ANÁLISE DOS EFEITOS DA ATUAÇÃO FISIOTERAPÊUTICA NA QUALIDADE DE VIDA DOS PACIENTES ONCOLÓGICOS EM CUIDADOS PALIATIVOS

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202510202041


Lidiane Ferreira Silva Portugal1
Estefani de Cássia Camilo2
Serena Peranzi Reis Pereira3


RESUMO:

A fisioterapia tem se destacado como uma ferramenta essencial nos cuidados paliativos oncológicos, atuando na promoção do conforto, na manutenção da funcionalidade e na melhora da qualidade de vida dos pacientes. Este estudo teve como objetivo analisar os efeitos da atuação fisioterapêutica na qualidade de vida de pacientes oncológicos em cuidados paliativos, utilizando os instrumentos Palliative Performance Scale (PPS) e EORTC QLQ-C30. Trata-se de uma pesquisa quantitativa, descritiva e transversal, realizada com 17 pacientes acompanhados no Hospital Bom Pastor, em Varginha/MG. Os resultados demonstraram que a maioria dos pacientes apresentava funcionalidade moderada e escores elevados nos sintomas de dor, fadiga e insônia. Observou-se uma tendência positiva entre maior funcionalidade e melhor percepção de qualidade de vida. Além disso, a maioria dos participantes relatou benefícios subjetivos após as sessões fisioterapêuticas, como alívio da dor, melhora na respiração e bem-estar emocional. Conclui-se que a fisioterapia, quando integrada à equipe multiprofissional, exerce impacto clínico e humanizado no cuidado de pacientes oncológicos em fase avançada. 

Palavras-chave: Fisioterapia. Cuidados paliativos. Oncologia. Qualidade de vida. Funcionalidade. 

ABSTRACT: 

Physiotherapy has emerged as an essential tool in oncologic palliative care, promoting comfort, maintaining functionality, and improving patients’ quality of life. This study aimed to analyze the effects of physiotherapy on the quality of life of cancer patients in palliative care, using the Palliative Performance Scale (PPS) and the EORTC QLQ-C30 questionnaire. This is a quantitative, descriptive, and cross-sectional study conducted with 17 patients treated at Hospital Bom Pastor, in Varginha/MG, Brazil. Results showed that most patients had moderate functionality and high scores in symptoms such as pain, fatigue, and insomnia. A positive trend was observed between higher functional levels and better quality of life perception. Furthermore, most participants reported subjective benefits after physiotherapy sessions, including pain relief, improved breathing, and emotional well-being. It is concluded that physiotherapy, when integrated into the multidisciplinary team, has a clinical and humanized impact on the care of advanced-stage cancer patients. 

Keywords: Physiotherapy. Palliative care. Oncology. Quality of life. Functionality.

1. INTRODUÇÃO 

O câncer representa um dos principais desafios de saúde pública contemporâneos, caracterizando-se por elevada incidência, complexidade clínica e impacto multidimensional na vida dos pacientes (INCA, 2023). A doença, definida como um conjunto de neoplasias malignas com potencial invasivo e metastático, está associada a fatores genéticos, ambientais e comportamentais (Lopes-Júnior et al., 2020). Segundo projeções recentes, estima-se que o Brasil registre aproximadamente 704 mil novos casos de câncer por ano até 2025 (INCA, 2022), consolidando-se como uma condição de elevada prevalência e mortalidade. 

Diante da progressão inevitável de muitos casos e da limitação terapêutica curativa, os cuidados paliativos emergem como abordagem fundamental no tratamento oncológico avançado. Definidos pela Organização Mundial da Saúde como um conjunto de intervenções voltadas à promoção da qualidade de vida frente a doenças ameaçadoras da vida, os cuidados paliativos incorporam dimensões físicas, emocionais, sociais e espirituais do cuidado (OMS, 2023). Nessa perspectiva, a fisioterapia paliativa tem se destacado, não apenas como recurso analgésico e funcional, mas como componente essencial da equipe multiprofissional, atuando na prevenção de complicações, alívio de sintomas e promoção da autonomia residual (Leal Burgos, 2017; Silva et al., 2021). 

