outras modalidades rítmicas podem promover melhoras no equilíbrio, na mobilidade funcional, na amplitude de movimento e até mesmo em aspectos cognitivos e emocionais (McNeely et al., 2020). 

A relevância dessa abordagem é amplificada quando consideramos o contexto epidemiológico da DP, já que, na atualidade, a doença afeta aproximadamente 1 a 2% da população acima dos 65 anos, sendo considerada a segunda condição neurodegenerativa mais prevalente no mundo, atrás apenas da Doença de Alzheimer, onde, estima-se que o número de pessoas com DP possa dobrar até 2040, em razão do envelhecimento populacional global, configurando um importante desafio de saúde pública (Bloem et al., 2021; Dorsey et al., 2018). 

Diante da importância dessa abordagem, o presente trabalho tem como objetivo analisar, por meio de revisão de literatura, o impacto da dançaterapia na reabilitação de indivíduos com doença de Parkinson, considerando tanto os aspectos motores quanto os não motores, observados na literatura. 

2. METODOLOGIA 

Este estudo foi realizado por meio de uma revisão de literatura, com o objetivo de reunir e analisar os principais estudos relacionados à utilização da dançaterapia em pacientes com Doença de Parkinson. Essa abordagem permite uma síntese ampla de achados relevantes sobre o tema, considerando diferentes tipos de estudos publicados. 

Estratégias de busca 

A busca dos artigos foi realizada em bases de dados eletrônicas, como PubMed, Scielo, PEDro e Lilacs, utilizando descritores em português e inglês combinados, tais como: “Doença de Parkinson” AND “dança”, “reabilitação” AND “sintomas motores”, “qualidade de vida” AND “terapia”, “terapia do movimento” AND “neuroreabilitação”, “Parkinson’s disease” AND “dance therapy”, “rehabilitation” AND “motor symptoms”, “quality of life” AND “therapy”, “movement therapy” AND “neurorehabilitation”. Combinados entre si por meio do operador booleano AND. 

Critérios de inclusão e exclusão 

Foram adotados como critérios de inclusão os artigos publicados entre 2018 e 2024, disponíveis na íntegra, em português ou inglês, que abordassem especificamente os efeitos da dançaterapia em pacientes com diagnóstico de Doença de Parkinson. Foram considerados estudos originais, incluindo ensaios clínicos, estudos quase-experimentais ou observacionais, que apresentassem resultados relacionados a efeitos motores e não-motores como sintomas cognitivos, funcionais, organização espacial, bradicinesia, rigidez articular e outros que afetam a qualidade de vida. Como critérios de exclusão, foram desconsiderados artigos duplicados, revisões de literatura, revisões narrativas, relatos de caso e publicações que não apresentassem resultados diretamente vinculados à intervenção proposta, e títulos repetidos. 

Estratégia de seleção 

Para selecionar os artigos, foi realizada uma triagem dos títulos relacionados ao tema da revisão, relacionada com os títulos que abordassem a dançaterapia em pacientes com Parkinson, em seguida foi feita a leitura detalhada dos resumos dos artigos a fim de selecionar aqueles que abordassem exclusivamente o tema em questão. 

Análise de dados 

Os dados foram analisados de forma qualitativa e apresentados na forma de tabela com a descrição das seguintes características: autor e ano do estudo, título do artigo, objetivo do estudo, método/tipo do estudo e principais resultados. 

3. RESULTADOS 

Durante o processo de busca nas bases de dados científicas, foram identificados 127 artigos (PubMed: 58; Scielo: 23; Pedro: 31; Lilacs: 15) relacionados ao tema. Após a leitura dos títulos e resumos, 113 artigos foram excluídos por não se enquadrarem nos critérios pré-estabelecidos. Ao final, 14 artigos foram incluídos, por apresentarem coerência temática com os objetivos propostos e metodologia compatível com os critérios estabelecidos. 

As etapas desse processo estão representadas no Fluxograma 1, e ilustram visualmente como se deu a triagem e a seleção dos estudos incluídos.

