ANÁLISE DOS DIAGNÓSTICOS HISTOPATOLÓGICOS DE GLOMERULOPATIAS NAS BIÓPSIAS DE RIM NATIVO PROVENIENTES DE UM HOSPITAL DE ALTA COMPLEXIDADE EM FORTALEZA (CE)

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202509062134


Alan Bessa Aguiar
Kaeliny Gomes dos Santos
Maria Clara Borges Girão Peixoto
André Costa Teixeira


RESUMO 

A doença renal crônica (DRC) tem como principais etiologias a nefropatia diabética,  a nefropatia hipertensiva e as glomerulopatias. As doenças glomerulares apresentam clinicamente conforme a causa e extensão do comprometimento deste  compartimento histológico. Para guiar a escolha terapêutica, definir prognóstico e  seguimento da doença, é necessário determinar a sua etiologia, sendo crucial, na  maioria dos casos, a realização da biópsia renal. O presente estudo revisou os laudos  histopatológicos e de imunofluorescência de biópsias de rim nativo com o diagnóstico  de glomerulopatias, no período compreendido entre julho de 2022 e julho de 2024,  provenientes de um hospital de alta complexidade de Fortaleza (CE). Foram  identificadas as patologias glomerulares mais prevalentes na amostra, suas  características epidemiológicas e a associação do quadro clínico dos pacientes com  as alterações histopatológicas encontradas. Trata-se de um estudo observacional,  analítico e retrospectivo, com população composta por 103 pacientes. Dentre os  resultados obtidos, observou-se predominância de pacientes jovens (36,6 ±14,5) do  sexo feminino (69; 67,0%), cujos principais achados clínico-laboratoriais  evidenciaram alteração da função renal (62; 60,2%) e proteinúria (87; 84,5%), além  de manifestações como edema (48; 46,6%) e hematúria (48; 46,6%) Associado aos  diagnósticos patológicos renais, muitos pacientes apresentam associação clínica de  outras patologias prévias ao estudo, dentre elas destaca-se o lúpus eritematoso  sistêmico (11; 18,9%) como o principal diagnóstico prévio. Quanto aos exames  imunológicos, evidencia-se uma ampla presença de autoanticorpos, especialmente  fator antinúcleo (FAN) (53; 51,5%) e anticorpo anti-DNA (33; 32%), bem como casos frequentes de hipocomplementemia (31; 30,1%) . Outrossim, a avaliação histológica  das amostras revelou alterações glomerulares variadas, com destaque para  hipercelularidade endocapilar, infiltrado leucocitário, esclerose segmentar e  proliferação mesangial, além de achados relevantes como crescentes, necrose  fibrinóide e depósitos subendoteliais. Enquanto isso, a imunofluorescência mostrou  ampla positividade para imunoglobulinas (IgG, IgA, IgM), frações do complemento  (C3 e C1q) e cadeias leves kappa e lambda. Nesse cenário, diante dos diagnósticos  avaliados na amostra, a nefrite lúpica se apresenta como o diagnóstico mais  prevalente (51; 49,5 %), seguida da nefropatia por IgA (9; 8,7%) e, posteriormente, a  Glomerulosclerose Segmentar e Focal / GESF (9; 8,7%). Esses achados reforçam a  diversidade etiológica e morfológica das glomerulopatias, destacando a importância  da biópsia renal como ferramenta diagnóstica essencial no manejo clínico dos  pacientes nefropatas. A prevalência de quadros de disfunção aguda mostra ainda a  necessidade de se ampliar a investigação histopatológica para doenças glomerulares  com comprometimento crônica. 

Palavras-chave: Patologia renal. Imunofluorescência. Glomerulopatias. Síndrome nefrótica.  Nefrologia. 

ABSTRACT 

Chronic kidney disease (CKD) is most commonly caused by diabetic nephropathy,  hypertensive nephropathy, and glomerulopathies. The clinical presentation of  glomerular diseases varies according to the etiology and the extent of involvement of  this histological compartment. To guide therapeutic decisions, establish prognosis,  and monitor disease progression, it is essential to determine the underlying etiology,  which in most cases requires renal biopsy. The present study reviewed  histopathological and immunofluorescence reports of native kidney biopsies  diagnosed with glomerulopathies, performed between July 2022 and July 2024, at a  tertiary care hospital in Fortaleza, Brazil. The most prevalent glomerular diseases in  the sample were identified, along with their epidemiological characteristics and the  association between patients’ clinical presentation and histopathological findings. This  was an observational, analytical, and retrospective study, including 103 patients. The  population predominantly consisted of young adults (mean age 36.6 ± 14.5 years), with a female predominance (69; 67.0%). The main clinical-laboratory findings included impaired renal function (62; 60.2%) and proteinuria (87; 84.5%), in addition  to edema (48; 46.6%) and hematuria (48; 46.6%). Among the patients with renal  pathology diagnoses, many presented with comorbidities, most notably systemic lupus  erythematosus (11; 18.9%) as the leading pre-existing condition. Immunological  evaluation revealed a high prevalence of autoantibodies, particularly antinuclear  antibodies (ANA) (53; 51.5%) and anti-dsDNA antibodies (33; 32%), as well as  frequent cases of hypocomplementemia (31; 30.1%). Histological evaluation  demonstrated a wide spectrum of glomerular alterations, including endocapillary  hypercellularity, leukocytic infiltrates, segmental sclerosis, and mesangial proliferation,  along with relevant findings such as crescents, fibrinoid necrosis, and subendothelial  deposits. Immunofluorescence analysis showed extensive positivity for  immunoglobulins (IgG, IgA, IgM), complement fractions (C3 and C1q), and both kappa  and lambda light chains. Within the sample, lupus nephritis emerged as the most  prevalent diagnosis (51; 49.5%), followed by IgA nephropathy (9; 8.7%) and focal  segmental glomerulosclerosis (FSGS) (9; 8.7%). These findings highlight the  etiological and morphological diversity of glomerulopathies and reinforce the  importance of renal biopsy as an essential diagnostic tool in the clinical management  of nephropathic patients. Furthermore, the significant prevalence of acute dysfunction  underscores the need to expand histopathological investigation of glomerular  diseases with chronic involvement. 