A atuação fisioterapêutica nesse cenário contempla intervenções direcionadas ao controle da dor, tratamento de distúrbios respiratórios, melhora da mobilidade, prevenção de úlceras de pressão, manejo da fadiga oncológica e reabilitação funcional. Ainda que existam evidências da relevância dessa atuação, são escassos os estudos nacionais que avaliem, sob perspectiva quantitativa e funcional, o impacto da fisioterapia sobre a qualidade de vida de pacientes oncológicos em cuidados paliativos

Neste contexto, este estudo propôs-se a preencher essa lacuna, analisando os efeitos da atuação fisioterapêutica na funcionalidade e no bem-estar desses pacientes, por meio de instrumentos validados, como o Palliative Performance Scale (PPS) e o EORTC QLQ-C30. A pesquisa foi conduzida no Hospital Bom Pastor (MG), referência regional em oncologia, e ofereceu dados empíricos que podem subsidiar condutas clínicas mais eficazes e humanizadas no contexto do cuidado paliativo.

2. JUSTIFICATIVA 

A progressão do câncer em estágios avançados frequentemente impõe uma condição de sofrimento físico, emocional e funcional significativo, tanto para os pacientes quanto para seus familiares. Neste contexto, os cuidados paliativos são reconhecidos como uma abordagem terapêutica essencial, cujo foco não é mais a cura, mas sim a promoção de conforto, dignidade e qualidade de vida (OMS, 2023). Apesar da consolidação teórica e prática dos cuidados paliativos, a atuação da fisioterapia nesse cenário ainda carece de reconhecimento sistemático e de comprovação empírica robusta no Brasil. 

A atuação fisioterapêutica no cuidado paliativo contribui de forma direta para o controle de sintomas debilitantes como dor, dispneia, fadiga, edema e perda funcional, proporcionando não apenas alívio físico, mas também melhora do estado emocional e da independência do paciente (Nascimento et al., 2017; Müller et al., 2011). No entanto, mesmo diante desses benefícios evidentes, a fisioterapia ainda é subvalorizada nos protocolos de cuidados paliativos em muitas instituições de saúde pública, sendo frequentemente vista como uma intervenção secundária ou complementar. 

Além disso, estudos demonstram que a percepção dos próprios pacientes sobre sua funcionalidade e qualidade de vida é um fator determinante na tomada de decisões clínicas e no planejamento terapêutico (Alba et al., 2018). Avaliar a atuação fisioterapêutica sob essa ótica é um passo fundamental para legitimar seu impacto e propor melhorias baseadas em evidências. 

Diante do aumento da prevalência do câncer, da escassez de dados nacionais sobre fisioterapia paliativa e da urgência em promover uma assistência multiprofissional mais qualificada, justifica-se a realização deste estudo. A pesquisa contribuirá para ampliar o corpo de evidências sobre os efeitos da fisioterapia em pacientes oncológicos sem possibilidade de cura, reforçando a importância de sua inclusão plena nas equipes de cuidados paliativos. 

3. REFERENCIAL TEÓRICO 

3.1 Panorama epidemiológico do câncer

O câncer constitui uma das maiores causas de morbidade e mortalidade em todo o mundo, sendo responsável por milhões de novos casos e óbitos anualmente (WHO, 2023). Segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA), estima-se que, no Brasil, ocorrerão aproximadamente 704 mil novos casos de câncer por ano entre 2023 e 2025, com destaque para os cânceres de pele não melanoma, mama feminina, próstata, cólon e reto, pulmão e estômago (INCA, 2022). Trata-se de um grupo de doenças multifatoriais, envolvendo alterações genéticas, epigenéticas e ambientais, caracterizadas pela proliferação celular descontrolada com potencial de invasão tecidual e metástase (Lopes-Júnior et al., 2020). 

Com a evolução dos tratamentos oncológicos e o envelhecimento populacional, observa-se um aumento significativo de pacientes com câncer em fase avançada ou terminal, o que demanda abordagens terapêuticas integradas, centradas na pessoa e não apenas na doença (Silva et al., 2021). Nesse contexto, os cuidados paliativos emergem como estratégia essencial para garantir não apenas sobrevida, mas também qualidade de vida. 

3.2 Cuidados paliativos: Definição e abordagem multiprofissional 

A Organização Mundial da Saúde define os cuidados paliativos como uma abordagem que visa melhorar a qualidade de vida de pacientes e familiares diante de doenças ameaçadoras à vida, por meio da prevenção e alívio do sofrimento, da identificação precoce e do tratamento da dor e de outros problemas físicos, psicossociais e espirituais (WHO, 2020). A proposta não está restrita ao tratamento final da vida, mas deve ser implementada desde o diagnóstico, especialmente em casos com prognóstico reservado. 