Figura 1: Fluxograma da seleção dos artigos.

Os estudos analisados nesta revisão de literatura demonstraram que a dançaterapia é uma ferramenta essencial no cuidado de pacientes com Doença de Parkinson, abrangendo desde casos em estágios leves a moderados da condição. A maioria dos estudos incluídos (11 artigos) utilizou delineamentos experimentais, incluindo ensaios clínicos randomizados controlados, estudos controlados e estudos piloto, demonstrando a robustez metodológica da evidência disponível. Apenas 3 estudos utilizaram abordagens qualitativas para explorar aspectos subjetivos da experiência com dançaterapia. Tais estudos utilizaram diferentes tipos de intervenção, conforme apresentado na Figura 2 e detalhado a seguir:

Figura 2: Tipos de dança identificados nos estudos.

O Tango Argentino emergiu como a modalidade mais estudada especificamente, representando 28,6% dos estudos incluídos. Esta preferência pode ser atribuída às características técnicas específicas do tango, que demandam controle postural, coordenação bilateral, mudanças direcionais e ritmo variado, elementos que desafiam diretamente os déficits motores característicos da Doença de Parkinson. Para organizar e apresentar de forma clara os dados obtidos nos artigos incluídos nesta revisão de literatura, foi elaborada a Tabela 1. Nela, estão sintetizadas informações essenciais de cada estudo selecionado. Essa sistematização permite uma análise comparativa entre os trabalhos, facilitando a identificação das principais abordagens e evidências relacionadas à atuação da dançaterapia em pacientes com Doença de Parkinson.

Tabela 1 – Caracterização dos estudos incluídos

 Autor/Ano  Título do Artigo Objetivo do Estudo  Método/Tipo de Estudo  Principais 
Resultados  
 DUARTE et al. (2023)  Physical activity based on dance movements as complementary therapy for Parkinson’s disease: Effects on movement, executive functions, depressive symptoms, and quality of life. 

Atividade física baseada em movimentos de dança como terapia complementar para a doença de Parkinson: efeitos sobre o movimento, funções executivas, sintomas depressivos e qualidade de vida.
Investigar os efeitos da atividade física baseada em movimentos de dança na DP. Estudo controlado randomizado. Melhorias significativas na função executiva, sintomas depressivos, qualidade de vida e função motora. 
 LEE et al. (2018)  Effects of partnered, tango dancing on motor symptoms, balance, and functional mobility in Parkinson disease.  

Efeitos da dança de tango em dupla sobre os sintomas motores, equilíbrio e mobilidade 
funcional na doença de Parkinson.  
Investigar os efeitos do tango em pares nos sintomas motores e mobilidade. Ensaio clínico randomizado controlado. Melhorias significativas no equilíbrio, mobilidade funcional e sintomas motores. 
 MORRIS et al. (2023) Dancing for Parkinson’s Disease Online: Clinical Trial Process Evaluation.  

Dança para a Doença de Parkinson Online: Avaliação do Processo de Ensaio Clínico. 
Avaliar a viabilidade da dançaterapia online para pessoas com DP. Ensaio clínico randomizado online. Intervenção online é viável, eficaz, e com alta adesão, e benefícios na mobilidade funcional.  
 RAWSON et al. (2019) Exercise and Parkinson disease: comparing tango, treadmill, and stretching.  

Exercício e Doença de Parkinson: comparando tango, esteira e alongamento.
Comparar os efeitos do tango, esteira e alongamento na DP. Ensaio clínico randomizado controlado. Tango mostrou benefícios 
superiores no equilíbrio e qualidade de vida comparado às outras intervenções.
 POIER et al. (2019) A Randomized Controlled Trial to Investigate the Impact of Tango Argentino versus Tai Chi on Quality of Life in Patients with Parkinson Disease.  