Keywords: Renal pathology. Immunofluorescence. Glomerulopathies. Nephrotic syndrome. Nephrology. 

1. INTRODUÇÃO 

A doença renal crônica (DRC) é uma condição caracterizada pela perda  progressiva e irreversível da função renal ao longo do tempo, diagnosticada pela  existência de dano renal ou de taxa de filtração glomerular (TFG) menor que 60  mL/min/1,73m2 que persistem por mais de três meses1. Esse dano renal pode ser  evidenciado por prejuízos funcionais, como a presença de albuminúria e de  anormalidades no sumário de urina, por alterações em exames de imagem ou exames  histológicos, ou ainda por história de transplante renal2.

O diagnóstico precoce e acurado da DRC é de suma importância na redução  da morbimortalidade associada a esta condição na população em geral3. A DRC, em  suas fases iniciais, muitas vezes é assintomática, o que pode resultar em um grande  número de indivíduos vivendo com a condição sem o devido conhecimento. Tal  cenário propicia o desenvolvimento de complicações correlacionadas, tais como  doenças cardiovasculares, anemia, distúrbios ósseos, além do risco de progressão  para estágios da doença que necessitam de terapias renais substitutivas4

A identificação precoce da DRC proporciona uma janela de oportunidade para  intervenções que visam retardar sua progressão, como controle dos fatores de risco  – principalmente hipertensão arterial sistêmica e diabetes mellitus -, mudanças no  estilo de vida e tratamento farmacológico apropriado5. Ademais, esse diagnóstico em  fases precoces da doença alerta para a necessidade de uma monitorização periódica  da função renal, o que facilita uma escolha mais assertiva e eficaz das opções  terapêuticas6

No que concerne às principais etiologias que desencadeiam a DRC, tem-se  algumas que merecem destaque por sua maior prevalência na população, como a  doença renal do diabetes e a doença renal hipertensiva, sendo as duas principais, e  as glomerulopatias, consistindo a terceira etiologia mais comum7

O diabetes mellitus induz a doença renal crônica através de alguns  mecanismos específicos. A hiperglicemia promove elevações nos níveis de alguns  fatores que contribuem para o fenômeno de hiperfiltração e, consequentemente, um  aumento da pressão capilar, desencadeando, em última análise, modificações no  glomérulo e subsequente fibrose8. Quanto às alterações decorrentes da hipertensão,  há perda da autorregulação habitual da arteríola aferente levando à hiperfiltração,  que, por sua vez, leva à perpetuação e ao agravamento da hipertensão, ciclo esse  que favorece à glomerulosclerose9. Já as glomerulonefrites utilizam um diferente  mecanismo para lesar inicialmente o rim e levar à DRC, tendo início com a deposição  de imunocomplexos na membrana basal, gerando inflamação e uma série de outros  processos que culminam em fibrose e cicatrizes7

O grupo das glomerulopatias manifesta-se clinicamente de várias formas,  dependendo da etiologia específica e da extensão do comprometimento glomerular. 

Os sintomas comuns incluem proteinúria – podendo estar associada à síndrome  nefrótica -, hematúria, edema, hipertensão arterial e disfunção renal progressiva10.  Para o diagnóstico, muitas vezes é preciso lançar mão da biópsia renal. 