A prática paliativa requer uma equipe multiprofissional composta por médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, psicólogos, assistentes sociais, nutricionistas e terapeutas ocupacionais, entre outros, que atuam de maneira integrada e centrada nas necessidades do paciente (ANCP, 2022). Essa abordagem permite uma visão ampliada do cuidado, promovendo dignidade, conforto e acolhimento nas fases mais delicadas da trajetória oncológica. 

3.3 Fisioterapia paliativa: Objetivos, técnicas e evidências

A atuação fisioterapêutica em cuidados paliativos visa preservar ou recuperar a funcionalidade, controlar sintomas incapacitantes e promover a autonomia e o bem-estar do paciente. Os principais objetivos incluem: 

● Alívio da dor musculoesquelética; 

● Melhora da capacidade respiratória; 

● Redução de edemas e linfedemas; 

● Prevenção de úlceras de pressão; 

● Facilitação da mobilidade e independência funcional (Leal Burgos, 2017; Nascimento et al., 2017). 

A literatura aponta benefícios importantes da fisioterapia na redução da dor e fadiga relacionadas ao câncer, bem como no impacto emocional da perda progressiva de autonomia (Müller, Scortegagna & Moussalle, 2011). Técnicas como exercícios terapêuticos leves, mobilizações passivas, treino de AVDs, drenagem linfática, reeducação respiratória e eletroterapia analgésica podem ser adaptadas às condições clínicas do paciente em cuidados paliativos. 

Além disso, a fisioterapia contribui para a humanização do cuidado, promovendo escuta ativa, presença terapêutica e atenção personalizada, o que reforça seu papel central no cuidado integral do paciente oncológico avançado (Silva et al., 2021). 

3.4 Qualidade de vida em oncologia paliativa: Conceito e mensuração 

A qualidade de vida (QV) é um conceito multidimensional que abrange o bem-estar físico, psicológico, social e espiritual, sendo particularmente relevante no contexto do cuidado paliativo, onde o foco deixa de ser a cura e passa a ser o conforto e a dignidade (Ferrell & Coyle, 2015). Em oncologia paliativa, a QV está intimamente ligada à capacidade de o paciente manter sua autonomia, controlar os sintomas e preservar suas relações interpessoais, mesmo diante da terminalidade. 

Estudos demonstram que intervenções fisioterapêuticas adaptadas à condição clínica do paciente podem melhorar significativamente aspectos da QV, reduzindo dores incapacitantes, promovendo alívio respiratório, prevenindo complicações secundárias e favorecendo o vínculo terapêutico (Lopes-Júnior et al., 2020; Silva et al., 2021). A mensuração contínua e sistemática desses aspectos é essencial para o redirecionamento das condutas clínicas e para o reconhecimento da efetividade do cuidado. 

3.5 Instrumentos de Avaliação: PPS e QLQ-C30 

Para mensurar os efeitos da atuação fisioterapêutica em pacientes oncológicos em cuidados paliativos, é necessário utilizar instrumentos validados e específicos. A Palliative Performance Scale (PPS), desenvolvida pelo Victoria Hospice Society (Canadá), é uma escala amplamente utilizada para avaliação da funcionalidade em cuidados paliativos, baseada em cinco parâmetros principais: deambulação, atividade e evidência de doença, autocuidado, ingestão alimentar e nível de consciência (ANCP, 2022). 

Já o EORTC QLQ-C30 é um questionário padronizado e validado internacionalmente pela European Organization for Research and Treatment of Cancer, composto por 30 itens que avaliam múltiplos domínios da qualidade de vida em pacientes com câncer: funções física, emocional, social, cognitiva e global, além de sintomas como dor, fadiga, náusea, dispneia e insônia (Alba et al., 2018). 

A utilização combinada destes dois instrumentos permite uma avaliação abrangente tanto da funcionalidade clínica quanto da percepção subjetiva do paciente sobre sua qualidade de vida, promovendo maior acurácia na análise dos efeitos das intervenções fisioterapêuticas. 

4. METODOLOGIA 

4.1 Delineamento do estudo 

Trata-se de um estudo de abordagem quantitativa, com delineamento descritivo, exploratório e transversal, realizado em ambiente hospitalar. A pesquisa visa mensurar e correlacionar aspectos da funcionalidade e da qualidade de vida de pacientes oncológicos inseridos em cuidados paliativos, com ênfase na atuação fisioterapêutica. 