Ensaio Clínico Randomizado para Investigar o Impacto do Tango Argentino versus Tai Chi na Qualidade de Vida de Pacientes com Doença de Parkinson.  
Investigar a influência do Tango Argentino na qualidade de vida de pessoas com DP. Ensaio clínico randomizado.  Grupo tango mostrou melhor bem-estar emocional comparado ao Tai Chi. 
 DELABARY et al. (2024) Brazilian dance self-perceived impacts on quality of life of people with Parkinson’s.  

Impactos autopercebidos da dança brasileira na qualidade de vida de pessoas com Parkinson. 
Explorar os impactos percebidos da dança brasileira na qualidade de vida. Estudo 
qualitativo. 
 Dança 
brasileira promove benefícios físicos, emocionais e sociais 
significativos.  
JOLA et al. (2022) Benefits of dance for Parkinson’s: The music, the moves, and the company. Benefícios da dança para o Parkinson: a música, os movimentos e a companhia.Investigar os benefícios multidimensionai s da dança na DP. Estudo qualitativo. Música, movimentos e interação social contribuem para benefícios terapêuticos.
SOLLA et al. (2019) An innovative approach for improving gait in Parkinson’s disease patients: Effects of immersive virtual reality. Uma abordagem inovadora para melhorar a marcha em pacientes com doença de Parkinson: efeitos da realidade virtual imersiva. Avaliar os efeitos da dança com realidade virtual imersiva na marcha. Estudo piloto randomizado controlado. Melhoria significativa na velocidade da marcha e parâmetros espaço temporais. 
KUNKEL et al. (2018) A randomized controlled feasibility trial exploring partnered ballroom dancing for people with Parkinson’s disease. Um ensaio clínico randomizado e controlado explorando a dança de salão em parceria para pessoas com doença de Parkinson. Explorar a viabilidade da dança de salão em pares para pessoas com DP. Estudo de viabilidade. randomizado controlado. Intervenção viável com tendências de melhoria no equilíbrio e qualidade de vida. 
HASHIMOTO et al. (2018) Effects of dance on motor functions, cognitive functions, and mental symptoms of Parkinson’s disease: a quasirandomized pilot trial. 

Efeitos da dança nas funções motoras, cognitivas e nos sintomas mentais da doença de Parkinson: um ensaio piloto quase aleatório. 
Avaliar os efeitos da dança nas funções motoras, cognitivas e sintomas mentais. Ensaio piloto quase randomizado. Melhorias nas funções motoras, cognitivas e redução de sintomas mentais. 
MICHELS et al. (2018) Dance therapy as a psychotherapeuti c movement intervention in Parkinson’s disease. 

A dançaterapia como intervenção psicoterapêutica do movimento na doença de Parkinson. 
Investigar a dançaterapia como intervenção psicoterapêutica na DP. Estudo controlado. Benefícios significativos no bem-estar psicológico e função motora. 
FRISALDI et al. (2021) Effects of a 10week dance movement therapy protocol in patients with Parkinson’s disease: A pilot study. 

Efeitos de um protocolo de terapia de movimento de dança de 10 semanas em pacientes com doença de Parkinson: um estudo piloto.
Investigar os efeitos de protocolo de 10 semanas de dançaterapia na DP. Estudo piloto. Melhorias significativas na qualidade de vida e função cognitiva global. 
BEARSS et al. (2018) Effects of partnered dance on motor function and quality of life in Parkinson disease. 

Efeitos da dança em parceria na função motora e na qualidade de vida na doença de Parkinson. 
Investigar os efeitos da dança em pares na função motora e qualidade de vida. Ensaio clínico randomizado. Melhorias significativas na função motora, equilíbrio e qualidade de vida. 
CARAPELLOTTI et al. (2018) Adapted tango improves mobility and participation in people with Parkinson disease. 

Tango adaptado melhora a mobilidade e a participação das pessoas com doença de Parkinson. 
Investigar os efeitos do tango adaptado na mobilidade e participação. Estudo controlado randomizado. Melhorias na mobilidade, participação social e qualidade de vida. 