O procedimento de biópsia renal é conduzido sob orientação de ultrassom ou  tomografia computadorizada (TC), com o paciente geralmente na posição prona.  Durante a biópsia percutânea guiada por ultrassom, geralmente realizada no polo  inferior do rim esquerdo ou direito, é crucial evitar a presença de intestino próximo ao  local de punção, garantindo assim uma trajetória segura. A visualização do fluxo  sanguíneo renal também é de importante relevância11. A biópsia guiada por TC,  similar à conduzida por ultrassom, permite uma localização precisa do rim, mas sem  visualização em tempo real. Em casos onde a biópsia percutânea não é viável,  alternativas como a biópsia transjugular ou a biópsia cirúrgica aberta ou laparoscópica  podem ser consideradas12

O número de amostras necessárias para o diagnóstico é variável e depende  da suspeita diagnóstica. Na preparação padrão, deve estar presente amostra  suficiente para dividir em fixador para microscopia óptica, imunofluorescência e  eletrônica13. A avaliação do material com a microscopia óptica, quando corado em  hematoxilina-eosina (HE), é útil para avaliar a integridade e a celularidade de um  glomérulo e pode fornecer informações sobre a integridade epitelial do túbulo renal, a  celularidade mesangial e a esclerose, e o grau de infiltrado intersticial14. Quando  aplicados outros protocolos de coloração, algumas informações adicionais podem ser  destacadas, como quantificação de colágeno em área de fibrose, espessura das  membranas basais, presença de depósitos amiloides, entre outros12

Já as amostras avaliadas na imunofluorescência permitem uma excelente  detecção de antígeno no interstício, nas membranas tubulares e no glomérulo, sendo  IgG, IgM, IgA, componentes do complemento C3 e C1q, Fibrinogênio e cadeias leves  rotineiramente examinados. O exame com a microscopia eletrônica avalia com mais  detalhe depósitos organizados e doenças da membrana basal15

A respeito dos dados epidemiológicos das glomerulopatias, no contexto  mundial, observam-se variações por influências de diversos fatores ambientais e  socioeconômicos distintos, havendo diferenças entre países desenvolvidos e em desenvolvimento em relação às principais etiologias. Nesse âmbito, a Nefropatia por  IgA é mais prevalente nos países asiáticos e em alguns países europeus, enquanto  há maior prevalência da nefrite lúpica (NL), da doença renal diabética (DKD) e da  vasculite sistêmica pauci-imune no continente africano16,17,18 

Já no cenário nacional, evidências epidemiológicas obtidas na última década  mostram que as glomerulopatias primárias (GN) constituem uma causa relevante da  DRC no Brasil, representando em média 20% de todas as doenças renais  diagnosticadas. Dentre elas, a glomerulosclerose segmentar focal (GESF) e a  nefropatia membranosa são as mais comumente diagnosticadas pelo exame  anatomopatológico19. Apesar desses resultados representando uma visão geral do  panorama nacional, é de extrema importância ressaltar que, devido à  heterogeneidade da população brasileira em termos de distribuição geográfica,  diferenças étnicas, tendências temporais e faixas etárias, a prevalência e o espectro  das doenças glomerulares podem diferir dentre as suas diversas regiões16

Nos estados de São Paulo e Amazonas, foram relatadas frequências elevadas  de GESF e NL dentre as glomerulopatias biopsiadas. Em São Paulo, GESF e  nefropatia membranosa foram as principais doenças diagnosticadas, enquanto em  hospitais de referência de Manaus, observou-se maior preponderância de casos de  NL20 . No estado do Ceará, dados mostram que a principal indicação de biópsia renal  foi a síndrome nefrótica, sendo a GESF a lesão glomerular primária mais frequente  diagnosticada21

Apesar dos dados já disponíveis, ainda nota-se uma escassez de estudos  acerca dos diagnósticos histopatológicos de biópsias renais, particularmente das  doenças glomerulares, no Brasil e em específico no campo regional cearense, frente  à discrepância da disponibilidade dos vastos registros epidemiológicos internacionais  de doenças renais, principalmente nos países da América do Norte e do continente  europeu22.

A obtenção mais aprofundada de dados epidemiológicos acerca das doenças  glomerulares pode fornecer subsídios para importantes correlações clínico patológicas, permitindo assim uma prática clínica mais completa e integrada. Além  disso, estas informações representam ferramentas de política de saúde, uma vez que possibilitam o conhecimento do perfil dos pacientes, bem como a formulação de  projetos e estratégias que melhorem seu atendimento23. O impacto do domínio desse  conhecimento ressalta a importância desse estudo para que seja possível um refino  dos dados disponíveis para que sejam levantados relativos à frequência e a eventuais  mudanças no padrão nacional de doenças renais e especialmente de glomerulopatias  diagnosticadas no Ceará 24

2. MATERIAIS E MÉTODOS 

2.1. Desenho do estudo 

Trata-se de um estudo observacional, analítico e retrospectivo, em que foram  analisados os laudos histopatológicos de biópsias de rins nativos oriundos do Hospital  Geral de Fortaleza (HGF) no período compreendido entre Julho de 2022 e Julho de  2024, as quais foram enviadas para o laboratório de patologia ARGOS para avaliação  histopatológica.  

2.2. Seleção da amostra 

A população do estudo foi composta de 103 pacientes em investigação de  doença renal, cujo órgão foi biopsiado.  

Foram incluídos todos os pacientes com rim nativo submetidos a biópsia renal  no Hospital Geral de Fortaleza (HGF), entre os anos de 2022 e 2024, cujos materiais  foram encaminhados para análise histopatológica em um laboratório de referência em  Patologia Renal do estado do Ceará.  