Segundo Gil (2019), o delineamento descritivo permite investigar características de determinada população, enquanto a abordagem exploratória é adequada quando há pouca informação acumulada sobre o fenômeno. O corte transversal possibilita a análise dos dados em um único ponto no tempo, ideal para avaliar condições clínicas e funcionais de pacientes com prognóstico variável. 

4.2 Local da pesquisa 

A coleta de dados foi realizada no Hospital Bom Pastor, situado em Varginha/MG, instituição referência em tratamento oncológico e cuidados paliativos no sul de Minas Gerais. O setor de oncologia conta com equipe multiprofissional e serviço de fisioterapia integrado ao atendimento paliativo. 

4.3 População e amostra 

A população-alvo da pesquisa foi composta por pacientes adultos em cuidados paliativos oncológicos acompanhados pela equipe de fisioterapia do hospital. Foi utilizada amostragem não probabilística por conveniência, considerando os critérios de inclusão e exclusão estabelecidos. 

Critérios de inclusão: 

● Pacientes com idade ≥ 40 anos; 

● Diagnóstico oncológico confirmado em estágio avançado; 

● Inserção formal em programa de cuidados paliativos; 

● Acompanhamento fisioterapêutico regular; 

● Capacidade de comunicação verbal preservada; 

● Assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

Critérios de exclusão: 

● Limitações cognitivas graves ou distúrbios neurológicos que comprometam a compreensão dos instrumentos; 

● Condições clínicas instáveis ou com risco iminente de óbito; 

● Recusa em participar ou retirada do consentimento durante a coleta.

4.4 Instrumentos de coleta de dados

Foram utilizados dois instrumentos validados: 

● Palliative Performance Scale (PPS): avalia o estado funcional do paciente em cinco domínios (ambulação, atividade, autocuidado, alimentação e nível de consciência). Desenvolvida por Anderson et al. (1996), é amplamente utilizada em cuidados paliativos e permite estimativa prognóstica baseada em desempenho funcional. 

● EORTC QLQ-C30 (versão 3.0): desenvolvido pela European Organization for Research and Treatment of Cancer, avalia a qualidade de vida de pacientes oncológicos por meio de 30 itens distribuídos em cinco funções (física, emocional, cognitiva, social e global) e nove escalas de sintomas. 

Além disso, foi aplicado um formulário de dados sociodemográficos e clínicos contendo: idade, sexo, tipo de câncer, tempo desde o diagnóstico, comorbidades associadas e tempo em cuidados paliativos. 

4.5 Procedimentos de Coleta 

A coleta foi realizada de forma individual, no próprio leito ou ambulatório, respeitando a privacidade e o conforto do paciente. A aplicação dos instrumentos foi conduzida por pesquisadoras previamente treinadas, com linguagem clara e acolhedora, assegurando a compreensão das perguntas. 

Antes da coleta, os pacientes foram informados quanto aos objetivos da pesquisa, aos procedimentos envolvidos e à confidencialidade dos dados. Somente após a assinatura do TCLE foram incluídos no estudo. 

4.6 Aspectos Éticos 

Esta pesquisa seguiu os preceitos da Resolução 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde. O projeto foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa, por meio do parecer consubstanciado nº 7.549.288, emitido em 06 de maio de 2025, sob o protocolo CAAE nº 88104225.0.0000.5111

Os dados coletados foram armazenados em local seguro, utilizados exclusivamente para fins científicos, e os participantes puderam se retirar do estudo a qualquer momento, sem prejuízo ao tratamento. 

4.7 Análise de Dados 

Os dados obtidos por meio dos questionários foram organizados e analisados utilizando exclusivamente o software Microsoft Excel®, versão mais atual disponível. Foram aplicadas técnicas de estatística descritiva, permitindo uma interpretação clara e acessível dos resultados. 

As seguintes análises foram realizadas: 

● Cálculo de médias e desvio padrão para variáveis contínuas, como escore de funcionalidade (PPS) e escore de qualidade de vida (QLQ-C30); 

● Análise comparativa simples, por meio de gráficos de colunas, barras e dispersão, para evidenciar possíveis relações entre os níveis de funcionalidade e os escores de qualidade de vida; 

● Correlação visual e interpretação clínica entre as respostas aos instrumentos PPS e QLQ-C30, buscando identificar tendências, padrões ou relações de influência entre as variáveis. 

Os resultados foram organizados em tabelas e gráficos descritivos, facilitando a compreensão tanto pela banca quanto por leitores não familiarizados com métodos estatísticos avançados. A interpretação dos dados foi feita à luz da literatura científica, com foco na relevância clínica dos achados. 