4. DISCUSSÃO 

Os achados deste estudo, após a análise dos 14 trabalhos incluídos, revelaram evidências consistentes de que a dançaterapia na Doença de Parkinson vai muito além do simples manejo de sintomas motores, trata-se de uma abordagem terapêutica complexa e eficaz, adaptada às características fisiopatológicas da doença e voltada para a reabilitação integral do paciente. 

A eficácia da dançaterapia na DP pode ser compreendida através de múltiplos mecanismos que atuam sinergicamente, Em especial a combinação de exercício físico estruturado, estímulo rítmico-musical, demandas cognitivas e interação social, que cria um ambiente terapêutico único, capaz de desafiar diretamente os sistemas neurais comprometidos na doença(JOLA et al., 2022; MCNEELY et al., 2020). 

Dentro dessas intervenções, o estímulo rítmico-musical, presente em todas as modalidades analisadas, desempenha papel fundamental como facilitador externo para início e manutenção dos movimentos, compensando parcialmente os déficits dos gânglios da base, sendo uma hipótese que reforça os  resultados de melhoria da marcha e mobilidade funcional. LEE et al. (2018), SOLLA et al. (2019) e CARAPELLOTTI et al. (2018). 

O tratamento fisioterapêutico através da dançaterapia demonstra maior efetividade quando aplicada de forma precoce e estruturada, sobretudo em estágios leves a moderados da DP, assim a perspectiva, de uma intervenção antecipada tem potencial para modificar a progressão da doença ao preservar circuitos neurais ainda funcionais e estimular adaptações neuroplásticas compensatórias. DUARTE et al. (2023) e HASHIMOTO et al. (2018). 

Outro aspecto relevante evidenciado por RAWSON et al. (2019) se dá à superioridade do tango em comparação a outras modalidades de exercício, tal vantagem pode ser explicada pela complexidade multisensorial do tango, cujos movimentos exigem integração simultânea de informações visuais, auditivas, proprioceptivas e táteis, gerando um desafio neuromotor capaz de ativar múltiplas vias neurais comprometidas na DP. 

SOLLA et al. (2019) demonstra que um avanço significativo na área de dançaterapia foi a incorporação de tecnologias emergente, que demonstraram a realidade virtual imersiva potencializa os efeitos terapêuticos da dança, ao oferecer um ambiente controlado, seguro e personalizado, ajustado às limitações de cada paciente, essa abordagem permite ainda a gradação precisa da dificuldade e o monitoramento objetivo da evolução clínica. Além disso, estudos sobre o tango, especialmente na doença de Parkinson, mostram benefícios terapêuticos evidentes: por exemplo, CARAPELLOTTI et al. (2018) encontraram melhorias no equilíbrio, mobilidade funcional e com tendência de ganho cognitivo e de redução da fadiga por meio de aulas de tango. 

Somando-se a isso, MORRIS et al. (2023) apresentaram evidências da viabilidade e efetividade da dançaterapia em formato online, um achado particularmente relevante no cenário contemporâneo. A modalidade virtual não apenas preserva os benefícios funcionais da intervenção, como também democratiza o acesso, eliminando barreiras geográficas e físicas, a alta adesão relatada mostra que os pacientes mantêm motivação e engajamento mesmo fora do ambiente presencial. MORRIS et al. (2023).  

As melhorias consistentes em funções cognitivas e executivas, descritas por DUARTE et al. (2023), HASHIMOTO et al. (2018) e FRISALDI et al. (2021), fornecem evidências indiretas de mecanismos neuroplásticos envolvidos na dançaterapia, ocorrendo porque a dança exige processos cognitivos refinados, como memória de trabalho para sequências coreografadas, atenção dividida, função executiva para planejamento motor e processamento temporal. 

Esses resultados sugerem que a dançaterapia contribui para reorganização neural em circuitos que vão além dos gânglios da base, possibilitando o desenvolvimento de vias compensatórias. Especificamente, FRISALDI et al. (2021) documentaram melhorias na função cognitiva global, demonstrando que os efeitos ultrapassam os domínios exclusivamente motores. 