Foram excluídos do estudo as biópsias de rim transplantado, as amostras  insuficientes para diagnóstico histopatológico, materiais dos quais as informações  clínicas não puderam ser obtidas e aquelas cujo diagnóstico final não tenha sido uma  glomerulopatia. 

2.3. Descrição da técnica 

2.3.1. Biópsia renal 

Para a maioria dos pacientes, a biópsia renal percutânea é o método de  escolha, pois é menos invasiva quando comparada a outras abordagens. É realizada, geralmente, sob orientação do ultrassom em tempo real, entretanto, a tomografia  computadorizada (TC) é uma opção quando os rins não são bem visualizados, como  em pacientes obesos ou nos rins pequenos. Antes do procedimento é colocado o  acesso intravenoso periférico, o paciente fica em decúbito ventral ou em decúbito  lateral no caso de pacientes grávidas ou obesos25

A biópsia renal percutânea é realizada com o auxílio do ultrassom e com  anestesia local. A ultrassonografia pode localizar o polo inferior do rim, local mais  indicado por ter menor risco de perfuração de vasos importantes, além de determinar  o tamanho do órgão e a presença de cistos que possam exigir o uso do rim  contralateral. Após localizar o polo inferior, é feita uma marca na pele para identificar  o local de inserção da agulha de biópsia, o local é preparado e anestesiado. Com o  uso do ultrassom e da agulha, preferencialmente com mola e de calibre 16, pode ser  localizada a cápsula do polo inferior e fornecer anestesia para o trajeto da agulha.  Depois de uma pequena incisão na pele, a ultrassonografia é usada para guiar a  agulha diretamente no local a ser biopsiado25, 26

No hospital em estudo, as amostras foram coletadas predominantemente de  forma percutânea guiada por ultrassom. O paciente fica em decúbito ventral, é  realizado a antissepsia, aposição de campos e anestesia local. Em seguida, utiliza-se  a agulha 16×16 automática acoplada na pistola para biópsia, sendo biopsiado o polo  inferior do rim, removendo dois fragmentos, um deles é colocado em um frasco com  formol para ser analisado por microscopia óptica e o outro é colocado em um frasco  com solução de Michel para o exame de imunofluorescência.  

2.3.2. Processamento de microscopia óptica.  

A inclusão em parafina consiste na substituição da água dos tecidos por  parafina, processo que proporciona firmeza e maciez suficientes para a realização  de cortes finos (5um), realizados por aparelhos denominados histotécnicos, os  quais, com a utilização de solventes como álcool e xilol, conseguem remover a água  presente nos tecidos. Após a inclusão em parafina, realizam-se cortes histológicos  em micrótomo com espessura de 5 (cinco) micrômetros e posterior coloração pelas  técnicas de HE (Hematoxilina-Eosina), Tricrômio de Masson, Ácido periódico de Schiff (PAS) e Prata Jones, para que então os cortes sejam examinados pelo  patologista27

2.3.3. Processamento de imunofluorescência 

Após realização dos cortes em tecido a fresco fixado em meio de Michel, as  lâminas foram colocadas na acetona P.A a -20°C (5 min) e, em seguida, na acetona  em temperatura ambiente (20 min). As lâminas são transferidas para um tampão de  lavagem (5 min) para remoção da acetona. É feita então a incubação do tecido com  o Ac primário (15 – 30 min) conjugado a um fluoróforo. Os seguintes anticorpos são  realizados em todas as lâminas: IgG, IgA, IgM, C1q, C3, Kappa, Lambda,  Fibrinogênio. As lâminas são transferidas para o tampão de lavagem (5 min), sendo  posteriormente lavadas com água destilada para remoção do tampão. Em seguida,  são montadas com meio de montagem e lamínula. 

2.4. Coleta e análise de dados 

O levantamento de casos foi realizado a partir de dados do APLIS® (Anatomic  Pathology Laboratory Information System), sistema de dados do laboratório de  Patologia ARGOS, centro de referência para onde são encaminhadas as biópsias  renais do HGF. A coleta de informações clínicas e laboratoriais de cada paciente foi  efetuada por meio da revisão de solicitações de estudo anatomopatológico  encaminhadas ao serviço juntamente com o material da biópsia, conforme o termo de  concordância do serviço e o termo de fiel depositário.  

Na revisão dos laudos de microscopia óptica foram avaliados os seguintes  parâmetros: número de glomérulos e vasos de médio calibre, principal padrão de  lesão associado (vide formulário de coleta de dados), grau de fibrose intersticial e  alterações tubulares e vasculares.  

Já na revisão dos laudos de imunofluorescência, registraram-se as seguintes  informações: marcadores positivos, compartimento histológico afetado e o tipo de  marcação no caso de positividade em alças, como linear, granular e subendotelial.  Ademais, realizou-se a coleta do diagnóstico final, estabelecido após discussão  clinicopatológica. Todos os dados serão organizados em planilhas do Microsoft® EXCEL. 