 5. RESULTADOS 

A amostra do presente estudo foi composta por 17 pacientes oncológicos em cuidados paliativos, acompanhados no Hospital Bom Pastor, em Varginha/MG. Os participantes foram avaliados quanto ao desempenho funcional e à qualidade de vida, com base na aplicação das escalas Palliative Performance Scale (PPS) e EORTC QLQ-C30. 

5.1 Características da Amostra

A Tabela 1 apresenta os dados sociodemográficos e clínicos dos 17 participantes do estudo. A amostra foi composta predominantemente por pacientes do sexo feminino, com média de idade de 66,1 anos. Os tipos de câncer mais prevalentes foram mama, próstata e pulmão. 

Tabela 1 – Características sociodemográficas e clínicas dos participantes (MASCULINO/FEMININO) (n = 17)

Tabela 2 – Características sociodemográficas e clínicas dos participantes (FAIXA ETÁRIA) (n = 17)

Tabela 3 – Características sociodemográficas e clínicas dos participantes (TIPO DE CÂNCER) (n = 17)

5.2 Desempenho Funcional (PPS) 

A Tabela 4 descreve a distribuição dos pacientes com base na Palliative Performance Scale (PPS). Uma proporção significativa dos participantes (n = 8) apresentava funcionalidade moderada (PPS entre 40–60%).

Tabela 4 – Classificação dos pacientes segundo o escore da Palliative Performance Scale (PPS)

5.3 Qualidade de Vida (QLQ-C30) 

A Tabela 5 apresenta os escores médios por domínio do questionário EORTC QLQ-C30. Apesar do bom escore funcional global (4,0), domínios como fadiga, dor, insônia e função emocional apresentaram comprometimento importante. 

Tabela 5 – Escore médio dos domínios do EORTC QLQ-C30 (n = 17)

5.4 Relação entre Funcionalidade e Qualidade de Vida 

Para melhor compreensão da relação entre funcionalidade e qualidade de vida, os pacientes foram agrupados segundo o escore do Palliative Performance Scale (PPS) em três faixas: ≥70%, 40–60% e <40%. A Tabela 5 apresenta a média dos domínios do EORTC QLQ-C30 em cada estrato. Observa-se que pacientes com PPS ≥70% apresentaram melhores escores de qualidade de vida global e função física, além de menor intensidade de sintomas. Já os pacientes com PPS <40% relataram maior comprometimento emocional, social e cognitivo, confirmando a associação entre maior dependência funcional e pior percepção de qualidade de vida. 

Tabela 6 – Médias dos domínios do QLQ-C30 segundo faixas do PPS (n = 17)

5.5 Percepção Subjetiva sobre a Fisioterapia 

A Tabela 6 resume os relatos subjetivos dos pacientes sobre os efeitos da fisioterapia. A maioria percebeu benefícios importantes, principalmente no alívio da dor e melhora respiratória. 

Tabela 6 – Percepção dos pacientes sobre os efeitos da fisioterapia (n = 17)

6. DISCUSSÃO 

Os achados deste estudo evidenciam que a amostra, composta por 17 pacientes com média de idade de 66,1 anos e predominância do sexo feminino, reflete o perfil epidemiológico típico de indivíduos com neoplasias em estágios avançados, conforme descrito pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA, 2022). Os cânceres de mama, próstata e pulmão foram os mais frequentes, corroborando dados nacionais sobre a incidência em idosos e em pacientes com múltiplas comorbidades. 

A maioria dos pacientes avaliados apresentava funcionalidade moderada a baixa, com sintomas predominantes de fadiga, dor, insônia e dispneia. Ainda assim, os escores de função global e física foram satisfatórios, sugerindo que a intervenção fisioterapêutica atua como fator estabilizador em um momento clínico marcado por fragilidade crescente. Além disso, a percepção subjetiva dos participantes revelou alto índice de satisfação com os atendimentos, principalmente no que diz respeito ao alívio da dor, melhora respiratória e conforto emocional. 

Quando analisada a funcionalidade, observou-se que 47% dos participantes apresentavam PPS entre 40% e 60%, indicando funcionalidade moderada, enquanto 29,4% ainda mantinham bom desempenho funcional. Apenas 23,6% estavam em estágio avançado de dependência funcional (PPS < 40%). Esse achado é consistente com estudos como Carvalho (2019), realizado no Ambulatório de Cuidados Paliativos de Fortaleza (CE), que evidenciou que grande parte dos pacientes oncológicos apresentava funcionalidade moderada, conforme avaliado pela Escala de Performance Paliativa (PPS). 