As investigações qualitativas de JOLA et al. (2022) e DELABARY et al. (2024) mostraram que música, movimento e interação social atuam de forma integrada, promovendo benefícios expressivos nos âmbitos emocional e psicossocial, tal combinação cria um ambiente terapêutico holístico, que atende simultaneamente às necessidades físicas, cognitivas, emocionais e sociais dos indivíduos com DP. 

Adicionalmente, POIER et al. (2019) evidenciaram a superioridade do tango em relação ao Tai Chi na promoção do bem-estar emocional, provavelmente devido a características como ritmo, expressividade e parceria, tais elementos que intensificam o engajamento e a experiência emocional dos participantes. MICHELS et al. (2018) corroboraram esses achados ao examinar os aspectos psicoterapêuticos da dança. 

Outro ponto importante foi introduzido por DELABARY et al. (2024), ao investigar a dança brasileira como intervenção terapêutica, a dimensão cultural, frequentemente negligenciada, mostrou-se determinante para aumentar a adesão e potencializar benefícios, já que integra elementos familiares e significativos para o paciente. 

Esses resultados sugerem que a dançaterapia pode ser eficaz independentemente do estilo utilizado, desde que preserve seus princípios centrais, sendo eles ritmo, movimento estruturado e engajamento social. Além disso, sua adaptabilidade cultural representa vantagem expressiva sobre outras terapias mais padronizadas, possibilitando intervenções altamente personalizadas (DELABARY et al., 2024). 

Apesar dos avanços, a análise crítica dos estudos revela limitações metodológicas importantes. A heterogeneidade de instrumentos de avaliação (UPDRS III, Berg Balance Scale, Mini-BESTest, PDQ-39) dificulta comparações diretas e inviabiliza meta-análises robustas. Além disso, a maioria das pesquisas utilizou amostras relativamente pequenas (entre 28 e 29 participantes nos menores estudos), reduzindo o poder estatístico e a possibilidade de generalização dos resultados. 

Também se observou ausência de grupos controle adequados em alguns trabalhos, especialmente nos qualitativos, o que limita a inferência de causalidade. Torna-se necessário, portanto, que estudos futuros adotem delineamentos metodológicos mais rigorosos, com grupos controle ativos e períodos de follow-up ampliados para avaliar a persistência dos efeitos terapêuticos. 

Os resultados desta revisão possuem implicações práticas relevantes para profissionais envolvidos no cuidado de pessoas com DP. A dançaterapia deve ser considerada uma intervenção baseada em evidências dentro do manejo multidisciplinar, principalmente pela variedade de modalidades eficazes, que permite personalização conforme preferências individuais, limitações físicas e contexto cultural. 

Para viabilizar sua implementação clínica, é essencial investir em formação adequada de profissionais, desenvolvimento de protocolos padronizados, parcerias com instrutores especializados e expansão da oferta online, que amplia significativamente o alcance da intervenção. 

Quanto às pesquisas futuras, recomenda-se a realização de estudos multicêntricos com amostras mais numerosas, padronização dos instrumentos de avaliação, investigação de biomarcadores de neuroplasticidade, e análise de custo-efetividade. Além da exploração de modalidades culturalmente adaptadas em diferentes populações, que também representa uma área promissora de investigação. 

5. CONCLUSÃO 

Com isso foi possível concluir que a dançaterapia representa uma intervenção terapêutica fundamental e baseada em evidências no tratamento de pacientes com Doença de Parkinson. As evidências demonstram que esta modalidade de intervenção contribui significativamente para a melhora dos sintomas motores e não motores, manutenção da independência funcional e promoção do bem-estar geral, estabelecendo-se como uma abordagem segura, eficaz e bem aceita pelos pacientes. Apesar disso, ainda há algumas limitações importantes, como a quantidade de estudos reduzidas, metodologias variadas e amostras pequenas. As futuras pesquisas com protocolos padronizados e acompanhamento de longo prazo serão necessárias para ampliar tais evidências.   

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