Inicialmente, após o levantamento de dados, a análise foi elaborada no  conjunto de todos os casos levantados, e posteriormente realizaram-se as análises  específicas para as glomerulopatias mais comumente diagnosticadas quanto a  variáveis epidemiológicas e histopatológicas. Utilizou-se o software SPSS® 28 para a  análise estatística, de modo que as variáveis categóricas foram expressas em número  (n) e porcentagem e as várias contínuas serão testadas quando à sua normalidade  pelo teste de Kolmogorov-Smirnov. As variáveis paramétricas serão expressadas em  médias e desvio-padrão, enquanto as variáveis não paramétricas serão expressadas  em mediana e intervalo interquartil. Adotou-se como nível de significância p <0,05  quando forem utilizados testes para comparação de frequências e médias/medianas  entre os grupos. Em seguida, os resultados serão organizados em tabelas e gráficos. 

2.5. Aspectos éticos 

A confidencialidade dos sujeitos envolvidos foi preservada. Assegura-se que a  pesquisa foi feita de acordo com a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD),  garantindo, assim, a proteção dos direitos fundamentais de liberdade e privacidade  das pessoas. 

O acesso ao sistema foi feito mediante senha de propriedade pessoal do  coordenador da pesquisa. Os laudos e suas informações não foram baixados,  impressos ou salvos em pastas de outras plataformas de dados, minimizando assim  o risco de extravio dos dados. 

Por se tratar de um estudo observacional contando apenas com a revisão de  laudos patológicos já emitidos, sem qualquer tipo de intervenção, propõe-se a  dispensa do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. 

A proposta de pesquisa foi submetida ao Comitê de Ética do Centro  Universitário Unichristus e a coleta de dados foi iniciada após sua devida aprovação.  Cabe frisar que todos os princípios éticos que regem a resolução 466/12 do Conselho  Nacional de Saúde – CNS /Ministério da Saúde – MS foram respeitados. 

3. RESULTADOS

Na análise das biópsias renais de rim nativo, foram totalizados 103 casos  incluídos na amostra. A distribuição por gênero demonstrou predominância feminina,  correspondendo a 69 casos (67%), enquanto o sexo masculino representou 34 casos (33%). A média de idade dos pacientes foi de 36,6 anos. 

Em relação ao quadro clínico e aos principais parâmetros laboratoriais,  verificou-se elevada frequência de alteração da função renal, relatada em 62  pacientes (60,2%), com valores médios de creatinina sérica de 2,5 mg/dL. A  ocorrência de proteinúria merece destaque, identificada em 87 casos (84,5%), com  média de excreção urinária de proteínas em 24 horas de 4,2g. Edema e hematúria  foram descritos em 48 pacientes (46,6%). 

No estudo de autoanticorpos e do complemento sérico, observou-se que em  53 pacientes (51,5%) havia relato de positividade para fator antinúcleo (FAN), e em  33 casos (32%) foram descritos anticorpo anti-DNA positivo. Hipocomplementemia foi  detectada em aproximadamente um terço dos doentes (30,1%). 

No que se refere às comorbidades associadas, aproximadamente metade dos  pacientes (49,5%) apresentavam diagnóstico prévio de lúpus eritematoso sistêmico  descrito. Hipertensão arterial sistêmica foi relatada em 10 casos (9,7%), diabetes  mellitus em 9 pacientes (8,7%) e infecção pelo HIV em apenas 3 indivíduos. Outras  comorbidades foram identificadas em 13 casos (Tabela 1). 

Tabela 1 – Descrição epidemiológica, clínica e laboratorial dos pacientes do estudo.

Lista de abreviaturas: LES – Lupus Eritematoso Sistêmico, FAN (Fator antinúcleo). 

Na análise por microscopia óptica das biópsias renais de rim nativo, realizada  em 103 amostras, observou-se uma média de 14,9 glomérulos por amostra. A  proporção média de glomérulos esclerosados foi de 14,3%. A hipercelularidade  endocapilar esteve presente em 52 casos (50,5%), com uma média de acometimento  de 28% dos glomérulos por amostra. Infiltrado leucocitário foi observado em 50  amostras (48,5%), com média de 26,1% de glomérulos acometidos por biópsia. 

Crescentes celulares foram identificados em 17 biópsias (16,5%), com média  de 3,2%. Crescentes fibrosas estavam presentes em 18 casos (17,4%), com média  de 2,9%. Necrose fibrinóide foi detectada em 2 amostras (1,9%). Depósitos  subendoteliais e vacuolizações da membrana basal foram encontrados em 50  (48,5%) e 18 (17,4%) biópsias, respectivamente. A presença de humps foi observada  em apenas 1 amostra (1%), e trombos glomerulares não foram identificados em  nenhuma amostra.

Dentre outras alterações estruturais, duplicações da membrana basal foram  observadas em 6 casos (5,8%), e a proliferação mesangial esteve presente em 48  amostras (46,6%). Esclerose segmentar foi um achado relevante, presente em 43  amostras (41,7%). A presença de depósitos de amiloide foi identificada em apenas  uma amostra (1%). 

A avaliação com imunofluorescência, realizada em 82 amostras, revelou  positividade para imunoglobulinas e componentes do sistema complemento em  proporções significativas. A presença de IgG foi detectada em 52 amostras (63,4%),  enquanto IgA foi positiva em 44 casos (53,6%) e IgM em 49 (59,7%). 