A análise da qualidade de vida, avaliada pelo questionário EORTC QLQ-C30, demonstrou escore elevado para função funcional global (4,0), o que sugere que, apesar da progressão da doença, os pacientes percebiam sua condição geral de maneira relativamente positiva. No entanto, domínios como função emocional (2,6), cognitiva (2,5) e social (2,4) apresentaram comprometimento significativo, o que é esperado em populações que enfrentam o impacto físico e psicológico da terminalidade (Ferrell & Coyle, 2015; Lopes-Júnior et al., 2020). 

Os sintomas mais prevalentes foram fadiga (2,9), dor (2,7) e insônia (2,6). Esses achados reforçam a literatura atual, que identifica tais manifestações como as principais fontes de sofrimento nos cuidados paliativos oncológicos (Nascimento et al., 2017; Leal Burgos, 2017). A presença de dispneia (3,6), mesmo com mobilidade reduzida, aponta para a relevância da atuação fisioterapêutica na reabilitação respiratória e no manejo de desconfortos respiratórios comuns em pacientes com metástases pulmonares ou quadros obstrutivos. Esse achado reforça a importância da fisioterapia respiratória como medida não farmacológica essencial, especialmente em contextos onde o controle medicamentoso é limitado. 

Um dos pontos mais expressivos do estudo foi a percepção subjetiva dos pacientes quanto à fisioterapia. A maioria relatou melhora significativa da dor (88,2%), melhora na mobilidade ou respiração (76,5%), e bem-estar emocional (58,8%) após as sessões. Tais dados reafirmam o papel da fisioterapia não apenas como intervenção técnica, mas também como componente de humanização do cuidado. A escuta ativa, o toque terapêutico e a adaptação dos recursos às necessidades do paciente são fatores que fortalecem o vínculo profissional-paciente e conferem dignidade ao processo de morrer (ANCP, 2022; WHO, 2023). 

Outro achado relevante foi a associação clínica entre maior funcionalidade (PPS ≥ 70%) e melhores escores nos domínios do QLQ-C30. Pacientes mais ativos relataram menor intensidade de sintomas e maior satisfação com sua condição. Essa correlação já é bem descrita em estudos como o de Alba et al. (2018), que demonstram que a preservação funcional está diretamente ligada à autopercepção positiva da saúde e à menor necessidade de intervenções farmacológicas. 

Apesar dos resultados promissores, este estudo apresenta limitações. O tamanho da amostra (n = 17) reduz o poder estatístico para análises inferenciais e impede generalizações amplas. A ausência de um grupo controle também limita a comparação direta entre pacientes com e sem fisioterapia. Ainda assim, os dados obtidos são consistentes com a literatura e fornecem base empírica para fortalecer o argumento da inserção efetiva da fisioterapia em equipes de cuidados paliativos. 

Por fim, destaca-se que a fisioterapia, quando inserida de forma sistemática e ética nos cuidados paliativos, não tem como objetivo a cura, mas sim a manutenção da dignidade funcional, o alívio da dor e o suporte emocional. Essa tríade representa um dos pilares do cuidado centrado na pessoa e evidencia o quanto o fisioterapeuta pode e deve ser agente ativo na promoção da qualidade de vida, mesmo diante da finitude. 

 7. CONCLUSÃO 

Este estudo demonstrou que a atuação fisioterapêutica tem impacto positivo e significativo na qualidade de vida de pacientes oncológicos em cuidados paliativos. Mesmo diante da progressão da doença e das limitações funcionais inerentes ao quadro clínico avançado, os dados evidenciaram que a fisioterapia contribui de forma decisiva para o alívio de sintomas, manutenção da funcionalidade e promoção do bem-estar físico e emocional. 

Conclui-se, portanto, que a fisioterapia deve ser valorizada e incorporada de forma sistemática às equipes multiprofissionais que atuam com pacientes em final de vida, não como ferramenta curativa, mas como promotora de autonomia, alívio e humanidade, conforme reforçado por estudos nacionais e internacionais (Carvalho & Parsons, 2019; WHO, 2023; Alba et al., 2018). Em essência, o fisioterapeuta nos cuidados paliativos cumpre uma missão singular: dar movimento ao que ainda pode se mover e conforto ao que precisa repousar.

 8. REFERÊNCIAS 

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