A fração de C3 foi observada em 63 amostras (76,8%). O componente C1q,  relacionado à via clássica do complemento, foi identificado em 32 biópsias (39%).  Com relação às cadeias leves imunoglobulínicas, a cadeia kappa foi positiva em 64  amostras (78%) e a cadeia lambda em 65 (79,2%). A presença de Fibrinogênio foi  observada em 33 casos (Tabela 2). 

Tabela 2 – Descrição dos achados histopatológicos.

Das 103 biópsias renais realizadas, 5 (4,8%) foram consideradas  inconclusivas. Entre os casos com diagnóstico definido, a nefrite lúpica foi a entidade  mais prevalente, identificada em 51 amostras (49,5%). A nefropatia por IgA foi o  segundo diagnóstico mais frequente, observada em 9 biópsias (8,7%), seguida da  nefropatia membranosa e da glomeruloesclerose segmentar e focal (GESF), ambas  com 7 casos cada (6,8%). A doença de lesão mínima foi diagnosticada em 6 amostras  (5,8%), enquanto a nefropatia diabética isolada apareceu em 5 biópsias (4,8%). 

Foram identificados 2 (1,9%) casos de glomerulonefrite membranoproliferativa  e, com menor frequência, sendo 1 (1,0%) caso de cada, os seguintes diagnósticos:  amiloidose, microangiopatia trombótica, glomerulonefrite pós-infecciosa,  glomerulonefrite proliferativa endocapilar, nefrite intersticial e glomerulopatia por C3. 

Observaram-se ainda apresentações também menos usuais, como doença por  deposição de imunoglobulina monoclonal (MIDD), glomerulonefrite pauci-imune, e  diagnósticos combinados, como glomeruloesclerose nodular diabética associada à  nefropatia por IgA e glomerulonefrite infecciosa associada à nefropatia diabética, cada  um correspondendo a 1% dos casos analisados (Tabela 3). 

Tabela 3 – Diagnósticos anatomopatológicos finais.

Foram identificados 51 casos de nefrite lúpica nas biópsias renais avaliadas,  sendo a glomerulopatia mais prevalente no conjunto da amostra. A distribuição por  gênero evidenciou predomínio expressivo do sexo feminino, que totalizou 39  pacientes (76,5%), ao passo que o sexo masculino representou apenas 12 casos  (23,5%). A média de idade foi de 31,3 anos. 

Em relação às manifestações clínicas e laboratoriais, observou-se alteração  da função renal em 30 pacientes (58,8%), com valor médio de creatinina sérica de 1,3  mg/dL. Na maioria dos pacientes havia relato de proteinúria, com média de excreção  urinária de proteínas em 24 horas de 3,7 g. Hipocomplementemia foi descrita em  50,9% dos casos. 

A classificação histológica segundo a Organização Mundial da Saúde revelou  predomínio da Classe IV (glomerulonefrite proliferativa difusa), identificada em 35  casos (68,6%), seguida pelas sobreposições de classes em 8 pacientes (15,7%). As  classes III (focal) e V (membranosa) foram menos prevalentes, correspondendo a 4  (7,8%) e 2 casos (3,9%), respectivamente. Nenhum paciente apresentou doença  restrita às classes I, II ou VI (Tabela 4).

Tabela 4 – Caracterização epidemiológica, clínica e histopatológica dos casos de nefrite lúpica.

O acervo foi composto por 10 pacientes diagnosticados com nefropatia por IgA.  Observou-se predomínio do sexo feminino, com 7 indivíduos (70%), enquanto o sexo  masculino esteve presente em 3 casos (30%). A média de idade foi de 37,8 anos,  com um desvio padrão de 17,9 anos. 

No que tange ao quadro clínico-laboratorial, 90% dos pacientes apresentaram  alteração da função renal, com uma média de creatinina sérica de 2,2 mg/dL. Edema  esteve presente em metade da amostra, e a hematúria foi relatada em 8 pacientes.  Proteinúria esteve presente em 7 casos (70%), com uma média de excreção urinária  de proteínas de 2,4 g/24h. Não foi identificada hipocomplementemia em nenhum dos  pacientes.

Ademais, quanto à análise histológica, segundo a classificação de Oxford, foi  demonstrado predomínio das lesões de esclerose segmentar (S1) e fibrose túbulo intersticial leve (T1), ambas presentes em 60% dos casos. Proliferação endocapilar  (E1) foi observada em 5 pacientes, enquanto mesangial (M1) esteve presente em  apenas 1 caso. Não foram encontrados casos com T2, C1 ou C2. 

Em relação aos achados de imunofluorescência, IgA, C3, Kappa e Lambda  foram positivos em todos os pacientes. IgM e IgG foram detectados em 7 e 4  pacientes, respectivamente. C1q não foi identificado em nenhum dos casos (Tabela  5). 

Tabela 5 – Caracterização epidemiológica, clínica e histopatológica dos casos de  nefropatia por IgA.

Na presente amostra composta por sete pacientes com diagnóstico de  Glomeruloesclerose Segmentar e Focal (GESF), observou-se uma distribuição  epidemiológica com leve predominância do gênero feminino (57,1%). A média de  idade foi de 42,6 anos, com desvio padrão de 18,6 anos, evidenciando uma  distribuição etária heterogênea. 

Do ponto de vista clínico e laboratorial, todos os pacientes apresentavam  edema e proteinúria, porém em somente 3 dos 7 casos foram registradas as  dosagens, sendo esta quantificada em média de 9,2 g/24h. Alteração da função renal  e hematúria foram observadas em 4 pacientes (57%), enquanto hipocomplementemia  não foi identificada em nenhum caso. A média da creatinina sérica foi de 3,7 mg/dL. 

No que se refere à classificação de Columbia, a variante “sem outras  especificações” foi a mais prevalente, correspondendo a 85,7% dos casos, enquanto  apenas 1 paciente apresentou a variante com lesão em polo tubular (tip lesion). Não  foram observadas as variantes colapsante, celular ou peri-hilar nesta coorte. 

Ademais, na análise de imunofluorescência das amostras, 100% dos pacientes  apresentaram positividade para IgM, com 6 casos positivos para C3, cadeias leves  kappa e lambda. Não houve positividade para depósitos de IgG, IgA, C1q ou  Fibrinogênio (Tabela 6). 

Tabela 6 – Caracterização epidemiológica, clínica e histopatológica dos casos de Glomeruloesclerose Segmentar e Focal.

4. DISCUSSÃO 

A presente amostra foi composta majoritariamente por pacientes jovens, com  predomínio do sexo feminino, apresentando quadro clínico caracterizado  principalmente por proteinúria, hematúria e disfunção renal. Do ponto de vista  histopatológico, observaram-se com maior frequência alterações como  hipercelularidade endocapilar, infiltrado inflamatório glomerular e esclerose  segmentar. Entre os diagnósticos estabelecidos, a nefrite lúpica destacou-se como a entidade mais prevalente, seguida pela nefropatia por IgA, nefropatia membranosa e  glomeruloesclerose segmentar e focal, refletindo um perfil de glomerulopatias  predominantemente de origem inflamatória e imunomediada. 

Em outros estudos nacionais também realizados em centros públicos, como  um levantamento conduzido no Distrito Federal 28 e outro executado em hospital  universitário do Sul do país 29, a faixa etária dos pacientes submetidos à biópsia renal  assemelhou-se à encontrada em nossa amostra, situando-se próximo aos 35–40  anos, com baixa representatividade de indivíduos idosos. 

Quanto ao gênero, tem-se que a predominância do sexo feminino ocorre  sobretudo em diagnósticos de glomerulopatias secundárias, como a nefrite lúpica.  Esse padrão é claramente identificado no Registro Brasileiro de Biópsias Renais, no  qual aproximadamente 85% dos casos de nefrite lúpica ocorreram em mulheres.30 No  entanto, para diagnósticos como nefropatia por IgA e GESF, há tendência de maior  prevalência no sexo masculino, como observado em levantamentos realizados em  Santa Catarina. Assim, a predominância de pacientes do sexo feminino observada  nesta amostra não reflete necessariamente a distribuição nacional de todas as  glomerulopatias.31 

Grande parte dos nossos pacientes apresentava manifestações clínicas e  laboratoriais significativas, como proteinúria em níveis nefróticos, hematúria e  alteração da função renal. Essa tendência também foi observada em estudos  anteriores, que apontaram a síndrome nefrótica como principal indicação de biópsia  renal, seguida por glomerulonefrite rapidamente progressiva e insuficiência renal  aguda ou crônica.28, 29 Esses dados reforçam o padrão assistencial predominante em  serviços públicos de alta complexidade, no qual a biópsia renal ainda é  majoritariamente reservada para pacientes com apresentações sindrômicas clássicas  e de maior gravidade clínica. 

A distribuição dos diagnósticos histopatológicos encontrados em nossa  amostra revela um perfil marcadamente influenciado por glomerulopatias  secundárias, com predominância da nefrite lúpica. Essa característica aproxima  nossos achados daqueles reportados em estudos anteriores29, 32, nos quais a nefrite  lúpica também se destacou como o principal diagnóstico entre as glomerulopatias biopsiadas. No entanto, enquanto nosso levantamento registrou quase metade dos  casos com esse diagnóstico, tais estudos apontaram uma proporção ligeiramente  menor. 

Ao comparar os dados obtidos com registros nacionais mais amplos 33, 34,  observa-se uma discrepância quanto à frequência de GESF. Em levantamentos  multicêntricos de grande porte, a glomeruloesclerose segmentar e focal foi o  diagnóstico mais comum entre as glomerulopatias primárias, representando cerca de  25% dos casos, enquanto nesta amostra essa taxa foi significativamente menor. Tal  diferença pode estar relacionada à tendência de se realizar a biópsia diante de  quadros mais agudos e exuberantes, em detrimento de formas mais indolentes e  progressivas, como a GESF. 

Apesar das diferenças na ordem de prevalência dos diagnósticos  histopatológicos, há uma recorrência na literatura nacional de glomerulopatias como  nefrite lúpica, GESF, nefropatia por IgA e nefropatia membranosa nos registros de  centros de referência em diferentes regiões do Brasil.35 Essa constância reforça o  papel central dessas entidades no cenário das doenças glomerulares no país. 

Na amostra avaliada por esse estudo, o diagnóstico histopatológico mais  recorrente foi o de nefrite lúpica, nos trazendo uma coorte caracterizada por uma faixa  etária jovem com predomínio do sexo feminino. Aplicando um caráter comparativo  com outros estudos desse nicho,36,37 que descrevem achados semelhantes, com  cerca de 90% dos casos ocorrendo em mulheres com idade média inferior a 39 anos,  além de indicarem maior prevalência da doença em pacientes negros, especialmente  entre 15 e 40 anos. 

Em relação à nefropatia por IgA, também foi observada uma predominância  discreta do sexo feminino e média de idade entre a terceira e a quarta décadas,  padrão que condiz com achados recentes que reforçam a variabilidade geográfica e  clínica da doença, mas mantêm a recorrência entre adultos jovens. Estudos  multicêntricos apontam, ainda, maior expressividade diagnóstica entre mulheres  adultas jovens.38,39 

Seguindo na perspectiva comparativa, o grupo com glomerulosclerose  segmentar e focal dessa amostra apresentou marcadores epidemiológicos definidos por discreta prevalência no sexo feminino e por média de idade superior a 40 anos  com um desvio maior de 18 anos, exaltando a heterogeneidade dessas  características. Embora esses achados se assemelhem à literatura no que diz  respeito à idade, divergem quanto à distribuição por sexo, já que há relatos de maior  incidência em homens.40,41 Essa variação pode se dar pelo pequeno número de  biópsias presentes com tal diagnóstico na coorte, não sendo uma representação  completa de toda a variabilidade epidemiológica dessa patologia tão disseminada e  influenciada. 

Os dados obtidos neste estudo apontam para um cenário em que a biópsia  renal de rim nativo tem sido predominantemente realizada em pacientes jovens, com  apresentações clínicas agudas ou subagudas, frequentemente marcadas por  proteinúria significativa, hematúria e elevação da creatinina sérica. Observou-se baixa  representatividade de pacientes idosos e com quadros crônicos, como nefropatia  hipertensiva ou diabética avançada, o que levanta a hipótese de subutilização da  biópsia renal em populações com doença renal crônica (DRC) de evolução lenta ou  não nefrótica. 

Essa tendência pode refletir uma prática clínica ainda centrada na indicação  da biópsia apenas diante de quadros sindrômicos exuberantes, como a síndrome  nefrótica, nefrítica ou insuficiência renal aguda de origem incerta. Tal abordagem,  embora compreensível diante de recursos limitados ou de riscos associados ao  procedimento, pode restringir o diagnóstico precoce de glomerulopatias insidiosas,  com impacto negativo sobre o manejo clínico e o prognóstico a longo prazo dos  pacientes 42,43

A biópsia renal permanece como o padrão-ouro para o diagnóstico etiológico  das doenças glomerulares, especialmente na diferenciação entre glomerulopatias  primárias e secundárias, além de fornecer dados prognósticos e orientar decisões  terapêuticas. Estudos demonstram que a informação histopatológica obtida modifica  a conduta médica em mais de 40% dos casos, influenciando desde o início de  imunossupressores até o ajuste de tratamentos conservadores 44,45. Nesse sentido, a  ampliação criteriosa da indicação da biópsia renal, inclusive em pacientes com  manifestações discretas, pode representar uma estratégia relevante para o diagnóstico precoce e para o planejamento terapêutico individualizado, sobretudo em  centros terciários com estrutura adequada para o procedimento. 

No entanto, o presente estudo apresenta algumas limitações relevantes. Em  primeiro lugar, a análise baseou-se exclusivamente em laudos histopatológicos e  formulários clínicos enviados ao laboratório, o que resultou em ausência ou  incompletude de dados clínico-laboratoriais em parte dos casos, restringindo a  acurácia das correlações clínico-patológicas. Em segundo lugar, não foi realizado o  exame de microscopia eletrônica, o que pode ter comprometido o diagnóstico de  algumas entidades cuja confirmação depende dessa técnica, como a doença de lesão  mínima, doenças com depósitos organizados ou alterações da membrana basal.  Ademais, não foi possível o seguimento longitudinal dos pacientes incluídos,  impossibilitando inferências prognósticas ou avaliação da resposta terapêutica  conforme o diagnóstico histológico. 

5. CONCLUSÃO 

Os achados do estudo reforçam a diversidade etiológica e morfológica das  glomerulopatias, destacando a importância da biópsia renal como ferramenta  diagnóstica essencial no manejo clínico dos pacientes nefropatas. A prevalência de  quadros de disfunção aguda mostra ainda a necessidade de se ampliar a investigação  histopatológica para doenças glomerulares com comprometimento crônico.  

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